A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

Luis David Castiel · Capítulo 14 de 17

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A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

12 - Genes e comportamentos em saúde: em busca de informes responsáveis

12 - Genes e comportamentos em

saúde: em busca de informes

responsáveis

 

Dois acadêmicos de Harvard – Terry Burnham, professor de Economia, e Jay Phelan, de Biologia – produziram a obra A Culpa é da Genética, cujo título original é Mean Genes (Genes Perversos) (Burnham & Phelan, 2002). Este livro consiste em um exemplo extremo das teses sociobiológicas dirigidas ao grande público. Sua tese nuclear é: somos constantemente possuídos por instintos ancestrais que tendem a comandar as ações das criaturas que lhes hospedam. Esses instintos atuam como se fossem demônios interiores, programados pelos nossos próprios genes. Estes, por sua vez, operariam como conspiradores endógenos, responsáveis por nossa 'insensatez', resultante de constantes crises da nossa incapacidade em estabelecer rédeas na busca de domínio de nosso 'eu racional' nas experiências da vida.

Tempos atrás, os genes não seriam nocivos para os humanos que se comportavam como caçadores coletores. Com mudanças socioculturais, muitas funções gênicas teriam se tornado desnecessárias e prejudiciais do ponto de vista evolutivo. Os genes fariam com que não tivéssemos limites em nossos desejos e na busca compulsiva por prazeres que se manifestariam em problemas como: dificuldade para economizar, ingestão incontrolada de alimentos, uso de drogas, exposição irracional a riscos, ganância, conflitos entre os sexos. Além disto, há explicações naturalizadas para a busca por beleza e juventude, para a infidelidade e para os ambivalentes laços familiares e interpessoais. Como conclusão, há um enaltecimento dos esforços para 'sobreviver a nossos desejos'.

Vale a pena assinalar que a referência comparativa dos sociobiólogos aos tempos dos caçadores/coletores parece sempre estar referindo-se aos períodos em que os elementos da cultura humana ainda eram incipientes. O paradigma caçador/coletor enfatiza a noção que a cultura teria desadaptado a humanidade de sua estrutura biológica, enfeixada pelos seus genes que, 'desajustados', se tornam 'perversos'.

A obra em foco recebeu considerável destaque em termos publicitários. Está dirigida ao público leigo a quem, ao final de cada capítulo, oferece conselhos, sugestões de auto-ajuda em termos de reforço da prudência e do comedimento das instâncias lógico-racionais para nos orientarem a evitar descaminhos e tentações desta civilização repleta de traiçoeiros atrativos oferecidos insistentemente.

Como indicam os autores no início, trata-se de um 'guia do usuário para seu cérebro', pois este não se comportaria com um 'servo obediente'. Para isto, devemos evitar explicações propostas por Freud e nos ancorar nas leituras ultradarwinistas da biologia de modo a nos trazer uma construção científica da 'natureza humana'. Isto deverá servir para nos municiar em busca da salvação mediante o desarmamento das estratégias danosas dos genes perversos em nossas entranhas.

Talvez fosse possível não levar a sério esta abordagem empobrecedora e por vezes caricatural do comportamento humano proposta pela genética evolucionista de linhagem sociobiológica em suas tentativas de estabelecer leis biocientíficas regentes do funcionamento humano. Porém, importa aqui ressaltar aspectos cruciais que, muitas vezes, não recebem a devida atenção. A ciência costuma ser encarada como uma instância separada da sociedade, mais do que como produto dela. Os conhecimentos da genética tendem a ser considerados como resultantes da busca objetiva dos cientistas pelas 'verdade dos fatos'.

Em geral, fora do âmbito acadêmico específico, está reduzida a discussão acerca das instabilidades e limitações dos dispositivos científicos na busca do conhecimento. E também são desconsideradas abordagens relativas aos modos como as ideologias influem nos encaminhamentos das atividades científicas: o que se define como questão científica, o que se convenciona como objeto de estudo, como são financiadas as pesquisas, como se fixam critérios que determinam a pretendida verdade de um fato, como se dá a difusão científica e comunicação pública dos achados. Sobretudo, importa estabelecer e distinguir quais são as relações entre poder e conhecimento nesta conturbada arena.

Além disto, é preciso levar em conta o fato de esta disciplina estar ideologicamente identificada com uma concepção da dinâmica social moldada no interior do liberalismo avançado globalizante e de seus valores individualistas de liberdade de escolha e consumismo. Nestas circunstâncias, é importante criar condições para que as pessoas se governem em função da referência a uma 'natureza

humana'25 e não diante da perspectiva de que humanos se tornam pessoas no processo de viver em sociedade.

