A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 11 de 23

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A Outra Face

Capítulo 10 · Eles estavam sentados na sala de estar…

 

Eles estavam sentados na sala de estar do apartamento, conversando. O corpo imenso de Moody se esparramava sobre o sofá. Moody guardara todas as peças da bomba desarmada na mala do próprio carro.

- Não deveria tê-la deixado no lugar, para que a polícia pudesse examinar? -perguntou Judd.

- Eu sempre achei que a coisa que mais confunde no mundo é o excesso de informações.

- Mas isso iria provar ao tenente McGreavy que estou dizendo a verdade!

- Iria mesmo?

Judd compreendeu imediatamente. McGravy certamente iria pensar que fora ele próprio quem colocara os bastões de dinamite. Não obstante, parecia-lhe estranho que um detetive particular ocultasse informações à polícia. Sua impressão era de que Moody se parecia com um iceberg. A maior parte do homem estava oculta sob a superfície, por trás daquela fachada de gordo bonachão de cidade pequena. Naquele momento, ouvindo Moody falar, Judd sentiu-se exultante. Ele não era um insano e o mundo estava subitamente repleto de terríveis coincidências. Havia um assassino à solta. Um assassino de carne e osso. E, por alguma razão ignorada, ele escolhera Judd como seu alvo.

"Meu Deus", pensou Judd, "como nossos egos podem ser facilmente destruídos"! Alguns minutos atrás ele estava pronto a acreditar que era um paranóico. A sua dívida para com Moody era incalculável.

- ...Afinal, o senhor é médico - estava dizendo Moody. - Eu sou apenas um velho detetive. E sempre digo que se deve ir à colméia quando se quer uma abelha.

Judd estava começando a compreender o jargão de Moody.

- Quer saber a minha opinião sobre o tipo do homem ou homens que estamos procurando?

- Isso mesmo. Estamos às voltas com um maníaco homicida que fugiu de um hospício ou temos que procurar mais fundo?

- Temos que ir mais fundo - disse Judd rapidamente.

- O que o leva a pensar assim, Doutor?

- Antes de mais nada, porque foram dois homens que tentaram arrombar meu consultório ontem à noite.. Eu ainda poderia engolir a história de lunático, mais dois lunáticos trabalhando juntos é demais!

Moody assentiu, aprovando o raciocínio.

- Entendido. Continue.

- Em segundo lugar, porque uma mente desequilibrada pode ter uma obsessão, mas age de acordo com um padrão determinado. Não sei por que John Hanson e Carol Roberts foram assassinados. Mas, a menos que eu esteja completamente errado, estou marcado para ser a terceira e última vítima.

- O que o leva a pensar que será o último?

- Porque se houvesse outros para serem assassinados, eles teriam ido apanhá-los assim que fracassaram na primeira tentativa de matar-me. Em vez disso, porém, eles estão-se concentrando exclusivamente na tentativa de liquidar-me.

- Sabe, Doutor, acho que tem uma inclinação natural para o trabalho de detetive. Judd franziu o rosto.

- Mas há diversas coisas que não fazem o menor sentido.

- Tais como?

- Em primeiro lugar, o motivo. Não sei de ninguém que...

- Falaremos disso depois. O que mais?

- Se alguém está realmente tão ansioso por matar-me, já poderia tê-lo feito facilmente.

Quando aquele carro me atropelou, tudo que o motorista precisava fazer era dar macha à ré e passar com o carro por cima de mim. Eu estava desmaiado.

- Ah! É nesse ponto que o Sr. Benson entra na história. Judd fitou-o, sem entender.

- O Sr. Benson é a testemunha do acidente - explicou Moody, benevolente. - Descobri o

nome dele no relatório da polícia sobre o acidente e fui procurá-lo assim que o senhor saiu do meu escritório. O táxi custou-me três dólares e cinqüenta, Certo?

Judd assentiu, aturdido demais para conseguir falar.

- O Sr. Benson... Devo dizer que ele é peleiro. Tem coisas muito bonitas. Se quiser comprar algo para a sua namorada, fale comigo que lhe arranjarei um desconto especial. Seja como for, na terça-feira, o dia do acidente, ele estava saindo de um prédio onde a sua cunhada trabalha. Tinha levado alguns remédios para o seu irmão Matthew, que é vendedor de Bíblias e estava muito gripado.

A cunhada ia levar os remédios para casa.

Judd controlou a impaciência. Se Norman Z. Moody sentisse vontade de recitar toda a Declaração de Independência, ele escutaria sem reclamar.

- O Sr. Benson deixou os remédios com a cunhada e estava saindo do prédio quando a limusine avançou em sua direção. É claro que ele não sabia na ocasião, que se tratava do senhor, Doutor.

