Aconteceu na Casa Espírita

Emanuel Cristiano · Capítulo 25 de 32

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Aconteceu na Casa Espírita

Reação das Trevas

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Diante destes acontecim entos, Daniel e Gonçalves se preocuparam , sentiram que o trabalho estava am eaçado.

Daniel perguntou a Elvira:

— O que houve, por que esta paz?

— Não se preocupe, respondeu a servidora das som bras, isso tudo é momentâneo.

— Momentâneo?! A Casa está praticamente vazia, muitos dos nossos foram arrebatados pelos emissários da luz!

— É verdade, isso sempre acontece, por isso Júlio César retornou para nossa cidade, a fim de congregar um maior número de camaradas para a batalha final.

De nossa parte só nos cabe aguardar. Nós armamos a bomba, nosso mestre é que vai detoná-la.

— o —

Era a reação dos encarnados, m ovim entando-se para neutralizar as ocorrências das infiltrações.

— o —

Enquanto isso, na cidade das trevas, Júlio César procurava convocar um a quantidade m aior de servidores a fim de continuar o processo de infiltração. Entretanto, encontrou a cidade praticam ente vazia. Centenas de adversários espirituais haviam abandonado o ideal do m andante das trevas, libertando-se graças ao trabalho dos am igos espirituais. De form a enlouquecida com eçou a gritar, exigindo que os seus com parsas aparecessem para assum irem as tarefas:

— Camaradas! Camaradas!

O responsável por esta cidade é quem os convoca! Apareçam! Agora! Coragem, estamos quase conseguindo!

Precisamos nos fortalecer para vencermos esta batalha! A maldita Casa Espírita está quase destruída! A fofoca percorre os corredores qual serpente venenosa e destruidora, a maledicência segue relampejante, a discórdia grassa em quase todos os departamentos do Centro, estamos nos últimos dias. Lembrem-se: haverá promoção para aqueles que se colocarem à disposição do nosso movimento. Temos compromissos com nossos superiores e eles haverão de pedir contas de nosso trabalho. Apareçam, agora! Eu ordeno!

— o —

O vento serpenteava, levantando poeira na velha cidade edificada para a prática do m al. A psicosfera pestilenta denotava a categoria dos espíritos residentes.

A voz de Júlio César ecoava fria nas construções inferiores, silêncio e m edo pairavam no am biente, quando um pequeno grupo de adversários se apresentou, saindo das ruas estreitas em direção ao m esm o j ardim de pedras onde tudo com eçou.

Desta vez não estavam m uito anim ados. Um deles, dem onstrando coragem , desafiou o representante das som bras:

— Deseja nos congregar, Júlio César? Veja: nossa cidade, está quase vazia!

Você carregou muitos dos nossos e a maioria não retornou até hoje! Sob suas ordens, Gonçalves levou daqui verdadeiros exércitos a fim de executar os seus planos.

Está nos usando, é isso! Só consegue pensar na sua vitória, deseja apenas promover-se dentro da organização. Usa-nos quais escravos e até o momento não recebemos nenhuma promoção, nenhum benefício, nenhum privilégio. Permanecemos há anos sob suas ordens, mas agora chega, vamos tomar esta cidade! Estamos cansados de suas ordens, de sua vaidade tola, desejamos nossa liberdade. Não vê que este município está deserto? Muitos dos nossos converteram-se aos seguidores da luz. Você destruirá nossa cidade!

— Um momento, gritou o adm inistrador das som bras, quem é que manda aqui?! Por acaso estamos invertendo os papéis? O chefe aqui sou eu, eu é que dou as ordens, eu é que coordeno este movimento. Deve haver obediência na hierarquia, não sabe que posso lhe prender? Quer ficar isolado de toda e qualquer atividade? Por acaso desconhece minha autoridade sobre todos os que vivem aqui? Nossos superiores deram-me todo o domínio sobre esta região, não desperte minha ira, rapaz!

Enquanto pronunciava estas palavras, o em issário da m aldade se transfigurou, assum indo perispiritualm ente a im agem m ítica de satanás, a fim de “im por respeito” às m entes perturbadas.

— Exijo, continuou o transfigurado, cumpram minhas ordens agora!

