Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Adolpho Lutz · Capítulo 18 de 24 · parte 3/5

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Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens

Viagem científica no Rio Paraná e a Assunción, com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Há dois anos sofria de mal-de-engasgo. Nos primeiros tempos o sofrimento era insignificante, mas atualmente ele vai se intensificando cada vez mais, de modo a já não poder se alimentar. Come duas vezes por dia e apenas aos pequenos bocados, que só deglute por meio de goles d’água.

Quando consegue deglutir, sente parar o bolo alimentar na parte mediana do esófago e só consegue fazê-lo chegar ao estómago bebendo bastante água; às vezes, mesmo assim, vomita tudo, o bolo alimentar voltando acompanhado da água. Uma vez ou outra consegue almoçar ou jantar, deglutindo os alimentos aos pouquinhos, sem necessidade de água; isto acontece, sobretudo, quando está distraído e não pensa no seu mal. A regra, porém, é só comer auxiliando a deglutição com repetidos goles de água.

O Dr. Lutz e eu examinamos detidamente esse doente e pareceu-nos ser um caso de disfagia espasmódica.

Na viagem de Tibiriçá a Porto Mojoli, que fizemos em embarcações da empresa Mate-Laranjeira, com 16 tripulantes (os quais permaneceram na barranca do Paraná, defronte de Três Lagoas, nada menos de meio mês), observamos entre eles diversos doentes de malária e quase sempre de terçã maligna. Quatro deles passaram muito mal durante a viagem, e a febre só cedeu depois de diversas injeções intramusculares de quinino. Desses tripulantes da lancha e das chatas ainda caíram mais alguns com febre, em Porto Mojoli, dias depois da nossa chegada. Feliz mente não tivemos nenhum caso fatal. Desde que começamos a descer o rio Paraná, entramos no uso preventivo de quinino, o Dr. Fonseca, eu e o ajudante Vasconcellos.

Só o Dr. Lutz não fez o uso de quinino por não suportar bem esse medicamento. No correr dessa viagem também caiu doente o Sr. Ricardo Mendes Gonçalves, chefe das embarcações e representante daquela empresa de Mojoli.

Porto Xavier. Este porto fica na margem esquerda do Paraná, entre as fozes dos rios paranaenses Ivaí e Veado. Não é mais que uma grande área roçada, no meio da floresta; esse porto foi fundado ali pelo Lloyd Paranaense, para ser usado no transporte de gado de Mato Grosso para o estado do Paraná, logo que esteja terminada a estrada em construção (de cerca de 70 léguas) que vem da cidade de Guarapuava, para esse ponto, denominado Porto Xavier. A dois quilómetros daqui há, na margem direita do rio Veado, portanto no município de Guarapuava, um toldo de índios Caiuás (ou Cayuás, ou ainda Cayguás). Fomos visitar o seu aldeamento. Eram eles em número de 15, habitando a mesma choça, cuja descrição vem na parte geral, acompanhada de algumas fotografias. Alguns desses índios sofriam seriamente de impaludismo. Deixamos uma porção de comprimidos de quinino. Não encontramos neles nenhuma moléstia da pele e nenhum caso de bócio. Essa ausência de bócio entre os índios tem sido verificada por todos os excursionistas, em diversas regiões do Brasil. Em abril de 1917, quando estivemos combatendo uma epidemia de malária no norte do estado de Paraná, tivemos oportunidade de examinar e tratar, em São Jerónimo, Jataí e São Pedro d'Alcântara, muitos índios da raça Guarani, Caiuás e Coroados. Em nenhum índio dessas três raças, habitando lugares diferentes, encontramos sequer um caso de bócio ou de lepra.

Os índios Caiuás que formavam, há pouco tempo, grande reduto nos campos do Mourão, município de Guarapuava, zona situada entre os rios Tibagi e Ivaí, estão hoje reduzidos a um pequeno núcleo, porque a malária os tem devastado inclementemente. Na epidemia de 1917 morreram 22 índios dessa tribo, ficando quase só mulheres e crianças.

A não ser os índios, os demais habitantes do Jataí, negros e brancos, sofrem de bócio em alta porcentagem e em toda essa região existem barbeiros, em grande abundância. Eis aí a questão da habitação, as paredes de barro concorrendo para a presença dos barbeiros.

Porto Isabel. Este porto foi fundado em janeiro passado, na barranca mato-grossense do rio Paraná, pouco abaixo da foz do rio Iguatemi, e é um departamento de trabalho da empresa Mate-Laranjeira, destinado, sobretudo, a servir de estação intermediária de Porto Mojoli, no concernente à importação de mercadorias de São Paulo, destinadas às suas sucursais de Mato Grosso. Havia lá em construção uma boa casa de madeira e um armazém, em cujo serviço estavam empregados uns vinte e tantos trabalhadores, na sua grande maioria paraguaios, dos quais alguns sofrendo de impaludismo. Um deles tinha grande bócio bilobado.

Porto Mojoli (distrito de Guaíra). Este porto está situado na margem esquerda do Paraná, poucos quilômetros acima dos Saltos do Guaíra ou das Sete Quedas, numa altitude de 225 metros. O porto Mojoli foi fundado em 1909 e tem hoje cerca de 1.300 habitantes, na sua imensa maioria paraguaios e correntinos. Disseram-nos haver lá, ocupados nos diversos trabalhos da empresa Mate-Laranjeira, que é proprietária de tudo, cerca de oitocentos homens (dos quais duzentos estão sempre viajando para os ervais de Mato Grosso), 280 mulheres e 350 crianças. Quanto às habitações, já se estão construindo boas casas de tijolos; todavia, a maioria das agora existentes é de construção provisória, feitas de taquaruçu e cobertas de capim. O fornecimento de gêneros alimentícios é bem feito e há carne verde todos os dias.

O serviço de água também é bem organizado e o líquido distribuído de excelente qualidade. Basta dizer-se que de São Paulo até Mojoli a melhor água que encontramos para uso foi a deste porto. A água é captada diretamente dum manancial de uns trezentos metros de distância e recebida por gravidade, com uma queda de três metros, num tanque de 25 mil litros.

Desse tanque a água é levada ao reservatório central de 35 mil litros, situado num morro fora da vila e numa altura de 25 metros, por meio de bomba a vapor. Do reservatório central a distribuição é contínua para os diversos pontos do povoado. Visitamos as obras de captação e distribuição de água com o engenheiro da empresa, Sr. Sidwell Wilson, e o Sr. J. Jara.

