A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 31

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A Neta do Arcediago

Capítulo XI

SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM

SÓ O CHRISTO.

 

O visconde de Bacellar, com quanto não fosse parte contra Luiz da Cunha, seu aggressor, aguilhoava indirectamente o ministerio publico. Difficultava-se, portanto, a soltura por fiança, que a lei não concedia na reincidencia do delicto, aggravado agora, por deserção e roubo, e entregue por isso á summaria jurisprudencia militar.

Padre Madureira, aconselhado, descoroçoou diante dos obstaculos; mas Assucena, como se tivesse um experimentado uso da omnipotencia do dinheiro, instou o padre, authorisando-o de novo para todas as despezas.

O mestre de recruta, seguro de que não morria da cutilada, transigiu por dinheiro com o seu discipulo rebelde, e declinou a accusação. O conselho militar, movido á piedade por não sei que figuras rhetoricas do agente de Assucena, despresou a virulenta accusação do auditor, acalorado por suggestões do visconde. O juiz criminal, um pouco indeciso, como o burro de Buridan, entre o codigo e a peita não mesquinha, negociada pelo escrivão do processo, absolveu o réo, dando assim um testemunho da sua moralissima independencia de viscondes.

O cabo de cavallaria foi militarmente condemnado a dous mezes de prisão, e baixa de posto a soldado raso. O seu plano de suicidio não vingou, á vista da limitada pena. Soubera que um braço poderoso o protegia, aluindo os obstaculos com alavanca de ouro. Conjecturou d'onde tal protecção poderia vir, e julgou-se ainda debaixo{103} da tutelar influencia de Liberata, que não podia deixar de ser o seu anjo valedor, em todas as crises.

Desvaneceu-se-lhe esta grata certeza, quando o carcereiro o chamou á sua sala, deixando-o só com um homem desconhecido, trajando batina, e sapato de fivela.

—O senhor Luiz da Cunha—disse Madureira—deve ter conhecido que alguem o protege. Ignora quem é, e eu, supposto que tenha sido o solicitador da sua soltura, não venho aqui dizer-lhe quem lhe evitou um degredo.

—Pois eu não hei de saber a quem devo tantos favores?!

—A pessoa, que lh'os faz, prescinde da sua gratidão, e deseja não ser conhecida. Receba os beneficios, e não queira vêr a mão invisivel que o protege, porque a não póde vêr. Quem quer que é, não limitou ainda a sua caridade com o senhor Luiz da Cunha. Ha tenções de lhe dar os meios para que o senhor deixe Portugal, e vá no Brazil, ou na Africa, tirar algum interesse do capital que se lhe dér aqui. Faz-lhe conta aceitar este beneficio?

—Aceito, cheio de reconhecimento. É o maior favor que me póde fazer esse Deus, que me ampara, seja quem fôr. Mas sou soldado, e preciso que me dêem baixa.

—Ha de têl-a. O senhor tem dividas?

—Tenho dividas; mas essas não me inquietam, porque os meus credores são ladrões civilizados. É dinheiro de jogo, que eu não pagaria ainda que podésse.

—Mas alguem quer que o filho do fallecido João da Cunha se retire honrado de Portugal, apparentemente ao menos.

—Isso meu caro senhor, é obra difficultosa. Eu não sei bem o que devo; mas, por um calculo approximado, não pago essas ladroeiras que me fizeram com oito contos de reis; e, se eu tivesse hoje quem me désse quatro, em cinco ou seis annos prometto que os faria chegar a cem.

—É admiravel que o senhor Cunha com essa finura commercial se arruinasse até ao extremo de ser soldado para não morrer de fome...

—Meu amigo, na adversidade é que se fazem os grandes calculos, e que se traçam os grandes planos.

—Pelo que vejo, os calculos e os planos de fazer que quatro contos produzam cem em cinco ou seis annos, só{104} se meditam quando o coração está de todo em putrefacção, e as algibeiras vazias...

—Parece-me que tem razão, senhor padre... Como se chama, meu caro senhor?

—Não me convém que o senhor me conheça, nem o meu nome lhe é uma cousa de importancia. Queira continuar. Disse que eu tinha razão...

—Sim, tem razão; mas não me lembra a que respeito eu disse que o senhor tinha razão...

—Tambem não importa. Sabe o que eu admiro, senhor Cunha? É a sua presença d'espirito!

—Nunca me faltou. Sou um verdadeiro philosopho, e peço-lhe acredite que nunca estudei philosophia. Ha tempos, quando me fizeram a grosseria de me trazer aqui, sem o meu consentimento, resolvi suicidar-me, em certo dia e a certa hora...

—Que foi o que o conteve?

—Foi essa pessoa que me protege, alliviando-me da condemnação, que me promettiam os meus juizes, sendo um d'elles um homem, que foi criado de meu pae, e é hoje do supremo conselho militar... Isto não vem nada ao caso... O facto é que me não suicidei, como o senhor vê, e desde então entrei nos grandes calculos, bem longe de sonhar que alguem me queria fazer rico, dando-me um capital, que eu levarei no Brazil a uma cifra fabulosa.

