A Outra Face
Capítulo 4 · Os jornais da manhã publicaram em manchete…
Os jornais da manhã publicaram em manchete o sensacional assassinato de Carol Roberts, torturada até a morte. Judd sentiu-se tentado a cancelar todas as consultas que tinha marcado para aquele dia. Não se deitara e sentia os olhos pesados e irritados. Mas verificou a relação dos pacientes que receberia naquele dia e concluiu que dois ficariam desesperados se cancelasse suas consultas, três ficariam um tanto transtornados, e os outros poderiam agüentar sem maiores problemas. Decidiu que era melhor manter a sua rotina normal, em parte pelo bem de seus pacientes, em parte por si mesmo, pois seria uma boa terapia tentar manter os pensamentos afastados do que acontecera.
Judd chegou cedo ao consultório, mas o corredor já estava apinhado de repórteres, pessoal de televisão e fotógrafos. Ele recusou-se a deixá-los entrar e a fazer declarações, conseguindo finalmente livrar-se de todos eles. Abriu a porta de sua sala lentamente, apreensivo. Mas o tapete manchado de sangue fora removido e tudo recolocado nos devidos lugares. A sala parecia normal.
Só que Carol nunca mais entraria ali novamente sorridente e cheia de vida. Judd ouviu a porta externa abrir-se. Seu primeiro paciente acabara de chegar.
Harrison Burke era um homem de aparência distinta, cabelos prateados, o protótipo de um executivo dos altos escalões. O que na verdade era, pois ocupava o cargo de vice-presidente da Internacional Steel Corporation. Quando Judd se encontrara com Burke pela primeira vez, ficara imaginando se fora o executivo que criara a imagem estereotipada ou se a imagem é que criara o executivo. Algum dia ele escreveria um livro a respeito das aparências, como a atitude cordial e íntima do médico, a exuberância do advogado no tribunal, o rosto dramático da atriz. Eram imagens universalmente aceites, sempre superficiais, nunca se procurando os valores básicos.
Burke deitou-se no divã e Judd concentrou-se nele. Burke fora-lhe enviado pelo Dr. Peter Hadley dois meses atrás. Judd levara apenas dez minutos para verificar que Burke era um paranóico, com tendências homicidas. Os jornais matutinos traziam estampada em manchetes a notícia do brutal assassinato que ocorrera ali no consultório na noite passada, mas Burke não mencionou o assunto.
O que era típico do seu estado. Ele estava totalmente absolvido em si mesmo.
- Não acreditou no que eu lhe disse antes, mas agora tenho provas concretas de que eles estão querendo liquidar-me - disse Burke.
- Pensei que concluíamos que não deveríamos ser precipitados, Harrison - disse Judd, cauteloso. - Lembre-se de que ontem concordamos em que a imaginação pode...
- Mas não é imaginação minha! - gritou Burke. Ele sentou-se, com os punhos cerrados.
- Eles estão mesmo tentando me matar!
- Por que não se deita e procura relaxar? - sugeriu Judd, suavemente. Burke levantou-se bruscamente.
- É tudo o que tem a dizer? Nem mesmo está querendo ouvir as minhas provas! Seus olhos se estreitaram sombriamente e ele acrescentou:
- E como é que posso saber que o senhor não é um deles?
- Sabe perfeitamente que não sou um deles. Sou seu amigo. Estou tentando ajudá-lo.
Judd sentiu um quê de desapontamento. O progresso que pensava terem feito ao longo do último mês desaparecera completamente. Ele estava olhando agora para o mesmo paranóico aterrorizado que entrara em seu consultório dois meses antes.
Burke começara na Internacional Steel como office boy. Em vinte e cinco anos a sua boa aparência e a personalidade afável haviam-no levado até quase ao alto da escada executiva da corporação. Ele chegara a se tornar candidato natural à presidência. E então, quatro anos antes, a esposa e os três filhos tinham morrido num incêndio na casa de verão da família, em Southampton.
Burke, na ocasião, estava nas Bahamas, com a amante. A tragédia marcou-o mais fundo do que se poderia imaginar. Educado na tradição do catolicismo, Burke não conseguira livrar-se do sentimento de culpa. Passara a remoer a tragédia, encontrando-se cada vez menos com os amigos. Passava as noites em casa, revivendo as agonias da esposa e filhos, sendo queimados até a morte, enquanto outra parte da mente recordava-lhe que, nesse momento, estava na cama com a amante. Era como um filme, que passava repetidamente na tela de sua mente. Ele assumiu toda a culpa pela morte da família. Se estivesse presente, poderia tê-los salvo. A idéia tornara-se uma obsessão. Ele era um monstro! Sabia disso e Deus também sabia! E evidentemente muitos outros podiam perceber também!
Deviam odiá-lo tanto quanto ele odiava a si mesmo. As pessoas sorriam-lhe e demonstravam- lhe simpatia, mas estavam apenas à espera de que ele se traísse, para poderem encurralá-lo. Mas ele era mais esperto do que todos os outros. Parou de ir almoçar no refeitório dos executivos, passando a comer na intimidade de sua própria sala. Evitava os outros o mais possível.
Dois anos antes, quando a companhia precisara de um novo presidente, haviam posto Burke de lado e contrataram um executivo de fora. Um ano antes ficara vago o cargo de vice- presidente executivo e novamente haviam passado por cima de Burke e designado outro para o lugar. Ele tivera então todas as provas de que precisava para ter certeza de que havia uma conspiração contra ele.
Começou a espionar as pessoas ao seu redor. De noite escondia gravadores nos escritórios dos outros executivos. Seis meses atrás fora apanhado. Só não fora despedido sumariamente por causa dos muitos anos na companhia e do posto que ocupava.
Querendo ajudá-lo e aliviar um pouco da pressão que havia em cima de Burke, o presidente da companhia reduziu-lhe bastante as atribuições. Mas, em vez de ajudar, isso só serviu para ainda mais convencer Burke de que eles estavam tentando liquidá-lo. Eles tinham medo dele porque era mais inteligente. Se se tornasse presidente, eles todos iriam perder os seus empregos, porque eram muito estúpidos. Começou a cometer erros e mais erros. Quando lhe apontavam esses erros, ele negava, indignado, tê-los cometido. Alguém estava deliberadamente alterando os seus relatórios, mudando as cifras e estatísticas que apresentava, só para desacreditá-lo. Logo descobriu que não era apenas as pessoas da companhia que estavam contra ele. Havia também muitos espiões lá fora. Era seguido na rua. Interceptavam suas conversas ao telefone, liam-lhe a correspondência. Tinha receio de comer, porque achava que iam envenenar sua comida. Começou a emagrecer alarmantemente. O preocupado presidente da companhia marcara uma consulta com o Dr. Peter Hadley, e insistira para que Burke comparecesse. Depois de meia hora de conversa com Burke, Hadley telefonara para Judd.
Judd não tinha nenhuma hora disponível, mas Peter insistira em que o problema era grave e urgente, e ele terminara concordando em aceitar o novo cliente.
E agora Harrison Burke estava deitado no divã, com os punhos cerrados.
- Fale-me das provas que descobriu.
- Arrombaram a minha casa ontem à noite. Queriam matar-me. Mas sou mais esperto do que eles. Estou dormindo agora no escritório e instalei trancas duplas nas portas, para que não me possam apanhar.
- Comunicou o arrombamento à polícia?
- Mas é claro que não! A polícia está do lado deles. Tem ordens para atirar em mim. Mas não se atreverão a fazê-lo enquanto houver outras pessoas por perto. Por isso é que agora fico sempre no meio de uma multidão.
- Fico satisfeito de que me tenha dado essa informação.
- O que pretende fazer com ela? - indagou Burke, ansioso.
- Escutei atentamente tudo o que disse. Está tudo aqui na fita gravada. Assim, se o matarem, teremos uma prova gravada da conspiração.
Burke se levantou bruscamente, o rosto radiante.
- Por Deus! Isto é ótimo! Vai realmente dar um jeito neles!
- Por que não se deita novamente? - sugeriu Judd.
Burke assentiu e voltou a acomodar-se no divã. Fechou os olhos.
- Estou exausto. Há meses que não durmo. Não posso dar-me ao luxo de fechar os olhos. Não faz idéia do que significa saber que todo mundo está querendo acabar com a gente. "Será que não?", pensou Judd, recordando-se de McGreavy.- O seu criado ouviu as pessoas que arrombaram a casa?
- Eu não lhe disse? Despedi-o há duas semanas.
Judd repassou rapidamente as duas últimas sessões com Harrison Burke. Somente três dias antes Burke relatara uma briga que tivera naquele dia com o seu criado particular. Isso significava que a noção de tempo dele estava ficando totalmente desorientada.
- Acho que não falou a esse respeito - disse Judd, sem qualquer ênfase. - Tem certeza mesmo de que há duas semanas que o mandou embora?
- Eu não cometo erros. Como diabos acha que me tornei vice-presidente de uma das maiores empresas do mundo? Porque tenho uma inteligência brilhante, Doutor, e não me esqueço de nada.
- Por que o despediu?
- Ele tentou envenenar-me.
- Como?
- Com um prato de ovos com presunto, cheio de arsênico.
- Chegou a provar?
- Mas é claro que não!
- E como sabia que a comida estava envenenada?
- Senti o cheiro do veneno.
- E o que disse ele?
Uma expressão de satisfação se estampou no rosto de Burke.
- Eu não disse coisa alguma. Simplesmente o mandei à merda.
Judd sentiu-se dominado por uma sensação de frustração. Se tivesse tempo, ele certamente poderia ajudar Harrison Burke. Mas o tempo se esgotara. Na psicanálise há sempre o perigo de que, ao impulso da livre associação de idéias, a tênue camada que envolve o id se rompa e deixe escapar todas as paixões e emoções primitivas que se amontoam no fundo da mente, como bestas selvagens aterrorizadas à espreita, numa noite escura. Mas a primeira etapa de tratamento é sempre a de se permitir ao paciente dar vazão a tudo o que tem dentro de si. No caso de Burke, isso atuara como um bumerangue. As sessões haviam liberado todas as hostilidades latentes que estavam trancadas em sua mente. Burke parecera melhorar a cada sessão, concordando com Judd em que não havia conspiração alguma, que seu único problema era excesso de trabalho e esgotamento nervoso. Judd pensara que estava levando Burke a um ponto em que poderia começar uma análise profunda, atacando a raiz do problema. Mas Burke estivera simplesmente mentindo o tempo todo. Testando Judd, levando- o a cair em sua própria armadilha, para descobrir se o médico não era um deles.
Harrison Burke era uma bomba-relógio que poderia explodir a qualquer momento. Não havia nenhum parente próximo a quem se pudesse alertar. Judd deveria ligar para o presidente da companhia e comunicar-lhe a sua opinião? Se o fizesse, isso destruiria inteiramente o futuro de Burke. Ele teria que ser internado numa instituição para desequilibrados mentais. Mas será que ele estava certo em seu diagnóstico de que Burke era um paranóico potencial homicida? Ele gostaria de ter outra opinião médica a esse respeito, mas sabia que Burke jamais consentiria que outro médico o examinasse. Judd teria de tomar a decisão sozinho.
- Eu gostaria de que me prometesse uma coisa, Harrison.
- Prometer o quê? - indagou Burke, cauteloso.
- Se eles querem apanhá-lo, vão querer que você faça algo violento para poderem então prendê-lo... Mas você é esperto demais para fazer o jogo deles. Não importa o quanto o provoquem, quero que me prometa que não fará nada contra eles. Dessa maneira, não poderão tocá-lo.
Os olhos de Burke se iluminaram. - Por Deus, você tem toda a razão! Então é esse o plano deles! Mas somos espertos demais para eles, não é mesmo?
Judd ouviu a porta da sala de recepção se abrir e fechar. Olhou para o relógio. O paciente seguinte já chegara. Ele desligou o gravador e disse calmamente:
- Acho que já chega por hoje.
- Gravou tudo o que conversamos? - indagou Burke, ansiosamente.
- Tudo. Não há a menor possibilidade de alguém atingi-lo agora. Judd hesitou, mas terminou acrescentando:
- Não creio que deva ir ao escritório hoje. Por que não vai para casa e descansa um pouco?
- Não posso - murmurou Burke, a voz impregnada de desespero. - Se eu não aparecer no escritório, vão tirar o meu nome da porta e pôr o de algum outro.
Ele se inclinou para Judd e disse baixinho:
- Tome cuidado. Se eles souberem que o senhor é meu amigo, vão tentar pegá-lo também. Burke encaminhou-se até à porta que dava diretamente para o corredor. Entreabriu-a e espiou para um lado e para outro. Depois saiu rapidamente.
