Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Viagem científica no Rio Paraná e a Assunción, com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
É preciso, entretanto, não se descuidar desse problema na capital paranaense, insistir na vacinação anti-tífica de toda a população, munir-se de recursos de diagnósticos e fazer análises periódicas das águas da rede de distribuição, para, em caso de novas contaminações dos mananciais, poder, sem perda de tempo, tomar medidas enérgicas de defesa contra o insidioso mal que tão grande sobressalto e dano causou à população de Curitiba e de outras cidades circunvizinhas.
Epizootias. Sabemos existir nos campos do Paraná o carbúnculo bacteriano atacando em certas épocas diversos animais domésticos.
A diarréia dos bezerros, da qual vimos no ano passado diversos casos, também foi observada, sobretudo nos Campos Gerais.
A batedeira ou peste dos porcos também tem sido verificada nalgumas fazendas do norte do estado, onde os nossos patrícios dizem ser a palustre ou sezões dos suínos.
Manguinhos, 30 de junho de 1918.
Protozoologia e Planctologia17
Este capítulo do nosso relatório incluirá apenas os dados por nós mesmos colhidos no correr da viagem, dados esses obtidos exclusivamente sobre material que pudesse servir de base a trabalhos originais.
Pela deficiência dos processos até hoje usados de conservação dos protozoários de água doce e pela impossibilidade de seu estudo in loco, a pesquisa nos diversos locais em que estacionamos ocupou mediocremente nossa atenção. O mesmo sucedeu com o potamoplâncton dos rios que percorremos, o qual por várias vezes colhemos, verificando-o tão pobre em exemplares que seu estudo era de dificuldade desanimadora. O rio Paraná e o rio Piquiri foram, sob esse ponto de vista, os únicos pesquisados.
O lago Ipacaraí, no Paraguai, foi também objeto de pesquisas planctológicas, mas das colheitas realizadas só vieram nas redes numerosíssimos copépodes e representantes de outros grupos de pequenos crustáceos, ao lado de raras diatomáceas naviculóideas; a água desse lago merecia estudo especial principalmente por apresentar, mesmo em pequena espessura, cor cinzenta tendendo para o negro.
Muito mais proveitoso foi o estudo das espécies parasitas do homem e dos animais, bem como o das amostras de plâncton marítimo que colhemos desde as costas setentrionais do Uruguai até as de Santa Catarina. Tanto um como o outro desses capítulos forneceram material de espécies novas ou raras e interessantes dados biológicos e geográficos, que vêm sendo sucessivamente registrados em diversas publicações feitas pelo Dr. Aristides Marques da Cunha e por mim.
Protozoários parasitos. Durante a excursão procuramos obter material de proveniência humana e também de animais indígenas que fossem porventura caçados.
Obtivemos protozoários pertencentes a diversos grupos, principalmente ciliados e flagelados, mas também neosporídios (mixosporídios) e telosporídios (gregarinas).
Entre os ciliados parasitos, verificamos, como parasito do homem, o Balantidium coli, o qual foi encontrado durante a viagem uma vez, e isso “em pessoa que não mostrava nenhum sintoma de disenteria ou de qualquer outra perturbação subjetivamente perceptível do aparelho gastro-intestinal;” o caso em questão foi verificado na cidade de Iguaçu e a doente portadora do parasito, cujas fezes foram examinadas em procura dos ovos de ancilóstomo, apresentava apenas sintomas de uma afecção nervosa. Não é a primeira vez que verificamos e assinalamos casos dessa natureza (Ver Brazil-Medico, ano 32, n.4, p.26) em que nenhum papel patogênico pode ser atribuído ao Balantidium coli. No estado do Rio de Janeiro, em cujo interior é de ocorrência freqüente esse protozoário, repetidas vezes tivemos ocasião de encontrá-lo, por mero acaso, em condições de completa inocuidade aparente durante pesquisa de ovos de helmintos.
Dos ciliados parasitos que tivemos ocasião de observar em animais selvagens, os que mais interesse apresentam são os encontrados no estômago do grande veado galheiro, o suaçuapara (Cariacus paludosus Desm.), e no ceco da anta (Tapirus americanus Briss.). Os ciliados em questão, de cujo estudo se encarregou o Dr. Aristides Marques da Cunha, assistente do Instituto, não foram ainda todos determinados, sendo representantes de novos gêneros e espécies cuja descrição será objeto de publicação especial. Somente um dos parasitos da anta foi já descrito pelo Dr. Marques da Cunha (Brazil-Medico, ano 32, n.12, p.161, 1918); é um representante de novo gênero da família Cycloposthiidae, o qual recebeu a designação de Prototapirella intestinalis, n. g., n. sp.
Dos flagelados, destacou-se em primeiro lugar o Trypanosoma cruzi que, no laboratório do Dr. Luiz Migone em Assunción, verificamos parasitar intensamente exemplares de Triatoma infestans, recebidos de localidade próxima da capital paraguaia. A deficiência de tempo não nos permitiu visitar os focos de disseminação do hematófago, mas a verificação que fizemos de portadores de bócio entre os trabalhadores de Porto Isabel, todos eles provenientes do interior do Paraguai, aliada à presença do tripanossoma do barbeiro nessa região, nos permite afirmar a existência naquele país da moléstia de Chagas; de nada vale como argumento em contrário a não verificação dessa entidade mórbida por parte dos clínicos do país, pois bem conhecido é o fato de ter ela passado, até bem pouco, completamente despercebida entre nós, apesar de sua grande disseminação.
Outra espécie de tripanossoma patogênico que infesta grande parte das zonas que percorremos é o Trypanosoma equinum, agente etiológico do mal-de-cadeiras, afecção dos muares e eqüídeos, de que visitamos um foco histórico constituído nas margens do rio Salado [Salgado], próximo à cidade paraguaia de San Bernardino.
Na mesma região de que acabamos de falar a propósito do mal-de-cadeiras, vegeta em abundância uma espécie de asclepiadácea Araujia angustifolia, em cujo látex se encontra em abundância um flagelado do gênero Leptomonas, gênero esse que apresenta as maiores afinidades com o gênero Trypanosoma. O Dr. L. Migone, que pela primeira vez descreveu esse flagelado, denominou-o Leptomonas elmassiani, em homenagem ao fundador do Trypanosoma equinum, de quem foi o mais ativo colaborador.
No Paraguai, do mesmo modo que nas zonas que atravessamos do noroeste de São Paulo, é largamente disseminada a Leishmania brasiliensis, causadora da chamada úlcera de Bauru, do nome de uma das localidades atacadas, ou melhor, leishmaniose americana, entidade mórbida essa bastante conhecida entre nós. É interessante notar aqui o fato de só ter a Comissão conseguido, durante todo o seu percurso, um único exemplar de Phlebotomus, e esse, junto aos saltos de Santa Maria, no Rio Iguaçu, zona de escassa população, onde nenhum caso de úlcera foi por nós observado.
