A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

Luis David Castiel · Capítulo 4 de 17

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A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

2 - Discursos sobre riscos e comportamentos sadios baseados em evidências

2 - Discursos sobre riscos e

comportamentos sadios baseados em

evidências

 

Os discursos sobre a saúde nunca se referem tão-somente a dimensões da saúde. Se tais discursos significam modos de pensar, escrever, falar sobre a saúde e suas práticas, é preciso situá-los em determinados momentos históricos e saber as razões por que se legitimam ao acompanharem a ordem econômica, política e social onde são gerados, sustentados e replicados e se ajustarem a ela. Discursos sobre a saúde (e, mais especificamente, sobre riscos à saúde) consistem em construções contingentes, de caráter

normativo, inapelavelmente vinculadas a outros interesses. 4 Dependem, explicitamente ou não, de definições sobre o que é ser humano, o tipo de sociedade que se almeja e os modos de atingi-la (Robertson, 2001).

Atualmente, há um visível predomínio de discursos sobre saúde produzidos por um campo que se convencionou chamar 'nova saúde pública' (NSP). A NSP utiliza conceitos e estratégias como promoção e educação em saúde, marketing social, screening diagnóstico, imunização, participação comunitária, políticas públicas de saúde, colaboração intersetorial, ecologia, economia em saúde, entre outras.

A NSP caracterizar-se-ia por sua postura modernista. Isto é, se ancora na crença iluminista da ciência e nos valores da racionalidade e de suas instituições e modos de organização para sustentar sua legitimidade social com vistas à busca de melhores condições de saúde no eterno enfrentamento às ameaças à integridade humana. Em síntese: a idéia de primazia do individualismo, em que agentes racionais exercem suas prerrogativas; um clima de descrédito quanto à autoridade política dos governos; destaque excessivo quanto ao papel do mercado como instância reguladora da economia (Petersen & Lupton, 1996).

Sob tal ótica, a nova saúde pública não aprofundaria as relações de poder e se adequaria a proposições compatíveis com o projeto neoliberal em voga. Ao mesmo tempo, sob o ponto de vista crítico, seus conceitos, quando transpostos do formato individualista para dimensões coletivas – como no caso de 'empoderamento' e 'estilo de vida' –, teriam a potencialidade de atuar em propostas de mudança social (Carvalho, 2004).

Mas, em sua faceta hegemônica, a saúde promocional escapa do âmbito da medicina, da fisiologia, da epidemiologia. Percorre outros caminhos em que vigoram discursos sobre a moral e os bons costumes. E também é portadora de concepções biopolíticas da subjetividade somática que erige o corpo em sua maleabilidade automanipulável como matriz de identidade (Ortega, 2003).

Essa visão de mundo aparece de modo emblemático em Frankish e colaboradores (1998), que estudaram as relações entre a categoria 'viver ativo' (active living) e os determinantes de saúde como meio de demarcar a postura das pessoas em relação a atividades físicas, de lazer e recreação como componentes de um 'estilo de vida' considerado saudável. Sob esta perspectiva, tais pesquisadores afirmam que o 'viver ativo' sustenta que "participação em atividades (comportamentos)" que "envolvem a pessoa como um todo, corpo, mente e espírito; é parte de uma vida dinâmica, na qual indivíduos e ambientes continuamente se interrelacionam e afetam um ao outro, e é subjetivo em natureza, seu significado relativo a cada pessoa" (Frankish et al., 1998: 289).

Algumas críticas à saúde pública atual (Martínez-González & Irala, 2005) se mostram pertinentes em certos aspectos do 'diagnóstico' da sua precária efetividade em vários quadros ('fracasso clamoroso', segundo a bombástica retórica dos autores). Isto aparece em dimensões como: obesidade, diabetes, doença cardiovascular, consumo de drogas, doenças transmissíveis, acidentes de tráfico e problemas da transição epidemiológica em países em desenvolvimento que não superaram a carga de doenças transmissíveis. Os autores ensaiam uma reprovação ao 'paradigma dos fatores de risco' por 'culpar sempre a vítima' e por se fechar em um 'viés individualista' (Martínez-González & Irala, 2005: 657). Infelizmente, o 'tratamento etiológico' se mostra contraditório – tanto culpabilizante como individualista, com afirmações, na melhor das hipóteses, ingênuas e categorias de caráter incomodamente comportamentalista. E, mais grave, brandindo argumentos com matizes autoritários ideologicamente discutíveis.

