Adolpho Lutz: entomologia

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 68 de 70 · parte 2/2

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Adolpho Lutz: entomologia

Coleta, preparação, análise e determinação dos insetos importantes para a higiene

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

mosca e examinar culturas de forma bem livre (Fig. 11).

Podem-se conseguir larvas de bromélias ou de pedaços de bambu despejando seu conteúdo em tigelas ou panos de borracha, lavando-as em baldes com água ou bombeando-as com

instrumentos apropriados semelhantes a um sifão (Fig. 12). Elas podem ser cultivadas em qualquer água. Para transportar quantidades maiores de larvas, os recipientes mais apropriados são os vasilhames metálicos para leite. Os melhores exemplares devem ser isolados o mais rápido possível para que não sejam comidos por outros. As larvas de Megarhinus, Lutzia e Psorophora são não apenas predadoras como também canibais.

Os mosquitos caseiros se desenvolvem muito rapidamente e, em clima quente, necessitam de no máximo duas semanas para uma geração; o desenvolvimento de outros mosquitos é mais lento e pode se estender por vários meses em caso de baixas temperaturas e de falta de alimentação.

Fig. 11 Tenda de mosquitos e aparelhos de coleta. Utilização do

tubo de aspiração. Foto original que deu origem à figura impressa.

BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa iconografia.

Fig. 12 Sugador de bromélias. Espessura do tubo superior cerca de

2 cm.

As larvas de Mansonia e Taeniorhynchus ficam destruídas se não puderem fixar-se próximo à superfície; para isso bastam alguns fios de algodão, que podem ser espalhados nos tubos de cultivo. Elas vivem em águas onde flutuam Pistia stratiotes, pequenos fetos ou lentilhas d'água, em cujas raízes podem se fixar, retirando, porém, o ar dos espaços aéreos. (O Miriaphyllum também pode ser usado

para a cultura.) 12 13 Outras espécies fitófilas só são encontradas enquanto larvas nas bainhas das folhas submersas de espécies da Typha, outras, em terra firme, nas axilas das folhas de eriocauláceas ou nos jarros das sarracênias e nepentáceas. Algumas larvas costumam viver na água de troncos ocos de árvores.

 

Ceratopogonídeos que picam e sugam sangue

Eis que me dirijo aos ceratopogonídeos, que formam uma subfamília dos quironomídeos muito próxima aos culicídeos. Eles têm uma curta tromba pontuda, que só serve para sugar sangue no caso de alguns gêneros. Estes podem ser identificados por possuírem todas as partes da boca, ao passo que outros, que em parte sugam insetos, não possuem nem ao menos as mandíbulas. Eles são extremamente incômodos em diversos lugares por causa de suas picadas doloridas, porém não há nenhum fato que comprove seu papel de transmissor de enfermidades. Os machos desses hematófagos se distinguem facilmente pelos pêlos na base das antenas e pela tenaz aderente na extremidade traseira. Os primeiros estágios geralmente podem ser encontrados em água do mar tranqüila ou em água doce parada. No entanto, algumas espécies se adaptam a plantas e vivem em seiva, em espécies aqüíferas de bambu ou em cavidades de árvores repletas de água de chuva. Os ovos são alongados e capazes de nadar; as ninfas se locomovem menos. As larvas, pelo que se sabe, são muito finas, similares aos nematódeos e difíceis de serem notadas porque fogem da luz e raramente vêm à superfície. A imago eclode das ninfas encalhadas ou que flutuam na superfície, que são mais delgadas que as dos culicídeos. O comprimento do corpo das imagos oscila entre 1 e 2 mm.

Para a determinação dos gêneros vale a seguinte chave:

1. Asas sem manchas

…………………………………………………………. 2

Asas manchadas, em parte hialinas, em parte escuras, em

algumas partes com pêlos mais compridos ………………………

Culicoides Latr.

2. Asas hialinas

…………………………………………………………………. 3

Asas com pêlos longos e em grande quantidade ………..

Cotocrypus Brethes

3. Fêmeas sem oviscapto; antenas típicas; sem

empódio…………………………………………………………..

Johannseniella Will.

Fêmeas com oviscapto; antenas atípicas; empódio nítido

………………………………………………………………. Tersesthes Townsend

Da maior importância é o gênero Culicoides, em geral associado por autores alemães aos ceratopogonídeos, o que sem dúvida está

correto. 14 Ele contém inúmeras espécies, entre elas várias que vivem na água do mar, sobretudo em manguezais. A mais importante delas parece ser a C. maruim Lutz, que é extremamente ávida por sangue e pica os animais mais variados. Cotocrypus Brethes (= Centrotypus Lutz) contém algumas espécies incômodas que se encontram no interior como as dos outros gêneros. Johannseniella Williston é sinônimo de Ceratolophus Kieffer e Tersesthes de Mycterotypus. O número de espécies dos últimos gêneros é pequeno; mas elas também existem na Europa.

Ovos e pupas das espécies marítimas são muito difíceis de encontrar; é mais fácil encontrar as pupas e, sobretudo, as peles vazias na espuma da água do mar perto da margem.

 

Fig. 13: a – ovos; b – larva; c – pupa; d – imago de espécies

culicóides (ampliado).