Na mesma ocasião, visitamos as novas latrinas que se estão construindo no quarteirão da parte nova do distrito. São grandes e profundos buracos de dois metros quadrados de boca por dez de profundidade, com dois assentos separados por uma parede e tudo protegido por uma boa casinha de madeira com duas entradas. A empresa mantém em Mojoli bem sortidos armazéns de mercadorias para fornecimento aos seus empregados e operários, padaria e açougue grande. Visitamos o matadouro, que está muito perto da vila e não obedece às regras de higiene. Ali se vêem couros estaqueados secando ao sol, às dezenas. Esses couros e as partes desprezadas, tais como os intestinos, unhas etc. das reses, exalam um fedor insuportável.

Os urubus são ali extraordinariamente abundantes.

Se, de um lado, os operários da empresa ganham pouco, doutro lado, têm a vantagem de não serem explorados no fornecimento dos gêneros alimentícios e outros também de primeira necessidade. A empresa fornece carne verde de excelente gado, importado de Mato Grosso, a 250 réis o quilo; arroz brasileiro a 600 réis o quilo e açúcar branco a 800 e mil réis o quilograma, e tudo o mais nessa proporção. Como se vê, dada a distância dos centros produtores e a dificuldade de transporte, esses preços são muito moderados.

Na cidade de Iguaçu, como veremos adiante, os mesmos artigos importados dos centros comerciais do nosso país, mas muito sobrecarregados de impostos e fretes, são vendidos por preços três vezes mais elevados, Reina em Mojoli a maior ordem possível. A empresa mantém todo o pessoal debaixo de uma disciplina de ferro, mas a base principal da ordem lá reinante é a proibição de venda e uso de bebidas alcoólicas.

Nem mesmo na mesa do administrador de Mojoli usa-se qualquer bebida alcoólica. Sabe-se que os paraguaios do povo são muito afeitos ao uso das bebidas alcoólicas, e, se lhes fizerem a vontade, tornam-se eles indivíduos desordeiros e imprestáveis para o trabalho. Entretanto, graças àquela excelente medida contra o alcoolismo, os paraguaios de Mojoli são indivíduos pacatos, respeitadores, sérios e muito trabalhadores.

O jogo e o uso de armas de fogo também são proibidos em Porto Mojoli.

Estado sanitário. Dadas as condições do meio, que muito concorrem para uma alta endemicidade palúdica em Mojoli, o estado sanitário momentâneo desta vila é relativamente bom. A empresa com os seus serviços de água e higiene procura melhorar cada dia o estado sanitário e as condições de vida da população do distrito de Guaíra. Para a cura dos enfermos, a empresa mantém um hospital onde são recolhidos e tratados todos os trabalhadores enfermos, um médico efetivo – o Dr. Francisco Varella, formado na Espanha –, e uma farmácia dirigida pelo farmacêutico Vicente Lafuente, formado pela Universidade de Assunción e cunhado do administrador da empresa. A farmácia é pequena, mas tem o essencial para a medicina de urgência e o tratamento das moléstias infecciosas, possuindo uma sala para pequenas operações e curativos onde operamos, os doutores Lutz, Varella e eu, um doente que havia nove dias estava com oclusão intestinal. Não obstante o bom funcionamento do ânus artificial, o doente veio a falecer, quatro dias depois.

A 5 de fevereiro visitamos em companhia do Dr. Varella o hospital de Mojoli. Esse estabelecimento é um grande barracão de madeira com capacidade para cinqüenta enfermos. Todo trabalhador doente que aparece para consulta é internado imediatamente e curado pelo médico, que tem para auxiliares três enfermeiros. Nesse dia havia 37 enfermos internados, dos quais 28 de malária, um de lepra, um de leishmaniose cutânea, vindo de Mato Grosso, dois de úlceras banais, um de blenorragia, três de adenites supuradas, um com flegmão e um com orquite. Dois desses doentes (que eram todos paraguaios), além dos seus outros males ainda tinham bócio. A maior parte desses impaludados veio de fora, sobretudo de Mato Grosso. Nessa época estavam aparecendo em Mojoli alguns casos de febre terçã, de primeira infecção. Disse-nos o Dr. Varella que nos dias 3 e 4 de fevereiro registrara na sua clínica externa sete casos novos. Com os doentes hospitalizados, os casos da clínica externa do Dr. Varella e os que tratamos pessoalmente durante a nossa estadia em Mojoli, o número de impaludados eleva-se a cerca de cem, portanto menos de 10 por cento da população. O Dr. Varella informou-nos que noutros anos essa porcentagem tem subido a 40 nos meses de fevereiro e março. No consultório da comissão apareceram diversos doentes de bócio, entre estes três meninas paraguaias, filhas de mãe papuda. Nos poucos dias que permanecemos no distrito do Guaíra tratamos de 34 doentes, dos quais mais da metade de impaludismo e ancilostomíase. Os doentes de ancilostomíase já vieram infectados do Paraguai, pois, graças às medidas postas em prática pela empresa, a população de Mojoli só muito excepcionalmente poderá infectar-se na sede da vila. Entre os casos de verminose intestinal, verificamos dois de Strongyloides e muitos de necatoríase. Fizemos lá muitos exames de sangue e fezes. Examinamos um morfético paraguaio, de 26 anos, residente em Mojoli. Tratava-se de lepra nervosa com perfuração do septo nasal e mal perfurante do pé. Disseram-nos existir lá mais outro morfético que não conseguimos descobrir. Clinicamente diagnosticamos também um caso de leishmaniose cutânea com lesões nas pernas num doente paraguaio vindo de Mato Grosso.

Não conseguimos confirmar pelo microscópio o diagnóstico clínico desse caso, não obstante um exame cuidadoso; entretanto, não nos deixou dúvida. Os demais doentes por nós examinados e tratados eram casos banais. A todos os nossos doentes de poli-helmintíase fornecemos vidros com comprimidos de ankylostimol, e aos impaludados, além das injeções cotidianas de sal de quinina e de azul de metileno, fornecemos também comprimidos de sulfato de quinino. Quanto às moléstias venéreas, não tivemos tempo nem oportunidade de estudá-las, mas pelas informações do médico do lugar sabemos serem elas demasiado comuns, sobretudo por causa do desenvolvimento da prostituição nas populações paraguaias.

