A Outra Face
Capítulo 2 · Carol Robert ouviu a porta da sala…
Carol Robert ouviu a porta da sala de recepção abrir e fechar e os homens entrarem. E antes mesmo de levantar os olhos já sabia o que eles eram. Eram dois. Um tinha quarenta e poucos anos e era grande, com mais de 1,90 metros, muito forte. A cabeça era imensa, com olhos azuis fundos e glaciais, a boca contraída numa expressão de cansaço e sem qualquer cordialidade. O outro era mais jovem. Tinha feições delicadas e sensíveis, olhos castanhos e alertas. Os dois pareciam completamente diferentes, mas para Carol era como se fossem gêmeos idênticos.
Eram tiras. Era a isso que cheiravam. Quando se aproximaram de sua mesa, Carol sentiu gotas de suor escorrerem por suas axilas, apesar do escudo antitranspirante. Freneticamente, sua mente rebuscou todas as áreas traiçoeiras em que era vulnerável. "Chick? Oh, não, hámais de seis meses que ele não se metia em encrencas"! Desde aquela noite no apartamento dele, quando Chick a pedira em casamento e prometera largar a quadrilha.
"Sammy? Ele estava no exterior, na Força Aérea. Se algo tivesse acontecido ao seu irmão", não mandariam dois tiras levar-lhe a notícia. não, eles tinham vindo até ali para agarrá-la ". Ela tinha erva na bolsa e um miserável a denunciara. Mas porquê dois? Carol disse a si mesma que eles não podiam pegá-la assim, sem mais nem menos. Ela não era mais uma garota negra do Harlem que os tiras prenderiam quando bem desejassem. Isso pertencia ao passado. Ela era agora a recepcionista de um dos maiores psicanalistas do país. Mas entrou em pânico. não perdera ainda a lembrança terrível dos muitos anos que passara escondendo-se em casas de cômodos fedorentos e apinhadas, enquanto a Lei dos brancos arrombava a porta e levava um pai, uma irmã ou um primo. Mas Carol não deixou que a perturbação que sentia transparecesse em seu rosto.
A vista, tudo o que os dois detetives puderam ver foi uma jovem negra, num elegante vestido bege. A voz de Carol era fria e impessoal quando indagou:
- Posso ajudá-los em alguma coisa?
O Tenente Andrew McGreavy, o mais velho dos dois, percebeu a mancha de suor aumentar sob a axila de Carol. Automaticamente ele classificou a informação como interesse, para algum uso futuro. A recepcionista do médico estava tensa. McGreavy tirou a carteira com o emblema pregado na imitação de couro rachada pelo uso.
- Tenente McGreavy, do 19º Distrito.
Ele sacudiu a cabeça na direção do companheiro e acrescentou:- Detetive Angeli. Somos da divisão de Homicídios. "Homicídios"? - um músculo do braço de Carol começou a tremer, involuntariamente. "Chick! Ele matara alguém. Quebrara a promessa que lhe fizera e voltara para a quadrilha, praticara um assalto e atirara em alguém ou... Será que fora ele quem levara o tiro? Estaria morto? Era isso que tinham vindo dizer- lhe?", - pensou. Carol sentiu a mancha de suor aumentando. E subitamente ela compreendeu que McGreavy percebera a mancha de suor, apesar de estar olhando para o rosto dela. Carol e os McGreavys desse mundo não precisavam de palavras. Eles se reconheciam mutuamente à primeira vista. Afinal, há centenas de anos que se conheciam.
- Gostaríamos de falar com o Dr. Judd Stevens - disse o detetive mais jovem.
A voz era gentil e polida, combinando com a sua aparência. Carol notou pela primeira vez que ele segurava um pequeno embrulho, o papel pardo preso por um barbante. Carol levou um longo momento para compreender plenamente as palavras dele. "Então não era Chick... Nem Sammy... Nem a erva"!
- Lamento - disse ela, sem conseguir disfarçar inteiramente o seu alívio -, mas o Dr. Stevens está agora com um paciente.
