A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 31

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A Neta do Arcediago

Capítulo X

COMO OS ANJOS SE VINGAM.

 

Um anno corrêra tambem para Luiz da Cunha. As duas existencias, comparadas entre si, afiguram-se-nos o mytho de duas almas: uma tirando para Deus um vôo; a outra afundando precipitadamente na região das trevas, na infinita desesperação.

O rival do official maior de secretaria estabeleceu a sua residencia em casa de Liberata, noite e dia. O carinho com que ella o tratára na convalescença dos ferimentos, obrigára-o a sentimentos de gratidão, e a taes protestos de retribuir-lh'a em premios de inestimavel preço, que Liberata, tão incapaz de avalial-os como quem lh'os promettia, ria com cynica desenvoltura da sua rehabilitação, projectada por Luiz da Cunha.

O neto dos Faros, durante a sua enfermidade de vinte e tantos dias, entrára na região philosophica dos deveres sociaes, e confeccionára certas maximas de alta importancia para a sua futura felicidade.

A sociedade, que nos abomina, não tem direitos ao nosso respeito. Primeira maxima.

O escandalo, quanto mais estrondoso, mais grato áquelle que o dá, porque assim insulta uma hypocrisia astuciosa com que Tartufo e D. Basilio douram a pilula aos seus parvos admiradores. Segunda maxima.

Todo o homem tem direito a ser um infame, na opinião publica, quando é feliz na sua particularissima, e unica respeitavel. Terceira. {93}

A felicidade está em nós, não se reflecte dos juizos estranhos. Quarta, muito parecida com outra da sã philosophia. Os extremos tocam-se.

A mulher mais digna de nós é aquella que melhor serve as nossas propensões, quer viva na crypta subterranea das vestaes, quer se ostente de seios nús no estrado do alcouce. Quinta.

O homem que pede á opinião publica consentimento para amar uma, ou a outra, é um tolo. Sexta.

Et cetra.

E, de todas, concluiu que devia casar-se com Liberata, visto que era esta a mulher, que mais servia as suas propensões, e mais credito adquirira sobre o seu reconhecimento.

Este homem, que tocou da torpeza o extremo em que a compaixão se allia ao nojo, offereceu-se a Liberata, como marido. Esperava vêl-a saltar-lhe ao pescoço, fundindo-se em prantos de felicidade, e recebeu em resposta a gargalhada mais estridorosa, mais comica, e mais fulminante! Liberata tambem tinha as suas maximas, bebidas na fonte impura do seu amante; mas entre as do seu amante não se encontravam algumas, que eram a base fundamental de todas as outras no catecismo d'ella. Eram estas:

Toda a philosophia sem dinheiro é uma tolice.

Não ha nada que se pareça tanto com o mendigo como o philosopho pobre.

Bolsa vasia, intelligencia manca.

Sem dinheiro não se affrontam os desprêsos da sociedade.

Se não és rico, não sejas corrupto, porque o teu sapateiro não só te despresa, mas dá-te com o tira-pé.

Mulher, cahida em leito de ouro, levanta-se toucada de brilhantes.

A deshonra, que se estorce n'uma esteira, é que nunca se rehabilita.

Rehabilitar-se é ser precisa, desejada, invejada, e pesada a ouro.

Estes proverbios explicam a gargalhada de Liberata á muito séria proposta de Luiz da Cunha.

—Estás doudo!—accrescentou ella, batendo as palmas—Tragam-me{94} uma camiza de força para o meu pobre Luiz, que endoudeceu, e quer casar comigo!... Tu fallas sério?!

—Fallo sério... fallo-te com o coração.

—Pobre coração! Pois ainda tens d'isso? Não nos fica bem fazermos de creanças... Eu não sou Assucena, meu trampolineiro... —dizia ella, anediando-lhe as guias do bigode—Que será feito d'essa illustre menina?

—Não sei... dizem que está no Minho em uma quinta do padrasto... Mas diz-me cá, Liberata... Achas disparate o nosso casamento?!