3. Baixo Paraná

Zororô. Zororô, que significa em guarani “grande ruído,” é o nome de um bairro situado à margem esquerda do riacho do mesmo nome e a vinte quilômetros de Porto Mojoli. Descendo a margem esquerda do Paraná em trem Décauville da empresa Mate-Laranjeira, é esse o primeiro povoado, depois de Mojoli, levantado em terras do governo do Paraná, pela referida empresa. Zororô é um pequeno povoado, um núcleo agrícola que produz milho, mandioca, banana, cana-de-açúcar etc. em grande abundância; é dependência de Porto Mojoli. A empresa Mate-Laranjeira possui lá uma grande serraria, movida por força hidráulica. Além da serraria a empresa tem nesse lugar diversos galpões para depósito de cereais, hospedagem dos peões solteiros e cerca de trinta casitas de duas peças onde residem operários casados. Vivem em Zororô mais de cem pessoas vassalas da referida empresa. O estado sanitário dessa pequena povoação é bom. Raramente aparecem lá casos de malária ou qualquer outra doença, os quais são imediatamente removidos para o hospital Mojoli. Notamos, entretanto, que a criançada dessa aldeia está em iguais condições da de Mojoli, apresentando os sintomas da ancilostomíase impressos em suas faces.

É preciso notar que essas crianças já vieram doentes do Paraguai. Também é necessário que a empresa não se descuide delas e nem do aldeamento, para evitar que esses indivíduos contaminem tudo: solo, água e demais habitantes. Casos de pequenos ferimentos por desastre e brigas são comuns. A desflorestação regional e a falta de águas paradas nas redondezas de Zororó não permitem surtos endêmicos de malária.

Porto Mendes. Este magnífico porto é o ponto terminal da navegação do Baixo Paraná brasileiro, que para os argentinos e paraguaios é o Alto Paraná Médio. Porto Mendes é uma importante dependência da empresa Mate-Laranjeira, que é, sem dúvida alguma, a mais importante empresa industrial da região ocidental do estado de Paraná. É por esse porto que sai toda a erva-mate adquirida pela empresa em vastíssima extensão de Mato Grosso. A barranca do rio Paraná nesse porto é elevadíssima; mesmo na época em que lá estivemos, com o rio bastante crescido, a diferença de nível tomada por nós com um altímetro Casella foi de 6,5

metros.13

Em Porto Mendes possui a empresa um palacete em estilo muito formoso, construído de pedra e cal, no topo da barranca do rio; é utilizado para a residência dos empregados superiores da companhia e administração do porto. É gerente do porto o Sr. António Arias, jovem paraguaio natural de Vila Rica, e por isso diz guareno. Porto Mendes, situado num grande descampado a cerca de 200 metros de altitude, é já um povoado com mais de trinta habitações. Os trabalhadores desse porto são também na sua maioria paraguaios e correntinos, mas só falam o guarani.

Habitam lá mais de cem pessoas, das quais algumas sofriam de impaludismo; forneci medicamento às que nos procuraram.

A existência de casos de malária corre lá por conta da constante permuta de trabalhadores com o reduto de Mojoli. Porto Mendes pela sua situação e ausência de águas paradas, de matas próximas etc. e, sobretudo, pela ausência quase completa de mosquitos e de doentes, não apresenta condições próprias aos surtos epidêmicos de impaludismo.

Os vários doentes que lá aparecem são imediatamente enviados

para o hospital de Mojoli. No dia que falhamos em Porto Mendes14 deu-se um desastre no funicular. Dois peões ficaram feridos, sofrendo um deles fraturas de perna e braço. O administrador do porto preparou imediatamente um trem de socorro e enviou ambos para o hospital de Mojoli.

Porto Artaza. É o ponto de embarque do mate e de outros produtos de exportação da empresa Julio Allica. Esse porto fica na barranca do Paraná, um quilómetro abaixo de Porto Mendes. Possui também um funicular, e atualmente estão construindo no alto da barranca um grande prédio para armazém do porto. Em frente, no alto, acha-se o escritório e a administração dessa importante empresa agrícola e industrial. No pátio onde se acham o escritório e alguns pavilhões residenciais, a altitude é de 180 metros; no dia que lá estivemos a temperatura atingiu 30°C. Informaram-nos que a temperatura mais baixa lá registrada foi 3°C.

A empresa Juli Allica está situada num magnífico planalto e tem cerca de trinta casas, algumas das quais bem boas; possui ao todo 1.100 trabalhadores em diversos pontos. Na sede da empresa residem trezentas pessoas, das quais muitos argentinos e menor número de paraguaios. O Sr. Allica, que também é argentino, aparenta ter 60 anos; é um homem forte, enérgico e trabalhador, e dizem-no de um caráter impoluto. Foi um dos primeiros povoadores daquela magnífica região brasileira, onde reside há 11 anos, tendo sido ele quem obteve das empresas argentinas as linhas de navegação existentes entre Porto Mendes e Posadas.

Além das importantes oficinas, possui lá o Sr. Julio Allica boa residência e um parque com muitos animais e aves domesticados. Nesse núcleo agrícola há mais moralidade que em Mojoli. Diz o Sr. Allica que a higiene é a religião do lugar, e por isso quase não há doença; mesmo a malária é lá muito rara. De disenteria “com sangue” e “sem sangue,” informou-nos o Sr. Allica, aparecem alguns casos de ano em ano, ou de dois em dois anos, sob forma endêmica. Visitamos o serviço de catação de água para uso doméstico, cujo líquido é excelente. De uma fonte de rocha á catada a água cristalina, fresca e pura, e levada, por meio de bomba a vapor, a um reservatório de 1.500 litros, donde é distribuída a toda a população. O Sr. Allica tem um excelente automóvel Hispano-Suiza, para percorrer as suas vastas terras cultivadas e ervais; tem lanchas automóveis para o serviço do porto e outros recursos modernos de conforto e progresso industrial.

Bela Vista. Bela Vista é um lindo porto paranaense, poucas léguas acima da cidade de Iguaçu. É a sede da empresa industrial do argentino Sr. Hygino Alegre. Essa empresa extrai e exporta grande quantidade de madeiras de construção e desenvolve a agricultura.

Dada a magnífica situação desse pequeno bairro, o seu estado sanitário é invejável.

Cidade de Iguaçu. A lei paranaense n° 1.658, de 3 de março de 1917, elevou esse município à categoria de comarca, por conveniência da justiça, por estar muito distante da cidade de Guarapuava, a cujo município pertencia, tendo sido instalada a 15 de julho do ano passado.

A população de todo o município de Iguaçu pode ser calculada em 8 mil habitantes, pois Mojoli e os demais bairros, situados abaixo deste, pertencem todos a esta comarca. A cidade é pequena e bastante atrasada. De melhoramentos modernos tem apenas o telégrafo, que é federal, a iluminação elétrica, que é municipal, e uma serraria, movida a vapor, no perímetro urbano. Há um pequeno hotel.