Judd ficou imóvel por um momento, amargurado com o que teria de fazer com a vida de Harrison Burke. se Burke o tivesse procurado seis meses antes... E então um pensamento súbito fez com que um calafrio lhe percorresse o corpo. E se Harrison Burke já fosse um assassino? Era possível ele estar envolvido nas mortes de John Hanson e Carol Roberts? Tanto Burke quanto Hanson eram pacientes. Poderiam facilmente ter-se encontrado. Por diversas vezes, nos últimos meses, as consultas de Burke haviam sido depois das de Hanson. E Burke chegara atrasado mais de uma vez. Talvez tivesse esbarrado com Hanson no corredor. O fato de ter visto Hanson várias vezes poderia perfeitamente ter acionado a sua paranóia, levando-o a pensar que o outro o estava seguindo, ameaçando-o. Quanto a Carol, Burke vira-a todas às vezes em que estivera no consultório. Será que sua mente doentia imaginara alguma ameaça da parte dela, que só poderia ser afastada com a morte?
Há quanto tempo Burke estava mentalmente afetado? A esposa e os três filhos haviam morrido num incêndio acidental. Acidental? Judd tinha que descobri-lo, de alguma forma.
Ele foi até a porta que dava para a sala de recepção e abriu-a.
- Entre, por favor.
Anne Blake levantou-se graciosamente e avançou com rapidez, com um sorriso afetuoso a iluminar-lhe o rosto. Judd sentiu novamente a mesma emoção que o dominara quando a vira pela primeira vez. Não experimentara alguma reação emocional profunda por uma mulher desde a morte de Elizabeth.
Elas não eram absolutamente parecidas. Elizabeth era loura e miúda, de olhos azuis. Anne Blake tinha cabelos pretos e olhos violeta deslumbrantes, emoldurados por pestanas compridas e negras. Era alta, com um corpo maravilhoso, cheio e com muitas curvas. Aparentava uma inteligência extraordinária. Sua beleza era clássica, aristocrata, o que faria com que parecesse inacessível se não fosse pelo brilho dos olhos. A voz era baixa e suave, ligeiramente rouca.
Anne tinha vinte e poucos anos. Era, indubitavelmente, a mulher mais bonita que Judd até então vira. Mas fora algo além da sua beleza que impressionara Judd. Era uma força quase palpável que o atraía para ela, alguma reação inexplicável que o fazia sentir como se a conhecesse desde a infância. O sentimento que ele julgara há muito desaparecido havia novamente aflorado à superfície, surpreendendo-o por sua intensidade.
Ela aparecera no consultório de Judd três semanas antes, sem hora marcada. Carol explicara-lhe que ele estava com todas as horas ocupadas e que não podia de maneira alguma aceitar novos pacientes. Mas Anne perguntara calmamente se poderia esperar. Ao fim de duas horas de espera, Carol se condoera e a introduzira no gabinete de Judd.
Ele sentira imediatamente uma reação emocional bem forte ao ver Anne, de tal forma que não teve idéia do que ela disse nos primeiros minutos. Recordava-se de que a convidara a sentar-se e que ela disse seu nome, Anne Blake. Era dona-de-casa. Judd perguntara-lhe qual o seu problema.
Ela hesitara e depois dissera que não sabia. Nem mesmo sabia se tinha de fato um problema. Um médico amigo dela dissera que Judd era um dos melhores analistas do país. Mas quando Judd indagara qual fora o médico, Anne desconversara. Pelo que Judd sabia, ela podia ter descoberto o nome dele no catálogo telefônico.
Ele tentara explicar que todas as suas horas estavam ocupadas, que não podia aceitar mais nenhum paciente. Oferecera-se para recomendar meia dúzia de outros bons analistas. Mas Anne insistia em que só queria se tratar com ele e mais nenhum. Ao final, Judd acabara acedendo.
Exteriormente, excetuando-se o fato de que parecia estar sob alguma tensão, Anne aparentara ser perfeitamente normal. Judd concluíra que o problema dela deveria ser relativamente fácil, podendo ser resolvido sem maiores complicações. Ele quebrou a regra que se impusera de jamais aceitar um paciente sem a indicação de outro médico e abrira mão da sua hora de almoço para tratar de Anne.
Nas últimas três semanas ela fora ao seu consultório duas vezes por semana. Judd sabia agora a respeito dela praticamente a mesma coisa que descobrira na primeira sessão. Mas sabia algo novo a respeito de si mesmo: estava apaixonado, pela primeira vez desde a morte de Elizabeth.
Na primeira sessão, Judd perguntara-lhe se amava o marido, odiando-se a si mesmo por desejar que ela respondesse que não. Mas não fora o que ela respondera:
- Amo, sim. Ele é um ótimo homem, muito firme.
- Acha que ele representa a figura de seu pai? Anne fixara nele aqueles incríveis olhos violeta.
