A Neta do Arcediago
Cavar para os Outros a Sepultura, e para Si o Inferno.
CAVAR PARA OS OUTROS A
SEPULTURA, E PARA SI O INFERNO.
Luiz da Cunha passeava com Carlota nas margens do lago de Garda, ao pé do pittoresco Mincio. Deliciavam-se em meigos brinquedos, como duas creanças, embebidos um no outro, ao que pareciam, suspirando juntos como a brisa tépida que os arremedava no bulicio da ramagem.
Escurecia, quando divisaram tres vultos. O barqueiro que, a distancia, os tinha já prevenido contra os perigos do local, ao vêr os vultos teimou que entrassem no barco. Luiz, instado por Carlota, olhou com saudade para as deleitosas testemunhas de seus prazeres, e foi, como arrastado, na direcção do barco.
Mas os vultos acceleravam o passo. Carlota e o barqueiro diziam a Luiz que fugisse.
—Fugir a que? São tres, e eu só fujo a trinta.
—Foge Luiz, que eu suspeito...
—Que suspeitas?
—Que algum d'elles é...
—O troca-tintas teu patricio? Deixa-me reconhecêl-o.
Luiz da Cunha esperou-os com as pistolas engatilhadas. Os vultos marchavam para elle tão serenos como se tivessem ouvido o tinnir do gatilho..
—Parem, quando não mato-os!—exclamou Luiz.
—Pois atira, miseravel!—disse um dos tres.
Os gatilhos bateram duas pancadas surdas. Luiz recuou,{141} aperrando-os de novo. As pancadas produziram o mesmo som abafado.
—Estou desarmado, covardes!—gritou elle, quando as primeiras pauladas de «cacetes» curtos lhe estalavam na cabeça, nos braços e no peito.
—Chama os teus sicarios do Brazil!—dizia o antigo amante de Carlota, sovando-lhe a cara de pontapés, quando elle, já em terra, coberto de sangue, perdêra o accôrdo.
A dançarina presenceava o espectaculo de dentro do barco, que se fizera ao largo, graças á prudencia do barqueiro.
Os francezes retiraram-se a passo moroso, conversando na mais tranquilla pacatez de tres socios do instituto de bellas-letras, que viessem de descobrir nas margens do Mincio o esqueleto d'um ichtyosaurus.
Carlota, contra a vontade do barqueiro, chegou-se a terra. Não vendo os vultos, saltou, e viu em terra o amante, que gemia a cada esforço inutil que punha para erguer-se sobre os braços macerados. O barqueiro veio em auxilio da consternada moça. Tomaram-no entre os braços, deitaram-no na prôa do barco, e lavaram-lhe a face arregoada de sangue.
Luiz da Cunha foi curado em Peschiera, e, logo que as forças lh'o consentiram, quiz convalescer em Veneza. Carlota seguia-o, indemnisando-o com extremosos cuidados do desgosto d'uma perigosa sova, por causa d'ella.
Em Veneza, Luiz da Cunha que não déra, durante quinze dias, noticias suas a Marianna, com quanto se não doesse muito de tal falta, achou que era prudente procural-a, que não fosse ella, desesperada, sustar no Brazil a remessa d'uma importante quantia que elle exigira.
No hotel disseram-lhe que sua senhora com a escrava tinham sahido n'uma madrugada, havia treze dias, e não voltaram.
Entregaram-lhe as chaves dos seus quartos. Luiz da Cunha encontrou tudo, menos os bahús d'ella. Nem uma carta sobre as mesas! cousa nenhuma que o esclarecesse! Chamou o criado, que ficára com as chaves, esperando que lh'as recebessem:
—Com quem sahiu a senhora?
—Com um cavalheiro.{142}
—Seria de Veneza?
—Não, senhor: vi-o aqui entrar uma só vez, antes d'ella sahir com elle.
—E os bahús, quem os transportou?
—Dous homens que tinham vindo com o tal cavalheiro: pareciam marinheiros.
Luiz da Cunha informou-se. Justamente na madrugada d'esse dia sahira um navio com carregação de vidros para o Rio de Janeiro.
A sua situação pareceu-lhe embaraçosa! A primeira ideia foi seguir quanto antes sua mulher. Consultou Carlota, e a carinhosa respondeu ternamente que o não acompanhava, porque não tornava ao Brazil. Ainda assim, renunciando generosamente o amante á esposa, a bailarina aconselhava-o que a seguisse, embora ella ficasse devorada de saudades.