—É uma bestialidade... Vou provar-te que nunca se disse mais tremenda asneira. Se casassemos, qual era o nosso futuro? Naturalmente seria, pouco mais ou menos, o que era ha dous mezes. Eu teria um amante rico para sustentar o meu marido pobre.

—Mas hoje não acontece assim.

—Se não acontece hoje, acontecerá ámanhã. Desde que o conselheiro foi despedido, gasto das minhas economias; mas as economias vão gualdidas. A sege e os cavallos estão á espera de comprador; os brilhantes irão depois da sege; depois dos brilhantes, meu caro Luiz, é necessario adquirir outros. Ora agora, imagina tu que és meu marido, e vê lá se te convém ficar atraz da porta, muito caladinho, para não assustar o amante.

—Mas eu pensei que renunciarias ao luxo que tens hoje, e te sacrificarias ao amor e á posse d'um só homem.

—Creancice! A primeira victima eras tu, e a segunda eu, e a terceira os credores. Pois tu pensas que eu valho alguma cousa se despir este vestido de sêda, com rendas de Escocia, e vestir um vestidinho de chita de uma costureira?! Parece que não tens gastado cincoenta mil cruzados a teu pae! Não te lembras que, ha dous annos, me deste um luxo extravagante para me phantasiares, como tu dizias, uma d'essas romanas que pareciam cahidas do ceo n'uma nuvem de perfumes?! E agora estavas resolvido a pôr um estanque, e mandar-me vender charutos ao balcão!

—É porque te amo, Liberata, e não sei como hei de indemnisar-te.

—Não me deves nada: estás recebendo o juro d'uma{95} divida. Sem ti, meu Luiz, não era eu nada. Foste tu que me fizeste conhecida dando-me em espectaculo de que eu lucrei muito, quando dizem que o escandalo faz perder. O americano apaixonou-se por mim no theatro, vendo-me comtigo. O capitão de fragata foi um irritante que fez dar saltos o americano. O americano fez dar saltos o conselheiro. Hoje és tu um irritante de muitos; mas, em quanto podér sustentar fidelidade, sou tua captiva. Quando não podér, digo-te adeus por algum tempo.

—E despedes-me?

—Que remedio! mas por ora não. Vamos vivendo sem cuidados, em quanto se não offerece uma conveniencia, que valha a pena da nossa separação por algumas horas... Deixar-te eu, isso é que nunca. É cá um capricho de mulher perdida, que se parece muito com os caprichos das mulheres aproveitadas...

Eis-aqui a posição social de Luiz da Cunha, dous mezes depois que fôra ferido. Comia e vestia das economias de Liberata. Indemnisava-a com uma permanente convivencia, e, muito instado, ao anoitecer, dava sósinho um curto passeio.

Este viver monotono, e impresistente para a sua inconstancia natural, fatigou-o. Liberata conheceu o cansaço do amante, e não se affligiu, porque tambem ella se sentia marasmada n'uma continuada repetição das mesmas sensações, cada vez mais arrefecidas.

E, depois, o filho de Ricarda habituára-se a julgar commum de dous os cabedaes de Liberata. Tomava das gavetas dinheiro, que não trazia de fóra, e, se algumas vezes trazia triplicada a quantia que levára, não lhe dava canceira a restituição dos fundos.

Luiz da Cunha jogava n'um terceiro andar na rua do Ouro, onde se congregavam em fraternal espoliação alguns negociantes, alguns bachareis vadios, poucos litteratos, e bastantes empregados publicos. Sempre infeliz, o parasita de Liberata recolhia muitas vezes colerico da perda, e encontrava a sua amante na cama, com a chave corrida por dentro.

Luiz da Cunha, n'essas occasiões, que foram muitas, sentia assaltos da consciencia, discutia com elles, e ficava sempre vencido, reputando-se infame. As maximas, que{96} forjára na cama, durante o periodo da cura, não lhe serviam auxilio nenhum n'esses combates com o senso-intimo. A devassa philosophia não lhe desviára, com lubricos esgares, os olhos despertos da alma do ponto negro, que a consciencia lhe mostrava, lá em baixo, no fundo da voragem.