A cidade não tem água encanada, nem esgoto. Quanto ao serviço de águas, ela está mais atrasada que Porto Mojoli, Porto Tibiriçá etc.

A população de Iguaçu faz uso de água de cisternas e de um arroio que passa pelos arredores da vila. As latrinas são fossas perdidas e só existem nalgumas casas melhores, habitadas por gente que veio de fora. Já vimos que o clima de Iguaçu é temperado, com verão quente.

Estado sanitário. Notamos com prazer que o estado sanitário da zona compreendida entre Porto Mendes e a cidade de Iguaçu é excelente. Basta dizer que a malária é hoje rara nessa região, e isso se explica pelo fato de serem bastante elevadas as barrancas do rio Paraná, desde o Porto São João até a foz do rio Iguaçu, não permitindo que as águas transbordem e formem alagadiços. Doutro lado, as florestas vizinhas vão sendo derrubadas pela necessidade de expansão da cidade, cultura da terra e extração de madeiras.

A ausência de alagadiço e de brejos está confirmada pela pequena quantidade de mosquitos lá encontrada, comparada com a de outras regiões por nós percorridas. Podemos afirmar que, desde a cidade de Bauru até a cidade de Iguaçu, foi nesta última e mesmo junto aos Saltos de Santa Maria que menos sofremos picadas de mosquitos. Durante os 12 dias que nos demoramos em Iguaçu em pleno verão, eram bem raros os culicídeos.

Moléstias. Houve em Iguaçu, em 1905 e 1906, uma grande epidemia de impaludismo, e depois dessa apareceram apenas casos esporádicos. O escritor paranaense Silveira Neto assim narra os horrores dessa epidemia no seu livro Do Guaíra aos Saltos do Iguaçu, páginas 65 e 66:

Passada a fúria das águas (a enchente elevara o nível do rio a 40 metros acima do normal), baixou o rio ao seu nível habitual, sobreveio então a febre palustre com intensidade superior à de outros anos; pela primeira vez eu e toda a minha família adoecemos naquele retiro selvático e antes magnificamente sadio, vítimas de violenta infecção palustre, não mortal, mas de abater em dois dias todas as energias físicas e morais de uma pessoa, cadaverizando-a. A infusão quente da casca de limão, que há em abundância no lugar, e um medicamento italiano, esanopheles, para a malária, importado de Posadas, eram com o quinino em doses maciças o salvatério da população.

Durante a nossa estadia em Iguaçu, tendo aberto consultório para o tratamento gratuito de todos os doentes de moléstias infecciosas e parasitárias que aparecessem, entre os muitos que tratamos não tivemos nenhum de impaludismo agudo. Não vimos nenhum caso de úlcera, nem leishmaniose, nem úlcera fagedênica. Registramos, porém, dois casos de lepra tuberculosa em uma família de leprosos, havendo outras ausentes. Das moléstias infecciosas predominava a sífilis. Tivemos também alguns casos de verminoses, de blenorragia, de conjuntivite purulenta, e um caso de infecção tífica. A ancilostomíase existe com certa freqüência em Iguaçu; não apresenta, porém, os caracteres de intensidade e gravidade que observamos no litoral paranaense. Durante as nossas viagens de inspeção médica pelo interior do Paraná, sempre que nos demoramos em um lugar qualquer, vila ou cidade, temos feito estatística das verminoses, baseada nos exames coprológicos, e sobretudo nas escolas, onde se encontram doentes de todas as classes sociais e habitando pontos diversos da mesma zona. Na cidade de Iguaçu não pudemos fazer essa estatística entre os meninos, por motivo de estarem ainda fechadas as duas escolas públicas. Iguaçu não tem médico, nem farmácia. Os doentes recorrem a curandeiros. Muitos deles vão tratar-se com o Dr. Moisés Bertoni, no porto do mesmo nome, no Paraguai. O Sr. Bertoni também não é profissional, pois o título que possui é de agrónomo e não de médico; foi durante muito tempo professor de agronomia em Assunción. Os doentes mais ricos vão procurar recursos em Posadas, onde clinicam muitos médicos e existe um hospital municipal. Quanto a medicamentos, não há em Iguaçu o menor recurso, e quem adoecer lá, gravemente, morrerá à míngua. As nossas receitas eram enviadas para Posadas e aviadas em um grande estabelecimento farmacêutico de brasileiros.

4. Paraguai, Argentina e Uruguai

República do Paraguai

Tendo percorrido alguns lugares desta república vizinha e obtido algumas informações interessantes sobre a patologia regional, resolvemos intercalá-las aqui como subsídio científico de certa valia.

Visitamos Assunción, San Bernardino, Encarnación e Puerto Bertoni. As diversas observações e informações obtidas nesses lugares, com referência à medicina, incluiremos no capítulo Estado Sanitário do Paraguai.

Assunción

Esta cidade é bem situada e tem belo porto no rio Paraguai. Altitude 100 metros acima do nível do mar. A capital paraguaia tem mais de 100 mil habitantes e nela clinicam quarenta médicos, entre os quais alguns estrangeiros. Como cidade, oferece certo conforto e algumas distrações. Vê-se que as melhores construções são antigas e, entre elas, algumas maltratadas e outras de grande beleza. O calçamento da cidade é muito antigo, irregular e incômodo ao trânsito, a pé ou de carruagem. Felizmente existem algumas linhas de bondes elétricos, percorrendo os principais pontos da capital. A iluminação é elétrica. Sobre a cidade vêem-se centenas de cata-ventos, destinados à tração de água de poços. Não há água encanada. Para beber, a população usa água das chuvas. A cidade está desprovida de telefone desde a última revolução. Existem lá algumas praças e belos jardins públicos.

Hospedamo-nos no Hotel Hispano-Americano, onde havia Stegomyia em abundância. Assunción possui um Ginásio Nacional, uma Escola Normal, uma Escola de Comércio e uma Universidade, cuja Faculdade de Medicina está fechada há 9 anos, por falta de alunos, dizem. Muito dos médicos de Assunción estudaram e se diplomaram em Buenos Aires, e alguns na Europa. Todos os médicos que lá conhecemos são jovens e bastante ilustrados, causando-nos muito boa impressão.

Na conferência que tivemos com o Sr. Manoel Franco, presidente da República, ele disse-nos que vai reabrir a Faculdade de Medicina, talvez ainda em 1918, e entregar a sua direção ao Dr. L. E. Migone, em quem o seu governo muito confia e de cujo saber e patriotismo muito espera. Os médicos paraguaios têm a sua Sociedade, onde discutem os vários problemas científicos que se relacionam com a medicina, e alguns deles têm importantes trabalhos sobre patologia regional, publicados em jornais europeus.