Para os adeptos da via comportamental da sociobiologia, existe uma 'natureza humana' ou, melhor dizendo, uma 'condução' humana via genoma. Deste modo, genes adquirem estatuto antropomórfico, podendo ser perversos ou bons, ou gays, criminosos, adictivos, entre outras qualificações.

Há forte sustentação acadêmica da sociobiologia na procura por estabelecer, há mais de três décadas, as bases genéticas do comportamento humano. É perceptível sua vigorosa inserção institucional em termos de produção de trabalhos, difusão acadêmica e divulgação para o público não especializado. Este último aspecto transparece na profusão de livros produzidos por vários pesquisadores: Edward Osborne Wilson (o patrono da sociobiologia), Steve Pinker, Richard Dawkins, David Buss, Jared Diamond (todos estes receberam agradecimentos formais dos autores de Mean Genes), entre muitos outros.

Mesmo no âmbito das ciências da vida, ainda não há elementos que corroborem o determinismo gênico do comportamento humano. Esta é uma das conclusões do relatório Genetics and Human Behaviour: the ethical context, do respeitado conselho de bioética britânico Nuffield Council on Bioethics (NCB) (2002), editado na Grã-Bretanha. O NCB é uma entidade inglesa criada em 1991 com a finalidade de identificar examinar e produzir documentos com vistas a considerar dimensões éticas decorrentes dos desenvolvimentos na pesquisa em biologia e na medicina. Desde 1994, é financiada conjuntamente pela Nuffield Foundation, pela Wellcome Trust e pelo Medical Research Council.

O NCB lançou um minucioso relatório sobre tal temática. Ainda que nada exista de conclusivo sobre o determinismo gênico do comportamento humano, em função da ansiedade social vinculada a tais temas – especialmente sob o ponto de vista de práticas eugênicas (tanto no sentido negativo – de eliminar 'indesejáveis', como no positivo – de estimular a reprodução de 'desejáveis'), este oportuno documento apresenta um resumo de todo o texto com as recomendações para quem pretende não ler todo o material e suas tecnicalidades. Para os que desejarem se aprofundar, há 15 capítulos, distribuídos em quatro seções: 1) introdução – definição dos traços comportamentais normais e o contexto histórico das práticas eugênicas; 2) aspectos metodológicos da pesquisa em genética comportamental – genética quantitativa (estudos de irmãos, de gêmeos, de crianças adotadas e famílias), genética molecular (exame de DNA em humanos para verificar variações em genes específicos) e estudos com manipulações de DNA em modelos animais; 3) revisões das evidências produzidas sobre traços de comportamento como inteligência, personalidade, comportamento anti-social e orientação sexual; 4) recomendações em termos éticos, jurídicos, sociais e relativos a políticas públicas.

Importa destacar a forma corajosa com que o documento aborda questões controversas e aponta para seus correspondentes aspectos inconclusos. Desde a definição do que sejam comportamentos normais – normalidade sob a ótica estatística (o que não resolve satisfatoriamente o problema, mas permite que a discussão não se interrompa), passando pelas tentativas e respectivas dificuldades em delimitar e medir objetivamente dimensões intrincadas, de limites bastante imprecisos como inteligência, personalidade, comportamento anti-social/ violência e orientação sexual.

São discutidos tópicos explosivos, como seleção de embriões, riscos de medicalização do comportamento humano e possíveis impactos nos ordenamentos jurídicos e no ambiente educacional, securitário e laboral. São também feitas cruciais referências a questões relativas à liberdade e dignidade humanas. Em geral, o teor dos conteúdos apresentados, apesar das tecnicalidades, é esclarecedor, e o tom da argumentação, sensato.

A publicação chama a atenção para o fato de pesquisas em que se procuram demonstrar associações entre variantes genéticas específicas e traços comportamentais receberem destaque substancial nas mídias leiga e científica. Vale lembrar que os vários métodos de pesquisa neste campo não são infalíveis e que poucos estudos foram replicados com sucesso até o momento. Deve-se ter cuidado com os achados divulgados pela linha de pesquisa da genética comportamental, por serem potencialmente passíveis de conclusões enganosas.

Tal aspecto deve ser visto com atenção diante da possibilidade de estas narrativas e tecnologias genéticas se arvorarem, como mencionado, a desvendar contornos da natureza humana. Assim, serviriam como fonte de concepções de normalidade, indivíduo, sociedade, de modo a estabelecer critérios para a gestão biopolítica de lugares sociais e de intervenções e controles regulatórios de populações.

