A Outra Face

Sidney Sheldon · Capítulo 14 de 23

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A Outra Face

Capítulo 14 · O pessoal da perícia terminou seu trabalho…

 

O pessoal da perícia terminou seu trabalho e se foi. O corpo de Moody foi removido e todos partiram, à exceção de Judd, McGreavy e Angeli. Estavam estes na pequena sala do gerente, decorada com uma coleção impressionante de calendários de nus, uma velha escrivaninha, uma cadeira giratória e dois arquivos de aço. As luzes estavam acesas e um aquecedor elétrico funcionava no máximo.

O gerente, um certo Paul Moretti, fora localizado numa festa pré-natalina e de lá arrancado para responder a algumas perguntas. Ele explicara que havia liberado os empregados ao meio- dia, já que a semana de feriados estava começando. Trancara tudo e, ao que sabia, não ficara ninguém no interior do armazém. O Sr. Moretti estava ligeiramente embriagado. Quando McGreavy compreendeu que ele não poderia ajudar em mais nada, mandou que o levassem para casa. Judd mal se apercebera do que acontecia. Seus pensamentos estavam concentrados em Moody. Lembrava-se de como ele fora jovial e cheio de vida e indignava-o o seu cruel assassinato. E Judd atribuía a culpa a si mesmo.

Se ele não houvesse envolvido Moody no caso, o gordo detetive ainda estaria vivo.

Era quase meia-noite. Judd, exausto, já repetira dez vezes a história do telefonema de Moody. McGreavy, encolhido dentro de seu sobretudo, fitava-o insistentemente, mastigando sem parar um charuto. Finalmente ele perguntou a Judd:

- Costuma ler histórias de detetives? Judd ficou surpreso

- Não. Por quê?

- Vou-lhe dizer. Acho que é bom demais para ser verdadeiro, Sr. Stevens. Acreditei, desde

o início, que o Senhor estava enterrado nesse assunto até o pescoço. E eu lhe disse isso. O que aconteceu, então? Subitamente transformou-se de assassino provável em possível vítima. Primeiro alega que um carro tentou atropelá-lo deliberadamente...

- E ele foi mesmo atropelado - recordou Angeli.

- Um recruta poderia facilitar explicar o que houve. Isso pode ter sido arrumado por alguém que esteja trabalhando com o nosso Doutor.

McGreavy voltou a dirigir-se a Judd:

- Em seguida telefona para o Detetive Angeli com uma história delirante sobre dois homens que estariam tentando arrombar seu consultório para matá-lo.- E arrombaram mesmo - disse Judd.

- Não, não arrombaram coisa alguma. Usaram uma chave especial. E o senhor disse que só existiam duas chaves: a sua e a de Carol Roberts.

- Exatamente. Mas eu já lhe expliquei que, provavelmente, eles tiraram uma cópia da chave de Carol.

- Eu me lembro perfeitamente do que explicou. Mandei fazer um teste de parafina. A chave de Carol nunca foi copiada, Doutor.

Ele fez uma pausa para deixar que a informação fosse absorvida.

- E como a chave dela está em meu poder... só resta a sua, não é mesmo, Doutor? Judd estava aturdido demais para falar.

- Como eu não aceitasse a teoria do maníaco à solta, Doutor, o senhor resolveu contratar um detetive particular pelas páginas amarelas e logo depois, convenientemente, ele descobre uma bomba instalada em seu carro. Chega então à conclusão de que já está na hora de jogar outro cadáver no meu caminho e conta a história a Angeli; uma história sobre um telefonema que recebeu de Moody.

Ele descobrira quem era o maluco que está tentando matá-lo. Mas veja o que acontece? Nós chegamos aqui e descobrimos que Moody está pendurado num gancho de carne!

Judd ficou vermelho de raiva.

- Mas não sou responsável pelo que aconteceu! McGreavy lançou-lhe um olhar duro.

- Sabe qual é a única razão de ainda não estar preso, Doutor? É não conseguir até agora encontrar um motivo para este quebra-cabeças. Mas encontrarei, Doutor. É uma promessa. Ele levantou-se. Subitamente Judd recordou-se de uma coisa:

- Espere um instante! E o que me diz de Don Vinton?

- O que há com ele?

- Moody disse-me que era o homem que estava por trás de tudo isso.

- Conhece alguém chamado Don Vinton, Doutor?

- Não. Mas... achei que a polícia deveria conhecer.

- Nunca ouvi falar nele!

