A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 10 de 23

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A Outra Face

Capítulo 9 · Às quatro horas da tarde do dia…

 

Às quatro horas da tarde do dia seguinte Judd deixou seu consultório e seguiu para um endereço no West Side. Era uma casa de apartamentos antiga e decadente, escurecida pelo passar do tempo. Ao parar o carro em frente ao prédio, Judd começou a sentir apreensões. Talvez tivesse anotado o endereço errado. Mas logo uma placa numa janela do primeiro andar chamou sua atenção:

 

NORMAN Z. MOODY

Investigador Particular Satisfação Garantida

 

Judd saltou do carro. Era um dia frio, com muito vento, anunciando a neve que não tardaria a cair. Ele atravessou rapidamente a calçada gelada e entrou no vestíbulo do prédio.

O lugar tinha o cheiro rançoso de muitas refeições cozinhadas e de urina. Judd apertou o botão marcado "Norman Z. Moody - 1". Um momento depois soou uma campainha. Ele passou para um corredor escuro e logo encontrou o apartamento 1. Uma placa na porta dizia:

 

MORMAN Z. MOODY

Investigador Particular

TOQUE A CAMPAINHA E ENTRE

 

Judd tocou a campainha e entrou.

Evidentemente Moody não era um homem dado a gastar dinheiros com luxos desnecessários. O escritório parecia ter sido mobiliado por um rato do campo, desses que gostam de pegar e guardar tudo o que se encontra, cego e com um problema de tireóide. Bugigangas se acumulavam em todos os centímetros disponíveis na sala. A um canto havia um biombo japonês, bastante avariado. Perto, um abajur de pé empilhado e, em frente uma mesa escalavrada no estilo dinamarquês moderno.

Jornais e revistas velhas estavam empilhados por toda a parte.

Subitamente abriu-se uma porta interna e Norman Z. Moody apareceu. Ele devia ter cerca de 1,65 metros de altura e pesava aproximadamente 150 quilos. Sacudia-se todo ao andar fazendo Judd pensar num Buda animado. O rosto era redondo e jovial, com olhos azuis grandes, claros e francos. Era totalmente calvo e sua cabeça tinha um formato de ovo. Era impossível definir-lhe a idade.

- Sr. Stevenson?

- Dr. Stevens.

- Sente-se, sente-se.

Buda com um sotaque arrastado dos sulistas.

Judd olhou em redor, procurando um lugar onde sentar-se. Removeu uma pilha de revistas de mudismo e de aperfeiçoamento corporal de cima de uma poltrona de couro de aspecto escrofuloso, com muitas tiras rasgadas, e sentou-se cautelosamente.

Moody sentou seu corpo imenso numa cadeira de balanço de tamanho descomunal.

- Muito bem... O que posso fazer pelo senhor?

Judd compreendeu que cometera um erro. Pelo telefone, fornecera seu nome completo a Moody. Um nome que estivera nas primeiras páginas de todos os jornais de Nova York nos últimos dias. E conseguira escolher o único detetive particular de toda a cidade que ainda não ouvira falar nele. Judd procurou rapidamente algum pretexto para sair dali imediatamente.

- Quem me recomendou?

Judd hesitou, não querendo ofendê-lo.

- Encontrei seu nome nas páginas amarelas. Moody riu.

- Não sei o que faria sem as páginas amarelas. A maior invenção do mundo desde o uísque de milho.

Ele soltou outra risadinha brusca. Judd levantou-se. Não havia a menor dúvida de que estava mesmo tratando com um idiota completo.

- Lamento ter tomado o seu tempo, Sr. Moody. Gostaria de pensar mais um pouco antes de...

- Claro que compreendo. Mas terá que me pagar pela entrevista.

- Não há problema.

Judd meteu a mão no bolso e tirou algumas notas.

- Quanto é?

- Cinqüenta dólares.

- Cinqüenta...?

Judd engoliu em seco, furioso, mas separou algumas notas e colocou-as na mão de Moody, que contou o dinheiro cuidadosamente.

- Muito obrigado - disse Moody.

Judd encaminhou-se para a porta, sentindo-se um tolo.

- Doutor...

Judd virou-se, Moody estava sorrindo, com uma expressão benevolente, enfiando o dinheiro no bolsinho do colete.

- Já que gastou os seus cinqüenta dólares, poderia muito bem sentar-se de novo e contar-me

o seu problema. Eu sempre digo que nada alivia mais que pôr para fora as coisas que nos estão oprimindo.

