A Neta do Arcediago
Perdido Sem Redempção
Quando Luiz da Cunha era conduzido por dous soldados á administração do bairro, encontrou Liberata n'uma sege, e respondeu com um gesto de cabeça á rasgada cortezia que ella lhe fizera.
A sege de Liberata retrocedêra, e vinha a passo lento seguindo Luiz da Cunha. Quando os soldados pararam á porta da auctoridade, e Luiz, sem reparar na sege, desapparecêra no interior do páteo, Liberata acenou a um dos soldados, que se chegou á portinhola. Perguntou por que fôra prêso aquelle sujeito, e o soldado informou-a com a minuciosidade que podia. Pagou com um cruzado novo o pequeno serviço do informador, e pediu-lhe que subisse á sala da administração, e dissesse ao ouvido do prêso que uma pessoa, que elle encontrára, em uma sege, lhe mandava offerecer não só dinheiro, mas até a influencia dos seus amigos, se com isso era possivel a sua immediata soltura.
O soldado não conseguira fallar ao prêso; mas soubera de um official de diligencias, seu conhecido, que o tal sujeito só podia ser solto com fiança, e não estava presente ninguem que o afiançasse.
Liberata deu ordens promptas ao boleeiro, e a sege, a grande galope, correu algumas ruas, e parou á porta de um conselheiro, official-maior d'uma secretaria de estado. S. ex.ª não recolhêra ainda da secretaria. A protectora de Luiz da Cunha mandou tocar para o Terreiro do{67} Paço, e fez parar a sua sege a par da do conselheiro. Chamou um correio de ministro, que passeava debaixo das arcadas, e mandou-o entregar ao official-maior o seu porte-monnaie. O conselheiro veio rapidamente á portinhola. Trocou algumas palavras com Liberata, entrou na sua sege, e partiu para a administração do bairro.
Perguntou por Luiz da Cunha; disseram-lhe que fôra remettido ao juiz criminal. Foi ao juiz criminal, quando o prêso acabava de sahir para o Limoeiro. Declarou o amante de Liberata que vinha afiançal-o. O juiz aceitou respeitosamente a fiança, e prometteu mandal-o soltar o mais depressa que se lavrasse o auto. Sahia, porém, o conselheiro, quando uma carta de uma notabilidade do Supremo Tribunal recommendava ao juiz que não aceitasse fiança, paliando quanto podésse a soltura inconvenientissima de Luiz da Cunha, que ameaçava a existencia do visconde de Bacellar.
Liberata, com a certeza da soltura, dada pelo amante, foi á cadeia, procurou Luiz da Cunha que passeava ainda na sala do carcereiro, e contou-lhe rasgadamente os passos que déra. O preso agradeceu-lh'os com aviltante submissão, não sentindo a vergonha de ser unicamente protegido por tal mulher. Sem o recriminar, a amante do conselheiro perguntou-lhe, sorrindo, se melhorára de fortuna, despedindo-a do seu serviço. Luiz da Cunha teve a sinceridade de confessar que tinha saudades do tempo em que vivêra com ella. Liberata disse que tambem as tinha, e deu como prova não ter sido fiel a nenhum dos seus amantes, depois d'elle, porque não encontrára rapaz tão perfeito, nem tão despreoccupado das asneiras sociaes, como Luiz da Cunha.
Recordaram scenas da sua vida de dous annos, dando tempo a que viesse a ordem de soltura. Passaram duas horas, e, como ella não chegasse, Liberata impacientou-se, e sahiu, dizendo que, se entretanto a ordem viesse, e elle quizesse fazer-lhe uma visita, depois da meia noite, a procurasse na rua de S. Bento, n.º 46.
Luiz prometteu-lhe a suspirada visita, e apertou-lhe com estremecida meiguice a mão. Em quanto lhe dava a mão direita, Liberata lançava com a esquerda no chapéo de Luiz o porte-monnaie. Sahiu.{68}
Foi d'uma corrida a casa do conselheiro; obrigou-o a sahir, a vencer todos os obstaculos que redobraram desde que o proprio visconde peitára o juiz, e, taes elles eram, que só, no dia immediato á tarde, Luiz da Cunha foi solto, e o conselheiro veio allegar a Liberata trabalhosos serviços, que ella pagou com um beijo.
Imaginam que Luiz da Cunha, apenas livre, nem tempo tem de procurar uma sege, e corre á rua do Principe, onde o espera a atormentada Assucena?
Não foi assim. Sahiu placidamente da cadeia. Desceu á primeira estação de seges no Terreiro do Paço. Montou a que lhe pareceu mais bem servida de parelha. Foi jantar ao Matta, no caes do Sodré. Subiu pela rua do Alecrim. Tomou café no Marrare. Passou na rua de S. Bento para vêr a casa n.º 46; cortejou Liberata que, por dentro das janellas, lhe fitava um pequeno oculo de theatro. Foi ao Campo Grande saber como seu pae estava. Entristeceu-se um momento quando lhe disseram que passára peor, depois que um imprudente lhe dissera que seu filho batêra no visconde de Bacellar. Não apeou para lhe não irritar os padecimentos. Veio para o theatro de S. Carlos, e reparou que o encaravam de lado, voltando-lhe as costas, se elle os encarava de frente. Achou-se sósinho no salão, e sósinho no banco em que se sentára. Depois da meia noite, despediu o boleeiro defronte do palacio das côrtes, e seguiu a rua de S. Bento até á casa n.º 46.