McGreavy virou-se para Angeli, que sacudiu a cabeça negativamente.

- Muito bem. Mande um pedido de informação a respeito de Don Vinton para o FBI, Interpol e para os chefes de polícia das principais cidades americanas.

Ele virou-se em seguida para Judd:

- Satisfeito?

Judd assentiu. Quem quer que estivesse por trás de tudo aquilo, não poderia deixar de ter uma ficha criminal. Não deveria ser difícil identificá-lo.

Ele pensou novamente em Moody, seus aforismos de alegria e sua mente ágil. Deviam tê-lo seguido até ali. Era pouco provável que tivesse falado com outra pessoa a respeito do encontro, porque ressaltara insistentemente a necessidade de segredo. Mas, pelo menos, eles sabiam agora o nome do homem que estava procurando.

Praemonitus, praemunitas.

Um homem prevenido vale por dois.

O assassinato de Norman Z. Moody foi estampado nas primeiras páginas dos jornais da manhã seguinte. Judd comprou um jornal a caminho do consultório. Ele era mencionado, de passagem, como uma testemunha que estava junto com a polícia quando o corpo fora encontrado.

McGreavy conseguira manter os fatos completos fora do conhecimento da imprensa. Isso significava que estava jogando com as cartas coladas no peito. Judd ficou imaginando o que Anne iria pensar.

Era sábado, e Judd costumava fazer uma ronda na clínica. Mas ele providenciara para que alguém o substituísse. Foi para o consultório, subindo sozinho no elevador e certificando-se de que ninguém estava à espreita no corredor. Até quando uma pessoa poderia viver assim, à espera de que, a qualquer momento, um assassino o atacasse?

Por meia dúzia de vezes, durante a semana, ele estendeu a mão para pegar o telefone, pensando em ligar para Angeli e perguntar-lhe a respeito de Don Viton. Mas em todas as vezes conteve a sua impaciência. Angeli, certamente, iria telefonar-lhe assim que soubesse de alguma coisa.

Por mais que pensasse a esse respeito, Judd não conseguia encontrar uma motivação para os atos de Don Viton. Talvez fosse um paciente que ele tratara há muitos anos, do tempo em que ainda era interno. Alguém que achava que Judd o desdenhara ou prejudicara, de alguma forma. Mas Judd não conseguia lembrar-se de nenhum paciente chamado Vinton.

Ao meio-dia ele ouviu um barulho na porta do corredor. Era Angeli. Judd nada pôde deduzir de sua expressão, a não ser que estava mais pálido. Parecia extremamente cansado. O nariz estava vermelho e ele fungava constantemente. Entrou na sala de Judd e afundou-se pesadamente numa cadeira.

- Já recebeu alguma resposta a respeito de Don Vinton? - indagou Judd, ansiosamente. Angeli assentiu.

- Recebemos teletipos do FBI, dos chefes de polícia das principais cidades americanas e da Interpol.

Judd esperou, contendo a respiração.

- Ninguém jamais ouviu falar de Don Vinton.

Judd fitou Angeli, incrédulo. Sentiu subitamente um peso imenso no estômago.

- Mas isso é impossível! Alguém tem que conhecê-lo! Um homem capaz de fazer tudo isso não pode ter surgido do nada!

- Foi o que McGreavy disse - respondeu Angeli, a voz cansada. - Doutor, eu e meus homens passamos a noite inteira verificando cada Don Vinton que existe em Manhattam e nas localidades próximas. Investigamos até mesmo Nova Jersey e Connecticut.

Ele tirou um papel todo escrito do bolso e mostrou-o a Judd.

- Descobrimos dezessete Dons Vinton no catálogo telefônico. Mas reduzimos a lista a cinco possíveis suspeitos e verificamos um por um. Um é paralítico. Outro é padre. O terceiro é vice-presidente de um banco. O quarto é bombeiro que estava de serviço quando ocorreram dois dos três crimes. Só deixei fora o último da lista, que é dono de uma loja de animais domésticos e deve ter mais de oitenta anos.

A garganta de Judd estava seca. Ele compreendeu o quanto confiara em que se descobrisse alguma coisa por aquele meio. Certamente Moody não lhe teria fornecido o nome se não tivesse certeza. E ele não dissera que Don Vinton era um simples cúmplice, mas sim um homem que estava por trás de tudo. Era inconcebível que a polícia não tivesse a ficha de um homem assim. Moody fora assassinado porque descobrira a verdade. E agora que Moody estava fora do caminho, Judd ficava completamente sozinho. O cerco estava-se fechando.