Higiene. É diretor-geral da higiene pública o Dr. Andrés Barbero, que nos informou sobre diversos e importantes problemas de Saúde Pública no seu país. Dissenos que a sua repartição carece de uma reforma geral e ampliação das diversas seções. Informou-nos que está muito preocupado com a profilaxia rural, tendo enviado, há poucos meses, uma comissão médica para fazer estudos sobre o estado sanitário do norte do país, e mostrou-nos o relatório que lhe foi apresentado pelo chefe dessa comissão, o Dr. Migone. Brevemente outras comissões partirão para outras regiões do Paraguai, incumbidas do mesmo serviço. O Dr. Barbero, que já tem na Assistência Pública de Assunción o serviço especial de assistência aos bubaticos (doentes de leishmaniose), espera poder dentro em breve ampliar esse serviço, fundando outros postos nas regiões mais infestadas pelo mal. O Sr. presidente da República mostrou-se também muito interessado por esse problema, capital para o Paraguai, e deseja, além da assistência aos leishmanióticos, iniciar campanha contra a malária e ancilostomíase. Enfim, a situação atual do Paraguai indica o ressurgimento nacional e o início de uma nova era de atividade e trabalho eficiente e patriótico.

Hospitais etc. Assunción possui os seguintes recursos de assistência pública: o Hospital Nacional, que é o maior e mais importante, o Hospital Militar, a Maternidade, a Assistência Pública, a “Casa de Aislamiento,” onde são isolados alguns leprosos, e o Instituto Bacteriológico, que já vai prestando bons serviços, graças à competência e atividade do seu diretor, Dr. Migone. Assunción conta também alguns pequenos sanatórios particulares.

Estado Sanitário. Doença de Chagas. Pelas modernas observações e estudos vai-se verificando, dia a dia, a maior disseminação, no continente sul-americano, da doença de Chagas, pelo seu descobridor denominada tripanossomíase americana. No Paraguai há, estamos informados, grandes focos de doentes, apresentando o cortejo já clássico dos sintomas que caracterizam entre nós a doença de Chagas. Doutro lado verificamos, no Instituto Bacteriológico de Assunción, o Dr. Migone e toda a Comissão Médica Brasileira, barbeiros paraguaios da espécie Triatoma megista Burm, muito infectados com o Trypanosoma cruzi, que é o germe causador da mais terrível das doenças que assolam o vasto interior do nosso país. Segundo nos informou o Dr. Migone, há no Paraguai inúmeros focos conhecidos de Triatoma megista. Nas proximidades de San Bernardino, onde estivemos junto à Serra de Canguaçu, abundam esses reduviídeos hematófagos. Paraguaios com bócio, adultos e crianças, encontramos e examinamos diversos em Porto Mojoli, colónia paraguaia estabelecida na parte ocidental do estado do Paraná.

No longo percurso que fizemos no Paraguai, por caminho de ferro, vimos por toda parte habitações com paredes de barro e cobertura de capim, as quais são o eterno viveiro desses terríveis vetores de males multímodos, indo desde o infantilismo até a paralisia idiótica e a loucura.

Impaludismo. Nos arredores de Assunción existem focos de malária em franca atividade, e o mal está espalhado por quase todo o país. O Paraguai apresenta as mais propícias condições ao desenvolvimento do impaludismo; devem existir focos de terçã maligna causando enormes danos, e regiões onde o mal, dada a temperatura sempre elevada e a presença de mosquitos e doentes, perdura todo o ano, como acontece também na zona tropical do nosso país.

Ancilostomíase. Esta doença e a poli-helmintíase são endêmicas em todo o país, numa porcentagem variando entre 70 e 85 por cento, cálculo e informação do Dr. Ricardo Odriosola. Os maiores focos dessas verminoses acham-se na zona central e ao leste do Paraguai. Bem considerado, todo o Paraguai, em razão do calor e da umidade constante, da pouca altitude, e das zonas alagadiças, é eminentemente próprio ao desenvolvimento máximo de ancilostomíase. Se esse mal debilita e inutiliza os nossos patrícios de vastas zonas e de toda a imensa costa brasileira, não existe, contudo, nas zonas de grandes alturas e nos campos do sul do nosso país.

Outras doenças

Disenteria. Tanto a disenteria amébica como a disenteria bacilar são comuns em Assunción. Em 1900 houve em toda a República uma grande epidemia de disenteria e de sarampão.

Peste. Parece não haver no Paraguai focos revivescentes de peste bubônica, tomando-se em conta a ausência de casos há muito tempo. Ainda se discute hoje em Assunción e em Buenos Aires a procedência da peste. P. L. Simond diz ter arrebentado a epidemia de peste na cidade do Porto em 1899, e, logo em seguida foi verificada, no mesmo ano, no Brasil (Rio, Santos e São Paulo), na Argentina (em Buenos Aires) e no Paraguai (Assunción).

Dermatologia: leishmaniose tegumentar. Quanto à freqüência e disseminação da leishmaniose, o Paraguai está nas condições do Brasil, da Bolívia, da Argentina, do Peru etc., se não for o foco mais intenso de toda a América do Sul, como parece, à vista das informações do ilustre Dr. L. E. Migone, publicadas no Bull. de la Soc. de Path. Exot. (Tomo VI, 1913, p.210):

Nous avons observé cette maladie parmi nos nationaux et les

étrangers, hommes ou femmes, vieillards et enfants au sein.

ll y a des annés et des endroits où la maladie se fait sentir

terriblement: Sur 100 ouvriers qui entrent dans ler forêts, deux

mois après, il en sort 70 à 80 malades à la fois, avec une ou

deux plaies, avec 10 ou 12, avec 30 ou 40, chez quelques-uns,

réparties sur des différentes parties du corps, ce qui oblige à

suspendre les travaux.

Não sabemos por que razão o Dr. Migone considera a leishmaniose uma doença importada, por contaminações sucessivas, dos estados brasileiros, limítrofes com o Paraguai (op. cit., p.210), se ela está mais espalhada no seu país que no nosso e se ela existe também na Bolívia e na Argentina, países também limítrofes com aquela República. Dos nossos estados limítrofes com o seu país, só Mato Grosso poderia ter-lhe fornecido casos do mal, pois o estado do Paraná não possui focos de leishmaniose na zona limítrofe com o Paraguai. Nós, que percorremos todo esse estado meridional em viagens de estudos, encontramos apenas meia dúzia de casos dessa dermatose na zona subtropical do norte, em dois municípios da fronteira com São Paulo, estado onde existe, de há muito tempo verificada, essa doença. Por que o Dr. Migone não incrimina a Argentina ou a Bolívia como exportadores do mal? O Paraguai, um pequeno país comprimido entre as três grandes Repúblicas nas quais têm sido encontrados focos do mesmo mal, oferecendo condições mesológicas idênticas, por que não havia de possuir, desde eras remotas, focos de leishmaniose? A nossa patologia é a mesma, cada vez melhor se verifica, que a da Argentina, da Bolívia e do Paraguai, portanto não temos que nos queixar dos vizinhos.