As fêmeas, únicas a picar, atacam em número tão grande e de forma tão enérgica que os coletores mal podem se defender. O mais fácil é tocá-las de leve com um pincel embebido em álcool, que deve ser enxaguado de vez em quando num vidro com o mesmo líquido. Para tanto, deixase somente a mão esquerda livre e cobre-se o resto do corpo; o rosto pode ser protegido com fumaça. Exemplares vivos podem ser obtidos, com o tubo de sucção, na pele ou em vidros de janelas, onde elas são vistas com freqüência de manhã cedo. Elas gostam de pousar em cavalos, mas é difícil identificá-las sobre eles. Grandes quantidades são encontradas, em diversos lugares, em estábulos. Lá e em casas ou nos locais de incubação, armadilhas luminosas fornecem machos e fêmeas. As espécies picam de dia, mas também são ativas ao anoitecer e muito atraídas por fontes de luz de média luminosidade. Como não zumbem, em geral são notadas somente quando picam. As picadas provocam inicialmente uma reação de longa duração; depois inicia-se em parte a imunização, de modo que a reação logo desaparece.

 

Fig. 14 Fêmea de Tersesthes brasiliensis Lutz (ampliada).

 

Mosquitos hematófagos do gênero Simulium

Os simuliídeos têm hábitos similares, mas vão pouco para a luz; porém, eles são facilmente capturados em cavalos, onde cada espécie procura uma parte diferente. Muitas espécies não picam o homem ou só o fazem excepcionalmente, ao passo que algumas fazem parte dos seres mais incômodos porque suas picadas provocam uma reação muito forte. Os mosquitos passam facilmente despercebidos quando surgem sozinhos. Eles geralmente não existem em regiões planas, ao passo que em regiões montanhosas muitas espécies são encontradas com freqüência. Eles têm de 1 a 3 mm, mais raramente até 5 mm de comprimento, são um pouco mais corpulentos e maiores que os “punkies”. Seu abdome é extremamente elástico e quando está cheio de sangue parece um pequeno fruto.

Só existe um gênero, o Simulium (ou Simulia); a divisão em dois subgêneros, Eusimulium e Prosimulium, não me parece viável. O tipo é muito homogêneo, apesar de algumas espécies apresentarem tons amarelo-alaranjados ou vermelhos e outras serem mais pretas. As imagos possuem inúmeros pêlos ou escamas de cor dourada ou prateada e manchas cor de madrepérola muito ornamentais. Os machos são belos, mas essa beleza só é realmente notada quando eles são ampliados. As pernas em geral apresentam partes claras, amarelo-esbranquiçadas. As espécies se distinguem pela cor e pelo tamanho, assim como pelas colorações ornamentais (manchas e faixas cor de madrepérola) e pela presença de escamas onde costuma haver apenas pêlos. Mesmo quando os exemplares estão bem conservados, a distinção das inúmeras espécies é bem difícil. (Só no Brasil conheço mais de trinta espécies.) A distinção das ninfas é muito mais fácil e segura, pois o tecido, a formação pilosa e os tubos respiratórios são bem característicos.

 

Fig. 15 Simulium meridionale: larva vista de lado (ampliada).

Fig. 16 Simulium meridionale: a) Tecido;b) Pupa. Segundo Riley

(ampliada).

 

Fig. 17 Simulium rubrithorax: larvas.Pupas e tecidos; estas

formando relvas.

Fig. 18 Pupa de Simulium clavigerum Lutz (ampliada).

 

Fig. 19 Simulium piscicidium: larva e pupa. De Osborn, em American

entomologist (ampliadas).

Os machos são holópticos, ou seja, seus grandes olhos encontram-se na linha mediana e, além disso, são divididos em duas partes, de cores diferentes, das quais a superior apresenta facetas maiores. Não possuem ocelos. As antenas são constituídas por artículos curtos e grossos e são iguais em ambos os sexos; o mesmo vale para os palpos, que apresentam quatro membros mais compridos, dos quais os últimos dois são anelados. A tromba é curta e, em ambos os sexos, é formada por sete partes. O tórax é grosso; os eixos da cabeça e do abdome encontram-se, ali mesmo, num ângulo obtuso, aberto para baixo, o que lhes dá uma aparência um pouco corcunda. Muitas vezes o escudo é estriado, às vezes possui manchas ou bordas cor de madrepérola e sempre apresenta um tomento bem fraco. O abdome tem o formato de um cilindro, às vezes possui anéis claros e, no caso do macho, com apêndices genitais pouco desenvolvidos. As pernas são bastante curtas e grossas, principalmente as coxas e a última tíbia, e em geral são constituídas por trechos claros e escuros. As garras são simples ou dentadas nas fêmeas, no macho são sempre em forma de tridente. As asas são hialinas, curtas e largas, com veias discretas.

A melhor forma de obter os machos é mediante seu cultivo.

Os ovos são subelípticos; primeiramente são brancos, mas, em pouco tempo, começam a enegrecer e permanecem sempre reunidos em massas planas, que são depositadas rente ao espelho d'água em pedras ou em partes de plantas.

As larvas são facilmente encontradas quando se conhecem seus hábitos; elas só vivem em água corrente, sobretudo em pequenas ou grandes quedas d'água de riachos e rios; algumas espécies encontram-se, sobre lajes de pedras nesses locais, unificadas numa espécie de relva; a maioria delas, porém, só consegue se ancorar em partes vegetais. Onde tais partes são banhadas pela água corrente ou nela crescem, são encontradas facilmente colônias de larvas ou pupas. As primeiras distinguem-se muito pouco e dificilmente podem ser cultivadas; porém, guardandose as ninfas maduras em câmara úmida, podem-se obter facilmente machos e fêmeas, enquanto o tecido e a pele das pupas que restaram facilitam a determinação.

