A Outra Face
Capítulo 3 · Mary Hanson parecia uma boneca: pequena, bonita,…
Mary Hanson parecia uma boneca: pequena, bonita, de feições delicadas. Por fora, ela era toda suavidade, uma típica representante do desamparo feminino do sul. Mas, por dentro, era feita de granito. Judd conhecera-a uma semana depois de ter iniciado o tratamento do marido. Ela se manifestara histericamente contra o tratamento, e Judd pedira-lhe que fosse conversar com ele.
- Por que se opõe a que seu marido faça um tratamento de psicanálise?
- Não quero que todos os nossos amigos digam que me casei com um maluco - dissera ela a Judd. - Peça-lhe que me dê o divórcio primeiro. Depois pode fazer o que bem entender.. Judd explicara que um divórcio naquele momento poderia destruir John completamente.
- Não resta mais nada que destruir - gritou Mary. - Se eu soubesse que ele era um efeminado, acha que eu me teria casado? Ele não é homem, mas mulher!
- Há um pouco de mulher em cada homem, assim como há um pouco de homem em cada mulher. No caso do seu marido, há alguns problemas psicológicos difíceis que ele precisa superar.
E ele está tentando arduamente, Sra. Hanson. Tem que ajudá-lo. Deve isso a ele e às crianças. Ele argumentara durante mais de três horas e ela, finalmente, concordara, embora relutante, em suspender a ação de divórcio por algum tempo. Nos meses que se seguiram ela se tornara, a princípio, interessada e, depois, envolvida na batalha que John estava travando. Judd tinha como princípio jamais tratar de marido e mulher, mas Mary pedira para ser sua paciente e ele descobrira que isso ajudava bastante. À medida que ela começava a compreender a si mesma e a descobrir onde fracassara com esposa, os progressos de John haviam sido dramaticamente rápidos.
E agora Judd estava ali para dizer-lhe que o marido fora assassinado, o que não fazia o menor sentido. Mary fitou-o em silêncio, incapaz de acreditar no que ele acabara de dizer, certa de que se tratava de alguma espécie de piada macabra. Mas logo ela compreendeu que não, que era mesmo verdade. E pôs-se a gritar:
- Ele nunca mais vai voltar para mim! Ele nunca mais vai voltar para mim!
Ela começou a rasgar as roupas, num acesso de desespero, parecendo um animalzinho ferido. Os gêmeos de seis anos entraram na sala neste momento e a situação se tornou incontrolável. Judd conseguiu acalmar as crianças e levou-as para a casa de uma vizinha. Deu um sedativo à Sra. Hanson e telefonou para o médico da família. Só foi embora quando teve certeza de que nada mais pudesse fazer. Entrou no carro e partiu sem rumo, imerso em seus pensamentos. Hanson lutara valentemente para sair de um inferno e no momento de sua vitória... Não fazia o menor sentido. Teria sido John Hanson assassinado por algum homossexual? Por algum antigo amante, que se sentira frustrado porque Hanson o deixara? Era possível, é claro, mas Judd não acreditara em tal possibilidade. O Tenente McGreavy dissera que Hanson fora assassinado a um quarteirão do seu consultório. Se o assassino fosse um homossexual, cheio de ódio em seu coração, teria marcado um encontro com Hanson em algum lugar mais íntimo, onde poderia tentar persuadir Hanson a voltar ou então despejar as suas recriminações, antes de assassiná-lo. Jamais iria esfaqueá-lo numa rua cheia de gente e depois fugir.
Numa esquina à sua frente ele viu uma cabine telefônica e só então se lembrou de que prometera jantar com o Dr. Peter Hadley e sua esposa, Norah. Eram os amigos mais chegados de Judd, mas naquela noite ele não estava com disposição de ver ninguém. Estacionou o carro e entrou na cabine a fim de telefonar para Hadley. Foi Norah quem atendeu:
- Você está atrasado, Judd! Onde é que está agora?
- Norah, acho que vou ter que pedir-lhe que me perdoe por não ir jantar com vocês esta noite.