—Está, portanto, resolvido a sahir?

—Se fosse já, era uma fortuna.

—Ha de primeiro cumprir a sua sentença; ha de aqui receber os recibos dos seus credores, e para isso queira dizer-me quem elles são.

—Não me recordo... Deixemo-nos de credores, meu amigo...

—Um annuncio nos jornaes convidando-os a apresentarem os seus creditos, será sufficiente...

—Mas não lhe disse eu já que devo mais de oito contos, que são vinte mil e tantos cruzados?!

—Serão pagos.

—Mas quem é que se interessa tanto por mim?! O senhor ha de ter a bondade de me dizer a quem devo beijar as mãos. Isto parece-me um lance de novella! Já me lembrou se andaria aqui segredo do meu nascimento!{105}

—Do seu nascimento?! pois o seu nascimento é um segredo para alguem?

—É metade d'um segredo, pelo menos para mim. Não sei quem foi minha mãe, porque meu pae, que tinha razões para saber melhor que ninguem quem ella foi, nunca m'o disse. Imaginei que essa senhora viveria ainda, e teria mais dinheiro que eu... Não posso atinar com outra pessoa... Não tenho amigos, não sei d'onde me possa vir esta restituição, não me consta que seja o herdeiro presumptivo d'algum capitalista... emfim, aqui anda mysterio que o senhor padre póde pôr-me em linguagem portugueza, e eu prometto guardar inviolavel segredo, se fôr necessario esconder a beneficencia como se esconde um crime.

—Já lhe disse que não denunciava o seu bemfeitor.

—Seu, ou sua?

—Não tem resposta o reparo. O senhor Cunha deve ter a polidez d'um cavalheiro não me interrogando mais sobre tal assumpto.

—Pois bem: eu respeito o mysterio: nem mais uma palavra a tal respeito.

—Ora, diga-me, senhor, não tem pena de si? A sua quéda não lhe tem custado horas d'uma tormentosa reflexão?

—Declaro-lhe que abomino o estylo pathetico, fujo de entrar no sorvedouro da minha consciencia; ainda assim, para lhe mostrar que não sou insensivel á sua pergunta, respondo: tenho soffrido; tenho-me espantado da logica maldita dos meus infortunios, tenho combinado a minha ultima desgraça com o meu primeiro crime, tenho desejado morrer; mas, ao cabo de tudo, reconheço que as minhas desventuras são fataes, não as posso encadear, não sei prevenil-as, sou victima da minha organisação, obedeço ao fim para que fui creado, tenho tanto arbitrio no mal como o senhor no bem, represento o crime ao mesmo tempo que outro representa a virtude. Ora aqui tem o que me faz reflectir, estudar, e abrir a golpes o segredo do meu coração. Não consigo nada com isto, e evito o mais que posso os assaltos do pensamento. Que valem torturas de que se não sáe com o coração purificado? Antes de assentar praça, tive muitos d'esses exames de{106} consciencia, e fugia d'elles, e de mim, aterrado. Cheguei a desconfiar que me estava reformando na desgraça; mas o que se não reformavam eram as minhas botas, por que cheguei a pedir a esmola d'umas botas a um criado de meu pae. Ora, não ha reforma possivel n'um philosopho descalço. Eu queria ser pessoa de bem; mas entendo que os bons instinctos renascem no coração do perverso, quando o terrivel assedio das desventuras levantam o cêrco. Um rapaz, affeito ao luxo das commodidades, e pervertido n'ellas, não se divorcia voluntariamente do vicio, na indigencia. Se meu pae não está doudo n'essa occasião, e me recebe com carinho, e me perdoa sem me repellir da sua amizade, e me não nega o necessario para a decencia, parece-me que a minha vida passava por uma subita transfiguração. Aconteceu o contrario: vi-me abandonado; entendi que não havia Providencia para mim, e desobriguei-me de respeital-a.

—E lucrou, desobrigando-se?

—Não: bem vê que sou desgraçado, e talvez nunca recue n'este caminho em que vou.

—Mas deve recuar...

—Crê que é possivel? Diga lá como se é honrado.

—Sendo para os outros o que desejamos que elles sejam para nós.

—Os outros tem sido para mim algozes.

—Todos?

—Todos, sim.

—Então o senhor não tem feito victimas?

—D'essas victimas que por ahi fazem todos os dias os honrados pelo suffragio publico. Desarranjei o futuro de algumas mulheres; mas penso que todas vivem mais ou menos felizes. O desgraçado sou eu.

—E sabe que todas vivem felizes? A filha da viscondessa de Bacellar será feliz?

—Não sei; mas creio que sim. Dizem que vive n'uma quinta do infame padrasto, e naturalmente achará, como todas as outras, um marido, que não lhe encontre desfalque nenhum no coração. Essa mulher é um exemplo, que eu lhe cito, meu caro senhor, da fatalidade, que me persegue. Se ella fugisse com outro homem, o padrasto dotava-a, e ella casaria, fazendo a completa ventura do marido.{107} Como fugiu comigo, o padrasto insultou-me, cobriu-me epithetos affrontosos, obrigou-me a partir-lhe a cabeça...

