Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Viagem científica no Rio Paraná e a Assunción, com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Quanto ao resto, a dermatologia argentina se assemelha muito à dermatologia européia. Na mesma clínica vimos um velho caso de psorospermose folicular ou moléstia de Darier, que já conhecíamos desde 1915; está agora adiantadíssimo e tem sido rebelde a todos os métodos de cura postos à prova.
República do Uruguai
Montevidéu
Na capital uruguaia só pudemos nos demorar um dia, porque a partida do vapor estava marcada para o dia seguinte.
Aproveitamos esse dia único visitando hospitais, museus e trechos da cidade. No Hospital Maciel visitamos a Clínica Dermatológica, uma Clínica Cirúrgica e o Instituto de Radiologia, em cuja direção continua o provecto especialista, Dr. A. Butler. Esse magnífico estabelecimento nos era conhecido desde 1915, e a sua organização e progresso sempre nos impressionaram muito bem. Quem ler os relatórios desse Instituto ficará entusiasmado com o grande número de curas de lesões cancerosas, feitas nele com aplicações do rádio. Felizmente a nossa Faculdade de Medicina vai possuir um Instituto de Radiologia com uma seção de Radioterapia, moldado no de Montevidéu, graças aos patrióticos esforços do seu atual diretor e à reconhecida boa vontade do governo em melhorar, quanto possível, o ensino médico no Brasil.
Com os doutores Lutz e Fonseca visitamos também a Seção Segura do “Syphilicomio Nacional,” que também já conhecíamos e cuja organização e magníficos resultados práticos interessam e entusiasmam qualquer pessoa de certa cultura e de boas intenções. Graças aos esforços do Dr. Juan A. Rodriguez, o serviço de Profilaxia da Sífilis no Uruguai foi ampliado consideravelmente nestes últimos tempos, dando ótimos resultados. Eram esses dois magníficos estabelecimentos que desejaríamos para o Rio de Janeiro. A fundação do primeiro já foi autorizada pelo governo. Quanto ao segundo, não há por enquanto nenhuma esperança. Solicitada a atenção da pessoa a quem competia resolver o problema da Profilaxia da Sífilis nesta capital, a resposta foi que “é inoportuno o momento para tratar-se disso”.
No Uruguai os leprosos são isolados compulsoriamente e há poucos.
De leishmaniose têm sido verificados alguns casos, mas não parece ainda ser feito diagnóstico protozoológico, segundo nos informou o Dr. Oscar d'Utra. De granuloma venéreo têm aparecido também novos casos no “Syphilicomio Nacional,” na Clínica Ginecológica e no Hospital Militar. O câncer é um dos males mais freqüentes no Uruguai; por isso e por outros motivos a sua patologia se assemelha muito à patologia européia.
5. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul obtivemos boas informações sobre o estado sanitário e colhemos algum material nas cidades que visitamos.
Cidade do Rio Grande do Sul [Rio Grande]
Chegamos a esta cidade no dia 17 de março. No dia 19 os doutores Lutz e Fonseca e o ajudante José Vasconcellos continuaram sua viagem no mesmo vapor, com destino ao Rio de Janeiro.
Nós partimos para o interior do estado, a fim de visitar algumas cidades riograndenses, indagar do seu estado sanitário e colher material de insetos para o instituto. Quando regressamos de Porto Alegre, ficamos seis dias em Rio Grande. A cidade oferecia um aspecto muito feio e desagradável, em razão das novas obras de esgotos, iniciadas em diversos pontos e progredindo muito lentamente. Em certas ruas o mau cheiro era quase insuportável. Por toda a parte havia águas estagnadas. Também as obras do porto, com os seus aterros, produzem águas paradas defronte ao novo porto, e, margeando a linha de bondes, crescia o matagal.
Por todos esses motivos, a quantidade de mosquitos era extraordinária, no porto novo, na alfândega, onde estivemos fazendo captura deles, nos vapores atracados no cais, nos bondes, sobretudo à tardinha, e por toda a cidade. A nossa colheita foi grande, mas entre eles predominava o Culex albifasciatus. Encontramos também muitas Stegomyia colopus. Na visita que fizemos à velha cidade de São Pedro do Norte, que fica defronte à do Rio Grande, verificamos predominarem também essas duas espécies de culicídeos. No porto novo, a empresa norte-americana de frigoríficos Swift & C. fez construir um magnífico grupo de casas à prova de mosquitos, de que damos fotografias. Entre elas há uma grande, de dois pavimentos, que é o hotel residencial dos seus empregados de categoria. É preciso, porém, que todas as novas construções que se fizerem no Porto Novo e adjacências obedeçam a essa sabia orientação. A cidade do Rio Grande, apesar de velha e mal cuidada, é bastante movimentada, tem muito comércio, e a indústria é lá um ramo de atividade sempre crescente.
Estado sanitário. Nos arredores da cidade do Rio Grande, sobretudo nas ilhas próximas, o grande mal do povo é a ancilostomíase. De impaludismo, quase não se fala; sabemos, entretanto, que aparecem às vezes casos esporádicos. O ex-inspetor sanitário dessa cidade informou-nos que, há bem pouco tempo, a cidade do Rio Grande foi foco de uma epidemia de varíola, cujo diagnóstico fora primeiro contestado pela Repartição de Higiene de Porto Alegre, de onde enviaram um médico para verificar, o qual confirmou o diagnóstico de varíola. No Hospital da Santa Casa só encontramos dois doentes que nos interessaram; eram um preto com psoríase, e uma preta, natural de Minas Gerais, com lepra mutilante. Tratava-se de uma doente internada nesse hospital há sete anos; entretanto, disseram-nos não saberem o que ela tinha. Era um caso clássico de lepra mutilante. Os demais doentes internados eram de medicina e cirurgia gerais.
Lepra. Quando desembarcamos no porto do Rio Grande, vimos no cais um carregador leproso e depois, tendo encontrado na Santa Casa a mineira leprosa acima referida (casos de nosso diagnóstico), fomos indagar dos colegas doutores Marciano e Vicente Espindola sobre a freqüência dessa doença. Aqueles colegas tinham, na ocasião, cinco doentes atacados de lepra, em tratamento nos seus consultórios, sendo: dois italianos, um espanhol, um português e um mineiro. Quando regressamos de Porto Alegre, examinamos dois desses leprosos no consultório do Dr. Vicente Espindola. O primeiro era um português com 44 anos, residente no Brasil há 23. Deixou parentes leprosos em Portugal e sofre de lepra tuberculosa, já muito adiantada, há bastante tempo. Atualmente recebe três injeções de Collobiase Chaulmoogra de Dausse, por semana.