- Mas você não pode fazer uma coisa dessas! Tenho uma loura sensual aqui em casa, morrendo de vontade de conhecê-lo.
- Vamos deixar para outra noite, Norah. Hoje não vai mesmo ser possível. Por favor, apresente a ela as minhas desculpas.
- Vocês, médicos, são todos iguais! Espere um instante que vou chamar o seu colega. Peter veio ao telefone.
- Algo errado, Judd?
Judd hesitou, mas acabou não contando nada.
- Apenas um dia difícil, Peter. Amanhã eu lhe conto tudo.
- Pois saiba que está perdendo um delicioso hors d'oeuvre escandinavo.
- Eu a conhecerei em outra ocasião.
Ele ouviu um sussurro abafado e depois Norah voltou ao telefone.
- Ela virá cear conosco na noite de Natal, Judd. Você não quer vir também? Ele hesitou.
- Falaremos sobre isso depois, Norah. E mais uma vez peço desculpas por esta noite.
Judd desligou. Gostaria de encontrar uma maneira delicada de fazer com que Norah parasse de procurar arrumar-lhe uma esposa.
Judd casara-se no último ano da universidade. Elizabeth estava-se formando também, em Ciências Sociais. Era uma moça inteligente, alegre e afetiva. Estavam profundamente apaixonados um pelo outro e tinham planos maravilhosos de refazerem o mundo para todos os filhos que iam ter.
E no primeiro natal em que estavam casados Elizabeth e seu filho que ainda não nascera haviam morrido num acidente de automóvel. Judd passara a se concentrar em seu trabalho e, com o passar dos anos, transformara-se num dos mais conceituados psicanalistas do país. Mas ainda não podia suportar a companhia de outras pessoas a comemorar o Natal. De certa forma, embora ele constantemente repetisse a si mesmo que estava errado, o Natal era uma data que pertencia a Elizabeth e ao seu filho que não nascera.
Ele empurrou a porta da cabine telefônica. Havia uma jovem esperando do lado de fora. Era bonita e usava uma blusa apertada, com uma minissaia e uma capa por cima, aberta na frente. Judd saiu da cabine.
- Desculpe a demora.
Ela sorriu-lhe jovialmente.
- Não há problema.
Havia uma expressão de ansiedade em seu rosto. Judd já vira aquele olhar antes. Era a solução tentando romper a barreira que ele inconscientemente erguera ao seu redor.
Se Judd sabia que tinha alguma coisa que atraía as mulheres, então isso estava enterrado no fundo de seu subconsciente. Ele jamais procurava analisar o fato, em busca de uma explicação. Era mais uma desvantagem que uma vantagem descobrir que as suas pacientes sempre se apaixonavam por ele. Algumas vezes isso criava situações bem difíceis.
Ele passou pela moça com um aceno cordial. Sentiu que ela ficou parada ali, debaixo da chuva, observando-o entrar no carro e afastar-se.
Judd virou em East Drive e seguiu para o Merrit Parkway. Uma hora e meia depois estava em Connecticut Turnpike. A neve em Nova York era suja e semiderretida, mas a mesma tempestade magicamente transformara a paisagem de Connecticut num cartão-postal de Currier e Ives.
Ele passou por Westport e Danbury, deliberadamente forçando sua mente a concentrar-se na faixa de estrada que voava sob as rodas e na paisagem de inverno que o cercava. Cada vez que seus pensamentos voltavam a John Hanson, ele se obrigava a pensar em outras coisas. Durante horas guiou pela escuridão dos campos de Connecticut, até que, emocionalmente exausto, decidiu que já estava na hora de voltar para casa.
Mike, o porteiro de rosto vermelho, que normalmente o cumprimentava efusivamente, sempre sorrindo, estava preocupado e distante. "Problemas de família", calculou Judd. Geralmente Judd conversava um pouco com Mike sobre o filho adolescente dele e as filhas casadas. Mas naquela noite Judd não estava com a menor vontade de conversar. Pediu a Mike que levasse o seu carro para a garagem.
- Pois não, Dr. Stevens.