Judd simplesmente assentiu.

- O carro andava um pouco de lado. Do ponto em que estava, Benson teve a impressão que derrapava. Quando viu o carro atropelá-lo, saiu correndo em sua direção. A limusine recuou para atropelá-lo novamente. O motorista viu então o Sr. Benson e fugiu em disparada.

Judd engoliu em seco.

- Então quer dizer que se o Sr. Benson por acaso não estivesse por perto...

- Isso mesmo. Nós dois não nos teríamos conhecido. Os rapazes não estão brincando em serviço. Estão mesmo a fim de liquidá-lo, Doutor.

- O que me diz do ataque ao meu consultório? Porque é que eles simplesmente não derrubaram a porta?

Moody ficou em silêncio por um momento.

- Não dá para entender. Eles poderiam ter arrombado a porta e matado o senhor e quem quer que estivesse em sua companhia, sem que ninguém os visse. Mas foram embora quando pensaram que o senhor não estava sozinho. Isso não combina com o resto da história.

Moody ficou novamente em silêncio, mordendo o lábio inferior.

- A menos...

- A menos o quê?

Uma expressão especulativa surgiu no rosto de Moody.

- Por enquanto vou guardar só para mim. Tive uma idéia, mas não faz sentido enquanto não encontrarmos um motivo.

Judd sacudiu os ombros, desolado.

- Não sei de ninguém que tenha motivo para matar-me. Moody pensou no assunto por um momento.

- Será que não partilhou nenhum segredo com o tal de Hanson e com Carol Roberts, Doutor? Algo que somente os três soubessem?

Judd sacudiu a cabeça.

- Os únicos segredos que tenho são segredos profissionais, a respeito dos meus pacientes. E não há absolutamente nada nos casos deles que possa justificar um homicídio. Nenhum de meus pacientes é agente secreto, espião estrangeiro ou foragido da justiça. São pessoas comuns, donas-de-casa, profissionais liberais, altos funcionários de grandes organizações, pessoas com problemas que não conseguem enfrentar sozinhas.

Moody fitou-o com uma expressão inocente.

- Tem certeza de que não há nenhum maníaco homicida entre os seus pacientes, Doutor? A voz de Judd era firme:

- Certeza absoluta. Ontem talvez eu não tivesse muita certeza. Para dizer a verdade, estava começando a pensar que eu próprio sofria de paranóia e que o senhor procurava confirmar essa teoria naquele nosso primeiro encontro.

Moody sorriu.

- A idéia me passou pela cabeça. Depois que me telefonou marcando o encontro, andei fazendo umas averiguações. Telefonei para dois médicos, amigos meus. O senhor tem uma reputação e tanto, Doutor.

Então o "Sr. Stevenson" fazia parte da fachada de caipira que Moody assumia.

- Se formos procurar a polícia agora com o que já sabemos - disse Judd -, poderemos, pelo menos, conseguir com que eles se ponham à procura de quem está por trás disso tudo.

Moody fitou-o com uma expressão um tanto surpresa.

- Acha mesmo? Mas não temos muita coisa para falar, não é mesmo, Doutor? Era verdade.

- Não quero que fique desanimado. Acho que estamos realmente progredindo. Já conseguimos diminuir consideravelmente o nosso campo de busca.

Quando Judd falou, havia um tom de frustração em sua voz:

- Claro. Já sabemos agora que pode ser qualquer pessoa dos Estados Unidos.

Moody ficou imóvel por um momento, contemplando o teto. Finalmente sacudiu a cabeça e murmurou:

- Famílias...

- Famílias? - Acredito quando me diz que conhece os seus pacientes por dentro e por fora, Doutor. Se me diz que eles não poderiam cometer os crimes, eu tenho que acreditar. Afinal de contas, é a sua colméia, e é quem cuida das abelhas.

Ele recostou-se no sofá e acrescentou:

- Mas diga-me uma coisa: costuma entrevistar as famílias dos seus pacientes?

- Não. Às vezes a família nem mesmo sabe que o paciente está sendo submetido à psicanálise. Moody exibiu uma expressão de satisfação.

- Aí está!

- Está pensando que um parente de algum dos meus pacientes esteja tentando me matar?

- É possível.

- Nenhum teria mais motivos que qualquer um dos meus pacientes. Provavelmente até menos. Moody levantou-se com bastante dificuldade.

- Nunca se sabe, não é mesmo, Doutor? Vou dizer o que gostaria que fizesse: arrume-me uma lista de todos os pacientes que teve nas últimas quatro ou cinco semanas. É impossível?