Um dia, depois de oito mezes de hospedagem, Luiz da Cunha teve com Liberata esta importante prática:

—Meu caro Luiz, chegou a occasião de darmos um saudoso abraço por algum tempo. Ha oito mezes que temos gasto como se tivessemos descoberto a pedra philosophal. Feitos os meus calculos, não podemos assim viver mais quatro mezes, sem que eu venda a cama. Cavallos e sege já lá vão; as minhas pulseiras, e o meu collar estão empenhados. Tu tens jogado mais d'um conto de reis, e sei que deves seis ou sete a um tal Aboim, que vai ser meu amante. Mudemos de rumo, que o barco vai a pique. Já te disse que não sympathiso nada com a honrada miseria, e a miseria a que nos vamos reduzindo é d'aquellas que tem o inferno da desesperação, embora digam as novellas que uma tranquillidade de consciencia, mantida pelo trabalho honesto, é a suprema ventura. Será; mas eu deixo essa ventura á mulher do meu sapateiro; e penso que tu tambem...

—Isso quer dizer que...

—Adivinhaste, Luizinho. Não precisas acabar a phrase: tens uma penetrante intelligencia. Não achas que tenho razão?

—Tens...

—Agora o que deves fazer é as pazes com teu pae, e vê se elle te faz seu herdeiro, ou se o visconde dá á enteada um bom dote. Logo que eu tenha restaurado a minha fortuna, tanto te recebo pobre como rico; ponto é que eu possa prescindir do Aboim, como prescindi do conselheiro.

—Vejo que és sempre a mesma mulher!

—Não te comprehendo bem.

—És a Liberata que eu encontrei na rua do Ouro.

—Justamente a mesma.

—Uma certa Liberata, que appareceu no theatro com um novo amante, na mesma noite do dia em que a deixei.{97}

—Tal e qual.

—A mesma dissoluta.

—Essa censura é mais infame que tu. Que queres de mim, Luiz? Uma garantia para a tua subsistencia?

—Não quero nada.

—Pois então, vai, que vaes pago, e bem pago dos excessos com que me compraste. As nossas contas estão saldadas.

—Mas eu tenho sacrificado a ti a minha reputação.

—Fóra com a hypocrisia! Isto faz nojo! Tu não me sacrificaste nada; quem perdeu fui eu, e perdi tudo, porque de mais a mais o homem, que me queria indemnisar casando comigo, agradece-me agora com insultos. Se eu não fosse dissoluta, o que seria de ti?

—És muito infame lançando-me em rosto taes favores...

—Tu não córas, meu bom amiguinho. A differença entre nós é toda a meu favor, e, se não ha outra, a unica, que conheço, está entre o vestido e as calças. Eu sirvo-te com o meu dinheiro ha oito mezes. Desejei uma occasião de mostrar-me grata: encontrei-a, e fui quanto pude, e em quanto pude. Tu, nem agora, sabes dizer-me do fundo da escada: «obrigado, rapariga!»

—Hei de embolsar-te das tuas despezas...

—Como quizeres.

—Hei de atirar-te á cara com essas migalhas.

—De certo m'a quebravas, porque o volume não será pequeno. Ainda assim, vê se me acertas bem, porque bem sabes que tenho ainda o punhal com que feri por tua causa um homem, que teve a pouca vergonha de me fazer rica, e de me prometter para a velhice a felicidade, que tu me destruiste...

A disputa acalorou-se, e a lealdade do tachigrapho não póde, sem deshonestidade, progredir. Fiquemos, pois, aqui, sabendo que Luiz da Cunha sahiu impellido por um forte empurrão, e levou com a porta na cara, quando se voltava para retribuir liberalmente a amabilidade.

O alvitre de Liberata em quanto ao destino do seu expulso amante, era o mais judicioso. Luiz procurou a casa paterna, onde não entrára durante oito mezes. Encontrou seu pae, passeando n'uma sala com dous criados de vigia.{98} Estava completamente doudo: não conheceu o filho, supposto se deixasse beijar na mão, com um sorriso de amargo desprêso.

