A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

Luis David Castiel · Capítulo 2 de 17

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A saúde persecutória: os limites da responsabilidade

Introdução: D. Quixotech em Nova Laputa

Introdução

 

D. Quixotech em Nova Laputa *

 

Há um lugar que, contrariando as leis da física, paira como uma ilha aérea no Pacífico Norte, por levitação magnética. Esse lugar se chama Nova Laputa.

A etimologia da palavra Laputa é controversa: viria do laputano arcaico com o sentido de laap – cabeça, ut – dentro, aah – direto. Há lingüistas que interpretam tal nome como aquilo que existe fora e entra diretamente para o pensamento sob a forma de microentidades que podem se juntar de formas diferentes e se transformar naquilo que hoje se chama 'idéias'. Outros consideram diferentemente: o que está dentro da cabeça serve para representar e entender o que está fora. As discussões permanecem inconclusivas até hoje.

As pessoas que vivem em Nova Laputa são muito bem-educadas, treinadas no interior do melhor espírito racional para orientar suas ações. Existem pesquisadores de diversos tipos que se dedicam exclusivamente a atividades que visam a produzir categorias, classificações, modelos e técnicas para levar a cabo investigações cada vez mais elaboradas e produtivas, de tal modo que conduzam a achados e evidências relativos às causas e razões pelas quais as coisas acontecem da forma como acontecem, e, assim, viabilizem intervenções e a produção de tecnologias que possam colaborar para o bem-estar e para a longevidade de seus habitantes.

As preocupações predominantes na atualidade são diferentes das registradas na Antiga Laputa, em que suas prioridades eram relacionadas à ciência teórica, mormente matemática, astronomia e tecnologia, mas afastadas do campo prático – como construir casas e confeccionar roupas – aliás, essas eram fraquezas dos antigos laputanos. Não existiam fitas métricas, mas somente compassos e esquadros para medir. Assim, casas e roupas fabricadas desta maneira eram muito mal feitas.

Agora, em Nova Laputa, os interesses se voltam principalmente para a pesquisa científica dirigida ao terreno da produção de tecnologias para facilitar a vida e trazer distração para sua gente. Mas não só. Os habitantes de Nova Laputa também buscam melhorias constantes para a saúde de sua população. Uma de suas atividades essenciais é produzir medicamentos e ações eficazes na busca da elevação da qualidade juntamente com a ampliação dos anos de vida. Ademais, eles se preocupam em melhorar constantemente a aparência física e minimizar os desconfortos emocionais de muitos.

Também continua sendo discutido o fato de ser plágio ou não de um hino de outro país situado nos trópicos o trecho da letra do hino laputano que diz: "Laputa, és mãe gentil dos filhos de seu solo". Há alguns nacionalistas empedernidos que querem mudar o hino nacional por considerarem que os responsáveis pelo hino, além de plagiadores, tiveram a infelicidade de dar margem a interpretações insultuosas ao caráter dos filhos de Laputa.

Abaixo de Nova Laputa há outra ilha maior no nível do mar, antigamente chamada Balnibarbi, agora chamada Balnibarbie (capital Lagado). Lá estavam os indivíduos que trabalhavam para sua subsistência em seus territórios, mas também participavam na sustentação do alto consumo de energia da ilha superior. Caso não se comportassem de modo esperado, sofriam terríveis represálias, incluindo alterações climáticas.

Grande parte do território para além de Balnibarbie foi dominada por Nova Laputa através de um sofisticado sistema de comunicação via rede de máquinas engenhosas – que foram chamadas, em suas versões portáteis mais comuns, de 'laputops', em homenagem ao lugar onde foram concebidas e desenvolvidas.

Através deste sistema de comunicação em rede dessas máquinas, conseguiu-se criar um potente sistema de trocas econômicas em escala planetária em alta velocidade – um fenômeno que ficou conhecido por 'planetarização' e que ampliou o domínio laputano.