Quando visitamos o Hospital Nacional de Assunción, vimos lá seis ou mais casos de leishmaniose em homens, uns com lesões cutâneas, outros sem lesões da pele e das mucosas. Esses casos eram perfeitamente iguais aos que temos visto na Clínica Dermatológica do Rio.

O Dr. Arriola Moreno, chefe da clínica de homens desse hospital, informou-nos que, de 1916 a fevereiro de 1918, passaram pelas clínicas do Hospital Nacional 140 casos de leishmaniose e que foram todos tratados com injeções intravenosas de tártaro emético ou de protosan. Acrescenta o Dr. Moreno que na sua clínica tem observado ser o protosan mais eficaz que o emético na cura da leishmaniose.

O Dr. Ricardo Odriosola, que nos acompanhou na visita aos hospitais, informou-nos que, na sala de consulta externa da Assistência Pública de Assunción, há um consultório especial para o tratamento da leishmaniose onde se injetam diariamente de vinte a quarenta doentes. A cura é feita com injeções de tártaro e de protosan, acentuando ele a maior eficácia deste último medicamento, opinião expressa pelo Dr. Moreno. O Dr. Odriosola curou há pouco tempo, com injeções de protosan, oito crianças atacadas de leishmaniose. Aplicava 3 centímetros cúbicos de protosan em dias alternados, sempre com resultado magnífico. O uso de protosan no Paraguai está muito espalhado. De tártaro emético usam-se soluções preparadas no Instituto Bacteriológico de Assunción.

Lepra. Ainda com o Dr. R. Odriosola fomos visitar o Hospital de Isolamento, onde examinamos dez leprosos, todos de nacionalidade paraguaia. Eram todos casos de lepra muito adiantada, e deles, oito da forma tuberculosa e dois de forma nervosa. O isolamento desses morféticos é incompleto, porque eles saem quando querem, sobretudo à noite, e alguns deles têm amantes nos arredores do hospital. Essa chamada “Casa de Aislamiento” consta de um quarteirão de terreno, fechado com cerca de arame farpado, contendo dois ranchos velhos e imundos, onde vivem os desgraçados leprosos, um pavilhão quase novo ou reformado onde são isolados os doentes atacados de outras moléstias infecto-contagiosas e uma casa, junto ao portão, onde residem o administrador e o enfermeiro do hospital. Entre os leprosos havia um sofrendo das faculdades mentais, que nos quis agredir. Pelas ruas de Assunción encontramos vários leprosos, e, referindo esse fato ao Dr. Migone, ele nos respondeu que pelo número de leprosos e de cães que perambulam pelas ruas de Assunción, essa capital se parece com Constantinopla.

Disse-nos o Dr. Odriosola que todo o Paraguai está contaminado pela lepra, sobretudo na parte leste da capital e em Luque, a três léguas de Assunción. Os doutores Odriosola, Zanotti, Cavazzoni e outros colegas têm nos arredores de Assunción um local onde isolam, por conta própria, alguns leprosos, para experiências terapêuticas. Ultimamente eles têm empregado o protosan e dizem que com resultados animadores. Experiências análogas já tínhamos realizado com o protosan e outros medicamentos, preparados pelo Dr. A. Machado, no Hospital dos Lázaros desta capital, sem resultado satisfatório algum.

No Paraguai nada se tem feito até hoje com referência à profilaxia da lepra. Lá nos informaram que a Argentina vai fundar uma colónia para leprosos numa ilha do rio Paraná, situada defronte de Posadas e chamada “Isla Jacyretá” (Jacyretá significa em guarani País da Lua). Informaram-nos também que os principais focos de lepra da Argentina se acham em Formosa, no Chaco, nas Missões e na Província de Corrientes.

Granuloma venéreo. Em 1917 estiveram no Hospital Nacional, em tratamento, diversos doentes desta dermatose. Foi feito o tratamento com emético, mas como os médicos acharam muito lenta a cura, fizeram a exérese e a termocauterização das lesões. Fizemos ver aos nossos colegas paraguaios que se pode obter cura radical do granuloma simplesmente com tártaro emético, porém seguindo um tratamento descontínuo e intensivo. Mostramos um exemplar da nossa monografia sobre granuloma, dando o resultado da cura de dezenas de casos dessa rebelde doença.

No Hospital Nacional havia dois casos típicos de granuloma venéreo e um suspeito. Os dois primeiros já tinham sofrido diversas extirpações e termocauterizações; como, porém, ainda não havia sido feito o diagnóstico bacterioscópico do granuloma, no Paraguai, fizemos nesses três doentes uma pequena curetagem das lesões e, com o material obtido, fizemos esfregaços, que coramos pelo Giemsa. O material era péssimo. Com muito custo encontramos o Calymmatobacterium apenas num esfregaço, de um dos doentes com lesões mais recentes e menos tratadas.

Bouba. De Framboesia tropica (que parece ser uma doença rara no Paraguai ou talvez ainda não bem identificada) só se conhece um caso em Assunción, e esse mesmo sem diagnóstico bacterioscópico. É provável que a bouba seja lá confundida com a sífilis, como se dá no interior do Brasil, e curada pelos mesmos métodos. Não deixou de nos impressionar, contudo, o fato de o Dr. Migone, no seu citado trabalho sobre leishmaniose (p.211 do Tomo VI do Bull. de la Soc. de Pathol. Exotique), confundir a nossa bouba com a do Paraguai, que é a leishmaniose, citando trabalhos referentes à framboesia tropica como se fossem de caso e história da leishmaniose americana. Impressiona também o fato de o mesmo colega curar casos recentes de leishmaniose com iodureto de potássio e arsênico (op. cit., p.218).

Não haveria entre os seus inúmeros casos de leishmaniose alguns da bouba verdadeira, a Framboesia tropica?

A blastomicose também não é conhecida no Paraguai, mas dizem existir a esporotricose.

