A Outra Face
Capítulo 5 · O resto do dia se passou como…
O resto do dia se passou como se ele estivesse debaixo dágua. Uns poucos de pacientes fizeram referências à morte de Carol, mas a maioria estava tão absorvida em seus próprios egos que não conseguiam pensar em outra coisa além dos seus problemas pessoais. Judd procurou se concentrar, mas seus pensamentos constantemente se afastavam dos pacientes, em busca das respostas para o que acontecera. Mais tarde ele ouviria as gravações, para verificar o que perdera.
Às sete horas da noite, depois de acompanhar o último paciente até à porta, Judd abriu o armário embutido de bebidas e serviu-se de uma dose pura de scotch. Sentiu um choque ao tomá-la, recordando-se subitamente de que não comera coisa alguma ao café nem ao almoço. A idéia de comer deixou-o enjoado. Afundou numa poltrona e pensou nos dois crimes. Não havia nada nas fichas dos seus pacientes que pudesse levar alguém a cometer assassinato. Um chantagista talvez pudesse roubar as gravações. Mas os chantagistas são covardes, aproveitando-se da fraqueza dos outros. Se Carol tivesse surpreendido um chantagista arrombando o consultório e ele resolvesse matá-la, teria agido rapidamente, desferindo um único golpe. Jamais a teria torturado. Não, tinha que haver outra explicação.
Judd ficou sentado ali por um longo tempo, repassando lentamente os acontecimentos dos dois últimos dias. Finalmente suspirou e desistiu. Olhou no relógio e ficou surpreso ao descobrir que era tão tarde.
Ao sair do consultório já passava das nove horas. Uma rajada de vento gelado atingiu-o quando saiu para a calçada. Começara outra vez a nevar. A neve rodopiava pelo céu, desmanchando os contornos de todas as coisas. A cidade parecia pintada numa tela cujas tintas não tinham ainda secado e escorria lentamente, fundindo os edifícios e as ruas nos mesmos tons aguados, brancos e cinzentos. Um grande cartaz branco e vermelho, do outro lado da Lexington, anunciava:
"FALTAM APENAS 6 DIAS PARA O NATAL"
"Natal"... Judd afastou seus pensamentos do Natal e começou a caminhar.
A rua estava deserta, à exceção de um pedestre bem distante, seguindo apressado para casa, ao encontro da esposa ou da namorada. Judd descobriu-se procurando imaginar o que Anne estaria fazendo naquele momento. Ela provavelmente estava em casa com o marido, conversando sobre o dia no escritório, interessada, apaixonada. Ou então eles tinham ido para a cama e... "Pare com isso"!, ordenou Judd a si mesmo.
Como não havia carro algum na rua varrida pelo vento frio, Judd começou a atravessá-la antes de chegar à esquina, dirigindo-se para a garagem onde deixara o carro durante o dia. Ao chegar ao meio da rua ouviu um barulho atrás de si e virou-se. Uma imensa limusine preta, de faróis apagados avançava em sua direção. Parecia que os pneus não conseguiam aderir muito bem ao asfalto, coberto de uma fina camada de neve. Estava a menos de três metros de distância. "O bêbado idiota", pensou Judd. "Está derrapando e vai acabar se matando". Judd virou-se e pulou de volta para o meio-fio, onde estaria seguro. A frente do carro virou atrás dele, e o motor foi acelerado. Só tarde demais é que Judd compreendeu que o motorista estava deliberadamente tentando atropelá-lo.
A última coisa que se lembrou foi de algo duro batendo em seu peito e de um estrondo que parecia o de uma trovoada. A rua escura iluminou-se subitamente de fogos de artifício, que pareciam explodir dentro de sua cabeça. Judd subitamente soube a resposta a tudo. Sabia por que John Hanson e Carol Roberts tinham sido assassinados. Teve uma sensação de júbilo. Precisava dizer a McGreavy.
Mas logo todas as luzes se apagaram e restou apenas o silêncio da fria escuridão.