O segundo, espanhol, tem 34 anos e deixou o seu país há trinta. Sofre de lepra tuberculosa há vinte anos e pensa tê-la adquirido em Buenos Aires. Na capital argentina tratou-se com o professor Aberastury, que lhe receitou óleo de chalmugra, em gotas. Atualmente o Dr. Vicente está fazendo nele injeções de Collobiase Chaulmoogra de Dausse.
Como se vê, em poucos dias, registramos sete casos de lepra na cidade do Rio Grande, e parece ser muito maior o número deles, dada a grande quantidade de operários de várias zonas do país e de várias nacionalidades que lá trabalham. Quanto às úlceras epidêmicas, não tivemos nenhum indício.
Cidade de Bagé
Esta bela cidade riograndense está situada na campanha, a 7 léguas da fronteira uruguaia, numa altitude de 160 metros. Na cidade e na Estância Santo Antônio, propriedade do nosso amigo Sr. Henrique Barbosa Netto, passamos oito dias. A cidade tem luz elétrica e agora estão iniciando as obras de abastecimento de água e rede de esgotos. Possui o seu Hospital da Santa Casa, de que juntamos uma fotografia, muitas farmácias, entre as quais o importante estabelecimento Solis, e mais de vinte médicos clínicos. A Santa Casa está bem instalada e é muito freqüentada. Durante a nossa estadia em Bagé, estava operando naquele hospital o acreditado cirurgião Dr. Nabuco de Gouvêa, desta capital. No movimento hospitalar de Bagé predomina, como aliás em toda campanha riograndense, a cirurgia. Em Bagé estavam aparecendo, na segunda quinzena de março, alguns casos de febre tifóide. A sífilis é, todavia, a doença principal, devida, sobretudo, ao desenvolvimento da prostituição, influenciada pelas fronteiras uruguaia e argentina. De moléstias da pele quase nada havia a registrar. Vimos apenas um caso de granuloma venéreo, cujo doente era soldado de polícia e cliente do Dr. Mário de Araújo, e tivemos informações de um caso de lepra, de observações do nosso amigo e colega Dr. Antônio Simões Cantera. De Granuloma informaram-nos terem registrado mais outro caso, e de lepra supõe-se existirem muitos outros no interior do município. Fomos informados também que no município de Alegrete há muitos casos de morféia.
No município de Bagé alguns médicos informaram-nos existir o barbeiro e casos de bócio. Como não havia tempo para irmos caçá-los, o Dr. A. S. Cantera prometeu enviar-nos alguns exemplares.
Na Estância Santo Antônio capturamos muitos culicídeos e bastantes exemplares de Neotabanus missionum MacQuart, única mutuca que encontramos.
Cidade de Pelotas
Visitamos duas vezes essa importante cidade riograndense e, graças à amabilidade do nosso amigo e colega Dr. João Alfredo Braga, ficamos conhecendo o que ela tem de melhor.
Visitamos o Hospital de Caridade, que está instalado num grande palácio e possui todos os requisitos modernos de diagnóstico médico.
As enfermarias são muito limpas, bem arejadas e de aspecto alegre; as roupas das camas são alvas como um lençol de neve, e cada leito tem o seu inseparável e indispensável mosquiteiro. O hospital possui um gabinete de radiologia, um laboratório de análises e boas salas de operações e curativos. Trabalham nesse hospital cerca de doze médicos, e seu provedor atual é o Dr. Bruno Chaves, distinto médico e diplomata, hoje ministro aposentado. O hospital tem grande movimento, mas quase só de medicina e cirurgia gerais.
Vimos lá, na sala de consulta externa, dois casos de 16 microsporia;
e um caso de úlcera do lábio, semelhando uma lesão leishmaniótica, cujo diagnóstico microscópico o Dr. Velloso pediu que se fizesse no Instituto de Higiene, filial de Butantan.
Quanto à lepra, pudemos coligir informações seguras de oito casos, incluindo um de nosso diagnóstico. O Dr. Urbano Garcia tinha três casos e o Dr. Velloso, quatro, dos quais vimos em suas casas: um negociante suíço de 70 anos, residente em Pelotas há cinqüenta anos e doente de lepra tuberculosa há cinco anos. É, portanto, um caso de lepra autóctone e em franca relação com o público, dada a sua profissão, e de cujo mal ninguém suspeita. O segundo caso que vimos era uma branca com 29 anos, casada, residindo à rua Telles, 354, doente há pouco tempo e sofrendo de lepra mista. Nós a encontramos em franco período febril.
O oitavo caso é de nossa observação pessoal e diagnóstico. No dia 9 de abril encontramos, numa rua de Pelotas, um homem cuja fisionomia traía o mal que o dominava. Era ele branco, com 40 anos, e solteiro. Sofre de lepra tuberculosa e não sabe onde a adquiriu. Reside em Jaguarão, com sua mãe e 8 irmãos.
Instituto de Higiene. Ainda com o Dr. Braga tivemos oportunidade de visitar o Instituto de Higiene, fundado pela municipalidade de Pelotas e dirigido pelo Instituto Butantan, de São Paulo, que enviou para lá os seus assistentes doutores Octavio Veiga e Costa Pereira.
A municipalidade gastou na sua fundação cerca de 30 contos, correndo ainda as despesas de sua manutenção por conta da Municipalidade, mas a direção científica é do Butantan. O Instituto está instalado num grande prédio bem adaptado e consta das seguintes seções: Raiva, Vacinas, Laboratório de Análises, Biotério, Cavalariças para estudos das epizootias e Serpentário. Achamos tudo muito bem instalado.
Notamos o contentamento da classe médica e do povo pela fundação do Instituto de Higiene, que prestará grandes serviços, não só ao município de Pelotas, como também a todo o sul do estado. Se cada estado do Brasil possuísse, anexo à sua Repartição de Higiene, um Instituto nas condições do de Pelotas, a Saúde Pública desempenharia muito melhor as suas funções, e estudos vários sobre medicina científica poderiam ser feitos. Infelizmente, nem todos os homens de governo têm a noção da grande necessidade desses melhoramentos.
A capital, Porto Alegre
Chegamos a Porto Alegre na manhã de 28 de março, em plena Semana Santa; por isso só começamos a trabalhar no dia 1° de abril.
Hospedamo-nos no Grande Hotel, por terem dito ser o melhor da capital, mas não merece a classificação de bom. A comida é má e nos quartos há muitos mosquitos, em alguns até percevejos.
A cidade é grande, tem boas construções, comércio ativo e muito movimento pelas ruas. O calçamento é antigo. Quanto à limpeza pública, notamos que deixa muito a desejar, sobretudo no porto, zona do comércio em grosso e nos mercado públicos. Visitamos o mercado de peixes e achamos o seu serviço muito mal feito, sem nenhuma regra de higiene. A cidade tem luz e bondes elétricos.