- Não. Jamais procurei um homem que pudesse ser a imagem de meu pai. Tive uma infância bem feliz.
- Onde nasceu?
- Em Revere, uma cidadezinha perto de Boston.
- Seu pai e sua mãe ainda são vivos?
- Papai está vivo. Mamãe morreu de derrame quando eu tinha doze anos.
- Seu pai e sua mãe tinham um bom relacionamento?
- Tinham. Eram profundamente apaixonados um pelo outro.
"É o que transparece em você", pensara Judd, alegremente. Vendo tanta aberração, miséria
e sofrimento todos os dias, a presença de Anne era como uma refrescante brisa de primavera.
- Algum irmão ou irmã?
- Não. Sou filha única. Fui uma garota mimada.
Ela sorrira, um sorriso franco e cordial, sem qualquer artifício ou afetação. Anne contara-lhe que vivera no exterior com o pai, que era do Departamento de Estado. Quando ele casara novamente e fora viver na Califórnia, ela ficara em Nova York, indo trabalhar como intérprete na ONU. Falava fluentemente Francês, Italiano e Espanhol. Conhecera o futuro marido nas Bahamas, aonde fora em férias. Ele era dono de uma firma de construção. Anne não se sentira atraída, a princípio, mas ele se mostrara persistente e persuasivo. Dois meses depois de conhecê-lo, Anne casara-se com ele. Estava agora casada há quase seis meses. Moravam numa casa grande em Nova Jersey.
E isso fora tudo o que Judd conseguira descobrir a respeito dela em meia dúzia de sessões. Ele ainda não tinha a menor pista para descobrir qual era o problema dela. Anne tinha um bloqueio emocional que a impedia de discuti-lo. Ele se recordava ainda das perguntas que fizera nas primeiras sessões.
- O problema que tem envolve o seu marido, Sra. Blake. Não houvera resposta.
- A senhora e seu marido são compatíveis fisicamente?
- Somos.
Um constrangimento visível.
- Desconfia de que ele tem um caso com outra mulher?
- Não.
Resposta divertida.
- Tem a senhora por acaso, um romance com outro homem?
- Não.
Resposta indignada.
Judd hesitara, procurando a melhor maneira de romper a barreira. Ele se decidira pela técnica do tiro em esmo, abordando todas as categorias principais até sentir que acertara no alvo.
- Discutem por causa de dinheiro?
- Não. Ele é um homem extremamente generoso.
- Têm problemas com as respectivas famílias?
- Ele é órfão. E meu pai vive na Califórnia.
- A senhora ou seu marido já foram viciados em drogas?
- Não.
- Desconfia de que seu marido seja homossexual? Uma risada discreta, mas sincera.
- Não.
Ele insistira, porque tinha de fazê-lo.
- Já teve algum relacionamento sexual com outra mulher?
- Não.
Um tom de sinceridade na voz dela.
Judd abordara o alcoolismo, frigidez, uma possível gravidez que ela talvez tivesse medo de enfrentar. Falara de tudo o que pudesse pensar. E em todas às vezes ela o fitara com os olhos pensativos e inteligentes, sacudindo a cabeça negativamente. Sempre que ele se tornara mais insistente, ela se esquivava gentilmente:
- Por favor, seja paciente comigo. Vamos fazer as coisas à minha maneira.
Com outro paciente qualquer Judd já teria desistido. Mas ele sentia que precisava de ajudá-la. E tinha que continuar a vê-la.
Deixara-a falar sobre qualquer assunto que escolhesse. Ela visitara uma dúzia de países com o pai e conhecera pessoas fascinantes. Tinha a mente ágil e um bom humor inesperado. Judd descobrira que apreciavam os mesmos livros, a mesma música, as mesmas peças teatrais. Ela era cordial e afetuosa, mas Judd jamais percebera qualquer reação a ele, a não ser como médico. Era uma amarga ironia. Subconscientemente ele vinha procurando alguém como Anne há anos. E agora que ela surgira na sua vida, ele tinha que resolver o problema que a atormentava, qualquer que fosse, mandando-a de volta para o marido.
E, quando Anne entrou naquela manhã em sua sala, Judd afastou-se, esperando que ela se deitasse no divã.
- Hoje não - disse ela calmamente. - Vim apenas ver se podia ajudar em alguma coisa.