Assim, populações de outras regiões do mundo foram submetidas a esta lógica e, por serem consideradas menos civilizadas, passaram a ser chamadas balnibárbaros. Depois de atos de insubordinação que incluíam a prática de atos extremos de violência, Lagado sofreu com vários tsunamis, terremotos e furacões e outros fenômenos de aquecimento local provocados pelos governantes de Nova Laputa que controlavam a luz do sol que chegava aí. Com as mudanças climáticas, a população da cidade a abandonou, e a área se transformou em uma região fantasma que, conforme as marés, some debaixo das águas, passando a se chamar Alagado.

 

Existe, em Nova Laputa, um grupo extremista que se denomina Movimento de Libertação do Humano Oprimido no Interior do Acadêmico – ou simplesmente Molhonia. Seu lema é "permita que o ser humano dentro de cada pesquisador saia do armário". São ativistas radicais que criticam de forma contundente as instituições neolaputanas e fazem incômodas chacotas aos intelectuais da ilha ao utilizarem designações como: Organização de Pesquisadores Quixotécnicos, Associação de Bibliotecários da Babilônia, União dos Analistas Idiomáticos Wilkinsianos.

Na realidade, a crítica se dirige a grupos de investigadores, bibliotecários e lingüistas que defendem um exacerbado enfoque teo-empiricista para orientar suas ações. Seguem uma religião que se mistura com a atividade acadêmica. Seus textos sagrados consistem em uma coleção de livros religiosos que não cessam de ser escritos, publicados e armazenados em dispositivos portáteis de memória – recebem o nome de 'A Bibliografia Sagrada'. Estes acadêmicos se dedicam com afinco a desenvolver projetos de pesquisas e a publicar compulsivamente os resultados de suas investigações sob a forma de artigos em múltiplas revistas científicas, especialmente aquelas de pedigree acadêmico mais conceituado. Os que mais publicam e mais são citados estão mais próximos de seus deuses e, portanto, protegidos e respeitados. Em Nova Laputa, aqueles que não publicam se prejudicam – isto é, padecem de uma profusão de agruras. Inclusive com alto risco de perecer de maneira precoce, de modo inesperado e sem causas aparentes, como se fora uma maldição lançada por seus deuses bibliométricos.

Para o Molhonia, a perspectiva científica neolaputana é 'quixotécnica' em função de reproduzir o comportamento obsessivamente insano de um personagem inspirado no Quixote escrito identicamente ao de Cervantes, palavra por palavra, mas trazendo uma nova e rica perspectiva, adaptada aos tempos atuais e superior ao Quixote cervantino. Encarnando o atual esvaziamento das narrativas utópicas, D. Quixotech, o Cavaleiro da Entusiástica Figura, se entusiasma com o poder e vigor de seus instrumentos de conhecimento e produção de realidades. Um modelo para uma legião de pesquisadores empiricistas espalhados em rede pelo mundo defendendo, de uma forma ou de outra, os interesses neolaputanos.

Dizem mais: que de tanto lerem manuais de metodologia científica e de estatística, os pesquisadores chegam à conclusão de deter um dispositivo poderoso e efetivo não só para atuar no mundo, mas também para legitimar pontos de vista como sendo superiores e desqualificar outros saberes como sendo insatisfatórios ou pobres para o que importa, ou seja, a produção de evidências via pesquisas empíricas.

Mas este modo de ordenar sustenta, às vezes, inconscientemente, ideologias hegemônicas, de acordo com interesses do poderoso império. Suas 'armas' são as tecnologias de informação e comunicação e objetos técnicos que fazem com que imagens virtuais/representações se confundam com o que pertenceria à suposta ordem do 'real'.

Um dos sintomas da época de Nova Laputa é a dificuldade de distinguir o que seria 'real' e o que seria 'simulacro' ou delírio. O computador constrói realidades virtuais. Há uma implosão das categorias real/virtual que traz dificuldades entre se definir o que 'é' com o que 'parece ser'. Os quixotécnicos laputanos não hesitam em considerar reais objetos que não trazem garantias de sua condição realista. Ou ainda em cair na 'falácia metonímica' que vigora em tempos de rápidas decisões – tomar a parte como representante fidedigno do todo. Ou pior: acreditar que a parte é o todo.