- Vamos tomar-lhe apenas alguns minutos - disse McGreavy. - Queremos apenas fazer-lhe algumas perguntas.
Ele fez uma pausa e acrescentou, a voz incisiva:
- Pode ser aqui ou lá na delegacia.
Carol ficou aturdida. "Mas que diabo dois detetives da Divisão de Homicídios podiam querer" falar com o Dr. Stevens? O que quer que a polícia pudesse pensar, o Dr. Stevens não fizera absolutamente nada de errado. Ela o conhecia bem para ter certeza disso. Há quanto tempo fora? Quatro anos ". Tudo começara no tribunal noturno...".
Eram três horas da madrugada e a luz fraca do tribunal esparramava sobre todos uma palidez doentia. A sala era velha e cansada, indiferente, saturada de cheiro rançoso do medo, que ali se acumulava ao longo dos anos com demãos de tinta descamadas.
Era muito azar de Carol que o Juiz Murphy estivesse novamente de plantão. Ela fora levada à presença dele apenas duas semanas antes, conseguindo escapar com um sursis. Sua primeira condenação. Ou seja, a primeira vez que os tiras miseráveis tinham-na agarrado. Ela sabia que, desta vez, o juiz não iria perdoá-la.
O caso em julgamento antes de Carol estava quase terminado. Um homem alto, de aparência tranqüila, estava parado diante do juiz e dizia alguma coisa a respeito do seu cliente, um homem gordo, algemado, com o corpo todo a tremer. Carol calculou que o homem tranqüilo devia ser advogado. Ele tinha um ar confiante, fazendo com que Carol sentisse que o homem gordo tinha muita sorte por tê-lo como advogado. Ela não tinha ninguém para defendê-la.
Os homens afastaram-se e Carol ouviu seu nome ser chamado. Ela levantou-se, mantendo os joelhos bem juntos, para impedi-los de tremer. O meirinho empurrou-a gentilmente para a frente. Um funcionário do tribunal entregou o sumário de acusação ao juiz.
O Juiz Murphy olhou para Carol e depois para o papel em sua mão.
- Carol Roberts. Prostituição, vagabundagem, posse de maconha e resistência à prisão.
A última acusação era uma mentira deslavada. O guarda empurrou-a com toda a força e ela desferira-lhe um pontapé certeiro. Afinal de contas, era cidadã americana e tinha que ser tratada com respeito.
- Você esteve aqui há poucas semanas, não é, Carol? Carol procurou fazer com que sua voz não soasse trêmula.
- Acho que sim, Meritíssimo.
- E eu a deixei sair com sursis.
- Exatamente, senhor.
- Quantos anos você tem, Carol?
Ela já devia imaginar que iam fazer-lhe aquela pergunta.
- Dezesseis anos. E hoje é o meu aniversário. Feliz aniversário para mim!
Carol desatou a chorar, as lágrimas corriam copiosamente pelo seu rosto e os soluços sacudiam-lhe o corpo todo.
O homem alto e tranqüilo estava de pé, junto a uma mesa ao lado, arrumando alguns papéis e guardando numa maleta de couro. Ao ver Carol soluçando, ele olhou para o juiz e depois ficou a contemplá-la por um momento. Disse então alguma coisa ao Juiz Murphy.
O juiz declarou o tribunal um recesso e os dois homens desapareceram na sala reservada ao juiz, atrás do tribunal. Quinze minutos depois o meirinho levou Carol até lá. O homem tranqüilo conversava inteiramente à vontade com o juiz.
- Você é uma garota de sorte, Carol! - disse o Juiz Murphy. - Vai ter outra oportunidade. O tribunal entregá-la-á à custódia pessoal do Dr. Stevens.
"Com que então o cara alto não era um advogado, mas sim um médico"! Carol não se teria importado mesmo que ele fosse Jack, o Estripador. Tudo o que ela queria era sair daquele tribunal nojento antes que descobrissem que não era o seu aniversário.