A água para abastecimento da capital é captada no rio Guaíba e não é boa. A Companhia Hidráulica Portoalegrense fornece água pouco melhor, mas captada de manancial mais seguro. A água do Guaíba é reconhecidamente contaminada e deve ser a principal culpada pela endemicidade das febres tíficas e paratíficas e das disenterias, em Porto Alegre.
A febre tifóide tomou nestes últimos tempos grande expressão, e o número de casos registrados, nos primeiros meses deste ano, indicava um verdadeiro surto endêmico.
O ensino primário, secundário e profissional está bem organizado. O ensino superior é feito em diversas Faculdades, das quais são muito acreditadas as de Medicina e de Direito, a Escola de Engenharia e o Instituto Agronômico. O ensino médico é feito na antiga Faculdade Livre de Medicina, equiparada às Faculdades Federais. Infelizmente, esse estabelecimento não tem merecido do governo riograndense o apoio e prestígio que merece e de que necessita. O seu prédio está em péssimas condições; os hospitais, de que se pode servir para o ensino das clínicas, também deixam muito a desejar. Felizmente não falta material científico para o ensino. Infelizmente, entretanto, para a população que lá habita, porque aquela freqüência de doenças infectocontagiosas, dadas as condições magníficas em que se acha a ciência médica, devia ser considerada um fato anormal, que reclama sérias medidas de defesa. Existe em Porto Alegre uma nova escola de medicina, intitulada “Escola Médico-Cirúrgica,” cujo ensino não merece fé. As informações que colegas distintos, de Porto Alegre, nos prestaram sobre o modo de proceder dessa pseudo-escola médica, não a recomendam absolutamente ao conceito público. Entretanto, ela é prestigiada pelo governo em detrimento da verdadeira e antiga Faculdade de Medicina, que conta no seu seio professores de reconhecida competência e seriedade.
Para melhorar o ensino de Agronomia e Veterinária, foi instalado ultimamente, anexo ao Instituto Borges de Medeiros, um Laboratório de Biologia, para cuja organização e direção foi contratado o assistente do Instituto Oswaldo Cruz, Dr. Aristides Marques da Cunha, que já se achava em Porto Alegre quando lá estivemos. O programa principal desse estabelecimento é o ensino da Microbiologia e Higiene, visando melhorar a indústria pastoril do Rio Grande e a Agricultura.
O ensino prático de bacteriologia é feito oficialmente no Instituto Oswaldo Cruz, estabelecimento anexo à Faculdade de Medicina, onde uma plêiade de jovens médicos, dedicados e inteligentes, tomaram a peito esse importante problema básico para o ensino e exercício da medicina moderna e aperfeiçoamento da higiene. Esse estabelecimento tem uma seção de bacteriologia, uma de química e outra de protozoologia.
Passamos nesse Instituto muitas horas de trabalho e agradável convivência. Com o Dr. A. Marques da Cunha, visitamos também o importante “Laboratório de Análises e Microscopia Clínica” do Dr. Pereira Filho, digno discípulo de Manguinhos. Nesse estabelecimento, que deve ser o mais bem instalado de todo o Brasil (laboratório particular, já se vê), o Dr. Pereira gastou perto de 100:000$000.
Esse ilustre colega é o verdadeiro mestre da bacteriologia no Rio Grande do Sul, e o seu laboratório não é um simples estabelecimento industrial, mas uma verdadeira escola, aonde os acadêmicos de medicina vão se ilustrar e elaborar as suas teses de doutoramento.
Estado Sanitário
Peste Bubônica. No dia em que lemos nos diários de Buenos Aires a notícia telegráfica, transmitida do Rio, de que só em uma semana tinham sido registrados em Porto Alegre 77 óbitos por peste, fomos, o Dr. Lutz e eu, ao Instituto Bacteriológico da capital argentina, solicitar do seu diretor, o professor Kraus, uma boa partida de vacina anti-pestosa, para a trazermos para Porto Alegre. O Dr. Kraus e o presidente do Departamento Nacional de Higiene, que estava presente, prontamente nos atenderam, mandando aviar toda a vacina que houvesse, para nos ser entregue.
Esses ilustres funcionários da Higiene Argentina prontificaram-se também a nos enviar para o Rio Grande, caso fosse necessário, outros recursos, inclusive pessoal técnico para debelar a epidemia.
O Dr. Lutz e eu agradecemos muito esse favor e aceitamos apenas 150 tubos de vacina anti-pestosa, para atendermos as primeiras necessidades até que chegassem socorros do Rio.
Chegando à cidade do Rio Grande, verificamos o exagero daquela notícia. No dia em que chegamos a Porto Alegre, lemos nos jornais locais a notícia do registro de três casos de peste. Nos outros dias foram também notificados outros casos. Soubemos por informações de médicos de lá que, no decurso dos últimos dois meses, o número de casos de peste em Porto Alegre tinha variado entre três e sete por semana, quase todos fatais.
Na manhã de 3 de abril fomos, o Dr. Aristides e eu, à Repartição Geral de Higiene, onde encontramos o seu diretor, Dr. Ricardo Machado, a quem contamos o fato que acabamos de narrar e entregamos a partida da vacina anti-pestosa que lhe trouxemos de Buenos Aires.
O Dr. Machado recebendo a vacina, agradeceu-nos o obséquio, mas disse-nos que “vacina e soro anti-pestosos eram lá produtos desmoralizados,” em todo o caso guardaria “para quem quisesse usá-la”.
Informou-nos, também, o Sr. Diretor de Higiene do Rio Grande do Sul que o isolamento dos doentes de peste, assim como a desinfecção das casas onde se dão óbitos por essa doença, são lá facultativos, porque acima de tudo está a liberdade individual. Pelas informações que nos prestou o Sr. Dr. Ricardo Machado, essas e muitas outras, concluímos que Porto Alegre – ou melhor, o Rio Grande do Sul – não tem higiene pública, organizada segundo as doutrinas modernas.
Por esse motivo lá existem todas as moléstias infectocontagiosas evitáveis e muitas delas implantadas endemicamente. Outra grande endemia do Rio Grande é o charlatanismo. Em todo o estado e, sobretudo, na capital, o número de curandeiros e charlatães é enorme, e o povo paga pesadíssimo tributo a esses exploradores prestigiados pelo governo, que não é, como devia sê-lo, o “tutor” do povo. Não há certamente no Brasil um estado, mesmo o mais longínquo e mais atrasado, que em assunto de charlatanismo possa competir com o Rio Grande do Sul.
