A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 2 de 23

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A Outra Face

as mulheres da minha vida: Jorja, Mary e Natalie

Capítulo 1

 

Faltavam dez minutos para as onze horas da manhã quando o céu explodiu numa chuva de confeites brancos, que rapidamente estendeu uma mortalha branca sobre a cidade. A neve macia se esparramou pelas ruas já congeladas de Manhattam, cobrindo-as com um lençol acinzentado. O vento frio de dezembro fustigou os que faziam as compras de Natal, obrigando-os a procurar refúgio em suas casas e apartamentos.

Em Lexington Avenue, um homem alto e magro, metido numa capa de chuva amarela, deslocava-se no meio da apressada multidão de Natal, mas num ritmo próprio. Ele caminhava rapidamente, mas seus passos não eram frenéticos como os dos outros transeuntes, que procuravam escapar ao frio. Estava com a cabeça levantada e parecia alheio às outras pessoas, que volta e meia nele esbarravam. Estava livre depois de uma vida de purgatório, e ia para casa, para dizer a Mary que tudo acabara. O passado ia enterrar seus mortos e o futuro era brilhante e promissor. E ele pensava no rosto de Mary, radiante quando ele lhe contasse as boas-novas. Ao chegar à esquina da Rua 59, o sinal mudou para vermelho e ele parou, com a multidão impaciente. A poucos passos estava um Papai Noel do Exército da Salvação, junto a um enorme caldeirão. O homem meteu a mão no bolso para pegar algumas moedas e ofertá- las aos deuses da sorte. Nesse mesmo instante alguém bateu-lhe nas costas, um golpe súbito e doloroso, que se espalhou por todo o seu corpo. Era algum bêbado de Natal excessivamente entusiasmado, procurando demonstrar a sua cordialidade para com o mundo.

Ou então Bruce Boyde, que nunca compreendera a força que tinha e jamais perdera o hábito infantil de magoá-lo fisicamente. Mas ele não via Bruce há mais de um ano. O homem alto e magro tentou virar a cabeça para ver quem lhe batera nas costas. Foi nesse momento que percebeu, espantado, que seus joelhos estavam começando a se dobrar. Em câmara lenta, como se estivesse a observar a si próprio à distância, ele viu seu corpo cair na calçada. A dor nas costas era intensa e se irradiava pelo resto do corpo. Ele começou a sentir dificuldade em respirar. Diante do seu rosto havia um desfile de sapatos, que pareciam animados por uma vida própria. Começou a sentir o rosto entorpecido pelo frio da calçada. Sabia que não deveria ficar ali deitado. Abriu a boca para pedir a alguém que o ajudasse, e uma torrente quente e vermelha por ela escorreu, misturando-se com a neve semiderretida. Ele ficou observando, fascinado e aturdido, o rio vermelho avançar pela calçada e desaparecer na sarjeta. A dor estava pior agora, mas ele não lhe deu a menor importância, ao se recordar subitamente da boa notícia que levava para Mary.

Ele estava livre. E ia dizer a Mary que estava livre. Fechou os olhos, contra a brancura ofuscante do céu. A neve começou a se transformar em granizo, mas ele não o mais podia sentir coisa alguma.