A Outra Face
Capítulo 15 · Judd voltou para o escritório depois do…
Judd voltou para o escritório depois do almoço. Efetuou novamente a mesma rotina cuidadosamente, tentando expor-se o mínimo possível.
Se é que essas preocupações adiantavam alguma coisa.
Começou a ouvir as fitas novamente, tentando achar algo que pudesse proporcionar-lhe uma pista. Era como ligar uma torrente de grafito verbal. O jorro de som estava repleto de ódio... perversão... medo... comiseração de si próprio... megalomania... solidão... vazio... dor...
Ao fim de três horas descobrira um único novo nome a acrescentar na sua lista: Bruce Boyd, o homem com quem John Hanson vivera por último. Ele pôs novamente a fita de Hanson no gravador.
- ...Acho que me apaixonei por Bruce à primeira vista. Era o homem mais bonito que já tinha conhecido.
- Ele era o parceiro passivo ou dominante, John?
- Dominante. Foi uma das coisas que me atraíram nele. Bruce é muito forte. Mais tarde, quando nos tornamos amantes, costumávamos brigar por causa disso.
- Como assim?
- Bruce não tinha consciência da sua própria força. Costumava aproximar-se por trás de mim e dar-me um soco nas costas. Ele o fazia como um gesto de amor, mas um dia quase me quebrou a espinha. Tive vontade de matá-lo. Quando apertava a mão de alguém, quase lhe esmagava os dedos.
Ele sempre fingia estar arrependido, mas no fundo Bruce gosta de machucar as pessoas. E ele não precisava de um chicote para isso. É um homem muito forte...
Judd parou a fita e ficou imóvel, pensando. O padrão do homossexual não se ajustava ao seu conceito do assassino. Mas por outro lado, Bruce estivera envolvido com Hanson e era sádico e egocêntrico.
Judd olhou para os dois nomes em sua lista: Teri Washburn, que matara um homem em Hollywood e nunca mencionara o fato; Bruce Boyd, o último amante de John Hanson. Se fora um deles... qual dos dois?
Teri Washburn morava num apartamento de cobertura em Sutton Place. Todo o apartamento era decorado num tom de rosa berrante: as paredes, os móveis, as cortinas. Havia peças caríssimas espalhadas por toda a parte. As paredes estavam cobertas de impressionistas franceses. Judd reconheceu dois Manets, dois Degas, um Monet e um Renoir, antes que Teri entrasse na sala. Ele lhe telefonara dizendo que queria visitá-la. Teri se preparava para recebê- lo. Estava usando um négligé rosa algo transparente, sem nada por baixo.
- Você veio mesmo! - exclamou ela, alegremente.
- Eu queria falar-lhe, Teri.
- Mas claro! Aceita um drinque?
- Não, obrigado.
- Pois acho que vou preparar um para mim. A ocasião merece uma comemoração.
Teri dirigiu-se ao bar que havia a um canto da imensa sala de estar. Judd ficou observando-a, pensativo.
Ela voltou com um drinque e sentou-se perto dele, no sofá rosa.
- Então quer dizer que o sexo finalmente o trouxe até aqui, querido. Eu sabia que você não poderia continuar a resistir à pequena Teri. Estou louquinha por você, Judd. Farei qualquer coisa que quiser. Basta dizer. Você faz com que todos os caras que já conheci na vida pareçam pobres coitados.
Teri largou o copo em cima de uma mesinha e estendeu as mãos para as calças de Judd. Ele segurou-lhe as mãos.
- Teri, estou precisando da sua ajuda.
A mente dela estava viajando num mundo próprio.
- Eu sei, meu bem - gemeu ela. - Você vai ter de mim o que nunca recebeu em toda a vida.
- Teri, por favor, escute! Alguém está tentando assassinar-me!
Os olhos dela foram pouco a pouco manifestando surpresa. Ela estaria representando... ou seria uma reação genuína? Judd recordou-se do desempenho dela num de seus últimos espetáculos.
Era uma reação genuína. Teri era uma boa atriz, mas não a esse ponto.
- Oh, Deus! E quem... quem está querendo assassiná-lo?
- Talvez seja alguém ligado a um dos meus pacientes.
- Mas... mas por quê?
- É isso que estou tentando descobrir, Teri. Algum dos seus amigos já falou em matar... Ou assassinar? Talvez numa festa, por brincadeira?
Teri sacudiu a cabeça.
- Não.
- Conhece alguém chamado Don Vinton?- Don Vinton? Não. Acha que devo conhecer?
- Teri... como se sente com relação a um homicídio?
Um pequeno estremecimento correu no corpo dela. Judd estava segurando-lhe os pulsos e sentiu que dispararam.
- O homicídio a deixa nervosa, Teri?
- Não sei...
- Pense um pouco, Teri. A idéia de homicídio a deixa excitada? Os pulsos dela pulavam irregularmente.
- Não! É claro que não!
- Por que não me disse nada a respeito do homem que matou em Hollywood?
Sem qualquer aviso, ela estendeu as mãos para rasgar-lhe o rosto com as unhas compridas. Judd conseguiu contê-las.
- Seu filho da puta nojento! Isso aconteceu há vinte anos atrás. Então foi por isso que veio até aqui! Saia! Saia!
Teri desabou no sofá, em soluços histéricos.
Judd ficou a observá-la por mais um momento. Teri era passível de ser envolvida num crime. Sua insegurança e a ausência total de amor-próprio tornavam-na presa fácil de quem quer que desejasse usá-la. Ela era como um pedaço de argila mole largada numa sarjeta. A pessoa que a recolhesse poderia moldá-la numa linda estátua... ou numa arma fatal. A questão era saber quem a recolhera por último. Don Vinton?
Judd levantou-se.
- Lamento muito, Teri. E saiu do apartamento cor-de-rosa.
Bruce Boy vivia numa casa em Greenwich Village onde outrora ficavam umas cavalariças.
A porta foi aberta por um mordomo filipino de jaleco branco. Judd disse o seu nome e foi convidado a entrar e aguardar no vestíbulo. O mordomo desapareceu. Dez, quinze minutos se passaram. Judd conteve sua irritação. Deveria ter dito ao Detetive Angeli que viria até ali. Se a teoria de Judd fosse correta, a próxima tentativa de matá-lo não demoraria a ocorrer. E, dessa vez, o assassino tudo faria para garantir a consumação do crime. O mordomo voltou.
- O Sr. Boyd irá recebê-lo.
Ele conduziu Judd até um estúdio muito bem decorado no segundo andar, retirando-se em seguida, discretamente.
Boyd estava sentado a uma escrivaninha. Parecia ocupado em escrever algo. Era um homem bonito, com feições delicadas, nariz aquilino, boca peluda e sensual, cabelos louros, encaracolados. levantou-se assim que Judd entrou. Tinha mais de 1,90 metros de altura, peito e ombros de atleta.
Judd pensou no esboço de identificação física do assassino que fizera. Boyd correspondia plenamente.
Judd desejou mais do que nunca ter deixado algum aviso para Angeli.
- Perdoe-me por fazê-lo esperar, Dr. Stevens - disse ele cordialmente. - Eu sou Bruce Boyd. Estendeu a mão. Judd adiantou-se para apertá-la e, nesse momento, Boyd desferiu-lhe um soco na boca, com um punho de granito. O golpe foi totalmente inesperado e o impacto arremessou Judd para trás, derrubando um abajur ao cair no chão.
- Desculpe, Doutor - disse Boyd, fitando-o tranqüilamente. - Mas o senhor bem que merecia isso. Foi um menino muito mau, não acha? Levante-se e eu lhe preparo um drinque.
Judd sacudiu a cabeça, completamente tonto. Começou a levantar-se, mas Boy chutou-o na virilha com a ponta do sapato e Judd caiu novamente no chão, contorcendo-se de dor.
- Eu já estava esperando que me viesse procurar, Doutor.
Judd levantou os olhos, por entre as ondas incessantes de dor, para o vulto de pé à sua frente. Tentou falar, mas não conseguiu pronunciar uma só palavra.
- Não tente falar - disse Boyd, mais benevolente. - Deve estar doendo bastante. Eu sei por que está aqui. Quer-me fazer perguntas a respeito de Johnny.
Judd assentiu e Boyd chutou-o na cabeça. Através de uma neblina vermelha, a voz de Boyd chegou até Judd, distante e abafada, volta e meia se desvanecendo:
- Nós nos amávamos até que ele foi procurá-lo. O senhor fez com que ele se sentisse anormal, Doutor. Fez com que pensasse que nosso amor era algo sujo, repugnante. Sabe quem o tornou sujo assim, Dr. Stevens? Foi o senhor mesmo!
Judd sentiu algo duro bater em suas costelas, provocando um riu de dor que se espraiou por suas veias. Ele estava agora vendo todos os objetos com cores vivas, como se a sua cabeça estivesse repleta de arcos-íris que tremeluziam.
- Quem lhe deu o direito de dizer às pessoas como devem amar, Doutor? Fica sentado lá em seu consultório como se fosse um deus, condenando todo mundo que não pensa como o senhor!
"Mas isso não é verdade"! Judd ouviu uma parte de sua mente responder. "Hanson nunca". antes tivera qualquer alternativa. Foi a única coisa que fiz: proporcionar-lhe uma alternativa. E ele acabou não escolhendo "!"
- Agora Johnny está morto - disse o gigante louro. - Matou meu Johnny, Doutor. E agora eu vou matá-lo.
Judd sentiu outro pontapé atrás do ouvido e começou a resvalar para a inconsciência. Alguma parte remota de sua mente observava, com um interesse distante, o resto do corpo começar a morrer.
Aquela parte pequena e isolada da sua inteligência, localizada no cerebelo, continuou a funcionar perfeitamente, sendo seus impulsos convertidos em pensamentos. Judd censurou-se por não ter chegado perto da verdade. Imaginara que o assassino fosse um tipo moreno, latino. Mas era louro.
Ficava convencido de que o assassino não era homossexual e se enganara completamente. Encontrara finalmente o seu maníaco homicida, e agora ia morrer por causa disso.
Judd perdeu os sentidos.