A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 22 de 23

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A Outra Face

Capítulo 22 · Anthony DeMarco tinha mana.

 

Judd pôde sentir a força intensa da personalidade dele do outro lado da sala, emanando em ondas quase tangíveis. Anne não exagerara ao dizer que o marido era bonito.

DeMarco possuía um rosto romano clássico, com um perfil impecável, olhos negros como carvão, algumas mechas grisalhas nos cabelos pretos. Tinha quarenta e poucos anos, era alto e atlético, movia-se com uma agilidade animal algo irrequieta. A voz era grave e magnética:

- Aceita um drinque, Doutor?

Judd sacudiu a cabeça, fascinado pelo homem que estava à sua frente. Qualquer um seria capaz de jurar que DeMarco era um homem encantador, inteiramente normal, um anfitrião perfeito a receber um hóspede distinto.

Havia cinco homens na biblioteca revestida de painéis de madeira: Judd, DeMarco, o detetive Angeli e os dois homens que haviam tentado matar Judd em seu apartamento, Rocky e Nick Vaccro.

Os outros quatro formavam um círculo ao redor de Judd. Ele fitava os rostos de seus inimigos e sentia nisso uma estranha satisfação. Finalmente sabia contra quem estava lutando. Se é que "lutando" era a palavra certa. Ele caíra na armadilha de Angeli. Pior que isso. Ele próprio telefonara para Angeli e convidara-o a ir agarrá-lo! Angeli, o Judas que trouxera até ali para ser liquidado!

DeMarco examinou com profundo interesse os olhos negros especulativos.

- Já ouvi falar muito a seu respeito - disse ele finalmente. Judd ficou calado.

- Perdoe-me por tê-lo trazido até aqui dessa maneira, mas era necessário para que eu pudesse fazer-lhe algumas perguntas.

Ele sorriu, numa expressão de desculpa, irradiando simpatia. Judd sabia o que ia acontecer.

- O que andou conversando com a minha esposa, Dr. Stevens? Judd imprimiu um tom de surpresa à sua voz:

- Sua esposa? Não conheço sua esposa.

DeMarco sacudiu a cabeça, num gesto de repreensão.

- Ela tem ido ao seu consultório duas vezes por semana, nas últimas três semanas. Judd franziu o rosto, pensativo.

- Não tenho nenhuma paciente chamada DeMarco... DeMarco assentiu, com uma expressão compreensiva.

- Talvez ela tenha usado outro nome. Possivelmente o seu nome de solteira, Blake, Anne Blake.

Judd cuidadosamente manifestou sua surpresa:

- Anne Blake?

Os dois irmãos Vaccaro chegaram-se mais perto dele.

- Não! - disse DeMarco rispidamente.

Ele virou-se para Judd. A atitude afável desaparecera por completo.

- Doutor, se quiser brincar comigo, vou-lhe fazer coisas que jamais poderia acreditar. Judd fitou-o atentamente aqueles olhos pretos e acreditou no mesmo instante. Sabia agora que sua vida estava suspensa por um fio. Imprimiu um tom de indignação.

- Pode fazer o que bem lhe aprouver. Mas o fato é que até este momento eu não tinha a menor idéia de que Anne Blake era sua esposa.

- Talvez seja verdade - disse Angeli. - Ele... DeMarco ignorou Angeli inteiramente.

- O que conversou com a minha esposa durante as últimas três semanas?

Eles haviam chegado ao momento da verdade. No momento em que Judd vira o galo de bronze no telhado, os últimos pedaços do quebra-cabeças se haviam ajustado em seus lugares. Anne não participara da conspiração para assassiná-lo. Assim como ele, Anne também era uma vítima.

Casara-se com Anthony DeMarco, próspero proprietário de uma empresa de construções, sem ter a menor idéia de quem ele realmente era. Depois devia ter acontecido alguma coisa que a levara a desconfiar de que o marido não era exatamente o que parecia, que estava envolvido em algo sombrio e terrível. Sem ninguém com quem falar, ela procurara a ajuda de um analista, um estranho, a quem pudesse fazer confidências. Mas a lealdade básica que sentia para com o marido impedira-a de discutir as suas apreensões no consultório de Judd.