—E a abandonar a pobre menina, que não era responsavel pelas antipathias do padrasto...

—São cousas ligadas... o abandono explica-se por não poder explicar-se... Digo-lhe sinceramente que não sei o que havia de fazer a essa mulher. Entendi que abandonal-a era restituil-a á mãe; e conserval-a minha amante era obrigal-a a cahir comigo no abysmo da miseria, fazendo-a testemunha dos esforços criminosos que eu faria para não cahir... Não me enganei... Assucena é hoje mais feliz sem mim... Estimo até que ella ignore a minha situação. O senhor conheceu-a?

—Não a conheci.

—Conhece a viscondessa?

—Sim, senhor.

—Como está essa pobre mulher? Será ella a minha protectora?!

—Não, senhor.

—De certo, não, por que o marido não a deixa entrar nos fundos do casal. É um grande patife! Tenho pena de não ser poeta! Queria escrever em verso chulo a biographia do filho de uma tal Anna Canastreira do Porto! O responsavel da desgraça de Assucena é elle, que a não quiz remir da deshonra com o valor de duas duzias de pretos dos centenares d'elles, que ainda hoje são empilhados por sua conta no porão dos seus navios. Depois, dizem que sou eu o perverso, o escandaloso, o malvado! Fique n'isto, meu amigo; os homens fizeram isto que sou. Dêem-me uma independencia, e verão que hei de esforçar-me para ser bom. Os homens hão de vir destruir-ma, e eu serei forçado a lutar com elles. Como tenho contra mim o destino, hei de ficar mal na luta desigual, e como vencido, em vez d'um ai, receberei um escarro na cara.

—Experimente o procedimento da honra, não em Portugal, porque os seus precedentes são pessimos para uma rehabilitação. Empregue o capital, que lhe derem, n'um ramo de commercio licito; aspire á independencia sem fausto; habitue-se a uma tranquilla mediocridade;{108} agouro que voltará um dia a Portugal cheio de benevolencia para o seu proximo, e enojado das tristes recordações do que foi.

—Póde ser......................

 

Os credores de Luiz da Cunha receberam, maravilhados da surpreza, os seus creditos, em uma casa commercial indicada pelas gazetas.

Cumprida a pena, o prêso recebeu com o alvará de soltura a baixa, e folha corrida do crime de ferimento na pessoa do visconde.

Fez a sua residencia em uma hospedaria, em quanto se fretava o navio em que devia transportar-se ao Brazil. Viveu alguns dias n'uma violenta coacção á sua vontade, que era mostrar-se n'uma sege a galope, n'um camarote, nos cafés, nos passeios, e nas praças. O desconhecido padre, porém, déra-lhe como preceito a reclusão no seu quarto, e Luiz obedecia, maniatado pela dependencia do capital promettido.

O seu mais forte desejo era seguir o padre para averiguar a morada da pessoa que o protegia. Acreditemos, ainda assim, que não era a ancia de beijar as mãos ao bemfeitor, que lhe estimulava uma nobre curiosidade. Era o simples desejo d'entrar no segredo da aventura romanesca. Se não obedecia ao desejo, resistindo ao silencio do agente da mysteriosa pessoa, é por que receava perder a beneficencia com a sua imprudente e até inutil indagação.

Chegado o dia do embarque, Madureira conduziu Luiz da Cunha a bordo, e ahi lhe disse que o capitão do navio lhe entregaria no Rio de Janeiro seis contos de reis, e algumas cartas de recommendação para negociantes portuguezes, que deviam dirigil-o na carreira mais prospera do commercio.

A essas horas, Assucena, ajoelhada no seu oratorio, pedia ao espirito de Bernabé Trigoso que não desamparasse o desgraçado, e lhe alcançasse de Deus para ella a bemaventurança, quando as suas virtudes a remissem das culpas na balança da divina justiça. A viscondessa de Bacellar entrou n'esse momento, a contar á filha o pasmoso procedimento de Luiz da Cunha, pagando as suas{109} dividas, sem que ninguem descobrisse d'onde poderiam vir-lhe vinte e tantos mil cruzados. Rosa Guilhermina ouvira de seu marido a espantada narração do successo, e não podéra ser superior ao pasmo de José Bento. Sem algumas suspeitas, admirou a impassibilidade de Assucena, quando o caso não era de se ouvir sem pasmo.

—Seria essa mulher com quem elle tem vivido?!—perguntava a viscondessa.

—Qual mulher, minha mãe?

—Essa dissoluta, que o teve á sua mesa?...

—Não foi, minha mãe... Fui eu.

—Tu!

—Fui eu, minha mãe!

A viscondessa, perplexa alguns segundos, abraçou, a chorar, sua filha, exclamando: