A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 6 de 31

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A Neta do Arcediago

Capítulo IV

CONTAGIO.

 

Nem eu nem vós sabemos como nasce o amor. Em physiologia, que é a sciencia do homem physico, não se sabe. A psycologia tambem não diz nada a este respeito. Os romances, que são os mais amplos expositores da materia, não avançam cousa nenhuma ao que está dito desde Labão e Rachel até á neta do arcediago e o filho de Ricarda.

Dizer que o amor é a sensualidade, além de grosseira definição, é falsidade desmentida pela experiencia. Ha um amor que não rasteja nunca no raso estrado das propensões organicas.

Dizer que o amor é uma operação puramente espiritual é um devaneio de visionarios, que trazem sempre as mulheres pelas estrellas, ao mesmo tempo que ellas, gravitando materialmente para o centro do globo, comem e bebem á maneira dos mortaes, e até das divindades do cantor de Achyles.

Eu conheço homens, sem faisca de espirito, que se abrazam tocados pelo amor como o phosphoro em presença do ar. Eis-aqui um phenomeno eminentemente importante. Elle, só, sustenta em these que o amor não tem nada com o corpo nem com o espirito. Eu creio que é um fluido. É pena, porém, que eu não saiba o que é fluido para me dar aqui uns ares pedantescos, ensinando ao leitor, mais ignorante que eu, cousas que, de certo, o não privavam de continuar a comer, e a dormir.

A prova de que o amor não está na cabeça, nem no coração, é que Luiz da Cunha e Faro tinha uma cabeça{35} incapaz de calcular as consequencias d'uma acção boa ou má, e um coração desbaratado, verminoso, apodrecido para nutrir em si uma flôr das que nascem aromatisando a imagem que o amor lá insculpiu com maviosos traços.

Assucena, pelo habito da convivencia, perdêra a estranheza, e familiarisára-se com o moço tão bem aceite e tão desvelado por sua mãe. O sobresenho de seu padrasto com o filho de João da Cunha tornára-lhe a ella mais sympathico o mancebo. Recordando as asperezas do marido de sua mãe, com ella sua enteada, sempre carinhosa e humilde, achava ahi a razão da grosseira indifferença com que Luiz era recebido.

Um dia, acharam-se sósinhos, porque a viscondessa não prevenira o filho de João da Cunha da sua sahida á noite, nem prohibira, por inadvertencia talvez, a sua filha a recepção de visitas.

Os embaraços de Luiz, a sós com ella, eram improprios d'um rapaz de sala, imperturbavel fallador em todas as conjuncturas de que o homem se salva fallando muito, e prompto improvisador de palavras que não deixam nunca descahir a conversação nas trivialidades aborrecidas.

Luiz da Cunha imaginou que amava Assucena; e, só com ella, deduziu do seu acanhamento que a amava muito. Assucena já não córava na presença de Luiz da Cunha; e, só com elle, percebeu, no ardor da face, que se estava denunciando.

Era necessario dizer alguma cousa, esgotadas as primeiras palavras d'um cumprimento, cuja elasticidade se não descobriu ainda.

—Está v. ex.ª em vesperas de recolher-se ás Commendadeiras... —disse Luiz, cuidando que tinha acertado com a vereda por onde, mais facilmente, chegaria a um vasto assumpto.

—É verdade...—respondeu ella com mimo e tristeza—D'amanhã a quinze dias...

—Tão cêdo!... E está desejosa de se vêr lá, não é assim?

—Desejosa, não. Eu antes queria estar com minha mãe...

—E ella não lhe faz a vontade?

—Por vontade d'ella nunca eu sahiria de casa; mas{36} meu padrasto, não sei porque, acha que eu sou aqui de mais, e mostra-me sempre um modo aborrecido, que me incommoda, e de certo ha de incommodar minha boa mãe.