A ironia da observação, partindo daquele gordo tolo, quase fez Judd rir. Ele devotaria toda a sua vida a ouvir as pessoas que estavam precisando desabafar. O que tinha a perder? Talvez conversar com um estranho pudesse ajudar. Lentamente ele voltou para a poltrona e sentou- se.

- Parece que está carregando todo o peso do mundo, Doutor. Eu sempre digo que quatro ombros valem mais do que dois.

Judd não tinha muita certeza de quantos aforismos de Moody conseguiria suportar. Moody observava-o atentamente.

- O que o trouxe aqui, Doutor? Mulheres? Ou dinheiro? Eu sempre digo que, removendo-se as mulheres e o dinheiro, quase todos os problemas do mundo estão resolvidos.

Moody continuou a olhar para Judd, esperando por uma resposta.

- Eu... eu acho que alguém está querendo matar-me. Os olhos azuis piscaram.

- Acha?

Judd ignorou a pergunta.

- Talvez pudesse fornecer-me o nome de alguém especializado na investigação desse tipo de coisas.

- Mas é claro que posso: Norman Z. Moody. O melhor do país.

Judd suspirou de desespero.

- Por que não me conta tudo, Doutor? Vamos ver se duas cabeças juntas conseguem pensar melhor.

Judd não conseguiu conter o sorriso. Moody parecia-se tanto com ele próprio! "Apenas". deite-se e diga qualquer coisa que lhe passe pela cabeça ". Por que não? Judd respirou fundo e" relatou a Moody, o mais concisamente possível, os acontecimentos dos últimos dias. Ele estava, na realidade, falando para si mesmo, traduzindo em palavras todas as coisas atordoantes que haviam ocorrido. Evitou cuidadosamente qualquer referência às suas apreensões a respeito da sua própria sanidade mental. Quando Judd acabou, Moody fitou-o com uma expressão jovial.

- Está com um problema e tanto, Doutor. Ou alguém está mesmo querendo matá-lo ou então o senhor está com medo de se transformar num paranóico esquizofrênico.

Judd ficou surpreso. Tinha que reconhecer que Norman Z. Moody marcara o primeiro ponto.

- Disse que há dois detetives trabalhando no caso, Doutor. Lembra-se dos nomes deles? Judd hesitou. Estava relutante em se comprometer mais a fundo com aquele homem gordo. Tudo o que realmente queria agora era sair dali. Mas acabou dizendo:

- Frank Angeli e Tenente McGreavy.

Houve uma mudança quase imperceptível na expressão de Moody.

- Que razão alguém poderia ter para matá-lo, Doutor?

- Não tenho a menor idéia. Pelo que sei, não tenho nenhum inimigo.

- Ora, deixe disso. Todo mundo tem inimigos. Eu sempre digo que os inimigos são o sal do pão da vida.

Judd procurou não estremecer.

- Casado?

- Não.

- É bicha, por acaso? Judd suspirou.

- Escute, já conversei tudo isso com a polícia e...

- Eu sei. Só que agora está-me pagando para ajudá-lo - disse Moody, imperturbável. -Deve dinheiro a alguém?

- Só as contas mensais normais.

- O que me diz dos seus pacientes?

- O que deseja saber a respeito deles?

- Eu sempre digo que, quando se quer encontrar conchas é preciso ir à praia. Seus pacientes são todos pirados, não é mesmo?

- Não - disse Judd rispidamente. - São pessoas com problemas.

- Problemas emocionais que não podem resolver sozinhos. Algum deles poderia ter algo contra o senhor? Não me estou referindo a um motivo real de queixa, mas talvez alguém alimente um ressentimento imaginário.

- É possível. Só que a maioria dos meus pacientes está-se tratando comigo há um ano ou mais. E nesse tempo pude conhecê-los tão bem quanto um ser humano pode conhecer a outro.

- Eles nunca ficam com raiva do senhor? - indagou Moody, com uma expressão inocente.

- Algumas vezes. Mas não estamos procurando alguém que possa ter raiva de mim e sim um paranóico homicida que já matou pelo menos duas pessoas e fez mais de uma tentativa para me matar.

Judd hesitou, mas depois viu-se obrigado a acrescentar:

- Se eu tenho um paciente nessas condições e não sei, então o senhor está olhando para mais um incompetente psicanalista que já existiu.

Judd ergueu os olhos e viu que Moody o examinava atentamente.

- Eu sempre digo que devemos tratar primeiro das coisas que vêm em primeiro lugar -disse Moody, jovialmente. - E a primeira coisa que temos de descobrir é se alguém está mesmo tentando liquidá-lo ou se o senhor está ficando maluco. Não é mesmo, Doutor?

