A Neta do Arcediago
Conclusão.
—E, por fim, é natural que se suicidasse...—disse Luiz da Cunha.
—É o que elle devia ter feito ha muito—concluiu o expositor da scena dos ossos.
O filho de Ricarda projectou ajuntar ás suas futuras obras um monumento a sua mãe.{183}
CONCLUSÃO.
São 24 de Setembro de 1853.
É meia noite.
Assucena pergunta ao egresso inseparavel:
—Que barulho é esse que fazem lá dentro?!
—Já disse a v. exc.ª que os caseiros, sabendo que uma quadrilha de ladrões apparecêra ao anoitecer na freguezia de S. Vicente, recearam que esta casa seja atacada, porque dizem lá por fóra que vive aqui uma senhora muito rica.
—Eu muito rica! Já o fui... agora não tenho nada...
—Pois sim; mas os ladrões não se persuadem d'isso, e quem sabe se virão cá? Os caseiros, á cautella, chamaram gente, e tratam de se pôr em defeza no caso que elles ataquem. V. ex.ª ainda que ouça tiros não tenha medo.
—Mas de que serve matal-os?! Se quer, eu vou dizer-lhes que não tenho nada, e elles vão-se embora.
—As cousas não correm assim, minha senhora. Salteadores não acreditam na palavra das damas. O melhor é defender-se cada qual, e eu estou certo que elles, em lhe zunindo o chumbo pelos ouvidos, vão prégar a outra freguezia.
O ruido de passos e vozes augmentou na sala. O egresso chamou a criada para ao pé de Assucena, e foi juntar-se ao povo.
—Que temos, rapazes?—perguntou elle.
—Os homens ahi estão.
—Quem os viu?
—Nós. Ouvimos estropear cavallos, e depois rugiu a ramada do portão, e vimos um homem, ou o diabo por elle, que saltava do muro para dentro. Depois buliram{184} na tranca e abriu-se a porta.... Quél-os vêr?... Olhe... senhor frei Antonio.... olhe aqui por entre estas faias.... Elles lá vem.... Ó rapazes, aqui é que se conhecem os homens! Quando eu disser «fogo» é fazer de conta que se acaba aqui o mundo... Deixa-os vir... Olha... quatro já eu lobrigo... Alli!... alli não se perde um quarto.... Deixa-os chegar mais.... É agora!... Fogo!
Despejaram-se doze espingardas ao mesmo tempo; e á detonação succedêra uma infernal algazarra dos defensores.
—Leva arriba, rapazes!—gritava o regedor aos seus—Cerca, tem mão, por esse lado...
E desceram ao páteo, animados pelo recuar dos salteadores. A sineta da capella dava áquella infernal orchestra de berros e tiros um tiple horroroso. Os ladrões recuavam, sustentando o fogo: accommettiam com denodo, um momento; mas a população que os cercava não cedia aos impetos da cohorte, militarmente, organisada em batalha á voz do chefe.
A sineta chamava chusmas de povo que affluiam disparando as armas. A quadrilha conheceu o perigo, e retirou accelerada; mas nem todos retiraram: um tinha cahido, e não se erguêra mais. Em redor d'este cadaver agglomerou-se a multidão. Approximaram-lhe da cara um archote de palha, e viram-lhe uma fenda de bala sobre a orelha direita.
Não era menos infernal o alarido do triumpho! Pegaram no cadaver e levaram-no para debaixo das janellas, depositando-o sobre um banco de pedra. O egresso veio ao quinteiro, viu-lhe a cara, e murmurou!...
—Pobre homem! morreu sem sacramentos!... Oxalá que tivesse um momento de contrição! E não está mal trajado... Deixem-no aqui ficar até amanhã, porque é necessario que o administrador o mande levantar...
Entrou no quarto de Assucena que batia os dentes como n'um tremor de catalepsia.
—Não tenha medo, minha senhora.
—Mataram alguem?
—Ficou um; mas lá vão os outros, que eram bastantes.
—Rezemos por alma d'esse que morreu...{185}
—Pois sim, rezemos—disse o egresso, ajoelhando ao pé d'ella.