Judd hesitou.

- Não - disse ele finalmente.

- Está pensando nessa história do relacionamento confidencial entre médico e paciente? Creio que está na hora de contornar um pouco essa regra. A sua vida está em jogo.

- Acho que está na pista errada. O que tem acontecido não possui a menor relação com meus pacientes ou suas famílias. Se houvesse algum caso de insanidade nas famílias dos meus pacientes, eu já teria descoberto na psicanálise.

Judd sacudiu a cabeça e acrescentou:

- Lamento, Sr. Moody, mas tenho que proteger os meus pacientes.

- Disse que não havia em seu arquivo nada de importante.

- Nada que seja importante para nós.

Judd pensou em algumas das revelações que constavam em seus arquivos. John Hanson apanhando marinheiros nos bares de invertidos da Terceira Avenida. Teri Washburn fazendo amor com todos os músicos do conjunto que fora tocar em seu apartamento. Evelyn Warshak, prostituta de catorze anos...

- Lamento - disse ele novamente - mas não posso mostrar-lhe os meus arquivos... Moody sacudiu os ombros.

- Está certo. Mas sendo assim, terá de fazer uma parte do trabalho para mim.

- O que deseja que eu faça?

- Pegue as gravações de todas as pessoas que se deitaram em seu divã no último mês. Ouça atentamente cada uma. Só que desta vez não deve escutar como médico e sim como detetive. Procure alguma coisa que lhe pareça estranha e inexplicável.

- É o que sempre faço. Meu trabalho é justamente esse.

- Pois faça-o novamente. E fique bastante atento. Não quero perdê-lo até que este caso esteja resolvido.

Pegou o sobretudo, lutando para entrar dentro dele. Parecia executar os passos de um balé

de elefante. Diz-se que os homens gordos têm movimentos graciosos, pensou Judd. Mas o Sr. Moody não se incluía nessa categoria.

- Sabe o que eu acho mais estranho em toda essa história, Doutor?

- O que é?

- É o fato de dois homens terem tentado arrombar o seu consultório. Talvez um homem pudesse ter essa ânsia incontrolável de matá-lo... mas porquê dois?

- Não sei.

Moody ficou pensativo por um longo tempo. Exclamou de repente:

- Por Deus!

- O que é?

- Acabo de ter uma idéia. Se eu estiver certo, pode ser que haja mais de dois homens nessa história.

Judd mostrou-se incrédulo.

- Está querendo dizer que pode haver todo um bando de maníacos atrás de mim? Mas isso não faz sentido!

Havia uma expressão de excitamento crescente no rosto de Moody.

- Doutor, tenho a impressão de que sei quem é o juiz neste jogo. Ainda não sei como nem porquê..,. mas talvez eu possa saber quem.

- Quem?

Moody sacudiu a cabeça.

- O senhor me mandaria para um hospício se eu lhe dissesse. Eu sempre digo que se precisa ter certeza de que a arma está de fato carregada antes de se começar a disparar. Quero antes praticar um pouco de tiro ao alvo. Se eu tiver certeza de que estou na trilha certa, virei contar- lhe tudo.

- Espero que esteja - disse Judd, ansioso.

- Não, Doutor. Se aprecia a sua vida, um pouco que seja, deve rezar para que eu esteja errado.

E com isso Moody partiu.

Judd tomou um táxi e seguiu para o seu consultório.

Era meio-dia de sexta-feira. Faltando apenas três dias para o Natal, as ruas estavam apinhadas de pessoas que faziam compras de última hora, encolhendo-se contra o vento gelado que soprava no rio Hudson. As vitrinas das lojas eram festivas e iluminadas, com árvores de Natal e figuras esculpidas da Natividade, Paz na Terra. Nata, Elizabeth e o filho que não chegara a nascer. Se conseguisse sobreviver, não estaria longe o dia que alcançaria a sua própria paz, libertando-se de um passado morto e enterrado. Ele sabia que, com Anne, teria... Judd conteve-se firmemente. De que adiantava fazer fantasias com uma mulher casada que estava perto de ir para longe com o marido, a quem ela amava?

O táxi parou diante do edifício em que ficava seu consultório e Judd saltou, olhando nervosamente ao redor. Mas o que ele devia procurar? Não tinha a menor idéia de qual seria a arma assassina e nem de quem a estaria empunhando.