O médico levou-a para o apartamento dele, limitou-se a uma conversa trivial que não exigia nenhuma resposta. Mas com isso Carol pôde recuperar a calma em sua situação. Ele parou o carro diante de um moderno prédio de apartamentos, na Rua 71, de frente para o East River. O prédio tinha porteiro e ascensorista. Pela maneira indiferente como cumprimentaram o médico, era de se imaginar que ele todos os dias chegava às três da madrugada, trazendo em sua companhia uma garota negra de 16 anos.
Carol nunca tinha visto um apartamento como o do médico. A sala de estar era toda branca, com dois sofás compridos e baixos, forrados com um tecido axadrezado, de tons cremes. Entre os sofás havia uma intensa mesa de café quadrada, com o tampo de vidro. Em cima estava um tabuleiro de xadrez, com as peças esculpidas em cristal veneziano. Quadros modernos estavam pendurados nas paredes. Na parede do vestíbulo havia um receptor de televisão de circuito fechado, mostrando o saguão lá em baixo. A um canto da sala de estar, um bar de vidro fosco mostrando as prateleiras repletas de copos e garrafas de cristal.
Olhando pela janela, Carol viu inúmeros barcos lá embaixo, bem pequenos, singrando o East River.
- Os tribunais sempre me deixam com fome - comentou Judd. - Que acha de eu preparar um pequeno jantar de aniversário?
Ele levou-a para a cozinha, onde Carol ficou observando-o preparar rapidamente uma omelete mexicana, batatas fritas francesas e muffins ingleses, além de uma salada e café.
- É uma das vantagens de ser solteiro - comentou ele. - Posso cozinhar quando me dá vontade.
Então ele era solteiro e não tinha mulher em casa. Se ele jogasse as cartas direito, aquilo ia ser um maná. Quando Carol acabou de devorar a refeição, o médico levou-a para o quarto de
hóspedes. Era todo pintado de azul, com uma cama de casal, sobre a qual estava estendida uma colcha quadriculada. A um canto havia uma cômoda de madeira escura, com ferragens de latão dourado.
- Pode passar a noite aqui - disse ele. - Vou arrumar um pijama para você.
Correndo os olhos pelo quarto muito bem decorado, ela pensou: "Carol, boneca, você tirou". a sorte grande! Esse cara está a fim de uma carne negra arrancada da cadeia! E é você quem vai lhe dar isso "! Ela despiu-se e passou a meia hora seguinte debaixo do chuveiro. Quando saiu do banheiro, com uma toalha enrolada no corpo reluzente e voluptuoso, viu que o filho da mãe deixara um pijama em cima da cama. Carol riu, maliciosamente, e não tocou no pijama. Deixou cair a toalha e dirigiu-se para a sala de estar. Ele não estava lá. Ela olhou pela porta que dava para uma pequena saleta. O médico estava sentado ali, sentado a uma escrivaninha grande, na qual havia um abajur antiquado.
A saleta estava atulhada de livros, do chão ao teto. Carol foi prostrar-se atrás dele e beijou-o no pescoço, sussurrando:
- Vamos começar logo de uma vez, meu bem. Você me deixou tão excitada que não me agüento mais.
Ela comprimiu-se contra ele e acrescentou:
- O que está esperando, papaizinho? Se não me levar para a cama depressa, acho que vou ficar maluca.
Ele fitou-a, os olhos castanhos, bem escuros, pensativos. A voz era suave quando falou:
- Não acha que já se meteu em encrenca suficiente? Não pode mudar o fato de ter nascido negra, mas quem lhe disse que precisa ser também uma puta maconheira aos 16 anos de idade?
Carol ficou aturdida, sem saber o que dissera de errado. Talvez ele precisasse excitar-se primeiro, chicoteando-a por exemplo, antes de chegar ao ponto. Ou talvez ele fizesse o gênero do reverendo. Ia rezar por sua carne negra, reformá-la e depois levá-la para a cama. Ela tentou de novo.
Estendeu a mão por entre as pernas dele, acariciando-o.
