A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 23 de 23

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A Outra Face

Capítulo 23 · Angeli acendeu os faróis. Eram quatro horas…

 

Angeli acendeu os faróis. Eram quatro horas da tarde, mas o sol estava enterrado em algum lugar por trás da massa de cúmulos que corriam pelo céu, impulsionados pelo vento gelado. Estavam andando quase há uma hora.

Angeli ia ao volante, com Rocky Vaccaro ao seu lado. Judd estava no banco de trás, com Anthony DeMarco.

No começo Judd ficara alerta para algum carro de polícia que passasse, na esperança de poder fazer alguma tentativa desesperada de atrair a atenção dos polícias. Mas Angeli estava seguindo por estradas secundárias pouco usadas, onde quase não havia tráfego. Contornaram Morristown, entraram na Rodovia 206 e seguiram para o sul, na direção das planícies centrais de Nova Jersey, uma região desolada e escassamente povoada. O céu cinzento começou a despejar-se sobre a terra, o granizo batendo no carro como minúsculos tambores enlouquecidos.

- Vá mais devagar - ordenou DeMarco. - Não queremos sofrer um acidente. Obedientemente, Angeli diminuiu a pressão no acelerador.

DeMarco virou-se para Judd.

- É nos pequenos detalhes que a maioria das pessoas comete os seus erros. Não costumam planear como eu.

Judd olhou para DeMarco, examinando-o clinicamente. O homem estava sofrendo de megalomania, fora do alcance da razão e da lógica. Não havia meio algum de atingi-lo. Faltava-lhe um senso moral, o que lhe permitia matar sem o menor remorso. Judd conhecia agora todas as respostas.

DeMarco cometera os crimes pessoalmente por uma questão de honra - uma vingança siciliana, para apagar a mancha que ele pensara que a esposa lançara sobre ele e sobre a família da Cosa Nostra. Matara John Hanson por engano. Quando Angeli o procurara para informar o que acontecera, DeMarco voltara imediatamente ao consultório e encontrara Carol. Pobre Carol! Ela não poderia ter-lhe entregue as gravações da Sra. DeMarco porque não conhecia Anne por esse nome.

Se DeMarco se tivesse controlado, poderia ter ajudado Carol a descobrir de quem estava falando.

Mas fazia parte de sua doença não ter a menor tolerância com a frustração. Por isso, deixara- se dominar por uma raiva assassina e Carol acabara morrendo. De maneira horrível! Fora DeMarco quem atropelara Judd e mais tarde fora ao seu consultório em companhia de Angeli. Judd ficara desconcentrado pelo fato de não haverem derrubado a porta, matando-o a tiros. Mas Judd compreendia agora que, como McGreavy o considerava culpado, eles haviam decidido que sua morte deveria parecer suicídio, cometido por remorso. Isso afastaria a possibilidade de uma investigação policial mais aprofundada.

E Moody... Pobre Moody! Judd dissera-lhe os nomes dos detetives que estavam trabalhando no caso. Ele pensara que Moody tivesse reagido ao nome de McGreavy, mas a reação fora ao nome de Angeli. Moody descobrira que Angeli estava envolvido com a Cosa Nostra. E quando seguira essa pista...

Judd olhou para DeMarco.

- O que vai acontecer com Anne?

- Não se preocupe. Eu tomarei conta dela. Angeli sorriu.

- É mesmo...

Judd sentiu uma raiva impotente invadi-lo.

- Eu errei ao casar-me com alguém fora da família - meditou DeMarco. - As pessoas de fora não nos podem compreender. Jamais!

Eles estavam percorrendo agora um trecho bastante ermo das planícies centrais de Nova Jersey. De vez em quando se divisavam os contornos de uma fábrica, à distância, recortada contra o céu cor de chumbo.

- Estamos quase chegando - anunciou Angeli.

- Você fez um bom trabalho - disse-lhe DeMarco. - Vamos ter que escondê-lo, até as coisas esfriarem por aqui. Para onde gostaria de ir?

- Gosto da Flórida.

DeMarco assentiu, aprovando a escolha.

