A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 9 de 23

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A Outra Face

Capítulo 8 · - Aceita um drinque?

 

McGreavy sacudiu a cabeça com uma expressão carrancuda, examinando Judd. Enquanto McGreavy o observava sem fazer qualquer comentário, Judd serviu-se de uma dose dupla de scotch.

Suas mãos ainda estavam tremendo. À medida que o calor do uísque começou a se espalhar pelo seu corpo, ele foi relaxando.

McGreavy entrara em seu consultório dois minutos depois de as luzes terem voltado a se acender. Com ele estava um impassível sargento de polícia, que tomava notas taquigráficas das declarações de Judd.

- Vamos repassar toda a história, Dr. Stevens - pediu McGreavy.

Judd respirou fundo e pôs-se a contar tudo novamente, procurando manter a voz calma e baixa:

- Fechei o consultório e segui para o elevador. As luzes do corredor se apagaram. Achei que as luzes dos andares inferiores talvez estivessem funcionando e comecei a descer a escada. Judd hesitou, revivendo todo o medo que sentira.

- Vi alguém subindo a escada com uma lanterna. Gritei-lhe. Pensava que fosse Bigelow, o vigia noturno. Não era.

- E quem era, então?

- Eu já lhe disse que não sei. Ninguém me respondeu.

- E o que o faz pensar que estavam subindo para matá-lo?

Uma resposta irritada aflorou nos lábios de Judd, mas ele se conteve. Era fundamental que McGreavy acreditasse nele.

- Eles me seguiram até aqui.

- Acha que havia dois homens querendo matá-lo?

- Pelo menos dois. Ouvi-os sussurrando na sala de recepção.

- Disse que trancou a porta que dava para o corredor ao entrar na sala de recepção. Não foi isso mesmo?

- Foi.

- E que, quando entrou aqui nesta sala, trancou a porta que dá para a sala de recepção.

- Exatamente.

McGreavy foi até a porta que dava para a sala de recepção.

- Eles tentaram forçar a porta?

- Não.

Judd recordou-se de que ficara surpreso com isso.

- É preciso uma chave especial para se abrir do corredor a porta da sala de recepção, não é? Judd hesitou. Sabia aonde McGreavy estava querendo chegar.

- É, sim.

- E quem tinha as chaves que abriam aquela porta? Judd sentiu seu corpo ficar vermelho.

- Carol e eu.

A voz de McGravy era afável.

- E o pessoal da faxina? Como é que entra aqui?

- Tínhamos um acerto especial. Carol chegava mais cedo três vezes por semana e deixava o pessoal da faxina entrar. Eles acabavam de limpar tudo antes da chegada do meu primeiro paciente.

- Parece-me um tanto inconveniente. Por que não lhes permitia entrar aqui livremente, como acontece em todos os outros escritórios?

- Porque os meus arquivos são altamente confidenciais. Prefiro a inconveniência a ter estranhos por aqui, sem ninguém de confiança presente.

McGravy olhou para o sargento, para certificar-se de que estava anotando tudo. Satisfeito, voltou a concentrar-se em Judd.

- Quando entramos na sala de recepção, a porta estava aberta. Não tinha sido arrombada, mas sim aberta normalmente.

Judd não disse nada. McGreavy continuou:

- Acabou de dizer-nos que somente o senhor e Carol tinham chaves daquela porta. E nós estamos com a chave de Carol. Pense bem, Dr. Stevens. Quem mais tinha uma chave daquela porta?

- Ninguém.

- Então como acha que os homens conseguiram entrar? Subitamente Judd compreendeu.

- Eles tiraram uma cópia da chave de Carol quando a mataram.

- É possível - admitiu McGreavy, exibindo um sorriso frio. - Se tiraram mesmo uma cópia, vamos encontrar vestígios de parafina na chave. Mandarei fazer um teste no laboratório. Judd assentiu. Teve a sensação de obter uma vitória, mas a satisfação foi de curta duração.