Pelo lado de fora, o 19º Distrito parecia um prédio escolar antigo, castigado pelo tempo, de tijolos vermelhos, reboco na fachada, as cornijas embranquecidas pelos dejetos de muitas gerações de pombos. O 19º Distrito era responsável pela manutenção da ordem pública numa vasta área de Maniatam, da rua 59 à rua 86, da Quinta Avenida até o East River.
O telefonema do hospital, informando do atropelamento seguido de fuga do motorista, chegou à mesa telefônica da delegacia alguns minutos depois das dez horas da noite, sendo transferido para a sala dos detetives. O 19º Distrito estava enfrentando uma noite das mais atarefadas. Por causa do tempo aumentava consideravelmente os números de estrupos e assaltos. As ruas desertas haviam-se transformado numa terra-de-ninguém congelada, onde os saqueadores se punham à espreita dos infelizes extraviados que se aventurassem por seu território.
Quase todos os detetives estavam fora, atendendo a chamados. O único que se encontrava naquele momento na sala dos Detetives era Frank Angeli, que estava interrogando, justamente com um sargento, um suspeito de incêndio criminoso.
Foi Angeli que atendeu ao telefone. Era uma enfermeira, que estava cuidando da vítima de um atropelamento no hospital municipal. O paciente pedira para falar com o Tenente McGreavy. Mas McGreavy, naquele momento, estava na Sala dos Arquivos. Quando a enfermeira disse a Angeli o nome do paciente, ele declarou que iria imediatamente para o hospital.
Angeli estava desligando quando McGreavy entrou. Angeli relatou-lhe rapidamente o telefonema.
- É melhor irmos imediatamente para o hospital - disse Angeli.
- Ele não vai sair de lá. Antes quero conversar com o capitão da delegacia em cuja jurisdição ocorreu o acidente.
Angeli ficou observando McGreavy discar. O Capitão Bertelli teria falado com McGreavy a respeito da conversa que tivera naquela manhã com Angeli? A conversa fora breve e incisiva.
- O Tenente McGreavy é um bom polícia - dissera Angeli -, mas tenho a impressão de que está influenciado pelo o que aconteceu há cinco anos.
O Capitão Bertelli fitou-o longamente, sem nada dizer, com uma expressão fria.
- Está por acaso acusando-o de querer incriminar o Dr. Stevens?
- Não o estou acusando de nada, Capitão. Achei apenas que o senhor deveria ser informado da situação.
- Pois já estou informado.
E a reunião assim se encerrara.
A conversa de McGreavy ao telefone demorou três minutos. McGravy resmungou por diversas vezes e tomou anotações, enquanto Angeli caminhava impaciente de um lado para outro.
Dez minutos depois, os dois detetives estavam numa radiopatrulha a caminho do hospital. A enfermaria de Judd ficava no sexto andar, no final de um longo e sombrio corredor, que tinha o cheiro adocicado e enjoativo de todos os hospitais. A enfermeira que telefonara os acompanhava até o quarto de Judd.
- Qual é o estado dele, enfermeira? - indagou McGreavy.
- O Doutor é que poderá dizer-lhes - falou ela, formalmente. Logo em seguida, num impulso, acrescentou:
- É um milagre que o homem não tenha sido morto. Possivelmente sofreu uma contusão, tem algumas escoriações nas costelas e o braço esquerdo está machucado.
- Ele está consciente? - indagou Angeli.
- Está. A grande dificuldade é mantê-lo na cama. Ela virou-se então para McGreavy e acrescentou:
- Ele insiste em falar-lhe de qualquer maneira.
Entraram na enfermaria. Havia lá seis camas, todas ocupadas. A enfermeira indicou um leito no fundo, cercado por uma cortina. McGreavy e Angeli foram até lá.
Judd estava na cama, aconchegado entre muitos travesseiros. O rosto estava pálido e na testa havia um emplastro adesivo. O braço esquerdo estava numa tipóia.
- Soube que sofreu um acidente - disse McGreavy.