Segundo as verificações do Dr. L. Migone, não é essa a única espécie de Leishmania que se tem encontrado no Paraguai, pois esse pesquisador verificou em Assunción o único caso até hoje descrito em país americano de leishmaniose visceral ou kalaazar; desse único caso nos forneceu ele material que ainda não tivemos oportunidade de estudar completamente.
Na cidade de Bauru, no noroeste do estado de São Paulo, graças à gentileza do Dr. Castro Goyana, pudemos examinar uma série de doentes portadores de disenterias, verificando, então, em um dos doentes em questão, a presença exclusiva de Chilomastix mesnili (Wenyon), e, em outro, a presença desse flagelado associado ao Enteromonas hominis, espécie que foi por nós descrita e encontrada pela primeira vez no Rio de Janeiro. Ambas essas verificações têm grande interesse. A do Chilomastix mesnili vem confirmar uma noção que já anteriormente tínhamos da verificação desse parasito mais freqüente nas zonas rurais que nas cidades, onde, como no Rio de Janeiro, são de ocorrência maior o Trichomonas hominis e a Giardia intestinalis. A verificação do Enteromonas hominis é de maior interesse ainda, portanto. Após nossa verificação inicial no Rio de Janeiro, só fora ele assinalado em dois casos observados no Sudão Anglo-Egípcio, por Albert J. Chalmers e Waino Pekkola; era nessa ocasião, portanto, o quarto caso conhecido; a ocorrência desse protozoário parasitando o homem, na Guiana Francesa, onde foi recentemente assinalado por Marcel Léger, faz crer ter ele uma distribuição geográfica das mais extensas.
Dentre os plasmódios do homem, foram verificados apenas os parasitos das formas terçã benigna e terçã maligna, Plasmodium vivax (Grassi & Feletti, 1890) e Laverania malariae (Grassi & Feletti, 1890), não tendo sido assinalado nenhum caso de infecção pelos parasitos da quartã, Plasmodium malariae (Laveran, 1881).
Foi notável a raridade dos mixosporídios de peixes, os quais pesquisamos em todos os exemplares desse grupo capturados durante a viagem; a única espécie observada parasitava um peixe vulgarmente denominado pacu (Pseudopimelodus charus Val. ?) pelos regionais; era uma nova espécie do gênero Henneguyia que descrevemos, em colaboração com o Dr. Marques da Cunha, sob a designação de Henneguyia lutzi (Brazil-Medico, ano 132, n.52).
Microplâncton. Pelas razões acima expostas, não trataremos aqui, nem do potamoplâncton dos rios Paraná e Piquiri, nem do limnoplâncton do lago Ipacaraí. Apresentaremos unicamente a lista de plânctons pertencentes aos grupos dos protozoários e das diatomáceas, que pudemos colecionar desde as costas setentrionais do Uruguai, na zona limítrofe com as águas brasileiras até as costas de Santa Catarina. Verificamos a presença de 59 espécies, muitas das quais não haviam ainda sido assinaladas em águas brasileiras. O material adquirido durante a viagem, juntamente com amostras colhidas pelo Dr. Aristides Marques da Cunha, constitui objeto de trabalho mais detalhado que está em via de publicação e no qual, para cada espécie, vem designada a respectiva proveniência. Segue a lista de que acima tratamos.
Cystoflagellata
1 – Noctiluca miliaris Suriray, 1836.
Tintinnodea
2 – Codonella morchella Cleve, 1900.
3 – Tintinnopsis beroidea Stein, 1867.
4 – Tintinnopsis campanula (Ehrenberg, 1840).
5 – Cyttarocylis ehrenbergii (Clap. & Lachm., 1858) var. claparedei (Daday, 1887).
6 – Ptychocylis (Rhabdonella) apophysata (Cleve, 1900).
7 – Tintinnus ganymedes Entz, 1885.
8 – Tintinnus lusus-undae Entz, 1885.
9 – Tintinnus amphora Cl. & Lachm. var. quadrilineatum (Cl. & Lachm. 1858).
Schizophycea
10 – Richelia intrecellularis (Schmidt, 1901).
Sobre frústulas de Rhizosolenia setigera.
Dinoflagellata
11 – Prorocentrum micans Ehrenberg, 1888.
12 – Dinophysis ovum Schuett, 1895.
13 – Dinophysis schuetti Murray & Whitting, 1899.
14 – Dinophysis homunculus Stein, 1883.
15 – Glenodinium trochoideum Stein, 1883.
16 – Goniodoma polyedricum (Pouchet) Joergensen, 1899.
17 – Peridinium steini Joergensen, 1889.
18 – Peridinium depressum Bailey, 1855.
19 – Peridinium divergens Ehrenberg, 1840.
20 – Peridinium pentagonum Gran, 1902.
21 – Oxytoxum scolopax Stein, 1883.
22 – Oxytoxum milneri Murray & Whitting, 1899.
23 – Ceratocorys horrida Stein, 1883.
24 – Ceratium candelabrum (Ehrenberg) Stein, 1883.
25 – Ceratium furca (Ehrenberg) Clap. & Lachm, 1859.
26 – Ceratium fusus (Ehrenberg, 1883) Dujardin, 1841.
27 – Ceratium incisum (Karsten, 1906).
28 – Ceratium belone Cleve, 1900.
29 – Ceratium pentagonum Gourret, 1883.
30 – Ceratium penatum Kofoid, 1907.
31 – Ceratium palmatum (Schroeder, 1900) Schroeder var. ranipes, Cleve.
32 – Ceratium massiliense Gourret, 1883.
33 – Ceratium trichoceros (Ehrenberg, 1859) Kofoid, 1908.
34 – Ceratium tripos (O. F. Muller, 1777).
35 – Ceratium gibberum Gourret, 1883.
35a – Ceratium gibberum Gourret, 1883. forma sinistrum Gourret, 1883.
36 – Ceratium reticulatum (Pouchet, 1883) Cleve.
37 – Podolampas palmipes Stein, 1883.
38 – Podolampas bipes Stein, 1883.
Silicoflagellata
39 – Dictyocha fibula Ehrenberg, 1839.
Diatomacea
40 – Melosira borreri Greville, 1856.
41 – Paralia sulcata (Ehrenberg, 1837), Cleve.
42 – Skeletonema costatum (Greville, 1886) Cleve.
43 – Leptocylindrus danicus Cleve, 1889.
44 – Guinardia flacida (Castracane, 1886) Peragallo.
45 – Rhizosolenia schrubsolei Cleve, 1881.
46 – Rhizosolenia setigera Brightwell, 1858.
47 – Rhizosolenia calvar-avis Schultze, 1858.
48 – Rhizosolenia alata (Brightwell, 1858), forma genuina Gran, 1911.
48a – Rhizosolenia alata (Brightwell, 1858), forma gracillima Cleve.
48b – Rhizosolenia alata (Brightwell, 1858), forma indica (Peragallo, 1892).
49 – Bacteriastrum furcatum Schadb., 1854.
50 – Chaetoceras schuetti Cleve, 1894.
51 – Chaetoceras subtile Cleve, 1896.
52 – Cerataulina bergonii Peragallo, 1892.
53 – Biddulphia mobiliensis (Bailey) Gruen, 1859.