Voltando a tratar da peste no Rio Grande, achamos oportuno registrar aqui a seguinte notícia, transcrita das “Várias” do Jornal do Commercio, de 13 de junho corrente:
De ora avante os vapores do Lloyd Brasileiro, procedentes do
Rio Grande do Sul, não atracarão mais ao cais do porto, sem
prévia desinfecção. Essa medida foi ontem sugerida ao Sr.
Diretor do Lloyd, que mandou executar imediatamente, pelo Sr.
Dr. Daniel de Almeida, chefe do serviço médico daquela
empresa.
Essa medida de defesa da capital federal contra a peste foi tomada por motivo da importação recente de ratos pestosos, procedentes do Rio Grande, que causaram dois óbitos entre os operários do Lloyd nos armazéns de Mocanguê. E se o corpo de saúde do Lloyd, auxiliado pela Saúde Pública Federal, não tivesse dado combate imediato e decisivo ao mal, teria havido, por certo, muitos outros casos a lastimar-se.
Varíola. Encontram-se pelas ruas de Porto Alegre, em grande número e por toda parte, pessoas com o rosto marcado pela varíola. A última epidemia dessa doença durou dois anos; tendo começado no Rio Grande e em Porto Alegre, com grande intensidade, foi se alastrando por todo o estado. Em abril, quando lá estivemos, o Dr. Ricardo Machado informou-nos que o diretor de Saúde Pública de São Paulo, Dr. Arthur Neiva, lhe pedira por telegrama notícia sobre o estado sanitário daquela capital, e que lhe respondera “não haver novidade, apenas alguns casos de varicela”. Contra o diagnóstico de sábios médicos se opõe o pessoal do governo; também a imprensa oficial se incumbe sempre de desmenti-lo quando se trata de moléstia grave e com caráter epidêmico.
A varíola verdadeira grassava no Rio Grande e em Porto Alegre, e o governo afirmava ser varicela. A deslealdade científica chega lá ao maximum. Em viagem para Porto Alegre tivemos o prazer da amável companhia do Sr. Evaristo do Amaral, deputado federal riograndense. Conversando com ele sobre a higiene no seu estado, teve a bondade de nos informar que há pouco tempo chefiou pelas colunas de A Federação, jornal oficial de Porto Alegre, uma forte campanha para desmentir a classe médica e negar a existência, naquela capital, não sabemos bem se de varíola ou de peste. Não ocultamos ao Sr. Amaral a nossa franca desaprovação, porque, sendo ele médico e nada sabendo de higiene, como podia pretender contestar o diagnóstico de médicos de reconhecida competência? É triste esta situação em um estado rico e tão progressista noutros ramos de atividade. Não achamos que seja patriótico conservar nos cofres do estado 15 ou 20 mil contos, e vangloriar-se o governo por isso, deixando contudo reinar, na sua capital e no interior do estado, doenças facilmente evitáveis e não cogitando da reorganização da higiene, departamento dos mais importantes de uma administração. Bem governar não é simplesmente guardar dinheiro e não dever nada a ninguém, mas sim arrecadar ativamente as rendas do estado e aplicar o melhor possível os dinheiros públicos, sem esquecer que “Salus populi suprema lex est”.
Doença de Chagas. Consultando o livro Du Climat et des Maladies du Brésil, publicado pelo médico de D. Pedro II, Dr. J. F. X. Sigaud, em 1844, nele encontramos referências a algumas moléstias existentes no Rio Grande do Sul. Refere o autor que era conhecida a existência de ancilostomíase numa parte desse estado, e quanto ao bócio endêmico, diz que lá existia em quase todo o estado, tendo aumentado muito entre os anos de 1824 a 1844. Em Pelotas informaram-nos algumas pessoas, entre elas o Dr. Bruno Chaves, ter sido encontrado um barbeiro naquele município, do qual foram enviados alguns exemplares ao Dr. A. Neiva, quando estava em Manguinhos. Chegados a Porto Alegre, fomos visitar, em companhia dos professores Sarmento Leite e Gonçalves Carneiro, o “Instituto Oswaldo Cruz,” dependência da Faculdade de Medicina de Porto Alegre. Os médicos desse Instituto mostraram-nos um barbeiro que verificamos logo ser da espécie Triatoma infestans Klug, exemplar enviado de São Sepé, onde existe em abundância. Tratava-se de uma fêmea que já tinha deitado muitos ovos no pequeno cristalizador em que se achava. Nenhum estudo tinha sido feito ainda sobre isso no Rio Grande do Sul. Combinamos então, com os doutores Paula Esteves e Blessmann Guerra, as pesquisas necessárias para verificarmos se esse barbeiro estava ou não infectado. No momento em que examinávamos os ovos, o barbeiro picou-nos através da gaze que cobria o cristalizador, na face anterior do dedo médio da mão esquerda. A sensação foi idêntica à da penetração duma agulha na pele. No ponto da picada ficou, perfeitamente visível, um pequeno orifício por onde surdia um pouco de sangue. A picada foi rápida e rápida também a nossa defesa, lançando tudo ao chão. Desinfectada a pele, na região picada, pelo calor e pela tintura de iodo, a dor continuou, entretanto, todo o dia. Isto se deu a 30 de março.
A 2 de abril voltamos ao Instituto, o Dr. Aristides Marques da Cunha e eu, e iniciamos com os doutores Esteves e Blessmann as pesquisas combinadas. Adotando a técnica de Manguinhos, fizemos o barbeiro sugar uma cobaia, estando esta imobilizada e com uma parte do abdome raspada a navalha. Nesse ponto aplicamos o tubo de vidro contendo o barbeiro, que não demorou a picar. O laboratório estava um pouco sombrio, não às escuras. A primeira sucção durou sete minutos e foi interrompida, porque a cobaia reagiu fortemente. Poucos minutos depois o barbeiro começou uma segunda sucção que durou apenas quatro minutos, defecando logo em seguida. Retiramos então o barbeiro de sobre o animal e o fechamos no tubo em que se achava antes. Apanhamos as fezes depositadas sobre a pele da cobaia com um bisturi e as emulsionamos em soro fisiológico.
Era um pequeno bolo fecal, semi-sólido e de cor negra. Os preparados desse material, examinados a fresco, revelaram abundantes flagelados. Poucos minutos depois o barbeiro depôs no fundo do tubo duas grandes gotas de um líquido límpido, que também examinamos a fresco obtendo resultado francamente positivo. A emulsão das fezes e desse líquido injetamos numa outra cobaia, por via intra-peritoneal.
Fixamos o material estendido nas lâminas e coramos pelo Giemsa.
