A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 7 de 23

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A Outra Face

Capítulo 6 · A primeira paciente de Judd para aquele…

 

A primeira paciente de Judd para aquele dia, Teri Washburn, estava á espera no corredor. Vinte anos atrás, Teri fora uma das maiores estrelas do firmamento de Hollywood. Mas sua carreira malograra da noite para o dia, ela se casara com madeireiro de Orgon e sumira. Desde então, Teri se casara cinco ou seis vezes. No momento vivia em Nova York com seu último marido, um importador. Ela levantou a cabeça com uma expressão furiosa quando Judd apareceu no corredor.

- Então...

O discurso de censura que ela ensaiara acabou quando viu o rosto de Judd.

- Mas o que lhe aconteceu, Doutor? Parece ter sido lançado para dentro de uma misturadora de cimento.

- Sofri um pequeno acidente. Desculpe o atraso.

Ele abriu a porta e introduziu Teri na sala de recepção. A cadeira e mesa vazias de Carol eram como fantasmas a espreitá-lo.

- Li a notícia a respeito de Carol - disse Teri, com alguma excitação na voz. - Foi um crime sexual?

- Não - respondeu Judd bruscamente. Ele abriu a porta de sua sala e pediu:

- Por favor, dê-me dez minutos para resolver alguns problemas urgentes.

Entrou no seu gabinete. Consultou a agenda e começou a telefonar para diversos pacientes, cancelando as consultas para aquele dia. Só não conseguiu falar com três pacientes. O braço e o peito doíam a cada movimento, a cabeça começou a latejar novamente. Pegou dois comprimidos de Darvan numa gaveta e engoli-os com um copo de água. Depois foi até à porta da recepção, abriu-a e chamou Teri. Concentrando-se para tirar do pensamento tudo que não fossem os problemas de sua paciente, pelos próximos cinqüenta minutos. Teri deitou-se no divã, a saia levantada. Começou imediatamente a falar.

Vinte anos atrás, Teri Washburn fora uma beldade deslumbrante. Ainda restava alguns vestígios dessa beleza. Ela possuía os olhos maiores, mais suaves e mais inocentes que Judd já vira em toda a sua vida. Havia algumas rugas nos cantos da boca, mas os lábios ainda eram extremamente sensuais. Os seios eram firmes e arredondados por baixo do vestido estampado Pucci, bem justo.

Judd suspeitava de que ela tomava injeções de silicone, mas preferia esperar que ela mencionasse o fato. O resto do corpo de Teri ainda estava em boa forma e as pernas eram particularmente deslumbrantes.

Mais cedo ou mais tarde, a maioria das pacientes de Judd julgavam estarem apaixonadas por ele. Era a transferência natural do relacionamento paciente-médico para paciente-protetor- amante.

Mas o caso de Teri era diferente. Desde o primeiro minuto em que entrara em seu consultório, Teri estava tentando ter um romance com ele. Procurara seduzi-lo por todos os meios que conhecia - e Teri era, de fato, perita nessa arte. Judd finalmente advertira-a de que, a menos que se comportasse, teria que encaminhá-la a outro médico. Desde então, Teri vinha-se comportando de forma mais comedida. Procurava sondá-lo, descobrir o seu calcanhar-de- aquiles. Um eminente médico inglês é que encaminhara Teri a Judd, depois de um desagradável escândalo internacional em Antibes. Um colunista francês acusara Teri de passar um fim-de-semana no iate de um famoso armador grego, de quem ela estava noiva tendo-se deitado com os três irmãos do armador, enquanto ele voava para Roma a fim de tratar de negócios. O escândalo fora rapidamente abafado e o colunista publicara uma retratação, sendo em seguida despedido do jornal. Na primeira sessão com Judd, Teri se gabara de que o caso era verdadeiro.

- É incontrolável - dissera ela. - Sinto necessidade de sexo o tempo todo. Jamais fico satisfeita.

Ela esfregara as mãos nos quadris, erguendo a saia e fitando Judd com uma expressão inocente:

- Entende o que estou querendo dizer, não é, querido?

Desde a primeira sessão Judd descobrira muitas coisas a respeito de Teri. Ela nascera numa pequena cidade mineira da Pensilvânia.

- Meu pai era um Polaco estúpido. Todos os sábados de noite se embriagava e dava uma surra na minha mãe.

Aos treze anos Teri tinha um corpo de mulher e o rosto de um anjo. Descobriu que podia ganhar alguns níqueis indo para trás dos depósitos de carvão com os mineiros. No dia em que o pai descobrira, aparecera na pequena cabana em que moravam gritando incoerentemente, em polonês, expulsando de lá a mãe de Teri. Trancara a porta, tirara o cinto grosso e começara a espancar Teri.

Ao acabar, violentara Teri.

Judd ficara em silêncio, observando Teri descrever a cena, o rosto desprovido de qualquer emoção.

- Foi a última vez em que vi o meu pai e a minha mãe.

- Fugiu de casa, não é?

Teri virara no divã, surpresa.

- Como?

- Depois que seu pai a violentou...

- Se eu fugi?

Teri jogara a cabeça para trás, rindo a valer.

- Mas eu gostei! Foi a cadela da minha mãe que me expulsou de casa! Judd ligou o gravador para iniciar a nova sessão e indagou:

- Sobre o que gostaria de falar?

- De trepar. Por que não o analisamos, Doutor, e descobrimos por que você é tão puro? Judd ignorou o comentário.

- Por que acha que a morte de Carol pode ter sido uma agressão sexual?

- Porque tudo me faz pensar em sexo, querido.

Ela remexeu-se no divã e a saia levantou-se ainda mais.

- Abaixe a saia, Teri.

Ela fitou-o com uma expressão inocente.

- Oh, desculpe... Perdeu uma grande festa de aniversário na noite de sábado, Doutor.

- Fale-me a esse respeito.

Ela hesitou, com uma nota inesperada de preocupação em sua voz:

- Não vai detestar-me se eu contar?

- Já lhe disse que não precisa de minha aprovação para nada, Teri. A única pessoa de quem deve querer aprovação é de você mesma. O certo e o errado são regras que fabricamos para podermos relacionar-nos com as outras pessoas. Sem regras, não poderia haver tal relacionamento.

Mas não se esqueça de que as regras são artificiais. Houve um longo silêncio.

- Foi uma festa com música ao vivo. O meu marido contratou um conjunto de seis músicos. Judd ficou esperando. Ela virou-se para fitá-lo.

- Tem certeza que não perderá o respeito por mim?

- Quero ajudá-la, Teri. Todos nós já fizemos coisas de que nos envergonhamos, mas isso não significa que tenhamos de continuar a fazê-las.

Teri examinou-o atentamente.

- Já lhe disse que desconfiava de que meu marido, Harry, é impotente?

- Já.

Ela falava sobre isso constantemente.

- Ele não fez nada comigo desde que nos casamos. Tem sempre alguma desculpa... Pois bem...

Ela fez uma pausa, torcendo a boca numa expressão amargurada.

- Pois bem... sábado à noite eu me entreguei a todos os seis músicos, enquanto Harry olhava. Ela começou a chorar, Judd entregou-lhe um lenço de papel e ficou calado, observando-a.

Ninguém jamais dera algo a Teri Washburn sem cobrar bem alto. Ao chegar a Hollywood, ela arrumara um emprego de garçonete num drive-in, gastando a maior parte do que ganhava com um professor de arte dramática de terceira classe. Uma semana depois o professor convidara-a a morar com ele, obrigando-a a fazer todas as tarefas domésticas e restringindo as aulas ao quarto.

Algumas semanas depois, Teri compreendera que jamais conseguiria um lugar de atriz daquele jeito, mesmo que o professor quisesse arrumá-lo. Deixara-o, então, e conseguira um emprego de caixa na drugstore de um hotel em Beverly Hills. Na véspera do Natal aparecera um executivo da indústria cinematográfica, querendo comprar um presente de último minuto para a esposa. Ele dera o seu cartão a Teri, pedindo que lhe telefonasse. Uma semana depois, Teri fazia um teste para o cinema.

Ela era desajeitada e não tinha a menor experiência, mas três fatores estavam a seu favor. Possuía um rosto e um corpo sensacionais, era extremamente fotogênica e o executivo tornou- se seu amante.

Teri Washburn aparecera em pequenas pontas numa dúzia de filmes, naquele primeiro ano. Começara a receber correspondência dos fãs. Suas partes nos filmes foram aumentando. Um ano depois seu benfeitor morrera de um ataque do coração. Teri ficara com medo de que o estúdio fosse despedi-la. Em vez disso, porém, o novo executivo a chamara ao seu gabinete e informara que tinha grandes planos para ela. Teri ganhara um novo contrato, um salário maior e um novo apartamento, que tinha um quarto todo espelhado. Os papéis de Teri foram aumentando gradativamente, até que ela se tornou a estrela principal de filmes de classe B. E, finalmente, com o público sempre aumentando as bilheteiras dos seus filmes, Teri Washburn tornara-se uma estrela de filmes de classe A.

Tudo isso acontecera muito tempo atrás. E, pensando em todos esses fatos, Judd sentia pena dela, ao vê-la deitada no divã do seu consultório, soluçando.

- Quer um copo de água, Teri?

- Não, obrigada. Eu... eu estou bem.

Ela tirou um lenço do bolso e assoou o nariz.

- Desculpe eu ter-me comportado como uma idiota - disse ela, sentando-se. Judd continuou calado, esperando que ela recuperasse o controlo.

- Por que é que eu me caso com homens como Harry?

- É uma pergunta da maior importância. Tem alguma idéia da resposta?

- Mas como diabo eu posso saber! Você é que é o psiquiatra e tem que me dizer! Acha que se eu soubesse antes como era, iria casar-me com homens como Harry?- Qual é a sua opinião? Teri ficou chocada.

- Está achando que eu me casaria, mesmo que soubesse? - Ela levantou-se, furiosa. -Seu filho da puta nojento! Está pensando que eu gostei de trepar com todos os músicos?

- E gostou?

Num acesso de raiva. Teri pegou um vaso e arremessou-o contra Judd. O vaso foi-se espatifar em cima da mesa.

- Isso responde à sua pergunta.

- Não. Esse vaso custou 200 dólares. Vou pôr na sua conta.

Teri fitou-o em silêncio por um minuto, desesperada. E finalmente sussurrou:

- Será que gostei?

- Você é quem pode dizer.

A voz dela ficou ainda mais baixa.

- Eu devo estar doente. Oh, Deus, como eu devo estar doente! Por favor, Judd, ajude-me! Judd levantou-se e aproximou-se dela.

- Você é que tem de ajudar-se a si mesma, Teri. Ela assentiu, com uma expressão aturdida.

- Quero que vá para casa e pense como se sente, Teri. Não enquanto está fazendo essas coisas, mas antes de fazê-las. Pense nos motivos que a levam a ter vontade de fazê-las. Quando souber disso, saberá uma porção de coisas a respeito de si mesma.

Teri relaxou visivelmente. Tornou a tirar o lenço da bolsa e assuou o nariz.

- Você é um homem maravilhoso, Charlie Brown - disse ela, pegando as luvas e a bolsa. - Até a próxima semana?

Judd abriu a porta do corredor e Teri saiu. Ele sabia a resposta ao problema de Teri, mas ela teria que chegar lá por si mesma. Teria que aprender que não se pode comprar o amor, que se trata de uma coisa que tem de ser dada gratuitamente. E Teri não podia aceitar esse fato enquanto não começasse a acreditar que era digna de merecer o amor. Até que isso acontecesse, Teri continuaria a procurar comprar o amor, usando a moeda de que dispunha: seu corpo. Judd sabia a agonia que ela estava enfrentando, o desespero infinito do auto- desprezo. Sentiu pena dela. Mas a única maneira que tinha de ajudá-la era mostrar-se impessoal e indiferente. Judd sabia que, para os seus pacientes, aparentava sempre ser remoto e alheio aos problemas de cada um, dispensando a sua sabedoria de uma terapia. Na verdade Judd se preocupava intensamente com os problemas de seus pacientes. Eles ficariam surpresos se soubessem com quanta freqüência os demônios que investiam contra os baluartes de suas emoções apareciam nos pesadelos de Judd.

Durante os seis primeiros meses de sua carreira com psiquiatra, enquanto se submetia aos necessários dois anos de análise para se tornar psicanalista, Judd começara a ter dores de cabeça terríveis. Assumira empaticamente os problemas dos seus pacientes e levara quase um ano para aprender a canalizar e a controlar o seu envolvimento emocional.

E agora, depois de guardar a gravação da sessão com Teri Wasburn. Judd voltou a concentrar-se em seu próprio dilema. Foi até o telefone e discou para as Informações, pedindo o telefone do 19º Distrito.

A telefonista transferiu a ligação para a Sala dos Detetives. Ele ouviu a voz grave de McGreavy ao telefone.

- Tenente McGreavy falando.

- O Detetive Angeli, por gentileza.

- Espere um momento.

McGreavy largou o telefone em cima da mesa. Um momento depois a voz de Angeli soou ao telefone:

- Detetive Angeli.

- Judd Stevens. Será que já tem aquela informação? Houve um instante de hesitação.