Sífilis e blenorragia. A lues é uma das doenças mais disseminadas no Paraguai e sobretudo por causa da intensa prostituição clandestina. Um médico alemão, clínico em Assunción, diz em seus trabalhos que 90 por cento da população da capital paraguaia sofre

do mal-de-são-jó (?).15 O Dr. Jovino Mernes, diretor do Hospital Nacional e encarregado da Seção de Ginecologia, informou-nos que é muito comum aparecerem no seu serviço meninas de 12 e 13 anos já defloradas e sofrendo de moléstias venéreas, predominando entre elas a sífilis. Também não é raro irem à consulta meninas de 9 e 10 anos, também defloradas e com blenorragia. Eis aí um quadro bem triste da situação atual do povo paraguaio (e de muitos outros povos), para a qual a transformação social radical seria o único remédio.

Quando voltamos à Repartição de Higiene, o seu diretor, Dr. Andrés Barbero, teve a boa vontade de nos mostrar o relatório e plantas a ele apresentados pelo Dr. Migone, e referentes à sua última viagem de inspeção médica pelo norte do país. O Dr. Migone com os seus auxiliares demoraram-se cerca de um mês no município de São Pedro do Norte, onde examinaram e trataram mais de 1.300 doentes. Chamou-nos especial atenção, no relatório do Dr. Migone, datado de dezembro de 1917, o elevado número de casos de leishmaniose observados no norte do Paraguai.

Em primeiro lugar vinha a ancilostomíase, depois a leishmaniose, com quatrocentos e tantos casos e, em seguida, o impaludismo, com 38 casos. Em todo o Paraguai chamam “bubaticos” esses doentes de úlcera. Não haveria entre essas centenas de casos, identificados como leishmaniose ou “buba,” alguns casos da bouba verdadeira, a Framboesia tropica?

Epizootias. De todas as epizootias que grassam no Paraguai, a mais disseminada, e que maiores prejuízos causa, é o mal-de-cadeiras, doença que devasta os animais cavalares e muares; é produzida pelo Trypanosoma equinum Voges. Pelos trabalhos de Elmassian e Migone no Paraguai, e de Lutz e Chagas no Brasil, ficou provado ser a capivara, Hydrochoerus capibara Erxl., o depositário desse vírus. Quanto ao transmissor da moléstia, ainda são falhas as observações, e os autores não estão de acordo entre si nesse ponto.

Sirovi e Lecler acusam como transmissor do Trypanosoma equinum o Stomoxys calcitrans Geoffroy. Não obstante Lignières ter encontrado tripanossomas vivos no intestino desse inseto hematófago, não o aceita como transmissor do mal de cadeiras por motivos razoáveis que expende; Lutz incrimina principalmente o Tabanus importunus Wied. e o T. trilineatus Latr.; Astrogildo Machado teve oportunidade de encontrar em Mato Grosso o tripanossoma vivo no conteúdo intestinal do Tabanus importunus.

Arthur Neiva acredita, baseado nas suas observações pessoais, na transmissão dessa doença por mutucas do gênero Chrysops Meigen.

No Paraguai, estivemos numa zona (rio Salado [Salgado], município de San Bernardino), grande foco de mal-de-cadeiras. Fizemos essa excursão (toda a Comissão) em companhia do Dr. L. E. Migone. Esse ilustre colega admite a transmissão do mal-de-cadeiras por tabanídeos, embora não saiba até hoje, não obstante não se ter descurado do assunto, qual a espécie transmissora. A região que visitamos é riquíssima em espécies várias de tabanídeos. As verificações do Dr. Migone sobre a mortandade de capivaras no seu país e a presença do tripanossoma nesses animais são bem interessantes, e coincidem com o aparecimento de muitos casos nos animais cavalares e muares. Quanto à terapêutica, o Dr. Migone tem empregado, em certo número de casos, o protosan, sem lograr a cura de nenhum animal. Ultimamente esteve tratando oito animais atacados de mal-de-cadeiras com injeções de protosan, e diz terem morrido todos.

Nota: o governo do Paraguai teve a bondade de abrir um crédito especial que seria adicionado a uma verba, criada pela Companhia Industrial Paraguaia, para a Comissão Médica Brasileira se demorar no interior do país, fazendo estudos diversos sobre doenças e, sobretudo, visando resolver a intricada questão da transmissão da leishmaniose e do mal-de-cadeiras. O senhor ministro do exterior, Dr. Euzebio Ayala, telegrafou ao diretor do Instituto Oswaldo Cruz pedindo permissão para permanecermos mais um mês naquele país. Como, porém, dez dias depois não tivesse chegado nenhuma resposta, o Dr. Lutz resolveu pelo nosso regresso imediato, logo que voltamos de San Bernardino. A 6 de março embarcamos em Assunción no vapor “Brusellas,” da Companhia Mihanovich, com destino a Buenos Aires, de onde embarcamos para o Brasil.

Na véspera do nosso embarque em Assunción, a classe médica paraguaia teve a gentileza de nos banquetear e oferecer como lembrança, ao Dr. Lutz, um artístico pergaminho, assinalando a sua passagem pelo Paraguai. Ofereceu-nos o banquete, em nome da Sociedade de Medicina, o Sr. Ricardo Odriosola, e entregou o pergaminho ao Dr. Lutz o senhor vice-presidente da República paraguaia, nosso colega Dr. Montero. Foi então que tivemos a ocasião de conhecer os magníficos elementos que constituem a classe médica paraguaia, a simpatia com que se manifestam com relação ao Brasil e a tudo que é nosso, e o desejo que eles têm da nossa aproximação. Sabemos corresponder a sua simpatia, hipotecando-lhes a nossa solidariedade intelectual.

República Argentina

Buenos Aires Durante a nossa viagem pelo rio Paraná, ficamos conhecendo importantes cidades argentinas tais como Posadas, Corrientes, Paraná, Diamante e Rosario. De todas essas só na primeira nos demoramos; visitamos os hospitais e obtivemos informações sobre o estado sanitário.

Em todo esse percurso é enorme a quantidade de mosquitos que atacam o homem. No vapor em que viajamos de Assunción a Buenos Aires, havia Stegomyia calopus e Culex fatigans em grande abundância. Em Buenos Aires e em La Plata também encontramos Stegomyia. Na capital argentina capturamos Stegomyia no próprio Savoy Hotel, onde nos hospedamos.