Chegando ao consultório, Judd trancou cuidadosamente a porta externa, depois foi ao armário embutido onde guardava as gravações das sessões e abriu-o. As fitas estavam arquivadas cronologicamente, sob o nome de cada paciente. Ele tirou as mais recentes e levou-as para o gravador. Com todas as consultas daquele dia canceladas, poderia concentrar- se inteiramente em tentar descobrir alguma pista que pudesse envolver amigos e parentes dos seus pacientes. Judd tinha a impressão de que a sugestão de Moody era inútil, mas passara a ter respeito bastante pelo detetive particular para ignorá-la.

Ao colocar a primeira fita no gravador, recordou-se da última vez em que usava o gravador. "Será que fora mesmo apenas na noite anterior"? A recordação produziu nele uma sensação aguda de pesadelo. Alguém planeara assassiná-lo naquela sala, o mesmo lugar em que haviam assassinado Carol.

Judd compreendeu subitamente que nem se lembrara dos pacientes da clínica gratuita onde trabalhava uma vez por semana. Provavelmente porque os assassinos tinham aparecido no seu consultório e não no hospital. Mesmo assim... Ele foi até à parte do armário embutido onde estava escrito "CLÍNICA", examinou as fitas e selecionou meia dúzia. Pôs a primeira no gravador.

Rose Graham.

- ...um acidente, Doutor. Nancy chora demais. Está sempre gemendo. Assim, quando bato nela, é para o seu próprio bem, entende?

- Já procurou alguma vez descobrir por que Nancy chora tanto? - indagou a voz de Judd.

- É porque ela é mimada. O pai estragou-a completamente e depois foi embora e nos deixou. Nancy sempre se julgou a filhinha do papai. Mas como Harry poderia amá-la, se nos abandonou desse jeito?

- Você e Harry nunca se casaram, não é?

- Bem... nós vivíamos maritalmente. É assim que chamam, não é? ïamo-nos casar.

- Há quanto tempo viviam juntos?

- Quatro anos.

- Quanto tempo depois de Harry tê-la abandonado é que você quebrou o braço de Nancy?

- Acho que uma semana depois. Eu não tinha intenção de machucá-la. Mas ela não parava de se lamuriar e acabei pegando a vara da cortina e batendo nela.

- Acha que Harry amava Nancy mais do que a você?

- Não. Harry era louco por mim.

- Então por que acha que ele a deixou?

- Porque ele era homem. E sabe como os homens são? Uns animais! Todos vocês! Deviam ser massacrados como porcos!

Soluços.

Judd desligou o gravador e ficou pensando em Rose Graham. Ela era uma misantropa psicopata e quase matara de pancada a filha de seis anos, em duas ocasiões. Mas os padrões dos crimes não se ajustavam à psicose de Rose Grahan.

Ele pôs outra fita de pacientes da Clínica no gravador. Alexandre Fallon.

- A polícia diz que atacou o Sr. Champion com uma faca, Sr. Fallon?

- Fiz apenas o que me mandaram.

- Alguém o mandou matar o Sr. Champiom?

- Ele me disse para fazê-lo.

- Ele quem?

- Deus.

- Porque é que Deus o mandou matar o sr. Champion?

- Porque Champion é um homem do diabo. Ele é um ator. Eu o vi no palco. Beijou aquela mulher, aquela atriz, na frente de todo o mundo. Beijou-a e...

Silêncio.

- Continue.

- Segurou-lhe... a teta.

- E isso o perturbou?

- Mas claro que sim! Deixou-me transtornado. Será que não compreende o que aquilo significava? Que ele tinha um conhecimento carnal dela! Quando saí do teatro, a sensação que tive foi de que acabara de voltar de Sodoma e Gomorra. Eles tinham que ser punidos.

- E então decidiu matá-lo?

- Não fui eu quem decidiu. Deus é quem o fez. Eu apenas executei as Suas ordens.

- Deus lhe fala com muita freqüência?

- Somente quando há trabalho Seu para ser feito. Ele me escolheu como Seu instrumento porque sou puro. Sabe o que me torna puro? E sabe o que é a coisa mais purificadora do mundo?

Exterminar os maus.

Alexandre Fallon. Trinta e cinco anos. Assistente de padeiro. Fora enviado para um hospício durante seis meses e depois solto. Será que Deus lhe ordenara que destruísse Hanson, um homossexual, e Carol, uma antiga prostituta, além de Judd, o benfeitor de ambos? Judd concluiu que era improvável. Os processos mentais de Fallon obedeciam a espasmos breves e dolorosos. Quem quer que tivesse planeado os crimes, era inegavelmente uma pessoa altamente eficiente e organizada.

Ele tocou diversas fitas dos pacientes da clínica, mas nenhuma delas se ajustava ao padrão que estava procurando. Não, não era nenhum paciente da clínica.

Repassou então os pacientes do consultório e um nome logo lhe despertou a atenção. Skeet Gibson.