- Já verifiquei - disse Angeli cuidadosamente.

- Tudo o que precisa dizer é sim ou não.

O coração de Judd estava disparado. Custou-lhe um grande esforço formular a pergunta seguinte:

- Ziffren ainda está em Matteawan?

Pareceu decorrer uma eternidade antes que Angeli respondesse:

- Sim, ele ainda está lá.

Uma onda de desapontamento invadiu Judd.

- Entendo...

- Sinto muito.

- De qualquer forma, obrigado. E, lentamente, Judd desligou.

Assim, só restava Harrison Burke, um paranóico irremediável, que julgava que todos querendo matá-lo. Será que Burke decidira atacar primeiro? John Hanson deixara o consultório de Judd às 10:50 de segunda-feira sendo assassinado alguns minutos depois. Judd precisava descobrir se Harrison Burke estava em seu consultório nessa ocasião. Ele procurou o telefone de Burke e discou.

- International Steel

A voz possuía o timbre remoto e impessoal de um autômato.

- O Sr. Harrison Burke, por gentileza.

- Sr. Harrison Burke... Um momento, por favor Judd estava contando que a secretária de Burke atendesse ao telefone. Se ela tivesse saído por um momento da sala e o próprio Burke atendesse...

- Gabinete do Sr. Burke. Era voz de mulher.

- Aqui é o Dr. Judd Stevens. Será que poderia fornecer-me algumas informações?

- Mas claro que sim, Dr. Stevens!

Havia um tom de alívio na voz dela, misturado com alguma apreensão. Ela devia saber que Judd era o analista de Burke. Será que esperava que Judd a ajudasse? O que Burke teria feito com ela?

- É sobre a conta do Sr. Burke... - começou Judd.

- A conta?

Ela não fez o menor esforço para disfarçar o desapontamento. Judd continuou rapidamente:

- Minha recepcionista foi... não está mais comigo e estou procurando pôr tudo em ordem. Verifiquei que ela cobrou uma consulta do Sr. Burke às nove e meia da manhã da última segunda-feira e gostaria que visse na agenda dele se realmente veio ao meu consultório.

- Espere um momento, por favor.

A voz dela era visivelmente desaprovadora. Judd podia adivinhar o que ela estava sentindo.

O patrão estava desmoronando e o analista preocupava-se apenas com o dinheiro que lhe pagava. Ela voltou ao telefone alguns minutos depois.

- Infelizmente a sua recepcionista cometeu um engano, Dr. Stevens. O Sr. Burke não podia ter ido ao seu consultório na manhã de segunda-feira.

- Tem certeza? - insistiu Judd. - Está anotado aqui. De nove e meia até...

- Não importa o que a sua recepcionista tenha anotado, Dr. Stevens. Ela estava agora visivelmente irritada com a insensibilidade dele.

- O Sr. Burke passou toda manhã de segunda-feira numa reunião de diretoria, que começou às oito horas.

- Ele não poderia ter saído sem ser visto durante uma hora?

- Não, Doutor. O Sr. Burke nunca sai do escritório durante o dia.

O tom de acusação na voz dela era evidente. Será que não entende que ele está doente? O que está fazendo para ajudá-lo?

- Quer que eu chame o Sr. Burke, Doutor?

- Não é necessário. Obrigado.

Judd teve vontade de acrescentar alguma coisa que pudesse tranqüilizá-la, mas não havia nada que ele pudesse dizer. Por isso, desligou rapidamente.

Judd não tinha mais para onde se virar. Se nem Zifren nem Harrison Burke tinham tentado matá-lo... então não havia mais ninguém que tivesse um motivo para fazê-lo. Ele estava de volta ao ponto de partida. Alguma pessoa - ou pessoas - assassinaram a sua recepcionista e um dos seus pacientes. O seu atropelamento podia ter sido deliberado ou acidental.

No momento em que ocorrera, parecera-lhe um ato deliberado. Mas, recordando agora o fato imparcialmente, Judd chegou a conclusão de que estava bastante perturbado pelos acontecimentos recentes. Poderia ter transformado um simples acidente em algo sinistro. A verdade pura e simples é que não havia ninguém que tivesse motivos para assassiná-lo. Ele possuía um excelente relacionamento com todos os seus pacientes, não tinha quaisquer problemas nas relações com os amigos. Ao que soubesse, nunca prejudicara ninguém.

O telefone tocou. Ele imediatamente reconheceu a voz baixa e meio rouca de Anne.

- Está ocupado?

- Não. Posso falar.