Esses preparados revelaram grande número de flagelados, com caracteres do Trypanosoma cruzi. Havia campos microscópicos contendo nove a treze parasitos.
Esse resultado das nossas primeiras pesquisas sobre a moléstia de Chagas do Sul foi verificado com especial interesse pelos médicos do Instituto Oswaldo Cruz, alguns professores da Faculdade de Medicina e estudantes. Até o Diretor de Higiene, Dr. R. Machado, foi ao laboratório examinar nossos preparados. Ficou então combinado que os doutores Paula Esteves e Blessmann Guerra prosseguiriam nessas pesquisas até a obtenção da doença de Chagas experimental, com material daquele estado, e se incumbiriam também de organizar a estatística da distribuição dos barbeiros no Rio Grande do Sul. Informados de que em Canoas, bairro próximo a Porto Alegre, havia muitos papudos e barbeiros, fomos a esse local no dia 3 de abril, os doutores Esteves Blessmann, Marques da Cunha e eu. Lá encontramos, na verdade, doentes suspeitos de tripanossomíase, mas todos procedentes do bairro chamado Sapucaia, distante ainda 5 léguas. Diversos papudos, vindos de Sapucaia, informaram-nos que lá existem barbeiros em grande abundância, nas habitações, e reconheceram o exemplar que tínhamos levado conosco, para mostrar-lhes. Marcado o dia para irmos a Sapucaia, o tempo piorou tanto que não nos permitiu realizar a viagem, assim como diversas outras que tínhamos projetado. Obtivemos informações seguras de que existe a doença de Chagas (papudos e barbeiros), nos municípios de Bagé, Pelotas, Santa Maria (Colônia Formigueiro), Uruguaiana, São Sepé e Caçapava. De Uruguaiana recebemos, enviados pelo Dr. F. Orcy, seis exemplares de Triatoma infestans. Na carta que lhes serviu de guia, informou-nos aquele colega que esse inseto existe lá em grande abundância, assim como os papudos. Desses seis barbeiros chegaram vivos cinco, dos quais só um sugou uma cobaia; o exame das suas fezes, eliminadas logo depois da sucção, foi negativo. Dos outros exemplares, que deixamos no laboratório de História Natural da Universidade do Paraná, morreram mais dois e um foi subtraído, não se sabe por quem. Esperamos nova remessa de barbeiros de Uruguaiana para repetirmos as pesquisas.
O doutorando Felix Garcia, que está fazendo tese em Maguinhos, recebeu há dias muitos exemplares de barbeiros da espécie Triatoma infestans Klug, que lhe enviaram de duas casas do Bairro de Santa Bárbara, município de Caçapava (Rio Grande do Sul). Acompanhamos as pesquisas sobre esses barbeiros, feitas no laboratório do Dr. Carlos Chagas, e verificamos que estavam infestados diversos dos exemplares de uma das casas onde foram capturados. Nessa região também existe o bócio.
O Sr. Garcia encontrou, na mesma zona, barbeiros em tocas de lagartos e em fendas de pedras, nas coxilhas onde pousam as ovelhas. São Sepé, cujos barbeiros também são infectados, fica próximo de Caçapava.
Lepra. Quanto à lepra, encontramos à página 389 do livro de Sigaud, já citado, uma observação interessante que resumimos:
Marianno José Machado, nascido em Rio Pardo, Rio Grande do
Sul, com 50 anos, leproso há 6 anos (lepra tuberculosa ou lepra
leonina de Alibert), internado há 4 anos no Hospital dos Lázaros
do Rio de Janeiro, que abandonou por não ter encontrado
melhoras para o seu mal. Desesperado com a sua doença,
sujeitou-se por sua livre e espontânea vontade, à mordedura de uma cascavel (Crotalus terrificus), no consultório do cirurgião Santos, à rua Vallongo, n. 61, Rio, na presença de diversos médicos de que o autor cita os nomes. Após sofrimentos atrozes, faleceu Marianno, 24 horas depois de mordido pela cascavel a título de cura.
É crença geral entre os dermatólogos brasileiros, sobretudo entre os membros da Sociedade Brasileira de Dermatologia, que o Rio Grande do Sul está isento do grande flagelo nacional, a lepra. Livros antigos e modernos dizem não existir a morféia naquele estado; entretanto essa asserção não é, infelizmente, uma realidade.
A lepra existe no Rio Grande do Sul, como existe em Santa Catarina e no Paraná e, finalmente, em todo o Brasil. Felizmente nos três estados do sul o número de casos conhecidos é muito inferior ao de qualquer estado central ou do norte do país. O fato de ser rara não é argumento para não se tomar medida de defesa; muito pelo contrário, é agora a oportunidade de se iniciar a profilaxia para evitar maior disseminação do mal. Já assinalamos atrás a existência de diversos casos de lepra na cidade do Rio Grande, em Pelotas, em Bagé etc., e acabamos de receber informações seguras da existência dessa doença em Uruguaiana, Vacaria, Alegrete, São Borja (Iguariçá), Cruz Alta, Passo Fundo (Colônia de Erexim), Santa Maria (Colônia Silveira Martins), Bom Retiro, Itaqui, São Leopoldo, Santa Cruz, São Sebastião do Caí e Jaguarão. Em Porto Alegre o número de leprosos atinge a algumas dezenas. A recente tese de doutoramento de José Athayde da Silva intitulada A propósito de alguns casos de lepra (Porto Alegre, 1915) contém dezesseis observações, na sua maioria de casos autóctones. Nas conclusões desse pequeno trabalho lê-se: “A lepra é endêmica no Estado do Rio Grande do Sul e cada vez mais tende a se propagar. Foi importada do estrangeiro e dos outros estados…”.
No protocolo do Laboratório de Análises Clínicas do Dr. Pereira Filho existem mais de trinta diagnósticos bacterioscópicos positivos de lepra.
O Dr. Nogueira Flores tem um caso de lepra no Hospital da Força Pública e conhece um oficial riograndense da mesma milícia, afetado do mesmo mal, em estado muito adiantado. Esse colega e outros médicos porto-alegrenses têm enviado alguns leprosos para o Rio de Janeiro.
Na Assistência Pública esteve se tratando, há tempos, um sírio leproso, e o antigo porteiro da Santa Casa morreu do mesmo mal, depois de ter convivido durante muitos anos em franco comércio com o público que freqüenta aquele hospital. A família Godin, natural da Bretanha, reconhecido foco de lepra na França, família negociante de luvas, e residindo em rua central de Porto Alegre, tinha diversos leprosos entre os seus membros, que foram desaparecendo aos poucos até que por fim fizeram leilão do seu estabelecimento comercial.
