A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 23 de 31

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A Neta do Arcediago

Logica do Infortunio.

 

 

Luiz da Cunha aceitára a proposta, a ceia, e a escrava. Com grande espanto de Proença, fizera a sua aposentadoria em casa do mulato, explicando esta nascente amizade por certo mysterio, que elle não dizia, porque não soubera inventál-o. Proença, suspeitando as intenções de Cunha, porque lhe não eram estranhos os boatos que corriam muito deshonrosos para o mulato, deu-se pressa em sahir de Buenos-Ayres com a sua carregação de cortumes para a Bahia.

Poucos dias depois, desappareceram Luiz da Cunha e o seu recente amigo. Das praias de S. Thiago del Estero, sobre o Athlantico, levantaram ferro dois navios com aspecto mercantil, içando a bandeira da republica argentina. Costearam a provincia do Rio-da-Prata até ao Paraguay. Ahi fizeram-se ao largo, e arrearam bandeiras.

Ao nono dia de roteiro indeterminado, reconheceram a bandeira hespanhola em dois navios de alto bordo que lhe passavam á prôa. A manobra foi rapida. As galeras auxiliadas pelas correntes procuravam a esteira dos navios, que lhes fugiam. Ao cahir da noite, a trombeta do pirata levou uma ameaça de morte aos hespanhoes. Responderam-lhe com uma bala que zumbiu nas gaveas.

Travou-se a lucta. Era tenebrosa a noite, e ao clarão da artilheria viam-se d'um lado e d'outro, como visões phantasticas, as faces enraivecidas de aggressores destemidos, e a coragem desesperada nas dos aggredidos resolutos á morte com bravura.{151}

O mulato déra o tremendo signal da abordagem. A galera que se retirava da lucta, capitaneada por Luiz da Cunha, não obedecêra. É que uma bala lhe fizera á pôpa um rombo. Os bravos tinham descido ao porão a calafetarem inutilmente a fenda.

Os piratas recuavam, e os aggredidos accommetteram com o enthusiasmo da victoria. A galera do mulato vomitava lavaredas. Estava incendiada.

—Á abordagem!

Bradaram os hespanhoes. A maruja das galeras gritou que se entregava. Os netos de Cortez não admittiram a proposta. Saltaram entre miseraveis ajoelhados. Alguns venderam cara a vida. Outros foram poupados para puxarem o carro do triumpho. Entre esses estava Luiz da Cunha, que não tivera coragem de morrer borrifado do sangue dos contrarios, como o seu companheiro, e pedira de joelhos a vida. O extremo da ignominia encontra a covardia. Sem a força moral da honra, o musculo do infame ennerva-se, e a existencia, que devia ser-lhe um pêso, é-lhe ainda cara! Segredos.

Os prisioneiros foram levados ás Antilhas para serem garrotados. Alguns foram-n'o logo. Luiz da Cunha, que promettêra aos capitães o resgate da sua liberdade, pesando-se a ouro, foi posto a ferros em Porto-Rico.

Chegára a nova á Bahia, onde Proença negociava. Não se fallava em Luiz da Cunha; mas dizia-se que um portuguez ou brasileiro, que parecia de educação distincta, fôra prêso, e demorára com astuciosas promessas o seu processo.

Proença não tinha animo para encarar o suspeito Cunha n'esse ultimo grau da infamia. Apressou-lhe quanto pôde soccorros, e, calando o nome do prêso, solicitava a sua liberdade.

Entretanto, Luiz da Cunha tramava a fuga. Todos os seus ardis foram descobertos. Parte das authoridades hespanholas quizeram desfazer-se d'elle, pendurando-o n'um triangulo. Mas o governador não consentira, sem primeiro ouvir esse homem mysterioso. Ouvindo-o, admirou-lhe a eloquencia astuciosa; arrancou-lhe o segredo de alguns dos precedentes que mais deviam tocar-lhe o espirito um pouco romanesco. Luiz da Cunha soubera{152} dar-se prestigio, porque adivinhára a indole da authoridade.