—Poderá salvar-se?—disse ella, interrompendo a oração.
—Deus é pae de misericordia.
—Quem sabe se elle roubava por ter fome?...Vá vêr se elle não estará morto... poderemos ainda cural-o.
—Aquelle está bem morto, minha senhora.
—Então rezemos: Padre nosso, que estaes nos ceos, sanctificado seja o vosso nome... Não posso... Reze, senhor padre Joaquim... Eu estou muito afflicta... Quero tomar ar... Anna... quero-me vestir... Traz-me o meu vestido de seda preta de manga curta; os meus canhões de velludo preto; o meu lenço de ramos amarellos; a minha saia de renda; o meu chale de cazemira vermelho...
—Está com o accesso; não traga nada—murmurou o padre ao ouvido da criada.
—Não ouves, Anna? Então! Tambem tu me desobedeces! Ora vamos!
—Vá, vá dar-lhe essas cousas—tornou o egresso, e sahira para que ella se vestisse.
Assucena collocou-se diante do espelho.
—Como são grandes estes cabellos!...—disse ella, puxando dois graciosos pinceis de cabellos, que lhe sahiam dos angulos da maxilla inferior. Procurou anciosa uma tesoura, e aparou-os.
—Agora sim—disse ella com risonha satisfação—Assim estou mais bella para o noivado.
A criada ajudou-a a vestir. Vestida, olhou-se outra vez ao espelho, enfeitando na cabeça desgrenhada o lenço dos florões amarellos, e puxando para a garganta a grade preta do afogado no vestido.
—Agora, vamos.
—Onde, minha querida senhora?!
—Vamos passear no jardim... Quero esperal-o.
—Esperal-o... a quem?
—És tola! Pois não sabes que Luiz da Cunha vem receber-me esta noite?
—Oh minha Mãe Santissima, compadecei-vos d'ella!
—Que estás a dizer? Vens, ou vou só!?
O egresso entrou, chamando por Anna.{186}
—Que é?! Onde vai?!—perguntou elle a Assucena espavorida.
—Vou esperal-o.
—Não sahirá d'aqui... Sente-se n'esta cadeira.
—Não quero! Vou sósinha, sem medo nenhum. O meu Luiz é valente...
—É melhor acompanhal-a....—murmurou o padre.
E sahiram pela porta do jardim.
—Que linda noite!—disse ella, saltando entre os buxos.
—Está muito fria a noite, senhora D. Assucena.
—Fria! Ora essa! Calor tenho eu de mais no coração! Quantos annos tenho eu? Dezoito... Queriam que eu tornasse para as Commendadeiras! Isso sim!... Quem conheceu uma vez Luiz da Cunha, nunca mais o esquece... morre por elle... Sou sua mulher... Jurou-m'o nos braços d'elle quando eu fugia.... Porque estou eu aqui? Prenderam-me... fizeram bem! O amor violentado vence ou mata. Eu me desforrarei em risos de esposa das lagrimas que tenho chorado n'este desterro... Elle não tarda, e depois fujam os meus inimigos! Sim, fujam, que o meu esposo é muito valente!
—Recolha-se, minha senhora.
—Recolher-me?! ás Commendadeiras?
—Ao seu quarto...
—Não quero.... Deixem-me respirar.... Vamos ao portão esperal-o.
O egresso seguiu-a.
Ao passarem pelo quinteiro, onde estava o cadaver, com a fogueira do costume ao lado, Assucena perguntou:
—Que é aquillo?!
—É o corpo do ladrão que morreu—disse o padre, querendo afastal-a.
—Quero vêl-o... coitadinho!
—Não veja, senhora D. Assucena... A vista não é agradavel.
—Quero vêl-o... não tenho medo aos mortos...
E forçou a desprendêl-a o braço do padre. Levantou um tição da fogueira, approximou o clarão azulado da face do cadaver,... soltou um grito que se não descreve,{187} nem se imagina, deixou cahir o lume, correu n'um impeto vertiginoso, com as mãos agarradas á cabeça pela quinta abaixo, na ladeira que conduzia ao rio Homem.