- Não falamos sobre muita coisa - disse Judd calmamente. - Sua esposa recusou-se a dizer qual era o problema dela.

- Terá que contar uma história bem melhor do que essa, Doutor.

DeMarco devia ter sentido um imenso pânico ao saber que a esposa estava consultando um psicanalista - a esposa de um dos líderes da Cosa Nostra! Não era de admirar que DeMarco tivesse assassinado, procurando apoderar-se da ficha de Anne.

- Tudo o que ela me disse foi que se sentia infeliz por causa de alguma coisa, mas recusou-se a dizer o que era.

- Para isso é preciso apenas dez segundos - disse DeMarco. - Tenho um registro de todos os minutos que ela passou em seu consultório. O que lhe disse pelo resto das três semanas? Deve ter-lhe contado quem eu sou.- Ela disse que era dono de uma empresa de construções.

DeMarco examinou-o, com uma expressão fria. Judd sentiu gotas de suor formarem-se em sua testa.

- Estive lendo algumas coisas sobre análise, Doutor. O paciente fala tudo o que lhe vem à cabeça.

- Isso faz parte da terapia - explicou Judd, em tom indiferente. - Foi por isso que não consegui chegar a conclusão alguma com a Sra. Blake... com a Sra. DeMarco. Eu tencionava dispensá-la como paciente.

- Mas não o fez.

- Não houve necessidade. Na sexta-feira ela me disse que estava de partida para a Europa.

- Anne mudou de idéia. Não quer mais ir para a Europa comigo. E sabe por quê? Judd estava genuinamente surpreso.

- Não.

- Por sua causa, Doutor.

O coração de Judd deu um pulo. Ao falar, ele procurou cuidadosamente não demonstrar a menor emoção na voz:

- Não estou entendendo.

- Claro que entende. Anne e eu tivemos uma longa conversa ontem à noite. Ela está achando que o nosso casamento foi um erro, porque pensa que está apaixonada pelo senhor, Doutor. DeMarco falava num sussurro quase hipnótico.

- Quero que me diga o que aconteceu entre os dois quando estavam a sós em seu consultório, com ela estendida no divã.

Judd procurou controlar as emoções que o invadiam. Então Anne se importava com ele! Mas de que adiantava isso para qualquer um dos dois! DeMarco fitava-o, esperando uma resposta.

- Nada aconteceu. Se andou lendo sobre análise, deve saber que toda paciente passa por uma transferência emocional. Todas elas pensam, em uma ou outra ocasião, que estão apaixonadas pelo seu médico. Mas é apenas uma fase passageira.

DeMarco observava-o atentamente, os olhos negros sondando os olhos de Judd.

- Como soube que ela estava-se consultando comigo? - indagou Judd, procurando fazer com que a pergunta soasse natural.

DeMarco olhou para Judd por um momento, depois foi até uma escrivaninha e pegou uma adaga afiada.

- Um dos meus homens viu-a entrando no seu edifício. Há ali uma porção de escritórios de pediatras e ele pensou que Anne estava reservando-me uma pequena surpresa. Seguiu-a e viu que ela entrou em seu consultório.

Ele virou-se para Judd.

- E foi de fato uma surpresa. Anne estava indo a um psiquiatra. A esposa de Anthony DeMarco contando todos os meus segredos profissionais a um "espreme-crânios"!

- Eu já lhe disse que ela não...

A voz de DeMarco era suave, impedindo Judd de continuar:

- A Cammissione realizou uma reunião. Votaram para que eu a matasse, como matamos a todos os traidores.

Ele estava agora andando de um lado para o outro, fazendo Judd pensar num animal enjaulado.

- Mas eles não me puderam dar ordens como se eu fosse um soldado camponês. Sou Anthony DeMarco, um Capo. Prometi-lhes que mataria o homem com quem Anne falara, se ela por acaso tivesse abordado os nossos negócios. Com estas duas mãos.

Ele ergueu as mãos, uma delas segurando-a adaga afiada.

- E o senhor é esse homem, Doutor.

DeMarco estava agora circulando-o enquanto falava. Cada vez que ele ficava às suas costas, Judd preparava-se para receber o golpe.

- Está cometendo um erro, se...

Judd não pôde continuar, interrompido por DeMarco:

- Como ela pôde pensar que o senhor é um homem melhor do que eu? Os irmãos Vaccaro soltaram uma risada.

- O senhor é absolutamente nada, Doutor. Não passa de um pobre coitado que se mete num escritório todos os dias e ganha... o quê? Trinta mil dólares por ano? Cinqüenta mil? Cem mil? Eu ganho mais do que isso numa semana.

A máscara de DeMarco estava escorrendo mais depressa agora, removida pela expressão das suas emoções. Ele estava começando a falar em explosões curtas e excitadas, as feições bonitas se distorceram. Anne vira-lhe apenas a fachada. Judd estava agora olhando para a face nua de um maníaco homicida.

- Você e a pequena putana treparam naquele maldito consultório!

- Nós não fizemos coisa alguma.

Os olhos de DeMarco pareciam arder em delírio.

- Ela nada significa para você?

- Eu já lhe disse que ela não passa de uma paciente.

- Está bem - disse DeMarco finalmente. - Irá dizer isso a ela.

- Dizer o quê?

- Que não dá a menor importância a ela. Vou mandá-la descer. E quero que fale com ela a sós.

O pulso de Judd disparou. Ele teria uma chance de salvar a si mesmo e a Anne. DeMarco estalou os dedos e os outros homens saíram da biblioteca. Ele virou-se em seguida para Judd. Os olhos negros estavam ocultos. Ele sorriu gentilmente, a máscara novamente no lugar.

- Desde que não saiba de nada. Anne viverá. Mas terá que convencê-la a ir comigo para a Europa.

Judd sentiu a boca subitamente seca. Havia um brilho triunfante nos olhos de DeMarco. Judd sabia o motivo. Ele subestimara o seu oponente.

Fatalmente.

DeMarco não era um jogador de xadrez, mas era esperto o bastante para saber que tinha um peäo que tornava Judd impotente, Anne. Qualquer que fosse o movimento de Judd, ela estaria em perigo. Se Judd a mandasse para a Europa com DeMarco, mesmo assim a vida de Anne continuaria em perigo. Ele não acreditava que DeMarco fosse deixar que ela vivesse. A Cosa Nostra não o permitiria. DeMarco providenciaria um "acidente" na Europa. E se Judd dissesse a Anne para não ir, se ela descobrisse o que lhe estava acontecendo e tentasse interferir, então morreria naquele instante. Não havia escapatória. A opção era entre duas armadilhas fatais.

Da janela do seu quarto, no segundo andar, Anne observara a chegada de Judd e Angeli. Por um momento de exultação ela pensara que Judd tinha vindo buscá-la, salvá-la da terrível situação em que se encontrava. Mas depois ela vira Angeli sacar um revólver e obrigar Judd a entrar na casa.

Há quarenta e oito horas que ela sabia de toda a verdade a respeito do marido. Antes disso tivera apenas uma suspeita vaga, tão inacreditável que procurava esquecer. Tudo começara alguns meses antes, quando ela fora assistir a uma peça em Manhattam e voltara para casa inesperadamente mais cedo, porque a estrela estava embriagada e a cortina se fechara definitivamente no meio do segundo ato. Anthony dissera-lhe que ia realizar uma reunião de negócios em casa, mas que estaria terminada antes que ela voltasse. Mas quando Anne chegara, mais cedo do que o previsto, a reunião ainda prosseguia. E antes que seu surpreso marido tivesse tempo de fechar a porta da biblioteca, ela ouvira alguém gritar furiosamente:

- Meu voto é para explodirmos a fábrica esta noite e darmos um jeito naqueles filhos da puta de uma vez por todas!

Anne ficara extremamente nervosa com a frase, a aparência rude dos estranhos que estavam na biblioteca e a agitação de Anthony ao vê-la. Deixara-se convencer pelas explicações alongadas do marido, porque queria desesperadamente ser convencida. Nos seis meses de casamento ele sempre se mostrara um esposo terno e cheio de atenções. Ela vira-o algumas vezes explodir violentamente, mas Anthony sempre conseguira controlar-se logo.

Algumas semanas depois do incidente do teatro, ela pegara um telefone por acaso e ouvira a voz de Anthony falando numa extensão:

- Vamos trazer um carregamento de Toronto esta noite. Terá que mandar alguém cuidar do guarda. Ele não está conosco.

Anne desligara prontamente, bastante abalada. "Trazer um carregamento"... "Cuidar do". guarda "... Aquilo parecia algo terrível, mas podia ser também frases inocentes no trato de negócios".

Cuidadosamente, como se estivesse indiferente, ela procurara interrogar Anthony a respeito dos negócios dele. Mas fora como subitamente se levantasse uma barreira de aço. Ela vira-se diante de um estranho furioso, que lhe disse que cuidasse tão-somente da casa e não se metesse nos seus negócios. Haviam discutido em termos amargos. Na noite seguinte Anthony lhe dera um colar extremamente caro e lhe pedira desculpas ternamente.

Um mês depois, ocorrera o terceiro incidente. Anne acordara as quatro da manhã, com uma batida de uma porta. Vestira um roupão e descera para investigar. Ouvira vozes na biblioteca, discutindo acaloradamente. Fora até lá, mas parara ao ver Anthony conversando com meia dúzia de estranhos. Temendo que ele se zangasse por ser interrompido, ela voltara em silêncio para seu quarto e se deitara. Ao café, na manhã seguinte, ela perguntara como ele dormira.

- Maravilhosamente. Fechei os olhos às dez horas e só voltei a abri-los hoje de manhã.

Anne compreendera então que estava com um problema. Não sabia que tipo de problema era, nem qual a sua gravidade. Só sabia que o marido lhe mentira, por motivos que ela não podia imaginar. Em que espécie de negócios ele estaria envolvido que eram tratados na calada da madrugada, em segredo, com homens que mais pareciam bandidos? Anne sentira medo de abordar novamente o assunto com Anthony. O pânico começara a crescer dentro dela. Não havia mais ninguém com quem pudesse falar.

Algumas noites depois disso, num jantar no Country Club do qual eram sócios, alguém mencionara um psicanalista chamado Judd Stevens, dizendo que se tratava de um profissional excelente.

- Ele é uma espécie de analista entre os analistas, se entendem o que quero dizer. E é incrivelmente bonito, embora isso não tenha qualquer efeito prático... pois ele é um desses tipos cem por cento dedicados à profissão.

Anne guardara cuidadosamente o nome e na semana seguinte fora procurá-lo.

A primeira sessão com Judd virara a sua vida de cabeça para baixo. Era se vira atraída a um turbilhão emocional que a deixara profundamente abalada. Em sua confusão, mal conseguira falar com Judd na primeira sessão. Ao partir, sentia-se como uma colegial tola e prometera a si mesma que nunca mais voltaria. Mas ela voltara, para provar a si mesma que a reação que tivera fora puramente acidental. Mas na segunda vez a reação fora ainda mais forte. Ela sempre se orgulhara de ser sensata e realista, mas naquele momento vira-se agindo como uma garota de dezessete anos, apaixonada pela primeira vez. Não fora capaz de discutir o problema do marido com Judd e por isso haviam conversado a respeito de outras coisas. Depois de cada sessão, Anne descobrira que estava mais apaixonada ainda por aquele estranho sensível e afetuoso.

Ela sabia que não havia qualquer esperança, pois jamais se divorciaria de Anthony. Sentira que devia ter algum defeito terrível, para casar-se com um homem e seis meses depois, apaixonar-se por outro. Concluíra então que seria melhor nunca mais voltar a ver Judd.

E então uma série de coisas estranhas começara a acontecer. Carol Roberts fora assassinada e Judd atropelado em circunstâncias misteriosas. Ela lera nos jornais que Judd estava presente quando tinham encontrado o corpo de Moody na Five Star. Ela já vira o nome daquela companhia.

No cabeçalho de uma fatura na mesa de Anthony.

Uma suspeita terrível começara a se formar na mente de Anne.

Parecia incrível que Anthony pudesse estar envolvido nas coisas terríveis que vinham acontecendo. No entanto... Anne sentira-se como que aprisionada num pavoroso pesadelo, do qual não tinha escapatória. Não podia falar sobre as suas apreensões com Judd e tinha medo de fazê-lo com Anthony. Ela dissera a si mesmo que suas suspeitas eram infundadas. Anthony nem mesmo sabia da existência de Judd.

E então, quarenta e oito horas atrás, Anthony entrara no quarto dela e começara a interrogá-la sobre suas visitas a Judd. A primeira reação de Anne fora de raiva ao saber que ele andara a espioná-la, mas fora rapidamente substituída por todas as apreensões que se vinham acumulando dentro dela. Ao fitar o rosto furioso e contorcido do marido, ela compreendera que ele era capaz de tudo.

Até mesmo de assassinar alguém.

Durante o interrogatório, ela cometera um tremendo erro. Deixara-o saber o que sentia por Judd. Os olhos de Anthony haviam ficado ainda mais negros e ela sacudira a cabeça, como que se esquivando de um golpe físico.

Só depois que ficara sozinha é que Anne compreendera o perigo que Judd estaria correndo. Não poderia deixá-lo, de jeito nenhum. Dissera então a Anthony que não iria para a Europa com ele.

E agora Judd estava ali, naquela casa. A vida dele estava em perigo, por causa dela. A porta do quarto se abriu e Anthony entrou. Ficou imóvel por um longo momento, contemplando-a, antes de dizer:

- Você tem uma visita.

Ela entrou na biblioteca usando uma saia amarela e blusa da mesma cor, com os cabelos soltos pelos ombros. O rosto estava pálido e parecia cansado, mas ela aparentava uma certa serenidade. Judd estava sozinho a esperá-la.

- Olá, Dr. Stevens. Anthony disse-me que o senhor estava aqui.

Judd teve a sensação de que estavam representando uma charada, em benefício de uma audiência invisível e fatal. Intuitivamente ele percebeu que Anne estava a par da situação e punha-se nas mãos dele, disposta a seguir qualquer deixa que ele insinuasse.

E não havia nada que Judd pudesse fazer, exceto tentar mantê-la viva por mais algum tempo. Se Anne se recusasse a ir para a Europa, DeMarco certamente a mataria ali mesmo.

Judd hesitou, escolhendo suas palavras cuidadosamente. Cada palavra poderia ser tão perigosa quanto a bomba plantada em seu carro.

- Sra. DeMarco, seu marido está aborrecido porque a senhora mudou de idéia e não mais quer ir para a Europa com ele.

Anne esperou, ouvindo, avaliando.

- Sinto muito - disse ela.

- Acho que deveria ir - disse Judd, alteando a voz.

Anne examinava atentamente o rosto dele, lendo-lhe os olhos.

- E se eu recusar? E se eu não quiser ir de jeito nenhum? Judd foi dominado por um súbito alarme.

- Não deve fazer isso.

Ela jamais sairia viva daquela casa se ela tomasse tal decisão.

- Sra. DeMarco, seu marido está com a impressão errada de que a senhora se apaixonou por mim.

Ela entreabriu os lábios para falar, mas Judd continuou rapidamente:

- Expliquei-lhe que se trata de uma parte normal da análise, uma transferência emocional que ocorre com todas as pacientes.

Anne pegou a deixa.

- Sei disso. Infelizmente, antes de mais nada, cometi uma tolice de ir procurá-lo. Eu deveria ter tentado resolver o meu problema sozinha.

Os olhos dela disseram-lhe que falava sinceramente, que lamentara o perigo a que o expusera.

- Estive pensando no assunto. Talvez umas férias na Europa fossem a melhor coisa para mim neste momento.

Judd deixou escapar um pequeno suspiro de alívio. Ela compreendera.

Mas ele não tinha condições de alertá-la para o perigo real a que ainda estava exposta. Ou será que ela sabia? E mesmo que soubesse, será que poderia fazer alguma coisa? Ele olhou além de Anne para a janela da biblioteca, pela qual se podia ver árvores formosas à distância. Ela dissera que costumava passear pelos bosques. Era bem possível que conhecesse um caminho para sair dali. Se eles conseguissem chegar à proteção dos bosques... Judd murmurou então:

- Anne...

- Já acabaram a conversinha?

Judd virou-se bruscamente. DeMarco entrara silenciosamente na biblioteca. Atrás dele estavam Angeli e os irmãos Vaccaro. Anne virou-se para o marido:

- O Dr. Stevens acha que devo ir para a Europa com você. Vou aceitar o conselho dele. DeMarco sorriu e olhou para Judd.

- Sabia que podia contar com o senhor.

Ele irradiava simpatia, demonstrando a satisfação expansiva de quem acabara de obter uma vitória total. Era como se a incrível energia que fluía através de DeMarco pudesse ser convertida à vontade, passando instantaneamente da expressão do mal para um encanto irresistível. Não era de admirar que Anne se tivesse apaixonado por ele. Naquele instante, o próprio Judd achava difícil acreditar que aquele Adônis gracioso e jovial fosse um assassino psicopata, capaz de matar a sangue-frio.

DeMarco virou-se para Anne.

- Vamos partir amanhã de manhã, querida. Por que não sobe para o seu quarto e começa a arrumar as coisas que vai levar?

Anne hesitou. Não queria deixar Judd sozinho com aqueles homens.

- Eu...

Ela olhou para Judd, desesperada. Ela assentiu, imperceptivelmente.

- Está certo - disse Anne, estendendo a mão para Judd. - Adeus, Dr. Stevens. Judd apertou-lhe a mão.

- Adeus.

Desta vez era adeus mesmo. Não havia qualquer saída. Judd observou-a virar-se, acenar com a cabeça para os outros e sair da sala. DeMarco ficou a contemplá-la enquanto se afastava.

- Ela não é linda?

Havia uma expressão estranha no rosto dele. Amor, posse... e algo mais. Arrependimento? Pelo que estava prestes a fazer a Anne?

- Ela não sabe absolutamente nada - disse Judd. - Por que não a deixa fora disso?

Judd viu então a transformação de DeMarco, que foi quase física. A simpatia desaparecera e o ódio começou a preencher a sala, numa corrente que fluía de DeMarco para Judd, sem tocar em mais ninguém. Havia agora uma expressão de êxtase, quase um orgasmo, no rosto de DeMarco.

- Vamos indo, Doutor.

Judd olhou ao redor, avaliando as suas possibilidades de escapar. DeMarco certamente preferiria não matá-lo em sua própria casa. tinha que ser agora ou nunca. Os irmãos Vaccaro vigiavam-no, esperando um só movimento em falso. Angeli estava perto da janela, com a mão no cabo do revólver no coldre.

- Eu não tentaria - disse DeMarco suavemente. - Já é um homem morto... mas vamos deixar que isso se concretize à minha maneira.

Ele empurrou Judd na direção da porta. Os outros se aproximaram e seguiram todos para o vestíbulo.

Anne subiu a escada e ficou esperando no patamar, observando o vestíbulo lá embaixo. Recuou, ficando fora do campo de visão, ao ver Judd e os outros encaminhando-se para a porta da frente. Correu para o seu quarto e olhou pela janela. Os homens estavam empurrando Judd para dentro do carro de Angeli.

Anne rapidamente pegou o telefone e discou para a telefonista. Pareceu decorrer uma eternidade antes que ela atendesse.

- Telefonista, quero falar com a polícia. Depressa! É uma emergência!

Uma mão de homem surgiu na frente dela e apertou o gancho do telefone. Anne deixou escapar um grito e virou-se. Nick Vaccaro estava parado ao seu lado, sorrindo.