—O senhor visconde tem essa singularidade. Por calculo ou por genio, parece que toda a gente o incommoda, que todos lhe são pezados e suspeitos. Eu tenho sido bem mimoseado com os seus arremêssos, como v. ex.ª terá observado. Se encontro francas as portas d'esta casa, favor é que devo á senhora viscondessa, minha amiga desde a infancia, mais que minha mãe, porque uma mãe deixa muitas vezes perder um filho, e esta nobre senhora, este anjo que tem sobre mim uma influencia celeste, salvou-me.

—Tenho reparado que ella é muito sua amiga. Se v. ex.ª fosse meu irmão, de certo minha mãe lhe não daria mais estima...

—E porque me não faria Deus seu irmão?—atalhou Luiz com ar infantil, e meiguice de sorriso. Assucena baixou os olhos, em silencio, tambem desabrochando um ligeiro sorriso, no nacar dos labios, que pouco sobresahia á côr purpurina do pejo.

—Esta pergunta—proseguiu elle, com affectuosa tristeza—fez-lhe uma impressão muito diversa do que eu pensava! V. ex.ª córa, e a pergunta não é das que ferem a susceptibilidade do coração. Magoou-a o meu innocente desejo de ser seu irmão?

—Não me magoou...

—Pois então diga-me o que sentiu para eu poder convencer-me de que ainda lhe não disse uma só palavra indiscreta...

—Não me magoou, senhor Luiz da Cunha... já lh'o disse... O que eu senti... não foi pezar, nem alegria... Fez-me impressão essa pergunta, por que...

—Diga, não se arrependa... o seu coração ia fallar...

—Porque muitas vezes tenho perguntado a mim mesma se não seria muito bom que...

—Eu fosse seu irmão?

—É verdade...

—E córa por isso? Um desejo tão puro e tão santo diz-se, e não se esconde...{37}

—Dizer-se... nem a toda a gente. Eu disse-o a minha mãe, e ella perguntou-me cousas estranhas para mim... Se não fosse ella, isto que lhe disse com difficuldade, não teria duvida em dizêl-o ás minhas mestras do collegio, por que não sei onde está o mal d'este desejo.

—Não tem nenhum... Diga-me, senhora D. Assucena, sua mãe prohibiu-a de manifestar o bom conceito que v. ex.ª faz de mim?

—Não, senhor... Só me disse que me não habituasse a pensar no senhor Luiz da Cunha, por que o coração em se habituando a fantasias, custa-lhe muito depois a desfazer-se d'ellas quando vem a realidade. E acho que minha mãe tem razão. V. ex.ª não póde ser meu irmão.

—Mas amigo, mais que irmão, não poderei tambem?

—Amigo... sim...—Assucena córou de novo, e balbuciou estas duas palavras. Luiz da Cunha viu-a tremer d'aquella quasi imperceptivel oscillação nervosa, que denuncia o antagonismo da natureza com a arte, a força expansiva do espirito com os estorvos compressores da educação.

—Pois então... sejamos—continuou elle—sejamos o mais que podêmos ser... muito amigos, amigos por toda a vida, sim?... Por que me não responde? Receia que eu algum dia, se se esquecer de mim, a responsabilise pela promessa? Tambem não serei capaz de mortifical-a, e, se o fosse, não poderia chamar-me seu amigo. Quando aconteça que a minha amizade lhe seja pezada...

—Pezada?!

—Sim; quando se dêem motivos fortes para que me esqueça...

—Que motivos?!

—Se lhe derem um marido...

Assucena levou instinctivamente o lenço aos labios, como para esconder o rubor que lhe assomava.

N'este momento, entrou João da Cunha, e surprendeu ainda o escarlate, que destacava na tez trigueira de Assucena. Experimentado, comprehendeu o caso, que não tinha nada de mysterioso senão o facto de se acharem sósinhos seu filho e a filha da viscondessa. João da Cunha sentiu o abalo prophetico d'alguma desgraça. A anciedade não lhe concedia delongas. Como Assucena pediu{38} licença para retirar-se, João da Cunha perguntou ao filho, ainda absorto n'um silencio muito significativo para o pae:

—Como venho encontrar-te sósinho com Assucena?