- Na sua opinião, Dr. Stevens, dois homens, e vamos admitir por enquanto que não havia mulher alguma envolvida, tiraram uma cópia da chave para poderem entrar em seu consultório e matá-lo. Certo?

- Certo.

- Disse há pouco que trancou a porta interna ao passar para a sua sala. Certo?

- Certo.

A voz de McGreavy era quase humilde:

- Mas encontramos a porta aberta também.

- Eles deviam ter também uma chave dessa porta.

- E por que não o mataram depois de abri-la?

- Eu já lhe expliquei: eles ouviram as vozes no gravador e...

- Está querendo-me dizer que dois assassinos desesperados prepararam tudo, apagaram as luzes, encurralaram-no aqui dentro, conseguiram entrar... e depois sumiram no ar sem tocar num só fio de seu cabelo?

A voz de McGravy tinha um tom inconfundível de desprezo. Judd sentiu uma raiva fria irromper dentro de si.

- O que está querendo dizer?

- Vou trocar em miúdos, Doutor. Não creio que ninguém tenha estado aqui e não acredito que estejam querendo matá-lo.

- Não precisa aceitar a minha palavra tão-somente - disse Judd furioso. - E o que me diz das luzes? E o que me diz do vigia noturno, Bigelow? - Ele está lá no saguão.

O coração de Judd parou por uma batida.

- Morto?

- Não estava quando nos abriu a porta. Houve um defeito na casa de força e Bigelow desceu ao porão para concertar. Tinha acabado o serviço quando chegamos.

Judd fitou-o por um longo tempo em silêncio, completamente aturdido. Finalmente exclamou:

- Oh!

McGreavy encaminhou-se para a porta, acrescentando:

- E faça-me um favor: não me telefone novamente. Pode deixar que eu voltarei a procurá-lo. O sargento fechou seu bloco ruidosamente e acompanhou-o.

Os efeitos do uísque se dissiparam. A euforia desapareceu e Judd mergulhou numa profunda depressão. Não tinha a menor idéia do que fazer agora. Estava mergulhado num quebra- cabeças que não tinha nenhuma chave para ser decifrado. Sentia-se como um garoto que gritava "lobo". Só que os lobos eram fantasmas mortais e invisíveis, que pareciam desaparecer toda vez que McGreavy se aproximava. Fantasmas ou... Havia uma outra possibilidade. Era tão terrível que Judd não podia sequer admiti-la. Mas precisava fazê-lo.

Tinha que enfrentar a possibilidade de ele ser um paranóico.

Uma mente excessivamente tensa pode gerar ilusões que lhe parecem reais. Ele andava trabalhando demais! Há anos que não tirara férias! Era bem possível que as mortes de Hanson e Carol tivesse sido o agente catalizador que empurrara sua mente em algum precipício emocional, no qual os fatos mais insignificantes assumem proporções extremas e despropositadas. As pessoas que sofrem de paranóia vivem num mundo em que as coisas comuns do cotidiano constituem terrores incríveis. O acidente com o carro, por exemplo. Se fosse uma tentativa deliberada de matá-lo, o motorista do carro certamente teria saltado para se certificar de que o trabalho fora feito. E os dois homens que haviam aparecido ali naquela noite. Ele nem sequer se apercebeu se eles estavam armados. A primeira suposição de um paranóico não seria a de que tinham vindo matá-lo? O mais lógico seria imaginar que eram apenas ladrões.

Ao ouvirem as vozes em sua sala, tinham tratado de fugir. Se fossem mesmo assassinos, teriam escancarado a porta e tratado de matá-lo. Mas como ele podia descobrir a verdade? Judd sabia que era inútil apelar novamente à polícia. Não havia ninguém a quem pudesse recorrer...

Uma idéia começou a tomar forma em sua mente. Era uma conseqüência do seu desespero. Mas, quanto mais a examinava, mais achava que não tinha outra saída. Pegou o catálogo telefônico e começou a folhear as páginas amarelas.