Mike deu a impressão de que ia dizer mais alguma coisa, mas mudou de idéia. Judd entrou
no prédio. Ben Katz, o sindico, estava atravessando o saguão. Ele viu Judd, acenou-lhe nervosamente e seguiu em frente apressado, entrando em seu apartamento.
"Mas que diabo está acontecendo com todo mundo esta noite?", pensou Judd. "Ou serei eu". que estou nervoso demais "? Ele entrou no elevador. Eddie, o ascensorista, sacudiu a cabeça".
- Boa noite, Dr. Stevens.
- Boa noite, Eddie.
Eddie engoliu em seco e olhou para o outro lado, embaraçado.
- Há algo errado, Eddie?
Eddie sacudiu a cabeça rapidamente e manteve os olhos afastados de Judd. "Meu Deus!", pensou Judd. "Outro candidato a meu divã de analise"! Parecia que o prédio se enchera rapidamente de gente que estava precisando dos seus serviços profissionais.
Eddie abriu a porta do elevador e Judd saiu. Encaminhou-se para seu apartamento. Não ouviu a porta do elevador fechar-se e, por isso, virou-se. Eddie estava olhando para ele. Judd começou a falar, mas Eddie rapidamente fechou a porta do elevador. Judd foi para o seu apartamento, abriu a porta e entrou.
Todas as luzes estavam acesas. O Tenente McGreavy estava abrindo uma gaveta da sala de estar. Angeli saía do quarto. Judd sentiu a raiva irromper lá do fundo.
- Mas o que vocês estão fazendo no meu apartamento?
- Estávamos à sua espera, Dr. Stevens - disse McGreavy.
Judd avançou e fechou a gaveta violentamente, por pouco não imprensando os dedos de McGreavy.
- Como foi que entraram aqui?
- Temos um mandado de busca - informou Angeli. Judd fitou-o com uma expressão de incredulidade.
- Um mandado de busca? Para meu apartamento?
- Nós é que fazemos as perguntas, Doutor - disse McGreavy.
- Não precisa respondê-las - acrescentou Angeli. - Isto é, não precisa responder nada sem a presença do seu advogado. E devemos também informá-lo de que tudo o que disser poderá ser usado como prova contra o senhor.
- Quer chamar um advogado? - perguntou McGreavy.
- Não preciso de advogado nenhum! Já lhe disse que emprestei minha capa a John Hanson esta manhã e não tornei a vê-la até que a levaram a meu escritório, à tarde. Eu não poderia Tê- lo matado. Passei o dia inteiro com meus pacientes. A senhorita Roberts pode confirmar.
McGreavy e Angeli trocaram um olhar misterioso.
- Onde foi depois que saiu do seu escritório esta tarde, Doutor? - indagou Angeli.
- Fui ver a Sra. Hanson.
- Já sabíamos disso - falou McGreavy. - Queremos saber onde foi depois. Judd hesitou.
- Fui dar uma volta de carro.
- Aonde?
- Fui até Connecticut.
- Onde foi que parou para jantar?
- Não parei. Estava sem fome.
- Então ninguém o viu?
Judd pensou por um momento.
- Acho que não.
- Talvez tenha parado em algum posto para encher o tanque - sugeriu Angeli.
- Não parei em lugar nenhum. Mas que diferença faz o lugar onde fui esta noite? Honson foi morto pela manhã.
- Não voltou ao seu consultório depois que saiu de lá no fim da tarde? A voz de McGreavy era quase indiferente.
- Não. Por quê?
- É que foi arrombado.
- O quê? Quem fez isso?
- Não sabemos. E eu gostaria de que fosse até lá conosco para dar uma olhada. Poderá dizer-nos se está faltando alguma coisa.
- Mas claro que sim. Quem foi que informou o arrombamento?
- O vigia noturno - disse Angeli. - Guarda alguma coisa de valor em seu consultório, Doutor? Dinheiro? Drogas? Alguma coisa assim.
- Só o dinheiro para as despesas miúdas do consultório. E nenhum narcótico. Não existe lá qualquer coisa que valha a pena roubar. Isso não faz o menor sentido.
- Está certo - disse McGreavy. - Mas agora vamos embora.