Em suma, esta é uma área atribulada da investigação em genética, repleta de controvérsias apaixonadas e extrapolações polêmicas. Há questões envolvendo a validade de alguns métodos de pesquisa. É difícil especificar e entender a ação dos fatores genéticos, assim como é árduo circunscrever e dimensionar os traços comportamentais. Ainda não é possível estabelecer correlações entre um simples gene e um traço comportamental, nem as interações complexas entre grupos de genes envolvidos na predisposição de um indivíduo possuir um traço em particular. É também complicado isolar a participação extragenética no comportamento e nos genes e influências genéticas na esfera dita ambiental (Castiel, 2002).

Com o avanço das técnicas da biologia molecular, em geral, e das manipulações genéticas, em particular, o campo dos conhecimentos em saúde coletiva passou a ter de lidar com o surgimento de uma possível abordagem genômica reducionista, para além das influências do meio-ambiente (Martin-Llaguno & Álvarez-Dardet, 2000). Nestas circunstâncias, o foco principal das intervenções em saúde coletiva se voltaria para a abordagem genômica de 'indivíduos' e suas 'famílias' em detrimento de seu objeto consagrado – 'populações' –, deslocando, desta forma, a ênfase dos esforços (e recursos) sanitários para reduzir o adoecimento em função das desigualdades em termos socioeconômicos (Petersen & Bunton, 2002).

Isto se torna especialmente relevante em função de desdobramentos no âmbito da 'genômica' – instituições envolvidas no conhecimento do DNA humano e de outros organismos biológicos, suas aplicações, patenteamentos e regulação, envolvendo organizações privadas de biotecnologia, seus empresários, administradores e pesquisadores. Tais empresas dedicam-se a atividades como: desenvolvimento de sondas de DNA, seqüenciamento de genomas de agentes patogênicos, identificação de genes e respectivas regiões regulatórias, venda de inscrições para acesso aos bancos de dados genômicos, produção e comercialização de kits com material para a pesquisa genética, identificação de genes de doenças com propriedades sinergísticas, rastreamento de amostras de DNA de indivíduos e famílias afetadas por doenças específicas (Cohen, 1997).

A importância econômica deste empreendimento pode ser aquilatada pelos vários vínculos das empresas genômicas com a indústria farmacêutica. Aliás, este aspecto merece alguns comentários. Primeiro, há estimativas que as companhias produtoras de drogas trabalham em centenas de potenciais 'alvos' farmacológicos, ou seja, enzimas, receptores, canais iônicos (não pertencentes a agentes patogênicos) que desempenham papel importante em determinadas doenças. Surge uma 'química combinatória', que permite a construção de grandes catálogos de potenciais drogas através de técnicas bioinformáticas de

simulação.26 Segundo, surgem perspectivas farmacogenéticas de criação de drogas personalizadas. A compreensão das raízes genéticas das doenças permitiria descobrir suas relações com a constituição genotípica dos indivíduos. Com isto, devem surgir novos processos amostrais para a pesquisa clínica, agrupando os casos e controles segundo traços geneticamente demarcados. Assim, seria possível padronizar pacientes quanto à sua capacidade de responder ou não a determinadas drogas. Terceiro, surgem perspectivas de manipulações genéticas tendo como alvos doenças e comportamentos.

Um outro importante documento foi produzido pela agência canadense Policy Research Initiative em colaboração com o Canadian Biotechnology Advisory Committee, Canadian Institutes of Health Research, Genome Canada, Health Canada, and Industry Canada, intitulado Genômica, Saúde e Sociedade: questões emergentes para a política pública (Knoppers & Scriver, 2004), que relata um simpósio internacional sobre o tema, encontro ocorrido em Toronto em 2002 e alguns desenvolvimentos posteriores. Nele, abordam-se aspectos econômicos e empresariais, a medicina genética e problemas de privacidade, propriedade e patenteamento, implicações para o mundo em desenvolvimento e relações com os governos.

Apesar da indiscutível relevância de todos os itens, para efeitos de nossa discussão, interessa-nos enfocar as apregoadas 'implicações para o mundo em desenvolvimento' e também o subtexto a respeito das responsabilidades pessoais envolvidas na epidemiologia genômica.