Ele abriu um sorriso largo, que iluminava qualquer possibilidade de insulto em suas palavras.

- E como vamos descobrir?

- É bem simples, Doutor. Seu problema é que está rebatendo bolas que descrevem uma curva e não sabe se há alguém que as lança. Em primeiro lugar, vamos descobrir se está mesmo havendo um jogo. Depois descobriremos quem são os jogadores. Tem carro?

- Tenho.

Judd já esquecera completamente a idéia de sair dali e ir procurar outro detetive particular. Sentia agora que, por baixo do rosto inocente e afável de Moody e de suas máximas de algibeira havia uma capacidade tranqüila e inteligente.

- Acho que está com os nervos abalados, Doutor. Quero que tire uns dias de férias.

- Quando?

- A partir de amanhã.

- Mas isso é impossível! Tenho pacientes marcados e... Moody interrompeu-o:

- Cancele todas as consultas.

- Mas de que vai adiantar...

- Eu por acaso lhe digo como deve cuidar dos seus negócios? Quando sair daqui, quero que vá direto a uma agência de viagens. Peça que lhe façam uma reserva...

Moody pensou por um momento antes de continuar:

- ...No Grossinger's. É uma bela viagem de carro através das montanhas Catskills. O prédio em que mora tem garagem?

- Tem.

- Pois então peça que preparem seu carro para a viagem. Não vá querer enguiçar no meio do caminho!

- Não posso deixar para a próxima semana? Amanhã tenho um dia cheio...

- Depois que fizer a reserva, vá direto para seu consultório e ligue para todos os seus pacientes. Diga-lhes que se trata de uma emergência e que estará de volta dentro de uma semana.

- Mas não posso realmente fazer isso. É fora de...

- É melhor telefonar para Angeli. Não quero que a polícia comece a procurá-lo depois de partir.

- Mas por que tenho de viajar?

- Para proteger os seus cinqüenta dólares. O que me faz lembrar de uma coisa: vou precisar de mais duzentos como sinal. Cobro cinqüenta dólares por dia mais as despesas.

Moody ergueu o corpo imenso da cadeira de balanço.

- Quero que saia bem cedo amanhã, para que chegue antes do anoitecer. Pode partir por volta das sete horas da manhã?

- Creio que sim. O que irei encontrar quando chegar lá em cima?

- Com um pouco de sorte, talvez consiga marcar um ponto no jogo em que está metido. Cinco minutos depois, Judd voltava a seu carro, pensativo. Dissera a Moody que não poderia partir assim de repente, cancelando as consultas com tão pouca antecedência. Mas sabia que era exatamente isso o que iria fazer. Estava literalmente pondo a sua vida nas mãos daquele falstaff do mundo da investigação particular. Ao arrancar, ele olhou novamente para a placa que estava pendurada na janela:

 

"SATISFAÇÃO GARANTIDA"

 

"É bom que seja mesmo", pensou Judd, sombriamente.

Os planos para a viagem foram executados sem qualquer contratempo. Judd parou numa agência de viagens de Madison Avenue. Reservaram-lhe um quarto no Grossinger's e forneceram-lhe um mapa rodoviário da região e diversos folhetos coloridos sobre as montanhas Catskills. Em seguida ele ligou para o serviço de recados telefônicos e pediu que telefonassem para todos os pacientes e cancelassem as consultas, até nova comunicação. Depois telefonou para o 19º Distrito e pediu para falar com o Detetive Angeli.

- Angeli está em casa, doente - disse uma voz impessoal. - Quer o número da casa dele?

- Quero.

Momentos depois, Judd estava falando com Angeli. Pela voz dele, devia estar com um tremendo resfriado.

- Cheguei à conclusão que estou precisando sair da cidade por alguns dias - disse Judd. - Vou partir amanhã de manhã. Mas antes queria informá-lo.

Houve um silêncio prolongado do outro lado, enquanto Angeli pensava no assunto.

- Até que não é má idéia, Doutor. Para onde pretende ir?

- Pensei em ficar no Grossinger's.

- Está certo. Não se preocupe. Resolverei tudo com McGreavy. Angeli hesitou por um instante.

- Já soube o que aconteceu em seu consultório ontem à noite.

- Está querendo dizer que ouviu a versão de McGreavy, não é? - Conseguiu ver os dois homens que tentaram matá-lo?

"Então pelo menos Angeli acreditava nele".

- Não.

- Não há o que possa dizer para ajudar-nos a encontrá-los? Cor, idade, altura?

- Lamento, mas não vi nada. Estava tudo escuro. Angeli fungou.