Há vinte dias, foi internado na Santa Casa um leproso, vindo de Itaqui e descendente de família leprosa por parte de mãe, que, por sua vez, descendia de uma família infectada, de naturalidade alemã.
Ainda na Santa Casa, examinamos um caso de lepra tuberculosa adiantada, que pedia com insistência que lhe fizéssemos uma grande injeção de creolina pura, por sua exclusiva responsabilidade. Esse doente já está cego e tem viajado muito, em busca de remédio.
No Rio Grande não há hospital de leprosos e não se cogita da profilaxia da lepra como, aliás, de nenhuma outra doença infectocontagiosa.
Filariose. A filariose é uma doença relativamente comum em Porto Alegre. O Dr. Carlos Niederauer Hofmeister, em seu trabalho A filariose em Porto Alegre (tese inaugural, Porto Alegre, 1917) estuda doze casos, todos da capital riograndense. O Dr. Hofmeister diz à página 36 da sua tese:
As zonas contaminadas aqui na capital coincidem com as
regiões baixas e alagadiças que bordam o Guaíba e onde
abundam os mosquitos. São: São João (vários casos), Navegantes, Menino Deus, Floresta, Chácara das Bananeiras, Rua do Arroio, Travessa 3 de Novembro, Azenha etc.
O Dr. Pereira Filho, em cujo laboratório se fazem muitos exames microscópicos por indicação de outros médicos, asseverou-nos também que tem feito diversos diagnósticos de filariose.
Leishmaniose. Pelas informações prestadas pelo Dr. O. D'Utra, numa das seções do ano passado da Sociedade Brasileira de Dermatologia, sabemos ter sido verificado e publicado um caso de leishmaniose no Rio Grande do Sul. Visitamos os mercados e os bairros da capital, e freqüentamos durante a Semana Santa as igrejas e acompanhamos as procissões, observando o povo e procurando casos de moléstias da pele. Nada vimos que parecesse leishmaniose, presente ou passada. Mesmo quanto às outras dermatoses nada pudemos ver nessas excursões. Nos hospitais também não havia nenhum caso de leishmaniose, nem de úlcera fagedênica.
Bouba, esporotricose e blastomicose. Quanto a estas dermatoses, também nada vimos e nem conseguimos quaisquer informações fidedignas sobre a sua existência ou observação no Rio Grande. A tese de doutoramento de Saint-Pastous, defendida em 1915 perante a Faculdade de Medicina de Porto Alegre, estuda um caso de “otomicose” (da clínica particular do professor Olyntho de Oliveira), produzida pela Sterigmatocystis nigra.
Tuberculose e sífilis. Porto Alegre, como todas as grandes cidades do Brasil, está pagando pesado tributo à peste branca. A sífilis é doença predominante nos consultórios e também na clínica dermatológica da Faculdade de Medicina, com sede na Santa Casa. A enfermaria de moléstias da pele está muito mal situada, não oferece conforto nem tem laboratório anexo para os diagnósticos microscópicos, o que é deveras lastimável.
Verminoses. De todos os exames de fezes feitos no laboratório Pereira Filho, 80 por cento são positivos quanto à ancilostomíase, e 100 por cento quanto à tricocefalose. Nestes últimos dias o Dr. Pereira Filho diagnosticou cinco casos de tênia da espécie Hymenolepis nana.
Toda a população suburbana de Porto Alegre está atacada de ancilostomíase, sobretudo nas margens do Guaíba e da Lagoa dos Patos.
No mercado de peixes e nos arrabaldes da capital, vimos muita gente apresentando sintomas francos de ancilostomíase.
Febres tíficas e paratíficas, disenterias (amebiana e bacilar), varicela, sarampo, escarlatina etc., são moléstias comuníssimas em Porto Alegre e no Rio Grande. Tivemos notícia de que em Uruguaiana também estava grassando epidemicamen-te a febre tifóide e que nenhuma medida oficial de profilaxia tinha sido tomada.
Ainda sobre o estado sanitário do Rio Grande do Sul e do seu saneamento está publicando atualmente uma série de artigos o ilustre professor Dr. Olyntho de Oliveira, da Faculdade de Medicina de Porto Alegre.
Estado de Santa Catarina
Infelizmente não pudemos, desta vez, desembarcar em Florianópolis. Desembarcamos, porém, em São Francisco e Itajaí – onde obtivemos informações seguras sobre a existência de alguns casos de lepra nessas duas cidades e outros em Florianópolis, ao todo meia dúzia de casos.
No município de Rio Negro existem talvez algumas dezenas de leprosos. No Hospital dos Lázaros do Rio existe uma leprosa catarinense que conhece outros doentes desse mal em Florianópolis. Com referência ao interior do estado nada conseguimos saber de positivo. A ancilostomíase é o grande flagelo dominante no litoral catarinense e nenhuma medida de profilaxia intensiva foi até hoje posta em prática. Apenas um dos clínicos de Itajaí, o ilustre Dr. Norberto Bachmann, faz, na medida dos recursos de que dispõe, o tratamento dos doentes que aparecem. Esse colega tem se interessado também, junto aos poderes públicos do seu estado, no sentido de ser criada a profilaxia oficial da ancilostomíase. Sigaud, no seu livro sobre clima e moléstias do Brasil, publicado em 1844, já faz referências à presença da ancilostomíase no estado de Santa Catarina.
Nesse estado, a malária parece muito menos freqüente que na costa do Paraná e de São Paulo. Acabamos de receber informações valiosíssimas sobre a existência do bócio e de barbeiros no interior do estado de Santa Catarina, dos lados de Lajes e também em outros municípios catarinenses.
Estamos resolvidos a fazer uma visita, muito breve, a essa região.
Estado do Paraná
Chegamos ao litoral paranaense a 18 de abril e, depois de ter percorrido o norte do estado e de ter feito uma parada na capital, partimos para o Rio de Janeiro, a 14 de maio passado.
No litoral paranaense dominam duas grandes endemias: o impaludismo e a ancilostomíase. Em 1917, durante o primeiro trimestre, percorremos, comissionado pelo governo do Paraná, todos os municípios litorâneos, que são: Paranaguá, Morretes, Antonina, Guaraqueçaba e Guaratuba, fazendo estudos completos sobre o estado sanitário da região, para o início da campanha de saneamento a fazer-se dentro em breve. Damos a seguir, em resumo, o resultado desses estudos:
Ancilostomíase. Do nosso relato de março de 1917, publicado no Paraná Medico, extraímos:
Calculamos em 90% da população do litoral o número de infectados de vermes intestinais. Os municípios de Guaratuba e Morretes são os que estão em condições mais precárias; aí essa porcentagem eleva-se a 100%. Segundo as nossas observações, podemos calcular para os municípios de
Paranaguá e Guaratuba em 40% o número de casos
adiantados de ancilostomíase e entre eles muitos de anemia
perniciosa; em 30% o número de casos de ancilostomíase no
primeiro grau e em 30% ou pouco menos o número de casos de
helmintíase ou poli-helmintíase, em que os indivíduos não
passam de portadores de vermes, por enquanto, sem deixar,
contudo, de serem muito nocivos. Nos municípios de Morretes,
Antonina e Guaratuba, o número de casos de ancilostomíase
adiantada eleva-se a 60%; dos outros 40% restantes, metade é
de 1° grau; a outra metade é constituída pelos simples
portadores de vermes.
