A Neta do Arcediago

Camilo Castelo Branco · Capítulo 26 de 31

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A Neta do Arcediago

As Primeiras e Ultimas Lagrimas de Luiz da Cunha.

AS PRIMEIRAS E ULTIMAS

 

LAGRIMAS DE LUIZ DA CUNHA.

 

E dez dias depois, João Maria das Neves tomava posse do cartorio d'escrivão do juizo ordinario no concelho de Ribeira de Pena. É escusado dizer-vos que Liberata o acompanhára, e, ao decimo dia de convivencia com Luiz da Cunha, eram visiveis os melhoramentos n'aquella physionomia macerada. Passado um mez, raiavam-lhe da tez, ainda mosqueada de betas côr de açafrão, uns longes da descomposta formosura. Luiz tinha soberba de poder tanto no espirito d'aquella mulher, unica no mundo para elle, unica pessoa que o não repellira, que se confiára á sua vontade, entregando-se-lhe sem condições.

O homem abandonado, só, desatado de todos os liames sociaes, revoca as potencias da sua alma para consubstanciar-se no coração da unica pessoa que o não abomina. Ha exemplos de affeições ferventes do salteador de estrada para a mulher que o recebe nos braços; do que aguarda na enxovia o dia do patibulo, do assassino por officio para a mulher que a chorar lhe dá esperanças de perdão. O instincto do sangue não adultera o da sociabilidade. A ancia d'uma affeição recresce, quando o opprobrio vem de todas as bôcas pedir o exilio do execrado de entre os homens.

Assim se explica o enlace de Luiz com Liberata. Não ha hypocrisia no afan com que a procura, em todas as horas vagas do trabalho. Succedem-se os dias sem um vislumbre de fastio. Vem as longas noites do inverno, sem{167} outra convivencia, encontral-os sentados ao fogão, contando-se mutuamente lances de duas biographias, que muitas vezes são saudadas com estrepitosas gargalhadas. Feitos para se encontrarem no mesmo atoleiro, é necessario que ahi se amem, que ahi se reconheçam, ahi se centralisem na mesma aspiração, e não tenham de que se envergonhar, um ante o outro, de infamias passadas.

Reconheceram-se, e amaram-se.

Pois não seria amor a soffreguidão d'aquelles beijos? Não seria amor a anciedade de Liberata, procurando-o, se lhe tardava vinte minutos mais, nos paços do concelho? Não seria amor o orgulho com que Luiz da Cunha fallava de sua esposa aos cavalheiros da terra?

Devia acontecer que Luiz da Cunha ignorasse os mais triviaes rudimentos dos processos judiciarios. Valêra-se d'um velho amanuense que tomára sobre si a administração do cartorio. Entretanto, o proprietario não curava de estudar, e cedia ao regente uma boa parte dos seus proventos, que eram poucos.

Luiz da Cunha conhecêra um contrabandista de Chaves, que lhe picára o desejo de tentar fortuna pelo contrabando. Liberata não se oppunha ao arbitrio do seu amante. As tentativas foram prosperas, e o audacioso contrabandista aventurára os seus capitaes, e outros contrahidos de emprestimo em arrojadas emprezas.

—Se a fortuna não encravar a roda—dizia elle a Liberata—em dous annos, iremos viver em Paris.

E, com effeito, a roda da fortuna girava com a velocidade dos seus caprichos. O escrivão não curava do officio, e raras vezes pedia contas ao regente. As suas continuadas excursões tornaram-se suspeitas; mas, no concelho, ninguem zelava os interesses do fisco, e Luiz da Cunha sortia das melhores sêdas os arredores por preços modicos, e enviava para o Porto e Braga valiosas carregações. No fim de dous annos, o contrabandista celebrava os annos de Liberata com um rico adereço comprado em Madrid, e adiava a sua sahida de Portugal por mais um anno, visto que não achava doze contos dinheiro sufficiente para de Paris metter, em grande, o contrabando em Portugal.

Tentára uma arriscadissima entrada de sêdas, quando os guardas-fiscaes, logrados sempre, velavam as fronteiras{168} desde Monção a Verim. Encravou-se a roda da fortuna. As cargas foram tomadas, e o contrabandista prêso. Luiz da Cunha para remir-se gastou tudo que possuia. Liberata foi a Chaves com o precioso peculio a salvar o amante. Choraram, abraçando-se no carcere? Não. A antiga amante do conselheiro dizia a Luiz, sorrindo:

—Vamos para Paris? Parece-me que fez neste mez seis anos que eu te fui buscar ao Limoeiro. É fado meu! O pior é não termos um conselheiro, que nos dê a sege... O mais tudo vai bem. Temos feijões em casa, e muito amor para prato de meio.