Em Buenos Aires demoramo-nos uma semana, cujos dias foram muito bem aproveitados nas visitas que fizemos ao Instituto Bacteriológico, à Faculdade de Medicina, aos Hospitais, museus e jardins. Todo médico brasileiro sabe que a Faculdade de Medicina e os hospitais de Buenos Aires são muito superiores aos nossos. Descrever esses estabelecimentos é supérfluo porque outros colegas patrícios já o fizeram e com especial minúcia. Basta assinalarmos o fato, que nos impressionou deveras, da boa organização hospitalar portenha, onde a obra de assistência aos que sofrem é uma realidade confortadora e onde cada importante colônia européia tem também o seu hospital e a sua assistência médica bem organizada. As colônias espanhola, francesa, inglesa etc. possuem em Buenos Aires excelentes hospitais, que prestam serviços de alta monta aos seus patrícios menos abastados. A organização dos sanatórios particulares de Buenos Aires é também invejável.

Da Faculdade de Medicina impressionou-nos muito favoravelmente tudo quanto ela tem de bom e nós não possuímos, nem em rudimentos, como o Museu de Anatomia Patológica, o Museu de Ginecologia, a Seção de Fisiologia Experimental, o Instituto de Botânica e Farmacologia com magnífico herbário e as suas clínicas oficiais muito bem instaladas. O Instituto Bacteriológico, sob a sábia direção do professor R. Kraus, está também magnificamente instalado com todas as suas seções funcionando; já vai prestando inestimáveis serviços a poderosa República vizinha. Quanto ao estado sanitário, nos limitaremos a dar uma ligeira notícia de alguns fatos, observados nos hospitais, que nos interessam mais de perto. Com o professor Kraus visitamos o Hospital de Muniz, que fica próximo ao Instituto Bacteriológico e é destinado ao isolamento dos doentes de moléstias infectocontagiosas. Escusado dizer que é muito bem instalado e suficientemente amplo. Em março deste ano havia, nesse hospital, uma enfermaria com dezenas de doentes de febre tifóide, todos eles tratados com electrargol, e outra grande enfermaria com dezenas de doentes de carbúnculo hemático. Estes estavam sendo tratados na sua maioria com soro normal bovino.

Pela estatística que o professor Kraus nos mostrou, e pela melhora de muitos doentes que vimos, o seu método de cura vai dando bons resultados. Somente os casos de carbúnculo interno com lesões intestinais têm sido fatais. De regresso ao Brasil, soubemos da alta eficácia da nova vacina anti-carbunculosa, denominada “Manguinhos,” recente descoberta de Godoy e Machado, já privilegiada pelo Ministério da Agricultura, a qual imuniza qualquer animal (cavalo, boi, carneiro ou cabra) com uma injeção apenas de 0,5 centímetro cúbico. Sugerimos então a esses sábios colegas que dosassem a sua vacina, para ser empregada como imunizadora dos homens encarregados de lidar com animais. Também no Rio Grande do Sul já apareceram alguns casos do carbúnculo hemático no homem, e assim a nova descoberta viria beneficiar aos nossos patrícios do sul e também aos nossos vizinhos das Repúblicas Platinas. No Hospital Muniz não havia, quando lá estivemos, nenhum caso de peste bubónica; entretanto, não é raro o aparecimento de casos esporádicos desse mal; segundo o professor Kraus, desde que foi importado em 1899, nunca mais deixou Buenos Aires. Numa segunda visita que fizemos ao Hospital Muniz, assistimos no necrotério desse estabelecimento a duas necropsias, uma de carbúnculo hemático com ulcerações nos intestinos e outra de febre tifóide com perfuração intestinal. Interessantes eram as lesões cutâneas e mucosas do caso de carbúnculo bacteridiano. Terminadas as necropsias, fomos com o professor Kraus, o Dr. José Penna, diretor do referido hospital, e o professor Baldomenro Sommer (que faleceu dois meses depois, em plena atividade e fortaleza), visitar a seção de isolamentos dos leprosos. Num belo e bem disposto pavilhão separado, encontramos vinte e tantos leprosos, na sua maioria de lepra tuberculosa, todos bem vestidos, alegres e contentes. Entre eles havia alguns que se achavam isolados há mais de vinte anos. Eis aí a hospitalização confortável e mesmo luxuosa de 25 leprosos, naturalmente custando ao governo anualmente uma quantia que seria suficiente para o isolamento de cem leprosos em colónia agrícola. Interpelamos então o falecido professor Sommer sobre a profilaxia da lepra pelo processo modernamente aconselhado de isolamento em colónias agrícolas e agro-industriais. Ele informou-nos que o governo argentino encarregara o professor Cabred de fundar e dirigir uma grande colónia de leprosos nessas condições, cuja sede será a província de Corrientes, região evidentemente mais contaminada pelo mal. Disse-nos o pranteado Dr. Sommer que esse primeiro leprosário terá capacidade para quatrocentos ou quinhentos leprosos. Numa visita que fizemos posteriormente ao professor Aberastury, substituto da cadeira de clínica dermato-sifiligráfica da Universidade de Buenos Aires, voltamos a tratar da profilaxia da lepra; esse ilustre leprólogo informou-nos que o problema ainda não está resolvido na Argentina, porque nenhuma província quer possuir a “Lazarópolis”.

O Dr. Aberastury está perfeitamente de acordo conosco, no ponto de vista das medidas a tomar contra a propagação sempre crescente da lepra, no sul da América. O professor Aberastury é de opinião que as Repúblicas do Prata, o Paraguai e o Brasil deviam entabular negociações, no sentido de fundar-se um grande estabelecimento com colónias e hospitais, destinados não só ao isolamento de um grande número de leprosos, como também em condições de se poder nele realizar todos os estudos que a ciência moderna reclama, visando esclarecer os difíceis problemas da transmissão e cura da lepra. Os professores Sommer e Aberastury acreditam na transmissão da lepra pelos mosquitos.

Na clínica dermatológica de Buenos Aires são, hoje em dia, muito comuns os casos de granuloma venéreo e de leishmaniose. O diagnóstico completo da primeira dessas dermatoses foi feito por nós, Dr. Roffo e eu, pela primeira vez na Argentina em 1915. Mais tarde, o Dr. Roffo confirmou bacteriologicamente todas as nossas pesquisas referentes ao Calymmatobacterium. De leishmaniose fomos nós que vimos e diagnosticamos clinicamente o primeiro caso em Buenos Aires, também em 1915; em 1916, os doutores A. Neiva e A. Barbará estudaram, no interior da Argentina, inúmeros casos dos quais publicaram magnífica documentação. Em tão curto espaço de tempo esclareceram os dois problemas importantes daquela região. É preciso fazer-se o mesmo agora com referência à doença de Chagas, à blastomicose, à bouba etc.

Continuar: parte 4 de 5