Esta sublime abnegação impressionou Luiz, a ponto de olvidar, surdo aos gritos do presentimento, as consequencias da apparição de Marianna, sósinha, aos seus parentes.
Contando com a sua astucia, deferiu a viagem para mais tarde, visto que ainda lhe restava uma ordem de dez contos, e entretanto Marianna, forçada pela saudade, poderia de lá chamal-o, pedindo-lhe perdão.
Proseguiu nas suas viagens com Carlota. Saboreou o ouro e a liberdade, não azedada pelas lagrimas importunas de sua mulher. Gastou francamente como se uma nova remessa devesse chegar do Brazil, antes de escoar a ultima libra dos dez contos. Fez, durante quatro mezes, pontuaes pagamentos á bailarina, de cinco mil francos cada mez. Contava-lhe com ingenua candura a sua vida, os seus haveres, e até desceu á pueril pieguice de lhe dizer que era necessario fazerem economias, em quanto lhe não chegava uma ordem para saccar em Londres um cabedal mais duradouro.
Carlota, á palavra «economias» sentiu que o coração lhe fazia no peito uma pirueta, e ficava de costas voltadas para o economico amante.
Á maneira do coração, a dançarina resolveu fazer tambem uma pirueta na primeira occasião.
A occasião veio-lhe ao encontro dos desejos. Um{143} conde austriaco hospedára-se no mesmo hotel em Roma. O locandeiro tinha poderes discricionarios para convencer a moça. A proposta foi aceita, estipuladas as condições, e Carlota desappareceu com o conde na estrada que devia conduzil-a a Paris.
Luiz da Cunha—diga-se a verdade—não sentiu muito a ausencia da sua companheira de quarto. A paixão diminuira na razão directa das libras. A sensualidade ia-lhe arrefecendo á maneira que o espirito se lhe occupava em meditações sobre o futuro. O mais que fez foi estudar os pontos de contacto entre Carlota e Liberata, e viu que eram bustos do mesmo molde. Teve a imprudencia de chamar Assucena e Marianna a esta galeria, e concordou, o mais racionalmente que pôde, que aquellas duas eram d'um estofo muito superior ás outras.
O peor era a pobreza que o ameaçava!
Os dez contos de reis em oito mezes, com quanto economisados, tinham cahido na voragem dos brilhantes de Ricarda, dos bens livres de João da Cunha, dos quarenta mil cruzados de Assucena, do incalculavel numerario com que sahira do Brazil. Restavam-lhe algumas duzias de libras, e nenhum amigo, nenhum credito, nenhuma esperança que lhe não deixasse antever o futuro pela face da indigencia. Angustiado no dilemma, resolveu abandonar a Europa, que tão cara lhe era, e vestir uma mascara de bronze, como se precisasse de encobrir a vergonha, para lançar-se aos pés de sua mulher, se é que ella lhe não correria aos braços, banhada em lagrimas de alegria. O projecto dependia de uma execução immediata, porque as ultimas libras urgiam.
Luiz da Cunha, protestando vencer, ainda uma vez, a força diabolica que o empurrava para o abysmo da miseria, refez-se de coragem, confiou-se á prodigiosa omnipotencia da sua impostura, e embarcou em Civitta-Vechia n'um navio de escala para Buenos-Ayres.
N'esta viagem, não ha memoria d'alguma aventura digna de menção na biographia do filho de Ricarda. Contaram, porém, os seus companheiros de viagem, que tal homem se fizera repulsivo a todos pelo desprêso com que a todos repellia. Era intratavel, e tinha accessos de frenesi assustadores. Corria as cortinas do seu beliche durante{144} o dia, e passeava toda a noite na tolda. Se em noites calmosas os passageiros tambem subiam a respirar, Luiz da Cunha descia com arremesso a isolar-se na sua camara.
Vê-se que o cynico não tinha o riso despejado da escola. Soffria; mas não era a suave melancolia do solitario sem os remorsos: era o assomo colerico, o concentrado rancor do algoz que não póde estalar os grilhões que o condemnam a morrer no desespêro da immobilidade.
