A Outra Face
Capítulo 21 · No centro de comunicações à prova de…
No centro de comunicações à prova de som e abundantemente iluminada da Chefatura de Polícia trabalhavam doze polícias, em manga de camisa, e seis telefonistas de cada lado. No meio da mesa havia um tubo pneumático. Os operadores tomavam notas das mensagens telefônicas, punham a anotação no tubo pneumático e despachavam-na lá para cima, onde o coordenador a transmitia imediatamente para uma delegacia ou uma radiopatrulha. Os telefonemas nunca paravam. Fluíam para ali dia e noite, como um rio de tragédia a tragar os cidadãos da gigantesca metrópole. Homens e mulheres que estavam aterrorizados... solitários... desesperados... embriagados... feridos... homicidas... Era uma cena de Hogarth, pintada com palavras vividas e angustiadas ao invés de tintas.
Naquela tarde de segunda-feira havia uma sensação maior de tragédia no ar. Cada telefonista se concentrava em seu serviço, mas não podia deixar de perceber o fluxo constante de detetives e agentes do FBI, entrando e saindo da sala, recebendo e dando ordens, trabalhando eficientemente na vasta rede eletrônica à procura do Dr. Judd Stevens e do detetive Frank Angeli. O ambiente estava estranhamente acelerado, como um espetáculo encenado por um controlador de marionetes sombrio e nervoso.
O Capitão Bertelli estava falando com Allen Sullivan, membro da Comissão Municipal Contra o Crime, quando McGreavy entrou. McGreavy já conhecia Sullivan. Era um homem duro e honesto.
Bertelli interrompeu a conversa e virou-se para o detetive, com uma expressão interrogativa.
- As coisas estão andando - informou McGreavy. - Descobrimos uma testemunha, um vigia noturno que trabalha no prédio em frente àquele em que fica o consultório do Dr. Stevens. Na noite de quarta-feira, quando arrombaram o consultório do Dr. Stevens, esse vigia viu dois homens entrarem no prédio em frente. A porta da rua estava trancada, mas eles abriram-na com uma chave.
O vigia pensou que trabalhavam ali.
- Obteve alguma identificação?
- Ele identificou uma fotografia de Angeli.
- Na noite de quarta-feira Angeli fora dado como estando em casa, de cama, com um forte resfriado.
- Exatamente.
- O que me diz do outro homem?
- O vigia não conseguiu vê-lo direito.
Uma telefonista enfiou um plug por baixo de um botão vermelho a brilhar no painel, escutou por um momento e virou-se para o Capitão Bertelli:
- É para o senhor Capitão. Patrulha Rodoviária de Nova Jersey. Bertelli atendeu rapidamente numa extensão.
- Capitão Bertelli falando.
Ele escutou por um momento.
- Tem certeza?... ótimo!..., Pode mandar todas as unidades que tiver para lá., Bloqueie as estradas. Quero que toda a região seja coberta. Fique em contato comigo... Obrigado.
Ele virou-se para os dois homens:
- Parece que temos uma pista. Um patrulheiro de Nova Jersey viu o carro de Angeli numa estrada secundária perto de Orangeburg. A Patrulha Rodoviária vai começar a revistar toda a área.
- E o Dr. Stevens?
- Ele estava no carro com Angeli. Não se preocupe que iremos encontrá-los.
McGreavy tirou dois charutos do bolso. Ofereceu um a Sullivan, que recusou, e entregou o outro a Bertelli. Pôs o que Sullivam recusara entre os dentes e acendeu-o, comentando:
- Temos uma coisa a nosso favor. O Dr. Stevens parece ter um encantamento a protegê-lo. Falei há pouco com um amigo dele, o Dr. Peter Hadley. Na semana passada, ele foi apanhar Stevens em seu consultório e encontrou Angeli lá, com um revólver na mão. Angeli contou uma história fantástica sobre um misterioso assaltante. Meu palpite é que a chegada do Dr. Hadley salvou a vida de Stevens.
- Como foi que começou a suspeitar de Angeli? - indagou Sullivan.