—Entrei n'esta sala, e encontrei-a a receber-me. Se soubesse que vinha encontral-a sósinha, creia v. ex.ª que eu não subiria.

—Tu comprehendes, Luiz, quanto seria melindroso para a nossa honra um namoro com a filha da pessoa que tão cara nos é, e tanto por ti se tem sacrificado?

—Comprehendo, meu pae. E d'onde é que v. ex.ª deduz que eu namore Assucena?

—Surprendi-a d'um modo que revelava emoções que não são as d'uma singela conversação.

—Acabava eu de pedir-lhe que fosse minha amiga e amiga como póde sêl-o uma irmã.

—Luiz, esses rogos não se fazem a uma mulher de dezoito annos. Irmãos só os faz a natureza. A arte, que approxima o homem da mulher com laços fraternaes, é uma ficção. Os teus amores tem sido todos faceis, d'aquelles que a seducção não precisa mascarar com um titulo impostor; e por isso não sabes ainda prêver as consequencias d'esse improvisado parentesco. Eu tive muitas irmãs, como esta que tu adoptas, e todas ellas quebraram o vinculo da fraternidade, quebrando primeiro pela honra.

—Meu pae cuida que falla a seu filho dous mezes antes. Eu devo á Providencia um novo coração.

—Quero, devo acredital-o: Deus me livre de pensar o contrario. Mas é preciso que meu filho saiba muitas cousas que não aprendeu na vertigem da dissolução em que viveu onze annos. Quando o coração é nobre, tambem ha paixões que principiam nobremente, e acabam pela ignominia como as outras que começam pela infamia. O amor violento, o amor que deshonra, o amor que faz victimas, não é o infame privilegio dos homens pervertidos. Os de nobre coração tambem deshonram, tambem pervertem, e fazem victimas. O avarento póde viver uma longa existencia sem um remorso, sem roubar o pão do seu semelhante, logo que elle alimente a sua sede de ouro com o seu proprio suor. O general, coberto de condecorações,{39} póde ter sido um barbaro nas batalhas, matando inermes, e incendiando choupanas que encerram velhos e creanças. É um algôz condecorado, ao qual Deus não pergunta o que fez de seu irmão; é uma consciencia tranquilla de remorsos, como a lamina da sua espada está limpa de sangue. O avarento do ouro, e da gloria caminham ambos por estrada desempedida: um legalisa a posse do ouro com a astucia e com o trabalho; o outro, com o poder que lhe foi conferido, e com a bravura sanguinaria. Na sociedade ha um homem que vive tambem de ambições, que aspira tambem ás glorias; mas glorias e ambições do coração, as que elle julga mais innocentes, as que a sociedade lhe não crimina no seu principio, as que por fim se lhe convertem em cilicios de remorso, em apertos de coração, e em tedio de si proprio, no declinar das forças physicas para a sepultura das chimeras. Este homem fui eu, e és tu. O coração perde-nos, Luiz. O homem que se dá exclusivamente ao amor, cuida que vai sobre alcatifas de flôres, e resvala n'um abysmo. Principia, com o proposito de ser honrado, um commercio de sensações brandas; e acaba enfastiado d'ellas, ancioso d'outras que não depara. Depois, como indemnisação do que perdeu, encontra o desprêso dos outros; como companhia das suas horas solitarias, tem a imagem d'uma pobre mulher que se levanta do charco, onde elle a lançou, agarrando-se-lhe aos cabellos; e, como refrigerio das sêdes que o calcinaram na mocidade, encontra na velhice... um filho, que lhe encrava uma corôa de espinhos sobre o stigma do crime com que a sociedade o manda á presença de Deus...

—Meu pae!—atalhou Luiz pasmado da desordenada eloquencia. —Eu não sei o que fiz para merecer-lhe admoestações tão sevéras!