- Vamos, meu bem, enfia tudo isso dentro de mim.
Ele desvencilhou-se gentilmente e sentou-a numa poltrona. Carol nunca ficara tão desconcertada antes. Ele não parecia bicha, é verdade, mas atualmente nunca se sabe.
- Qual é a sua, meu bem? Diga-me do que gosta e farei tudo por você.
- Está certo. Vamos bater um papo.
- Você quer... falar?
- Exatamente.
E como conversaram! A noite inteira. Foi a mais estranha das noites que Carol já vivera. O Dr. Stevens pulou rapidamente de um assunto para outro, sondando-a, experimentando-a. Perguntou a sua opinião sobre o Vietnã, os guetos e os motins universitários. Cada vez que Carol imaginava que finalmente descobrira o que ele estava querendo, o Dr. Stevens passava para outro assunto. Falaram de coisas que ela jamais ouvira antes e abordaram assuntos nos quais ela se julgava a maior autoridade viva do mundo. Meses depois Carol ainda ficava acordada de noite, procurando recordar e identificar a palavra mágica, a idéia, a frase-chave que provocara a sua transformação. Nunca chegou a descobrir, pois finalmente compreendeu que não houve qualquer palavra mágica. O que o Dr. Stevens fizera fora um bem simples. Ninguém jamais o fizera antes. Ele a tratara como um ser humano, uma pessoa igual a ele, cujas opiniões e sentimentos eram-lhe importantes.
Em um momento qualquer, no decorrer da noite, ela subitamente teve consciência de sua nudez. Ela foi até o quarto e vestiu o pijama. Ele foi sentar-se na beira da cama e conversaram mais um pouco. Falaram de Mão Tsé-tung, dos distúrbios raciais, da pílula. E de se ter um pai e uma mãe que jamais haviam casado. Carol disse-lhe coisas que jamais contara antes a alguém. Coisas que há muito estavam enterradas em seu subconsciente. E quando ela finalmente dormiu, estava completamente vazia. Era como se tivesse sido submetida a uma intervenção cirúrgica e um rio de veneno escorresse para fora do seu corpo.
Pela manhã, depois do café, ele entregou-lhe uma nota de cem dólares. Carol hesitou, mas finalmente disse:
- Eu menti. Ontem não era meu aniversário.
- Eu sei - disse ele sorrindo. - Mas não vamos contar ao juiz. Ele fez uma pausa e mudando o tom, acrescentou:
- Pode pegar esse dinheiro e ir embora que ninguém a incomodará, até a próxima em que a polícia a apanhar. Mas estou precisando de uma recepcionista e acho que você seria maravilhosa para o lugar.
Carol não podia acreditar.
- Mas não sei taquigrafia nem datilografia.
- Poderia aprender, se voltasse a estudar.
Carol ficou em silêncio por um momento e depois disse, entusiasmada:
- Ei, eu nunca tinha pensado nisso antes! Até que não é má idéia!
Mas o que ela queria mesmo era sair daquele apartamento com a nota de cem dólares e mostrá-la para os rapazes e garotas na Fishman' Drug Store, no Harlem, onde a turma se reunia. Com aquele dinheiro poderia comprar doses suficientes para uma semana. Quando entrou no Fishman's foi como se nunca se tivesse afastado de lá. Viu os mesmos rostos amargurados e ouviu as mesmas conversas mórbidas de derrotados. Ela estava em casa. Mas não conseguia parar de pensar no apartamento do médico. Não era os móveis que faziam a diferença. É que era tudo... tão limpo! E tranqüilo também. Uma ilhota perdida do outro mundo! O que tinha a perder? Podia pelo menos tentar, só para se divertir, para mostrar ao médico que ele estava errado, que ela jamais podia mudar.