É sabido que a linguagem alegórica veicula idéias e pensamentos de forma figurada, com o objetivo de significar alguma coisa implícita, além do que está sendo explicitado. Já a paródia, seguindo o Houaiss (2004), diz tratar-se de obra literária, teatral, musical etc. que imita outra obra com objetivo jocoso ou satírico.

Agora, seguindo Agamben (2005), a paródia séria seria algo aparentemente contraditório – mas, na verdade, situa-se na tensão entre formato cômico e o conteúdo sério. O paródico seria algo fora de lugar. Se a literatura pode ser ficcional ou não-ficcional, o objeto da paródia, ainda que deformado, faz menção a algo insuportavelmente presente, por isto, mantido à distância, sob a forma caricatural. A paródia se 'define' na indefinição entre ficção e não-ficção (Agamben, 2005).

O parodiante pode ter razões para renunciar a uma representação direta de seu objeto: o problema de jogar fora o bebê com a água do banho – no presente caso, as dificuldades em simultaneamente admitir o sucesso em vários aspectos do empreendimento científico, no sentido de desenvolver condições técnicas capazes de melhorar as condições de vida de determinados grupos humanos, e ao mesmo tempo criticar seu fracasso em estender seus benefícios a grandes contingentes populacionais deste planeta, ao mesmo tempo que a ideologia cientificista cria a sua premissa de um 'lá-fora' unívoco, impedindo a existência de outras possíveis realidades.

Esta séria paródia alegórica calca-se em várias obras da literatura. Pela inversão de significados, corre o risco de ser mais uma discutível referência, quiçá herética, do que homenagem, às obras dos autores originais. Inspira-se na obra de Cervantes e na parte 3 das viagens de Gulliver – viagem a Laputa, o mundo da ciência de Swift (Swift, 2001). As fontes para quase todas as teorias dos laputanos e balnibarbianos podem ser encontradas nos trabalhos dos cientistas contemporâneos de Swift e particularmente na Philosophical Transactions of the Royal Society nas primeiras décadas de 1700.

É sabido que Swift era um inconformado crítico e satírico da sua época, tendo, sintomaticamente, morrido aos 77 anos, surdo e louco, em 1745, em Dublin, onde nasceu. Em sua lápide, o epitáfio em latim, antecipado por ele, é: "Aqui jaz o corpo de Jonathan Swift, doutor em Teologia e deão desta catedral, onde a colérica indignação não poderá mais dilacerar-lhe o coração. Segue, passante e imita, se puderes, esse que se consumiu até o extremo pela causa da Liberdade" (Wikipedia, Acesso em: 15 dez. 2006).

A paródia também tenta refletir a especial ironia de Jorge Luis Borges em três de seus mais conhecidos contos: A Biblioteca de Babel (1972a), o Idioma Analítico Lingüístico de John Wilkins (Borges, 1999) e Pierre Menard, autor de Quixote (Borges, 1972b). Todos os três autores servem aqui para ilustrar, cada qual a seu modo e em diferentes níveis, o exagerado predomínio da razão instrumental que vigora nos tempos atuais.

O Quixote de Menard (Borges, 1972b) retrata a replicação como essencial ao primado da objetividade; a Biblioteca de Babel (Borges, 1972a) é usada para representar o afã de organização e armazenamento de informação, representado pela grande rede de computadores; e a classificação desconcertante oriunda de uma enciclopédia chinesa presente em "O idioma analítico de John Wilkins", usada por Foucault (1992) em As Palavras e as Coisas,

Em suas remotas páginas está escrito que os animais se

dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados,

(c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães

soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como

loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um pincel finíssimo

de pelo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o

jarro, (n) que de longe parecem moscas. (Foucault, 2002: 9)

juntamente com o Quixote, serve como emblema do fim da racionalidade da similitude e início da visão baseada na lógica categorial da identidade e da diferença. Sem dúvida, um ponto essencial para a instituição da racionalidade que veio a vigorar no projeto científico empiricista-positivista.