Menciona-se o fato de os conhecimentos epidemiológicos não haverem sido transformados em políticas de mudança de comportamentos. Em relação à obesidade e ao tabagismo, entre outros problemas, o foco da questão se localiza na débil 'força de vontade' das pessoas, solapada pela força da adicção ou do hábito. Para isto, é preciso educá-las para mudar comportamentos de modo a viabilizar o 'autocontrole' para que se faça a prevenção, para não se 'chegar tarde' demais. O argumento se torna culpabilizante ao enfatizar que se deve facultar dimensões como a "autonomia responsável" (grifo nosso), o "autodomínio de uma personalidade madura" (p. 659). Ora, os que não têm autodomínio passam a ser vistos como "criaturas passivas, preguiçosas e conformistas" (p. 659), destituídos de capacidade de realizar esforços, diante dos estímulos de contextos culturais inevitavelmente dominados por poderosas indústrias e empresas de comunicação. A leitura individualista se manifesta nitidamente no trecho a seguir: "propor aos cidadãos modelo que lhes ajudem a autoconstruir sua personalidade e seus valores, que os façam responsáveis e donos de si mesmos, capazes de resistir às pressões comerciais dos estilos de vida autodestrutivos" (Martínez-González & Irala, 2005: 659).

Apesar do freqüente uso individualista da noção de 'estilo de vida', a própria Organização Mundial da Saúde (OMS, 1998) atualiza e modifica sua definição admitindo que o 'estilo de vida' se constitui em um modo de viver baseado em padrões identificáveis de comportamento determinados pela interação entre as características pessoais das pessoas, trocas sociais e condições socioeconômicas e ambientais.

A OMS reitera sua importância ao assumir que o estilo de vida tem um profundo efeito na saúde dos indivíduos. Sinaliza também que, se a saúde deve ser aperfeiçoada ao capacitar indivíduos a modificar seus estilos de vida, a ação precisa ser dirigida não apenas ao indivíduo, mas também às condições sociais e de vida que interagem para produzir e manter estes padrões de comportamento. A OMS reconhece, ainda, que não há um 'ótimo' estilo de vida a ser prescrito para todos (OMS, 1998).

O documento, por suas próprias características de glossário, não avança para além do caráter genérico de suas bem intencionadas afirmações em termos da aplicação de suas propostas em termos de políticas públicas. Porém, em outro verbete, enfatiza a dimensão individual das aptidões de vida (life skills) que devem ser ensinadas aos indivíduos durante a fase escolar com vistas a proporcionarem comportamentos adaptativos e positivos que permitam aos indivíduos lidarem efetivamente com as demandas e desafios da vida cotidiana (OMS, 1998).

Nesta perspectiva, tais aptidões pessoais, interpessoais, cognitivas e físicas servem para viabilizar os indivíduos a controlarem e dirigirem suas vidas e desenvolverem a capacidade de conviver e produzir mudanças em seu meio ambiente. Exemplos de aptidões individuais de vida: tomada de decisões e solução de problemas, raciocínio criativo e crítico, consciência de si (self awareness) e empatia, aptidões de comunicação e relações interpessoais, enfrentamento (coping) de emoções e gestão de estresse. Ou seja, traços constitutivos da vida cotidiana no ambiente do individualismo contemporâneo, em que a idéia de responsabilidade pessoal se destaca, juntamente às de liberdade de escolha, direito de decisão,

capacidade de agência ( 5 agency ). Mas todos estes fatores tendem a ser subsumidos à égide da noção do que podemos denominar competência consumidora.

O discurso da responsabilidade é abordado no longo documento com vistas ao estabelecimento de políticas públicas governamentais elaboradas pela unidade estratégica do gabinete do primeiro-ministro da Inglaterra intitulado "Personal responsibility and changing behaviour: the state of knowledge and its implications for public policy" (Halpern et al., 2004). Mesmo assumindo não se tratar (ainda) da configuração de política pública, reflete o espírito vigente no contexto da comunidade européia, em geral, e da Grã-Bretanha, em particular. Vale a pena nos determos um pouco mais neste material, pois parece bastante representativo quanto ao possível rumo que os governos consideram como caminho a seguir diante de aspectos referentes à responsabilidade governamental (sob a forma de políticas públicas) e à responsabilidade pessoal (diante dos comportamentos individuais em termos de saúde), entre outros tópicos.