Para sua própria surpresa, Carol matriculou-se numa escola. Deixou o quarto mobiliado em que vivia, com a pia manchada de ferro, o vaso quebrado e a persiana verde toda arrebentada, com a cama de ferro cheia de calombos, onde costumava sonhar as lindas fantasias. Era uma herdeira deslumbrante em Paris, Londres ou Roma, e o homem que estava em cima dela era um príncipe deslumbrante e rico, morrendo de vontade de casar com ela. E assim que cada homem tinha seu orgasmo e saía de cima dela, o sonho se desvanecia. Até a vez seguinte.
Carol deixou o quarto e todos os seus príncipes sem olhar para trás e voltou a morar com os seus pais. O Dr. Stevens deu-lhe uma mesada enquanto estudava. Ela terminou a escola secundária com notas excelentes. O médico compareceu à cerimônia de formatura, seus olhos castanhos brilhando de orgulho. Carol também sentia orgulho, de si mesma. Alguém acreditava nela. Arrumou um emprego na Nedick's durante o dia e fez um curso de secretariado à noite. No dia em que terminou, começou a trabalhar para o Dr. Stevens, podendo então ter o seu próprio apartamento.
Nos quatro anos que haviam passado o Dr. Stevens sempre a tratava com a mesma cortesia formal da primeira noite. A princípio Carol ficara esperando que ele fizesse alguma referência ao que ela fora e ao que ela era. Mas finalmente ela descobrira que ele sempre a vira como ela era agora.
Tudo o que ele fizera fora ajudá-la a ser o que sempre fora. Sempre que Carol tinha um problema, ele achava tempo para discuti-lo. Recentemente ela começara a pensar que precisava falar-lhe sobre o que acontecia entre ela e Chick, mas estava sempre adiando. Carol era capaz de fazer qualquer coisa pelo Dr. Stevens. Deitar-se com ele, matar por ele...
E agora ali estavam aqueles dois caras da Divisão de Homicídios, querendo falar com o Dr. Stevens.
McGreavy começou a ficar impaciente.
- E então?
- Tenho ordens para jamais incomodá-lo quando está com um paciente - disse Carol. Ela viu a expressão furiosa que surgiu nos olhos de McGreavy e acrescentou:
- Mas vou falar com ele pelo telefone.
Ela pegou o fone e apertou a campainha de intercomunicação. Depois de trinta segundos o Dr. Stevens disse:
- Pois não?
- Há dois detetives aqui fora querendo falar-lhe, Doutor. São da Divisão de Homicídios. Carol ficou esperando que houvesse alguma alteração na voz dele. Nervosismo, talvez medo. Porém nada houve.
- Pois eles vão ter que esperar.
E o Dr. Stevens desligou, Carol ficou radiante de orgulho. Os detetives podiam fazê-la entrar em pânico, mas jamais conseguiriam fazer com que seu Dr. Stevens perdesse a calma! Ela fitou-os com uma expressão desafiadora e disse:
- Ouviram o que ele disse.
- Quanto tempo mais o paciente vai ficar lá dentro? - indagou Angeli, o mais jovem. Carol olhou para o relógio que estava na sua mesa.
- Mais vinte e cinco minutos. É o último paciente de hoje. Os dois homens se entreolharam. McGreavy suspirou.
- Pois vamos esperar. Eles sentaram-se. McGreavy examinou-a atentamente, comentando:
- Você me parece familiar.
Carol não se deixou enganar. O tira estava jogando uma isca.
- Creio que sabe o que se costuma dizer - respondeu ela. - Todas nós parecemos iguais. Exatamente vinte e cinco minutos após, Carol ouviu a batida da porta lateral que levava ao gabinete particular do Dr. Stevens diretamente para o corredor. Momentos depois, o Dr. Stevens abriu a porta que dava do seu gabinete para a sala da recepção. Hesitou por um instante ao ver McGreavy dizendo:
- Já nos encontramos antes.
Só que ele não conseguia lembrar-se onde.
- Já sim... Sou o Tenente McGreavy.
Ele acenou com a cabeça na direção de Angeli.
- Detetive Frank Angeli.
Judd e Angeli apertaram-se as mãos.
- Entrem, por gentileza.