- Não há problema. Pode ficar com alguém da família.

- Conheço umas garotas espetaculares por lá- comentou Angeli, sorrindo. DeMarco retribuiu-lhe o sorriso, pelo espelhinho retrovisor.

- Vai voltar com o traseiro queimado de sol.

- Espero não voltar com nada mais além disso. Rocky Vaccaro riu.

A distância, do lado direito da estrada, Judd viu os prédios acachapados de uma fábrica, soprando fumaça para o céu. Chegaram a uma estradinha lateral que levava até a fábrica. Angeli entrou nesse caminho e avançou até um muro alto. O portão estava fechado. Angeli tocou a buzina e um homem de capa e guarda-chuva apareceu atrás do portão. Assentiu ao ver DeMarco, destrancou o portão e abriu-o. Angeli entrou e o portão foi prontamente fechado. Tinham chegado.

O Tenente McGreavy estava na sala no 19º Distrito, examinando uma lista de nomes com três detetives, o Capitão Bertelli e os dois agentes do FBI.

- Esta é a lista das famílias da Cosa Nostra aqui no leste - disse ele. - Todos os chefes e subchefes estão relacionados aqui. O nosso problema é que não sabemos a que família Angeli está ligado.

- Quanto tempo vai demorar para se investigarem todos? - perguntou o Capitão Bertelli. Um dos homens do FBI falou:

- Há mais de sessenta nomes aqui. Demoraria pelo menos vinte e quatro horas, mas... Ele parou de falar e McGreavy concluiu a frase:

- Mas o Dr. Stevens não tem a menor condição de viver por mais de vinte e quatro horas. Um jovem guarda uniformizado entrou correndo pela porta aberta. Hesitou, ao ver o grupo ali reunido.

- O que é? - indagou McGreavy.

- Nova Jersey não sabe se é importante, Tenente, mas pediu que informassem qualquer coisa fora do normal. Uma telefonista recebeu um chamado de uma mulher adulta, pedindo que a ligasse com a polícia. Ela disse que era uma emergência e logo depois a linha ficou muda. A telefonista ficou esperando, mas a mulher não ligou novamente.

- De onde foi dado o telefonema?

- De uma cidadezinha chamada Old Tappan.

- A telefonista descobriu o número do telefone?

- Não. A pessoa desligou muito depressa.

- Isso é ótimo - murmurou McGreavy, amargurado.

- Esqueça - disse Bertelli. - Provavelmente era alguma velha informando que seu gato se extraviara.

O telefone de McGreavy tocou, um toque longo e insistente. Ele atendeu.

- Tenente McGreavy falando.

Os outros que estavam na sala ficaram observando o rosto dele contrair-se de tensão.

- Certo. Diga-lhe para não fazerem nada até eu chegar aí. Já estou a caminho. Ele bateu o telefone.

- A Patrulha Rodoviária acaba de avistar o carro de Angeli, seguindo para o sul, na rodovia 206, logo depois de Milstone.

- Estão seguindo o carro? - indagou um dos agentes do FBI.

- O carro da Patrulha Rodoviária estava indo na direção oposta. Ao terminar a curva, o carro de Angeli já desaparecera. Eu conheço bem aquela região. Não há nada ali à exceção de algumas fábricas velhas.

Ele virou-se para um dos homens do FBI e perguntou:- Pode providenciar-me uma relação dos nomes das fábricas da região e de seus proprietários?

- Certo.

O homem do FBI estendeu a mão para o telefone.

- Estou indo para lá - disse McGreavy. - Entre em contato comigo pelo rádio assim que tiver a resposta.

Virou-se então para os outros homens e disse:

- Vamos indo!

Partiu para a porta, seguidos pelos três detetives e pelo outro agente do FBI.

Angeli passou pelo barracão do vigia e continuou em frente, na direção de um grupo de estruturas de aspectos estranho que se seguiam para o céu. Haviam imensas chaminés de barro e gigantescas caixas dágua, os formatos arredondados elevando-se além da chuva, como monstros pré-históricos numa paisagem antiga e imutável.