Segundo o texto, se o povo demanda dos seus governos uma economia forte, melhores condições de educação, segurança, saúde etc., para alcançar isto, os governantes devem utilizar expedientes como leis, punições, regulações, taxações e subsídios, provisão de serviços, informação e persuasão. Muitos destes recursos são desenhados para influenciar mudanças no comportamento das pessoas, em especial aumentando a responsabilidade pessoal e propiciando mudanças comportamentais em áreas como a saúde.

Afirma-se, ainda, no documento que quase todas as políticas públicas se baseiam em premissas sobre o comportamento humano, mas estas, no entanto, raramente são explicitadas ou testadas diante de evidências. O documento teria, então, entre outras, a função de agregar o conhecimento disponível para estimular pensamentos criativos para a elaboração de políticas no futuro. Os três fatores-chave para justificar o interesse do documento em responsabilidade pessoal seriam:

ᐅ A obtenção de resultados de políticas públicas requer maior

engajamento e participação dos cidadãos mais do que as A terceira parte traz propostas de aplicação no âmbito de emprego, saúde, criminalidade e educação a partir dos conceitos provenientes de todos estes modelos para abordar os efeitos do estilo de vida/comportamento na saúde – dieta, tabagismo, uso de álcool, inatividade física, falhas no processo de imunização, condução arriscada de veículos, hipertensão nãotratada, não utilização de cintos de segurança, uso de armas de fogo. O lema apresentado é ajudar as pessoas a se ajudarem.

tradicionais formas de prover serviços – pois "os governos não

podem fazer tudo sozinhos" (Halpern et al., 2004: 27). Um dos

exemplos diz respeito ao 'estilo de vida' – os efeitos protetores

da dieta e exercícios físicos em termos de saúde.

ᐅ Há fortes argumentos morais e políticos para proteger e

aperfeiçoar a responsabilidade pessoal. Dentre eles, o valor

dado à capacidade das pessoas e comunidades de assumir

controle e agir em função de seus melhores interesses como

bens em si mesmos. Neste sentido, a capacidade de agência

(agency) pessoal parece ser uma necessidade humana

fundamental. E, também, o argumento que o exercício da

responsabilidade fortalece o caráter individual e a capacidade

moral.

ᐅ Intervenções comportamentais podem ser significantemente

mais efetivas em relação aos custos que a provisão tradicional

de serviços. Outra vez, dieta adequada para prevenir colapsos

cardíacos é uma estratégia mais barata que lidar com as

conseqüências de má dieta e cirurgia cardíaca.

A segunda parte do texto resenha sumariamente 'teorias' e 'modelos' de mudança comportamental, baseados em observações empíricas. Consistem em vários modelos individuais (condicionamento clássico e instrumental, consistência e dissonância cognitiva, heurística e o modelo de processamento de informações do consumidor, modelo dos estágios de mudança e teoria do comportamento programado); interpessoais (teoria cognitiva social, redes de suporte social, influência social e comunicação interpessoal, teorias de atribuição e equilíbrio); e comunitárias (teoria do capital social, difusão de inovações) e condicionalidade (um novo enfoque comportamental baseado em incentivos e desincentivos). Há aqui uma abordagem crítica baseada em evidências empíricas ao modelo comportamental alicerçado no agente racional que procura maximizar suas ações em termos de custo-benefício, pois os pressupostos de tal abordagem raramente são satisfeitos.

Por fim, são considerados os desafios ao enfoque proposto: aceitação pública, limites da dimensão punitiva da proposta de condicionalidade, preferências individuais e necessidade de personalização e sensibilidade cultural, eficácia das intervenções, riscos de intervenções mal concebidas aumentarem a inequidade e a relação com a responsabilidade coletiva.

Antes de discutirmos o documento, importa delinear a noção de responsabilidade. Sabemos que tal tema permite complexas abordagens ético-filosóficas, jurídico-legais que decerto não cabem aqui. Por enquanto, basta considerarmos que a idéia de responsabilidade, em termos gerais, envolve primordialmente a noção de 'dever' ou 'obrigação' de indivíduos/instituições prestarem contas a instâncias de regulação – concretas ou simbólicas –, por determinadas ações, sejam próprias, sejam de outrem ou relativas a objetos que, através de algum compromisso, lhes foram confiados. Cabe destacar que se está, nestas circunstâncias, sujeito a dimensões da lei, dos usos e costumes e/ou da consciência.