Os dois detetives entraram no gabinete particular de Judd e a porta foi fechada. Carol ficou olhando para a porta, tentando compreender a situação. O detetive grandalhão dera a impressão de antagonizar o Dr. Stevens. Mas talvez isso fosse apenas uma disposição natural dele. Carol só tinha certeza de uma coisa: teria que mandar o seu vestido para a tinturaria.
O gabinete de Judd parecia mais uma sala de estar de uma casa de campo. Não havia uma escrivaninha, mas algumas poltronas e uma mesa no centro, com abajures realmente antigos. No outro lado havia uma porta que levava para o corredor. No chão estendia-se um tapete de padrões intrincados, e, a um canto, ficava um divã forrado com um tecido adamascado. McGreavy percebeu logo que não havia diplomas nas paredes. Mas ele verificara antes. Se o Dr. Stevens quisesse, poderia cobrir todas as paredes de diplomas e certificados.
- É o primeiro consultório de psiquiatra em que eu entro - disse Angeli, visivelmente impressionado. - Eu bem que gostaria que minha casa fosse assim.
- Serve para descontrair meus pacientes - comentou Judd, calmamente. - E por falar nisso, eu sou psicanalista.
- Desculpe o engano. Mas qual é a diferença?
- Cerca de cinqüenta dólares a mais por hora - comentou McGreavy. - Meu parceiro jamais sonhou em ganhar tanto assim!
"Parceiro"! Foi então que Judd se lembrou. O parceiro de McGreavy fora baleado e morto e o próprio McGreavy ficara bastante ferido durante um assalto a uma loja de bebidas quatro ou cinco? anos antes. Um vagabundo, chamado Amos Ziffren, fora preso pelo crime. O advogado de Ziffren alegara que seu cliente era inocente, por insanidade mental, Judd fora convocado como perito pela defesa e pediram-lhe que examinasse o réu. Constatara que Ziffren era, de fato, insano e sofria de uma paresia bem adiantada. Com base no depoimento de Judd, Ziffren escapara à sentença de morte e fora enviado para um asilo de doentes mentais.
- Estou me lembrando de você agora - disse Judd. - O caso Zifren. Você levou três tiros e seu companheiro foi morto.
- Pois eu também me lembro muito bem - disse McGreavy. - Conseguiu fazer com que o assassino escapasse.
- Em que posso ajudá-los?
- Precisamos de uma informação, Doutor - disse McGravy.
Ele fez um gesto com a cabeça para Angeli, que começou a desamarrar o embrulho que trazia.
- Precisamos que identifique algo para nós - acrescentou McGreavy.
Sua voz era controlada, não deixando transparecer qualquer emoção. Angeli terminou de abrir o embrulho e exibiu uma capa de chuva amarela.
- Já viu isso antes?
- Parece que é a minha - disse Judd, surpreso.
- É, de fato, a sua. Pelo menos está escrito por dentro.
- Onde a encontraram?
- Onde acha que nós a encontramos?
Os homens não pareciam mais indiferentes. Uma mudança subtil ocorrera em suas expressões.
Judd estudou McGreavy por um momento e depois pegou um cachimbo numa mesinha, começando a enchê-lo com tabaco tirado de um jarro.
- Acho bom me contarem logo o que significa tudo isso - disse ele calmamente.
- Se a capa lhe pertence, Dr. Stevens, queremos saber como deixou de estar em seu poder - disse McGreavy.
- Não há mistério nenhum nisso. Estava chovendo quando saí de casa esta manhã. Como meu sobretudo está na tinturaria, usei a capa impermeável. Costumo usá-la em minhas pescarias. Um dos meus pacientes apareceu aqui sem capa. Como estava nevando bastante na hora em que ele saiu, emprestei-lhe a minha capa.
Ele fez uma pausa, assumindo uma expressão subitamente preocupada.
- O que aconteceu com ele?
- Aconteceu a quem?
- Ao meu paciente, John Hanson.