O carro foi para junto de um complexo de canos e correias para transportadoras. Angeli e Vaccaro saltaram. Vaccaro abriu a porta do lado de Judd, com um revólver na mão.

- Saia, Doutor.

Judd saltou do carro vagarosamente, seguido por DeMarco. Um tremendo barulho e um vento forte os receberam. Ali perto, a uns dez metros de distância, passava um cano enorme, cheio de ar comprimido, que com um barulho enorme sugava tudo o que se aproximasse de sua boca sequiosa.

- Este é um dos maiores sistemas de transportes canalizados do país - gabou-se DeMarco, falando alto para ser ouvido acima do barulho. - Gostaria de ver como funciona.

Judd fitou-o, incrédulo. DeMarco estava novamente representando o papel de anfitrião. Não, ele não estava representando-o. Falava sério. O que era mais terrível ainda. DeMarco estava prestes a assassinar Judd. Seria uma rotina do negócio, algo de que teria de se livrar, assim como uma peça inútil de equipamento. Antes, porém, ele queria impressionar Judd.

- Vamos, Doutor. É bem interessante.

Aproximando-se do cano transportador, com Angeli na frente, DeMarco e Judd Lado a lado

, Vaccaro na retaguarda.

- Esta fábrica proporciona um lucro anual de cinco milhões de dólares. - disse DeMarco, orgulhosamente. - E toda a operação é automática.

O ruído foi aumentando à medida que chegaram mais perto, até tornar-se insuportável. A cem metros da entrada da câmara de vácuo havia uma grande corrente transportadora, que levava troncos gigantescos até uma máquina de aplainar, com seis metros de comprimento por dois de altura, equipada com meia dúzia de lâminas afiadas. Os troncos aplainados eram então conduzidos para uma máquina que parecia um porco-espinho, com lâminas afiadíssimas. O ar estava cheio de serragem e chuva, sendo tudo sugado pelo cano transportador.

- Não importa quão grandes os troncos sejam - disse DeMarco, sem esconder o orgulho que sentia. - As máquinas reduzem-nos para caberem no cano transportador, que tem 36 polegadas.

DeMarco tirou do bolso um Colt 38, de cano curto, e gritou:

- Angeli! Angeli virou-se.

- Faça uma boa viagem para a Flórida.

DeMarco apertou o gatilho e um buraco vermelho surgiu no peito de Angeli, que olhou para ele com um meio sorriso perplexo no rosto, como se estivesse esperando a resposta a uma charada que acabara de ouvir. DeMarco apertou o gatilho novamente e Angeli caio no chão. DeMarco fez um gesto de cabeça para Rocky Vaccaro. O grandalhão levantou o corpo de Angeli e levou-o na direção do cano transportador.

DeMarco virou-se então para Judd.

- Angeli era um estúpido. Todos os tiras do país estão à procura dele. Se o encontrassem, ele acabaria por me denunciar.

O assassinato a sangue-frio de Angeli foi chocante, mas o que se seguiu foi ainda pior. Judd ficou observando, horrorizado, enquanto Vaccaro carregava o corpo de Angeli para a boca do gigantesco cano transportador. A tremenda pressão sugou o corpo de Angeli. Vaccaro teve que segurar-se a uma alça do cano para não ser sugado também pelo mortal ciclone de ar. Judd teve uma última visão do corpo de Angeli, girando no sorvedouro, no meio da serragem de troncos. E logo desapareceu. Vaccaro segurou uma válvula junto à boca do cano transportador e girou-a. Uma tampa de metal se estendeu sobre a boca do cano, isolando o ciclone de ar. O súbito silêncio era ensurdecedor.

DeMarco virou-se para Judd e levantou a arma. Havia uma expressão exaltada e mística em seu rosto. Judd compreendeu que o assassinato era quase uma experiência religiosa para ele. Era um cadinho purificador. Judd sabia que chegara o momento da sua morte. Não sentia medo por si mesmo, mas estava dominado por uma raiva intensa, revolta pelo fato de que aquele homem continuaria a viver, para assassinar Anne, para destruir outras pessoas decentes e inocentes. Ele ouviu um grunhido, um gemido de raiva e frustração, só depois se apercebeu que estava saindo dos seus lábios. Era como um animal encurralado, obcecado pelo desejo de matar o seu algoz.