Responsabilidade consiste em uma idéia normativa que enseja e sustenta ordenações essenciais à organização dos coletivos humanos. É conhecida e inevitável a associação de 'risco', 'responsabilidade' e 'culpa' (Douglas, 1992), especialmente no que se refere ao descumprimento das obrigações (esta tematização será desenvolvida mais adiante).

A retórica da responsabilidade pessoal6 e da mudança de comportamento vigente ocorre simultaneamente sob a ambiência do individualismo e da moralidade das sociedades modernas e das crises fiscais e econômicas dos sistemas de bem-estar social de muitas nações. Estes elementos constam do documento. Assim, temos respectivamente a justificativa de que "o exercício da responsabilidade fortalece o caráter individual e a capacidade moral" (p. 7), e a assunção de que "intervenções comportamentais podem ser significantemente mais efetivas em relação aos custos que a provisão tradicional de serviços" (p. 3).

Além disto, convive-se com a idéia de que a 'verdade' só pode ser obtida mediante buscas quase paroxísticas pelo que se convencionou chamar de 'evidências' – emblemas deste discurso de verdade empiricamente correto (ou seja, do que é tangível, pois o que não é retido pelo filtro gerador de evidências, ou tem importância secundária, ou, pior ainda, não existe). Estas irão servir de matéria-prima para a constituição do que estamos chamando 'informes majoritários' – como o documento inglês acerca da responsabilidade pessoal em questão. Ou seja, a dimensão profética que era obtida de modo premonitório pela 'expertise' dos mutantes transgênicos de Dick (ainda que sujeita a falhas) tenta ser alcançada através de resultados, ainda sem garantias satisfatórias de conclusividade, obtidos em estudos empíricos quantitativos. Isto é perceptível na reunião arbitrária de conceitos provenientes dos muitos modelos de mudança comportamental empregados para explicar e justificar modos governamentais de gerir a saúde nos dias de hoje. Utiliza-se freqüentemente a expressão 'evidências empíricas' ou equivalentes como elementos legitimadores para intervenções comportamentais de indivíduos e coletivos humanos. Este fato não é à-toa. Há que se levar em conta que as origens da ciência moderna estão vinculadas à revolução puritana do século XVII na Inglaterra e que seus primeiros seguidores eram também protestantes praticantes das crenças calvinistas (Merton, 1938).

Sem desconsiderar ingenuamente as inegáveis vantagens e benefícios da abordagem empírica na construção do conhecimento médico-epidemiológico, importa enfatizar, ainda que brevemente, por um lado, a vigorosa busca por hegemonia desta modalidade de pensamento instrumental e, por outro, suas correspondentes decorrências em termos ideológicos, sociais e políticos.

Uma categorização e análise das críticas ao enfoque das evidências na medicina elaborada por Cohen, Stavri e Hersh (2004) é bastante esclarecedora. Uma das críticas, a que mais nos interessa, assinala que as premissas filosóficas vinculadas ao empiricismo evidenciológico que, em sua forma extrema, situa os resultados de estudos experimentais como primordiais em relação a outras formas de conhecimento, assumem a impossível proposição de que observações possam ser feitas de modo totalmente objetivo, independentemente de teorias e da visão de mundo do observador.

Além disto, a definição de 'evidência', mesmo com níveis de pertinência, tem suas limitações. Aquilo que é considerado evidência é passível de excluir informações relevantes ao conhecimento e à compreensão da situação de saúde, podendo colaborar com mecanismos culpabilizantes. As abordagens baseadas em evidências costumam hierarquizar os resultados dos estudos de acordo com os métodos de coleta, com prioridade para estudos experimentais aleatorizados e metanálises. E, assim, tendem a considerar de importância secundária as informações de caráter qualitativo, de caráter sociocultural e psicológico (quando não a consideram supérfluas), e aquelas referidas a esferas sociopolíticas, que se mostram menos amigáveis aos dispositivos quantitativos numéricos.

A utilidade de aplicar a Medicina Baseada em Evidências (MBE) em casos individuais é restrita em função das circunstâncias pessoais que fazem com que valores individuais variem idiossincraticamente e, também, pelo fato de haver uma grande possibilidade de ocorrência de manifestações atípicas de doenças. De modo que, para muitos pacientes, podem não existir evidências satisfatórias para sustentar as ações médicas. Curiosamente, a avaliação da própria MBE padece de um aparente paradoxo. Conforme suas premissas metodológicas, para legitimar determinada ação em saúde, são necessários ensaios clínicos aleatorizados e estudos de metanálise que demonstrem eficácia dos efeitos estudados em relação aos gruposcontrole. Pois não há 'evidências' originárias mediante esta ordem de estudos que assegurem empiricamente a eficácia superior das decisões clínicas provenientes da MBE em comparação à assistência de saúde a pacientes através de outros enfoques clínicos não-evidenciológicos (Cohen et al., 2004).