A dura afirmação de que

a hipótese dos determinantes genéticos da saúde possa ter um

significativo impacto na saúde pública e no sistema de atenção

à saúde em geral se aplica somente a países desenvolvidos

com infraestruturas sociais requeridas para estudos de

correlação genótipo-ambiente (Laberge, 2004: 20)

se mostra difícil de refutar, mas por razões diferentes das que o autor alega: as ações neste sentido não podem ser tomadas como resposta a demandas por serviços baseadas em 'amostras enviesadas' para serviços que se dirigem a toda a população. Ora, esta afirmação parece supor a inexistência nos países em questão ou de recursos/competência para produzir investigações (com ou sem vieses) ou se existem tais estudos, não há garantias suficientes para garantir a qualidade metodológica que sustente a fidedignidade dos achados.

Tal comentário deixa entrever bem mais a contumaz postura de conhecimento parcial dos contextos de investigação dos países ditos em desenvolvimento do que seria desejável para um juízo desta ordem e alcance – na melhor das hipóteses. Um modo pouco original e reiterativo de culpabilização da vítima.

A nosso ver, apesar de este não ser o foco desta discussão e de a argumentação correr o risco de soar como clichê, a eventual precariedade de recursos financeiros e de pessoal de pesquisa em países como os da América Latina merece uma análise menos apressada. Devemse considerar: dimensões históricas relativas às formas como a pesquisa em geral e a da saúde em particular foi estrangulada por governos ditatoriais. E, com a queda destes, limitadas por condições insustentáveis de pagamento de dívidas externas, ambas decorrências, inclusive, de ditames estabelecidos por nações encaradas como potências do mundo desenvolvido. Mesmo assim, existem muitos esforços nestes contextos e há sinais locais de excelência acadêmica, ainda que em escala reduzida, que levam a relativizar este tipo de afirmação que se torna incomodamente conservadora, mas que é emblemática na sua formulação categórica ao veicular uma meia-verdade que parece possuir bem mais a função implícita de atuar como profecia auto-realizável.

Essas críticas, que podem parecer exacerbadas, se justificam ao se conhecerem outros enunciados discutíveis nos quais Laberge assinala que a nova genômica em saúde no longo prazo promete um melhor entendimento de fenômenos adaptativos entre indivíduos e outros genomas que nos afetam como os de micróbios, entre indivíduos e ambientes tóxicos ou medicações e até "fenômenos sociológicos como a pobreza" (Knoppers & Scriver, 2004: 21).

Aqui é possível perceber como subtexto um mal disfarçado ranço preconceituoso no qual a pobreza se definiria por sua 'etiologia genética', justificando, no limite, ações eugênicas. Ainda, no parágrafo final, o inexorável apelo culpabilizante à responsabilidade pessoal em relação à saúde que tornaria a saúde pública o resultado da decisão individual de cidadãos, a partir do conhecimento da distribuição dos fatores individuais de saúde que a genômica populacional traria.

Esta desagradável impressão é contornada por outro texto do relatório que aborda a brecha norte/sul relativa à 'saúde genômica' e propõe encaminhamentos para sua superação (Hofman, Anand & Keusch, 2004). Os autores afirmam que a defasagem em capacidade de pesquisa entre países do Norte e do Sul se amplia mais rapidamente e é mais evidente nas ciências genéticas. Isto ocorreria em função dos altos custos da investigação neste setor, sobretudo por parte de investimentos privados que esperam retornos correspondentes. Além disso, ponderam que o estado corrente da expertise em biotecnologia varia amplamente entre países e continentes.

Mesmo assim, há que se conceber e colocar em ação mecanismos capazes de enfrentar necessidades infra-estruturais, necessidades de pesquisa, barreiras financeiras, barreiras éticas, legais e sociais. Para estas regiões, as prioridades em pesquisa genômica recairiam em cinco níveis: treinamento e tecnologia para integrar diagnósticos já disponíveis com técnicas de DNA de custo relativamente baixo; pesquisa em vacinas e terapêutica para tuberculose e HIV/Aids; terapêutica, vacinas e diagnósticos em doenças negligenciadas por pesquisadores do Norte por não haver mercado no mundo desenvolvida envolvendo, por exemplo, lepra, dengue, malária, doenças do sono; parcerias para estudos voltados à terapêutica para doenças crônicas, como diabetes e câncer, que também são prioridades no Norte; farmacogenômica, ou seja, o exame das implicações da variabilidade genômica em respostas individuais às drogas (como veremos mais adiante, em outro informe da OMS sobre a genômica e a saúde do mundo, se faz um diagnóstico equivalente).

