A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 31

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A Neta do Arcediago

Um Anjo Cahido.

 

Luiz da Cunha era estranho ás apressadas solicitudes da viscondessa de Bacellar com o futuro de sua filha. Como a não pedíra, nem mesmo significára a alguem intenções de casar-se, da sua parte nenhum esforço punha para vencer as difficuldades do casamento, quando se déssem. Votado inteiramente a velar a convalescença de seu pae, as saudades de Assucena desvaneciam-se-lhe pouco e pouco; mas não tanto que elle não esperasse com impaciencia, todos os dias, noticias indirectas de sua «irmã.»

Luiz da Cunha quizera illudir-se. O amor, que a encantadora Assucena lhe resuscitára nas ruinas do coração, era um sentimento de fantasia, um impotente esforço da vontade. Depois de onze annos de vida aparcellada de revezes na alma, de ignominias que entram como habito nas propensões do homem, que se crê irresponsavel de seus escandalos, acredite-se de boamente a conversão religiosa como consequencia do remorso como temor de Deus; mas negue-se a reforma do espirito em cousas do amor, em nobreza de affectos, em dedicações fervorosas. É impossivel essa reforma. Não renasce o amor no peito cansado; não mais desabrocha no tremedal a flôr dos perfumes ideaes, que, só no ar puro de um coração juvenil, embellece a vida, e promette a felicidade.

O amante de Liberata não podia ser o interprete do coração de Assucena. Um sahia da innocencia, outro do crime. Luiz, depois das paixões impetuosas, entrava cansado no amor tranquillo para o qual é necessaria muita alma. Assucena, com todo o vigor da juventude, abandonava-se,{49} mais céga do que se imaginava, á paixão impetuosa.

Se a tivessem educado nas salas, a neta do arcediago, aos dezoito annos, não se apaixonaria por um homem inconveniente, socialmente fallando. Aprenderia, desde os quatorze, a estremar o apparente do real, o homem que se namora por entreter, e o que se namora para casar. Rodeada de lisonjas, qual d'ellas mais impostora, perderia depressa a memoria dos differentes thuribularios, e, ao sentir no coração impressos os traços de uma imagem, outra imagem viria desfazêl-os depois. O amor repartido é o amor sem consequencias perigosas. A razão conserva sempre o seu dominio. A luta com tres é-lhe menos difficil que a de um só; e a donzellinha de faces de leite e rosas, se tiver mãe experimentada, leva a cabo emprezas arriscadas com a sisudez que os quarenta annos não tem. Antes de amar a realidade, o coração da virgem, na vida êrma, no perfume innocente dos collegios d'outro tempo, nutria-se, fortalecia-se, e extravasava d'um amor sem calculo, d'uma aspiração sem condições.

Tal fôra Assucena.

As práticas judiciosas de sua mãe poderiam impressiona-la de passagem; mas o amor, que vencêra o pejo, que se formára em si, e de tal força que nem os desdens do amante o aniquilariam, esse amor reagiu contra os mesquinhos estorvos de um dote, contra a dependencia ignobil das algibeiras d'um padrasto.

Luiz da Cunha, restaurada a saude melindrosa de seu pae, continuou regularmente as suas visitas á viscondessa. O trato grosseiro do visconde era cada vez mais acrimonioso. A affabilidade de Rosa desmerecêra um pouco; e as maneiras de Assucena pareciam-lhe, em compensação, mais ternas, mais meigas e insinuantes do que o tinham sido antes da sua declaração.

E, certo, eram.

Assucena despediu-se de João da Cunha na vespera da sua entrada nas commendadeiras. De Luiz despediu-se tambem; mas toda a arte foi vã para esconder as lagrimas do adeus. Os olhos aguados, e as palavras balbuciantes denunciaram-na, não a Luiz que a adivinhava; mas a João da Cunha que a não imaginava tão fragil á tentação do filho.{50}

A fantasia de Luiz deixou-se outra vez levar do enganoso amor. Era o desejo que o fazia credulo. Era a pergunta, que elle muitas vezes se fizera depois da emenda: «poderei eu ser ainda feliz, amando?» era essa pergunta que o fazia procurar a resposta no amor de Assucena.

E sabem, leitores, quanto duram estas illusões em homem que deu da sua alma tudo quanto podia ás puras ou ás impuras paixões? É devaneio d'um dia: accesso febril que arrefece no dia seguinte: é o mentiroso rejuvenescer de algumas horas.