Ao final desta parte, um comentário sobre o título. Talvez seja o caso de indagar-se se, além de descrever com pertinência o tema do documento, poderíamos nos aventurar a uma interpretação um pouco mais enviesada e, decerto, provocadora. Ou seja, pensar que, em função dos sortilégios polissêmicos, a expressão 'estado do conhecimento', além de referir-se ao sentido de situação das coisas que são conhecidas em relação às mudanças que atuam nesta condição, também pode ter uma outra leitura, em que se entenda 'Estado' em sua conotação de 'unidade política'. Então, teríamos o

Estado do Conhecimento7 como uma entidade política de traços neoplatônicos que se ergue para além dos fragilizados estados nacionais, onde o que se designa como conhecimento que vai reger suas políticas provém de estudos empíricos geradores de discursos de verdade – destituídos de enfoques estruturais teóricos e filosóficos razoavelmente consistentes. Os muitos estudos que geram tais 'evidências', de certa forma, vão servir de base para constituir os informes majoritários como o documento inglês.

É preciso deixar claro que não se pretende adotar aqui uma postura anticientífica, obscurantista ou de menosprezo pelas abordagens empiricistas no terreno da saúde. Sem dúvida, alguns indiscutíveis avanços neste terreno são capazes de proporcionar melhores condições de saúde às pessoas que têm acesso a estas benesses. Mas há certos dilemas, perplexidades e talvez equívocos que poderiam ser mais bem abordados diante da assunção de que talvez estes discursos sanitários sejam compatíveis com o espírito de nossa época. E que até mesmo seriam sintomas destes tempos, mudando, assim, a ênfase hegemônica da discussão em termos tecnicistas para incluir as negligenciadas dimensões filosóficas da produção do conhecimento. Talvez partindo de outro ponto, seja possível refazer os caminhos labirínticos que aparentemente não parecem nos conduzir aos melhores destinos. Giddens (1979) defendia que o estudo da sociologia é a busca por alternativas para o futuro – não somente do que é, mas do que poderia ser. Em termos mais bem-humorados, há uma anedota irlandesa contada por Bauman (2003) ao relatar que, diante da pergunta de um motorista desorientado acerca de como ir a Dublin, um transeunte diz que, se quisesse ir a Dublin, não partiria deste ponto.

Caso estejamos de acordo em que há motivos para descontentamentos com o atual estado de coisas, e, ademais, concordarmos que há necessidade de buscarmos alternativas, não podemos abrir mão de buscar as melhores interpretações possíveis de nossas hipercomplexas sociedades para poder atuar politicamente.

No campo da saúde, é cada vez mais insana a integração sem críticas de pesquisadores e acadêmicos à 'linha de montagem' na

produção compulsiva e irrealista de artigos em revistas científicas 8 (preferencialmente de alto impacto, mas evitando possíveis traumas nestes intentos) e ao discurso de busca 'exaustiva' por evidências empiricistas.

Mesmo tendo uma definição estabelecida no âmbito bibliométrico, é curioso o emprego do 'exaustivo' nesta última designação. Uma vez que não é possível realizar uma busca 'completa' ou total, ou o mais próximo disto, usa-se um adjetivo para indicar que se fez o máximo possível em termos de procura de qualidade e legitimidade na busca geradora de evidências – a ponto de chegar-se à exaustão...

Além disto, como as supostas evidências vão atuar como representantes da verdade, podemos postular que estas fazem parte, sem entrar nos méritos epistemológicos da proposta de conhecimento evidenciológica, de um sintoma de formação reativa diante de desconcertantes e inquietantes níveis de incerteza da época.