As larvas são encefalóides e aproximadamente cilíndricas, um pouco grossas no meio e bem mais grossas na metade inferior. Na extremidade da cabeça encontrase um único coto de pé grosso, cuja superfície final, munida de uma coroa com borda de quitina, funciona como uma ventosa. Um outro órgão aderente similar, situado na extremidade posterior, permite que a larva se arraste, por meio de movimentos semelhantes aos do tensor. Além disso, por meio das glândulas salivares muito desenvolvidas, ela consegue tecer um fio que a ancora até que ela encontre um ponto adequado ao qual se fixa com a extremidade posterior, enquanto o corpo ereto resiste, apesar das incessantes vibrações das fortíssimas correntezas. Na extremidade da cabeça se encontram cerdas que auxiliam a boca na assimilação do alimento; este consiste em pequenos organismos e detritos animais e vegetais. Na cápsula da cabeça há duas manchas ocelares de cada lado; as partes da boca são similares às das outras larvas aquáticas. Além da pele, existe para a respiração, na extremidade posterior, um órgão branquial ramificado. Essa brânquia vascularizada pode se retrair no

intestino. 15

Antes de empupar, a larva tece um casulo de malha grossa e espiralada, de cor amarela, amarronzada ou negra, na qual a ninfa, com a forma correspondente, encontra-se como que encaixada. Esta possui tubos branquiais em ambos os lados, quase sempre com pelo menos quatro ramos perpendiculares. O número final é constante e geralmente par, entre 4 e 14, em casos isolados muito maior. Sua forma e ramificação são suficientes, na maioria dos casos, para determinar a espécie de maneira rápida e segura.

O desenvolvimento é muito rápido e nos trópicos são encontrados todos os estágios evolutivos e várias gerações durante o ano todo, quando as condições hídricas o permitem. Para a criação devem ser utilizadas somente as pupas, sobretudo as que estão quase maduras, de coloração negra. No caso de algumas espécies, as imagos conseguem sair do casulo debaixo d'água, porém a grande maioria precisa esperar até que o espelho d'água abaixe o suficiente para revelar as pupas. No caso destas, o surgimento da forma alada é influenciado pelas estações do ano.

Por enquanto, Os simuliídeos não são conhecidos como transmissores de enfermidades. No caso da lepra, que certamente é transmitida por insetos, muito provavelmente pelos culicídeos, eles podem, na melhor das hipóteses, desempenhar apenas um papel secundário, porque são completamente inexistentes nos principais focos, como o Havaí. Parece-me menos provável ainda que desempenhem algum papel na transmissão da pelagra. Eles devem, antes, ser importantes na propagação de zoonoses.

 

Psicodídeos hematófagos do gênero flebótomo

As espécies de flebótomo têm um significado bem diferente para a patologia humana, embora elas não pertençam aos grupos mais disseminados e especialmente nas regiões mais frias quase não existam. Nas regiões mais quentes, todavia, elas têm uma disseminação que não deve ser subestimada e algumas das espécies pouco conhecidas parecem ter se adaptado até mesmo às aglomerações humanas. Essas, naturalmente, têm especial importância para as enfermidades que também reinam em cidades.

Os mosquitos do gênero flebótomo lembram os culicídeos por causa de seu corpo fino e de suas pernas longas, porém se distinguem imediatamente pelas asas largas e elípticas e pelo pequeno tamanho, que oscila entre 1,5 e 2,5 mm. Sua coloração vai do branco-nata ao amarelo-feno, mas pode tornar-se negra em exemplares que tenham sugado muito sangue, o que pode levar à equivocada criação de uma nova espécie. O eixo do corpo é muito curvado, como no caso dos simuliídeos; os pêlos e escamas abundantes, porém muito fracos, dão aos mosquitos uma identidade especial. Especialmente as bordas das asas e o lado superior do corpo e, não raro, a extremidade da cauda são marcados por longas franjas pilosas.

A cabeça é pequena e alongada, os olhos e a tromba razoavelmente grandes. Bem longas, ao contrário, são as antenas, constituídas por artículos uniformemente alongados e excessivamente pilosos, iguais em ambos os sexos. Os palpos possuem quatro artículos que são longos ou muito longos, sendo os dois últimos anelados. As proporções absolutas e relativas do tamanho deles formam o melhor traço para se diferenciar as fêmeas das diferentes espécies, que, no mais, são muito parecidas.

O corpo é bastante alto, mas muito comprimido lateralmente; as pernas fracas apresentam, em seus longos segmentos, inúmeras escamas e fracos espinhos, na extremidade, garras curtas e quase retas, que não possuem um empódio nítido.

As partes da boca da fêmea são completas e preparadas para picar; o macho não tem mandíbulas. Este também é menor e mais frágil e se distingue principalmente pelos complexos apêndices genitais, que são diferentes em cada espécie em termos de forma e tamanho, sendo muito importantes para a distinção.