No elevador Eddie lançou para Judd um olhar de quem pedia desculpas. Judd fitou-o e sacudiu a cabeça, indicando que compreendia.
"Evidentemente a polícia não podia suspeitar de que ele arrombara o seu próprio". consultório ", pensou Judd. Parecia que McGreavy estava determinado a atribuir-lhe a culpa de" alguma coisa, para se vingar do seu companheiro morto. Mas só que isso acontecera há cinco anos.
Será que McGreavy passara todos aqueles anos remoendo o caso e chegando à conclusão de que ele era o culpado? Será que ficara esperando o tempo todo por uma oportunidade para agarrá-lo.
Havia um carro de polícia não identificado a poucos metros da entrada do prédio. Entraram os três e seguiram para o consultório de Judd, em silêncio. Ao chegarem, Judd assinou o registro que havia no saguão. Bigelow, o vigia noturno, olhou-o com uma expressão estranha. Ou seria apenas imaginação de Judd?
Subiram no elevador até o décimo quinto andar e percorreram o corredor até o consultório de Judd. Um guarda uniformizado estava parado diante da porta. Ele acenou para McGreavy e deu um passo para o lado. Judd meteu a mão no bolso para tirar a chave.
- A porta está aberta - disse Angeli.
Ele empurrou a porta e os três entraram. Judd seguiu na frente. A sala de recepção era um caos. Todas as gavetas tinham sido arrancadas da escrivaninha e o chão estava coalhado de papeis.
Judd não queria acreditar no que estava vendo, sentindo um choque de violação pessoal.
- O que acha que estavam procurando, Doutor? - indagou McGreavy.
- Não tenho a menor idéia.
Ele encaminhou para a porta que dava para o seu gabinete pessoal e abriu-a. McGreavy veio logo atrás dele.
Duas mesinhas baixas tinham sido viradas, um abajur quebrado estava caído no chão, o tapete ensopado de sangue.
No outro lado da sala, estendido de maneira grotesca, estava o corpo de Carol Roberts. Ela estava nua, as mãos amarradas nas costas com uma corda de piano. Haviam-lhe jogado ácido no rosto, nos seios e entre as coxas. Os dedos da mão direita estavam quebrados. O rosto estava bastante machucado e inchado, e um lenço embolado fora enfiado em sua boca. Os dois detetives ficaram observando Judd, em silêncio, enquanto ele contemplava o corpo de Carol, aturdido.
- Está muito pálido - disse Angeli. - É melhor sentar-se.
Judd sacudiu a cabeça e respirou fundo por diversas vezes. Quando falou, a voz tremia de raiva:
- Mas... mas quem poderia ter feito uma coisa dessas?
- É o que estamos esperando que nos diga, Dr. Stevens - disse McGreavy. Judd fitou-o em silêncio por um minuto, perplexo.
- Ninguém jamais poderia querer fazer uma coisa dessas com Carol. Ela jamais fez mal a alguém em toda sua vida.
- Acho que já está na hora de começar a cantar outra melodia - comentou MacGreavy.- Ninguém podia querer fazer mal a Hanson, mas enfiaram uma faca nas costas dele. Ninguém poderia querer fazer mal a Carol, mas derramaram ácido por todo o corpo dela e torturaram- na até à morte.
McGreavy fez uma pausa. Ao continuar, seu tom era bem mais ríspido:
- E depois disso ainda tem a coragem de dizer que ninguém poderia querer fazer mal aos dois! Mas que diabo é, afinal? Cego, mudo e idiota? Essa garota trabalhou aqui durante quatro anos. O senhor é um psicanalista. Vai querer dizer-me que nunca soube de nada, nem jamais se importou com a vida pessoal dela?
- Mas é claro que eu me importava - disse Judd, a voz tensa. - Ela tinha um namorado, e eles iam-se casar...
- É Chick. Nós já falamos com ele.
- Mas ele jamais faria uma coisa dessas! É um rapaz decente e amava Carol...
- Quando foi a última vez que viu Carol viva? - perguntou Angeli.