DeMarco estava sorrindo, lendo os pensamentos de Judd.

- Vou dar o tiro na virilha, Doutor. Vai demorar mais um pouco a morrer, mas assim terá tempo para pensar no que vai acontecer a Anne.

Havia uma esperança. Uma esperança muito tênue.

- Alguém precisa mesmo preocupar-se com ela - disse Judd. - A pobre coitada nunca teve um homem em toda a sua vida.

DeMarco assumira uma expressão aturdida. Judd estava gritando agora, para que DeMarco não deixasse de ouvi-lo.

- Sabe o que é seu membro? É esse revólver que está em sua mão. Sem uma faca ou revólver, você não passa de um palhaço.

O rosto de DeMarco foi-se lentamente enchendo de raiva.

- Você não tem colhões, DeMarco. Sem um revólver, você não passa de um palhaço.

Os olhos de DeMarco estavam ficando vermelhos, no aviso da morte. Vaccaro deu um passo para a frente. DeMarco fez-lhe um sinal para que recuasse.

- Vou matá-lo com minhas próprias mãos, sem nenhuma arma - disse DeMarco, jogando o revólver No chão. - Com minhas mãos nuas!

Lentamente, como um animal de força excepcional, ele começou a avançar para Judd. Judd recuou. Sabia que não tinha a menor possibilidade de vencer DeMarco, fisicamente. Sua única esperança era continuar a trabalhar a mente doentia de DeMarco, deixando-a incapaz de funcionar.

Tinha que continuar a atacar DeMarco no seu ponto mais vulnerável: o orgulho que ele sentia por sua virilidade.

- Você é um homossexual, DeMarco!

DeMarco riu e arremessou-se contra Judd, que conseguiu desviar-se. Vaccaro pegou o revólver no chão.

- Deixe-me acabar com ele, chefe!

- Fique fora disso! - rugiu DeMarco.

Os dois homens começaram a dar voltas, procurando a melhor posição. O pé de Judd escorregou num monte de serragem encharcada e DeMarco então atacou-o, como um touro. O seu punho gigantesco acertou Judd no canto da boca, jogando-o para trás. Mas Judd conseguiu recuperar-se e desferiu um soco contra DeMarco, atingindo-o no rosto. DeMarco recuou, depois lançou-se para a frente, os dois punhos se chocaram no estômago de Judd. Judd perdeu o fôlego.

Tentou falar, para escarnecer de DeMarco, mas estava ofegante, em busca de ar. DeMarco estava parado à sua frente, como um gigantesco pássaro predador.

- Está sem fôlego, Doutor? Ele soltou uma risada.

- Já fui lutador de boxe. Vou-lhe dar algumas lições. Vou-me concentrar nos seus rins e depois na cabeça e nos olhos. Vou arrancar-lhe os olhos, Doutor. Antes que eu termine, vai implorar para que o mate com um tiro.

Judd acreditou nele. A luz sobrenatural que se irradiava do céu nublado, DeMarco parecia um animal enfurecido. Ele avançou para Judd novamente e desferiu-lhe um soco no rosto, abrindo uma ferida na face com um anel de camafeu. Ele golpeou DeMarco, acertando-lhe o rosto com os dois punhos, DeMarco nem recuou.

DeMarco começou a dar socos nos rins de Judd, os punhos parecendo pistões. Judd conseguiu desvencilhar-se, o corpo parecendo um oceano de dor.

- Está ficando cansado, não é, Doutor?

DeMarco começou novamente a se aproximar. Judd sabia que seu corpo não poderia agüentar um castigo mais intenso. Tinha que continuar a falar. Era a sua única chance.

- DeMarco...

Ele ofegou. DeMarco deu um soco em falso e Judd atacou-o. DeMarco abaixou-se, riu e bateu com o punho no meio das pernas de Judd. Judd desabou no chão, sentindo uma agonia incrível. DeMarco imediatamente montou em cima dele, as mãos apertando-lhe a garganta.