O pouco que se conhece sobre o desenvolvimento data do trabalho de Grassi. Os ovos alongados e pretos não são grandes e são depositados numa quantidade mediana. As larvas são terrestres, anfipneustas e encefalóides; no mais, são similares às larvas das moscas, com sete pés aparentes não emparelhados; especialmente características são algumas cerdas mais longas na extremidade posterior. As pupas são similares às dos ceratopogonídeos e geralmente carregam na extremidade posterior a pele da larva removida.

As larvas vivem bem escondidas no lixo, em brechas de muros, entre pedras e aparentemente também livres na terra. Tendo em vista os hábitos de outros psicodídeos, é provável que seja apropriado misturar estes últimos com um pouco de adubo ao criá-los.

Fig. 20 Phlebotomus pappatasi; larva jovem.Segundo

Grassi(ampliada).

 

Fig. 21 Phlebotomus pappatasi. Larva adulta. Segundo Grassi.

Os locais de incubação podem ser identificados com o uso de dispositivos em forma de tendas, com os quais se cubra o chão, ou com o aparelho que eu usei para as espécies culicóides marítimas. Ele se constitui de caixotes ou cubas virados de cabeça para baixo e vedados, em cuja parte superior corta-se um orifício. Este é então coberto com uma das conhecidas campânulas para mosquitos, as quais possuem um sulco em seu interior, que se enche com um líquido conservante. Assim obtêm-se machos e fêmeas em perfeito estado. Ambos são também atraídos pela luz, sendo facilmente capturados vivos com um pano iluminado ou por meio de armadilha luminosa. Consegui provar a existência de inúmeros flebótomos num local que eu mesmo não podia visitar, colocando ali durante a noite uma armadilha com lanterna de petróleo.

As fêmeas picam de dia na floresta, mas, nas casas, sobretudo de tarde e à noite. Algumas espécies também podem ser encontradas ali de dia, porém não são fáceis de capturar. A maioria foge. O fato de picarem e sugarem sangue repetidamente e por um tempo prolongado prova seu papel como transmissoras de doenças no

caso da febre de Pappataci e da leishmaniose.16

Para a determinação das espécies indico a literatura.

 

Moscas hematófagas da família dos tabanídeos

Passemos agora aos braquíceros, ou moscas hematófagas, e falemos, em primeira linha, sobre os tabanídeos (mutucas), cujo número de espécies é maior que o de todos os outros insetos hematófagos juntos, e que não são completamente inexistentes em nenhum lugar, embora dirijam seus ataques mais aos cavalos e ao gado do que ao ser humano. Eles se distinguem pelas seguintes características:

Moscas de tamanho grande ou médio com tromba longa ou

grossa que, no caso da fêmea, contém todas as partes da boca.

As antenas possuem 3 artículos, dos quais o terminal apresenta

diversos segmentos. Os palpos possuem 2 artículos. Os olhos

são grandes, no macho eles se encontram e, na maior parte

das vezes, possuem dois trechos nitidamente distintos. As asas

têm, antes da célula anal, 5 células marginais posteriores, das

quais a primeira pode ser fechada na borda ou antes dela. As

tíbias centrais possuem esporas, às vezes as posteriores

também.

Eu divido a família dos tabanídeos em dois setores (não famílias), como já foi feito anteriormente. Os que possuem esporas nas tíbias posteriores eu denomino Opisthacanthae, os que não as possuem, Opisthanoplae; para ambos dou as seguintes chaves:

Opisthacanthae:

1. Último artículo da antena com 8 segmentos. Olhos sem

desenho………………………………………………………………

………………….. 2

O mesmo, com 5 segmentos. Olhos com desenho

………………….. 3

2. Face inferior em forma de cone …………………………….

Pangoninae

Face inferior redonda ………………………………………

Esenbeckiinae

3. Olhos com faixas meândricas, asas com desenhos escuros,

calosidade da testa larga, antenas longas. Face calosa

………………. Chrysopinae

Desenho dos olhos composto de pontos ………………………

Silviinae

Os Silviinae são compostos pelo gênero Silvius, com poucas espécies sem nenhum significado, que têm a mesma aparência dos tabanídeos. Os Chrysopinae englobam apenas o gênero Chrysops, bastante homogêneo, porém muito rico em espécies. As espécies são todas pequenas, no máximo médias, e têm uma aparência característica. Elas são muito ávidas de sangue, não poupam os seres humanos e atacam de dia.

Os Pangoninae têm um hábito bastante característico, um pouco grosseiro. O abdome é grosso próximo à base, às vezes alongado, mas na maior parte das vezes é curto, largo e bem curvado. A tromba costuma ser longa e esticada para frente; o artículo terminal do palpo é lanceolado. Os Esenbeckiinae possuem sempre um corpo alongado, a tromba nunca é longa, os olhos não têm pêlos, o segundo artículo do palpo tem forma de bainha de sabre, a terceira veia longitudinal apresenta um apêndice e a primeira célula marginal posterior é fechada. O gênero, que no momento é único, parece restrito à América.

Fig. 22 Chrysops univittatus. De Osborn (ampliada).

 

Fig. 23 Tabanus atratus: a) Larva; b) Pupa; c) Imago. Segundo Riley

Ambas as famílias são importantes porque várias espécies atacam os seres humanos. Elas preferem voar ao anoitecer.