- Lamento muito - disse Angeli.

Judd olhou para Angeli e lembrou-se de que o detetive passara a noite inteira fora de casa, apesar de estar com um forte resfriado. Disse, agradecido:

- Muito obrigado por tentar. Angeli inclinou-se para a frente.

- Tem certeza de que ouviu bem o nome que Moody lhe disse pelo telefone?

- Tenho.

Judd fechou os olhos, concentrando-se. Ele perguntara a Moody se tinha certeza de que sabia quem realmente estava por trás de tudo. Ouviu novamente a voz de Moody: -Absoluta. Já ouviu falar em Don Vinton? - Era isso mesmo: Don Vinton. Judd abriu os olhos.

- Tenho.

Angeli suspirou.

- Então chegamos a um beco sem saída. Ele soltou uma risada e acrescentou:

- Sem nenhum trocadilho.

Ele espirrou novamente e Judd comentou:

- É melhor voltar para a cama. Angeli levantou-se.

- É, acho que tem razão.

Judd hesitou antes de perguntar:

- Há quanto tempo trabalha com McGreavy?- Este é o nosso primeiro caso juntos. Por quê?

- Acha que ele é capaz de querer incriminar-me de qualquer maneira? Angeli espirrou novamente.

- Acho que está certo, Doutor. O melhor mesmo é eu voltar para a cama.

Ele encaminhou-se para a porta, mas Judd disse antes que Angeli deixasse a sala:

- Talvez eu tenha uma pista. Angeli parou e virou-se.

- Continue.

Judd falou-lhe a respeito de Teri. Acrescentou que iria também investigar alguns antigos amiguinhos de John Hanson.

- Não parece muito promissor - disse Angeli, com franqueza. - Mas acho que é melhor do que nada.

- Estou cansado de ser um alvo passivo. Vou começar a reagir, saindo atrás deles.

- De que forma? Estamos enfrentando sombras.

- Quando as testemunhas descrevem um suspeito, a polícia manda um desenhista fazer um esboço de todas as feições e traços descritos, não é mesmo?

Angeli assentiu.

- É um esboço de identidade, um retrato falado.

Judd começou a andar de um lado para o outro, irrequieto.

- Pois vou lhe dar um esboço da personalidade do homem que está por trás de tudo.

- Como pode fazê-lo? Nunca o viu. Ele pode ser qualquer pessoa.

- Não, não pode. Estamos procurando alguém muito especial.

- Alguém que é insano.

- A insanidade é uma coisa muito ampla. Não tem qualquer definição médica. A insanidade

é simplesmente a capacidade da mente se ajustar-se à realidade. Se não conseguimos ajustar, ou nos escondemos da realidade ou nos colocamos acima da vida, onde somos super seres que não precisam acatar as regras da sociedade.

- Então o nosso homem se julga um super ser.

- Exatamente. Numa situação de perigo, Angeli, temos sempre três opções. Fugir, chegar a um compromisso construtivo ou atacar. O nosso homem prefere atacar.

- Então ele é um lunático.

- Não. Os lunáticos raramente matam. Eles só se conseguem concentrar em algo por um espaço de tempo muito curto. Estamos tratando de alguém muito mais complexo. Ele pode sofrer de alguma perturbação de origem psicossomática, hipofrênica, esquizofrênica, ciclóide, ou uma combinação de todas elas. Podemos também estar enfrentando um problema de fuga, uma amnésia precedida por atos irracionais. Mas, seja como for, a aparência e o comportamento dele parecerão a todos perfeitamente normal.

- Então não temos nada em que nos basear para continuarmos.

- Está enganado. Até que já temos muita base. Posso fornecer-lhe uma descrição física do homem que estamos procurando.

Judd cerrou os olhos, concentrou-se

- Dom Vinton é de estrutura média, corpo bem proporcionado, e constituição atlética.

Veste-se impecavelmente e é meticuloso em tudo o que faz. Não possui o menor talento artístico.

Não pinta, não escreve, não toca piano.

Angeli ficou boquiaberto. Judd continuou falando mais rapidamente agora:

- Não pertence a nenhum clube ou organização social. A não ser que os esteja dirigindo. É um homem que tem de estar no comando, implacável e impaciente. Joga alto. Por exemplo: jamais esteve implicado em roubos miúdos. Se tem ficha na polícia, é por assalto a banco, seqüestro ou homicídio.

