A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

Luis David Castiel · Capítulo 11 de 17

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A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

9 - Breve incursão ao estilo de vida na internet e na academia

9 - Breve incursão ao estilo de vida na

internet e na academia

 

Nos dias de hoje, estilo de vida é uma concepção consagrada em vários âmbitos da vida contemporânea. Podem-se perceber referências a essa idéia nos meios de comunicação de massa e na publicidade, elementos centrais da moderna cultura individualista do consumo. Por exemplo, há, no Brasil, uma revista com esse título, publicada pela editora Abril, que sintomaticamente apregoa em seu site: "A revista Estilo de Vida mostra o que as celebridades usam, onde compram e quanto custa. Com Estilo de Vida, você se inspira, faz suas escolhas e valoriza o seu estilo pessoal"

(<www.assineabril.com/index.html?

destino=malhoestilo&origem=sr/estilo>).

Nos domínios da medicina, da saúde pública e da promoção da saúde, é constante a utilização desta expressão. Nestes campos, estilo de vida se institui como uma macrocategoria central em várias explicações e teorias científico-acadêmicas sobre os processos de adoecimento nas quais uma concepção racional, volitiva e, por vezes, moralista e individualista da conduta humana atuaria de modo crucial como fator de risco epidemiológico.

Se, por exemplo, pesquisamos 'lifestyle epidemiology' (epidemiologia do estilo de vida) no buscador Google na internet, encontramos 512 resultados em 19 de novembro de 2003, e, cerca de um ano e quatro meses depois, aproximadamente três vezes mais, cerca de 1.490 (em 17 de março de 2005). Curiosamente, muitas vezes, junto a tal expressão costumam coexistir outros vocábulos com a aparente função de destacar aspectos específicos do 'macroconceito': como 'atividade física', 'nutricional' e também 'família'.

Por sua vez, 'lifestyle medicine' trazia quatro mil resultados em 17 de março de 2005. Cabe, aqui, assinalar dois elementos que atuam como sintomas do alcance desta perspectiva. Sob tal categoria, localiza-se, nos Estados Unidos, a home page de uma médica que divulga a prática de 'medicina do estilo de vida pelo telefone'

(<www.hometown.aol.com/zbic/life/>).

A profissional, com doutorado em saúde pública, anuncia serviços individualizados de consultas com vistas à prevenção e tratamento de doenças crônicas sem uso de medicamentos, apenas através de mudanças no estilo de vida. Justifica as consultas por telefone em função da conveniência e da privacidade de estar em casa e dos menores custos em relação às realizadas em consultórios

(<hometown.aol.com/zbic/life/>). De alguma forma, é possível encarar esta atividade como uma telemodalidade de aconselhamento comportamental.

Outro exemplo mais ambicioso do uso da noção estilo vida saudável na cultura de consumo de saúde e aptidão: a existência, nos Estados Unidos, do Rippe Lifestyle Institute, dirigido pelo cardiologista James M. Rippe, que desenvolve, entre atividades editoriais e de pesquisa, a avaliação de saúde Rippe (Rippe Health Assessment), que consiste em:

avaliação de riscos à saúde, exames de aptidão (fitness) e

avaliação de riscos do estilo de vida para homens e mulheres

executivos, outros indivíduos de alto desempenho, indivíduos

que buscam melhorar sua saúde e bem estar e todos aqueles

dispostos ao compromisso de obter mais da vida.

Sua meta é: "ajudar a empoderar pessoas a levar estilos de vida mais saudáveis com paixão, compromisso e desempenho" (helping empower people to lead healthier lifestyles with passion commitment

and performance) (<www.rippelifestyle.com/index.shtml>).

Rippe é, também, organizador de um volumoso compêndio intitulado Lifestyle Medicine (1.392 páginas) com 116 capítulos, divididos em 21 categorias e 148 colaboradores. O manual explicitamente assume a tarefa de enfrentar os desafios do profissional de saúde diante das sólidas e profusas evidências científicas relativas à relação entre medidas positivas de estilo de vida para boa saúde e as dificuldades de atualização e assimilação na prática clínica.

(<www.blackwellpublishing.com/book.asp?

ref=086542294X&site=1>). Em outras palavras, propõe uma medicina do estilo de vida baseada em evidências.

Além disso, Rippe disponibiliza a "prescrição para saúde das articulações" (the joint health prescription), na qual alia um suplemento de gelatina, vitamina C e cálcio a atividades como exercícios de força com alongamentos e caminhadas e que mostra uma "acentuada melhora na saúde das juntas através do uso de um suplemento à base de gelatina – um simples pó que pode ser misturado ao suco de laranja da manhã. O estudo clínico foi um ensaio clínico aleatorizado, duplo-cego, controlado com placebo, usando 200 participantes".

(<www.rippelifestyle.com/newscontent/newsstory.shtml>).

Supondo que o estudo tenha sido feito segundo os cânones metodológicos dos ensaios clínicos aleatorizados, é de se perguntar por que não existe, em seus sites, menção a outros estudos, revisões sistemáticas ou metanálises sobre a relação entre articulações saudáveis e compostos de gelatina, vitamina C e Cálcio.

Mesmo na literatura médico-epidemiológica considerada séria, há uma visível inclinação a enfocar padrões comportamentais individuais como responsáveis pela saúde. Se retiradas de seus contextos e das relações sociais, estas condutas perdem seu significado. O estilo de vida seria, então, um 'estilo de risco', conceitualizado como uma pré-patologia. São medidos os fatores de risco comportamentais dos indivíduos para servir ao planejamento de ações de saúde pública. Um exemplo seria o Sistema de Vigilância do Fator de Risco Comportamental (Behavioral Risk Factor Surveillance System, BRFSS) do CDC, nos Estados Unidos, que já analisamos aqui.

Outro exemplo digno de atenção quanto às tendências definitórias hegemônicas no campo da saúde aparece nos trabalhos de investigação de estilos de vida em distúrbios psiquiátricos em jovens adultos saudáveis, idosos e em casos de estados depressivos e distúrbios de ansiedade (Monk et al., 2002). Aí encontramos uma escala que pretende estabelecer a 'regularidade de estilo de vida'. Com esta finalidade, foi elaborada a Social Rhythm Metric (SRM) para medir quanto a vida cotidiana de uma pessoa era irregular/regular (escores de 07) em termos de seus horários e da seqüência dos eventos diários. Uma versão ampliada consistia em 17 itens: 1- sair da cama; 2- primeiro contato com outra pessoa; 3-bebida matinal; 4- desjejum; 5- sair; 6- iniciar trabalho, trabalho doméstico ou atividades voluntárias; 7- almoço; 8- sesta à tarde; 9-jantar; 10- exercícios; 11- lanche noturno; 12- assistir a notícias na TV; 13- assistir a outro programa; 14- atividade idiossincrática A; 15-atividade idiossincrática B; 16- última hora de volta para casa; 17- ir para cama. Fizeram-se, também, estudos que validaram uma versão simplificada da escala com cinco itens (a versão completa como padrão-ouro) – 1- sair da cama; 2- primeiro contato com outra pessoa; 3- iniciar trabalho, trabalho doméstico ou atividades voluntárias (fator 'manhã'); 4- jantar; 5- ir para a cama (fator tarde/noite).

Outra linha vigorosa de estudos se vincula à cruzada que setores ligados a determinadas concepções da medicina desportiva e da educação física exercem contra o 'sedentarismo'. Em alguns casos extremos, tal linha funciona como algo que evoca uma familiaridade não claramente explicitada com o combate puritano a um dos sete pecados capitais, encarado como a matriz dos demais pecados... Esta perspectiva está tão presente nos tempos atuais que, por exemplo, para evitar a perda de continuidade ou desistência da adoção de atividades práticas, há pesquisas que postulam o conceito de 'personalidade da aptidão (física)' que pode ser evidenciada instrumentalmente mediante escalas Likert com sete dimensões ou estilos psicossociais (sociabilidade, espontaneidade, automotivação, agressividade, foco mental e a capacidade de correr riscos). Uma avaliação da personalidade da aptidão (física) permitiria escolha mais específica e compatível com atividades físicas e desportivas mais propícias a cada pessoa, de modo a obter mais adesão e menos desistências às prescrições de exercícios físicos regulares (Gavin, 2005).

Aqui, vale a pena referir-se a uma grande pesquisa comparativa que investiga a 'salubridade' (healthfulness) de estilos de vida em dois grandes países: Estados Unidos da América e China (Kim et al., 2004). Segundo o estudo, foram utilizados dados do Inquérito de Saúde e Nutrição da China de 1993 (amostra de 8.352 indivíduos) e do Inquérito Contínuo de Ingesta de Alimentos por Indivíduos dos Estados Unidos de 1994-1996 (amostra probabilística de 9.750 indivíduos) em pessoas de idade mínima de 20 anos – exclusão de mulheres grávidas ou em lactação. Para isto, os autores utilizam uma complexa escala, denominada índice de estilo de vida (IEV), que consiste em uma medida totalizante de EV criada neste estudo para sumarizar a respectiva salubridade total dos EV, incluindo as recomendações atuais em relação a doenças crônicas. O IEV integra aspectos relativos a comportamentos ligados à dieta, atividade física, tabagismo e ingestão de álcool.

Para se ter uma idéia da complexidade da escala, vale a pena determo-nos nos detalhes de seus componentes. A medida da qualidade da dieta com vistas a comparações internacionais avalia quatro dimensões: 'variedade', 'adequação', 'moderação', 'balanço geral' – verificada de duas maneiras: variedade geral (consumo diário de, pelo menos, uma porção de cada um dos distintos grupos alimentares: carne vermelha, ave, pescado, ovos; derivados lácteos, leguminosas; grãos; frutas e vegetais e variedade em relação à ingesta protéica (consumo diário de, pelo menos, três diferentes fontes de proteína (carne, ave, pescado, laticínios, leguminosas e ovos); 'adequação' – avalia o consumo de frutas, vegetais, grãos, proteína, ferro, cálcio, vitamina C, e fibras dietéticas em relação percentual a níveis recomendados; 'moderação' – relativo à ingesta de nutrientes que podem contribuir ao desenvolvimento de doenças crônicas e que, portanto, talvez impliquem restrição – percentual de gorduras totais, gorduras saturadas, alimentos com calorias vazias e níveis de colesterol e sódio; 'balanço geral' – em termos de proporcionalidade da composição de fontes energéticas e ácidos graxos.

Já o índice de atividade física categoriza cinco níveis: muito ativo, ativo, moderado, leve e sedentário. Para o tabagismo, as categorias são: não-fumantes, ex-fumantes e fumantes atuais (em quatro grupos conforme a quantidade de cigarros fumados ao dia). O consumo de álcool é mensurado em relação à ingesta do número de 'doses' ou seja, de 13g de álcool, que pode ser em termos de ao redor de 340ml de cerveja, 140ml de vinho ou 42,5ml de destilados.

Assim, homens que bebem mais de cinco 'doses' e mulheres que ingerem mais de quatro por ocasião são considerados bebedores pesados. Tanto abstinentes como bebedores moderados são considerados de modo equivalente, com pontuação máxima, pois não foi possível identificar efeitos benéficos ou deletérios distintos entre estas categorias. Já bebedores mais que moderados recebem pontuação mais baixa.

A ponderação de cada item no índice final segue a literatura que estabelece que a atividade física e o tabagismo contribuem mais com riscos maiores de doenças. Assim, os pesos são: qualidade da dieta – 0,2; atividade física – 0,3; tabagismo – 0,3; ingesta de álcool – 0,2. Pelos resultados, o estudo conclui que a escala reflete a salubridade dos componentes do estilo de vida em ambos países. A média foi ligeiramente maior na China, superior em qualidade da dieta, atividade física e tabagismo, que nos Estados Unidos – superior em ingesta de álcool.

Poderíamos entrar nos méritos técnicos da investigação e discutir a robustez e validade das escalas para medir o que se propõem a mensurar. Mas o problema se estende para além da dimensão metodológica. Em realidade, são os pressupostos teórico-epistemológicos em relação ao entendimento dos aspectos socioculturais que aparecem de maneira demasiadamente débil e tímida, a ponto de gerar entendimentos potencialmente equivocados do que sejam as sociedades humanas. Por exemplo, ao se considerar apenas como fonte de subnotificação o fato de que a maior atividade física por parte dos chineses (relacionada a deslocamentos ao trabalho) seja algo que não está encarado como sendo de alto status social, pois os ricos se dedicam a atividades físicas por lazer. Como fazem os norte-americanos em geral, que se dedicam a tais atividades em função de sua maior possibilidade de acesso e consumo de atividades de lazer.

Além disto, poderia haver mais subestimação nos dados das mulheres chinesas quanto à ingesta de álcool e de tabagismo, ao passo que, nos estadunidenses, pode ter havido subnotificação de ingesta de gordura, pois possuem posturas aversivas às gorduras.

Sem dúvida, há pertinência técnica no fato de os autores assinalarem estes aspectos potencialmente enviesantes para que os resultados do estudo sejam alçados à categoria de 'evidência'. O mais grave, porém, é o forte conteúdo descontextualizador diante da ínfima relevância atribuída a contingências próprias da dinâmica cultural de cada país, pois talvez isto possa instabilizar a pertinência da comparabilidade eminentemente estatística de populações tão díspares como as pertencentes a estas nações tão populosas e com tantas contradições internas, além de situadas em territórios tão vastos.

Ademais, tais países apresentam profundas diferenças contextuais – tanto sociais, como subjetivas, seja em termos de desenvolvimento histórico, de formas de constituição de identidade, de peso de tradições, de encadeamento de configurações simbólico-sociais, de atribuição de significados a hábitos de vida.

Ainda assim, os autores do estudo incidem em clichês sanitários, ao encerrar o artigo enunciando que o uso do IEV traz "melhor entendimento dos comportamentos do estilo de vida de modo a proporcionar orientação para o desenvolvimento e estabelecimento de metas de atividades de promoção de saúde para melhorar a saúde pública global" (Kim et al., 2004: 169). Podemos cogitar que, intencionalmente ou não, este tipo de estudo acaba por colaborar com um projeto de homogeneização exacerbada de distintos grupos humanos, e as proposições explícitas de melhoria da 'saúde pública global' se coadunam em demasia com propostas implícitas de avanço da economia privada globalizadora.

Outra linha de estudos segue uma tendência equivalente em seus pressupostos, ao procurar detectar precocemente desvios do comportamento para aspectos não salutares em um grupo etário reconhecido por seu desejo de experimentação e por afastar-se das normas usuais. Este foi o objetivo de uma pesquisa realizada em Taiwan sobre o 'estilo de vida adolescente'. Chen et al. (2003) pretendiam e avaliar e validar as propriedades psicométricas de um instrumento denominado 'escala de promoção à saúde adolescente'. Tal escala procura detectar estilos de vida não-sadios em adolescentes taiwaneses em termos de suporte social, apreciação da vida, responsabilidade em saúde, comportamentos nutricionais e administração de estresse.

Os pesquisadores concluíram que o instrumento dispõe de boa validade de construto e confiabilidade para taiwaneses e que assim está assegurada a qualidade de seu uso por enfermeiras de saúde escolar para avaliar programas de promoção de saúde adolescente. Eles defendem que as causas de mortalidade em adolescentes se deslocaram de etiologias infecciosas para comportamentais e que os correspondentes padrões de conduta, além de mudarem rapidamente, podem incluir maus hábitos alimentares, de sono, inatividade, condutas arriscadas – incluindo uso de álcool, tabaco e drogas ilícitas, atividade sexual, manejo imprudente de veículos automotores, homicídio e outros crimes violentos. Os autores concluem que estes comportamentos colocam os adolescentes em alto risco de desenvolverem doença e patologia social.

Em termos quiçá simplistas, pode-se afirmar que a adolescência é uma etapa da vida humana em que ocorrem muitas mudanças psicológicas e físicas e em que pode prevalecer um movimento de experimentação e de pôr-se à prova. Ao mesmo tempo, existem situações de riscos vinculados a estas circunstâncias. Porém, as premissas do estudo, além de evitarem abordar as complexas causas estruturais de comportamentos maladaptativos nos tempos atuais, tendem a incorrer em uma postura de prevenção científica que sugere o espírito neomoralista e repressor com que foi retratada a delinqüência adolescente no romance de Anthony Burgess, nos anos 70, que se transformou em um filme consagrado – e censurado naqueles tempos – dirigido por Stanley Kubrick: A Clockwork Orange (A Laranja Mecânica).