Opisthanoplae:

Terceiro artículo da antena com 5 segmentos. Olhos sem faixas

onduladas………………………………………………. Tabaninae

O mesmo, com 4 segmentos. Olhos com faixas

onduladas……………………………………………………………

…. Haematopotinae

Da mesma forma, mas com faixas retas; segmentos bem

apertados……………………………………………………….

Hexatoma

Os Haematopotinae são compostos pelo gênero Haematopota

( 17 Chrysozona ), muito característico, que se restringe ao Velho Mundo. Ele pode ser identificado pelo desenho das asas, altamente complexo e com pequenas manchas, pela calosidade transversal da testa, muito larga e com um ponto de cada lado em sua parte posterior. As antenas são semelhantes às dos crisopídeos, com os quais esta família se parece. As asas em repouso ficam apoiadas no abdome como um telhado. A julgar pelos representantes europeus, essas moscas são extremamente ávidas de sangue; elas também preferem atacar os seres humanos de dia. Hexatoma só tem uma espécie européia, mas mesmo assim precisa ser elevado à categoria de subfamília.

Os tabanídeos englobam, além do enorme gênero Tabanus, uma série de gêneros já divididos. O gênero Tabanus, com muito mais de mil espécies, precisa continuar a ser subdividido. Eu tentei fazer esta experiência ocupando-me do Brasil, o que foi tanto mais fácil porque certa quantidade de grupos é própria da América mais quente. Em primeiro lugar, eu divido os tabaninos, segundo o artículo final das antenas forcado ou simples, em dois grupos paralelos: Schistocerae e Haplocerae, que então se subdividem mais de acordo com o desenho dos olhos e outras características.

Para a patologia são consideradas apenas poucas espécies, as quais picam os seres humanos regularmente; outras só o fazem excepcionalmente. Um número muito pequeno parece nem sugar sangue.

Dos tabanídeos eu separei as subfamílias Diachlorinae e Selasominae, que, em alguns aspectos, lembram os Chrysops e possuem desenhos dos olhos muito característicos. As fêmeas dos verdadeiros tabanídeos possuem olhos monocromáticos ou que só possuem faixas retas.

Para a coleta de tabanídeos deve-se considerar: a captura em animais, em vidros de janelas, ao ar livre (voando), em flores e fluxos de seiva e a sua cultura.

Os animais mais apropriados para a captura são, em primeiro lugar, os cavalos, as mulas e os asnos, e em segundo, os bovinos, que aparentemente são atacados por todas as espécies hematófagas, enquanto os porcos parecem atrair principalmente os pangoninos. Cachorros e pequenos ruminantes são muito menos procurados, exceto por espécies pouco seletivas. De forma regular o ser humano é picado apenas por poucas espécies, embora ocasionalmente seja picado pela maioria delas. As outras só o circundam em enxames ou pousam sobre seus chapéus ou roupas. A transmissão de parasitas do ser humano fica, portanto, restrita a determinadas espécies. é muito fácil que ocorra a transmissão, de forma mecânica, de zoonoses, como o antraz, ocasionalmente também para o ser humano.

A melhor forma de capturar mutucas consiste em amarrar um cavalo manso em lugares apropriados; desta forma também se consegue capturar uma infinidade de outros dípteros hematófagos. Nas zonas quentes, as regiões montanhosas florestais e as baixadas pantanosas são especialmente abundantes. Onde ambas se encontram, o número de espécies e, às vezes, também de indivíduos é maior. De dia deve-se dar preferência às áreas sombreadas, à medida que vai escurecendo as espécies lucífugas também começam a voar ao ar livre. Estas passam facilmente despercebidas, especialmente quando pousam somente na barriga de cavalos. As melhores horas são no final da tarde, e a captura deve se estender até a noite.

Fig. 24 Selasoma tibiale (F.)(ampliada).

 

Fig. 25 Diachlorus distinctus Lutz ♀ (ampliada).

Captura-se com a mão, com um vidro ou com uma rede de dimensões moderadas e de cor pouco marcante, para não assustar os cavalos; em caso de cavalos inquietos é conveniente cobrir seus olhos. A rede, aliás, só é mesmo necessária para as espécies ariscas; estas também são mais facilmente capturadas quando começam a picar.

As mutucas conseguem suportar, sem sofrer, um golpe leve que as atordoa momentaneamente; porém, elas perdem valor se forem esmagadas demais.

Os machos só muito excepcionalmente são capturados com o uso desse método; por isso são muito mais raros em coleções e, com freqüência, completamente desconhecidos. A maneira mais fácil de capturá-los é em janelas fechadas, quando voam para dentro de ambientes onde as janelas estejam fechadas; às vezes eles podem ser encontrados em muros e cercas ou sobre folhas. A captura em flores e fluxos de seiva parece ser produtiva em alguns lugares; em outros lugares não se consegue nada. Notando-se a presença de tabanídeos que, como os sirfídeos, permaneçam no ar num mesmo lugar durante muito tempo, sabe-se que se trata de machos. Algumas espécies (Neotabanus) permanecem muito próximas ao solo, enquanto outras flutuam no alto, tornando necessário o uso de redes em varas longas. Quando são espantadas, costumam retornar ao mesmo lugar.