- Com minhas mãos nuas! - gritou DeMarco. - Vou arrancar-lhe os olhos com as minhas mãos!

E arremessou os punhos gigantescos contra os olhos de Judd.

Eles estavam passando por Bedminster, seguindo para o sul, pela Rodovia 206, quando veio o chamado pelo rádio:

- Código três... Código três... Todos os carros de prontidão... Unidade 27 de Nova York... Unidade 27 de Nova York...

McGreavy segurou o microfone.

- Unidade 27 de Nova York... Pode falar!

A voz excitada do Capitão Bertelli soou pelo rádio:

- Já descobrimos tudo, Mac. Há um cano transportador em Nova Jersey, a três quilômetros de Milstone. Pertence à Five Star Corporation, a mesma proprietária do frigorífico em que foi encontrado o corpo de Moody. É uma das fachadas de que Tony DeMarco se utiliza.

- Deve ser isso mesmo - disse McGreavy. - Já estamos no caminho.

- Estão muito longe de lá?

- A uns quinze quilômetros.

- Boa Sorte.

- Obrigado.

McGreavy desligou o rádio e acionou a sirene, pisando no acelerador até o fim.

O céu estava rodopiando em círculos úmidos e algo batia nele, dilacerando-lhe o corpo. Judd tentou ver o que era, mas os olhos estavam tão inchados que não conseguiu abri-los. Um punho se abateu contra as suas costas e ele sentiu a dor angustiante de ossos que se quebravam. Podia sentir a respiração quente de DeMarco em seu rosto, rápida e excitada. Tentou vê-lo, mas estava encarcerado na escuridão. Abriu a boca e forçou as palavras a passarem pela língua áspera e inchada:

- Está... vendo... Era o que... eu dizia... Só pode... bater... num homem... quando... ele está... caído...

A respiração em seu rosto cessou. Judd sentiu duas mãos agarrarem-no e levantarem-no.

- Já é um homem morto, Doutor. E eu o liquidarei com as minhas próprias mãos, desarmado. Judd recuou para longe da voz.

- Você é... um... animal... Um psicopata... devia ser... trancafiado... num hospício... A voz de DeMarco estava enrolada pela raiva:

- Você é um mentiroso!

- É... a verdade... - disse Judd, continuando a recuar. - Seu... seu cérebro está... doente... Sua mente... vai desmoronar... e será... como um bebê idiota...

Judd continuou a recuar, incapaz de ver onde estava indo. Por trás ele ouviu o zumbido fraco do cano transportador fechado, esperando como um gigante adormecido.

DeMarco arremessou-se novamente para Judd, agarrando-lhe a garganta.

- Eu vou-lhe quebrar o pescoço!

Os dedos enormes se fecharam sobre a traquéia de Judd, apertando-a.

Judd sentiu a cabeça começar a flutuar. Era sua última oportunidade. Todos os seus instintos lhe diziam que agarrasse as mãos de DeMarco e as afastasse para longe de sua garganta, a fim de poder respirar. Em vez disso, porém, num último esforço, ele estendeu as mãos para trás, à procura da válvula do cano transportador. Sentiu que estava começando a desmaiar e foi nesse momento que suas mãos encontraram a válvula. Com uma erupção final e desesperada de energia, ele abriu a válvula e girou o corpo, de modo que DeMarco ficasse mais próximo da abertura. Um tremendo vácuo de ar envolveu-os subitamente, procurando sugá-los para o interior do aparelho. Judd agarrou-se freneticamente à válvula, com as duas mãos, resistindo à fúria ciclônica do vento. Sentiu os dedos de DeMarco se enterrarem em sua garganta, no instante em que ele começava a ser sugado para o cano. DeMarco poderia salvar-se. Mas, em sua fúria insana, ele recusava-se a largar Judd.

Judd não podia ver-lhe o rosto, mas a voz dele era o grito irado de um animal enlouquecido, as palavras se perdendo no rugido do vento.