- Exatamente - disse Angeli gentilmente. - Acertou em cheio. A razão para o Sr. Hanson não poder devolver-lhe a capa é o fato de estar morto.
Judd sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo.
- Morto?
- Alguém enfiou-lhe uma faca nas costas - informou McGreavy.
Judd fitou-o, incrédulo. McGreavy tirou a capa das mãos de Angeli e virou-a, mostrando a Judd o rasgão atrás e as manchas escuras de sangue. Uma sensação de náusea invadiu Judd.
- Mas quem poderia querer matá-lo?
- Esperávamos que nos pudesse dizer, Dr. Stevens - disse Angeli. - Quem poderia saber melhor do que o seu psicanalista?
Judd sacudiu a cabeça, desolado.
- Quando foi que aconteceu? Foi McGreavy quem respondeu:
- Às onze horas desta manhã. Em Lexington Avenue, acerca de um quarteirão daqui.
Algumas dezenas de pessoas devem tê-lo visto cair, mas estavam tão ocupadas voltando para suas casas, a fim de se prepararem para as comemorações do nascimento de Cristo, que o deixaram estendido na neve, sangrando até à morte.
Judd apertou a borda da mesa e os nós dos dedos ficaram brancos.
- A que horas Hanson chegou aqui esta manhã? - perguntou Angeli.
- Dez horas.
- Quanto tempo demoram as suas consultas, Doutor?
- Cinqüenta minutos.
- Ele foi embora assim que acabou?
- Foi. Eu já tinha outro paciente à espera.
- Hanson saiu pela sala da recepção?
- Não. Meus pacientes entram pela sala da recepção e saem por aquela porta - disse Judd, apontando para a porta que dava diretamente para o corredor. - Dessa maneira, eles jamais se encontram.
MacGreavy assentiu.
- Então quer dizer que Hanson foi morto alguns minutos depois de sair daqui. Porquê ele estava-se tratando?
Judd hesitou.
- Lamento, mas não posso revelar o relacionamento entre o paciente e seu médico.
- Mas alguém o matou, Dr. Stevens? Talvez nos possa ajudar a encontrar o assassino. O cachimbo de Judd estava agora apagado. Ele se demorou acendendo-o novamente.
- Há quanto tempo ele vinha se consultando?
Desta vez quem perguntou foi Angeli. Um exemplo típico de trabalho de equipa da polícia.
- Há três anos.
- E qual o problema dele?
Judd hesitou. Recordou-se de John Hanson que vira naquela manhã excitado, sorridente, ansioso em desfrutar de sua nova liberdade.
- Ele era homossexual.
- Oh, não! - exclamou McGreavy. - Outro caso de bonecas!- Ele era homossexual - disse Judd firmemente. - Hanson estava curado. Esta manhã eu lhe disse que não precisava mais do tratamento. Estava pronto para voltar a viver com a família. Ele tem... tinha mulher e dois filhos.
- Um bicha com família? - indagou McGreavy.
- Isso acontece com freqüência.
- Talvez um dos seus amiguinhos não tenha gostado da história de ele se libertar. Tiveram uma briga. O outro perdeu a calma e enfiou uma faca nas costas de Honson. Judd pensou na teoria por um momento.
- É possível, mas não creio muito.
- Por que não, Dr. Stevens? - perguntou Angeli.
- Porque Hanson, há mais de um ano, não tinha qualquer contato homossexual. É mais provável que tenha sido uma tentativa de assalto. Hanson era o tipo de homem que não rejeitava uma briga.
- Um bicha casado e valente - murmurou MacGreavy, tirando o charuto do bolso e acendendo. - Só há uma coisa errada com essa teoria de assalto, Doutor. A carteira dele não foi tocada. E tinha mais de cem dólares.
Ele calou-se, observando a reação de Judd. Foi então a vez de Angeli falar:
- Se tivéssemos que procurar um doido, seria mais fácil de encontrar.
- Mas se um homem está doido...?
- Não precisa necessariamente aparentar a sua loucura _ explicou Judd. - Para cada caso evidente de desequilíbrio mental, há pelo menos dez que não são diagnosticados.