Como se vê, a situação é muito crítica e reclama dos poderes
públicos medidas sérias de restrições deste mal. Felizmente a
profilaxia é fácil e barata e pode ser encetada, logo que o
governo disponha de fundos. Se porém a profilaxia não for feita,
pode-se considerar perdida a futura geração litorânea. Seria
mais patriótico e mais acertado que os municípios interessados
se oferecessem para auxiliar o governo estadual na execução
dessas obras, contanto que elas fossem executadas sem mais
delongas. O resultado dos nossos exames coprológicos, feitos
em material de dezenas de alunos da Escola de Aprendizes
Marinheiros de Paranaguá, foi positivo em cerca de 90%; nos
mesmos exames, feitos em material de perto de 200 alunos do
Grupo Escolar de Antonina, o resultado foi positivo quanto a
poli-helmintíase em 100% dos exames feitos. Nessa vez
tratamos todos os indivíduos cujos exames foram positivos.
Encontramos também ancilostomíase no norte do estado,
sobretudo na baixada dos rios Itararé e Paranapanema. No
Grupo Escolar de Jaguariaíva fizemos também os exames
coprológicos de quase todos os seus alunos, encontrando
apenas 40% de casos de poli-helmintíase, predominando a
ascaridíase e a tricocefalose. Nos Campos Gerais a situação é
muito melhor e a porcentagem de poli-helmintíase deve ser
muito inferior às obtidas até hoje noutras localidades. Impaludismo. A malária é endêmica em todo o litoral paranaense, e, dada a elevada temperatura nessa zona durante o ano inteiro, não há estações certas para a aparição de casos novos dessa infecção: “a malária é um mal de todo o ano”.
Sob a forma epidêmica, aparece de dois em dois ou de três em três anos, às vezes com extensa morbidade e considerável letalidade.
No verão de 1917 tratamos algumas centenas de impaludados durante as nossas viagens de inspeção médica pelo litoral. Dessa vez encontramos focos de terçã maligna na Barra do Sul e em Guaraqueçaba.
No verão deste ano, irrompeu uma pequena epidemia na Barra do Norte; foi enviado o médico militar capitão Dr. José Cajazeira para combatê-la, levando como auxiliar um farmacêutico militar.
O Dr. Cajazeira informou-nos, quando nos encontramos em Paranaguá, que todos os conscritos, recebidos de Guaraqueçaba e aquartelados na Fortaleza da Barra do Norte, estavam sofrendo de impaludismo, assim como quase toda a população civil da referida região.
Nos municípios de Morretes, Porto de Cima e Antonina, o impaludismo é um flagelo tão grave quanto a ancilostomíase.
A zona norte do estado deve ser também considerada região palúdica, pois em todos os municípios dessa parte, a mais rica do território paranaense, tem havido periodicamente grandes epidemias de malária, e, nalguns municípios, o mal é endêmico e causa anualmente muitas perdas de vidas e outros danos econômicos de alta monta.
Começou sob a forma epidêmica em pequenos focos no ano de 1908; hoje em dia reina em toda aquela vasta e rica zona, desde o Serro Azul até Jacarezinho, na zona fronteira com São Paulo, e desde o rio Itararé até São Jerônimo e Jataí, nos sertões.
As maiores epidemias foram as de 1913, 1915 e 1917, as quais causaram em conjunto perdas de milhares de vidas preciosas, prejudicando sobremaneira a agricultura daquele grande celeiro que é o norte. Em todos esses anos, o governo do estado lançou mão dos recursos de que dispunha e socorreu as populações da região. No ano passado, porém, o governo tomou medidas mais enérgicas e mais perseverantes, enviando para lá três médicos (com bastantes medicamentos), os quais muito trabalharam, durante a epidemia. Infelizmente a mortalidade foi muito grande, porque os recursos só foram enviados tardiamente. A chefia desse serviço nos tinha sido confiada pelo presidente do Paraná, Sr. Dr. Affonso de Camargo, a quem apresentamos, em 31 de julho de 1917, um relatório minucioso do estado sanitário da região. Transcrevemos aqui alguns trechos da página 67 do nosso relatório, intitulado O Impaludismo no Norte do Paraná e a sua Profilaxia (Manguinhos, 20 de julho de 1917).
O Norte paranaense foi, neste ano, castigado com uma
verdadeira pandemia que invadiu todos aqueles sertões. As
zonas consideradas salubres foram também atingidas pelo mal;
as zonas tidas como indenes, campos e serras, mesmo de
altitude superior a 900 metros, são hoje focos de impaludismo.
De todo o Norte só foram poupadas duas cidades e uma vila:
Ribeirão Claro, Jacarezinho e Jaboticabal (no interior desses
municípios o mal também se alastrou com a mesma violência
das outras zonas). Nas demais cidades, vilas, povoados,
patrimônios e bairros, a epidemia foi inclemente. Na linha da
estrada de ferro São Paulo ao Rio Grande atacou desde
Sengés até Piraí e é preciso notar que Jaguariaíva e o Piraí
estão nos campos com altitude superior a 800 metros. A região
marginal do Itararé e do Paranapanema foi inteiramente
dominada pela epidemia. A parte central dos sertões do norte
foi a que mais sofreu: de São José da Boa Vista até o Rio do
Peixe a morbidade foi enorme e a letalidade cruel. A epidemia
abrangeu toda a mesopotâmia do Itararé, do Paranapanema,
do Cinzas, do Peixe e do Tibagi.