Pôs a fita no gravador.

- Bom dia, Doutor. O que acha desse lindo dia que lhe preparei especialmente?

- Estou-me sentindo bem hoje.

- Se eu me estivesse sentindo melhor, eles certamente me iriam trancafiar. Foi ao meu espetáculo ontem à noite?

- Não me foi possível. Lamento.

- Foi um estouro. Jack Gould chamou-me de "o maior comediante do mundo". E quem sou eu para discutir com um gênio Jack Gould? Devia ter ouvido o público. Eles aplaudiram freneticamente. Sabe o que isso prova?

- Que eles sabem ler os cartões de "Aplausos"?

- É muito esperto, seu diabo! É disso que eu gosto: um "espreme-crânios" que tem senso de humor. O último que eu tive era um chato! Tinha uma barba imensa que realmente me incomodava.

- Por quê?

- Porque era uma mulher.

Risadas. - Eu o peguei desta vez, não é? Agora falando sério, uma das razões pelas quais estou-me sentindo tão bem hoje é que acabei de investir um milhão de dólares para ajudar as crianças em Biafra.

- Não é de admirar que se sinta bem.

- Pode apostar que sim. A história saiu nas primeiras páginas dos jornais do mundo inteiro.

- E isso é muito importante?

- Como assim? Quantos caras acha que podem investir tanto dinheiro assim? Tem que começar a tocar a sua buzina, Peter Pan. Estou na maior satisfação de poder investir um dinheiro desses.

- Está falando o tempo todo em investir. O que quer dizer é doar, não é?

- Dá tudo no mesmo. A gente emprega um milhão de dólares e logo estão todos nos beijando os pés. Eu já lhe disse que hoje é meu aniversário de casamento?

- Não. Parabéns!

- Obrigado. Quinze anos espetaculares. Acho que nunca conheceu Sally. É a rapariga mais maravilhosa que já caminhou por esta terra de Deus. Sabe como os parentes da mulher podem ser um incômodo, não é? Pois Sally tem dois irmãos, Ben e Charley. Eu já lhe falei a respeito deles. Ben é o principal redator do meu programa de televisão e Charley é meu produtor. Eles são uns gênios!

Já tem sete anos que estou no ar. E em nenhum momento deixamos de estar entre os dez programas de maior audiência. Fui muito esperto em casar-me e entrar numa família como essa, não acha? A maioria das mulheres fica gorda e desleixada depois que agarra o marido. Mas Sally, graças a Deus, está mais esbelta agora do que no dia em que nos casamos. Que mulher! Tem um cigarro aí, Doutor?

- Tome. Pensei que tivesse parado de fumar.

- Eu apenas quis demonstrar para mim mesmo que ainda tinha a velha força de vontade, e por isso parei. Mas agora voltei a fumar porque quero... Fiz ontem um novo contrato com a televisão. E realmente passei-os para trás. Minha hora já acabou?

- Ainda não. Por que está tão inquieto, Skeet?

- Para lhe dizer a verdade, queridinho, estou em tão boa forma que nem mesmo sei por que continuo a vir aqui!

- Não tem problemas?

- Eu? O mundo é minha ostra e eu sou "Diamond Jim Brady". Tenho que agradecer-lhe, Doutor. Ajudou-me de verdade. É o meu homem. Tenho a impressão de que o senhor ganha tanto dinheiro que até me dá vontade de estabelecer-me por conta própria no seu ramo. O que acha da idéia? Isso me lembra a história de um cara que vai consultar um "espreme-crânios", mas está tão nervoso que apenas se deita no divã e não diz coisa alguma. Ao final de uma hora, o médico diz que são cinqüenta dólares. A mesma cena se repete durante dois anos inteirinhos, sem que o cara fale coisa alguma. Mas, finalmente, o cara resolve abrir a boca: "Doutor, posso fazer-lhe uma pergunta?"

Diz o médico: "Mas é claro!" E o camaradinha diz: "Não gostaria de ter um sócio?" Risadas.

- Tem uma aspirina ou algo assim?

- Claro! Está com outra das suas dores de cabeça?

- Não é nada que eu não possa controlar, companheiro... Obrigado. Isso vai resolver.

- O que acha que provoca essas suas dores de cabeça?

- Apenas a tensão normal do show-business... Esta tarde vamos fazer a leitura do script do próximo programa.

- E isso o deixa nervoso?

- A mim? Mas claro que não! Por que eu deveria ficar nervoso? Se as minhas piadas são horríveis, eu faço uma carranca e pisco para o público e eles engolem direitinho. Não importa o quão nojento seja um programa, o velho Skeet sempre sai cheirando como uma rosa!

