A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 20 de 23

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A Outra Face

Capítulo 20 · - Calma, calma - disse Angeli, a…

 

- Calma, calma - disse Angeli, a voz muito rouca. - Assim não posso entender uma só palavra do que está dizendo.

- Desculpe - disse Judd, respirando fundo e acrescentando: - Eu descobri a resposta! Ele sentia-se tão aliviado por ouvir a voz de Angeli que quase gaguejava.

- Já sei quem está querendo matar-me. Sei quem é Don Vinton. A voz de Angeli era céptica:

- Não conseguimos descobrir nenhum Don Vinton.

- Sabe por quê? Porque não é o nome de um homem e sim um título!

- Quer falar um pouco mais devagar? A voz de Judd tremia de excitação.

- Don Vinton não é nome de pessoa. É uma expressão italiana que significa "o chefão". Foi o que Moody quis dizer-me, que o "chefão" é que está atrás de mim.

- Não estou entendendo nada, Doutor.

- Não significa coisa alguma, em inglês, mas será que não lhe sugere nada se pensar em italiano? Não seria uma organização de assassinos dirigida pelo Chefão?

Houve um longo silêncio do outro lado do fio.

- A Cosa Nostra?

- E quem mais poderia reunir dessa forma um grupo de assassinos e tantas armas? ácido, bombas, revólveres! Lembra-se de que eu lhe disse que o nosso homem devia ser um europeu meridional? Pois ele é italiano.

- Isso não faz o menor sentido, Doutor. Por que a Cosa Nostra haveria de querer matá-lo?

- Não tenho a menor idéia. Mas sei que estou certo. E isso se ajusta a algo mais que Moody me disse: que havia um grupo de homens querendo me matar.

- É a teoria mais louca que já ouvi, Doutor. - Ele fez uma pausa longa e depois acrescentou:

- Mas suponho que seja possível.

Judd sentiu-se aliviado. Se Angeli não quisesse dar-lhe atenção, ele não teria mais ninguém a quem recorrer.

- Já falou a respeito disso com alguém, Doutor?

- Não.

- Pois não o faça - disse Angeli, com veemência inesperada. - Se está certo, sua vida depende disso. Não chegue perto do seu apartamento nem do consultório.

- Não chegarei. Judd lembrou-se de uma coisa e perguntou:

- Já sabia que McGreavy tem um mandato de prisão contra mim?

- Já.

Angeli hesitou antes de acrescentar:

- Se McGreavy o apanhar, não chegará vivo à delegacia.

"Meu Deus"! Então ele não se enganara a respeito de McGreavy. Mas não podia acreditar

que McGreavy fosse o cérebro por trás de tudo. Havia alguém a dirigi-lo... Don Vinton. O Chefão.

- Está-me ouvindo, Doutor?

A boca de Judd estava ressequida.

- Estou.

Um homem com sobretudo cinza estava parado do lado de fora da cabine telefônica, olhando para Judd. Seria o mesmo homem que ele vira antes?

- Angeli...

- Pois não?

- Não sei quem são os outros. Não sei como parecem. Como posso manter-me vivo até que eles sejam apanhados?

O homem de sobretudo cinza continuava a olhar fixamente para Judd. A voz de Angeli disse ao telefone:

- Vamos diretamente para o FBI. Tenho um amigo que tem contatos lá. Ele providenciará para que o senhor receba proteção até que tudo esteja resolvido. Certo?

- Certo - respondeu Judd, agradecido.

Os joelhos de Judd pareciam ser de gelatina.

- Onde está agora, Doutor?

- Numa cabine telefônica no saguão da Pan-Am.

- Não saia daí. Procure ficar sempre cercado por uma multidão. Já estou indo encontrá-lo. Houve um clique no outro lado da linha quando Angeli desligou.

Ele desligou o telefone na delegacia, sentindo uma náusea profunda invadi-lo. Ao longo dos anos ele se acostumara a lidar com assassinos, tarados sexuais, pervertidos de toda espécie. Desenvolvera uma carapaça protetora, que lhe permitira continuar a acreditar na dignidade e bondade básica do homem.

Mas um policial corrupto era algo diferente.

Um policial corrupto era um câncer que afetava toda a polícia, uma ameaça a tudo aquilo por que os policiais decentes lutavam e morriam.