Acompanhando o rio Tibagi, o impaludismo subiu demais: sendo endêmico em Jataí, apareceu sob a forma epidêmica de São Jerônimo até a cidade do Tibagi e foi produzir uma meia dúzia de casos em Conchas e outros muito acima de Ponta Grossa, na fazenda do Sr. B. Pinheiro Machado, exatamente na forquilha do Rio Tibagi com o rio Imbituva…
À página 68 do mesmo relatório informamos:
Só nós tratamos 2.609 doentes; o Dr. Airosa cerca de 1.500 e
não sabemos quanto registrou no seu diário o Dr. Loyola. Desses 2.609 doentes conseguimos precisar a forma clínica do impaludismo em 1.648; os demais foram examinados e medicados a grande distância, pelos sertões onde não tínhamos recursos de diagnóstico microscópico, nem dispúnhamos de tempo para fazer as observações clínicas. Nas cidades e vilas, onde demorávamos alguns dias e onde podíamos fazer os exames hematológicos, a nossa observação era mais minuciosa e, portanto, mais completa. Dos 1.648 impaludados, cuja observação clínica foi suficiente, tiramos a seguinte porcentagem: impaludismo crônico 19,3%; impaludismo agudo 80,79%; destes, febre cotidiana 35%; terçã 40,3% e quartã 5,4%.
De mil e tantos exames de sangue obtivemos cerca de 60% de resultados positivos. Destes 60% de exames hematológicos positivos, 49% eram de terçã benigna, 5,6% de terçã maligna e 5,4% de quartã.
Além de diversas medidas de saneamento, aconselhamos ao governo a fundação de três postos médicos no norte, dois fixos e dois ambulantes, todos destinados a curar os casos crônicos de malária e a executar diversas obras de saneamento do solo.
Infelizmente o governo só pôde instalar um desses postos anti-palúdicos com sede na cidade de Jaguariaíva e com jurisdição nos municípios de São José da Boa Vista e Tomazina. Esse posto foi dirigido por nós durante o segundo semestre de 1917; de janeiro em diante foi confiado ao nosso colega Dr. J. J. de Ortigão Sampaio, indicado por nós para nos substituir durante a nossa viagem pelo rio Paraná e Repúblicas do Prata. Todas as obras de saneamento do solo, indicadas para a cidade de Jaguariaíva e arrabaldes, foram realizadas pela respectiva municipalidade sob a nossa direção. Em São José da Boa Vista também se fez muita coisa.
Nestas duas cidades conseguimos que os proprietários de quase todas as casas habitadas mandassem construir latrinas, com fossas perdidas, por não haver esgotos. Em Tomazina, onde os governantes e o povo não mostraram boa vontade e nem acataram como deviam as nossas determinações, “nada se fez”. Não perdemos, contudo, a esperança de sanear também essa importante comarca. O resultado da campanha de saneamento do norte deu resultados tão bons, que o governo está empenhado em não abandonar essas obras, antes, pelo contrário, quer intensificá-las, para o que já pediu auxílio a União.
Lepra. A estatística da lepra, iniciada por nós em maio de 1916 e prosseguida durante todo o ano de 1917, está pronta para todo o litoral, a capital e dez municípios do norte do estado. Não nos enganamos quando apresentamos Jaguariaíva, Rio Negro e Guarapuava como principais focos de lepra no Paraná, podendo adicionar agora a esses mais dois municípios, Tibagi e Piraí, que são também grandes focos desse mal. A nossa estatística, que já vai bem adiantada, apresenta um total de 340 casos, passando talvez de quatrocentos, para todo o estado. Foi esse o nosso cálculo aproximado. O apelo, que fizemos em fevereiro de 1917 ao Congresso Paranaense, foi bem acolhido, tendo os deputados paranaenses Plínio Marques, Hildebrando de Araújo e Sandenberg apresentado um projeto, criando um serviço de Profilaxia da Lepra no Paraná, o qual foi aprovado e convertido em lei. Baseado, portanto, na lei de n° 1718, de 31 de março de 1917, o governo do Paraná vai iniciar já as construções dos diversos pavilhões e residências que constituirão a primeira colônia de leprosos, estando já escolhido o terreno no município da capital; as plantas dependem apenas da aprovação da Diretoria de Obras Públicas.
Úlceras epidêmicas. Entre 1915 e 1916 houve em quase todo o litoral paranaense uma grande epidemia de úlcera fagedênica, devida à associação fuso-espirilar de Vicent. No começo do ano passado, observamos alguns casos muito típicos dessa espécie de úlcera, cujo diagnóstico microscópico foi positivo. Em junho do ano passado combatemos uma intensa epidemia, também de úlcera fagedênica, nos municípios de Platinópolis e Jacarezinho, no norte do estado do Paraná, tendo estudado mais de cem casos. Na mesma ocasião encontramos meia dúzia de casos de leishmaniose tegumentar nessa zona, sobre os quais já fizemos uma pequena comunicação à Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Doença de Chagas. Até hoje ainda não foi verificada a presença da doença de Chagas no Paraná; podemos, entretanto, afirmar que lá existe, sobretudo no norte; encontramos grandes focos de barbeiros, da espécie Triatoma megista, em Jataí e São Pedro de Alcântara, onde existem também muitos casos de bócio. Casos inúmeros de bócio conhecemos, mesmo em famílias inteiras, nos sertões do Paraná em Ipiranga e municípios vizinhos. Seguimos agora para lá, a fim de resolver de vez esse problema, que nos parece tão importante como qualquer outro da nossa nosologia.
Febre tifóide. Curitiba foi sede, no ano passado, de uma grande epidemia de febres tíficas e parasitárias, tendo sido registrados cerca de duzentos casos. Felizmente a mortalidade foi pequena, em relação à grande mortalidade dessas infecções. A Comissão Médica Paulista, chefiada pelo Dr. Theodoro Bayma, conseguiu em poucos dias encontrar a causa principal desse grande surto epidêmico do mal, que antes já existia em estado esporádico. Ficou verificada a contaminação da rede de águas pela rede de esgotos. Eliminados os pontos de contato entre rede de abastecimento de água e rede de esgotos, e iniciada a vacinação anti-tífica da população na proximidade de maiores focos, o mal foi diminuindo aos poucos, até ser completamente subjugado. Em pouco mais de dois meses vacinaram-se em Curitiba cerca de 15 mil pessoas, número esse que foi aumentando, progressivamente, até o fim do ano de 1917; pois a epidemia teve início em setembro desse ano e atingiu o seu fastígio em outubro e novembro. Em janeiro de 1918 ainda foram verificados muitos casos novos de tifo entérico, mas esta epidemia já tende a desaparecer. A vacinação anti-tífica continua a ser feita quer na Repartição de Higiene do Estado, quer na sede da Cruz Vermelha Paranaense e nos quartéis das forças do exército. O Secretário do Interior do Paraná, o ilustre Dr. Eneas Marques dos Santos, quando deu ordem de reabertura das escolas de Curitiba, estabeleceu que só seriam admitidos à matricula os alunos que apresentassem atestados de vacinação contra a febre tifóide. Enfim, foram tomadas pelo governo do estado todas as medidas aconselhadas nessas emergências, e os resultados práticos foram os mais lisonjeiros possíveis.