Uma variação a esta perspectiva de 'responsabilidade genética' pode se apresentar sob o manto mais diáfano da 'solidariedade genética'. No informe "Ponderando interesses no uso de dados genéticos pessoais", de 2002, da Comissão de Genética Humana – um conselho independente do Departamento de Saúde do governo inglês que se dedica a abordar aspectos sociais e éticos em genética humana –, há as seguintes referências:

(o) conhecimento genético pode trazer uma relação especial

uns com os outros. Vivemos nossas vidas como membros de

grandes e pequenas comunidades, e temos certos deveres

[grifo nosso] a outros membros destas comunidades. Tais

deveres podem incluir não causar dano aos outros e e fazer

coisas para ajudá-los. Compartilhar informação genética pode

dar oportunidades a ajudar outras pessoas e outras pessoas

nos ajudarem e temos um interesse comum nos benefícios que

a pesquisa genética possa trazer. Portanto, propusemos o

conceito de solidariedade genética e altruísmo [grifo dos

autores]. Isto sustenta a idéia de, por exemplo, ainda que

ninguém deva se sentir forçado em participar em uma pesquisa

genética, quando tomam esta decisão, as pessoas devem estar

conscientes que ao participar, podem ajudar aqueles que

sofrem de doenças. (Human Genetics Commission, 2002: 6-7) Petersen (2003) assinala que esta tendência não é nem uniforme nem absoluta. Existem até movimentos de descrença e resistência por parte de grupos de mulheres, minorias étnicas e portadores de déficits físicos, particularmente no que se refere à chamada 'reprogenética' – tecnologias genéticas dirigidas à reprodução. Ainda, para o sociólogo australiano, tal conceito refletiria um deslocamento do ideal comunitário enfeixado pela idéia de 'solidariedade social', que se baseava na coesão do tecido social com a predominância de interesses compartilhados.

Além disto, na 'solidariedade genética', tenta-se replicar uma ordem de sentimentos e laços sociais mais densos para contextos em que predominam fluidez e transitoriedade, com alto grau de incompatibilidade com tais padrões de configuração comunitária. A designação de 'solidariedade' aqui dá a impressão de lutar para não assumir seu destino eufemístico, como no caso da expressão 'comunidade solidária', onde, pelo menos, a idéia incômoda de 'obrigação' pareça se atenuar. Isto aparece na construção redundante, mas, diante das circunstâncias, necessária, com que se organizaram determinadas políticas públicas e planos governamentais de assistência social no Brasil a partir do final dos anos 90, denominada justamente Comunidade Solidária – algo que seria um pleonasmo em outras situações. Ou, talvez, com menos boa vontade, pode-se dizer que a noção de responsabilidade estaria vigente sob uma forma camuflada. Mas seus imperativos morais de caráter biopolítico permanecem atuando em termos de mensagens ambíguas – apesar de não haver 'coerção', há o dever de ser solidário e de fazer o bem comum.

A idéia de estimular a criação de uma 'genômica solidária' está implícita em um informe especificamente dirigido ao desenvolvimento de colaboração em vários níveis em termos genômicos entre centros tecnologicamente avançados e países do terceiro mundo, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 2002). O título do informe é "Genômica e a saúde do mundo" dedicado ao 'potencial da genômica' para a saúde nos 'países em desenvolvimento'.

A diretora geral da OMS à época (2002), a norueguesa Gro Harlem Brundtland, assume, na introdução do documento, aspectos óbvios. Mesmo assim, eles precisaram ser reiteradamente explicitados, para que não pairassem dúvidas quanto à sua premência: "é realidade que a maior parte da pesquisa genômica e biotecnológica é, na atualidade, realizada no mundo industrializado e está primordialmente dirigida ao mercado. A genômica deve ser também aplicada aos problemas de saúde do mundo em desenvolvimento" (Brundtland, 2002: 13).

No informe, apresentam-se tópicos relativos ao que é encarado como factível no presente (a exemplo do documento canadense Genômica, Saúde e Sociedade: questões emergentes para a política pública, anteriormente discutido): abordagens de hemoglobinopatias, estudos de resistência genética em doenças transmissíveis, diagnóstico via DNA em doenças transmissíveis, organismos resistentes a drogas, faramacogenômica, doenças não-transmissíveis.