É ocioso dizer-vos de quem era o cadaver. O primeiro momento de repouso para Luiz da Cunha principiava alli. Foi abençoada a bala que o salvou do patibulo.
O egresso não podia alcançar Assucena na carreira... Gritou por soccorro, por ella, por Deus, por Maria Santissima. Tinha-a já perdido de vista, quando ouvia o chofre d'um corpo que baqueava na agua.
No Braz Tizana de 24 de Setembro de 1853 lê-se o seguinte:
«Um cadaver.—No rio Homem, acima da ponte de Caldellas, appareceu o cadaver de uma mulher de trinta e seis a quarenta annos; tinha vestido de sêda preta, e parece ser pessoa de consideração.»
No mesmo jornal de 28 do mesmo mez e anno lê-se o seguinte:
«Signaes d'um cadaver.—A mulher que appareceu morta acima da ponte de Caldellas, tinha os signaes seguintes: idade trinta e seis a quarenta annos; cabello e sobre-olho castanho-escuro; bôca e nariz regular; rosto redondo; labios grossos; e no queixo de uma e de outra parte alguns cabellos que mostravam ter sido aparados; um pequeno buço; vestido de seda preta com pouco uso; manga curta; canhões de velludo preto; grade preta no afogado do mesmo vestido, e o corpo forrado de panninho entrançado, côr de flôr de alecrim e vermelho, com tres espartilhos no peito; chale de cachemira vermelho em meio uso, com franja em volta, barra, e ramos pretos; na cabeça um lenço grande azul, com ramos amarellos, de algodão, e barra da mesma côr; saia de morim branco em bom uso com uma estreita renda em volta; saiote de baieta de seda branca com cinco pannos quasi novo, e um pente a fingir tartaruga rendilhado e moderno; camisa de panninho com manga curta. Ainda se não sabe quem seja.»{188}
Lê-se no Portuense de 10 de Novembro de 1853:
«Ha dois mezes annunciaram os jornaes do Porto a apparição de um cadaver de uma senhora n'um dos rios de Braga ou Guimarães. Tornaram os jornaes a fallar n'este cadaver dando as mais minuciosas informações de vestidos, de physionomia, de idade, e até de conjecturas sobre o genero de morte que soffreria a supposta senhora. Seguiu-se a isto um profundo silencio e nem ao menos respirou a noticia de menor acto administrativo na investigação d'este acontecimento. Póde ser que se désse um drama muito mysterioso, com peripecias muito horriveis, mas o publico tem direito a perguntar se a senhora ou mulher foi assassinada ou se se suicidou?»
A resposta ao Portuense é um livro.{189}
FIM
Indice
I.—UM BERÇO BORRIFADO DE SANGUE.
II.—O FRUCTO DA SEMENTE AMALDIÇOADA.
III.—ASSUCENA.
IV.—CONTAGIO.
V.—UM ANJO CAHIDO.
VI.—ANJO CAHIDO, MAS AINDA ANJO.
VII.—PERDIDO SEM REDEMPÇÃO
VIII.—PROVIDENCIA OU ACASO?
IX.—HERANÇA DE VIRTUDE E OURO.
X.—COMO OS ANJOS SE VINGAM.
XI.—SÃO MUITOS OS LAZAROS; MAS UM SÓ O CHRISTO.
XII.—FASCINAÇÃO DO ABYSMO.
XIII.—EXPLOSÃO DA INFAMIA REPRESADA.
XIV.—CAVAR PARA OS OUTROS A SEPULTURA, E PARA SI O
INFERNO.
XV.—LOGICA DO INFORTUNIO.
XVI.—TENHO FOME! ESTOU HA TRES DIAS SEM PÃO!
XVII.—AS PRIMEIRAS E ULTIMAS LAGRIMAS DE LUIZ DA
CUNHA.
XVIII.—A LUZ DO AMOR NAS TREVAS DA DEMENCIA.
XIX.—UM VEIO NOVO A EXPLORAR.
CONCLUSÃO.
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Camilo Castelo Branco
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