Este é o pano de fundo para nos situar diante da complexa tarefa de avaliar a real efetividade das propostas individualistas hegemônicas de promoção em saúde centradas em evidências científicas – que aqui recebem o epíteto 'saúde persecutória'. Se Laputa pode ser vista como uma manifestação panóptica (mas, como veremos no livro, não apenas), assim podem ser vistas várias práticas persecutórias da promoção em saúde. Ademais, Jonathan Swift foi contemporâneo do criador do panóptico, Jeremy Bentham.

A idéia de introduzir caricaturalmente o modelo de pesquisa biocientífica dominante na forma aqui apresentada não deveria ser encarada como crítica despropositada, gratuita ou, pior, depreciativa. Ao contrário, trata-se de um convite para um exercício o mais ameno possível de relativização de posições radicalizadas que podem sustentar configurações ideológicas que conferem superioridade indiscutível nas propostas de produção de conhecimento que se alicerçam nas fórmulas técnico-instrumentais baseadas no que Law (2004) chama de premissas metafísicas euro-americanas do que há 'lá-fora': em relação à realidade ser considerada como anterior, independente, definível e única.

Propõe-se aqui adotar o 'estranhamento', estratégia sugerida por Ginzburg (2004), como uma forma de problematizar padrões dominantes que se mostram naturalizados, freqüentes, esperados. Estranhar para criticar pontos de vista considerados 'normais' e o conformismo que os acompanha. Para gerar novos olhares, de modo a ensejar novos usos para além da mesmice que se camufla em meio a novidades que proliferam, mas não causam surpresa. É preciso olhar para as coisas que nos rodeiam como se a priori não tivessem qualquer sentido (e que, mesmo com olhares posteriores, continuem a parecer que os sentidos que daí emanam aparentem ser extremamente inconsistentes).

Pode-se explicar, ainda no registro do estranhamento, o motivo pelo qual aparece como ilustração da capa o desenho Dom Quixote de Cócoras com Idéias Delirantes [1956] – desenho a lápis de cor/papel de Candido Portinari. Trata-se de não só chamar a atenção do potencial leitor ao provocar incômodo por meio do talento do pintor, que desenha com crua sensibilidade o Cavaleiro da Triste Figura nesta posição patética em surto delirante. Mas também de acenar para o fato de que Portinari de Brodosqui soube representar com maestria ao Quixote de La Mancha mantendo simultaneamente sua universalidade com traços singulares do lado de baixo do Equador. E também trata-se de lembrar que o pintor sofria na ocasião de intoxicação pelas tintas, e, por razões de saúde, foi obrigado por seus médicos a usar lápis de cor. Alguns, ainda, talvez entrevejam alguma parecença caricatural entre a fisionomia de um dos autores deste livro e a imagem deste Quixote. Neste caso, mera casualidade.

O primeiro bloco começa com as anotações que situam a perspectiva crítica adotada ao longo do texto e definem o objeto de estudo como próprio aos tempos incertos e inseguros que marcam nossa época hipertecnológica – quase como se estivéssemos vivendo alguma história de ficção científica distópica que poderia ter sido escrito por alguém como Philip K. Dick. Aliás, esta é a idéia desenvolvida na primeira parte: justamente aproveitar-se das idéias contidas no conto 'The minority report' (1991) como um exacerbado molde preventivopersecutório que parece constituir-se, apesar do exagero ficcional, no espírito que se manifesta em nossa época em vários domínios, inclusive no campo da promoção da saúde.

* Uma versão abreviada deste texto foi publicada no Journal of Epidemiology and Community Health – Castiel & Vasconcellos-Silva, 2007 (N. E.).