- Já lhes disse isso. Foi quando saí daqui para ir falar com a Sra. Hanson. Pedi a Carol que fechasse o consultório para mim.
A voz de Judd estava trêmula. Ele engoliu em seco e respirou fundo, procurando controlar-se.
- Tinha mais algum paciente marcado para hoje quando saiu?
- Não.
- Acha que o crime foi obra de algum maníaco, Doutor?
- Só pode ter sido um maníaco. Mas... mesmo um maníaco precisa de alguma motivação.
- É o que eu também acho - disse McGreavy.
Judd olhou mais uma vez para o corpo de Carol. Tinha o aspecto triste de uma boneca de trapos desfigurada. Furioso, ele indagou aos detetives:
- Por quanto tempo pretendem deixá-la assim?
- Eles já vão levá-la - informou Angeli. - O legista e os outros técnicos já terminaram o seu serviço.
Judd virou-se para McGreavy.
- Quer dizer que a deixaram assim só por minha causa?
- Exatamente. E vou perguntar novamente: há alguma coisa aqui que alguém pudesse querer desesperadamente, a ponto de - ele fez uma pausa e indicou o corpo de Carol - ter feito isso?
- Não.
- O que me diz das fichas dos seus pacientes? Judd sacudiu a cabeça.
- Não há nada de importante nelas.
- Não está querendo cooperar, não é mesmo, Doutor?
- Acha que também não quero descobrir quem fez uma coisa dessas? Se houvesse qualquer coisa nas fichas que pudesse ajudar, eu seria o primeiro a dizer. Conheço bastante bem os meus pacientes. Não há nenhum que fosse capaz de fazer uma coisa dessas. Tenho certeza de que o crime foi cometido por alguém de fora, por um estranho.
- Como sabe que não era alguém que estava atrás dos seus arquivos?
- Meus arquivos nem foram tocados, McGreavy
- Como pode saber disso? Nem mesmo olhou.
Judd foi até a parede do outro lado da sala. Apertou a parte inferior do painel e a parede se abriu, revelando diversas prateleiras embutidas. Estavam cheias de fitas de gravação.
- Gravo todas as sessões com meus pacientes - explicou Judd. - E guardo as fitas aqui.
- Não poderiam ter torturado Carol numa tentativa de obrigá-la a dizer onde estavam as fitas?
- Não há nada nessas fitas que possa ter algum valor para alguém. Certamente ela foi assassinada por algum outro motivo.
Judd olhou novamente para o corpo mutilado de Carol e sentiu-se dominado por uma raiva cega e impotente.
- Vocês têm que descobrir quem fez isso!
- É justamente o que eu pretendo fazer - disse McGreavy, olhando fixamente para Judd.
Na rua deserta e varrida por um vento frio, em frente ao prédio em que ficava o consultório de Judd, McGreavy disse a Angeli que levasse o médico de volta para casa.
- Tenho ainda um trabalho a fazer - informou McGreavy, virando-se em seguida para Judd.
- Boa noite, Doutor.
Judd ficou olhando o vulto corpulento e desajeitado descer a rua rapidamente.
- Vamos indo - disse Angeli. - Estou morrendo de frio.
Judd sentou-se no banco da frente, ao lado de Angeli, que imediatamente deu a partida.
- Tenho de ir falar com a família de Carol - disse Judd.
- Nós já estivemos lá.
Judd assentiu, cansado. Mesmo assim, ele queria falar com os pais de Carol, mas isso podia esperar. Houve um grande silêncio. Judd indagou-se sobre qual seria o trabalho que McGreavy teria ido fazer àquela hora da madrugada. Como se lesse seus pensamentos, Angeli disse:
- McGreavy é um bom polícia. Ele acha sinceramente que Ziffren merecia a cadeira elétrica por ter matado o seu companheiro.
- Ziffren era um desequilibrado mental. Angeli sacudiu os ombros.
- Aceito a sua palavra, Doutor.
"Mas McGreavy jamais aceitará", pensou Judd. Ele pensou em Carol, recordando a sua permanente jovialidade, a sua inteligência, o seu afeto, o orgulho que ela sentia do seu trabalho.