McGreavy examinava Judd com um interesse óbvio,
- Conhece um bocado da natureza humana, não é mesmo, Doutor?
- Não existe essa coisa a que chamam natureza humana - disse Judd. - Assim como não existe uma natureza animal. Tentem encontrar as afinidades naturais entre um coelho e um tigre. Ou entre um esquilo e um elefante.
- Há quanto tempo pratica psicanálise? - perguntou McGreavy.
- Doze anos. Por quê? McGreavy sacudiu os ombros.
- É um homem de boa aparência, Doutor. Aposto que uma porção de pacientes se apaixonam pelo senhor não é mesmo, Doutor?
Os olhos de Judd ficaram extremamente frios.
- Não estou entendendo aonde quer chegar.
- Ora, Doutor, claro que entende. Somos ambos homens vividos. Um bicha entra aqui e encontra um médico bem apessoado a quem pode contar os seus problemas. Vai querer dizer- me que, durante três anos de sessão, Hanson nunca lhe fez qualquer insinuação? Judd ficou em silêncio por um momento, sem demonstrar qualquer reação.
- É essa idéia que faz de um homem vivido, Tenente? McGreavy não se perturbou.
- Pode perfeitamente ter acontecido. E não apenas isso. Tivemos um caso. Disse então a Hanson que não queria mais vê-lo. Talvez ele não tenha gostado. Em três anos de relacionamento ele ficou inteiramente dependente do senhor. Os dois tiveram uma briga.
O rosto de Judd tentou transparecer toda a raiva que ele estava sentindo. Foi Angeli quem rompeu a tensão:
- Pode-se recordar de alguém que tivesse motivo para odiá-lo, Doutor? Ou alguém a quem ele pudesse odiar?
- Se tal pessoa existisse, eu poderia dizer. Creio que eu sabia tudo quanto dizia respeito a John Hanson. Ele era um homem feliz. Não odiava ninguém e não sei de ninguém que o odiasse.
- Maravilhoso para ele. Deve ser um médico e tanto, Doutor - comentou McGreavy. -Agora dê-nos a ficha dele, que vamos levá-la.
- Não.
- Podemos obter uma ordem judicial.
- Pois então obtenha. Não há nada na ficha de Judd Hanson que possa ajudá-los.
- Então que mal pode haver em nos entregá-la? - indagou Angeli.
- Pode prejudicar a esposa e os filhos de Hanson. Creio que vocês estão na pista errada. Não tardarão a descobrir que Hanson foi morto por um estranho.
- Tenho certeza que não - disse McGreavy, rispidamente. Angeli tornou a embrulhar a capa e prendeu o barbante.
- Devolveremos a capa depois que tivermos feito mais alguns testes nela, Doutor.
- Pode ficar com ela.
McGreavy abriu a porta que dava para o corredor.
- Voltaremos a procurá-lo, Doutor.
Ele saiu. Angeli acenou para Judd e saiu também.
Judd ainda estava parado junto à porta, os pensamentos tumultuados, quando Carol entrou.
- Está tudo bem? - indagou ela, hesitante.
- Alguém matou John Hanson.
- Matou?
- Ele foi apunhalado.
- Oh, meu Deus! Mas por quê?
- A polícia não sabe.
- Mas que coisa terrível!
Carol notou a dor que havia nos olhos de Judd e acrescentou:
- Há alguma coisa que eu possa fazer, Doutor?
- Poderia fechar o consultório, Carol? Vou procurar a Srª Hanson. Quero eu mesmo transmitir-lhe a notícia.
- Pode deixar que eu cuido de tudo, Doutor.
- Obrigado.
E Judd partiu.
Trinta minutos depois Carol acabara de pôr as fichas em ordem e estava trancando a sua escrivaninha quando a porta do corredor se abriu. Já passava das seis horas da tarde e o prédio estava fechado. Carol levantou os olhos para ver o homem sorrir e avançar em sua direção.