54 – Biddulphia sinensis Grev., 1866.
55 – Biddulphia rhombus (Ehrenberg), W. Smith, 1844.
56 – Biddulphia favus (Ehrenberg, 1839), V. Heurck.
57 – Biddulphia vesiculosa (Ag.) Boyer, 1824.
58 – Bellerochea malleus (Brightwell) V. Heurck, 1858.
59 – Thalassiothrix nitzschioides Gruenow, 1862.
Observações entomológicas
Insetos observados durante a navegação Durante os muitos dias que passamos a bordo de várias embarcações sobre o rio Paraná e os seus afluentes, tivemos ocasião de fazer umas observações que, combinadas com outras feitas em ocasiões semelhantes, constituem um complexo de observações biológicas que não parece destituído de algum interesse.
Durante o dia, no meio dos grandes rios, só aparecem poucos insetos. Entre eles notam-se principalmente algumas borboletas que, de vez em quando, procuram atravessar os rios mais largos, seja isoladas seja em bandos, como algumas espécies de pierídeos. Raras vezes sentam-se nas embarcações. Outras apenas freqüentam as margens dos rios, onde, às vezes, pousam por dentro de canoas ou no convés das chatas. Nesta última situação notei principalmente uma espécie de Libythea que parecia preferir este pouco a qualquer outro e ajuntava em grande número. Na mesma situação apareciam também vários himenópteros de maior vulto.
Os coleópteros abundam nas matas que acompanham os lados dos rios, mas só exemplares muito isolados aparecem por cima da água.
Há algumas mutucas que acompanham o percurso dos rios e freqüentemente invadem as embarcações em pleno dia. São Lepidoselaga lepidota, Diachlorus flavitaenia e D. bimaculatus, sendo as últimas espécies mal separadas. De todas só se observam fêmeas que freqüentemente procuram picar. Nunca são encontradas longe dos rios, onde os seus criadouros devem ser procurados. As larvas são ainda desconhecidas, como também as de Esenbeckia, das quais algumas espécies acompanham os rios, sem serem tão francamente diurnas. Na hora do crepúsculo aparece o grande Chelotabanus aurora, que pode ser considerado uma espécie francamente fluvial. Esta espécie e a Lepidoselaga são encontradas também nos rios do norte.
Nos rios maiores os mosquitos não incomodam de dia, quando as embarcações se acham longe das margens. Nas horas do crepúsculo e à noite algumas espécies aparecem, atraídas pela luz, principalmente as Cellia e Mansonia, mas o seu número é muito maior quando o navio está encostado ou perto da margem.
Os simuliídeos (borrachudos) parecem preferir a atmosfera úmida por cima dos rios para as suas viagens, que se estendem a distâncias de dez a vinte léguas dos seus criadouros, como verifiquei no rio São Francisco. O Simulium amazonicum é encontrado em quase todos os rios maiores onde há cachoeiras e saltos; incomoda principalmente durante as viagens feitas em canoa; em terra, ataca os cavalos em preferência aos cavaleiros.
Nos portos notamos moscas das famílias Anthracidae e Syrphidae, que entram a bordo. Algumas Muscidae criam-se a bordo ou acompanham as mercadorias.
A bordo dos vapores bem iluminados o número dos insetos que aparecem à noite atraídos pela luz é muito maior, principalmente em tempo escuro; mas tratase geralmente de pequenas espécies. Entre os lepidópteros há pequenas mariposas e muitos microlepidópteros; entre os dípteros prevalecem pequenos nematóceros de larvas aquáticas, principalmente Chironomidae. Quando o rio atravessa extensos pantanais, o número desses nematóceros aumenta extraordinariamente. Há também vários neurópteros e tricópteros cujas larvas devem viver na água dos rios. O número de espécies é pequeno, mas o número de indivíduos pode ser muito grande. Trata-se principalmente de Plecoptera do gênero Perlodes e ocasionalmente de efemerídeos. Algumas espécies de Trichoptera aparecem com bastante regularidade. Notamos uma Leptonema e uma Macronematina que parece pertencer a espécie e gênero novos.
O número dos tricópteros descritos do Brasil já é bastante grande, mas deve ficar muito abaixo do das espécies existentes, que são de conservação difícil, por terem o corpo mole e as antenas finas e quebradiças. O comprimento destas é, muitas vezes, extraordinário.
O meio oferecido às larvas aquáticas pelos grandes rios, com as suas águas barrentas que depositam um limo abundante, é geralmente pouco favorável. O número de espécies que se adaptaram a esse meio é pequeno, quando comparado com o número das que preferem as águas claras das serras, mas o número total dos indivíduos pode ser grande. Como alimento dos peixes têm importância prática, mas o estudo deles é um dos muitos problemas reservados ao futuro.
Onde aparecem insetos com grande regularidade, sempre há aranhas; estas também não faltam a bordo das embarcações.
Dípteros sugadores de sangue
As informações recebidas concordam em afirmar que o verão de 1917-1918, nas regiões percorridas no Paraná e em Paraguai, foi pobre em insetos, por ter sido precedido por secas prolongadas e por uma grande geada no inverno. Em certas regiões, esta era ainda claramente indicada, pelo grande número de galhos secos existentes nas árvores. Acresce que o taquaruçu, muito abundante no alto do Paraná, estava seco por ter florescido no ano passado. Com poucas exceções, nas zonas percorridas só foi possível colecionar na margem dos rios ou a bordo, tendo também o período mais rico já passado. Assim mesmo colhemos e montamos cerca de seiscentos insetos, além de muitos exemplares não montados. Se não encontramos muitas espécies novas, todavia conseguimos fazer certo número de observações interessantes sobre a distribuição dos insetos sugadores de sangue. Por isso e por causa do seu interesse prático, vou tratar primeiro deste grupo, principiando com os mosquitos pernilongos.
Culicidae
Anophelinae. Desta subfamília só encontramos duas Cellia, sendo uma a argyrotarsis, que se deve considerar a transmissora da malária, observada, no Alto Paraná, nos moradores e na tripulação de navios que passam a noite em focos dessa moléstia. Alguns exemplares foram apanhados em Porto Tibiriçá, nas casas, e maior número veio a bordo da lancha durante uma excursão que fizemos ao Rio Ivaí. Da outra espécie, C. albimana, apareceram poucos exemplares no Alto Paraná. Estando o rio em período de enchente, as condições não eram muito favoráveis para a multiplicação desses mosquitos e, como costuma acontecer em todos os rios, em outras ocasiões certamente poderiam encontrar-se números muito maiores. Em todos os casos, não é preciso recorrer a outros sugadores de sangue para explicar a transmissão da malária nestas regiões.
A Stegomyia, transmissora da febre amarela, foi encontrada não somente em Bauru, mas também é abundante em Três Lagoas, em Mato Grosso; é esta a primeira estação da estrada de Ferro que vai para Corumbá. Se as outras estações não foram ainda invadidas, sem dúvida o serão no futuro, considerando-se a grande facilidade com que esse mosquito é propagado pelas estradas de ferro.
Nos portos de Tibiriçá, Mojoli e Mendes, assim como em Iguaçu, a Stegomyia não foi encontrada, evidentemente porque não é natural desta região e só existe onde foi importada. Reapareceu em Encarnación e Assunción, e em San Bernardino. Foi também encontrada a bordo do vapor “Brusellas,” mas mais na primeira parte da viagem. Existia, todavia, tanto em Buenos Aires e La Plata como em Montevidéu. Não posso afirmar a sua existência em Rio Grande. Só uma vez pareceu-me ver um mosquito voando do modo que é típico para o macho de Stegomyia.
As Culicidae que mais nos incomodaram durante a viagem foram as seguintes:
Culex fatigans (hoje quinquestriatus)
Culex confirmatus (hoje scapularis)
lanthinosoma arribalzagae
Culex albofasciatus MacQ.
Mansonia titillans O comum mosquito noturno, geralmente conhecido por Culex fatigans Wied., é tão ubiquitário que não vale a pena indicar onde foi encontrado.
O Culex scapularis Rond., mais conhecido pelo nome confirmatus, abunda no Alto Paraná. Nas casas e nos navios em movimento aparece em número menor, mas, quando estes encostam em qualquer lugar, invadem-nos em companhia do Ianthibosoma arribalzagae. Todavia, é só quando se penetra mais para dentro do mato que ele se torna quase insuportável. É um fato curioso que as larvas desse mosquito tão comum só raras vezes são encontradas, o que faz pensar que o adulto vive muito tempo, sendo esta suposição apoiada pela freqüência dos exemplares descamados. Na nossa viagem nunca encontramos um criadouro de larvas.
De Iguaçu a Encarnación os mosquitos em geral tornaram-se mais raros. Todavia, nossa espécie não é rara no Paraguai e mesmo na Argentina, onde há árvores.
O Culex aibofasciatus lembra muito o precedente. Ataca de dia em pleno sol, e a picada é bastante dolorosa. Atraído pela luz, invade as casas e aparece em grande número a bordo dos navios, mas nem por isso pode ser chamado um mosquito doméstico. Encontrei os primeiros exemplares abaixo de Corrientes. Abaixo da cidade de Paraná, houve uma verdadeira invasão, quando atravessamos uma extensa zona pantanosa. Até há pouco essa espécie só era conhecida da Argentina; todavia, é muito abundante no porto da cidade de Rio Grande, aparecendo também a bordo. Apanhei várias fêmeas cheias de sangue e deixei outras picar, e obtive assim ovos, depois de três dias no mínimo. Os ovos eram deitados isolados, tendo a mesma forma que os de Stegomyia. Afundavam facilmente, mas mesmo debaixo da água houve desenvolvimento, posto que mais vagaroso. Cinco dias era o tempo mínimo para o desenvolvimento da larva, que tem o tubo respiratório curto e grosso, mostrando na última muda cerca de 14 espinhos curvos e compostos, em cada pente. Geralmente são quase iguais, mas os últimos dois são mais compridos e o da base é mais curto. O tubo, correspondente a cada um dos pentes, tem nove cerdas, sendo situado um pouco mais perto do ápice. As antenas são curtas e não têm tufo. O período larval durou cerca de duas semanas. A mortalidade nas larvas era muito grande, o que atribuo a condições defeituosas e diferentes daquelas em que se criam geralmente. O período ninfal era um pouco inferior a três dias.
Outra espécie, que encontramos em verdadeiros enxames no Alto Paraná e que não faltava no Paraguai e na parte inferior do Paraná, é o lanthinosoma arribalzagae. Acima de Porto Mojoli, forma uma verdadeira linha de defesa, tanto nas margens do rio como nas dos afluentes, atacando os que saltam e invadindo os navios que encostam. O número de fêmeas que, em certos lugares, se sentavam na roupa das pessoas, excedia tudo o que tenho visto até hoje, mas felizmente só um pequeno número delas conseguia picar. Mais por dentro da mata, que acompanha todos os rios, o seu número diminui rapidamente, enquanto aumenta o do Culex scapularis (confirmatus). Este Ianthinosoma é encontrado quase exclusivamente na margem de rios, e tudo parece indicar que é lá que ele se cria, faltando freqüentemente qualquer outra água. Todavia, nunca foi possível encontrar as larvas, que devem viver na profundidade da água ou agarradas às plantas. Destas, as Eichhornia formavam uma zona marginal, mas as partes imersas estavam sempre cobertas de lodo e nunca encontramos qualquer larva nelas.
Conseguimos obter muitos ovos de Ianthinosoma arribalzagae; eram isolados, de cor preta e parecidos na sua forma com os da Stegomyia. Infelizmente, em observações variadas e muito prolongadas, não obtivemos larvas, o que indica condições biológicas especiais. Provavelmente o período de incubação é muito comprido.
Ao lado de exemplares típicos dessa espécie, observamos outros fazendo transição para o I. albigenu; este foi encontrado também na sua forma típica, e deve representar apenas uma variedade.
As duas outras espécies de Ianthinosoma eram comparativamente raras, evidentemente porque vivem em condições diferentes.
A Mansonia titillans foi observada tanto no Alto Paraná (Três Lagoas, Portos Tibiriçá e Mojoli e trechos intermediários) como no Baixo Paraná. Ao escurecer aparecia freqüentemente nas casas e a bordo. Era comum no rio Salado [Salgado, em português] perto de San Bernardino (Paraguai). Os exemplares típicos com escudo pardo-escuro encontraram-se mais para o sul. No princípio da viagem vimos muitos exemplares com escudo avermelhado que parecem constituir uma variedade.
Encontrei também no Alto Paraná dois exemplares de outra espécie, já observada no rio São Francisco e em Pernambuco, onde achamos as larvas nas raízes de Pistia stratiotes. Talvez seja idêntica à Mansonia pseudotitillans que abunda no rio Amazonas. As plantas de Pistia stratiotes eram escassas, e as que examinamos não continham larvas. A extrema raridade de espécies de Taeniorhynchus também era notável.
A Psorophora ciliata apareceu várias vezes a bordo, tanto no Paraná superior como no inferior. É bastante comum no Paraguai, onde já foi colecionada pelo Dr. Migone, em três variedades de cor, no rio Salado. No passeio que fizemos com ele para esse rio, apanhamos as três variedades em grande número. Além da forma típica, há uma forma ocrácea e outra quase preta que não deve ser confundida com a Psorophora holmbergi. Desta, que parece ter um território muito limitado, apenas apanhamos uma fêmea que veio a bordo, abaixo da cidade de Paraná.
No Salto de Iguaçu observei alguns Culex serratus e um C. crinifer.
Os mosquitos de mato, que se criam em bromélias, eram raros, porque estes epifítos não foram geralmente encontrados em número e condições favoráveis. Apenas no Salto de Iguaçu obtivemos algumas larvas, mas nada apresentavam de maior interesse. Parte da zona é muito rica em taquaruçu e devia geralmente prestar-se muito bem para estudos sobre a fauna deste. Infelizmente, tinha florescido no ano passado, e em conseqüência disso os talos morrem. Apenas entre Porto Mojoli e Porto Mendes encontramos uns poucos talos vivos, dos quais criei a Carrolia iridescens e o Hyloconops longipalpis. Havia também umas larvas de Megarrhinus, mas morreram durante a viagem.