A cultura de tabanídeos é difícil porque as larvas vivem muito escondidas e raramente são encontradas. Elas têm uma forma típica de larva de inseto com inúmeros pés aparentes. O integumento é resistente, porém tão transparente que se consegue identificar se o canal do intestino está cheio ou vazio. Algumas espécies podem ser obtidas se lavarmos a terra que fica ao lado e sob acúmulos de água numa peneira. As larvas encontradas, segundo os dados dos autores, podem ser alimentadas com minhocas ou caracóis marinhos, que são sugados por elas. Eu obtive ótimos resultados principalmente com minhocas da família Tubifex; as larvas de quironomídeos também parecem apropriadas. Embora as larvas dos tabanídeos possam viver na água durante certo tempo, esta não é seu elemento, e algumas espécies parecem viver integralmente no húmus e na terra das florestas. Para a cultura, é apropriado colocá-las com musgo úmido, no qual os animais que lhes servem de alimento se conservam bem, em pequenos tubos de vidro, através dos quais elas podem ser bem

observadas.18 Ao sugar as minhocas, o canal do intestino se enche de uma massa vermelha, cuja digestão leva vários dias. Antes de mudar de pele ou de empupar a larva se contrai muito; ao morrer ela se estica toda. A pupa quase não se move antes da imago sair, porém consegue empurrar-se para frente. Larvas e pupas maduras procuram a luz, enquanto as larvas imaturas se desenvolvem melhor no escuro.

Os muscídeos e seu papel como transmissores

de enfermidades

Dos tabanídeos passemos, então, aos muscídeos, cujo tipo pode ser considerado a mosca caseira. Com exceção dos glossinos, as espécies hematófagas possuem um hábito semelhante, mas podem ser um pouco maiores ou menores. As asas, sem manchas, são razoavelmente longas e, quando em repouso, ficam um pouco abertas, ou são compridas e, em repouso, ficam cruzadas; elas apresentam poucas veias longitudinais, que desembocam na borda posterior. O terceiro artículo da antena não é anelado e tem uma cerda na base. A tromba apresenta apenas as partes desemparelhadas, que participam todas da picada, já que os labelos do lábio são providos de dentes. Os atos de picar e sugar sangue são desempenhados por ambos os sexos. As espécies hematófagas apresentam pequenas escamas sobre os halteres; elas compreendem um gênero bastante invulgar e dois grupos com gêneros muito semelhantes entre si. Eles se distinguem da seguinte maneira:

1. Palpos não tão longos quanto a tromba

……………………………….. 2

Palpos tão longos quanto a tromba; asas muito longas,

cruzadas quando em repouso

……………………………………………….. gênero Glossina

2. Quarta veia angular; tromba não pontuda ……………… grupo

Musca

Quarta veia arcada, tromba pontuda, nitidamente dobrada como

um joelho

………………………………………………………..grupo

Stomoxys

No gênero Musca não há espécies que picam, porém, de acordo com Patton e Cragg, há pelo menos quatro espécies indianas que se alimentam de sangue que corre de feridas e picadas de outros insetos. Além disso, existem parentes próximos do gênero Philaematomya austen que podem extrair sangue de forma independente.

Do grupo Stomoxys fazem parte Lyperosia, Bdellolarynx, Haematobosca, Haematobia e Stygeromyia, que se distinguem principalmente pela forma dos palpos. Eles são, em sua maioria, parasitas de animais domésticos, mas também picam, ao menos em parte, o ser humano.

A partir do que foi exposto, conclui-se que se deve capturar todas as moscas que gostam de pousar sobre animais. Algumas espécies de Anthomyia e Hippelates o fazem unicamente para beber suor, embora também suguem sangue de feridas. Em zonas quentes e secas, uma grande quantidade de insetos, principalmente dípteros e himenópteros, procura a pele de seres humanos e animais transpirantes.

O gênero Glossina se limita à áfrica, onde há inúmeras espécies de diferentes tamanhos e cores e sobre as quais existe uma rica literatura, uma conseqüência de sua grande importância na transmissão de tripanossomos aos seres humanos e aos animais. Ao capturá-los deve-se, portanto, tomar muito cuidado.

As glossinas geram larvas bem disformes, porém ágeis e que empupam logo, sem consumir alimentos. Estas são obtidas a partir de fêmeas vivas ou em lugares sombreados com vegetação mais alta.

Na escolha de suas vítimas as glossinas não têm limites; parecem buscá-las entre todos os vertebrados, incluindo os peixes. Segundo consta, os crocodilos são os seus preferidos.

Já as moscas das espécies de Stomoxys se comportam de forma bem diferente. Originalmente também estão restritas ao Velho Mundo, porém duas delas já se alastraram na América também, nos cavalos e no gado. Stomoxys calcitrans já se tornou cosmopolita e é encontrada, por exemplo, no Brasil, nos lugares mais afastados, desde que existam cavalos, aos quais está completamente adaptada. As larvas se desenvolvem no seu esterco e as moscas sugam seu sangue, por isso sempre são encontradas neles. Não há dúvidas de que elas têm uma grande importância para sua patologia.

As moscas também são encontradas em grande quantidade nas paredes e janelas das casas. As larvas podem ser achadas nos excrementos de coelhos, onde se criam bem. Elas também parecem se desenvolver em farelo.

O que a Stomoxys calcitrans representa para o cavalo, a Haematobia serrata, similar, representa para o gado. Ela parece não picar o homem. Das outras espécies do grupo, em geral menores, sabe-se pouco ainda.

A Stomoxys ordinária é muito parecida com a mosca caseira, no entanto, ela se distingue facilmente pela tromba pontuda.