—Isto não são admoestações, Luiz... Não sei o que disse... Lembra-me que o meu fim era uma cousa muito importante... Não dediques uma affeição perigosa á filha da viscondessa. Pára aqui. Ama uma mulher, que possas fazer tua esposa, ou não ames nenhuma, por que eu sei que o teu amor tem o contagio da morte...

Assucena entrou na sala, desculpando-se da demora, com uma invenção mal fingida. Se quizesse ser verdadeira,{40} diria que estivera no seu quarto, saboreando, sósinha, uma felicidade que principiava por lagrimas.

 

As confusas recriminações de João da Cunha não cahiram em coração inerte. Luiz nunca respeitára tanto seu pae. Supposto lhe não comprehendesse as comparações do ambicioso e do general com os affectos do coração, achára uma dôr sublime n'essa desordem, um gemido de remorso n'essa condemnação a si proprio, n'essa tocante ideia d'uma corôa de espinhos, cravada pelo filho, na fronte de seu pae, onde a sociedade gravára o lema da deshonra.

Em casa da viscondessa, Luiz da Cunha faltou algumas noites, depois da ultima em que o vimos, sem grande esforço, erguer o véo do coração de Assucena.

A causa da falta extraordinaria, e sensivel para a viscondessa, era o incommodo de João da Cunha, que periodicamente soffria accessos de sangue á cabeça, ameaços de congestão cerebral, que o debilitam pelas repetidas sangrias, seu allivio unico. Luiz passava os dias e as noites, ao pé de seu pae, pela primeira vez. Em tempos de libertinagem, as doenças do pae eram indifferentes ao filho, e até a formalidade d'um cumprimento lhe era pezada.

—Que differença!—dizia D. Rosa a sua filha—Quem diria que Luiz da Cunha passaria as noites ao pé de seu pae! Onde estava um nobre coração! Á vista d'isto, ninguem deve perder a esperança de salvar um homem abandonado de todos! A sociedade é a que atira o desgraçado á miseria...

—Á miseria!—atalhou Assucena.

—Sim, minha filha. O desprêso com que são repellidos os infelizes, que não podem ser bons sem os conselhos d'um bom amigo, é muitas vezes a causa de se perderem de todo. O mau homem cuida que se vinga redobrando em malvadez. Deixam-no sósinho, e elle precisa de viver em sociedade. Procura a unica que o recebe, a dos abandonados como elle. Ahi encontra irmãos mais perdidos que elle, e acha sempre um amigo. Dizia teu pae, minha filha, que o ultimo amigo do criminoso era o carrasco... Não entendes esta linguagem, Assucena...{41} Oxalá que nunca recordes palavras de tua mãe, ditas como um desafogo a quem lh'as não entende... Foi talvez com ellas que eu salvei Luiz da Cunha... Servem só para desgraçados... e tu, filha, és feliz, és innocente, és um anjo.

—Elle é ainda desgraçado?

—Póde ser feliz...

—Eu queria que elle o fosse; mas é tão triste... Elle era assim d'antes?

—Não. Escarnecia de tudo, convertia tudo em galhofa respondia ás minhas admoestações com agradecimentos ironicos, e contava-me os seus desatinos como quem conta acções meritorias. O primeiro dia em que lhe ouvi queixar-se da sua má estrella, foi no dia em que te viu...

—Em que me viu!?...—atalhou Assucena, sem poder conter as palavras, que vinham do coração sobresaltado.

—Porque me fazes esse reparo tão admirada?!

—Admirada... não!... É que...

—Não te escondas aos olhos de tua mãe, que é inutil, minha filha. Leio em todos os corações, e nunca se me escondeu um só pensamento do teu... Amas Luiz da Cunha?

—Minha mãe!...—exclamou ella, tomando-lhe carinhosamente a mão, e fazendo um aceno negativo.

—Não te assustes, Assucena. Eu não crimino essa affeição, que é muito natural. Se o tivesses conhecido, ha dous mezes, de certo o não amarias. Hoje... era quasi impossivel que o não amasses... Luiz tem alguma cousa fatal, que o fez querido a muitas mulheres, que se envergonhavam de lhe apertar a mão em publico. Hoje poucas seriam as que lhe recusassem affectos. Mas olha, Assucena... tua mãe vai fallar-te como todas as mais deviam fallar a uma filha que sáe d'um collegio aos dezoito annos. Se tivesses vivido cá fóra, não era necessario dizer-te que só ha uma posição que te convém com Luiz da Cunha. Se não fôres sua esposa, que poderás tu ser para elle?

—Sua irmã.

—Não ha irmãs pelo coração, minha filha. Quererias ser sua esposa?... Responde, Assucena... Faz de conta que fallas com a tua unica amiga. Agora não sou tua mãe,{42} visto que é de uma mãe que sua filha de ordinario se esconde. Querias ser sua esposa?

—Queria...

—Que tristes cousas vou dizer-te... Teu padrasto não te daria uma moeda de cobre como dote, e eu não posso tambem dar-t'a porque sou pobre como tu. Luiz da Cunha não tem patrimonio, não póde succeder na herança de seu pae, é pobre como ambas nós, logo que seu pae lhe morra. Vês o que é o mundo? Um casamento entre duas pessoas, habituadas a não proverem com o trabalho ás suas precisões, é uma desgraça. Tu serias muito infeliz, quando teu marido te dissesse «não temos pão.» Minha filha, eu já soube o que é não ter pão. Já desfiz um meu vestido para que tu não andasses nua. Já andei sem lenço na cabeça para que tu não tivesses fome. Já me ajoelhei comtigo nos braços, pedindo a Deus que nos levasse ambas, antes que tivessemos de morrer de fome entre quatro paredes. A amiga que nos valeu a ambas, é hoje uma desgraçada, não de fortuna, porque eu privo-me de muito para que ella tenha tudo. É desgraçada... pobre Maria Elisa... porque se deixou arrastar pelos cabellos onde a leva o mau anjo das suas paixões... Coitadinha! no que deu aquella mulher!...

—Não chore assim, minha mãe...

—Deixa-me chorar... eu preciso de chorar alguma vez na tua presença... São mais dolorosas as lagrimas, sem testemunhas. Preciso d'uma confidente, e, se o não és tu, quem o será? Nos salões é preciso rir sempre. Com meu marido, é necessario ser o que elle é... Comtigo posso ser o que sou... Minha filha, tua mãe vai pedir-te um favor...

—Favor!... que quer, minha querida mãe?

—Esquece Luiz da Cunha.

—Esquecêl-o...

—Se não pódes esquecêl-o... resigna-te, não alimentes esperanças, não lh'as dês a elle...

—Isso sim... isso posso fazêl-o... Quer minha mãe que eu me recolha já hoje ao convento?

—Nem tanto, meu anjo, nem tanto!... Irás quando tens de ir...

—Mas eu não devo vêl-o mais...{43}

—Porque não? Assim o amas?!

—Pensei que poderia vêl-o todos os dias. Não queria senão ser sua irmã. Diz a mãe que não posso... não o serei; mas não tenho coragem... não sei como hei de dizer-lhe que o não sou, porque elle ha de perguntar-me a razão porque não sou sua irmã, sua amiga, e eu não sei o que hei de responder-lhe.

—Mas... prometteste-lhe tu essa estima de irmã?... Córas!... responde, Assucena.

—Prometti...

—Quando?!

—Uma noite que a mãe sahiu, elle veio adiante do pae...

—Porque me não disseste esse encontro, se elle te pareceu innocente?

Assucena baixou, corrida, os olhos, e limpou duas lagrimas, que lhe tremiam nas pestanas. Ergueu-se impetuosamente, e escondeu a face no seio de sua mãe, que chorava com ella.