Os ruídos de passos e murmúrio de vozes enchia a sala, mas ele não ouvia coisa alguma. Dois guardas uniformizados passaram por ali, levando um gigante algemado. Um dos guardas tinha um olhar preto e o outro segurava um lenço no nariz a sangrar. A manga do seu uniforme fora rasgada pela metade. O próprio guarda é que teria de pagar a nova blusa. Aqueles homens estavam dispostos a arriscar as suas vidas todos os dias e todas as noites do ano inteiro. Mas isso não dava manchete.

Um polícia corrupto dava manchete. Um polícia corrupto era uma nódoa para toda a corporação. E acontece que o policial corrupto era o seu companheiro de trabalho.

Cansado, ele se levantou e percorreu o velho corredor até o gabinete do Capitão. Bateu a porta uma vez e entrou.

Sentado à mesa escalavrada, marcada por pontas de cigarro de anos incontáveis, achava-se

o Capitão Bertelli. Dois agentes do FBI estavam na sala, usando ternos comuns. O Capitão Bertelli levantou os olhos quando a porta se abriu.

- E então?

O detetive assentiu.

- Está comprovado. O encarregado da guarda das provas disse que ele pegou a chave de Carol Roberts na tarde de quarta-feira e devolveu-a a noite. Foi por isso que o teste de parafina deu negativo. Ele entrou no consultório do Dr. Stevens com uma chave original. O encarregado não pensou duas vezes no assunto, porque sabia que ele estava incumbido do caso.

- Sabe onde ele está agora? - perguntou o mais jovem dos agentes do FBI.

- Não. Tínhamos um homem a segui-lo, mas ele conseguiu despistá-lo. Pode estar em qualquer parte.

- Certamente está procurando o Dr. Stevens - disse o segundo agente do FBI. O Capitão Bertelli virou-se para os agentes do FBI.

- Quais são as chances do Dr. Stevens permanecer vivo? O mais velho sacudiu a cabeça.

- Se o encontrarem antes de nós, absolutamente nenhuma. O Capitão Bertelli assentiu.

- Temos que encontrá-lo primeiro.

Ele fez uma pausa. Quando voltou a falar, sua voz tinha um tom furioso:

- E quero Angeli também. Não me interessa a maneira como o peguem. Ele virou-se para o detetive e acrescentou:

- Mas quero que o pegue de qualquer maneira, McGreavy. O rádio de polícia começou a transmitir uma mensagem:

- Código dez... Código dez... Atenção todos os carros... Angeli desligou o rádio.

- Alguém sabe que eu fui apanhá-lo?

- Ninguém.

- Falou sobre a Cosa Nostra com mais alguém?

- Só com você.

Angeli assentiu, satisfeito.

Haviam atravessado a Ponte George Washington e estavam seguindo para Nova Jersey. Só que

agora estava tudo diferente para Judd. Antes ele estivera ali cheio de apreensões. Agora, com Angeli ao seu lado, não mais se sentia como um animal caçado. Era o caçador. E o pensamento proporcionou-lhe uma imensa satisfação.

Por sugestão de Angeli, Judd deixara o seu carro alugado em Manhattam e seguia no carro da polícia sem identificação do detetive. Angeli seguira para o norte, passando por Orangeburg.

Estavam-se aproximando agora de Old Tapan.

- Foi muito esperto percebendo o que estava acontecendo, Doutor. Judd sacudiu a cabeça.

- Eu já deveria ter imaginado assim que soube que havia mais de um homem envolvido. Não podia deixar de ser uma organização, usando assassinos profissionais. Creio que Moody desconfiou da verdade quando viu a bomba em meu carro. Eles tinham acesso a todos os tipos de armas.

"E Anne". Ela era parte da trama, preparando tudo para que pudessem assassiná-lo. Mesmo assim, ele não conseguia odiá-la. Não importava o que ela fizesse, Judd jamais poderia odiá- la.

Angeli saiu da estrada principal. Habilmente dirigiu o carro por uma estrada secundária, que levava a uma área bastante arborizada.

- Seu amigo sabe que estamos indo para a casa dele? - indagou Judd.

- Telefonei para ele. Está pronto para recebê-lo.

Abruptamente surgiu uma estrada lateral e Angeli entrou por ela. Percorreu quase dois quilômetros e parou diante de um portão eletrificando. Judd notou uma pequena câmara de televisão instalada no alto do portão. Houve um clique e o portão se abriu, fechando-se assim que passaram.

Começaram a subir por um caminho longo e sinuoso. Através das árvores à sua frente, Judd viu o telhado de uma enorme casa. Lá no alto, rebrilhando ao sol, havia um galo de bronze - ao qual estava faltando a cauda.