- Está bem. Continuarei a procurar. Talvez eu já tenha alguma notícia quando voltar. Tome cuidado, Doutor.

- Certo - disse Judd, agradecido, desligou logo.

Em seguida, ele telefonou para o presidente da companhia em que Burke trabalhava e explicou-lhe rapidamente a situação. Não havia outra alternativa senão interná-lo o mais depressa possível. Judd ligou depois para Peter, explicou-lhe que tinha de sair da cidade por uma semana e pediu-lhe que tomasse as providências necessárias com relação a Burke. Peter concordou.

As cartas estavam na mesa.

O que mais perturbava Judd era que não podia ver Anne na próxima sexta-feira. Talvez nunca mais tornasse a vê-la.

Judd pensou em Norman Z. Moody ao voltar para seu apartamento. Tinha a impressão que sabia qual o plano de Moody. Fazendo com que Judd comunicasse a todos os seus pacientes que estava de partida, Moody queria certificar-se de que, se um deles fosse o assassino, e se é que existisse mesmo um assassino, ele iria ser atacado. Tratava-se de uma armadilha. E o próprio Judd era a isca.

Moody determinara que ele deixasse o endereço para onde estava indo com seu serviço de recados telefônicos e com o porteiro do prédio em que morava. Era para que todos pudessem saber onde Judd se encontrava.

Quando Judd estacionou diante do seu prédio, Mike estava parado ali para cumprimentá-lo.

- Vou viajar amanhã de manhã, Mike. Poderia pedir que preparassem o carro e enchessem o tanque?

- Pode deixar que eu cuido de tudo, Dr. Stevens. A que horas vai precisar do carro?

- Pretendo sair às sete horas da manhã.

Judd sentiu que Mike o observava enquanto entrava no prédio. Subiu para o seu apartamento e trancou todas as portas, verificando cuidadosamente as janelas. Tudo parecia estar em ordem.

Tomou duas pílulas de codeína, despiu-se e entrou num banho quente, massageando cuidadosamente o corpo dolorido, sentindo que as tensões iam-se esvaindo das costas e do pescoço.

Ficou por muito tempo estendido na banheira cheia de água quente, pensando. Por que Moody o alertara para providenciar a fim de que o carro não enguiçasse na estrada? Porque seria o local mais provável para atacarem-no, em algum ponto da estrada deserta nas Catskills? E o que Moody poderia fazer se Judd fosse então atacado? Moody recusara-se a lhe contar qual era o seu plano - se é que tinha algum plano. Quanto mais Judd pensava no caso, mais convencido ficava de que estava indo direto para uma armadilha. Moody dissera que estava armando para os perseguidores de Judd. Mas não importava quantas vezes Judd assim o dissesse a si mesmo, a resposta parecia ser sempre a mesma: a armadilha parecia preparada para apanhá-lo. Mas por quê? Que interesse Moody poderia ter em vê-lo morto? "Meu Deus", continuou pensando Judd, "escolhi um nome ao acaso nas páginas amarelas do Catálogo Telefônico de Manhattam e já estou começando a pensar que ele quer que eu seja assassinado! Sou de fato um paranóico"!

Ele sentiu que os olhos começavam a se fechar. As pílulas e o banho quente haviam atuado eficientemente. Cansado, ele saiu da banheira, enxugou cuidadosamente o corpo dolorido com uma toalha felpuda e vestiu um pijama. Foi para a cama e fixou o relógio elétrico para despertar as seis da manhã. E caiu na cama num sono profundo de exaustão .

Judd acordou instantaneamente quando o despertador tocou, às seis horas da manhã. E, como se não houvesse decorrido tempo algum, seu primeiro pensamento foi: "Não acredito numa série de coincidências e não creio que um dos meus pacientes seja um maníaco homicida. Portanto, ou sou um paranóico ou estou-me tornando um". O que ele precisava era de consultar outro psicanalista.

Telefonaria para o Dr. Robbie. Sabia que isso significaria o fim de sua carreira profissional, mas não havia outra alternativa. Se estava sofrendo de paranóia, teria que ser internado. Será que Moody desconfiava de que estava tratando com um desequilibrado mental? Será que fora por isso que sugeria que tirasse uma semana de férias? Não porque pensasse que alguém estava querendo matar Judd, mas porque estava vendo todos os sinais de um colapso nervoso? Talvez a melhor coisa a fazer fosse mesmo aceitar o conselho de Moody e passar alguns dias nas Catskills. Sozinho, sem nenhuma das pressões que o estavam atormentando, ele poderia avaliar a si mesmo com toda a calma, procurar descobrir quando a sua mente começara a enganá-lo, quando começara a perder o contato com a realidade. Quando voltasse, marcaria uma consulta com o Dr. Robbie e entregar-se-ia aos seus cuidados.