Percebeu então que Angeli estava-lhe dizendo alguma coisa e viu que haviam chegado ao prédio em que morava.
Cinco minutos depois Judd estava em seu apartamento. Não havia a menor possibilidade de conseguir conciliar o sono. Ele serviu-se de um conhaque e foi para o escritório. Recordou-se da noite em que Carol ali entrara, nua e linda, esfregando o seu corpo quente e flexível contra o dele.
Judd bancara o frio e indiferente porque sabia que essa era a única forma de ajudá-la. Mas ela jamais soubera quanta força de vontade ele tivera que empregar para resistir ao desejo. Ou será que ela compreendera? Judd ergueu o copo e esvaziou-o de um só gole.
O necrotério municipal parecia igual a qualquer outro necrotério às três horas da madrugada. A única diferença é que alguém pendurara na porta uma coroa de Natal. "Alguém dotado de muito espírito de Natal ou então com um senso de humor macabro", pensou McGreavy.
Ele esperou impacientemente no corredor até que a autópsia estivesse concluída. Quando o legista o chamou, ele entrou na sala de autópsia, toda branca. O legista estava lavando as mãos numa pia enorme. Era um homem pequeno, de voz estridente, com movimentos rápidos e nervosos. Ele respondeu a todas as perguntas de McGreavy rapidamente, retirando-se logo em seguida. McGreavy ficou ali por mais alguns minutos, absorvido no que acabara de saber. Depois saiu para a noite gelada lá fora, à procura de um táxi. Não havia nenhum. "Os desgraçados devem estar todos de férias nas Bermudas", pensou McGreavy. Mas ele não podia ficar a madrugada inteira ali na rua, até congelar.
Viu uma radiopatrulha e fez sinal. Mostrou a sua identificação ao soldado que a estava dirigindo e ordenou-lhe que o levasse ao 19º Distrito. Era contra os regulamentos, mas que diabo! Afinal, ia ser uma longa noite.
Quando McGreavy entrou na delegacia, Angeli já o estava esperando.
- Eles já acabaram a autópsia de Carol Roberts - informou McGreavy.
- E o que descobriram?
- Ela estava grávida.
Angeli exibiu uma expressão de perplexidade.- E já de três meses. Um pouco tarde para um aborto seguro e um pouco cedo para que se pudesse notar.
- Acha que isso tem relação com o assassinato dela? - indagou Angeli.
- É uma boa pergunta. Se foi o namorado de Carol que a engravidou e ele pretendia casar-se com ela, por que haveria de fazer uma coisa dessas? O único problema seria terem um filho poucos meses depois do casamento, antes da data que seria natural. Mas essas coisas acontecem todos os dias. Por outro lado, se ele a engravidou e não queria se casar... qual o problema? Ela simplesmente teria um filho e não teria marido. Isso acontece com mais freqüência ainda.
- Nós conversamos com Chick. Ele queria de fato casar-se com ela.
- Eu sei disso. Assim, o que temos que nos perguntar é onde isso nos deixa. E a resposta é simples: temos uma garota negra que está grávida, vai procurar o pai da criança e conta-lhe tudo. Ele a mata para proteger-se.
- Mas ele teria de ser um louco para fazer uma coisa dessas!
- Ou muito esperto. Eu fico com a segunda hipótese. Vistas as coisas por este ângulo: Carol vai procurar o pai da criança, dá a má notícia e diz que não pretende abortar; que vai ter o filho.
Talvez a intenção dela fosse fazer chantagem, obrigá-lo a casar. Mas suponhamos que ele não pudesse casar-se com ela, por já ser casado. Ou talvez por ser um branco. Suponhamos que fosse um médico bastante conhecido, com uma clientela elegante. Se uma coisa dessas transpirasse, ele ficaria arruinado. Quem haveria de querer tratar-se com um psicanalista que engravidou a sua recepcionista negra e teve que se casar com ela?
- Stevens é médico - disse Angeli. - Ele poderia tê-la matado de uma dúzia de maneiras diferentes, sem despertar qualquer suspeita.