Dos moveis que Luiz da Cunha deixára á sua amante, nem uma cadeira existia. A primeira sala, forrada de ricos tapetes, opulenta de luxo e mau gosto não invejava o apparato da garrida decoração das salas d'um brazileiro de torna-viagem, que vos deslumbra com o seu baazar de porcellanas, de relogios, de cães e patos de vidro, de conchas variegadas, de ricas encadernações em marroquim de livros nunca abertos, de globos de luzente cobre, de coxins amarellos e vermelhos.
A sala de Liberata tinha tudo isto em prodiga profusão. Um americano, antecessor do conselheiro, e successor do capitão de marinha ingleza, tinha sido o intelligente coordenador d'aquella miscellanea em que despendera contos de reis, pequena paga para os carinhos de sua{69} amante. Diziam que Liberata seria esposa d'esse americano, se o consul despoticamente o não mandasse prêso a bordo d'uma embarcação que o levou a seu pae, desfalcado em boa parte da sua fortuna.
O conselheiro, que substituira o americano, sustentava o luxo de Liberata com uma farta mesada, de que ella tirava para todos os seus caprichos, podendo montar sege, sua mais querida ambição.
Luiz da Cunha contemplava estupidamente aquella magnificencia, que não era nada comparando-a á sumptuosidade d'alcova, onde foi recebido, como era dever que o fosse, o unico homem que a fizera conter-se nos honestos limites d'uma fiel amante.
—Achas que estou muito rica?—disse Liberata, puxando-lhe com meiguice uma orelha.
—As apparencias são d'isso...
—Suppunhas que nenhum outro homem saberia dar-me valor?
—Eu bem sabia que te não faltariam adoradores, Liberata. Para que eu me separasse de ti, foi preciso que eu entrasse n'uma época de demencia, que me dura ha quatro mezes.
—Que tens tu feito ha quatro mezes?
—Tenho envelhecido quarenta annos. Quiz-me oppôr á natureza, fazendo-me pessoa de bem, e perdi o tempo. Acabo de conhecer que era mais feliz quando a minha sociedade eras tu, e os meus cavallos, palavra de honra!
—Com que então eu e os teus cavallos! O diacho da mistura não é nada amavel! Mas conta-me cá... disse-me o conselheiro...
—Qual conselheiro?
—O actual... não sabes quem ficou por teu fiador?
—Pois o conselheiro é o teu amante?
—Excellente creatura... Pois foi elle que me disse que uma enteada do visconde de Bacellar fugira das commendadeiras para casar comtigo. Já casaste?
—Não, nem caso.
—Nem casas? então, tenho mais uma companheira...
Luiz sentiu um ligeiro toque de pundonor, ouvindo tamanho ultraje a Assucena, que n'este momento se lhe{70} afigurou de joelhos, pedindo a Deus a morte. Esta visão desvaneceu-se como o raio instantaneo de sol em ceo revolto de nuvens escuras.
—Diz-me cá, Luizinho—continuou Liberata, lançando-lhe o braço direito sobre o hombro, e brincando-lhe com os anneis do longo cabello—queres ser outra vez meu?
—É impossivel.
—Porque? Tens lá a tua fidalga das commendadeiras... Já me não lembrava...
—Não é por isso.
—Pois então?
—Não tenho dinheiro... Aquelle manancial das joias de minha mãe esgotou-se; meu pae está doudo, e não me conhece...
—E é por isso que querias casar com a filha do visconde?
—Adivinhaste; mas o visconde não lhe dá nada, e eu nada tenho que lhe dar como amante, e muito menos como mulher.
—Queres tu uma cousa? Não digas a ninguem que és meu amante, e não se te dê que o conselheiro o seja. Queres?
—Não; porque terias de me sustentar. A mim o que me convém é sahir já já de Portugal.
—Porque?
—Quero vêr se a pequena se recolhe a casa do padrasto, e preciso na Africa ou no Brazil mudar de nome, e arranjar uma fortuna.
—És tolo! Qual Africa nem qual Brazil! A pequena, em tu lhe dizendo que nada feito, toma o rumo de casa, e a mãe ha de recebêl-a, se a não quizer vêr onde vai parar muita gente que tambem foi honrada. Tu mettes-te em casa de teu pae, de dia, e, passada a meia noite, vens para a tua Liberata. Em quanto eu tiver um annel, tens tu um casaco, em se acabando, fizemos trinta annos á justa. Has de crêr que sou tua amiga apesar das tuas ingratidões? Deu-me para aqui! Sympathisei comtigo, e se fosse rainha fazia-te rei. Ora aqui está. Nada de tristezas. Vamos cear, que já ouvi a campainha tres vezes. Inda cá tenho os criados que me déste, e não são capazes{71} de dar um pio. Quando souberam que tu cá vinhas hoje, até dançaram a gôta... Tu ficas sendo de hoje em diante o dono d'esta casa, e o conselheiro é o nosso mordomo, sim?
Luiz da Cunha enlaçou o braço pelo de Liberata, que lhe cingia a cintura, e entrou na sala de jantar, onde scintillavam os crystaes variegados, pequena parte d'uma soberba copa. A cêa era servida por um criado, de gravata e collête branco. Luiz respondeu com um abraço familiar á cortezia affectuosa do seu antigo escudeiro de quarto.
O et cetera é a palavra latina que eu conheço mais util nos usos sociaes. Com um et cetera, ou dous, fica historiada esta noite; mas ainda um terceiro de certo não diria que Luiz da Cunha no dia seguinte, quando se approximava a matinal visita do conselheiro, depois de almoço, recolheu-se ao quarto do criado, onde escreveu a seguinte carta: