Adolpho Lutz: Viagens por Terra de Bichos e Homens
Viagem científica no Rio Paraná e a Assunción, com volta por Buenos Aires, Montevidéu e Rio Grande
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Abril, de 1 a 8
Durante a primeira semana de abril visitamos os hospitais; a Faculdade de Medicina de Porto Alegre; o Instituto Oswaldo Cruz; o Instituto Borges de Medeiros, onde os doutores Marques da Cunha e Pereira Filho estavam instalando o Laboratório de Biologia, recentemente criado; a Escola de Engenharia; a Faculdade de Direito e o Laboratório de Bacteriologia do Dr. Pereira Filho. Com alguns colegas fizemos algumas excursões com o objetivo de estudos nos arredores de Porto Alegre, tendo deixado de fazer outras por esse motivo para a cidade.
Ao meio-dia do dia 8 partimos para a cidade do Rio Grande no vapor “Almirante Jaceguai”. Chegamos a Pelotas às 11 horas do dia 9, e ali resolvemos passar o resto do dia. Em Porto Alegre procuramos obter as mais fidedignas informações sobre o estado sanitário.
Pelotas. Abril 9
Visitamos hoje mais demoradamente a Santa Casa e procuramos conhecer, em suas próprias casas, alguns leprosos desta cidade.
Rio Grande. Abril, de 10 a 14
Esperando um vapor do Lloyd Brasileiro que nos levasse até Paranaguá, demoramo-nos no Rio Grande mais cinco dias. Durante esse tempo procuramos conhecer melhor a cidade, examinamos vários doentes, inclusive alguns leprosos, e obtivemos interessantes informações sobre a higiene pública. Visitamos do outro lado da baía a velha cidade de São João do Norte. A nossa coleção de mosquitos aumentou nesses dias. Tanto nesta cidade como na do Rio Grande, encontramos muitos mosquitos, predominando o Culex albifasciatus e a Stegomyia calopus.
No Porto Novo visitamos as obras do frigorífico da Companhia Americana “Swift” e o grande estoque de carvão nacional, vindo de São Leopoldo em grandes barcaças e amontoado junto ao cais, donde imensos guindastes transportam-no para dentro dos vapores.
Santa Catarina. Abril 16 e 17
Infelizmente não pudemos desembarcar em Florianópolis, [99] cujo hospital desejávamos conhecer. Desembarcamos, porém, em São Francisco e Itajaí, [102] onde obtivemos também algumas informações sobre o estado sanitário.
Paraná. Abril 18 a Maio 14
No dia 18 chegamos a Paranaguá, debaixo de muita chuva. À tarde do mesmo dia subimos a serra. Em Curitiba demoramo-nos uma semana, e depois partimos para o norte do estado, a fim de inspecionar o serviço da Campanha Anti-malárica. Nada havia de anormal.
Regressamos à Capital, onde permanecemos mais alguns dias.
Aproveitamos esse tempo para colecionar insetos. Descemos a serra e passamos três dias no litoral, embarcando a 14 de maio no vapor “Servulo Dourado” para o Rio de Janeiro, aonde chegamos a 17 de maio.
Clima e Estado Sanitário pelo Dr.
Souza Araújo
Capítulo I
Clima
Empreendendo uma excursão científica pelo rio Paraná, interessava-nos sobremaneira a obtenção de dados meteorológicos da região, especialmente do trecho compreendido entre a foz do rio Tietê, início da viagem, e a foz do rio Iguaçu, nossa fronteira com a Argentina, porque, nas grandes viagens de exploração, sobretudo com caráter médico como a nossa, as observações meteorológicas têm uma importância capital para os estudos de climatologia. Infelizmente não há, em toda essa vasta zona do nosso imenso território, nenhuma estação meteorológica onde pudéssemos obter informações seguras sobre as temperaturas médias mensais e anuais, mínimas e máximas absolutas, tensão absoluta e tensão
relativa,9 bem como a média das nebulosidades, predominância dos ventos, totais das chuvas, evaporação e insolação. Desse modo, as falhas informações que nos deram e as poucas observações que registramos não são suficientes para se tirar conclusões sobre o clima da região por nós percorrida; entretanto, vão a seguir transcritas para, reunidas a outras de outros excursionistas, irem se completando aos poucos, até que formem um subsídio de valor apreciável e aproveitável. Ao lado das altitudes, tomadas em cada lugar que visitamos, daremos também outras informações relativas ao tempo, tais como as temperaturas, chuvas etc., dados meteorológicos por nós anotados durante a viagem.
No dia 16 de janeiro partimos de São Paulo para Bauru, às 7 horas, em trem da Companhia Paulista. Durante todo o dia, que foi chuvoso, a temperatura se manteve entre 26° e 27°C, e a pressão atmosférica entre 680 mm e 718 mm. Em Bauru, cuja altitude é de cerca de 500 metros, a temperatura máxima, do dia 17, foi de 29°C ao meio-dia, tendo chovido à tarde. No dia 18, durante a nossa viagem pelo Noroeste até Araçatuba, o tempo continuou chuvoso e a temperatura variou entre 26°C e 29°C, tendo a viagem corrido muito agradável.
No dia seguinte saímos de Araçatuba, visitamos os Saltos do Itapura, fomos ao Porto de Jupiá e daí até a cidade de Três Lagoas. O tempo continuou chuvoso e a temperatura manteve-se a mesma da véspera.
Jupiá, porto paulista no rio Paraná, está a 250 metros de altitude; Três Lagoas, primeira cidade de Mato Grosso, indo-se pela Estrada de Ferro Itapura-Corumbá, está 290 metros acima do nível do mar. Passamos o dia 20 de janeiro em Três Lagoas, tendo o tempo corrido igual ao da véspera.
No dia 21 iniciamos a nossa viagem pelo rio Paraná, embarcando na barranca de Mato Grosso no vapor “Paraná,” com destino ao Porto Tibiriçá.
Na hora do embarque, que se deu às 9 horas, a pressão
atmosférica era de 740 mm10 e a temperatura 30°C, dentro do vaporzinho. Às 14 horas a temperatura subiu a 30,5° e às 19 horas baixou a 28°C, tendo chovido um pouco entre 17 e 18 horas, e a pressão baixou a 739 mm.
Durante os cinco dias que permanecemos em Porto Tibiriçá, cuja altitude é de 270 metros na sede da vila, a temperatura variou entre 22° e 30°C, no hotel, e a pressão entre 738 e 740 mm; chovia quase todas as tardes.
Manhãs magníficas com céu limpo e noites agradáveis, com céu estrelado e sem nuvens consideráveis. Apenas numa noite tivemos muito calor. O escritório da Companhia de Viação São Paulo-Mato Grosso registra também algumas considerações sobre o tempo, e assim puderam nos informar que há verões cuja temperatura chega lá a 40°C à sombra.
No dia 26 de janeiro, logo que deixamos Porto Tibiriçá, viajando rio abaixo numa chata da empresa Mate-Laranjeira rebocada por uma lancha a gasolina, o nosso termômetro marcou 34°C às 15 horas. Fez sol o dia e magnífico luar à noite, com céu limpo.
No dia 27, lá pela altura da foz do rio Paranapanema, tivemos grande tempestade, às 14 horas. A temperatura oscilou muito nesse dia e o calor tornou-se asfixiante em certa hora. Às 7 horas o termômetro marcava 25°C, às 9 horas 30°, às 10h30 34°, e atingiu 36°C às 13h30. Às 14 horas, quando começou a tempestade, baixou a 32°, e às 20 horas voltou de novo a 25°C, temperatura que tínhamos tido de manhã, no dia da partida.
A pressão atmosférica variou, no dia 26, entre 742 e 749 mm.
No dia 28 o tempo amanheceu bom, céu limpo e de um belo azul, intermeado de nuvens brancas estratificadas. Pressão 745 mm, temperatura 25°C, e nebulosidade 2. Ao meio-dia, hora em que desembarcamos em Porto Mojoli, a temperatura subiu a 30°C, tendo chovido torrencialmente das 16 às 18 horas. À noite o termômetro baixou a 26°C.
Porto Mojoli – Distrito Policial de Guaíra – Estado do Paraná
A vila do Guaíra, situada sob o Trópico de Capricórnio, numa latitude S de 24°8’15,” com uma diferença de hora, para menos, de 47 minutos, comparada à do Rio de Janeiro, está 225 metros acima do nível do mar. Quanto ao clima podemos fornecer dados mais completos desta zona, graças à gentileza do engenheiro da empresa Mate-Laranjeira, Dr. Sidwell Wilson, de cujas cadernetas copiamos, em resumo, os seguintes dados meteorológicos:
Ano de 1915
Mês de fevereiro:
Temperatura mínima ................................................. 18°C
Média das máximas ................................................. 39°C
Máxima absoluta ................................................. 40°C
Choveu durante muitos dias.
Mês de março:
Média das mínimas ................................................. 17,9°C
Média das máximas ................................................. 30,6°C
Choveu em 5 dias. Céu limpo em 13 dias.
Mês de abril:
Mínima absoluta ................................................. 2°C
Máxima absoluta ................................................. 25°C
Nos meses de maio e junho não foram registrados os dados
mais importantes.
Mês de julho:
Tempo bom, firme.
Média das mínimas ................................................. 10,4°C
Média das máximas ................................................. 25,7°C
Mínima absoluta ................................................. 0,0°C
Máxima absoluta ................................................. 33°C
Mês de agosto:
Média das mínimas ................................................. 15,1°C
Média das máximas ................................................. 30°C
Mínima absoluta ................................................. 4°C
Máxima absoluta ................................................. 34°C Bom tempo.
Mês de setembro:
Média das mínimas ................................................. 14,6°C Média das máximas ................................................. 26,7°C Mínima absoluta ................................................. 6°C Máxima absoluta ................................................. 32°C Céu enfumaçado pelas queimadas. Bom tempo.
Mês de outubro:
Chuva 9 dias.
Mês de novembro:
Chuva 7 dias.
Mês de dezembro:
Máxima absoluta ................................................. 34°C
As observações meteorológicas, tomadas e registradas durante os primeiros meses do ano de 1916, estavam tão incompletas que não achamos conveniente transcrevê-las. Limitamo-nos aos seguintes dados, que nos pareceram mais interessantes:
Durante o mês de janeiro caíram grandes chuvas em 11 dias e o céu manteve-se limpo do dia 9 ao 16.
No mês de fevereiro choveu em 14 dias e o tempo continuou chuvoso até fins de maio, sem deixar de fazer calor.
No mês de junho a temperatura baixou a 4 graus e no mês de julho a zero grau. No mês de agosto a mínima absoluta foi de 7°C, e a máxima absoluta chegou a 29°C.
Mês de setembro:
Mínima absoluta ................................................. menos 3°C Máxima absoluta ................................................. 35°C
Média das mínimas ................................................. 13,7°C
Média das máximas ................................................. 27,7°C
Mês de outubro:
Mínima absoluta ................................................. 10°C
Máxima absoluta ................................................. 31°C
Média das mínimas ................................................. 16,1°C
Média das máximas ................................................. 26,5°C
Mês de novembro:
Mínima absoluta ................................................. 15°C
Máxima absoluta ................................................. 36°C
Mês de dezembro:
Mínima absoluta ................................................. 10°C
Máxima absoluta ................................................. 36°C
Média das mínimas ................................................. 18,6°C
Média das máximas ................................................. 32°C
Mês de janeiro de 1917:
Mínima absoluta ................................................. 10°C
Máxima absoluta ................................................. 39°C
Média das mínimas ................................................. 20°C
Média das máximas ................................................. 35°C
Mês de fevereiro:
Mínima absoluta ................................................. 13°C
Máxima absoluta ................................................. 34°C
Média das mínimas ................................................. 18°C
Média das máximas ................................................. 31,6°C
Mês de março:
Mínima absoluta ................................................. 14°C
Máxima absoluta ................................................. 36°C
Média das mínimas ................................................. 18,2°C
Média das máximas ................................................. 31,2°C
Mês de abril:
Mínima absoluta ................................................. 8°C Máxima absoluta ................................................. 30°C
Mês de maio:
Mínima absoluta ................................................. 0°C Máxima absoluta ................................................. 23°C
Nos meses de junho, julho e agosto de 1917 a temperatura mínima foi de 3 graus abaixo de zero, tendo caído grandes geadas.
Foi esse o primeiro ano de inverno tão rigoroso aqui observado pelo engenheiro e pelo pessoal da empresa Mate-Laranjeira que vive nesta zona há cerca de oito anos.
Durante a nossa estadia em Porto Mojoli tomamos as seguintes notas sobre o tempo:
Cidade de Iguaçu
Altitude cerca de 170 metros. Temperatura mínima, observada nestes últimos tempos, 4° abaixo de zero, máxima 38°C e raramente 40°C.
Durante os dias que permanecemos em Iguaçu, cidade e saltos, registramos os seguintes dados meteorológicos:
Considerações gerais sobre o clima
Procurando conhecer o que se escreveu sobre o clima do Alto Paraná, encontramos, no mapa das zonas térmicas de Koeppen, a inclusão de todo o território brasileiro da margem esquerda desse rio e parte do da margem direita, território de Mato Grosso, na zona subtropical. Quanto ao território paraguaio e argentino da margem direita do Paraná, foi incluído na zona temperada com verão quente. No livro sobre clima e moléstias do Brasil, publicado em 1844 pelo Dr. J. F. X. Sigaud, não encontramos referências ao Alto Paraná, e tampouco no livro sobre climas e geografia botânica de E. Liais, publicado em 1872. Como características de clima subtropical apresenta Koeppen: ausência de inverno; uma temperatura média inferior a 20°C, pelo menos durante um mês e no máximo durante oito meses; notável oscilação térmica e nenhum maximum, em que o calor seja sensivelmente mais forte do que na zona tropical. Para Em. de Martonne, climas subtropicais são climas temperados, sem estação fria. Ora, não é isto o que se observa no nosso território, compreendido entre os rios Ivaí e Iguaçu, pelo menos nestes últimos anos. Os estudos de Koeppen foram publicados em 1884 e naturalmente realizados anos antes; por isso é possível que o clima do Alto Paraná se tenha modificado nestes últimos tempos, sobretudo pelo povoamento da região e conseqüentes transformações das condições mesológicas, pela devastação das florestas etc. Pelas observações meteorológicas aqui registradas e referentes aos anos de 1915, 1916, 1917 e parte de 1918, vê-se que pode haver no Alto Paraná inverno, bem rigoroso e bastante prolongado, como se observou em 1916 e 1917. Notável oscilação térmica e uma temperatura média inferior a 20°C, durante alguns meses, são também fatos que lá se registram. Em 1915, o inverno começou em abril, mês em que a mínima absoluta foi de 2°C e a máxima absoluta de 25°C, e se prolongou até o mês de agosto. Em julho registrou-se como mínima absoluta 0°C, e 33°C como máxima absoluta. Em agosto a mínima absoluta subiu a 4°C e a máxima absoluta não passou de 32°C.
No ano de 1916 fez calor até o mês de maio, e só em junho a temperatura baixou a 4°C, chegando a zero grau em julho. No mês de agosto a mínima absoluta foi de 7°C e a máxima absoluta chegou a 29°C, para baixar em setembro a menos de 3°C e subir a mais 35°C. Foram essas as temperaturas extremas do mês de setembro. No ano de 1917 fez frio em abril, com uma mínima absoluta de 8°C, para baixar a zero em maio e a 3°C abaixo de zero nos meses de junho, julho e agosto, tendo caído grandes geadas. Como se vê, uma região cujo inverno é tão rigoroso não pode ser incluída nas zonas de climas subtropicais, admitida a classificação de Koeppen. Ficou aqui bem patente a presença de inverno e de considerável oscilação térmica no Alto e no Baixo Paraná brasileiros.
Quanto ao rigor do verão nessas zonas, basta citar alguns dados? Em fevereiro de 1915 a média das máximas atingiu a 39°C e a máxima absoluta chegou a 40°C. Estão aqui bem patentes os caracteres de um verão tropical. A máxima absoluta desse ano, em agosto, foi de 34°C e a média das máximas foi de 30°C, para baixar em setembro a 32°C a máxima absoluta e a 26°C a média das máximas. Nos meses de outubro e novembro, em razão das grandes chuvas, a temperatura não foi muito elevada. Em dezembro, a máxima absoluta atingiu 34°C. Em 1916 a máxima absoluta em setembro foi de 35°C, de 31°C em outubro e de 36°C em novembro e dezembro. Em janeiro de 1917 a máxima absoluta subiu a 39°C, com uma média das máximas atingindo 35°C, para baixar em fevereiro a 34°C a máxima absoluta e a 31°C a média das máximas. Ainda em março a máxima absoluta foi de 36°C, e a média das máximas, de 31°C.
No mês de fevereiro deste ano (1918) a máxima absoluta, por nós registrada, em Porto Mojoli foi de 32°C, porém a primeira quinzena deste mês deu muita chuva.
Koeppen inclui nas zonas temperadas todos os climas tendo inverno e, no mínimo, oito meses com temperatura média inferior a 20°C, dividindo em seguida a zona temperada em duas subzonas, caracterizada uma pela existência de um verão tropical (três meses com média acima de 20°C), outra por um inverno mais rigoroso. Dados os fatos que acabamos de referir, podemos classificar o clima do Alto Paraná brasileiro como de clima temperado com verão quente. Quanto ao rigor do inverno nessa região, deve correr por conta da latitude em que se acha e da sua distância do oceano.
Nada, porém, de definitivo deve-se dizer por falta de observações meteorológicas rigorosas e perseverantes tomadas por muitos anos, porque em assuntos de climatologia só se devem tirar conclusões definitivas após longos anos de observações e estudos. Além disso, as zonas térmicas de Koeppen foram baseadas nas formas de vegetação, enquanto somente os caracteres físicos devem servir, como diz Martonne, de base a uma classificação de climas, cuja aplicação à biogeografia deve vir depois. Estas considerações gerais visam especialmente à zona compreendida entre o distrito de Guaíra e a foz do Iguaçu, no município desse nome. Junto aos saltos do Iguaçu, distantes da sede da comarca cerca de cinco léguas, o clima apresenta outros fatores que devem ser registrados. A altitude nessa região varia entre 150 e 170 metros; é, portanto, mais ou menos a mesma da cidade de Iguaçu. Está verificado que é pela inconstância higrométrica que um clima se torna diretamente morbígeno.
Junto aos saltos do Iguaçu o estado higroscópico eleva-se ao grau de hipersaturação todas as manhãs e todas as tardes; como, porém, essa condição mesológica é constante, sente-se lá um bem-estar indefinível. Aquela neblina intensa, prolongando-se por muitas horas em cada dia, indica um estado de supersaturação da atmosfera, fenômeno físico que só se observa onde o ar é puro e não contém partículas sólidas. O vento é, por sua vez, temperado pelo abrigo que as florestas circundantes oferecem, e estimula a amplitude respiratória.
A sensação de bem-estar, o sono calmo e reconfortante que lá se goza, correm por conta, sobretudo, da umidade do ar e não do ruído monótono e constante da queda das águas, como parece à primeira vista.
O clima do território argentino, na proximidade dos saltos, é idêntico ao que descrevemos; porém, na foz do Iguaçu, rio Paraná abaixo, esse clima se torna igual ao do Paraguai, isto é, o verdadeiro clima da bacia média do Paraná.
Clima do Paraguai
Koeppen incluiu na zona temperada com verão quente todo o território paraguaio e argentino da margem direita do rio Paraná. Em. de Martonne classifica porém o clima da bacia média do Paraná e do Paraguai, baseado na constância do calor e da umidade, de clima tropical, tipo chinês. Pelas informações que nos forneceram, e pelas poucas observações que fizemos, parece-nos estar a razão com Em. de Martonne. Visitando o Puerto Bertoni, propriedade do Dr. Moisés Bertoni, primeira localidade paraguaia em que aportamos, tivemos oportunidade de ver a sua completa instalação meteorológica, fundada à sua custa, mas filiada à estação de Córdoba (Argentina), com aparelhos especiais para tomar a temperatura do ar no meio da floresta, no seu estabelecimento científico (Bertoni é um naturalista que tem o seu herbário, o seu museu zoológico etc. etc. no meio da floresta, em que habita há 34 anos), a temperatura do solo e da água do rio Paraná, aparelhos para dosar as trocas gasosas das plantas e aparelhos para medir a intensidade da neblina, além dos psicrómetros. Possui lá o Sr. Bertoni três estações meteorológicas, cada uma delas confiada a um observador.
O Puerto Bertoni é situado a 27° de latitude sul, numa altitude de
170 metros.11 Fazia muito calor no dia da nossa visita, e o Sr. Bertoni informou-nos que a temperatura tem atingido lá, em vários anos e durante um ou mais meses de verão, 41°C e até 44°C. No verão atual (a nossa visita foi em fevereiro de 1918), a temperatura ainda não tinha chegado a 40 graus centígrados. No inverno passado o termómetro registrou 1°C abaixo de zero, fato extraordinário para aquela região, segundo o Dr. Bertoni. No caminho, por onde se sobe da margem do rio Paraná até o estabelecimento do Sr. Bertoni, existem diversas estacas metálicas graduadas, destinadas a medir o nível do rio durante as enchentes. A diferença do nível do rio Paraná, em Puerto Bertoni, entre a maior enchente e a vazante máxima registrada até hoje foi de 4,1
metros.12 Durante a nossa estadia em Encarnación, a temperatura não foi muito elevada por motivo do tempo chuvoso que fazia. Na viagem de Encarnación a Assunción, em estrada de ferro, registramos à saída uma temperatura de 30°C e 33°C, no meio do dia.
A altitude de Assunción é de cerca de cem metros acima do nível do mar; a de Vila Rica, ponto central do Paraguai, de 164 metros; a de São Joaquim, o lugar mais alto de todo o país, de 575 metros.
A temperatura média anual, tomada em várias zonas do país, tem variado entre 24°C e pouco mais de 25°C. Eis aí uma temperatura tropical. A temperatura mínima observada em San Bernardino foi de 4°C, e a máxima absoluta, registrada em Puerto Bertoni, foi de 44°C à sombra.
Durante a nossa estadia em Assunción e em San Bernardino, tomamos a temperatura à sombra três vezes ao dia, tendo obtido uma média de 29°C. A máxima que registramos nessas duas semanas foi de 33°C, e a mínima, de 25,5°C. Foi isto nos últimos dias de fevereiro e nos primeiros dias de março de 1918. O tempo correu sempre bom; insolação intensa e prolongada a mais de 10 horas; céu claro e limpo.
Informaram-nos que no Chaco e no norte do Paraguai o calor é ainda mais forte que em Assunción e no Baixo Paraná. Não é sem razão que em Assunción o trajo oficial é o brim de linho branco, e que por todo o país tem-se o hábito enraizado de dormir a sesta, como aconselham os higienistas europeus para os habitantes das zonas de clima tropical.
Capítulo II
Estado sanitário
Logo que iniciamos a nossa viagem, o chefe da nossa Comissão determinou que eu me incumbisse das observações e estudos sobre o clima e o estado sanitário da região que íamos percorrer.
Para o bom desempenho dessa parte do nosso programa, levamos um pequeno laboratório de excursão com todos os recursos para exames microscópicos e um sortimento de remédios para combater a malária e a ancilostomíase, como também medicamentos e utensílios para medicina e cirurgia de urgência. As despesas feitas na aquisição desses medicamentos, que foram comprados em São Paulo e destinados a distribuição gratuita, durante a excursão, correram por conta do governo do Paraná, cujo presidente, o ilustre Dr. Afonso de Camargo, concorrera também com um auxílio em dinheiro para as despesas da viagem do Dr. Lutz e minhas, a fim de não sobrecarregar a verba, estipulada pelo Dr. Diretor do Instituto para as despesas dos outros membros da Comissão e o transporte da sua grande bagagem de material necessário. Para o estudo concernente a este capítulo, no trecho que vai do Porto Jupiá (estado de São Paulo) até a cidade de Iguaçu (estado do Paraná), dividimos o rio Paraná em Alto e Baixo Paraná, como aliás adotam os nosso geógrafos, zonas separadas pelos saltos do Guaíra, também chamados de Sete Quedas. E de fato, no ponto de vista médico, essas duas zonas, de topografias inteiramente diferentes, não obstante o clima ser o mesmo, oferecem dados e condições nosológicas um tanto especiais.
Basta referir o fato, de capital importância para a saúde das populações ribeirinhas, de que a qualidade das águas potáveis dessas duas zonas não é a mesma; quanto à endemicidade palúdica, eminentemente desigual nas duas zonas, dela trataremos adiante. Em resumo, pode-se dizer que o estado sanitário atual do Alto Paraná é muito precário, e o do Baixo Paraná é quase ótimo. Tendo sido a cidade de Bauru o nosso primeiro ponto de parada, aí encetamos as nossas observações médicas.
Para facilitar o estudo da geografia médica da região por nós percorrida, dividimo-la em diversas partes, como segue:
1a a Bauru e Noroeste; 2 Alto Paraná, compreendendo: Três Lagoas, Porto Tibiriçá, Porto Xavier, Porto Isabel e Porto Mojoli ou distrito do Guaíra; 3a Baixo Paraná, compreendendo: Zororô, Porto Mendes, Porto Artaza, Bela Vista e cidade de Iguaçu; 4a Paraguai, Argentina e Uruguai; e 5 a Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
1. Bauru e Noroeste
Doença de Chagas. Pelas últimas verificações sobre a distribuição geográfica da doença de Chagas (tripanossomíase americana), na América do Sul, sabemo-la conhecida na Argentina, na república de Salvador, no Paraguai, no Peru (nestes últimos países foram encontrados barbeiros parasitados pelo Trypanosoma cruzi há pouco tempo) e talvez em todas as demais repúblicas vizinhas, porque já foi encontrada até na América Central.
Quanto ao Brasil, a doença de Chagas parece ser endêmica, com maior ou menor intensidade, em todos os estados da nossa República.
A. Saint-Hilaire verificou a existência do bócio, em grande abundância, nos estados de Goiás, Minas e São Paulo, nos últimos anos da primeira metade do século XIX. Martius também deixou documentos que atestam a sua grande freqüência em São Paulo. Sigaud, médico de D. Pedro II, deu publicidade em 1844 ao seu livro Du climat et des maladies du Brésil, no qual encontramos referências seguras sobre a grande freqüência do bócio em São Paulo e no Rio Grande do Sul, dando para São Paulo como principais focos naquela época as cidades de Jundiaí, Jacareí e Mogi-Mirim. Quanto ao Rio Grande, diz Sigaud que vinte anos antes da publicação do seu trabalho era lá pouco freqüente o bócio, mas que ele aumentara e se disseminara muito nos últimos vinte anos, portanto entre 1824 a 1844. Os trabalhos de Carlos Chagas atestam também a extraordinária freqüência dessa doença no estado de Minas, onde o sábio patrício fez os seus primeiros e últimos estudos, que vieram esclarecer tudo quanto a ela se refere. Arthur Neiva, nos seus últimos trabalhos, atesta a enorme freqüência e disseminação da doença de Chagas em Goiás, estado que o autor considera o mais flagelado de todo o Brasil. De São Paulo têm saído nestes últimos tempos muitas observações e trabalhos sobre a freqüência do mesmo mal e a distribuição dos barbeiros no estado. Ainda há poucos meses saiu à luz uma observação de um interessante caso agudo dessa doen ça, publicada pelo Dr. Eurico Villela no Brazil-Medico de 2 de março de 1918. Tratava-se de um caso agudo da doença de Chagas com lesões cutâneas. Não nos surpreendeu, portanto, sabermo-la existente em Bauru e municípios vizinhos. De Piraju já tinham enviado ao Instituto exemplares de Triatoma megista Burm.
Informaram-nos que a duas léguas de Bauru existem um grande foco de barbei ros e muitos casos de bócio. No lugar denominado Pântano, município de Piratininga, a cerca de quatro léguas de Bauru, dizem os médicos dessa cidade existir o bócio em abundância e barbeiros das duas espécies mais nocivas, a Triatoma megista Burm e a T. infestans Klug. O Dr. Lutz e eu chegamos a montar a cavalo numa manhã para irmos ao Pântano, mas os animais eram tão ruins e tão lerdos, que perdemos a esperança de chegar a esse lugar no mesmo dia; por isso limitamo-nos a visitar a fazenda “Vai de Palmas,” da firma Zerrenner, Buelon & Com. É uma das mais importantes da zona e tem um milhão de pés de café, quarenta alqueires de plantações diversas e cerca de dois mil e quinhentos trabalhadores. Essa empresa tem médico e farmácia, junto à sede da administração. O estado sanitário do pessoal dessa fazenda é satisfatório. Voltamos à tardinha para Bauru, em trem da Noroeste. De Bauru até o rio Paraná viaja-se, em trens da Noroeste, durante quase dois dias, e nesse percurso existem já povoações e cidadelas bem desenvolvidas e bem habitadas. Nesse longo trecho, que muita coisa interessante deve oferecer quanto à doença de Chagas, à leishmaniose e à malária, não pudemos nos deter por motivo da partida do vapor que nos devia levar de Jupiá até Tibiriçá, e que estava marcada para o dia 20. É pena que essa viagem seja feita apenas duas vezes por mês, sendo as partidas de Jupiá nos dias 4 e 20.
Impaludismo e ancilostomíase. Na zona compreendida entre Bauru e o rio Paraná, são estas duas doenças os principais flagelos dos seus habitantes e o entrave do seu progresso imediato. No hospital de Bauru que visitamos em companhia do Dr. Castro Goyana, clínico local, encontramos diversos casos de impaludismo crónico com recaídas e outros de ancilostomíase, alguns deles bem graves. O exame coprológico de material de alguns desses doentes, feito pelo Dr. O. da Fonseca, revelou a presença de poli-helmintíase e também de alguns flagelados que muito interessaram a esse nosso companheiro de excursão. Para o hospital de Bauru vão, a cada ano, centenas de impaludados, não só desse município como também de toda a zona marginal do rio Tietê e de todo o ramal férreo da Noroeste. Nos hospitais de São Paulo a quase totalidade dos casos de impaludismo é de procedência da Noroeste, e na sua maioria apresentam crescentes no sangue periférico, indicando sofrerem de terçã maligna. Esses fatos são provas de que a E. F. Noroeste atravessa uma zona francamente palúdica.
Quando chegamos ao Porto Jupiá, no barranco do rio Paraná, o agente da estação pediu-nos para irmos ver alguns doentes de malária que estavam com febre e passando mal. Fomos imediatamente e verificamos tratar-se de casos de impaludismo crônico, com recaída. Fizemos injeções de cloridro-sulfato de quinina de Ducatte e fornecemos, em abundância, comprimidos de bissulfato do mesmo alcalóide. A esposa do agente da empresa de navegação do rio Paraná, que era a doente mais grave, resolveu acompanhar-nos até Tibiriçá para aproveitar a nossa estadia nesse porto e tomar uma série de injeções de um sal de quinina e outra de azul de metileno, tratamento associado que fazemos quase sempre nos casos crônicos de malária com repetidas recaídas, alta anemia e debilidade geral acentuada. Em Jupiá, informaram-nos existir impaludismo todo o ano, tornando-se em certas épocas muito mortífero. Não é debalde que a zona compreendida entre a estação de Itapura e o Porto Jupiá está inteiramente desabitada. Obras de saneamento nessa região são difíceis, dadas as suas condições topográficas, com dois grandes rios, o Tietê e o Paraná, que se espraiam nas suas margens, formando grandes alagadiços, eternos viveiros de culicídeos, grandes florestas que margeiam a estrada de ferro e limitado número de habitantes no extremo dessa linha férrea.
Pode-se, entretanto, aconselhar a fundação em Araçatuba, que é mais ou menos a parte média do ramal Noroeste, de um posto médico fixo destinado ao tratamento gratuito de todos os casos de malária, sem descuidar, contudo, de outras enfermidades aí endêmicas, tais como a leishmaniose e as verminoses. Depois de combater uma vasta e letífera epidemia de impaludismo no norte do Paraná, fundamos e dirigimos durante meio ano um posto antipalúdico nessa zona; vimos o quanto ele foi útil, e hoje aconselhamos que se fundem diversos desses postos em todas as regiões palúdicas do país. Desse modo, um posto antipalúdico em Araçatuba traria enormes benefícios à zona, evitando, pela cura dos casos crônicos de malária e pelo tratamento oportuno dos casos agudos, os atuais surtos endêmicos; pela aplicação científica da quinina, evitaria também a formação de raças de hematozoários quinino-resistentes e, finalmente, concorreria poderosamente para o povoamento dessa fértil zona e para o progresso agrícola consecutivo. Dá gosto apreciar as grandes plantações, já existentes de cada lado da Noroeste, no trecho que vai desde Bauru até pouco além de Araçatuba; se esse desenvolvimento agrícola não chegou ainda à barranca do rio Paraná, não é porque o terreno seja aí menos fértil, mas sim porque a malária se apresenta como um invencível obstáculo.
Dermatologia. Encontramos no hospital de Bauru quatro casos de leishmaniose cutânea, e na estação de Nogueira, quando em viagem para Araçatuba, um caso de leishmaniose da mucosa. Tratava-se de um homem de 45 anos, com o nariz completamente deformado pela leishmaniose, apresentando um aspecto feio e repugnante. Era ele o encarregado do botequim dessa estação.
O Dr. Castro Goyana informou-nos, que, às vezes, existem internados no hospital seis a dez doentes de leishmaniose tegumentar, todos vindos da Noroeste, a chamada região dos biriguis (Phlebotomus). Em Bauru propriamente não há focos de leishmaniose; os primeiros casos dessa dermatose eram procedentes do ramal Noroeste e embarcavam em Bauru com destino a São Paulo, aonde iam se tratar. Chegando à capital paulista diziam-se procedentes de Bauru, por ter sido esse o ponto de embarque, e daí veio o batismo úlcera de Bauru impropriamente à leishmaniose, denominação que está se generalizando sobremodo. Agora que conhecemos perfeitamente bem a etiologia dessa dermatose e também a sua imensa distribuição geográfica, que abrange toda ou quase toda a América do Sul, é tempo de destituí-la desse apelido de úlcera de Bauru, que dá uma noção inteiramente errónea. É preferível chamá-la de leishmaniose americana, enquanto não for identificado biologicamente o seu parasito ao do botão do Oriente, a leishmania tropica Wright, como aliás é a tendência atual. No livro que A. Laveran publicou em fins de 1917 sobre Leishmanioses, vem um pequeno estudo de compilação sobre a leishmaniose americana, o qual não está absolutamente na altura dos nossos conhecimentos atuais sobre essa doença. Laveran faria obra meritória se tivesse incumbido da redação desse importante capítulo do seu valioso tratado a um dos nossos dermatologistas, que podia ser Ad. Lindenberg ou Ed. Rabello. Lindenberg é quem até hoje tem estudado maior número de casos de leishmaniose entre nós, e Rabello, quem mais se tem interessado pela parte clínica dessa dermatose, que é de toda a América do Sul, mas que não é igualmente conhecida em todos os países sul-americanos.
Laveran serviu-se, para o estudo clínico, etiológico e anatomopatológico da leishmaniose americana, de trabalhos publicados por autores deste continente, nos quais se reconhecem hoje erros imperdoáveis. À página 471 de seu livro, diz A. Laveran:
À la suite de ces observations, une conclusion s'imposait, c'est
que l'espundia était une leishmaniose; il resulte toutefois d'une
nouvelle communication d'Escomel que sous le nom d‘espundia
on confond au Pérou comme sous celui de buba au Brésil, une
blastomycose avec la “leishmaniose ulcereuse”.
Neste ponto os doutores Laveran e Escomel estão enganados.
No Brasil não se confunde a blastomicose com a leshmaniose, e ainda muito menos a bouba com a leishmaniose. No Brasil, nós médicos chamamos de bouba a framboesia tropica, doença muito bem estudada entre nós e conhecida há dezenas de anos. A distinção científica absoluta entre blastomicose e leishmaniose também já se faz aqui há mais de dez anos.
O povo chama, porém, de bouba não só a framboesia tropica, causada pelo Treponema pertenue Castellani, mas também a sífilis, quando esta apresenta placas mucosas. No Paraguai, onde estivemos há poucos meses, verificamos que não só o povo, mas também os médicos chamam de buba a leishmaniose, e de bubaticos os respectivos portadores de lesões características. Dada essa designação de buba da leishmaniose no Paraguai, Migone pensa ser ela adotada entre nós como idêntico sentido. A prova disso encontra-se na página 211 do Bull. de la Soc. de Pathol. Exotique, de 13 de março de 1913, onde Migone, estudando a leishmaniose no Paraguai, pretende esclarecer fatos referentes a sua história e epidemiologia, citando trabalhos de autores brasileiros sobre “Framboesia tropica,” que ele confunde com a leishmaniose. Nos hospitais de Assunción, interrogando os médicos sobre a freqüência da verdadeira bouba, a Framboesia tropica, no Paraguai, todos nos responderam desconhecer essa doença. É provável que ela não seja lá muito freqüente, dada a pequena introdução de escravos africanos naquele país, verificado como está que foram eles que nos trouxeram essa dermatose. Voltaremos a esse assunto e a outros, que com ele se relacionam, quando tratarmos das nossas observações médicas feitas em Assunción.
Quanto à etiologia da leishmaniose, os estudos dos autores paulistas identificaram-na ao botão do Oriente em 1909.
Carini, Paranhos e A. Lindenberg, nos seus trabalhos publicados em 1909, referem ter encontrado uma Leishmania do tipo da Leishmania tropica.
Em 1910, A. Pedroso e Dias da Silva conseguiram isolar em ágar com sangue, meio de Mac-Neal, uma Leishmania, que os autores dizem ser a mesma Leishmania tropica, causadora do botão do Oriente. Até este ano Pedroso tem isolado muitas vezes a mesma Leishmania, sempre de fragmentos de tecido de lesões leishmanióticas em cicatrização, e continua a manter a mesma opinião há anos expedida, de que ela é a mesma Leishmania tropica de Wright. Em 1911 Gaspar Vianna, estudando material de um doente de leishmaniose de Minas Gerais, encontrou nele uma Leishmania que considerou um tanto diferente da Leishmania tropica, dando-lhe o nome Leishmania brasiliensis (Brazil-Medico, 1° de novembro de 1911). Em 1914, G. Vianna, estudando um corte de pele no nariz de um cão de Pedroso, infectado com leishmaniose, encontrou de novo a mesma Leishmania que ele designara de Leishmania brasiliensis em 1911, considerando-a então vizinha do Trypanosoma Cruzi (Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, tomo VI, p.40-2).
Em 1912, Laveran e Nattan-Larrier publicaram o resultado de estudos de cortes e frottis [esfregaços] de ulcerações cutâneas e mucosas de um caso de espundia, material enviado de Peru pelo Dr. Escomel, referindo terem encontrado uma Leishmania que lhes pareceu diferir ligeiramente da Leishmania tropica, e à qual eles propuseram o nome de L. tropica var. americana.
Escomel relata nos seus trabalhos, publicados em 1913-1914, ter encontrado três vezes, em úlceras cutâneas de leishmanióticos do Peru, uma Leishmania provida de curtos flagelos, a qual ele denominou L. americana var. flagellata. Outros autores admitem ser a leishmaniose americana causada ora pela Leishmania tropica ora pela L. brasiliensis. Isto não é provável, porque clinicamente a leishmaniose americana é idêntica em todos os países sul-americanos. Os casos, que conhecemos na Argentina e no Paraguai, em nada diferiam dos inúmeros casos que vimos e estudamos no Brasil.
O Dr. D'Utra e Silva diz ter visto no Uruguai casos de leishmaniose igual à nossa. O Dr. Guilherme Almenara, que está atualmente fazendo estudos em Manguinhos, prestou-nos idêntica informação quanto à leishmaniose do seu país, o Peru. Logo, a leishmaniose americana é uma só e mesma doença. Se o seu agente patológico não for a Leishmania tropica (o que não parece, dada a dessemelhança clínica entre a leishmaniose americana e o botão do Oriente), deve-se então conservar para esse parasito o nome de Leishmania brasiliensis Vianna 1911, por direito de propriedade. Laveran, no seu trabalho aqui citado, mostra-se favorável a admitir a existência de uma raça de Leishmania com predileção especial pelas mucosas naso-buco-faríngeas e mais virulenta que a L. tropica.
Não pensam desse modo os nossos dermatologistas que consideram o parasito da nossa leishmaniose idêntico ao parasito do botão do Oriente, a leishmaniose tropica Wright, e assim esperam dentro de breve tempo, talvez antes mesmo de verificado o modo de transmissão da leishmaniose, ver este capítulo da dermatologia moderna muito simplificado pela identificação de moléstias apresentando grosseira dessemelhança morfológica entre si, mas produzidas por um mesmo agente patogênico que existe nas diversas partes do globo. Em conversa, há poucos dias, com o professor Ed. Rabello, juntamente com o Dr. Almenara, verificamos ser essa a opinião desses distintos colegas. Não pensam, porém, do mesmo modo os protozoologistas que, para a distinção das espécies de Trypanosoma, não se baseiam simplesmente na sua morfologia. O jovem protozoologista Dr. O. da Fonseca filho, nosso companheiro de viagem ao Paraguai, ouvindo sobre isso, respondeu-nos, por escrito, o seguinte:
O gênero Leishmania apresenta com o gênero Trypanosoma tais conexões sob o ponto de vista de sua posição zoológica, que não é possível distinguir uma forma aflagelada deste último de uma forma típica daquele. Se não adotamos em protozoologia, salvo a opinião isolada de Alexeieff, os caracteres morfológicos como único critério distintivo entre as diversas espécies de Trypanosoma, muito lógico nos parece que a identidade morfológica das formas americanas e asiática de Leishmania não seja um argumento sólido para se concluir pela sua identidade especifica.
Quanto à Lepra, vimos no hospital de Bauru um caso clássico de lepra mutilante, do qual juntamos uma fotografia. Esse doente estava sujeito a um tratamento antisifilítico. Informaram-nos que existem outros casos de lepra no município de Bauru e redondezas. Há pouco tempo estiveram também em tratamento no hospital dois doentes de granuloma venéreo da forma hipertrófica, com lesões nos órgãos genitais e regiões vizinhas. Foram ambos curados com injeções de tártaro emético. Casos de úlcera tropical, devidos à associação fuso-espirilar de Vincent, são, em certas épocas do ano, muito comuns em toda a zona. Quando lá estivemos vimos apenas um caso no hospital. Nas fazendas dos arredores e de todo o município de Bauru existem muitos casos de úlceras banais, quase sempre devidas a mordeduras de insetos ou vários traumatismos; só se cicatrizam com grande dificuldade, por causa do estado de anemia desses indivíduos que são quase sempre portadores de poli-helmintíase. A sífilis, a blenorragia etc. são também comuns nessa região.
Outras doenças: Em Bauru não são muito raros os casos de tracoma, de disenteria amébica, de febre tifóide etc.
2. Alto Paraná
Três Lagoas. Esta cidade de Mato Grosso está a cerca de dez quilômetros da barranca do rio Paraná, numa altitude de 250 metros. Foi este o nosso segundo ponto de parada. O lugar é novo e de muito movimento comercial. Há muitos trabalhadores, empregados na construção da grande ponte metálica sobre o Paraná. A cidade fica numa planície e, quando lá chegamos, estava alagada por grandes chuvas e parecia ter mil lagoas. Logo que chegamos ao Hotel dos Viajantes, onde nos hospedamos, indagamos se havia barbeiros e responderam-nos que havia muitos no próprio hotel e dependências, sobretudo nos galinheiros. A casa era de tijolos, pelo menos a parte onde estávamos alojados, mas tomamos algumas medidas de defesa porque a casa não tinha forro. Quando jantávamos, à noite, percebemos a presença de mosquitos que, pelo modo de picar, suspeitamos ser Stegomyia. Na manhã seguinte, 20 de janeiro, conseguimos, nas próprias dependências do hotel, uma boa coleção de barbeiros da espécie Triatoma sordida Stal e outra de Stegomiya calopus Meigen.
Estávamos, portanto, em presença de um transmissor da doença de Chagas, como provou à saciedade o Dr. A. Neiva, infectando uma cobaia em oito dias, pela deposição na conjuntiva desse animal de fezes dessa espécie contendo Trypanosoma cruzi (Brazil-Medico de agosto de 1913).
À página 120 do fasc. III, tomo VIII, ano 1910 das Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, o Dr. Neiva refere só ter encontrado a Triatoma sordida junto ou próximo a curso de águas. Eis aqui um grande foco de Triatoma sordida em lugar cercado de lagoas e próximo a um grande curso d’água, o rio Paraná. Neiva supõe no mesmo trabalho que acabamos de citar que, para os barbeiros se infectarem, a condição indispensável é a presença d’água, e que essa relação parece ser uma condição mesológica exigida pelo Trypanosoma cruzi. O grande foco de barbeiros (Triatoma megista Burm), que descobrimos no norte do estado do Paraná (abril de 1917) está espalhado pelas duas velhas aldeias, Jataí e São Pedro d'Alcântara, situadas nas margens do rio Tibagi. Nessas duas velhas colônias militares, do tempo do Império, só encontramos Triatoma megista e, como de regra, em grande abundância, em todas as velhas casas com paredes de barro (chamadas paredes francesas), habitadas ou não.
Em toda aquela região do município do Tibagi existe o bócio em quase todas as casas. Infelizmente, o lote de barbeiros que nessa ocasião enviamos ao Instituto não chegou em condições de se verificar se havia exemplares infectados. Pretendemos visitar de novo essa zona. Ainda em viagem de estudos pelo Sul (prolongamento da expedição ao Alto Paraná), pudemos estudar diversos exemplares de Triatoma infestans Klug de Uruguaiana, Rio Grande do Sul. Esse município é banhado pelo rio Uruguai e abunda em barbeiros dessa espécie, conforme nos informou o Dr. Francisco Orcy, de quem esperamos a remessa de maior número de exemplares, para verificar se estão ou não infectados. O bócio também é comum nessa região. Em Porto Alegre examinamos um exemplar de Triatoma infestans, procedente de São Sepé e infectado com Trypanosoma cruzi. Em Três Lagoas procuramos o Dr. Jorge da Cunha, clínico nesse lugar há alguns anos, e ele nos prestou algumas informações sobre diversos assuntos médicos. O Dr. Cunha confirmou o que todo mundo nos asseverou, quanto à grande abundância de barbeiros. Refere também o Dr. Cunha ter visto em Três Lagoas uma família vinda de Corumbá, cujos membros estavam sofrendo da doença de Chagas; ele tem verificado em sua clínica alguns casos de papeira, sobretudo entre os sírios; esses papos ele tem curado, logo nos primeiros tempos, com aplicações de tintura de iodo.
O Dr. Cunha informou-nos que, em Três Lagoas, as moléstias predominantes são também o impaludismo e a ancilostomíase. No último verão houve casos de malária na própria cidade, mas na sua maioria eles vêm da barranca do rio Paraná e do ramal da Noroeste do Brasil, como também os casos de leishmaniose que tem tratado. Quanto ao resto, não interessa.
Porto Tibiriçá (São Paulo). Este porto, que fica na margem esquerda do Paraná, está situado defronte do rio Pardo, e numa altitude de 270 metros acima do nível do mar. Tibiriçá fica a 22 léguas de Indiana, última estação de Sorocabana; é a sede da Companhia de Navegação São Paulo-Mato Grosso. Contam-se aí pouco mais de vinte habitações, quase todas de madeira, um armazém, um hotel e uma pequena farmácia, tudo pertencente à referida empresa. Tibiriçá tem água encanada em todas as casas ou na proximidade delas. Essa água é obtida de um poço de nascente na margem do Paraná, de onde é aspirada por meio de bomba a vapor e levada a quatro reservatórios, de mil litros cada um, donde se faz a distribuição às habitações. A distribuição é contínua e o gasto diário parece não exceder 5 mil litros. A água fornecida à população de Tibiriçá é melhor que todas as águas existentes nas povoações que lhe ficam acima.
Em Tibiriçá havia em fevereiro 98 habitantes, sendo 56 homens, 16 mulheres e 26 crianças. A empresa proíbe o uso do álcool a todos os habitantes desse simpático reduto. Esta alta medida social e econômica devia ser adotada em todas as empresas rurais, porque de todos os vícios, o que maiores males produz aos nossos sertanejos é o alcoolismo.
Estado sanitário. Pelos exames clínicos e hematológicos que fizemos em Porto Tibiriçá e pelo exame do baço de muitas crianças, verificamos ser bastante elevado o índice endêmico palustre nesse lugar, que calculamos em 40 por cento de toda a população; anos há, conforme informou-nos o farmacêutico da empresa, que essa porcentagem vai muito além.
Tratamos durante os cinco dias que lá nos demoramos 38 doentes, na sua maioria de malária, alguns de ancilostomíase e outros banais, incluindo dois de sífilis e um de mal-de-engasgo, cuja observação vai mais adiante. Os casos agudos de impaludismo eram todos entre os trabalhadores, em cujo rancho capturamos diversas anofelinas do gênero Cellia, predominando a C. albimana Wied. Fizemos muitos exames de sangue, encontrando algumas vezes o parasito da terçã maligna, Plasmodium falciparum Schaudinn, e muitas o hematozoário da terçã benigna, P. vivaz Grassi & Feletti; nunca observamos o parasito da febre quartã.
Aconselhamos ao gerente do porto, Sr. Ovídio Braga, a execução de diversas medidas, a fim de evitar epidemias de malária em um lugar tão bem situado e dispondo de uma farmácia, um prático e outros recursos importantes. O rancho em que residem os trabalhadores das oficinas e dos campos é miserável em todos os sentidos. Quanto às outras habitações, elas são bem sofríveis. Não havia em Tibiriçá nenhum caso de bócio, nem de lepra, leishmaniose ou qualquer outra úlcera. Não havia lá nem barbeiros, nem Phlebotomus. No dia 22 de janeiro, primeiro da parada em Tibiriçá, logo de manhã apareceu para consulta um doente de malde engasgo ou disfagia espasmódica. Era ele o primeiro enfermo que nos procurava, natural da Bahia, com 28 anos, residindo há oito no estado de São Paulo. Como antecedentes pessoais refere ter tido diversas moléstias de infância e, em moço, blenorragia e cancros moles, acompanhados de adenites. Teve impaludismo repetidas vezes.
Apresentava diversas cicatrizes nas pernas, estava em estado de grande anemia, sofria tonteiras, perturbações visuais e não podia se alimentar.