Foi processado e condemnado a tres annos de prisão em Porto-Rico. Tres annos! Mil e noventa e cinco dias e outras tantas noites de ferros para esse homem, desamparado de todos, forçado a pedir esmola, como um ladrão, pela grade da enxovia! Não terá elle, ao menos, a coragem do suicidio?!

Não tinha.

O governador mandava-lhe umas sôpas, e umas calças velhas. Uma senhora desconhecida esmolava-lhe um jantar todos os domingos, e mudava-lhe os lençoes da pobre enxerga. O carcereiro, apiedado com a apparente resignação do pirata, arranjava-lhe livros, e dava-lhe para de noite uma candeia.

Quatro mezes d'este viver! Eis alli o amante de Assucena! o marido de Marianna! Aquelle homem que tira de uma tigella de barro com um garfo de ferro umas couves, é o mesmo que pagava dançarinas a cinco mil francos por mez; é o mesmo que vira fugir-lhe por entre os dedos cem contos de reis. E, comtudo, não tem ainda trinta annos! Que futuro!

Proença vem a Porto-Rico, ao quarto mez de prisão de Cunha. Procura o governador, com valiosas cartas de recommendação, e historia-lhe vagarosamente a vida do prêso. O governador espanta-se de tanto crime, e crê na magica influencia de Satanaz sobre o desgraçado. Uma das circumstancias que mais o pungem é o illustre nascimento de Luiz da Cunha e Faro! Era fidalgo, sentia a dôr collectiva da raça: o vexame e a condolencia de uma sympathica compaixão. Vencido pelas instantes lamurias de Proença, quiz ser arbitro na liberdade do prêso, assim como o tinha sido no immediato garrote que os outros soffreram. Luiz da Cunha, com cinco mezes de carcere, é solto. Respira o ar da liberdade, é senhor seu; mas a liberdade que lhe importa sem dinheiro, sem soccorro, sem incentivo algum ás forças que lhe sobejam ainda para commetter difficultosas emprezas? Que perversidade nova lhe resta a explorar? A que reservatorio do inferno irá elle invocar um outro genio?

Que lhe falta?{153}

Luiz da Cunha fôra chamado, apenas solto, a casa do governador. Entrou n'uma sala particular, onde encontrou Proença. Não córou: a commoção forte que um facil apreciador julgaria vergonha, era o contentamento de encontrar um homem que, de certo, não viera alli para o deixar sem dinheiro.

O expatriado é que não podia soster as lagrimas. Sentia o vilipendio de Cunha, como se tirasse dos hombros do infame para os seus o pêso da ignominia.

—Vieste salvar-me?—disse serenamente o pirata infeliz.

—Já ninguem te salva... Vim alcançar a tua liberdade para experimentares uma nova posição social. Cahiste muito no fundo. Já não ha braço que te levante.

—Parece-me que não. Venho de estudar na solidão da masmorra. Philosophei o melhor que se póde com os meus principios experimentaes. Conclui que sou uma machina. Não tenho vontade, nem acção. Quero vêr onde chega isto! Desejava poder calcular approximadamente, pelos dados da vida, que morte será a minha. Tenho trinta annos. Proença! como se póde ser tudo o que eu tenho sido em quatorze annos!

—E que serás tu?!

—Eu sei!... o mais natural na minha situação é pedir uma esmola.

—E és capaz de pedil-a?

—Que duvida! Morrer de fome é escolher de todas as mortes a mais indecente.

—E gracejas!

—Pois tu queres que eu receba seriamente a infernal omnipotencia que me reduziu a isto?! Zombemos com ella.

—Mas não ha outro recurso contra a fome senão pedir esmola?

—Ou roubar.

—E o trabalho?

—Ah! sim... não me lembrava o trabalho!... mas que trabalho? Eu não sirvo para nada, não tenho força nem vocação.

—Adquire-a, Luiz. Tu não me conheceste em outro tempo? Imaginaria alguem, ha oito annos, que eu viria a ser um amanuense de advogado, e mais tarde um negociante{154} de cortumes? Eu tive fome, Luiz. Deitei-me algumas vezes em jejum, e levantei-me sem a certeza do almoço. Não pedi esmola, pedi trabalho. Olha as minhas mãos... não vês estas durezas? Estão calejadas, mas nunca senti aqui o contacto de uma moeda de cobre como esmola. Trabalha, Luiz.