Nessas matas encontra-se em abundância uma grande urtiga, Urera subpeltata Miq. (?), cujos talos às vezes contêm água. O Dr. Araújo e eu colhemos e examinamos uma porção desta no caminho do salto ao porto de Iguaçu, logrando apenas encontrar uma única larva do tipo das Dendromyia, sem caracteres muito distintivos. Não conseguimos criá-la, assim fica a espécie incerta, todavia o assunto deve ser investigado em tempo oportuno.
Chironomidae, subfam. Ceratopogoninae
Pequenas ceratopogoninas hematófagas com as asas manchadas, conhecidas geralmente por mosquitos pólvora e pertencentes ao gênero Culicoides, foram encontrados nos portos Tibiriçá e Mojoli, no rio Piquiri e no Salto de Iguaçu, onde invadiram as casas e principalmente as varandas abertas. Pareciam pertencer todas à mesma espécie pequena, descrita na minha monografia sob o nome C. debilipalpis (a mesma espécie foi depois achada em Puerto Bertoni pelo Dr. Migone). Em Iguaçu encontrei umas larvas de Culicoides em água de chuva, contida numa pequena depressão da casca do tronco de uma árvore cortada, mas infelizmente não consegui criar a imago. São estas as primeiras larvas de culicoides silvestres encontradas na América do Sul.
No Paraguai recebemos do Dr. Migone “polverinos” de outra espécie, Culicoides horticola Lutz. Parece existir também o Cotocripus pusillus.
Os Culicoides têm uma distribuição um tanto caprichosa, mas as espécies, pouco numerosas, abrangem extensos territórios.
Simuliidae As Simuliidae ou borrachudos existem no Brasil em vinte a trinta espécies, e vivem em águas correntes ou encachoeiradas. Todavia, só pequena parte delas encontra-se em rios maiores, cuja água sempre carrega e deposita barro em grande quantidade; mesmo nas cachoeiras e saltos o número é bastante limitado, mas contém algumas espécies que perseguem o homem.
O tempo mais favorável para estudar essas espécies é na vazante do rio. Ora, na ocasião da nossa viagem havia enchente, o que prejudicou a colheita dos primeiros estados. Só com muito custo consegui obter algumas larvas e casulos logo acima do Salto do Iguaçu.
Do rio Paraná, o Sr. Schrottky descreveu três espécies de Simulium que atacam o homem. Considerando-as novas, nomeou-as: S. inexorabile, paraguayense e paranaense. Como já suspeitei em trabalho anterior, o primeiro é idêntico ao pertinax Kollar, a espécie mais conhecida no Rio de Janeiro. O paraguayense é a mesma espécie que considerei como tal e que obtive de vários lugares. Quanto ao paranaense, não consegui encontrar espécie que se pudesse identificar nem obter tipo da mesma.
O pertinax é comum em todo o litoral montanhoso, de Santa Catarina até a Bahia, mas desaparece nas montanhas mais elevadas. Nunca foi observado acima de 800 metros de altitude. Larvas e casulos encontram-se em grandes colônias, principalmente nas partes mais horizontais dos degraus de pedra que formam saltos e cachoeiras no leito de rios e córregos das serras, por exemplo da Tijuca (acima da Cascatinha), da Gávea e da Serra da Estrela. A espécie reaparece em regiões menos elevadas do interior, por exemplo nas margens do Tocantins, do Paraná e do Paraguai. O paraguaiense foi encontrado no rio São Gonçalo, perto de Lassance, no Salto grande do Paranapanema, no rio Grande (cujas águas formam parte do Paraná) e em vários outros lugares onde há cachoeiras. Parece freqüente em Tucumán. Schrottky diz que é muito comum no Alto Paraná, mas pouco se afasta do rio. Encontrei-o em número enorme nas matas perto do Salto de Iguaçu; posto que só pequena parte dos que aparecem chegue a picar, esta basta para incomodar extraordinariamente. Felizmente a irritação da picada é menor e desaparece mais depressa do que a de S. pertinax.
Conheço as ninfas dessa espécie, mas não foi possível encontrá-las, naturalmente por serem cobertas pela enchente. O grande número de adultos observados nestas condições indica uma vida muito comprida.
Encontrei mais duas espécies de simulium, dos quais apenas a primeira ataca o homem. É o conhecido piúm do norte, observado em pequeno número no Salto do Iguaçu. O outro é o S. orbitale, que ataca os cavalos, de preferência em redor da órbita, mas também em outras regiões do corpo. Foi observado no Alto Paraná em Porto Mojoli, logo acima do Salto das Sete Quedas, onde naturalmente estavam os criadouros. As larvas e ninfas, ambas muito características, foram achadas no Salto do Iguaçu. Encontra-se geralmente em todas as cachoeiras grandes, como as de Pirapora e de Paulo Afonso, no Salto de Avanhandava etc., sendo esta a única espécie observada nas duas primeiras. Só excepcionalmente conseguem fixar-se na própria pedra; mais vezes fazem uso de vegetais e principalmente das Podostemonacea, que só se encontram em água encachoeirada. Servem de suporte para os primeiros estados do piúm, S. amazonicum Goeldi.
Ultimamente recebi do Dr. Migone as seguintes espécies, colecionadas em Puerto Bertoni muito tempo depois de nossa passagem:
Simulium pertinax Kollar
Simulium orbitale Lutz
Simulium paraguayense Schrottky
Simulium amazonicum Goeldi
Simulium subpallidum Lutz
Do professor Wolffhuegel recebemos S. pertinax e S. rubrithorax; o primeiro de Porto Aguirre, o segundo de Bonpland (Missões).
Em Porto Mojoli, não era raro o S. subviride que apanhamos em animais. O S. incrustatum, espécie bastante comum, foi apanhado a bordo entre Porto Tibiriçá e Porto Mojoli.
O único exemplar de Phlebotomus, observado durante a viagem, é uma fêmea de longipalpis, apanhada à luz de uma lanterna, com noite fechada, na mata perto do Salto de Iguaçu. Essa espécie ocorre também no Paraguai, onde o Dr. Migone obteve alguns exemplares.
Distribuição faunística dos tabanídeos
A distribuição faunística dos tabanídeos sul-americanos, sobre a qual possuo muitas observações, não pode ser definida em poucas palavras. Além de ser independente das fronteiras políticas, quase não reconhece limites geográficos. Os rios mais largos são completamente ignorados, e, das serras, apenas os Andes fazem uma separação extensa e quase completa de faunas diferentes. Há algumas espécies comuns, que não somente são encontradas em todo o Brasil, mas ainda nos países visinhos. Outras aparecem esporadicamente em pontos muito distantes, mas o maior número tem centros dos quais se irradiam para um território limitado, sendo freqüentemente substituídas nos territórios vizinhos por outras muito aproximadas. A temperatura média e a elevação vertical influem muito; nota-se também uma diferença acusada entre o litoral, onde predominam as matas, e as zonas de campos do interior. As faunas dos estados do norte e as do centro e do sul seriam completamente diferentes, se não fossem as espécies comuns e de extensão vasta, das quais falei há pouco. Na nossa viagem encontramos as formas da zona média e da do sul, e destas principalmente as do interior, além das espécies ubiquitárias.