Pois a hora do remorso não soára para este homem?! Ainda não. Talvez nunca. O remorso é o triumpho do anjo bom. Luiz da Cunha pactuára uma alliança insoluvel com o demonio, cuja existencia não é para mim uma fabula, quando me vejo impellido ao mal, e cêdo com pesar ao impulso, encarando o bem por que suspiro. A lucta entre as duas potencias existe no coração humano, em quanto a consciencia sabe estremar o crime da virtude. Mas, perdidas as noções do dever, raspada de sobre o coração a palavra «honra» a lucta já não existe, o anjo bom fugiu espavorido, o remorso é impossivel.
E era-o para Luiz da Cunha.
Esse fugir da sociedade, odiando os homens, era o encovar-se do tigre, sequioso de prêsas, raivando de fome, e espreitando com olho abrazado a victima desprevenida.
Luiz contava os dias de viagem com frenetica anciedade. Só, imaginára todas as hypotheses terriveis do seu futuro. Dava-se como possivel a vingança de Marianna, privando-se não só da tutella dos enteados para diminuir os redditos, mas negando-lhe a elle uso-fructo da sua propria meação. Verificar esta horrivel conjectura era o seu desejo: vingar-se de qualquer modo era a sua tenção, se uma bem estudada impostura o não reconciliasse com Marianna.
Chegou a Buenos-Ayres, e na lista dos estrangeiros que pernoitavam no mesmo hotel viu o nome de Francisco José de Proença. Saibamos de passagem que Proença era um official do exercito portuguez, que seguira as bandeiras de D. Miguel. Em 1833 expatriara-se para o Brazil. Filho d'um brigadeiro, visitava-se com João da Cunha, e fôra da roda de Luiz.{145}
O marido de Marianna encontrára-o no Rio de Janeiro, luctando com a adversidade, pobre, sem emprego, vivendo do trabalho esteril de amanuense d'um advogado. Soccorreu-o com um emprestimo de dinheiro para tentar o trafico da escravatura, pensamento dominante de Proença.
O portuguez fôra bem acolhido por Marianna, em respeito a seu marido. Civil, bem morigerado, e prudente, colhêra muito na escola da desgraça. Fez-se bemquisto, adquiriu proveitosas relações, alcançou aura de honrado, apesar do seu plano de mercadejar com pretos. Este trafico não deshonrava ninguem. Era como qualquer outro, um ramo de commercio, que germinou illustres vergonteas, as quaes transplantadas depois em Portugal, bracejaram copadas sombras onde se acoitam em torpel as mercês, e os sacerdotes da apotheose.
Tal era o protegido de Luiz da Cunha em Setembro de 1840, quando o seu protector, sahindo do Rio para a Europa, o recommendava aos tios de sua mulher.
Foi, pois, bem natural o sobresalto de Luiz da Cunha quando viu na lista o nome Francisco José de Proença. Guiaram-no ao quarto d'elle. Proença, com o coração alvoroçado da surpresa, abraçou Luiz.
—Tu aqui!...—exclamou elle.
—Não imaginei encontrar-te fóra do Rio!
—Vens de lá? Já vejo que não.
—Venho da Europa. Ha que tempo sahiste do Rio?
—Ha tres mezes. Tu ignoras tudo, pelo que vejo.
—Se ignoro tudo!... Sei que Marianna está lá...
—Sabes que ella está lá? E sabes como ella está?
—Doente, talvez...
—Doente, não... morta.
—Homem! isso é extraordinario! Tu não mentes?
—A brincadeira seria de mau gosto. Não minto, Cunha. Pensei até que o saberias.
—Isso é incrivel! Pois Marianna está morta?!
—E sepultada ha cinco mezes.
—Que infernal vida a minha!
As bagas de suor frio innundavam-lhe a testa. A commoção não se differençava nada d'uma boa alma surprendida por uma nova terrivel.{146}
—Infernal vida a tua! tambem eu digo, Cunha... Mataste aquella senhora...
—Matei...
—Tardio remorso!...
—Conta-me tudo.