A agitação na mente de Judd aumentava à medida que a imagem se ia definindo com nitidez em sua mente.

- Quando o pegarem, provavelmente irão descobrir que foi rejeitado pelo o pai ou pela mãe quando criança.

Angeli interrompeu-o:

- Doutor, não quero esvaziar seu balão, mas pode ser algum viciado maluco que...

- Não. O homem que estamos procurando não toma drogas. A voz de Judd era positiva.

- Vou-lhe dizer mais uma coisa a respeito dele: praticou desporto coletivo na escola. Futebol ou hóquei. Não possui o menor interesse por xadrez, jogos de palavras ou quebra-cabeças. Angeli estava agora visivelmente cético.

- Há mais de um homem, Doutor. Foi o senhor mesmo quem disse.

- Estou-lhe dando uma descrição de Don Vinton, o homem que está dando as ordens. E tem mais: ele é um tipo latino.

- O que o faz pensar assim?

- Os métodos que ele usou nos crimes. Uma faca, ácido, uma bomba. Ele é sul-americano, italiano ou espanhol.

Judd respirou fundo antes de concluir:

- Aí está seu esboço de identificação. Esse é o homem que cometeu três assassinatos e está querendo matar-me.

Angeli engoliu em seco.

- Como diabo pode saber de tudo isso?

Judd sentou-se e inclinou-se na direção de Angeli.

- É minha profissão.

- O lado mental, sim. Mas como pode dar a descrição física de um homem que nunca viu?

- Estou-me baseando na lei das probabilidades. Um médico chamado Kretschmer descobriu que 85 por cento das pessoas que sofrem de paranóia possuem corpo atlético, bem proporcionado.

Nosso homem é evidentemente um paranóico. Tem mania de grandeza; é um megalomaníaco que pensa estar acima da lei.

- Então porque é que ele não foi ainda apanhado?

- Porque está usando uma máscara.

- Está usando o quê?

- Todos nós usamos máscaras, Angeli. Desde a infância, ensinam-nos a esconder os nossos sentimentos verdadeiros, a encobrir nossos ódios e medos. Mas sob tensão, Don Vinton vai acabar deixando cair a máscara e exibindo a outra face.

- Entendo.

- O ego dele é seu ponto vulnerável. Se se sentir ameaçado, realmente ameaçado, então vai desmoronar. Ele está agora pisando em gelo fino. Não vai demorar a desmoronar por completo.

Judd hesitou, mas depois continuou, quase que falando para si mesmo:

- Ele é um homem que tem... mana.

- Tem o quê?

- Mana. É um termo usado pelos primitivos para designar um homem que exerce influências sobre os outros por causa dos demônios que existem dentro dele. Em suma, um homem com uma personalidade dominante.

- Disse que ele não pinta, não escreve nem toca piano. Como pode saber disso?

- O mundo está cheio de artistas que são esquizofrênicos. A maioria consegue atravessar a vida sem cometer qualquer violência porque o trabalho proporciona um meio de expressão, de evasão. Nosso homem não possui esse desaguadouro. Por isso ele é como um vulcão. A única maneira que tem de se livrar da pressão interior é pela erupção: ou seja, pela morte de Hanson, Carol e Moody.

- Está querendo dizer que foram crimes sem sentido que ele cometeu para..

- Ele não faz coisas sem sentido. Pelo contrário...

A mente de Judd trabalhava rapidamente. Diversos outros pedaços do quebra-cabeças se ajustaram em seus lugares. Ele censurou-se por ter estado cego e assustado demais para vê-los antes.

- Eu sou a única pessoa que Don Vinton está realmente querendo liquidar, seu alvo principal. John Hanson foi morto porque o confundiu comigo. Quando o assassino descobriu o erro, veio ao meu consultório para uma segunda tentativa. Eu tinha saído, mas ele encontrou Carol. A voz de Judd estava furiosa. Ele fez uma pausa, que Angeli aproveitou para perguntar:

- Ele matou-a só para que ela não pudesse identificá-lo?

- Não. O homem que estamos procurando não é um sádico. Carol foi torturada porque ele queria alguma coisa. Digamos que se tratasse de alguma prova incriminadora que ela não quis ou não pôde fornecer-lhe.

- Que espécie de prova, Doutor?

- Não tenho a menor idéia. Mas aí está a chave de tudo. Moody descobriu a resposta e foi por isso que o mataram.