- Não foi acidente - disse Judd. - Alguém tentou matar-me. A voz era fraca e trêmula.- Não sei, mas foi isso mesmo o que aconteceu - respondeu Judd, virando-se depois para McGreavy. - Os assassinos não estavam querendo matar John Hanson e Carol Roberts. Eles queriam a mim.
McGreavy ficou surpreso.
- O que o leva a pensar assim?
- Hanson foi morto porque estava usando a minha capa amarela. Devem ter me visto entrando no edifício com a capa. Quando Hanson saiu com ela, pensaram que era eu.
- É possível - comentou Angeli.
- Claro que é possível - disse McGreavy. - E, quando descobriram que tinham matado o homem errado, eles foram até seu consultório, rasgaram suas roupas e verificam que o senhor era na realidade, uma linda moça negra. Ficaram então furiosos e o espancaram até a morte.
- Carol foi morta porque a encontraram no lugar onde eu deveria estar - explicou Judd. McGreavy meteu a mão no bolso do casaco e tirou algumas anotações.
- Acabei de falar com o capitão da delegacia em cuja jurisdição o acidente ocorreu.
- Não foi acidente.
- Segundo o relatório da polícia, Dr. Stevens, o senhor atravessou a rua descuidadamente, fora do lugar.
- Não havia nenhum carro e por isso...
- Havia um carro - corrigiu Mcgreavy. - Só que não o viu. Estava nevando e a visibilidade era péssima. O senhor surgiu no meio da rua inesperadamente. O motorista pisou no freio e derrapou, e o carro o atingiu. Ele entrou em pânico e fugiu.
- Não foi isso que aconteceu. E, além do mais, os faróis do carro estavam apagados.
- E acha que isso é prova que era o mesmo homem que matou John Hanson e Carol Roberts?
- Alguém tentou matar-me - repetiu Judd, insistente. McGreavy sacudiu a cabeça.
- Não vai adiantar nada, Doutor.
- O que não vai adiantar?
- Espera mesmo que eu saia por aí à procura de um assassino imaginário, enquanto o senhor fica inteiramente a salvo?
McGreavy fez uma pausa. Sua voz subitamente áspera.
- Sabia que a sua recepcionista estava grávida, Doutor?
Judd fechou os olhos e deixou a cabeça afundar novamente nos travesseiros. "Então era isso". que Carol desejava falar-lhe. Ele já imaginava. E agora McGreavy ia pensar "... Judd voltou a abrir os olhos".
- Não, eu não sabia.
A cabeça de Judd começou a latejar novamente. A dor estava voltando. Ele engoliu em seco, procurando dominar a náusea. Queria chamar a enfermeira, mas não ia dar aquela satisfação a McGreavy, de jeito nenhum.
- Andei examinando os arquivos da polícia - disse McGreavy. - Sabe que eu descobri que a sua linda recepcionista era uma vigarista antes de ir trabalhar em seu consultório.
A cabeça de Judd passou a latejar ainda mais forte. A dor tornou-se insuportável.
- Sabia disso, Doutor? Não precisa responder. Eu responderei pelo senhor. Sabia sim, porque a tirou de um tribunal noturno há quatro anos, quando ela estava sendo julgada por prostituição.
Não acha que é um tanto estranho um médico respeitável contratar uma vigarista para ser recepcionista de seu elegante consultório?
- Nenhuma mulher nasce vigarista - disse Judd, com a voz cansada. - Eu estava tentando ajudar uma garota de dezesseis anos a ter uma oportunidade na vida.
- E aproveitar para ter também um lombo negro à sua disposição, não é mesmo?
- Seu bastardo de mente suja! McGreavy sorriu, sem qualquer humor.
- Para onde levou Carol depois que a recolheu no tribunal noturno?
- Para o meu apartamento.
- E ela dormiu lá?
- Dormiu.
McGreavy sorriu novamente.