Os dedos de Judd começaram a escorregar da válvula. Ele ia ser sugado também para o cano, juntamente com DeMarco. Murmurou mentalmente uma última prece e nesse instante sentiu as mãos de DeMarco largarem a sua garganta. Judd ouviu um grito estridente, que ecoou por um momento.

Depois ouviu apenas o rugido do vento. DeMarco desaparecera.

Judd ficou parado ali, num cansaço mural, incapaz de mover-se, à espera do tiro de Vaccaro. Um momento depois veio a expulsão do tiro.

Judd continuou parado no mesmo lugar, sem compreender porque Vaccaro errara. Através da neblina de dor ele ouviu mais tiros e o barulho de pés correndo. Em seguida gritaram o seu nome.

E então alguém passou um braço pelo seu corpo enquanto a voz de McGreavy dizia:

- Santa Mãe de Deus! Olhem só os olhos dele!

Mãos fortes agarraram-lhe o braço e puxaram-no para longe do ruído pavoroso do cano.

Algo úmido escorria-lhe pelo rosto e Judd não sabia o que era, se sangue, chuva ou lágrimas. O que afinal não importava.

Estava tudo acabado.

Ele se esforçou por abrir um olho inchado. Pela fenda estreita e ensangüentada conseguiu divisar McGreavy.

- Anne está na casa - balbuciou Judd. - A esposa de DeMarco. Temos que tirá-la de lá. McGreavy fitava-o com uma expressão estranha, sem se mexer. Judd compreendeu que não conseguira emitir as palavras. Levantou a boca até o ouvido de McGreavy e falou lentamente, a voz débil, vacilante:

- Anne DeMarco... Ela está... na casa... Ajude...

McGreavy foi até o carro, pegou o microfone do rádio e transmitiu as instruções necessárias. Judd continuou parado ali, cambaleando, ainda sendo jogado para a frente e para trás pela recordação dos socos de DeMarco, deixando que a chuva e o vento lhe castigassem ainda mais o corpo. Viu à sua frente um corpo estendido no chão e compreendeu que se tratava de Rock Vaccaro.

"Nós vencemos", pensou ele. "Nós vencemos"! Ele continuou a repetir a frase em sua mente, sem parar. Mesmo sabendo que a frase não tinha o menor sentido. Que espécie de vitória fora aquela?

Ele sempre pensara em si mesmo com um ser humano decente e civilizado, um médico, um homem que dedicava a vida a curar os outros. Mas se transformara num animal selvagem, dominado pela ânsia de matar. Levara um homem doente à beira da insanidade e depois o assassinara. Era um fardo terrível que teria que carregar pelo resto da vida. Porque, muito embora pudesse justificar-se alegando que fora em legítima defesa, ele sabia - e que Deus o ajudasse! - que gostara de fazê-lo. E por isso jamais poderia perdoar-se. Ele não era melhor do que DeMarco ou os irmãos Vaccaro ou qualquer um dos outros. A civilização era uma camada fina e perigosamente frágil. Quando essa camada se rompia, o homem tornava-se novamente igual às bestas selvagens, resvalando de volta ao lodo dos abismos primitivos, dos quais ele se orgulhava de ter saído para sempre.

Judd estava cansado de mais para continuar a pensar nisso. Agora queria apenas certificar-se de que Anne estava em segurança. McGreavy estava parado ao seu lado, numa atitude estranhamente gentil.

- Há um carro da polícia a caminho da casa dela, Dr. Stevens. Certo? Judd assentiu, agradecido.

McGreavy segurou-lhe o braço e levou-o até um carro. Ao avançar lenta e dolorosamente pelo pátio. Judd percebeu que parara de chover. No horizonte distante as nuvens de trovoadas haviam sido varridas pelo vento forte de dezembro e o céu começava a clarear. A oeste, um pequeno raio de luz apareceu. Era o sol, lutando por atravessar a camada de nuvens, com o seu brilho tornando-se cada vez mais intenso.

Ia ser um Natal Maravilhoso.

 

FIM

Você terminou A Outra Face

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