Os herdeiros presumptivos de João da Cunha, inimigos figadaes do filho bastardo, tinham judicialmente assumido a administração do vinculo. Os bens livres foram dados em penhora ao visconde de Bacellar. O doudo estava sujeito á restricta deliberação d'uma tutela, que lhe concedêra apenas o indispensavel para manter uma vida inutil.

Luiz não podia contar com cousa nenhuma d'aquella casa, a não querer limitar-se aos restos da mesa do pae, e a uma cama, d'onde seria expulso, logo que o doudo morresse.

O annel de ferro, que o apertava, não tinha um élo mal soldado por onde elle se evadisse á desgraça. Não tinha um amigo a quem pedisse um conselho; nem um indifferente que quizesse dar-lh'o. Procuravam-no os credores unicamente; e d'esses, alguns eram tão insoffridos, que se retiravam appellidando-o ladrão, ou fugindo á bôca de um bacamarte com que o devedor insoluvel os ameaçava.

Luiz da Cunha, em casa de seu pae, chegou ao extremo de não ter umas botas, e de pedil-as emprestadas ao seu criado para ceder a um impulso, que o fazia correr sem destino.

Chegaram-lhe as horas da profunda reconcentração. N'essas, a imagem de Assucena era uma braza de fogo sobre a chaga. O algoz não podia comportar a reminiscencia da victima. Recordal-a não era compadecer-se. Era imputar-lhe a causa das desgraças, que o assoberbavam: cerração absoluta de todas as suas esperanças.

Viveu assim dous mezes.

João da Cunha, quando menos se esperava, morreu da ultima congestão cerebral. Dizem que fôra terrivel a ultima hora lucida d'esse homem. O enigma dos dous cadaveres não lh'o perceberam os circumstantes. Ricarda todos suspeitavam que fosse a mãe de Luiz; mas esse outro cadaver, que lhe pedia contas de sua mulher, ninguem conjecturou quem podésse ser.

Seu sobrinho, filho de uma sua irmã, successor no{99} vinculo, mandou immediatamente fechar as portas. Luiz da Cunha teve oito dias de homenagem para resolver o seu destino, e chorar a morte de seu pae, que foi de todos o menor abalo, que podia soffrer aquella alma entorpecida para todas as impressões. A consciencia da desgraça vestira-lhe a sensibilidade nobre d'uma crusta impenetravel. Alli não entrava nada n'aquelle coração ossificado. Se alguma emoção estava reservada para animar a pedra, era o dinheiro, o dinheiro com deshonra, por todos os meios infames, com tanto que podésse tornar ao mundo e convertêl-o em fel, em escarneo, em vingança.

Mas esse dinheiro quem lh'o daria? Nem ao menos a chimera d'uma esperança absurda o lisongeava!

Luiz da Cunha apresentou-se n'um quartel de cavallaria, disse que queria assentar praça. O commandante conhecia-o, e condoêra-se da miseria com que se lhe apresentava um moço, que elle vira disputar em luxo e devassidão com os mais distinctos da sua fileira.

Prometteu-lhe proteccional-o, e elevou-o logo a cabo, com promessas de furriel, na primeira promoção.

Luiz da Cunha era melindrosamente tratado na recruta; mas, orgulhoso ou incivil, respondia com insultos á menor correcção do preceptor. Um dia travaram-se com palavras estimulantes, e por fim com as espadas. O mestre de esgrima foi ferido sériamente por traiçoeira cutilada, e Luiz da Cunha fugiu a cavallo, inutilisando assim a perseguição do momento.

Sem destino na fuga, achou-se em Villa Franca, a cinco leguas de Lisboa. Ahi vendeu o cavallo a um estalajadeiro pela terça parte do valor. Seguiu, Tejo acima, até Santarem. Refez-se de alimento para seguir jornada, e alugava cavalgadura para Coimbra, quando lhe deram voz de prêso, á qual tentou fazer uma resistencia, que lhe custou algumas cronhadas d'arma.