- É um homem incrível, Doutor! Pega uma jovem prostituta bonita e a leva para seu apartamento, para passar a noite. O que está procurando? Uma parceira para o xadrez? Se não se deitou com ela, Doutor, então é porque talvez seja um homossexual. E adivinha a quem isso o liga? Isso mesmo, a John Hanson. Se se deitou com Carol, então é possível que tenha continuado a levá-la para a cama, até que ela engravidasse. E como pode ter o descaramento de ficar deitado aí e contar-me uma história da carochinha sobre um maníaco que gosta de atropelar as pessoas e fugir em seguida, que se transforma num assassino e sai matando as pessoas a torto e a direito?
McGreavy virou-se bruscamente e saiu da enfermaria, o rosto vermelho de raiva. O latejar na cabeça de Judd transformara-se numa agonia insuportável, Angeli observava-o, preocupado.
- Está se sentindo melhor, Doutor?
- Tem que me ajudar! Alguém está querendo matar-me!
O apelo soou como um lamento fúnebre aos ouvidos de Judd.
- Quem teria motivos para matá-lo, Doutor?
- Não sei.
- Tem algum inimigo?
- Não.
- Dormiu recentemente com a esposa ou a namorada de alguém?
Judd sacudiu a cabeça, e no mesmo instante arrependeu-se do movimento.
- É herdeiro provável de alguma fortuna? Tem parentes que queira tirá-lo do caminho?
- Não.
Angeli suspirou.
- Então aparentemente não há motivo algum para que alguém queira assassiná-lo. E o que me diz dos seus pacientes? Acho melhor que nos forneça uma relação, a fim de que possamos investigá-lo.
- Não posso fazer uma coisa dessas!
- Tudo o que estou pedindo é que nos forneça os nomes deles.
- Lamento, mas não é possível - disse Judd, falando com imenso esforço. - Se eu fosse um dentista ou calista, não haveria o menor problema. Será que não pode compreender? As pessoas que me procuram têm problemas, alguns bastante sérios. Se vocês começarem a interrogá-las, não apenas iriam deixá-las abaladas como também destruiriam a confiança que elas depositam em mim. Eu não teria mais condições de tratá-las. Por isso é que não posso fornecer a relação dos meus pacientes.
Judd voltou a afundar nos travesseiros, exausto. Angeli fitou-o em silêncio por um minuto antes de perguntar:
- Como se chama o homem que pensa que todo mundo está querendo matá-lo?
- Um paranóico.
Judd viu a expressão no rosto de Angeli e acrescentou rapidamente:
- Não está pensando que eu...?
- Ponha-se no meu lugar, Doutor. Se eu estivesse agora nessa cama e começasse a falar-lhe do jeito que me está falando, Doutor, o que iria pensar a meu respeito?
Judd fechou os olhos novamente, numa defesa contra as pontadas de dor em sua cabeça. Ouviu a voz de Angeli acrescentar:
- McGreavy está-me esperando lá fora. Judd abriu os olhos.
- Espere... Dê-me uma oportunidade de provar que estou dizendo a verdade.
- Como?
- Quem quer que esteja querendo matar-me, irá tentar-lo novamente. Quero que algum polícia seja designado para acompanhar-me. Assim poderá prender o assassino, em sua próxima tentativa.
- Dr. Stevens, se alguém deseja matá-lo, nem todos os polícias do mundo juntos o poderiam impedir. Se não o pegar hoje, irá pegá-lo amanhã. Se não o pegar aqui, irá pegá-lo em algum outro lugar. Não importa que seja um rei ou um presidente, não importa que seja um simples Joäo-ninguém. A vida é um fio muito curto. Basta uma fração de segundo para rompê-lo.
- Então quer dizer que não há nada, absolutamente nada, que possa fazer?
- Posso-lhe dar alguns conselhos. Ponha fechaduras novas nas portas de seu apartamento, verifique sempre se as janelas estão bem trancadas. Não deixe ninguém entrar em seu apartamento, a menos que o conheça. Nem mesmo entregadores, a não ser que tenha encomendado pessoalmente alguma coisa.