Além de moscas hematófagas também há, entre os muscinos, larvas que se alimentam de sangue. Algumas espécies se encontram na toca de animais (porcos-da-terra e javalis africanos). Nos seres humanos trata-se de Auchmeromyia luteola, nos animais trata-se de espécies de Choeromyia; as respectivas moscas não sugam sangue.

Um outro gênero, também africano, Cordylobia, possui larvas que vivem na pele de seres humanos e animais domésticos. O mesmo modo de vida é observado na América em Dermatobia cyaniventris, que pertence aos oestrídeos, de parentesco próximo e, sem exceção, parasíticos. Como não há mudança de hospedeiro no caso dessas espécies, elas praticamente não podem ter importância para a transmissão de enfermidades. Elas também só podem ser criadas fora do corpo quando estão maduras para empupar, o que, no mais, também acontece ao ar livre. O ideal é colocá-las num recipiente com serragem ou debulho, onde elas podem se enterrar. As moscas que saem são fáceis de determinar, o que nem sempre acontece no caso das larvas parasitárias. Isto também é válido para diversas larvas que se desenvolvem em feridas ou em cavidades do corpo, como é o caso, especialmente na Europa, de Sarcophila wohlfartii e, na América, de Chrysomyia macellaria. No caso desta última, o parasitismo é a regra, ao passo que, no caso de diversas outras espécies de muscídeos, ele é uma exceção. O médico deve ser muito crítico diante dos dados de pacientes hipocondríacos e histéricos, especialmente quando a evacuação das larvas se estende por muito tempo, uma vez que as larvas das moscas se desenvolvem rapidamente e não se reproduzem no corpo. Larvas vivas obtidas de pacientes devem ser colocadas, com um pouco de carne crua, num vidro de cultura cujo fundo esteja coberto de serragem, que retarda bastante o apodrecimento.

A cultura de insetos que vivem em cadáveres ou excrementos também pode ocorrer dessa forma, e é pertinente porque tanto as moscas que os visitam quanto as que neles se desenvolvem podem facilmente transmitir germes de enfermidades ao pousarem nos alimentos humanos. A quantidade dessas moscas é muito grande, porém apenas um pequeno número delas é encontrado com freqüência em alimentos. Destas devem ser mencionadas principalmente a mosca caseira e as espécies de Anthomyia, Drosophila e forídeas, que podem ser facilmente capturadas ou criadas.

 

Pupiparos ou hipoboscídeos

A terceira subdivisão dos dípteros, os pupiparos ou hipoboscídeos, ainda deve ser analisada rapidamente. Trata-se de dípteros menores que originalmente eram muito próximos dos muscídeos, mas cujo organismo sofreu alterações consideráveis em razão do constante ectoparasitismo. Eles não se contentam apenas em sugar, ambos os sexos, o sangue de seus hospedeiros, mas também moram neles. Uma grande parte manteve asas que funcionam bem; no entanto, fazem pouco uso delas, utilizam-nas apenas para procurar o sexo oposto ou um hospedeiro apropriado. Em outros, as asas só existem por um tempo ou são até mesmo completamente inexistentes. Os ovos se desenvolvem no corpo materno, gerando uma larva bastante disforme, que se transforma, antes ou logo após o nascimento, em uma pupa de casca lisa, da qual surge em pouco tempo uma nova mosca. A possibilidade de a mãe gerar um indivíduo de igual tamanho se dá porque o abdome destes animais é muito dilatável e a nova mosca fica extremamente apertada na pequena pupa, mas principalmente porque o corpo posterior dela ainda não ocupa espaço, pois só se desenvolve quando há absorção de nutrientes. Esses indivíduos, muitas vezes, precisam procurar seu hospedeiro bem longe; nessa ocasião, eles também encontram seres humanos e podem picá-los, embora estes últimos não sejam o hospedeiro normal de nenhuma espécie. Somente quando eles se desenvolvem na pele dos animais, ou em suas tocas ou ninhos, conseguem encontrar um hospedeiro facilmente. Assim se explica o desaparecimento parcial ou total das asas de algumas espécies. Uma regressão similar pode ocorrer nos olhos. As antenas são peculiarmente reduzidas, e ficam, em sua maior parte, protegidas numa cavidade da cabeça. Os palpos maxilares formam uma bainha ao redor do rostrum e que é composto por lábio, hipofaringe e labrum.

Os pupiparos são muito achatados no eixo dorsoventral e possuem uma couraça de quitina muito sólida, à qual devem o nome Coriacea. Somente o abdomen anelado de forma indistinta, é macio e elástico. As pernas são curtas e robustas, com garras bem desenvolvidas. As veias das asas variam e podem ser bem aproveitadas para a sistemática, assim como a extensão da pilosidade microscópica freqüentemente presente nas asas. álula, escâmula superior e halteres estão sempre presentes quando há asas; a escâmula inferior, modificada e atrofiada de diversas maneiras, fornece boas características de gênero. A forma do escutelo e a disposição das inúmeras macrocerdas também podem ser usadas para isso.