- Por que acha que tem essas dores de cabeça todas as semanas?

- Como diabo eu vou saber? O senhor que é médico é que deve dizer-me. Eu não lhe pago para passar uma hora sentado em cima desse traseiro gordo a me fazer perguntas estúpidas. Meu Deus, se um idiota como você não pode curar uma simples dor de cabeça, então eles não deveriam deixá-lo à solta confundindo a vida das pessoas. Onde é que conseguiu o seu diploma de médico?

Numa escola de veterinária? Eu não lhe confiaria os meus gatos! Não passa de um miserável charlatão! A única razão que me fez procurá-lo foi a insistência de Sally. Só assim consegui me livrar dela. Conhece a minha definição de Inferno? É estar casado com uma mulher feia e esquelética durante quinze anos. Se está procurando mais alguns otários para explorar, fale com os dois irmãos de Sally, Ben e Charley. Ben é o principal redator do meu programa, mas não sabe qual é a ponta do lápis com que se pode escrever. E Charley é ainda mais estúpido. Eu gostaria de que todos caíssem mortos. Só estão a fim de me explorar. E pensa que eu gosto de você? Muito pelo contrário.

Não passa de um nojento! É um presunçoso, sentado aí a olhar tudo de cima. Não tenho nenhum problema, não é? E sabe porquê? Porque não existe de verdade. Tudo o que é passar o dia arriado nesse traseiro gordo a roubar o dinheiro das pessoas doentes. Pois bem, seu filho da puta, eu vou destruí-lo. Vou denunciá-lo à Associação Médica Americana...

Silêncio.

- Eu gostaria de não ter que ir à maldita leitura... Silêncio.

- Continue firme aqui, queridinho. Até a próxima semana.

Judd desligou o gravador. Skeet Gibson, atualmente o mais famoso comediante da América, devia ter sido internado dez anos atrás. Suas diversões eram espancar coristas jovens e louras e provocar brigas de bar. Skeet era um homem pequeno, mas começara a vida como lutador de boxe e sabia como machucar os outros. Um dos seus desportos preferidos era entrar num bar de efeminados, atrair um homossexual inocente para o banheiro e ali espancá-lo impiedosamente.

Skeet fora agarrado pela polícia por diversas vezes, mas os incidentes tinham sido sempre abafados. Afinal de contas ele era o maior comediante da América. Skeet era paranóico o bastante para querer matar, e era bem capaz de matar num acesso de raiva. Mas Judd não achava que ele fosse capaz de executar um plano de vingança a sangue-frio. E Judd tinha certeza de que essa era a chave para a solução do problema. Quem quer que estava querendo matá-lo, não agia no auge de alguma emoção, mas metodicamente e com sangue- frio. Era um louco. Que não se comportava como tal.

Capítulo 11

 

 

O telefone tocou. Era o serviço de recados. Eles haviam conseguido falar com todos os seus pacientes, à exceção de Anne Blake. Judd agradeceu à telefonista e desligou.

"Então Anne viria naquele dia"! Judd ficou perturbado ao perceber como se sentia irracionalmente feliz pela perspectiva de vê-la novamente. Mas tinha que lembrar-se de que ela só estava vindo porque ele lhe pedira, como médico. O quanto ele sabia a respeito dela... e quão pouco!

Ele pôs uma das fitas das sessões de Anne no gravador e ficou escutando. Era uma das primeiras visitas dela.

- Está à vontade, Srª Blake?

- Estou sim, obrigada.

- Relaxada?

- Sim.

- Está com os punhos cerrados.

- Talvez eu esteja um pouco tensa. Um longo silêncio.

- Fale-me a respeito da sua vida em casa. Está casada há seis meses, não é?

- É, sim.

- Continue.

- Sou casada com um homem maravilhoso. Moramos numa linda casa.

- Como é a casa?

- No estilo rural francês... É uma propriedade antiga, adorável! Há um caminho longo e sinuoso que leva até a casa. No alto do telhado fica um galo de bronze muito velho e engraçado, sem cauda. Creio que algum caçador arrancou-a com um tiro há muito tempo atrás. A propriedade possui cinco acres, a maior parte coberta de bosques. Costumo dar longos passeios. É como murar no campo.

- Gosta do campo?

- Muito.

- Seu marido também gosta?

- Creio que sim.

- Um homem não costuma comprar uma propriedade de cinco acres a menos que goste.

- Ele me ama. De qualquer maneira, teria comprado a casa para mim. É um homem muito generoso.

- Vamos falar a respeito dele. Silêncio.

- Ele é bem-apessoado?

- Anthony é bem bonito!