—Pouco tenho que te conte. D. Marianna appareceu no Rio, sem ninguem a esperar. Foi transportada n'uma rede ao seu leito. Soube-se que tu não vieras, e correu que tinhas morrido. Marianna não recebia visitas, nem os medicos. Pedi aos tios que me deixassem vêl-a, não o consegui. Um d'elles contou-me os teus desatinos, e disse-me que a infeliz era tão nobre que não pronunciava contra ti uma queixa. Precisava explicar a sua fuga, e o pouco que disse foi mais amplamente contado por cartas do ministro do Brazil na Austria. Levantou-se contra ti um brado de indignação. Contaram-se todos os teus infortunios de Lisboa. Á carga cerrada, os amigos de D. Marianna pediram que lhe fosse tirada a administração da casa de seus filhos, para que tu não viesses continuar a dilapidál-a. Tua virtuosa mulher pediu que a não mortificassem, visto que a sua morte viria breve emancipar os pobres filhos da sua indigna tutella. Empenharam-se todos em distrahil-a: o mais que conseguiram foi mudál-a para uma quinta no Bota-fogo, onde viveu vinte dias. Aqui tens bem simples a historia, e realmente te digo que é uma historia bem fertil de lances desgraçados... Déste um pontapé na fortuna, Luiz, e com esse pontapé arremeçaste tua mulher á sepultura...
—Pois sim... agora cala-te. As tuas reprehensões, além de inuteis, não me soam bem.
—Desculpa-me se te fallo com franqueza tão rasgada. O facto de seres meu credor não me humilha até ao silencio approvador dos teus crimes.
—Os meus crimes... não são meus.
—Pois de quem?!
—D'um demonio que me perde... E agora vejo que estou irremediavelmente perdido!...
—Comparativamente ao que perdeste... estás.
—E pobre...
—Quasi pobre. Tens apenas quatro contos de reis{147} que te devo, e o pouco que tenho acima d'esse capital á tua disposição.
—Minha mulher fez testamento?
—Não. Tudo que tinha pertence aos filhos.
—Mas uma escriptura causa mortis que fizemos?
—É nulla: foi logo annullada. D. Marianna não podia dispôr do que era dos filhos: podia apenas legar-te a terça; mas não testou. Aconselho-te que não vás ao Rio, muito menos se tentas questionar os direitos dos teus enteados. Não vás, que serás morto. O teu nome desperta odios n'aquelles mesmos que recebeste nos teus jantares. Tens um só amigo, que se condôa de ti. Sou eu.
—E qual será o meu futuro?
—O que podéres grangear pelo trabalho; mas, no Rio de Janeiro, não.
—Em que negocias?
—Negociei em escravos.
—Tens sido feliz?
—Muito pouco. Tenho repugnancia para esta mercadoria.
—Queres tentar comigo uma empreza d'essas?
—Não. Hoje o meu commercio é menos rendoso, mais pacifico, supposto que mais laborioso.
—Não sei o que são emprezas laboriosas...
—Tenta; póde ser que a fortuna te dê ainda outro abraço; mas as costas d'Africa estão coalhadas de negreiros.
—Que dinheiro dispensas?
—Oito contos de reis. Quatro que te devo, e quatro que te dou, ou te empresto... como quizeres.
—Posso fazer alguma cousa com esse dinheiro?
—Pódes, associando-te a algum negreiro, que farei teu conhecido. Apresento-te ao que tem maiores depositos na praia dos escravos em Guiné......................
N'esse dia foi conduzido ao escriptorio do negreiro, em Buenos-Ayres, o adepto com a sua quota parte de oito contos de reis. Quando tratavam as condições da sociedade, estava presente um mulato bem trajado, com os dedos scintillantes de pedras, e uma grossa cadeia de ouro{148} no pescoço. Ouvira, silencioso, o contracto, e seguira-o até á porta do hotel.
Pouco depois, Luiz da Cunha recebia um bilhete anonymo, que lhe pedia uma entrevista, a sós, atraz da igreja das Mercês, ao escurecer. Recommendava o bilhete um segredo inviolavel.
O temerario foi, sem consultar Proença, e encontrou o homem que vira em casa do negreiro.
—O senhor quer ser rico?—perguntou o mulato.
—Quero.
—Ninguem responde com mais concisão, nem mais depressa. Se quer ser rico, siga outro rumo. A escravatura deu em droga. Metade dos negros morrem no porão: os outros ninguem os quer a cem mil reis fortes por cabeça.
—Pois que rumo devo seguir?
—Primeiro; o senhor é capaz de nunca revelar o que eu lhe disser?
—Sou.
—Não o sendo, a sua existencia valerá menos que um preto asmatico. Segundo: tem coragem?
—Tenho, penso eu.
—Quer entrar comigo n'um commercio que é um pouco menos infame que o da escravatura? Quer ser pirata?
—Pirata! O senhor está a zombar comigo?