Judd assentiu, com a garganta seca e ardendo.
- O prédio em que mora tem porteiro e ascensorista, Doutor. Pode confiar neles?
- O porteiro trabalha no prédio há dez anos, o ascensorista há oito. Eu lhes confiaria a minha vida.
Angeli assentiu, aprovadoramente.
- Ótimo. Peça-lhes para ficarem atentos. Assim sendo, será difícil alguém entrar no prédio sem ser visto. E o que me diz do consultório? Pretende contratar uma nova recepcionista? Judd pensou numa estranha sentada à mesa de Carol e sentiu um tremor de ódio impotente perpassar-lhe o corpo.
- Não imediatamente.
- Talvez pudesse contratar um homem, Doutor.
- Vou pensar no assunto.
Angeli virou-se para sair, mas parou no meio do caminho e disse um tanto hesitante:
- Tenho um a idéia, mas é um tiro no escuro.
- E qual é?
Judd odiou a ansiedade que havia em sua voz.
- Esse homem que matou o antigo parceiro de McGreavy...
- Ziffren.
- Ele era realmente desequilibrado?
- Era. Mandaram-no para o hospital Estadual Matteawan, para criminosos desequilibrados.
- Talvez ele o culpe por ter sido enfurnado num hospício. Vou verificar se ainda está lá. Telefone-me pela manhã.
- Obrigado.
- Não precisa agradecer. É meu trabalho. Mas, se o senhor estiver envolvido nesses crimes, pode ter a certeza de que ajudarei McGreavy a agarrá-lo.
Angeli virou-se para sair, mas parou novamente.
- Não precisa dizer a McGreavy que vou verificar se Ziffren ainda está no hospício.
- Nada direi.
Os dois homens sorriram um para o outro. Angeli partiu. Judd ficou sozinho novamente.
Se a situação era terrível naquela manhã, agora era ainda pior. Judd sabia que já teria sido preso por homicídio se fosse por uma coisa: o caráter de McGreavy. O detetive queria vingança, tão intensamente que pretendia providenciar todas as provas necessárias a uma condenação antes de efetuar a prisão. "Será que o seu atropelamento fora, de fato, um acidente?", pensou Judd. "Havia bastante neve na rua e o carro poderia ter deslizado acidentalmente, indo atingi-lo. Mas por que então os faróis estavam apagados? E de onde o carro surgira tão subitamente"?
Judd estava convencido de que fora atacado por um assassino.... e de que seria atacado novamente. E com esse pensamento, adormeceu.
Cedo, na manhã seguinte, Peter e Norah Hadley foram ao hospital visitar Judd. Souberam do acidente pelos noticiários matutinos. Peter era da idade de Judd, mais baixo e terrivelmente magro.
Haviam sido criados na mesma cidadezinha do Nebraska e tinham cursado juntos a faculdade de medicina.
Norah era inglesa. Tinha cabelos louros e era rechonchuda, com seios um pouco grandes demais para o seu 1,60 metros de altura. Era animada e jovial. Depois de cinco minutos de conversa com ela, as pessoas ficavam com a impressão de que a conheciam há muitos anos.
- Você está com um aspecto horrível - disse Peter, examinando Judd criticamente.
- É a sua característica que mais aprecio, Doutor: a maneira como conforta os doentes.
A cabeça de Judd não latejava mais e a dor do corpo desaparecera quase que completamente. Norah entregou-lhe um buquê de cravos.
- Nós lhe trouxemos algumas flores, querido. Ela inclinou-se e beijou-o no rosto.
- Como aconteceu? - indagou Peter. Judd hesitou.
- Um carro me atropelou e fugiu em seguida.
- Tudo acontece ao mesmo tempo, não é? Li no jornal o que aconteceu com a pobre Carol.
- Foi terrível - disse Norah - Eu gostava muito dela. Judd sentiu um nó na garganta.
- Eu também gostava.
- Há alguma possibilidade de apanhar o desgraçado que a matou? - perguntou Peter.
- Eles estão trabalhando no caso.
