A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 28 de 31

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A Neta do Arcediago

A Luz do Amor nas Trevas da Demencia.

A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA

 

DEMENCIA.

 

Desde agosto de 1842, época da apparição de Luiz da Cunha em Lisboa, Assucena cahiu n'uma tristeza inconsolavel, n'um ancioso desejo de morte que, continuamente, pedia a Deus, apesar dos seus principios de resignação, e abandono á vontade divina.

Nem Rosa Guilhermina, nem o padre Madureira podiam nada contra a misanthropia da neta do arcediago. Receavam-lhe a demencia, porque, muitas vezes, eram desconnexas as suas ideias, e incompativeis até com a sua religiosidade. Tentaram sahir com ella, por consentimento do visconde condoido, a uma distracção em viagem. Assucena recusava-se, e rejeitava com enfado as opportunas instancias de sua mãe.

Queriam adivinhal-a, e não achavam vereda que os guiasse. Sabiam que a sua devoção era cada vez mais fervente, e descobriram os cilicios com que cingia a cintura, e as disciplinas que lhe arrancavam gemidos alta noite.

As admoestações não aproveitavam nada. Esperavam todos os dias encontral-a douda, e o que de certo lhe faltava, para que assim a julgassem, era alguma acção peccaminosa, que desmentisse a rigidez do seu ascetismo.

Nunca perguntou por Luiz da Cunha, mas pedia sempre á Virgem Mãe que fosse a protectora d'elle, e o remisse da condemnação eterna, descontando-lhe os sofrimentos d'este mundo.

E seguiram-se assim, sem alteração para Assucena, os dias de seis annos. Em 1848 morreu a filha do arcediago{172} quasi repentinamente: mas desde muito que o seu testamento estava feito. Assucena era herdeira d'uma quinta no Minho, unica disposição que a mulher de José Bento podia legar.

Este golpe confirmou as conjecturas do padre Madureira. Assucena teve passageiros accessos de demencia. Convalescida, ordenou ao padre que lhe trouxesse um tabellião. Á solemnidade e bom tino da supplica, não resistiu o padre desconfiado.

Assucena dava o uso-fructo da sua quinta ao beneficiado Madureira, em quanto vivo, com a condição de elle fazer cumprir o legado de tres missas diarias: uma por alma do conego Bernabé Trigoso; outra por alma de D. Perpetua Trigoso; e outra por D. Rosa Guilhermina, sua mãe. Por morte do padre, a quinta passaria á Santa Casa da Misericordia com as mesmas condições para sempre.

Madureira, sabendo nas vesperas da partida, que Assucena se retirava para a sua quinta de Caldellas, na provincia do Minho, admoestou, supplicou, mas não conseguiu demovêl-a do proposito.

—A minha sahida d'esta casa—dizia ella—é o maior sacrificio que eu posso fazer. Deus m'o acceitará, porque no serviço de Deus me sacrifico. Preciso ser grata aos bemfeitores mortos, e ao vivo: os suffragios para os mortos, e a posse d'esta quinta, meu purgatorio e paraizo, para o meu bemfeitor.

—E deixa o seu bemfeitor com tamanha presença d'espirito, senhora D. Assucena!

—Deixo-o com a mais violenta dôr de coração. É o cilicio com que martyriso o meu espirito. Deus me levará em conta esta renuncia da convivencia com o meu bom amigo.

Madureira não podia constrangêl-a, receando abreviar uma loucura irremediavel.

Acompanhou-a ao Minho, na primavera de 1849. Estiveram alguns dias no Senhor do Monte, onde a melancolia de Assucena parecia desopprimil-a, alargando-lhe o coração pela amplitude do céo, que, n'aquelle local, convida a um scismar suavissimo, a uma santa saudade d'outra existencia, que deve ter precedido a das dôres terrenas.

A quinta de Caldellas é um eden. As aguas prateadas{173} do rio Homem banham-lhe as orlas verdejantes. Por entre as franças das acacias, enastradas no salgueiro, suspira a viração rescendente do perfume das flores maninhas. Em antigos tempos, o genio bucolico de um possuidor creára alli tudo que a invenção póde realisar de mais viçoso, de mais lympida frescura, de mais poetico devaneio.

O edificio é antigo, d'essa pittoresca architectura, sem escóla, respigada em todos os modêlos, e acizelada pela phantasia do que ahi quizera eternizar debaixo d'esse formoso céo os prazeres innocentes d'outras eras, d'outros idilios que raros corações concebem hoje.

Aos lados da magestosa entrada, erguem-se os cyprestes seculares, outr'ora confidentes de segredos que a mão do amor lhes entalhára na casca, perecedoura como tudo em que o homem quer perpetuar-se.

É essa a herança da neta do arcediago. Ahi fugiram tres mezes em deliciosos instantes a padre Madureira.