- Tudo começou com certas informações de que ele andava achacando alguns comerciantes. Fui verificar, mas as vítimas não quiseram falar. Estavam apavoradas e eu não consegui entender o motivo. Não disse nada a Angeli, mas comecei a vigiá-lo de perto. Quando Hanson foi assassinado, Angeli veio perguntar se poderia trabalhar no caso comigo. Disse que sempre me admirava e que gostaria de ser meu companheiro no caso. Eu sabia que ele devia ter um motivo para insistir, por isso resolvi dar-lhe corda, com a devida permissão do Capitão Bertelli. Não é de admirar que ele quisesse trabalhar no caso, pois estava afundado nele até o pescoço! Na ocasião eu não sabia ao certo se o Dr. Stevens estava ou não envolvido nos assassinatos de Hanson e Carol Roberts, mas decidi usá-lo para agarrar Angeli. Arquitetei uma teoria para incriminar Stevens e disse a Angeli que ia prendê-lo pelos assassinatos.
Imaginei que Angeli iria relaxar e despreocupar-se, se soubesse que estava livre de suspeitas.
- E deu certo?
- Não. Angeli surpreendeu-me, fazendo todo o possível para impedir que Stevens fosse preso. Sullivan ficou perplexo.
- Mas por quê?
- Porque ele estava querendo liquidar Stevens e não poderia fazê-lo se fosse efetuada a prisão.
- Quando McGreavy começou a pressionar - interveio o Capitão Bertelli - Angeli veio procurar-me, insinuando que McGreavy estava tentando incriminar o Dr. Stevens de qualquer maneira.
- Tivemos certeza então de que estávamos no caminho certo - retornou McGreavy. -Stevens contratou um detetive particular chamado Norman Moody. Investiguei Moody e descobri que ele já se envolvera antes com Angeli, que prendera um cliente dele por porte de narcóticos. Moody alegou que seu cliente tinha sido incriminado falsamente. Sabendo o que eu sei agora, creio que Moody estava dizendo a verdade.
- Então Moody teve um golpe de sorte e descobriu a resposta logo de saída.
- Não foi tanto assim por sorte. Moody era um detetive particular dos mais inteligentes. Ao encontrar a bomba no carro do Dr. Stevens, entregou-a ao FBI e pediu que eles investigassem.
- Ele teve receio de entregar a bomba à polícia, achando que Angeli poderia pegá-la e dar sumiço nela?
- É a impressão que eu tenho. Mas alguém deu com a língua nos dentes e Angeli soube de tudo. Compreendeu imediatamente que Moody suspeitava dele. A primeira pista que tivemos foi quando Moody falou no nome "Don Vinton".
- A expressão da Cosa Nostra para "O Chefão"?
- Exatamente. Por algum motivo, alguém da Cosa Nostra está querendo liquidar o Dr. Stevens.
- Como foi que ligou Angeli à Cosa Nostra?
- Procurei novamente os comerciantes a quem Angeli andara arrancando dinheiro. Quando mencionei a Cosa Nostra, eles entraram em pânico. Angeli trabalhava para uma das famílias da Cosa Nostra, mas era muito ganancioso e começou a fazer algumas extorsões por conta própria.
- Mas por que a Cosa Nostra haveria de querer matar o Dr. Stevens? - indagou Sullivan.
- Não sei. Estamos investigando diversas possibilidades. Ele suspirou.
- No momento temos dois problemas terríveis. Angeli escapou dos homens que mandáramos segui-lo. E o Dr. Stevens fugiu do hospital antes que eu pudesse alertá-lo a respeito de Angeli e dar-lhe a proteção necessária.
Acendeu-se outro botão vermelho no painel. O telefonista ouviu por um momento e depois chamou:
- Capitão Bertelli.
Bertelli atendeu na extensão.
- Capitão Bertelli falando.
Ficou escutando, sem dizer coisa alguma, depois repôs o telefone no gancho e virou-se para McGreavy:
- Eles os perderam de vista!