A voz dela era preocupada.

- Li no jornal que foi atropelado. Quis telefonar-lhe antes, mas não sabia onde encontrá-lo. Judd procurou fazer com que sua voz soasse jovialmente.

- Não foi nada sério. Mas servirá para fazer com que eu passe a atravessar as ruas com mais cuidado.

- Os jornais dizem que o motorista fugiu depois do acidente.

- É verdade.

- Descobriram quem era?

- Não. Provavelmente era algum garoto numa farra. Numa limusine preta com os faróis apagados?

- Tem certeza? - indagou Anne.

A pergunta apanhou-o de surpresa.

- Como assim?

- Não sei muito bem - disse Anne, a voz hesitante. - É que... Carol foi assassinada. E agora isso.

Então ela também juntara os acontecimentos.

- Até parece... que há um maníaco à solta, ao seu redor.

- Se isso é verdade - assegurou Judd - a polícia irá apanhá-lo.

- Está correndo algum perigo?

Judd ficou enternecido com a preocupação dela.

- É claro que não.

Houve um silêncio constrangedor. Havia tanta coisa que Judd queria dizer, só que não podia. Ele não podia confundir um telefonema cordial com outra coisa qualquer. Anne estava demonstrando apenas a preocupação natural de um paciente para com o seu médico. Ela era do tipo que telefonaria para qualquer pessoa conhecida que estivesse em dificuldades. Não havia mais nada além disso.

- Irei vê-la na próxima sexta-feira? - indagou Judd.

- Claro.

Havia um tom estranho na voz dela. Será que pensava em mudar de idéia.

- Então o encontro está confirmado - disse ele rapidamente.

Só que não seria um encontro, mas sim uma consulta profissional.

- Está. Até lá, Dr. Stevens.

- Até lá, Sra. Blake. Obrigado pelo telefonema. Muito obrigado mesmo.

Ele desligou. E ficou pensando em Anne. Será que o marido dela tinha idéia de como era um homem de sorte?

E por falar nisso, como seria o marido dela? Pelo pouco que Anne falara. Judd formara a imagem de um homem atraente e atencioso. Era um desportista, inteligente e bem sucedido nos negócios. Doava dinheiro para as artes. Parecia o tipo de homem que Judd apreciaria ter como amigo. Em outras circunstâncias.

Qual poderia ser o problema de Anne, que ela receava discutir com o marido? Ou com seu analista? Em se tratando de uma mulher com o caráter de Anne, provavelmente era algum sentimento de culpa originado por um romance que tivera antes ou depois de se casar. Judd não podia imaginá-la tendo romances ligeiros, que não deixavam marca alguma. Talvez ela lhe contasse tudo na próxima sexta-feira. Quando a veria pela última vez.

O resto da tarde passou rapidamente. Judd recebeu os poucos pacientes cujas consultas não conseguira cancelar. Quando o último partiu, ele pegou a gravação da última sessão de Harrison Burke e, enquanto escutava, tomou algumas anotações.

Ao acabar, desligou o gravador. Não havia qualquer alternativa. Tinha que telefonar pela manhã para o presidente da companhia de Burke e informá-lo do estado de seu vice- presidente.

Olhou pela janela e ficou surpreso ao ver que a noite já caíra. Eram quase oito horas. Agora que não mais estava concentrado em seu trabalho, Judd sentiu-se tenso e exausto. As costelas doíam e o braço latejava. Iria para casa e tomaria um bom banho quente.

Guardou todas as fitas no armário embutido na parede. Exceto a de Burke, que trancou numa gaveta de uma mesinha lateral. Iria entregá-lo a um psiquiatra designado pelo Tribunal. Vestiu o casaco e estava se encaminhando para a porta quando o telefone tocou. Atendeu-o.

- Dr. Stevens falando.

Ninguém disse nada. Judd ouviu uma respiração pesada, anasalada.

- Alô?

O silêncio continuou, Judd desligou. Ficou imóvel por um momento, franzindo o rosto. Número errado, concluiu finalmente. Apagou as luzes do consultório, trancou as portas e seguiu para o corredor dos elevadores. Todos os ocupantes das outras salas há muito que tinham ido embora. Era cedo demais para o pessoal da faxina noturna. Fora Bigelow, o vigia noturno, o prédio estava inteiramente vazio.

Judd foi até os elevadores e apertou o botão. O indicador de andar não se mexeu. Apertou novamente o botão. Nada aconteceu.

E, nesse momento, todas as luzes do corredor se apagaram.