Apavorada, a turba se reuniu, conclam ando os outros habitantes do sinistro local, j untando-se todos em frente do adversário-m or, guardando no olhar expressão de angústia.

Diante da pequena m ultidão, cerca de quatrocentas pessoas, o m andante perguntou:

— Onde estão os outros?

— Não temos mais ninguém, disse um dos perseguidores.

— O quê?! Isso é impossível!

— Não, senhor, esclareceu outro, à medida que foram convocados, multidões partiram daqui, à semelhança de exército cruel. E dos que se foram, pouquíssimos retornaram. Como já dissemos, foram arrebatados pelos espíritos do bem!

— Impossível, disse Júlio César, eu mesmo organizei as equipes invasoras delegando-as à responsabilidade de Gonçalves!

— Pode ser, senhor, mas agora só restamos nós!

E tem mais, mestre, prosseguiu o serviçal, visivelm ente perturbado, recebemos a notícia de que nossos superiores estariam nos visitando a fim de verificarem como anda nosso trabalho, avaliarem os relatórios de atividades, as listas de registro das novas aquisições de espíritos e a periódica contagem de pessoal. Agora, com o número de servidores tão reduzido, não sei quais explicações haveremos de dar?!

— Nossos superiores? Perguntou o obsessor chefe espantado. Não creio! Tem certeza?

— Sim, senhor, devem chegar a qualquer momento!

O coordenador das trevas estava furioso e, antes de poder tom ar qualquer providência, ouviu certa agitação, característica das caravanas vindas das regiões inferiores, adentrando a cidade das trevas.

Os poucos guardas da fronteira, reconhecendo a excursão, autorizaram a entrada dos som brios viaj antes.

Dez “sábios” desem barcaram na cidade cham ando a atenção do grupo reunido na praça.

Traj avam túnicas e capuzes m ísticos, carregando num a das m ãos com prido caj ado. Então, estranho ritual se fez, trom betas foram tocadas, acom panhadas de vozes fortes, anunciando em uníssono por três vezes:

— Salve as hostes infernais! Salve os dez juízes! Os dez sábios!

Term inada a saudação, a assem bléia estava petrificada. A psicosfera tornou-se m ais densa, silêncio absoluto se fez, sendo quebrado apenas pelo som dos passos firm es e dos caj ados apoiados contra o solo, num verdadeiro conto de terror.

Augusto, o árbitro principal, de postura ereta, orgulhosa, im pactante, tom ou a dianteira, puxou o capuz descobrindo lentam ente a cabeça. Calvície acentuada, barba espessa, nariz pontiagudo, olhos penetrantes e sobrancelhas franzidas com punham , propositadam ente, um a fisionom ia m aligna.

O “ilustre” caravaneiro, vendo a assem bléia, dirigiu-se ao seu encontro e, abrindo cam inho, chegou ao núcleo do largo, encontrando, por fim , Júlio César, que o recebeu gaguej ando nervosam ente:

— Salve… senhor… juiz! O… que o… traz aqui?

— Como, o que me traz, perguntou o m agistrado indignado, não recebeu meu comunicado?!

— Não, senhor, somente agora, minutos atrás, fiquei sabendo da sua visita!

— Onde estava?

— Tratando dos interesses de nossa organização!

— A destruição da Casa Espírita?

— Sim, senhor!

— Vá buscar as anotações, não temos tempo a perder, instalaremos nosso tribunal de inspeção aqui mesmo. Queremos, de posse dos seus relatórios, julgar suas atitudes.

Nossa extensa organização depositou em você toda confiança possível. Todavia não temos visto progresso. E, lançando um olhar panorâm ico em direção da cidade, acrescentou desconfiado: Parece que está vazia! O que fez com os nossos camaradas? Como está o processo de infiltração?

O m andante, preocupado e tem eroso, iniciou o relatório:

— Nosso processo vai bem, a Casa Espírita, a qual recebi ordens para destruir, está praticamente acabada. Em breve, teremos acesso total na Instituição e a invasão será completa, no máximo em três meses!

