A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 10 de 31

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A Neta do Arcediago

Capítulo VII

—Vou... se me concedem esse favor—respondeu sem titubear Assucena.

—Pois então, menina—atalhou Perpetua—cubra o meu chaile, ou vá buscar o seu, que está muito frio na escada.

—Eu não posso ter mais frio...—disse a filha da viscondessa.

—Nem mais febre—tornou o conego, apalpando-lhe as mãos com singular carinho—Ora venha, venha comnosco. Anda lá com ella adiante, Perpetua, que eu fecho a porta.

Perpetua assentou Assucena no seu esteirão; embrulhou-a em cobertores; e deu-lhe uma chavena de café com um golo de genebra, por conselho de seu irmão. Depois sentou-se a par com ella, que não cessava de tiritar, Bernabé veio, melhor forrado contra o frio, sentar-se ao pé d'ellas. As lagrimas de Assucena eram inesgotaveis. Perpetua queria consolar, mas não conhecia a dôr. O conego, fixando alguns minutos em silencio o semblante da pobre menina, fez a sua irmã um gesto significativo, tomou com paternal ternura as mãos abrazadas de Assucena, e perguntou-lhe:

—Minha filha, porque soffre? Abra o seu coração. Se lhe não podérmos ser uteis, poderemos ao menos conseguir que o seu soffrimento diminua respirando pelas palavras. Quem sabe se Deus nos approximou? Diga o que tem: falla com um padre, que é seu pae espiritual.{66}

 

VII.