Judd sentiu uma ponta de ciúmes, irracional e nada profissional.

- São compatíveis fisicamente?

Era como língua apalpando um dente dolorido.

- Somos.

Judd sabia como ela deveria ser na cama: excitante, feminina, entregando-se toda. "Céus", pensou ele, "mude logo de assunto"!

- Quer ter filhos?

- Quero.

- Seu marido também quer?

- Claro que sim.

Um longo silêncio, durante o qual só se ouvia o roçar da fita no gravador. Depois:

- Sra. Blake, veio procurar-me porque disse ter um problema desesperador. Tem relação com seu marido, não é?

Silêncio.

- Vou pressupor que sim. Pelo que me disse antes, a senhora e seu marido se amam. Ambos são fieis, ambos querem filhos. Vivem numa linda casa e seu marido é um homem de boa aparência e bem-sucedido nos negócios. Ele lhe faz todas as vontades. E está casada há apenas seis meses.

Infelizmente está parecendo a velha piada: "Mas qual é o meu problema, Doutor?" Silêncio novamente. Só se ouvia o zumbido impessoal da fita. Finalmente ela falou:

- É... é um pouco difícil para mim falar a esse respeito. Pensei que poderia conversar com um estranho, mas...

Judd recordou-se neste ponto, nitidamente, de como ela se virava no divã para fitá-lo com aqueles olhos grandes e enigmáticos. Ela começara então a falar mais depressa, procurando superar as barreiras que a mantinham em silêncio.

- ... mas vejo agora que é muito mais difícil. É que ouvi algumas coisas e... Provavelmente eu tirei as conclusões erradas.

- É alguma coisa relacionada com a vida pessoal do seu marido? Mulher?

- Não.

- Com a vida profissional dele?

- Sim...

- Acha que seu marido mentiu a respeito de alguma coisa? Tentou ficar com a parte do leão em algum negócio?

- Mais ou menos isso.

Judd pisava em terreno mais firme.

- E isso afetou a confiança que a senhora depositava nele. Mostrou-lhe um lado de seu marido que nunca tinha visto antes.

- Eu... eu... eu não posso falar sobre isso. Sinto que sou desleal para com ele só em ter vindo aqui. Por favor, Dr. Stevens, não me pergunte mais nada hoje.

E assim terminara aquela sessão, Judd desligou o gravador.

Então o marido de Anne fizera algum negócio não muito honesto! Talvez ele sonegasse os impostos. Ou tivesse levado alguém a falência. Era natural que Anne ficasse transtornada. Ela era uma mulher sensível. Sua fé no marido ficaria abalada.

Judd pensou no marido de Anne como um possível suspeito. Ele estava no negócio de construções. Judd não o conhecia pessoalmente. Mas, qualquer que fosse o problema dele, nem com muita imaginação se podia aceitar que incluísse John Hanson, Carol Roberts ou o próprio Judd. E o que dizer da própria Anne? Ela não poderia ser uma psicopata? Uma maníaca homicida? Judd recostou-se na cadeira e procurou analisá-la objetivamente.

Ele nada sabia a respeito de Anne, exceto o que ela própria lhe contara. Seus antecedentes podiam ser fictícios, ela poderia ter inventado tudo. Mas o que teria a ganhar com isso? Se era alguma charada elaborada para encobrir um assassinato, teria que haver uma motivação. A lembrança do rosto e da voz de Ann dominaram a mente de Judd, e ele compreendeu que ela não poderia estar envolvida naquilo. Ele era capaz de apostar a sua própria vida. A ironia da situação fê-lo sorrir.

Judd pegou as fitas de Teri Washburn. Talvez houvesse nelas alguma coisa que tivesse deixado escapar.

Recentemente Teri andara tendo algumas sessões extras, a seu próprio pedido. Será que ela estaria sofrendo alguma nova pressão que não lhe contara? Devido à incessante preocupação de Teri com sexo, era muito difícil determinar acuradamente nos seus progressos. Mas por que ela pedira subitamente, e com insistência, para passar mais tempo com ele?

Judd pegou uma das fitas ao acaso e colocou-a no gravador.

- Vamos falar a respeito dos seus casamentos, Teri. Já se casou cinco vezes, não é?

- Seis. Mas quem se vai importar em contar?

- Foi fiel aos seus maridos? Risadas.

- Está querendo demais de mim. Não há um único homem capaz de satisfazer-me. É um problema físico.

- Como assim?

- É a maneira como eu sou feita. Tudo o que sou é um buraco quente que tem que ser enchido o tempo todo.

- Acredita mesmo nisso?

- Que o buraco tem que estar sempre cheio?