- O jornal desta manhã disse que um tal Tenente McGreavy está prestes a efetuar uma prisão. Sabe de alguma coisa a esse respeito?
- Mais ou menos - disse Judd secamente. - McGreavyz deu-me algumas informações.
- Nunca se tem idéia de como os polícias são maravilhosos até que se precisa deles -comentou Norah.
- O Dr. Harris deixou-me dar uma olhadela nas suas radiografias - disse Peter. - Houve algumas escoriações sérias, mas nenhuma fratura. Dentro de poucos dias poderá sair daqui. Judd sabia que não tinha tempo a perder.
Passaram a meia hora seguinte numa conversa superficial, evitandocuidadosamente qualquer referência à morte de Carol Roberts, Perter e Norah não sabiam que John Hanson fora paciente de Judd. Por algum motivo especial, McGreavy não fornecera tal informação aos jornais.
Quando eles se levantaram para ir embora, Judd pediu para falar a sós com Peter. Enquanto Norah esperava lá fora, Judd relatou a Peter as suas conclusões a respeito de Harrison Burke.
- Lamento muito, Judd. Quando o encaminhei para vocês, sabia que sua paranóia estava muito avançada, mas esperava que ainda houvesse tempo de ajudá-lo. É claro que você tem de tomar uma providência imediata. Quando pretende pedir o internamento dele?
- Assim que sair daqui.
Mas Judd sabia que estava mentindo. Não queria que Harrison Burke fosse internado imediatamente. Ainda não. Queria primeiro descobrir se fora Burke quem cometera os dois assassinatos.
- Se houver alguma coisa que eu possa fazer por você, companheiro, é só telefonar. Peter saiu do quarto.
Judd ficou deitado, imóvel, planeando o que iria fazer. Como não havia nenhum motivo racional para que alguém quisesse matá-lo, não restava a menor dúvida de que os crimes tinham sido cometidos por alguém mentalmente desequilibrado, alguém que imaginava ter motivos de ressentimentos contra ele. As únicas duas pessoas que se enquadravam nessa categoria eram Harrison
Burke e Ziffren, o homem que matara o companheiro de McGreavy. Se Burke não tivesse um álibi para a manhã em que Hanson fora assassinado. Judd pediria ao Detetive Angeli que investigasse o caso. Se Burke tinha álibi, ele então iria concentrar-se em Ziffren. Judd sentiu que se desvanecia a depressão que o dominava até aquele momento. Estava fazendo alguma coisa. Subitamente teve uma vontade desesperada de deixar o hospital.
Tocou a campainha, chamando a enfermeira, a quem disse que desejava falar com o Dr. Harris. Dez minutos depois, Seymour Harris entrou no quarto. Era quase um anão, com olhos azuis de um brilho intenso e tufos de cabelo negros nas faces. Judd conhecia-o há bastante tempo e sentia por ele o maior respeito.
- Ora, ora, a Bela Adormecida já despertou! Você está com um aspecto horrível!
Judd já estava começando a ficar cansado de ouvir aquela frase. Mentiu deliberadamente:
- Pois estou me sentindo muito bem. E quero sair daqui.
- Quando?
- Agora. O Dr. Harris assumiu uma expressão de censura.
- Você acaba de ser internado. Por que não fica aqui por alguns dias? Eu lhe mandarei algumas enfermeiras ninfomaníacas para lhe fazerem companhia.
- Obrigado, Seymour, mas preciso realmente sair daqui. O Dr. Harris suspirou.
- Está certo. Você é que é o médico, Doutor. Pessoalmente, eu não deixaria o meu gato sair na rua no estado em que você está.
Ele lançou um olhar compreensivo para Judd e acrescentou:
- Posso ajudar em alguma coisa? Judd sacudiu a cabeça.
- Vou pedir que lhe tragam as suas roupas.
Trinta minutos depois, a jovem no balcão de recepção do hospital chamou um táxi para Judd. às dez horas e quinze minutos, ele estava de volta ao seu consultório