«Se eu podésse lutar com as difficuldades d'uma affeição despresada!... Se houvesse ahi uma mulher que me ameigasse para me captivar, e, depois de captivo, me lançasse de si com a ponta do pé, para que ao menos, eu sentisse aqui no seio de pedra a tarda palpitação do amor proprio!»

Ha homens que dizem isto, que o dizem e o desejam, que o desejam e não o encontram.

Para esses de que serve o amor sem rebuço, a dedicação espontanea e descuidosa da mulher que vem procural-os, sem ser chamada? Pobre d'ella, se a ultima scintilla de piedade generosa se apagou no coração do seu verdugo amado. E elle que lucraria?... O tedio de si proprio.

O amor angelico de Assucena fôra outra vez recebido por Luiz da Cunha, esquecido já das primeiras emoções.

A filha de Rosa entrára no convento, onde encontrára faceis amigas que se interessavam em remediar-lhe com conselhos a profunda tristeza. Os conselhos lisongeavam-na. Jubiladas no amor, as commendadeiras, illustres em nascimento, e até illustradas no espirito, olhavam as cousas d'este mundo, pouco mais ou menos, como ellas são. Menina de dezoito annos, melancolica, soffre de amor: entenderam as mais penetrantes. Conhecido o diagnostico da enfermidade, era infallivel a pharmacia, muito acreditada nas benedictinas. A quem penava do coração applicava-se-lhe amor a grandes dóses. Ora a barateza da droga nunca deixou morrer ninguem á mingua de antidoto.

O que se dizia a Assucena era que amasse, que recebesse{51} no lucutorio quem quer que fosse, que se não deixasse possuir d'uma heroica abnegação, porque o mundo não valia o sacrificio. A sua mais presada amiga, secular tambem, que passava tres mezes no convento, e nove na sociedade, tomou ao seu cargo a voluntaria missão de convidar o filho de seu primo João da Cunha a tomar chá na sua grade, em dia dos seus annos.

Assucena foi surprendida por Luiz da Cunha, que nunca vira tal prima, nem entrára em tal convento. Aceitára o convite porque desejava mostrar que lhe era grato o pretexto de que Assucena se servira para chamal-o ao convento.

A prima de Luiz da Cunha era uma senhora desempoada. Na sua desprevenida intelligencia, dous e dous eram quatro, e, segundo ella, toda a mulher devia ter um amante, e particularmente aquella que reza vesperas n'um côro em quanto as outras elegem entre dezenas de vestidos o que ha de realçal-a mais no baile, ou no theatro. Eil-a, pois, em opposição com os estatutos de todos os patriarchas, que apadroaram conventos.

Desde esse dia as visitas de Luiz da Cunha a sua prima eram quasi diarias. Na grade de sua prima, as mais das vezes, quem Luiz encontrava era Assucena.

A viscondessa sabia d'estas visitas, e não as prohibiu a sua filha, despresando assim as insidiosas prevenções da intriga, que d'este modo procurava vingar-se de odios domesticos a D. Leonor Machado, a prima prestadia de Luiz da Cunha. Os reiterados avisos a Rosa Guilhermina sahiam do convento. Assucena ignorava-os, porque sua mãe, concebendo os melindres d'um amor contrariado, não fallava de proposito em Luiz da Cunha, nem consentia que sua filha de proposito lhe fallasse n'elle.

O visconde tambem teve as suas duas cartas anonymas, a respeito dos escandalosos amores da sua enteada, protegidos pela escandalosa secular Leonor Machado.

José Bento levou ao conhecimento de sua mulher as informações, que recebera, e Rosa, por assentir a seu marido, de quem dependia o futuro de Assucena, impôz-se a dolorosa obrigação de prohibir a sua filha intelligencias com Luiz da Cunha.

Assucena recebeu silenciosa a correcção; mas, em silencio,{52} se promettia não lhe dar o pêso que sua mãe lhe dava. Era tarde para ella, e tarde para o filho de Ricarda, que acabava de convencer-se que o amor, e por ventura o patrimonio de Assucena, alcançado por astucia, faria as delicias da sua vida.