- Mas há uma coisa que ainda não está fazendo sentido - insistiu Angeli. - Se eles o tivessem assassinado na rua, Doutor, então não poderiam encontrar o que estão procurando. Isso não se ajusta ao resto da sua teoria.

- É possível. Vamos supor que eles estejam procurando alguma coisa nas minhas gravações.

Por si só, talvez seja uma informação inteiramente inofensiva. Mas, eles têm duas alternativas. Ou arrancam a fita de mim ou me assassinam, a fim de que eu não possa transmitir a informação a ninguém. Primeiro eles tentaram eliminar-me, mas cometeram um engano e mataram Hanson. Depois buscaram a segunda alternativa. Tentaram arrancar de Carol a informação de que precisavam.

Quando fracassaram, decidiram concentrar-se em matar-me. Houve o acidente de carro. Provavelmente fui seguido quando contratei Moody, que por sua vez foi também seguido. Quando ele descobriu a verdade, trataram de assassiná-lo.

Angeli franziu o rosto, pensativo.

- É por isso que o assassino não vai parar enquanto não conseguir matar-me -concluiu Judd calmamente. - Torna-se um jogo mortal, e o homem que eu descobri não suporta a idéia de perder.

Angeli estudava-o atentamente, avaliando tudo o que acabava de ouvir.

- Se está certo, Doutor, então vai precisar de proteção.

Ele tirou o revólver do coldre e verificou se estava tudo carregado.

- Obrigado, Angeli, mas não preciso de uma arma. Vou lutar contra eles com as minhas próprias armas.

Houve um estalido agudo. A porta externa se abriu.

- Está esperando alguém, Doutor? Judd sacudiu a cabeça.

- Não. Não tenho nenhum paciente marcado para esta tarde.

Com a arma na mão, Angeli avançou rapidamente até a porta que dava para a sala de recepção. Ficou de lado e abriu-a bruscamente. Peter Hadley estava parado ali, com uma expressão aturdida no rosto.

Judd foi até a porta e disse a Angeli:

- Está tudo bem. Ele é amigo meu.

- Que diabo está acontecendo aqui? - indagou Peter.

- Desculpe - disse Angeli, guardando a arma.

- Este é o Dr. Peter Hadley... Detetive Angeli.

- Que espécie de clínica psiquiátrica inteiramente louca você está fazendo aqui, Judd -indagou Peter.

- Houve um pequeno problema - explicou Angeli. - O consultório do Dr. Stevens foi... assaltado e pensamos que fosse o ladrão que estivesse de volta.

Judd aproveitou a deixa:

- Isso mesmo. Eles não encontraram o que estavam procurando.

- Isso tem alguma relação com o assassinato de Carol? - indagou Peter. Angeli falou antes que Judd pudesse responder:

- Não tenho certeza, Dr. Hadley. Mas, por enquanto, a polícia pediu ao Dr. Stevens que não discutisse o caso com ninguém.

- Eu compreendo - disse Peter, olhando em seguida para Judd: - O compromisso de almoçarmos juntos ainda está de pé?

Judd esquecera-se completamente.

- Mas claro que sim - disse ele rapidamente, dirigindo-se depois a Angeli: - Acho que já examinamos tudo.

- Creio que sim, Doutor. Tem certeza de que não quer...

- Ele indicou o revólver. Judd sacudiu a cabeça.

- Não, obrigado.

- Está certo. Tome cuidado, Doutor.

- Fique tranqüilo. Tomarei.

Judd mostrou-se bastante preocupado durante o almoço e Peter não o pressionou. Conversaram sobre amigos e pacientes comuns. Peter contou a Judd que falara ao chefe de Harrison Burke. Tudo já foi providenciado para que se submetesse a um exame psiquiátrico, sendo internado numa clínica particular.

Ao café, Peter disse:

- Não sei qual é o problema que está enfrentando, Judd, mas se eu puder ajudar em alguma coisa...

Judd sacudiu a cabeça.

- Obrigado, Peter. É um problema que terei de resolver sozinho. Eu lhe contarei quando tudo estiver acabado.

- Só espero que não demore - disse Peter, procurando falar jovialmente. Hesitou por um momento, mas acabou perguntando:

- Judd... você está correndo algum perigo?

- É claro que não!

O que seria verdade se não houvesse um maníaco homicida que já cometera três assassinatos e estava determinado a fazer Judd sua quarta vítima.