- Que você é diferente, fisicamente, das outras mulheres?

- Mas claro que sou. Foi o próprio médico do estúdio quem me disse. É um problema glandular ou algo assim.

Uma pausa.

- Ele era uma péssima trepada.

- Já verifiquei todos os seus exames. Fisiologicamente seu corpo é normal, sob todos os aspectos.

- Ao inferno com os exames, Charley. Por que não descobre por si mesmo?

- Já esteve apaixonada alguma vez, Teri?

- Posso estar apaixonada por você. Silêncio.

- Não me olhe desse jeito! Não posso fazer nada. Eu já lhe disse que sou assim. É a maneira como sou constituída. Estou sempre faminta.

- Acredito em você. Mas não é seu corpo que está faminto e sim as suas emoções.

- Nunca ninguém trepou com as minhas emoções. Quer experimentar?

- Não.

- O que quer então?

- Ajudá-la.

- Por que não vem até aqui e senta-se ao meu lado?

- Basta por hoje.

Judd desligou o gravador. Recordou-se do diálogo que haviam travado quando Teri falara de sua carreira como grande estrela e ele perguntara por que ela deixara Hollywood.

- Dei uma trepada num palhaço antipático, numa festa em que estavam todos bêbados. Acontece que ele era o chefão e mandou que me expulsassem de Hollywood com um chute no meu traseiro polaco.

Judd não insistira no assunto porque, na ocasião, estava mais interessado nos antecedentes familiares de Teri. O assunto nunca mais voltara à baila. Agora ele sentia uma dúvida inquietante.

Deveria ter sondado mais um pouco. Nunca tivera por Hollywood um interesse diferente do que o que o Dr. Louis Leaky ou Margaret Mead pudessem ter pelos nativos da Patagônia. Quem poderia saber alguma coisa a respeito de Teri Washburn, a antiga e glamurosa estrela? Norah Hadley era fanática por cinema. Judd vira, certa vez, pilhas de revistas de cinema na casa deles e zombara de Peter por causa disso. Norah passara a noite inteira defendendo Hollywood.

Judd pegou o telefone e discou. Norah atendeu.

- Olá - disse Judd.

- Judd!

A voz dela era cordial e afetuosa.

- Está telefonando para dizer que virá ao nosso jantar, não é?

- Falaremos disso daqui a pouco.

- É melhor que você venha. Prometi a Ingrid. Ela é linda!

Judd não tinha a menor dúvida de que era mesmo, mas não da mesma maneira como Anne!

- Se você romper outro compromisso com ela, teremos que entrar em guerra com a Suécia.

- Isso não acontecerá novamente.

- Você já se recuperou do acidente?

- Já.

- Foi uma coisa horrível...

Havia um tom hesitante na voz de Norah.

- Judd... sobre o dia de Natal. Peter e eu gostaríamos que viesse cear conosco. Por favor... Judd sentiu a contração familiar no peito. Todos os anos acontecia a mesma coisa. Peter e Norah eram os seus melhores amigos e detestavam vê-lo passar todos os natais sozinho, caminhando entre estranhos, perdendo-se no meio da multidão desconhecida, impelindo seu corpo a manter-se em movimento até ficar exausto demais para pensar. Era como se ele estivesse celebrando alguma terrível missa negra para os mortos. Permitia que a dor se apossasse dele e o dilacerasse, penitenciando-se em algum ritual antigo sobre o qual não tinha o menor controle. "Você está dramatizando as coisas", disse Judd para si mesmo.

- Judd...

- Desculpe, Norah. Talvez no próximo Natal... Ela procurou não demonstrar desapontamento.

- Não há problema. Direi a Peter.

- Obrigado.

Judd recordou-se subitamente do motivo pelo qual telefonara. - Norah, você sabe quem é Teri Washburn?

- A Teri Washburn? A estrela? Por que está perguntando?

- Eu... eu a vi em Madison Avenue esta manhã.

- Em pessoa? Está falando sério? Norah parecia uma criança ansiosa.

- Como ela parece? Velha? Jovem? Gorda? Magra?

- Está muito bem. Ela foi uma grande estrela, não foi?

- Se foi? Ela foi a maior de todas... e em todos os sentidos, se entende o que estou querendo dizer.

- Por que será que ela deixou Hollywood?

- Não foi exatamente assim. Ela não deixou Hollywood.

Então Teri lhe contara a verdade. Judd sentiu-se um pouco melhor.

- Vocês, médicos, vivem com a cabeça enterrada na areia. Teri Washburn esteve envolvida num dos maiores escândalos da história de Hollywood.

- É mesmo? O que houve?

- Ela assassinou o amante.