No dia seguinte á tarde entrava no Limoeiro, para ser julgado em conselho de guerra. D'esta vez não o soccorreram as solicitudes de Liberata. Luiz da Cunha pensava no suicidio, e emprasava para elle o momento posterior á deliberação do conselho de guerra. Dizia-se que o mais encarniçado agente contra o desertor era o visconde de Bacellar, que promettêra uma commenda da Conceição{100} ao auditor, se conseguisse que o conselho militar condemnasse o réo a degredo perpetuo.

O padre Madureira, com o seu sestro observador, não podia ignorar o essencial d'este successo. Condoído dos revezes d'aquelle infeliz, contou a Assucena, com sua permissão, os doze mezes da vida de Luiz da Cunha, desde as punhaladas até á entrada na cadêa. Cedendo á sua boa alma, deixava transpirar a compaixão das palavras, e attribuia a expiação á serie de desventuras, que o reduziram a assassino, e mais tarde o levariam á forca.

A compadecida censura do padre tinha um ecco no coração de Assucena. Os infortunios de Luiz da Cunha não podiam ser-lhe estranhos. Se, n'um momento de dolorosa exaltação, ella dissera que queria vingar-se, dez mezes tinham decorrido depois, e antes d'esse momento estavam alguns mezes de apaixonado delirio, de cega idolatria ao homem, que tão cruel lhe fôra. A religião, sucessora de todas as affeições de Assucena, operára em sua alma a maravilha do perdão para todas as injurias, d'onde quer que ellas viessem. Pensando na maldade de Luiz, e não podendo explical-a, attribuiu-a ao destino, interpretando assim do peor modo o livre arbitrio do homem remido pelos sacrificios de Jesus, e salvo pelas suas obras meritorias de recompensa, ou condemnado pelas infracções da lei divina. Esta anomalia intellectual é a enfermidade de muitas pessoas dedicadas, sem critica, ás cousas da fé, e descahidas, quando mais intentam levantar-se, nas grosseiras crenças do fatalismo, do destino, do «estava escripto» de Mafoma, e do quó Deus impulerit de Cesar.

Assucena viera a convencer-se do que tem de ser a respeito de Luiz da Cunha. Entendeu que uma vontade, superior á d'elle, o obrigava a ser mau para os outros, que serviam de instrumento providencial á sua desgraça. A Providencia era assim insultada pela innocente menina, e não admira que ella incorresse na heresia, que passa em Roma com os fóros de san doutrina.

D'esta conjectura ao perdão era logica a passagem.—Perdoar-lhe para amal-o—dizia ella na sua consciencia—isso nunca, em quanto a mão de Deus me não desamparar, mas perdoar-lhe para que a justiça divina se{101} aplaque; oxalá que a sua felicidade dependesse do meu perdão, que tão recommendado me foi pelos dous anjos que fallam do ceo...

Assucena acreditava no seu consorcio espiritual com as almas do conego, e de sua irmã. Está n'essa crença a explicação da fervente supplica que ella, em extasis, fizera, depois que o padre Madureira narrára compungido as desventuras de Luiz. Não sei se as almas lhe responderam; mas, de todo o meu coração, creio que sim. Não se explicam certos actos que divinisam a creatura, se a não considerarmos tocada d'um magnetismo que mana de fonte sobrenatural. Não posso conceber o heroismo do perdão de Assucena, sem concebêl-a sujeita á vontade d'um impulso divino, d'um condão de predestinada, d'uma qualquer força, que não seja esta, que imprime o movimento nas acções triviaes de cada homem, incapaz de produzir o que outro homem não produz.

Assucena devia recear-se de abrir sua alma ao padre Madureira. Devia; mas a coragem é o que espanta! Pede-lhe que soccorra Luiz da Cunha, visto que não tem pae, nem amigos. Offerece-lhe, para que o prêso seja solto, o dinheiro que quizer, com tanto que Luiz não saiba nem por sombras que é ella a que o salva. Isto, que pede, pede-o, chorando; e padre Madureira, tocado pelo enthusiasmo da caridade, não tem uma só palavra contra. Aceita o melindroso encargo, e promette esgotar todos os recursos, supposto se tema de não vencer os inimigos poderosos de Luiz.{102}