—Foram tardias todas as minhas reflexões, minha filha?—disse a mãe com a voz cortada, procurando vêr a face de Assucena.

—Não foram... Eu serei o que minha mãe quizer que eu seja; mas não sei porque devo maltratar um homem, que lhe merece tantas provas de estima.

—Eu não te digo que o maltrates...

—Se elle me procurar, não lhe fallo.

—E porque não?

—Porque... seria peor... seria enganal-o, porque não posso esquecêl-o.

—Desde quando o amas, minha filha?

—Tinha eu dez annos, e elle dezesete...

—Oh filha!—interrompeu a mãe, sorrindo—isso não era amor!

—Não sei o que era... era amizade... nunca o esqueci... E quando o vi, depois de oito annos, vi tudo que me era mais caro na vida, depois de minha mãe...

—E disseste-lh'o?

—Nunca... mas, se elle m'o perguntasse, dizia-lh'o. A razão não me crimina d'este affecto de irmã...

—Quem sabe, filha!... Talvez, mais tarde... outra{44} razão, a da experiencia, venha desmentir a que te falla hoje...

—Penso que não... Hei de seguir sempre os conselhos de minha mãe. Farei tudo o que posso. Se é possivel esquecêl-o, empregarei todos os esforços para isso. Diga-me a mãe quaes elles são.

—Terrivel pergunta!—disse a filha do arcediago, no fundo da sua consciencia.

—Não me responde, minha mãe?

—Não o evites de todo... Recebe-o, se elle te visitar... Entretanto, póde ser que Deus permitta um milagre.

—Esquecêl-o?

—Esquecêl-o, ou poder ser sua mulher. Não é esta a intenção de Luiz da Cunha?

—Não sei. Não temos tido a liberdade de fallar n'essas cousas. Se elle me tivesse fallado n'isso, eu dizia-lhe que seria sua esposa, sem me lembrar que é necessario um dote.

—E sem o consentimento de tua mãe?

—Minha mãe quer a minha felicidade...

—Confia-te a mim, Assucena... eu continúo a ser a tua amiga. Hei de fallar hoje com teu padrasto... Agora mesmo que elle ahi vem... Retira-te.

O visconde de Bacellar entrava, com a penna na orelha, e uma carta aberta nas mãos.

—Rosa—disse elle, franzindo a testa, e tirando os oculos—lê essa carta. É chegada agora do Porto. Basta que leias as ultimas linhas. Senão, eu t'as leio:

«Em quanto a Maria Elisa, meu caro visconde, sinto dizer-lhe que está uma perdida. Ultimamente adquiriu um amante que lhe consome a generosa mesada que a senhora viscondessa lhe dá. Acho prodigalidade despender cincoenta mil reis cada mez, para sustentar dous viciosos. Ella tafula, como se tivesse doze contos de reis de renda. Os cinco mil cruzados, que sua senhora lhe mandou ha um anno, dissipou-os em menos de tres mezes. Não sei, ainda assim, como ella póde fazer tanto com cincoenta mil reis mensaes. Disseram-me hoje que ella recebia outros cincoenta; não posso colligir d'onde venham. Os meus respeitos &c. &c.» {45}

 

Rosa Guilhermina estava pallida e fria. As ultimas linhas d'esta carta eram a denuncia do emprego que ella dava ás suas economias. O filho da senhora Anna Canastreira, lida a carta, passeou na sala, dobrando-a, soprando, limpando os oculos, e batendo com a caixa do rapé na palma da mão esquerda.

—Que dizes tu a isto, Rosa?

—Que hei de eu dizer, José! que Maria Elisa deve muito a Deus, se a levar d'este mundo.

—Mas, em quanto Deus a não leva, é preciso pôr cobro a isto. Sabes a maneira como?

—Diz, meu amigo.