Judd fitou-a, sem conseguir falar por um momento. Ele ficara tão tenso nos dois últimos dias que a solidariedade inesperada de Anne chegou a irritá-lo. E sentiu um impulso furioso de contar a Anne tudo o que lhe estava acontecendo. Falar-lhe do pesadelo que o estava dominando, sobre McGreavy e suas suspeitas idiotas. Mas ele sabia que não poderia fazê-lo. Ele era o médico e ela a paciente. Pior do que isso: ele estava apaixonado por Anne e ela era a esposa intocável de um homem que ele nem conhecia.
Anne estava parada no meio da sala, fitando-o. Judd sacudiu a cabeça, sem se sentir confiante o bastante para falar qualquer coisa.
- Eu gostava muito de Carol - disse Anne. - Por que alguém haveria de querer matá-la?
- Não sei.
- A polícia já tem alguma idéia de quem foi o assassino?
"Mas claro que sim!", pensou Judd, amargurado. "Se ela soubesse..". Anne continuava a fitá-lo, curiosa.
- A polícia tem algumas teorias - explicou Judd, vagarosamente.
- Imagino como deve estar se sentindo. Vim apenas para dizer-lhe o quanto lamento o que aconteceu. Nem mesmo tinha certeza de encontrá-lo hoje no consultório.
- Pensei em não vir trabalhar hoje. Mas... aqui estou. E já que ambos estamos aqui, por que não conversamos um pouco a seu respeito?
Anne hesitou.
- Não estou muito certa de que haja mais alguma coisa sobre que possamos conversar.
Judd sentiu o coração disparar. "Por favor, meu Deus, não deixe que ela diga que nunca mais".
vou vê-la "!".
- Vou para a Europa com meu marido na semana que vem.
- Mas isso é maravilhoso - Judd conseguiu balbuciar.
- Infelizmente desperdicei o seu tempo, Dr. Stevens, e peço-lhe desculpas.
- Ora, não há de quê.
Judd descobriu que estava com a voz rouca. Ela estava saindo de sua vida, o que era terrível. Mas é claro que ela não podia saber disso. Ele estava sendo infantil. Sua mente dizia-lhe isso clinicamente, enquanto o estômago sentia uma dor física pela partida dela. Para sempre.
Anne abriu a bolsa e tirou algum dinheiro. Ela tinha o hábito de pagar-lhe em dinheiro depois de cada sessão, ao contrário dos demais pacientes, que normalmente lhe enviavam um cheque.
- Não - disse Judd rapidamente. - Veio como amiga e eu... lhe sou muito grato por isso. Judd fez então algo que nunca fizera antes com nenhum outro paciente.
- Gostaria de que voltasse aqui mais uma vez.
Ela fitou-o em silêncio por um instante, com uma expressão serena no rosto.
- Para Quê?
"Porque não posso suportar a idéia de permitir que se vá tão cedo", pensou Judd. "Porque". nunca mais encontrarei ninguém como você. Porque a desejo desde da primeira vez em que a
vi. Porque eu a amo ". Em voz alta, ele se limitou a dizer":
- Acho que poderíamos... deixar tudo esclarecido. Quero certificar-me de que já superou o seu problema.
Ela sorriu, brejeiramente.
- Está querendo dizer que quer que eu volte para receber o diploma de formatura?
- Mais ou menos isso. Vai voltar?
- Se quiser... é claro que sim. Não lhe dei a menor oportunidade de ajudar-me. Mas sei que
é um médico maravilhoso. Se um dia eu precisar de ajuda de verdade, pode ter a certeza que virei procurá-lo.
Ela estendeu a mão e Judd apertou-a. Ela tinha um aperto de mão firme e afetuosa. Ele tornou a sentir aquela corrente compulsiva que o contato dos dois gerava, admirando-se de ela não sentir coisa alguma.
- Eu virei então na sexta-feira.
- Está certo.
Judd ficou observando-a sair pela porta que dava para o corredor, e depois afundou-se numa poltrona. Ele nunca se sentiu tão sozinho em toda a sua vida. Mas não podia ficar sentado ali, sem fazer nada. Tinha que haver uma resposta. E se McGreavy não pretendia descobri-la, ele tinha que fazê-lo antes que McGreavy o destruísse. O Tenente McGreavy suspeitava de que ele cometera dois assassinatos. Ele não podia provar que não os cometera. Podia ser preso a qualquer momento, o que significaria a destruição de sua vida profissional. Além disso, estava apaixonado por uma mulher casada, a quem iria ver só mais uma vez. Esse era o lado negro da situação. Mas havia também o lado bom. Judd esforçou-se por pensar nos aspectos favoráveis. E não encontrou absolutamente nenhum.