Em seguida dou uma lista das mutucas obtidas durante a viagem, como contribuição a sua localização; as espécies características das regiões são grifadas. A maior parte da viagem só permitiu colecionar a bordo ou nas margens do rio, sem a ajuda de animais, mas nos portos Tibiriçá, Mojoli, Iguaçu, no Salto de Iguaçu e no Paraguai (entre San Bernardino e o rio Salado) tínhamos cavalos ou burros. Entre centenas de exemplares só vi um macho.
No princípio da viagem as chuvas eram freqüentes. A estação era favorável para o maior número de espécies, mas para algumas já era tarde, de modo que o nosso catálogo com cerca de 25 espécies é muito incompleto.
Mutucas da região de Porto Tibiriçá
1 – Erephopsis xanthopogon
2 – Esenbeckia clari
2a – Esenbeckia clari var. nigricans
3 – Selasoma tibiale
4 – Lepidoselaga lepidota
5 – Diachlorus bimaculatus
6 – Chlorotabanus mexicanus
7 – Odontotabanus aurora
8 – Macrocormus sorbillans
9 – Neotabanus ochrophilus
10 – Neotabanus triangulum
11 – Neotabanus comitans 12 – Leucotabanus leucaspis
Região de Porto Mojoli
1 – Erephopsis ardens
2 – Chrysops costatus
3 – Chrysops leucospilus
4 – Diachlorus flavitaenia
5 – Cryptototylus unicolor
6 – Odontotabanus aurora
7 – Odontotabanus cinerarius (com asas enegrecidas)
8 – Phaeotabanus limpidapex
9 – Phaeotabanus aphanopterus
10 – Tabanus cayennensis (só visto, não apanhado)
11 – Macrocormus sorbillans
12 – Catachlorops intermedius
Puerto Bertoni (Paraguai)
A coleção do Sr. A. de Winkelried Bertoni continhas as espécies seguintes:
1 – Erephopsis ardens
2 – Epipsila eriomeroides
3 – Esenbeckia nov. spec.
4 – Dichelacera alcicornis 5 – Odontotabanus fuscus
6 – Neotabanus ochrophilus
7 – Macrocormus trizonophthalmus
Região de Iguaçu
1 – Erephopsis ardens
2 – Catachlorops intermedius
Paraguai (Região de Assunción)
1 – Erephopsis ardens
2 – Erephopsis marginata
3 – Chrysops parvifascia
4 – Dichelacera modesta
5 – Tabanus importunus
6 – Neotabanus ochrophilus
7 – Neotabanus triangulum
8 – Leucotabanus leucaspis
9 – Diachlorus bipunctatus
10 – Pseudacanthocera marginata
11 – Tabanus interpunctus
12 – Tabanus monogramma
13 – Tabanus fuscofasciatus var. 14 – Chlorotabanus mexicanus
15 – Macrocormus pseudosorbillans
16 – Poecilosoma quadripunctatum
17 – Chrysops costatus
18 – Chrysops crucians
19 – Chrysops laetus
20 – Chrysops leucospilus
21 – Chrysops nigricorpus
22 – Chrysops parvifascia
As oito primeiras espécies foram colhidas em março entre San Bernardino e o rio Salado [Salgado]; as outras foram determinadas entre exemplares colhido pelo Dr. Migone em épocas anteriores. Creio também ter visto o Tabanus cayennensis, e observei o Poecilosoma quadripunctatum. No Paraguai existe também Lepisoselaga albipes e Dichelacera trigonotaenia.
Sobre as mutucas do noroeste de São Paulo e da zona vizinha do Mato Grosso já foi publicada uma nota nestas Memórias.
Depois de terminada a viagem, recebi ainda algumas coleções reunidas nas zonas percorridas, e que, junto com outras anteriormente feitas nas mesmas regiões, permitem aumentar os dados sobre estas faunas locais.
Junto aqui uma lista de:
Tabanídeos das Missões
(Colecionados por Van de Venne e comunicados pelo professor Wolffhuegel)
1 – Erephopsis ardens – Porto Aguirre, rio Iguaçu e Bonpland
2 – Pseudoscione longipennis (Ricardo) Missiones
3 – Chrysops costatus – Bonpland
4 – Chrysops fusciapex – Bonpland
5 – Diachlorus flavitaenia – rio Paraná
6 – Tabanus fuscofasciatus – Bonpland
7 – Poecilosoma quadripunctatum (F.) – Bonpland
8 – Leucotabanus leucaspis – Bonpland
9 – Leucotabanus ocellatus n. sp. – Missiones
10 – Chelotabanus aurora – Salto de Iguaçu, Porto Aguirre
11 – Stictotabanus conspicuus – Missiones
12 – Catachlorops intermedius – Missiones
13 – Dicladocera macrospila – Missiones
A esta lista podem-se acrescentar algumas espécies, já descritas por MacQuart com a indicação “Du territoire des Missions”. Em parte indicam que se devia tratar de uma região das Missões, bem diferente na sua fauna.
14 – Tabanusfenestratus – MacQuart
15 – Tabanus angustus – MacQuart
16 – Tabanus missionum – MacQuart
17 – Tabanus hilarii – MacQuart 18 – Tabanus trigonophorus – MacQuart
Tabanídeos do Uruguai
Mandados pelo Sr. Juan Tremoleras:
1 – Tabanus (Macrocormus) rubescens Bigot
2 – Tabanus fuscofasciatus MacQ.
3 – (Neotabanus) pungens Wied. syn. Comitan Wied.
4 – Neotabanus dorsiger Wied.
5 – Neotabanus triangulum Wied.
6 – Neotabanus trivitatus F.
7 – Neotabanus ornatissimus Brethes
8 – Neotabanus angustus MacQ.
9 – Neotabanus missionum MacQ.
Espécies já obtidas em ocasiões anteriores:
10 – Chrysops uruguayensis
11 – Dichelacera trigonotaenia
12 – Neotabanus angustus
13 – Neotabanus bonariensis
14 – Neotabanus missionum
15 – Neotabanus trigonophorus
O Tabanus pictipennis, descrito por MacQuart, de Maldonado, não existe na coleção do Instituto.
Quase todas estas espécies foram encontradas também em países vizinhos.