4 Faz 40 anos que a saúde pública se preocupa com a sexualidade dos jovens (começou, sintomaticamente, no decorrer dos anos 60, época conhecida pela liberação de costumes), especialmente diante dos efeitos que podem ter as gravidezes em adolescentes e as enfermidades de transmissão sexual. Existem programas baseados em muitas perspectivas e ideologias, mas ninguém, utilizando a informação científica disponível, propôs, em nenhum lugar do mundo, o fomento do lesbianismo como a prática sexual mais que segura – o risco de gravidez entre lésbicas é zero, e a única infecção sexualmente transmissível que se transmite efetivamente pelas relações entre mulheres é a pediculose do púbis. Toda iniciativa de prevenção em saúde pública tem ancoramentos nas crenças daqueles que as propõem.

5 Não seria justo não reconhecer que os movimentos da Nova Saúde Pública e da Promoção da Saúde têm também interessantes exemplos de informes minoritários. A corrente da promoção da saúde hegemônica nos Estados Unidos, centrada na culpabilização das pessoas por suas condutas individuais, não se tornou hegemônica nem no Canadá, nem na Europa, donde partiram as idéias de desenvolvimento de Entornos Saudáveis como tarefa coletiva durante os anos 80 do século XX.

6 Discutiremos aqui a 'responsabilidade pessoal', mas é importante considerar que a noção de responsabilidade afeta a qualquer pessoa ou grupo que atua para obter um fim e que pode compreender as conseqüências de seus atos. Responsabilidade está ancorada na noção ontológica de livre arbítrio (free will). Em geral, se aceita que afeta os indivíduos, os grupos, o governo dos estados e as empresas. Como deixou bem claro Hannah Arendt (2003), a capacidade de requerer responsabilidade está, inequivocamente, vinculada à existência, à liberdade e se define mediante conhecimento ex ante. Para que alguém possa ser responsável pelo efeito de suas ações deve conhecer ou prever razoavelmente esse efeito antes de produzir a ação e ter capacidade para escolher entre fazê-la e não fazê-la. Não podemos pedir, às pessoas que fumavam antes de Richard Doll e Richard Peto iniciarem seus clássicos estudos, responsabilidades por seus cânceres de pulmão. Além do mais, como veremos a seguir, a classe social pode constituir-se em um fator limitante quanto à capacidade dos indivíduos para escolher livremente.

O problema central reside no fato de dispormos de uma grande quantidade de informação sobre as conseqüências das ações dos indivíduos, mas as conseqüências das ações dos governos e das empresas permanecem em um estado límbico de invisibilidade para a saúde pública e para a opinião pública. Este estado de nosso conhecimento contrasta com a própria teoria da saúde pública. Pois, ainda que esta aceite a existência de causas biológicas, comportamentais e sociais que podem conduzir tanto a indivíduos doentes como a populações doentes, a aplicação do conhecimento disponível está direcionada ao biológico e comportamental.

7 Uma leitura ainda mais radical foi realizada pelo filósofo espanhol Fernando Savater, cunhando a idéia do Estado Clínico. Para ele, a única explicação do enorme esforço financeiro que realizam os governos dos países desenvolvidos em saúde, em termos de aliviar o sofrimento humano, levando em conta ser tão pobre a efetividade da prática médica, é o seu papel inovador no controle social, superior ao do aparato jurídicopolicial ou das igrejas.

A mudança do controle social sobre indivíduos ou grupos para o enfoque comportamental contém um aspecto totalizante e amedrontador: literalmente ninguém está a salvo de que 'sua conduta' não seja associada a uma enfermidade no próximo número do The Lancet. Mas, sobretudo, abriu um dilema de grandes proporções na filosofia do direito, uma vez que se negam as garantias legais básicas. Se a sociedade quer castigar as pessoas por seus estilos de vida, isto deveria ser feito sob regras que não fossem menos estritas que o direito penal. Isto é, as leis devem ser estabelecidas de antemão e ser conhecidas por todos, deve haver direito a escutar as partes, e o juiz, o acusador e quem executa a pena não podem ser a mesma pessoa. Tudo isto afeta de modo bastante insatisfatório a atual prática da medicina.

8 Os dois autores desempenhamos tarefas como editores em revistas científicas, e nos chama a atenção quão pouco se valoriza a imaginação e a introdução de enfoques alternativos no contexto das publicações acadêmicas em saúde. Tanto em espanhol como em português chama a atenção que o anglicismo 'medicina baseada em evidências' tenha tido tanto êxito, ao invés de uma tradução mais adequada, como seria 'medicina baseada em provas'. Talvez a resposta esteja localizada, de alguma forma, na falta de imaginação que antes comentávamos, já que tanto em espanhol como em português, o evidente é o óbvio. Literalmente, MBE seria a medicina baseada em obviedades.