— O quê?! Noventa dias, Júlio César?! Você está dizendo que ainda precisa de mais este prazo?! Imaginei encontrar outra situação! Já está cuidando especialmente desta ocorrência há quarenta anos! E o máximo que tem conseguido é perturbar algumas pequenas tarefas! Você não é mais o mesmo!

— Digníssimo, este caso realmente não é fácil. O processo é muito mais delicado! Esta Casa possui pessoas muito espiritualizadas, idealistas, crentes convictos utilizando-se da fé raciocinada; muito já se fez, mas os pilares principais ainda não conseguimos derrubar. Porém, está por pouco.

O senhor precisa levar em consideração toda minha história. Tenho em meu currículo a experiência de onze casas espíritas destruídas, nestes setenta e cinco anos em que sirvo dedicadamente a nossa organização.

— Nada disso é compreensível, não trabalhamos para uma instituição de caridade onde se compreende a incompetência alheia. O prazo que lhe demos, para atacar esta instituição em particular, já acabou há no mínimo oito anos. Sabe da importância, para nossa organização, de acabarmos com as tarefas benemerentes produzidas pela Casa de “Kardec”. Estamos pensando em substituir você, quem sabe alguém com idéias mais arrojadas?!

Nossos superiores estão enfurecidos com sua falta de competência e, quando eles souberem que o número de camaradas serviçais baixou assustadoramente, é bem provável seja você deposto do cargo. Sua incompetência está declarada, é melhor renunciar do que passar pela vergonha de ser demitido; e há grande probabilidade de que seja preso, basta uma assinatura minha. Sua desgraça está decretada, sua falência é um fato, nem para as obsessões simples você está servindo; seus recursos estão falhos, suas idéias inadequadas, renda-se às evidências, aceite a realidade.

— Meritíssimo, disse o lobo transform ado em cordeiro, eu lhe peço, tudo isso é uma questão de dias, todo trabalho está organizado. Eu enviei os relatórios, o senhor não os recebeu?

— Sim, recebi, analisei-os cuidadosamente e constatei que o tempo utilizado por você foi muito, além de uma multidão de servos preciosos; verificando o número de obsessores que possuíamos desde o início de sua gestão até a última contagem, notamos uma perda espantosa para os espíritos da luz.

Já está decidido, vamos lhe substituir!

— Senhor, clam ou Júlio César, aj oelhando-se diante do inquiridor, antes de assinar a sentença, dê-me mais trinta dias?

O j uiz perverso, gargalhando assustadoram ente, respondeu:

— Quem diria que o famoso Júlio César um dia se prostraria diante de mim!

Sabe que não gosto de você! Que sua incompetência me perturba, mas diante desta cena patética lhe concedo trinta dias, nenhuma hora a mais, está ouvindo? E se, neste prazo, a Casa dedicada ao Cristo não estiver destruída, você será preso e rebaixado à condição de obsessor simples!

Alguns dos quatrocentos cam aradas reunidos em torno do réu riram nervosam ente da cena, m as foram calados im ediatam ente diante do olhar de fogo transm itido por Júlio César.

Levantando-se, o j uiz trevoso fechou os livros de anotações, conclam ou os outros nove, tom ou da caravana e partiu apressado, alegando precisar fazer outras inspeções.

Partindo ligeiram ente, a excursão das trevas cruzou com Gonçalves, o secretário das som bras, penetrando solitário as regiões fronteiriças da cidade, procurando urgentem ente a pessoa do m andante.

— o —

O inim igo do bem perm anecia estático com os olhos perdidos no infinito, enquanto a poeira levantada pelos m inistros da m aldade alterava ligeiram ente a paisagem da região inferior. Refletia nas hum ilhações, no desprezo, nos anos de trabalho ininterrupto a serviço da perversidade e a falta do reconhecim ento, tem endo, por fim , fosse a sua reputação abalada.

— o —

— Chefe! Chefe! Gritava o assessor procurando tirar o superior do “transe” que lhe petrificara o olhar na direção dos j uízes perversos.

— Gonçalves?! Perguntou o coordenador desperto, revelando nas palavras adm iração. O que está fazendo aqui? Não lhe disse para tratar do caso Márcia Boaventura?

— Sim, senhor, este caso já está resolvido, o que venho lhe dizer é muito mais grave!