Para comparação das faunas dou em seguida umas listas dos outros estados do Brasil meridional, extraídas das coleções por mim organizadas ou examinadas:
Estado do Rio Grande do Sul
1 – Erephopsis marginalis
2 – Erephopsis ardens (S. Leopoldo – MacQuart)
3 – Dichelacera lacerifascia
4 – Dichelacera multiguttata
5 – Dichelacera trigonotaeniata
6 – Dichelacera unifasciata
7 – Dichelacera alcicornis
8 – Poecilosoma histrio
9 – Poecilosoma monogramma
10 – Poecilosoma quadripunctatum
11 – Dicladocera macrospila
12 – Dicladocera gutipennis
13 – Dicladocera potator
14 – Macrocormus sorbillans
15 – Neotabanus angustus 16 – Neotabanus bonariensis
17 – Neotabanus missionum
18 – Neotabanus triangulum
19 – Neotabanus trigonophorus
20 – Neotabanus ochrophilus
21 – Chelotabanus impressus
22 – Chrysops crucians
23 – Chrysops leucospilus
Estado de Santa Catarina
Os tabanídeos que temos de Santa Catarina consistem principalmente em uma pequena coleção, feita por mim em São Bento, e outra maior, feita pelo Dr. Pinto Guedes no litoral. Trata-se de regiões montanhosas com muito mato, e a fauna se parece com a das regiões correspondentes de Paraná, São Paulo, Mato Grosso e Rio de Janeiro.
Achamos apenas duas formas inteiramente novas, ao lado de alguns representantes de espécies raras, em parte indescritas, como consta da seguinte lista:
1 – Erephopsis sorbens
2 – Erephopsis aurimaculata
3 – Erephopsis incisuralis
4 – Chrysops laetus
5 – Diachlorus bivitatus 6 – Diachlorus flavitaenia
7 – Stigmatophthalmus altivagus
8 – Acanthocera longicornis
9 – Acanthocera eristalis
10 – Acanthocera nigricorpus
11 – Dichelacera alcicornis
12 – Catachlorops intermedius
13 – Catachlorops praetereuns
14 – Catachlorops rufescens
15 – Amphichlorops flavus
16 – Rhabdotylus planiventris
17 – Dicladocera furtata
18 – Dicladocera macula
19 – Dicladocera potator
20 – Dicladocera rufipennis
21 – Poecilosoma quadripunctatum
22 – Leucatabanus nigristigma
23 – Neotabanus triangulum
24 – Odontotabanus impressus
25 – Chlorotabanus mexicanus 26 – Stictotabanus conspicus n. sp.
27 – Leptotabanus nigrovenosus
28 – Stibasoma Willistoni
29 – Stibasoma semiflavum
30 – Poecilosoma punctipenne
31 – Erephopsis nigricorpus
32 – Dichelacera rubricosa
Litoral e serra costeira do estado do Paraná
As mutucas encontradas no litoral e na serra costeira do Paraná pertencem a uma fauna que se estende de São Paulo a Santa Catarina. Para apoiar essa afirmação cito apenas algumas espécies que se acham nas coleções organizadas por mim:
Erephopsis sorbens
Chrysops costatus
Stibasoma willistoni
Rhabdotylus planiventris
Catachlorops intermedius
Poecilosoma punctipenne
Poecilosoma quapripunctatum
Notas zoológicas
Mamíferos O mamífero mais interessante do Paraná brasileiro é a ariranha (Lutra paranaensis). Encontramos alguns exemplares durante a viagem e observamos uma fêmea criada de pequena que era completamente mansa. Na viagem vimos também alguns bandos de capivaras, que, por sua vida anfíbia, se prestam à observação de bordo.
Nas regiões atravessadas há grandes trechos de verdadeiro sertão, onde ainda existe toda a fauna primitiva. A maior parte dos mamíferos escapa à vista, mas a caça grande acusa sua presença por rastos e outros indícios. As antas ainda são freqüentes no Paraná e nos afluentes, e os grandes cervos abundam no lado de Mato Grosso onde há campos. O grande tatu canastra manifesta a sua existência pelos enormes buracos que ele cava. Tivemos o raro espetáculo de ver um tatu azul atravessar facilmente a nado um rio bastante largo. Outra vez vimos um quati, montado num pau que ia arrastado pela corrente do Paraná e foi engolido num dos numerosos sorvedouros. No Salto de Iguaçu vimos um ou dois exemplares de cutia no mato; na cidade recebemos uma das pequenas lebres que lá aparecem freqüentemente. Com alguns morcegos, apanhados numa gruta, enumeramos todos os mamíferos que observamos nas regiões percorridas. Nunca encontramos macacos, que parecem limitados a poucas espécies, e tampouco ouvimos o ronco característico das espécies maiores.
Aves
Os pássaros aquáticos que encontramos são observados em quase todos os rios maiores, dos quais não foram afugentados. Por causa das enchentes ou por serem os trechos de rio menos favoráveis, o número deles nunca era bem grande. A única exceção foi um bando enorme de garças brancas, encontrado no Alto Paraná. De espécies que ainda não tínhamos visto em liberdade, podemos mencionar apenas a Chauna cristata que observamos no Baixo Paraná e cuja voz extraordinária ouvimos no rio Salado. Na Empresa Allica vimos muitos exemplares mansos.
De pássaros observados na margem dos rios convém mencionar principalmente as araras. Vimos um grande bando de araras vermelhas, espetáculo interessante e novo para nós. A espécie azul e amarela (canindé) só aparecia em bandos pequenos. Os tucanos e várias espécies menores de papagaios eram numerosos em certas partes, como também os pombos legítimos. Todos esses pássaros gostavam de pousar nas taquaras secas, onde eram muito visíveis.
Uma caça freqüente na parte brasileira do Paraná é a jacutinga.
Répteis
Em Iguaçu recebemos uma jararaca morta de um metro e quarenta centímetros de comprimento. Na mesma região existem a jacaracuçu e o urutu (Lachesis alternata). No museu de Trindade (Assunción) vimos uma cascavel do tipo das do norte e jararacas, parecidas, uma com a forma neuwiedii, e outra com aquele que recebeu o nome impróprio L. cutiara. Havia também espécies de Elaps.
Peixes
Os peixes observados no Alto Paraná limitam-se a um surubi e alguns dourados, pacu e matrinxã, pescados a anzol durante as nossas excursões, sendo a ocasião pouco favorável. No Paraguai vimos exemplares do Lepidosiren, que lá não é raro e tem o nome vulgar pirambóia.
Crustáceos
Durante a nossa viagem observamos alguns crustáceos interessantes, da ordem Phyllopoda. Logo abaixo do Salto da Sete Quedas encontramos, em duas pequenas poças de água de chuva acumulada, numerosos exemplares de uma Eulimnadia em propagação partenogenética ativa. Parece tratar-se de Eulimnadia brasiliensis G. O. Sars, à qual mais se assemelha. As diferenças observadas não nos parecem suficientes para distinguir uma nova espécie entre esses animais, sempre um tanto variáveis. A casca dos exemplares obtidos estava densamente coberta com fios de algas, ao lado de infusórios muito freqüentes em pequenos animais aquáticos.
Na lagoa Ipacaraí foram pescados, em lugar raso, alguns outros filópodes que determinamos como Estheria hislopi Baird. No plâncton havia três espécies de Cladocera, já colecionadas por Anidits e determinadas por Daday como Diaphanosoma brachyra Lievin, Ceriodaphnia cornuta Sars e Bosmina longirostris Leidiz. Além disso, havia um copépode, determinado por Daday como Diaptomus conifer Sars. Todas essas formas pertencem também à fauna européia.