—Levantar-lhe a cesta. Os beneficios que lhe deves estão pagos com usura. Em quanto esteve comnosco foi tratada como rainha. Deu-lhe o diabo da asneira na cabeça, e fez tropellias que me obrigaram a sahir do Porto. Sahiu da companhia do S*** C***, déste-lhe uma casa mobilada de tudo, e uma mesada que sustentava uma familia. Vendeu casa e moveis, e andou de amante em amante, até que lhe déste cinco mil cruzados para ella cemprar uma quinta em Santo Thyrso. Qual quinta nem qual carapuça! Gastou os cinco mil cruzados, gasta os cincoenta mil reis, e outros cincoenta, que naturalmente são remettidos por ti. Não te ralho Rosa: o mal feito não tem remedio; mas reprovo d'hoje em diante o desfalque da nossa casa, para trazer no galarim uma mulher sem vergonha, uma libertina de quarenta annos. Se lhe queres continuar a mesada, manda-a entrar n'um convento, onde a não conheçam, e sustenta-a lá. Assim ha de dizer-se que o meu dinheiro serve d'alimentar mulheres perdidas, e vadias. Não estou por isso.

—Eu pensarei no que se ha de fazer: entretanto peço-te que lhe não suspendas a mesada. Faz isto que te supplíca tua mulher.

—Farei; mas tu não te lembras de fazer economias para essa rapariga que não tem nada de seu?

—Qual rapariga? minha filha?

—Pois quem?

—É a respeito d'ella que eu desejava muito alguns momentos de attenção. Tenho pensado no futuro d'esta menina.{46}

—Pois já não queres mettêl-a no convento?

—Quero; mas o convento, sem profissão, não é futuro. Diz-me, meu amigo: tu dás um dote a minha filha?

—É a quarta vez que me fazes essa pergunta, e eu respondo o que já respondi. A filha da viscondessa de Bacellar, das duas uma: ha de casar com grande dote, ou não casar. O grande dote não o dou; com pequeno dote não serve senão a algum amanuense de tabellião. Pediu-t'a alguem em casamento?

—Não; mas se tu quizesses, poderiamos casal-a, talvez, com...

—Com quem?

—Com Luiz da Cunha.

—Estás tôla! Deus te livre d'essa asneira! Pois tu acreditas que elle valha hoje mais do que valia ha tres mezes?!

—Acredito: não tem nada do antigo homem.

—Não terá; mas pelo sim, pelo não, sempre te vou dizendo que para tal casamento não sáe um pataco da minha gaveta. Tomára eu o que por lá anda por casa do João da Cunha! Cara me tem custado a amizade do tal fidalgo! Já não tem bens livres que cheguem para o pagamento de dez mil e tantos cruzados que me deve, afóra a fiança que eu lhe prestei para um titulo de divida que o extravagante do filho assignou de um conto de reis. Tem juizo, Rosa. Não te deixes enganar com apparencias. Alli onde o vês com ares de convertido, tudo aquillo é hypocrisia. Agora vou entendendo a razão de tal mudança. Queria um dote, e uma mulher. O dote gastava-o com a tal dissoluta que levava ao theatro, ou com outra que tal; e a mulher, qualquer dia vinha, com dous ponta-pés, pedir-te que lhe désses um bocado de pão. Ás vezes pareces tão esperta... e cáes em cada alhada, que nem uma cosinheira! Querem vêr que a rapariga está namorada com o senhor Luizinho?!

—Basta, José... Não fallemos mais n'este assumpto. Fiz-te uma pergunta muito simples, e respondeste mais do que era necessario. Ficamos entendidos. Posso contar com a subsistencia de Assucena no convento?

—Paguei hoje seiscentos mil reis de entrada, e estabeleci-lhe seis moedas por mez, e uma creada de cozinha, e{47} outra do quarto. Se é necessario mais alguma cousa, é pedir por bôca, em quanto está aberto o cofre.

—Não é preciso mais nada, meu amigo.

—Poucos padrastos fazem outro tanto...

—Tens razão, José.