Chamavam-no a Lisboa as suas obrigações clericaes, e o quasi abandono em que deixára a quinta do Lumiar. Fôra, promettendo á lacrimosa Assucena, vir ahi passar todos os estios. Deixára-a acariciada pela velha serva que já o fôra do conego Trigoso. Dispôz o arrendamento da quinta para evitar á nova possuidora canceiras d'administração. Afflictivo fôra aquelle adeus! Assucena dos braços d'elle corrêra a lançar-se aos pés da cruz.

E, depois, o oratorio, a capella, as devoções eram a sua vida. Ninguem a encontrava fóra dos muros da quinta. Os proprios caseiros viam-na apenas atravéz de um véo negro, no côro da capella em dias santificados.

Os symptomas d'um transtorno intellectual eram sensiveis cada vez mais, não para ella que, toda absorta em Deus, não tinha ensejo de comparar-se com os moradores da terra; mas para a consternada velha que, de perto, lhe observava os gestos, os temores pueris, as visões beatificas, e até a imaginaria convicção de que o conego, em fórma de cherubim, a visitava em sonhos.

E, se acontecia descer, á tarde, ás margens do rio, sentia refrigerar-se no coração, respirava alto, sorria-se aos gratos risos da natureza, punha a mão no seio que se agitava em estranhas commoções d'um sentimento incognito, de uma saudade inexprimivel. E, de repente, ao{174} riso succediam as lagrimas; á instantanea frescura das rosas da face a pallidez do susto. Assucena fugia, dizendo que offendêra o Senhor com pensamentos mundanos. Fechava-se no seu quarto, soluçando a cada vergoada que se abria no corpo com as disciplinas.

Em 1850, padre Madureira veio ao Minho, e viu que a molestia progredia. Empregou uma religiosa severidade para arrancál-a á mystica exaltação; mas era tarde. O disparate principiava nas devoções de Assucena. Não queria entrar na capella, sem aspergil-a com agua-benta, por isso que vira erguer-se um homem amortalhado sobre o carneiro onde dormia o somno de duzentos annos o fundador d'aquella casa.

Um habil confessor não podéra aclarar o espirito enturbado da mysteriosa senhora. Imaginando-a em lucta com alguma paixão desditosa, franqueava-lhe as portas do mundo para que se não perdesse na região das chimeras. Assucena respondia com lagrimas ao confessor, e, apertada pela explicação das lagrimas e do silencio, gritava pela misericordia divina.

Madureira, despedindo-se d'ella no outomno de 1850, foi seguro de que não tornaria a vêl-a senão douda.

Previra bem.

Quando, em 1851, voltou, foi recebido com uma gargalhada. Assucena estava vestida com o seu chambre de cassa branca, e sapatos de duraque em fitas cruzadas nas pernas. Eram trastes dos dezoito annos, conservados ainda nos seus bahús de educanda. O padre respondeu com o pasmo e com as lagrimas á gargalhada.

—Porque chora?—disse ella, com tristeza.

—Porque choro? Oh minha filha!... não me pergunte porque choro...

—Tambem eu chorei, meu amigo, quando me disseram que o desgraçado tinha fome...

—Quem?

—Pois, quem!? Luiz da Cunha, esse verme que todos pizam, desde que me mordeu no coração. Se eu lhe perdoei, para que o perseguem? Deixem o infeliz! A deshonrada, a infamada, a martyr, fui eu... Não quero que ninguem me vingue...

—Assucena!...{175}

—Se eu fosse outra, procurava-o na cadêa... Fui eu que o abandonei primeiro... quando o meu padrasto o pôz a ferros... Que me importava a mim a sociedade! Quem me vem consolar das torturas que me tem custado este abandono!?...

—Isto parece incrivel, meu Deus!—exclamava o padre, voltando a face dos olhos abrazados de Assucena.

—Não me fuja, senhor padre Madureira. O senhor não tem culpa nos meus infortunios. Ha de sempre lembrar-me que levou o dinheiro ao desgraçado, e que lhe deu um bocado de pão, quando elle disse que tinha fome... Ouça-me... Onde está Luiz?

—Não sei, senhora.

—Pois eu quero vêl-o para perdoar-lhe...

—O seu perdão não melhora os infortunios d'elle. Deus é que perdôa...

—Sim, sim, Deus...

Assucena fugira da sala impetuosamente bradando: «Deus! Deus!» Madureira seguiu-a, e encontrou-a no seu quarto de joelhos, com os labios collados no pavimento, diante do oratorio.

Levantou-a, e viu-lhe os olhos embaciados d'aquella nevoa cinzenta da gôta coral. Sentou-a ao pé de si, e disse-lhe com voz tremula de compuncção:

—Minha filha... Venha comigo para Lisboa...

—Deus me livre! Elle ha de aqui vir ter.

—Luiz da Cunha?

—Sim.

—Viu-o alguma vez n'estes sitios?—perguntou o padre suspeitoso.

—Vi... passou, ha um anno, na estrada. Estava eu no portão pela parte de dentro. Espreitei, quando ouvi o tropel d'um cavallo. Era elle.

—Fallou-lhe?

—Não; nem elle podia vêr-me... Tem as barbas até á cintura; vestia uma jaqueta de pelles, e ia tão triste, tão macilento!... Teria elle fome?