Luiz continuou sem obstaculo as suas constantes attenções á prima. O visconde, informado de novo, mostrou ao seu devedor João da Cunha as cartas que recebêra. João da Cunha, admoestando o filho, encontrou-o um pouco parecido com o que fôra em tempo, respondendo-lhe que a reforma de costumes não consistia na renuncia completa dos mais innocentes prazeres do espirito. Como não fallou em materia, o caso não era tão pavoroso como o afiguravam os timidos informadores do padrasto.

Luiz da Cunha, ressentido das grosserias do filho do retrozeiro da rua das Flôres, espaçou as suas visitas a casa d'elle. Romperam-se, portanto, as hostilidades. O visconde ameaçava a enteada de retirar-lhe as mesadas. Luiz da Cunha offerecia-se como irmão a Assucena, quando seu estupido padrasto a desamparasse.

E tudo isto exacerbava a paixão de Assucena, que, agradavelmente humilde, não sabia resistir ao amante, para obedecer ao tyranno da sua alma.

A prelada do convento recebeu do visconde poderes, que nunca, até então, exercêra sobre o coração das professas, e muito menos das seculares.

Animada pela indomita Leonor Machado, a neta do arcediago desobedecia, correndo pressurosa á grade, quando Luiz da Cunha apeava no páteo. Alli, a pobre menina alliviava da sua dôr oppressiva, chorando, e bebia a longos sôrvos o balsamo, que o filho de Ricarda, de antemão, trazia preparado em estudadas palavras de esperança.

Mas qual esperança era essa? Que planos eram os d'elle?

Muito communs, e muito infames.

Luiz da Cunha, invocando o seu eu d'outros tempos, encontrou-o. Pediu-lhe conselhos, e recebeu-os. Aventou uma trama que não é nada extraordinaria, porque não cansam por ahi cavalheiros muito probos, e exemplares a todos os respeitos que a praticaram com prosperos resultados.{53}

O filho de João da Cunha sabia que, morto seu pae, os successores do vinculo viriam desalojal-o do ultimo palmo de terra. O futuro dava-lhe cuidado. Os poucos bens de livre nomeação estavam hypothecados a dividas enormes, contrahidas por sua causa, depois que as preciosas joias de Ricarda foram desbaratadas em desperdicios do pae e do filho. João da Cunha, segundo o pensar dos medicos, não resistiria a um dos ataques cerebraes que repetidas vezes o ameaçavam com a morte, annunciando-se por uma sombria tristeza, e desordem de ideias, á maneira d'aquella em que o vimos censurar o amor do filho a Assucena. Luiz teve o bom senso de se julgar desvalido apenas seu pae fechasse os olhos. Precisava enriquecer-se e grangear com tempo uma fortuna, empregar para isso esforços e habilidade, embora aconselhados pela desmoralisação.

Entendeu, portanto, que Assucena receberia um bom dote do visconde, quando esse dote lhe fosse imposto como resgate da deshonrada filha de sua mulher. Para isso era necessario tiral-a do convento, diffamal-a, forçar a viscondessa a influir no dinheiro de seu marido.

O calculo parecia-lhe infallivel a elle. Assucena prestava-se maquinalmente á vontade do amante, por isso que sua mãe acabava de lhe fazer sentir que o visconde resolvêra fazêl-a entrar n'um convento do Minho, em Bairão. Era necessario apressar o desfecho. Leonor Machado abundava nas ideias do seu primo, e prometteu coadjuvar Assucena na fuga, pela sua casa, que era paredes meias com o muro da cêrca, sobre que se abria por um postigo. Luiz da Cunha comprou o hortelão, que devia abrir-lhe a porta travessa do pomar. Animou a timida menina a descer uma escada que lhe foi içada ao postigo. Recebeu-a nos braços murmurando o vigesimo juramento de nunca desmerecer a confiança que lhe merecia, e entrou com ella na mesma sege em que muitas vezes entrára com Liberata. Desde esse momento, qual das duas teria um melhor futuro?

Deus! como presenciaes, sereno e tranquillo em vossa magestade tremenda, a precipitação d'um anjo em cada dia!?{54}

Homem, que crês na effectiva vigilancia da Providencia, responde-me:

Se Assucena vai innocente a resvalar n'um abysmo, quem lhe dará a consciencia do erro? A perdição? Seja. Mas esse remorso tardio que lhe presta? A contrição? Seja. E, se ella morrer, blasphemando? O inferno?...

Valha-nos Deus!......................

 

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