Além disto, são abordadas, entre outras dimensões, o desenvolvimento e a disponibilização de serviços de genética clínica e tecnologia de DNA, a genômica para o controle de doenças transmissíveis, o estabelecimento de parcerias internacionais na academia, colaborações regionais e desenvolvimento de tecnologias de comunicação e de bioinformática. Há também capítulos sobre educação e políticas públicas, aspectos éticos relativos à pesquisa, screening e testagens genéticas com ênfase aos países em desenvolvimento (WHO, 2002).

Ainda na introdução, a diretora geral faz um comentário aparentemente inócuo, ao declarar que é "crucial que nós busquemos ativamente meios de envolver cientistas de países em desenvolvimento para biotecnologia inovadora" (Brundtland, 2002: 13) (e esta frase não está retirada do contexto, pois segue imediatamente à citação anterior). Ora, quais cientistas destes países teriam deixado de participar de projetos biotecnológicos inovadores por necessitarem de meios de 'envolvimento' ativo para essa proposta apoiados pela OMS ou de instâncias equivalentes? Salvo profundo e injusto engano e/ou leitura apressada nesta análise, talvez caiba levantar uma pequena dúvida quanto às possibilidades de existir uma conotação levemente culpabilizante nas entrelinhas deste texto quanto a uma suposta falta de disponibilidade aparentemente localizada nos pesquisadores de se abrirem a óbvias questões de desenvolvimento biotecnológico.

Inegavelmente, em síntese, o documento constitui-se em uma promissora carta de intenções, aos moldes de muitos outros produzidos pela OMS. Independentemente disto, propicia um oportuno e detalhado mapeamento do campo genômico e de suas possibilidades de aproveitamento para além das fronteiras do mundo das democracias liberais avançadas. Pois, como se pode verificar em dois trechos do informe – em relação específica ao acesso a técnicas e tecnologias informáticas e computacionais (p. 104) e no comentário final com as mensagens-chave (p. 198) –, é essencial que o campo da genômica seja acessível de modo que o "mundo em desenvolvimento não seja deixado para trás".

O memorável e saudoso sanitarista Carlos Gentile de Mello costumava dizer, com ceticismo, mas de modo curiosamente otimista, no final dos anos 70, diante de planos de reforma da previdência social brasileira e das recorrentes dificuldades de implementação nestes tempos: 'Melhor do que isto, só se for verdade...' Nosso desejo é de que este informe não se constitua em uma versão do terceiro milênio de planos que infelizmente ficaram no papel, ou agora, em versão tecnologicamente sofisticada, que talvez fiquem nos discos rígidos dos computadores ou nas memórias externas – uma espécie de saúde genômica para todos depois do ano 2000, sem que se evolua, nesta direção, de modo concretamente satisfatório (a exemplo do que ocorreu com o lema da OMS nos anos 1980 e 1990 "Saúde para todos no ano 2000").

25O biologicismo é uma ideologia que pretende utilizar premissas essencialistas dirigidas ao entendimento da matéria viva de modo a explicar o comportamento dos seres humanos nos registros psicológico e social. Esta ideologia se reveste de intencionalidade de modo a explicar o comportamento dos seres humanos nos registros psicológico e social. Basicamente, nem o discurso, nem os objetos de estudo dos atuais sociobiólogos se distinguem muito daqueles feitos, no século XIX, por morfologistas como Lombroso, que também apelou a diferenças na forma de cérebros de homens e mulheres, de homossexuais, adictos ao álcool, ou criminosos. Posteriormente, a mesma ideologia se aplicou tanto aos microorganismos como ao metabolismo. É interessante notar que as perguntas de investigação tenham ido sempre no mesmo sentido, ou seja, como a biologia determina a sociedade ou o comportamento, e que, aceitando esta proposição epistemológica, quase nunca se investigue no sentido inverso, isto é como a sociedade – a história social – determina a biologia.

26 Já assinalamos o problema da falta de referentes na ciência positivista sobre as conexões de verificação entre os processos in vivo, in vitro e in silico. Este déficit enorme na epistemologia positivista é possivelmente responsável tanto pelas grandes discordâncias e faltas de reprodutibilidade de muitos experimentos, como pela falta de resultados realmente úteis até o momento. O perigo de uma verdadeira mudança revolucionária, no sentido kuhniano de mudança de paradigmas, começará quando a genômica finalmente invente algo que sirva para saúde humana em termos coletivos. Em meados do século XX, o sonho da era antibiótica de que toda a doença era produzida por um microorganismo e que cada microorganismo teria seu tratamento antibiótico foi possível graças ao espetacular efeito da penicilina sobre doenças freqüentes e graves, como a pneumonia.