As authoridades queixaram-se ao governo, allegando que o funccionario publico João Maria das Neves era o primeiro contrabandista. Os jornaes de Lisboa reproduziram a accusação. Ia ser demittido, quando o ministro se achou coacto por um dos seus amigos que lhe citou uma historia d'uns quatrocentos mil reis...

O escrivão continuou funcionando. Vendeu o adereço de Liberata, e tentou novas aventuras em pequena escala. A sorte sorriu-lhe outra vez, com quanto as denuncias o rodeassem de perigos. Liberata acompanhava-o galhardamente nas emprezas. Montava com varonil perfeição. Grudava um bigode com gracioso arreganho; vestia um casaco de peles: cruzava com a perna em brunida bota d'agua um bacamarte, e lançava com um piparote para a nuca o chapéo sevilhano.

—Era esta a mulher que eu devia ter encontrado aos quinze annos!—dizia o filho de Ricarda.

Em 1845 o escrivão estava remido do preço com que comprára a liberdade dois anos antes. Resolvêra dar o ultimo assalto á vigilancia dos guardas. Eram doze cargas de panos d'alto preço, que podiam augmentar seis mil cruzados ao seu peculio. Deviam entrar por Almeida.

Luiz da Cunha apresentou-se ahi com a corajosa Liberata. As cargas pisaram algumas milhas de territorio portuguez, quando os guardas a cavalo, a toda a brida, lhe vinham no alcance. Os almocreves aperraram os bacamartes, com o contrabandista à frente. Liberata não se afastára de ao pé do seu amante. Travou-se um vivo tiroteio. Augmentaram os guardas. As cargas foram tomadas; dous almocreves morreram. Luiz da Cunha fugiu, e{169} a destemida cavalleira, com a clavina despejada, esporeava ao lado d'elle.

—Estás salvo—disse ella—mas eu estou ferida.

—Ferida! aonde?

—No peito... e creio que morrerei!

—Não digas tal... Apeia-te.

—Não, que ouço ainda o tropel de cavallos. Quero que te salves... Se eu cahir, não me levantes, que me não dás vida.

Galoparam alguns minutos. Pararam. Já se não ouvia o ruido dos cavallos nas extensas veigas de Pinhel.

—Apeemos—disse Luiz.

—Pois sim... Estou quasi morta, Luiz... Desaperta-me este collete... Vês?

—Vejo sangue...

—É no coração que eu sinto a bala. Isto não tem remedio...

—Vamos a Pinhel... Torna a montar, minha filha.

—Não posso, nem me importa morrer aqui ou em Pinhel.

—Isto é atroz!... Não te posso salvar!...

—Salvaste-me, Luiz. Morro contente assim... Agora é que as nossas contas estão saldadas. Tu tiraste-me da morte da alma, e eu quiz defender-te da morte do corpo. É um bom fim o meu! As mulheres virtuosas... raras são as que assim morrem... Se me não encontrasses perdida de todo, não poderias nada sobre mim... Fogem-me os sentidos, Luiz... É a vida... Deixa-me expirar bem perto do teu coração... Como é bom morrer-se com o perfeito juizo para se conhecer a pessoa que se deixa... com tanta saudade.. Que dôr!... o peor é deixar-te pobre... e... só... no mundo.

Liberata expirou.

As primeiras e ultimas lagrimas de Luiz da Cunha cahiram sobre as faces mortas d'essa mulher......

São quatro horas da madrugada.

Bateram á porta do parocho da matriz de Pinhel. O padre vem á janella e vê um vulto disforme na escuridão.

—Quem é?

—Um passageiro que pede a v. s.ª licença para poder{170} enterrar o cadaver d'um seu companheiro de jornada, morto de repente.

—Eu não concedo que se enterre ninguem sem ordem da authoridade civil. Não conheço o senhor, e não sei se se trata de esconder algum crime debaixo das telhas sagradas. Espere que seja dia para se lavrar auto, e depois fallaremos.

O compassivo pastor deu-lhe com a janella na cara, e retirou-se instado por uma voz roufenha de mulher que lhe recommendava carinhosamente que se não constipasse, que estava suado.

Era saber muito!