- Talvez sim, talvez não. Mas se alguém desconfiasse, sempre seria possível chegar até ele.
Se comprasse veneno, o seu nome estaria registrado. Se comprasse uma corda ou uma faca, sempre se poderia descobrir. Pense agora se ele poderia ter armado um cenário mais inteligente. Aparece um maníaco e, sem razão alguma, assassina sua recepcionista. Ele está à vontade para bancar o patrão abalado com a tragédia, a exigir da polícia que prenda o assassino.
- Acho uma história meio difícil de acreditar.
- Ainda não acabei. Vamos ver agora o caso do paciente dele, John Hanson. Outro crime sem motivo, praticado pelo maníaco desconhecido. Sabe de uma coisa, Angeli? Eu não acredito em coincidências. E duas coincidências assim, no mesmo dia, deixam-me nervoso. Por isso, fiquei me perguntando que relação podia haver entre a morte de John Hanson e a de Carol Roberts e, finalmente, cheguei à conclusão de que não houve tanta coincidência assim. Suponhamos que Carol tenha entrado na sala de Stevens e dado a má notícia de que ia ser pai. Tiveram uma briga e ela tentou fazer chantagem. Disse que Stevens tinha que se casar, dar-lhe dinheiro, qualquer coisa, enfim. John Hanson estava esperando na sala de recepção, escutando tudo. Talvez Stevens não soubesse que ele ouvira a discussão até Hanson se deitar em tal divã. Hanson ameaçou denunciá-lo. Ou tentou levá-lo para a cama.
- Acho que está fazendo suposições demais.
- Mas será que não vê que tudo se ajusta? Quando Hanson saiu, Stevens foi atrás dele e liquidou-o para que nada contasse. Depois ele tinha que voltar para livrar-se de Carol. Fez com que parecesse um crime de algum maníaco. Foi então visitar a Sra. Hanson e fez um passeio a Connecticut, achando que todos os seus problemas estavam resolvidos. E, enquanto ele fica sentado calmamente, a polícia quebra a cabeça atrás de algum maníaco que simplesmente não existe.
- Não aceito essa teoria - disse Angeli. - Está tentando preparar uma acusação de homicídio sem ter a menor prova concreta.
- O que você chama de prova concreta, Angeli? Não se esqueça de que temos dois cadáveres. Um deles é o de uma garota grávida que trabalhava para Stevens. O outro é o de um de seus pacientes, assassinado a um quarentão do consultório dele. O cara estava se tratando porque era homossexual. Quando pedi a Stevens para ouvir as gravações das sessões que teve com Hanson, ele simplesmente não deixou. Por quê? A quem o Dr. Stevens está querendo proteger? Perguntei-lhe se alguém poderia ter arrombado seu consultório à procura de alguma coisa. Talvez pudéssemos então seguir a teoria de que haviam torturado Carol para que ela dissesse onde estava a tal coisa misteriosa.
Mas lembra-se do que Stevens disse? Que não há nada de misterioso em seu consultório. Ele não guardava narcóticos no consultório. Nem dinheiro. Portanto, só nos resta procurar um maníaco. Não é isto mesmo? Só que eu não concordo com isso. Acho que devemos procurar é o Dr. Judd Stevens.
- Eu acho que você está querendo agarrá-lo de qualquer maneira - disse Angeli calmamente. O rosto de McGreavey ficou vermelho de raiva.
- Porque eu tenho a certeza de que ele é culpado!
- Vai prendê-lo?
- Agora não. Vou dar-lhe primeiro bastante corda. E, enquanto Stevens estiver-se
enforcando, vou descobrir todos os seus segredos. Quando eu o prender, ninguém vai conseguir mais soltá-lo.
McGreavy virou-se e afastou-se.
Angeli ficou olhando-o, pensativo. Se ele não tomasse nenhuma providência, era bem possível que McGreavy tentasse meter o Dr. Stevens na cadeia de qualquer maneira. Ele não podia deixar que isso acontecesse. Angeli disse a si mesmo que, pela manhã, conversaria com o Capitão Bertelli a esse respeito.