Foi uma decisão difícil, mas Judd sentiu-se melhor depois de tomá-la. Vestiu-se, arrumou uma mala com roupas suficientes para cinco dias e depois foi para o elevador.

Eddie ainda não entrara de serviço e o elevador estava ligado ao automático. Judd desceu até a garagem, no subsolo. Procurou Wilt, o garagista, mas ele não estava por ali. A garagem estava deserta.

Judd localizou o seu carro estacionado a um canto, encostado na parede de cimento. Foi até lá, pôs a valise no banco de trás, abriu a porta da frente e sentou-se ao volante. Ao estender a mão para a chave de igniçäo um homem surgiu ao lado do carro, como que materializado no ar. O coração de Judd disparou.

- É bastante pontual, Doutor. Era Moody.

- Não sabia que viria desejar-me boa viagem.

O rosto de Moody se iluminou. Suas feições de querubim se abriram num sorriso largo.

- Eu não tinha coisa melhor para fazer e não consegui dormir.

Judd sentiu-se subitamente agradecido pela maneira hábil como Moody estava controlando a situação. Ele não fizera qualquer referência ao provável desequilíbrio mental de Judd, insinuando apenas que ele fosse para as montanhas e descansasse um pouco. Logo, o mínimo que Judd poderia fazer era continuar a aparentar que estava tudo normal.

- Cheguei à conclusão de que estava certo e vou até as Catskills para ver se consigo marcar um ponto no jogo.

- Não precisa ir a lugar nenhum para isso, Doutor. O ponto já foi marcado. Judd fitou-o com uma expressão aturdida.

- Não estou entendendo...

- É simples. Eu sempre digo que se deve começar a cavar quando se quer chegar ao fundo de alguma coisa.

- Sr. Moody...

Moody apoiou-se na porta do carro.

- Sabe o que me estava despertando curiosidade em seu probleminha, Doutor? É que parecia que a cada cinco minutos alguém estava tentando matá-lo... talvez. E esse "talvez" me fascinava. Não havia nada que pudéssemos fazer enquanto não descobríssemos se alguém estava realmente querendo transformá-lonum cadáver ou se simplesmente o senhor estava ficando maluco.

- Mas as Catskillls... - disse Judd, debilmente.

- Ora, Doutor, Jamais pensei que fosse mesmo para as Catskills. Moody abriu a porta do carro.

- Saia, Doutor.

Aturdido, Judd saiu do carro.

- A viagem foi apenas publicidade. Eu sempre digo que é preciso jogar sangue na água primeiro quando se quer apanhar um tubarão.

Judd continuava a fitá-lo, sem entender nada.

- Infelizmente nunca conseguiria chegar às Catskills - disse Moody, gentilmente.

Ele foi até a frente do carro e levantou o capô. Judd prostrou-se ao seu lado. Havia três bastões de dinamite ligados ao distribuidor. Dois fios soltos pendiam da ignição.

- Ia explodir assim que ligasse o carro - disse Moody.

- Mas como pôde... Moody sorriu.

- Eu já lhe disse que sou dado a insônia. Cheguei aqui por volta da meia-noite. Dei algum dinheiro ao vigia noturno para sair, e divertir-se um pouco e fiquei esperando nas sombras. E vou ter que dar mais vinte dólares ao vigia noturno. Não quis que o negócio saísse barato.

Judd sentiu uma afeição súbita por aquele homem gordo.

- E viu quem foi?

- Não. Colocaram a dinamite antes de eu chegar. Às seis horas da manhã achei que ninguém ia aparecer e resolvi dar uma olhada.

Ele apontou para os fios soltos e acrescentou:

- Seus amigos são realmente espertos. Ligaram um segundo fio de maneira que a dinamite explodisse também se o senhor levantasse o capô totalmente. A mesma coisa aconteceria se ligasse a ignição. Há dinamite bastante para destruir metade da garagem.

Judd sentiu-se subitamente nauseado o estômago embrulhado. Moody fitou-o com uma expressão de simpatia.

- Anime-se, Doutor. Pense no progresso que já fizemos. Já sabemos duas coisas. Em primeiro lugar, temos certeza agora de que não está pirado. Em segundo lugar...

Moody fez uma pausa, o sorriso desaparecera-lhe do rosto.

- ...Sabemos também que alguém está ansioso por assassiná-lo, Dr. Stevens.