Insetos
Às notas já dadas, acrescentamos que em Iguaçu obtivemos um exemplar de Jequitiranabóia (Fulgora), da espécie também observada no Rio e em São Paulo, e um bonito Enoploceras armillattus, um dos maiores coleópteros. Na coleção Bertoni havia um exemplar da Cuterebra schmalzi, descrita por mim de Santa Catarina.
No Paraguai observa-se, tanto no reino animal como no vegetal, uma mistura de formas que correspondem ao norte, e de outras, parecidas com as do sul do Brasil. Este fenômeno aparece também na fauna entomológica.
Moluscos
Citamos apenas algumas observações sobre os Planorbis do Paraguai. O Pl. cultratus, forma do norte já assinalada do Paraguai, foi verificado por mim em Encarnación. Em Trindade encontrei uma espécie idêntica com nigricans Spix, e, na lagoa de Ipacaraí, outra que podia ser o heloicus de D'Orbigny. É bem menor que o peregrinus e não alcança o tamanho de centimetralis. O animal é pequeno; tem antenas bastante claras e a parte anterior do corpo pigmentada, mas de um modo menos contínuo, aparecendo pardo-acizentado. Sobre a cavidade respiratória, o pálio mostra manchas pigmentadas irregulares, sendo o resto muito transparente.
O saco visceral contém um fígado ocráceo e a glândula genital esbranquiçada; parece distintamente avermelhado pela abundância de sangue vermelho. A casca é córnea, muito transparente e apenas ligeiramente amarelada; tem cinco giros, aumentando lentamente em calibre; a boca é um pouco dilatada e ligeiramente defletida. É carregada horizontal quando o animal bóia, mas vertical quando está no fundo ou quando pasta na parede de uma cuba.
No museu de Montevidéu obtive cascas típicas de Pl. peregrinus D'Orbigny.
Notas botânicas
As margens do Alto Paraná são revestidas por mato contínuo, que apresenta numerosas embaúbas, uma série de grandes figueiras e muitas leguminosas, das quais os ingazeiros mais se avizinham da água. Há grande quantidade de taquaras, entre as quais o taquaruçu se distingue por sua altura, excedendo freqüentemente a das árvores vizinhas. Embaixo das árvores há cortinas de trepadeiras maiores e menores. Na margem da água nota-se geralmente uma orla de Eichhornia que muitas vezes são levadas pela corrente formando os “camalotes”. Em alguns lugares são substituídas por gramíneas. Onde há paredões, aparece muito a Cuphea melvilla, sendo a pedra decorada com bromeliáceas e cactáceas.
No meio da verdura geral aparecem poucas flores. Notamos cássias, ingás e várias outras leguminosas, um Hibiscus aquático e várias bignoniáceas brancas, amarelas e rosas.
Nas pedras ao lado e por dentro dos Saltos do Iguaçu notava-se apenas uma grande gramínea. Na foz do Iguaçu e de lá para baixo abundava na margem um Croton com inflorescências compridas, alternando com sapindáceas e Sarandi. Taquaruçus secos e outras taquaras verdes eram muito abundantes. Esta formação continuava até perto de Encarnación, apenas interrompida por freqüentes derrubadas.
Em Porto Bandeira achamos uma trepadeira parecida com Mesechites sulphurea. A mesma foi encontrada em Encarnación ao lado de outra Apocinácea, de flores brancas e com longo tubo estreito, que só abrem à noite.
No campo perto dessa cidade achamos uma flora caracterizada por muitas espécies, novas para nós, por exemplo duas verbenas das quais uma vermelha, uma Lippia curiosa, uma vistosa labiada azul e uma Ipomoea singular I. malvoidea. Abundavam um Eryngium e a sensitiva, ao lado de uma Agelonia e de outras escrofulariáceas. Essa flora nos acompanhou até Assunción, onde encontramos a Ipomoea fistulosa em lugares úmidos, e, na água, duas espécies de Echinodorus, uma marantácea e uma butomácea. É freqüente a Araujia stenophylla, cujo látex pode conter flagelados abundantes, como descobriu o Dr. Migone. Na excursão ao rio Salado [Salgado] observamos a Celtis glycocarpa, uma bignoniácea interessante e muitas outras plantas com flores vistosas.
* Relatório de viagem feita, de janeiro a março de 1918, por Adolpho Lutz em companhia de Heráclides-Cesar de Souza Araújo e Olympio da Fonseca Filho. Os relatório dos três cientistas do Instituto Oswaldo Cruz foi publicado em 1918 nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, t.10, n.2, em português (p.104-73) e em inglês (p.83-102), neste caso com o título “Report on the journey down the river Paraná to Asuncion and the return journey over Buenos Aires, Montevideo and Rio Grande”. Contém 56 pranchas com reproduções de fotografias tomadas por Araújo e Fonseca Filho. O relatório foi resenhado em Review of Applied Entomology, London, 8 (series B), p.25-7, 1920. [N.E.]
1 Hospital de Bauru.
2 Caso de lepra mutilante, encontrado no hospital.
3 Salto de Itapura, lado direito.
4 Idem, lado esquerdo.
5 No original, ‘wagons’ Segundo Dicionário Eletrônico Houaiss (versão 1.0, dez. 2001), ajoujo designa, no Norte e Centro-Oeste do Brasil, embarcação constituída de duas a quatro canoas emparelhadas e jungidas entre si, para transporte de carga no São Francisco e em outros rios. [N.E.]
6 E. de F. Itapura-Corumbá – Ferry-boat no porto de Jupiá.
7 O autor grafa ‘paraguaiense’. [N.E.]
8 No original, alternam-se as gráfias ‘Pequeri’, ‘Pequiri’ e ‘Piquiri’. [N.E.]
9 Hoje, “pressão atmosférica ou barométrica”. No parágrafo seguinte já aparece “pressão atmosférica”. [N.E.]
10 No original, consta “m.;” a unidade correta, milibar, é abreviada como “mb”. Logo a seguir, aparece “mm,” que deve significar “milímetros de mercúrio”. Mantivemos sempre esta abreviatura. [N.E.]
11 No original constava 17, erro óbvio. [N.E.]
12 No original constam 41 metros. Mais adiante (p.64), são mencionados 40 metros, medida que parece absurda. [N.E.]
13 No original consta 65 metros. [N.E.]
14 Regionalismo que significa pernoitar, demorar-se em algum lugar durante uma viagem.
15 Seguimos o Dicionário Eletrônico Houaiss (versão 1.0, dez. 2001) na grafia desta expressão que é o mesmo que sífilis. No original, constam “mal de Job” e a interrogação do autor do relatório. [N.E.]
16 O mesmo que doença de Gruby, uma forma de tinea tonsurans encontrada em criança se devida ao fungo Trichophyton microsporon. [N.E.]
17 No original consta ‘planctonolojia’; substituímos pelo termo dicionarizado. [N.E.]