—Diz-me lá em que...

—Vives comigo: tomas uma pequena parte nas minhas occupações, e recebes uma parte grande dos meus interesses.

—Não te sirvo de nada, Proença. O que fazes é dar-me uma esmola. Emprestas-me algum dinheiro?

—Que farás com esse dinheiro?

—Vou para Portugal. Tenho um palpite de que vou ser feliz...

—Feliz! Quem fará a tua felicidade em Portugal?

—Uma mulher.

—Como Marianna?

—Não me falles em Marianna. Tenho tido horas de inferno pensando n'essa infeliz... Eu não sou de bronze, Proença. Vi-me tão afflicto uma noite na cadeia, que me puz de joelhos a pedir-lhe perdão, cuidando que a via. Era febre; mas olha que a vi tal qual ella devia ser a expirar... Palavra de honra! não me falles n'ella... Bastam-me os meus remorsos...

—Tu não tens remorsos, Cunha... Não fallemos n'ella; concordo... O nome d'essa infeliz sôa mal nos teus ouvidos... e é uma profanação na tua bôca... Queres então ir a Portugal procurar uma mulher que te ha de fazer feliz... Vejo que a desgraça tem comtigo momentos de zombaria... Vai. Dou-te o dinheiro necessario para a passagem, e para a subsistencia de alguns mezes.

—És um perfeito cavalheiro. Espero ainda embolsar-te do ultimo real que me emprestas... Ris-te? É porque não sabes os meus planos.

—Os teus planos... O que me faz rir é a facilidade com que te illudes, a inexperiencia do que és, a intimativa com que te confias a uma esperança imaginaria. Que mulher de Lisboa descerá até Luiz da Cunha com a sua riqueza? Estou fóra de Portugal ha oito annos, e conheço a tua vida dia a dia; conhecem-na todos no Rio de Janeiro.{155} Quem te não conhecerá em Lisboa? Eu vi uma carta d'um tal visconde, escripta ao ministro portuguez no Brazil, que te apresentava um prodigio de immoralidades.

—Esse visconde era precisamente o visconde de Bacellar.

—De Bacellar, justamente.

—Isso é um miseravel a quem puni com um chicote nos Paulistas.

—Não sei se é um miseravel que puniste com um chicote; mas de certo não é calumniador. Todas as informações confirmam as d'elle. O que será feito d'uma menina que fugiu das Commendadeiras, e abandonaste no primeiro mez, trocando-a pelos amores da celebre Liberata?

—Não fallemos n'isso... Rapaziadas!... Talvez tu não creias que a mulher que me ha de fazer feliz é justamente a que fugiu das Commendadeiras?

—Vejo que é grata aos teus beneficios... Deve morrer de saudades por ti... Estará ella anciosa da tua chegada como Marianna?

—Estás impertinente, Proença!... Que diabo lucras tu em apoquentar-me?! Marianna morreu; não posso dar-lhe vida; se podésse, dava-lh'a... Que mais queres?

—Nada, Luiz... Que hei de eu querer? É que não acho natural a tua felicidade proveniente de uma mulher que perdeste.

—E, se eu te disser que essa mulher me deu obra de quarenta mil cruzados, depois que a abandonei?

—Se é verdade o que dizes, espanta-me que o digas sem cahires n'esse chão fulminado de vergonha!

—Vergonha... de que?

—Ha em ti um defeito de organisação, Luiz!... Tu não és o homem moral. Falta-te a consciencia, o senso-intimo do bem, o caracter da sociabilidade. Não te posso responsabilisar pelos teus crimes. O tigre tem a ferocidade nativa. Tu és uma aberração, Cunha. Digo-te, com as lagrimas nos olhos, que estás perdido, perdido para sempre... Receio muito que encontres um cadafalso no teu caminho.

—Estás funebre! Que diabo de prophecia! O meu furor todo é desmentil-a... Hei de rehabilitar-me! Desafio todos os demonios para que me combatam.{156}