Do gênero Hippobosca, há espécies que vivem sobre camelos, dromedários, cavalos e cachorros; são facilmente identificáveis pelo desenho amareloamarronzado e pelas asas transparentes amareladas. Lipoptena, com asas obsoletas, vive sobre veados; Melophagus, sem elas, sobre ovelhas e animais similares. A maioria dos gêneros habita aves. Sobre os pombos vive Lynchia maura (sinônimo de lividicolor), sobre perus Pseudolfersia meleagridis

Lutz.19

Os pupiparos transmitem tripanossomos aos mamíferos e hematozoários, sobretudo halterídeos, às aves, o que explica a infecção em filhotes de aves. Em experimentos podem-se utilizar moscas com asas cortadas.

As moscas, em geral muito ligeiras, são raramente capturadas ao ar livre, mas normalmente em animais vivos ou abatidos. Estes últimos costumam ser logo abandonados, razão pela qual devem ser colocados numa rede ou num saco, para que se consiga capturar as moscas num recinto fechado ou após serem atordoadas. Se elas forem mantidas vivas, não raro podem-se obter as pupas brancas, que logo se tornam marrons e geralmente dão uma jovem mosca que, a princípio, não tem nenhuma coloração e apresenta uma nítida bolha na testa. Os sexos diferem pouco. As pupas também podem ser encontradas em ninhos.

 

Aracnídeos

Os aracnídeos devem ser incluídos entre os autênticos insetos. Distinguem-se, quando adultos, pela falta de antenas e por possuírem quatro pares de pernas. Deles só são considerados transmissores de enfermidades os ixodídeos, os argasídeos e os acarídeos.

Os ixodídeos são maiores que as outras espécies de ácaro e se alimentam unicamente de sangue vermelho, com o qual se empanturram até ficarem disformes. A tromba é composta por um hipóstomo em forma de clava e repleto de farpas, mandíbulas providas de dentes no final e palpos com quatro artículos. Não possuem olhos e, quando os têm, geralmente não são nítidos. O abdome é fundido ao cefalotórax e contém um intestino muito ramificado, que desemboca numa abertura anal do ventre. Existem dois estigmas perto do quarto par de pernas. As pernas possuem 6-7 artículos e são providas de garras.

Nos argasídeos, a parte costal é coberta por um integumento uniforme e é abaulada na frente, de modo que as partes da boca ficam para baixo. Os estigmas encontram-se na frente do último par de pés. Os pés não possuem empódios. Os sexos não apresentam diferenças marcantes. Os animais adultos vivem livres como os percevejos e podem ser capturados e criados da mesma forma. Eles se sentem em casa sobretudo nas zonas mais quentes e gostam de atacar os seres humanos, aos quais transmitem espiriloses; por isso merecem especial atenção.

Nos ixodídeos o rostrum fica no fim, os palpos ficam livres, porém seus artículos centrais são ocos internamente. Os estigmas se encontram atrás do último par de pernas e os pés têm empódios. Um sólido escudo cobre, na fêmea, somente a parte dianteira do lado superior, enquanto nos machos ele chega perto da extremidade traseira, o que constitui um notável dimorfismo sexual. Eles passam a maior parte de seu período de desenvolvimento como parasitas em vertebrados, dos quais se afastam para depositar os ovos e geralmente também ao passarem pelas metamorfoses, de forma que ocorre então uma troca de hospedeiro, o que favorece a transmissão de enfermidades.

Enquanto os ixodídeos desempenham um papel importante na patologia dos animais domésticos, no que diz respeito aos seres humanos a situação é diferente. Por enquanto eles são conhecidos apenas como transmissores da “Spotted fever of the rocky mountains”, mas certamente transmitem outras espécies de vírus de origem animal, já que a reação local e a glandular pode durar muito tempo após sua mordida.

Os indivíduos adultos de ambos os sexos são ideais para análise. Podem ser obtidos diretamente no hospedeiro ou podem ser criados em animais apropriados (por exemplo, porcos-espinhos e cobaias), cujas gaiolas podem ser isoladas com água. Após o ataque, as fêmeas depositam ovos que podem ser facilmente expedidos, assim como as larvas, que têm seis pernas. Os carrapatos conseguem sobreviver a longos períodos de fome.

Os gêneros de ixodídeos mais importantes para o homem e seus animais domésticos podem ser determinados segundo a seguinte chave:

1. Palpos longos …………………………………………………….

Ixodinae 2

Palpos curtos …………………………………………….

Rhipicephalinae 3

2. Estrias anais na frente do ânus, não têm olhos

…………………… Ixodes

Estrias anais atrás do ânus, possuem olhos ………………

Amblyomma

3. Sem placas anais (nos machos)

………………………………………….. 4

Com placas anais (nos machos)

………………………………………….. 5

4. Com olhos ……………………………………………………..

Dermacentor

Sem olhos ……………………………………………………

Haemophysalis

5. Peritremos (placas de estigma), forma de vírgula ……

Rhipicephalus

Peritremos redondos ……………………………………………

Margaropus

O último gênero parasita especialmente o gado bovino, dos outros gêneros são às vezes encontrados alguns representantes no ser humano; na América, Amblyomma cayennense é especialmente incômodo, ao passo que uma espécie de Dermacentor transmite a febre das Montanhas Rochosas.

Dos argasídeos, diferenciam-se o gênero Argas, cuja borda lateral do corpo é afiada e contornada, e o Ornithodorus com borda lateral arredondada e ininterrupta. Ambos possuem inúmeras espécies.

A preparação e a conservação ocorrem de acordo com os princípios já discutidos. Para estudar a escultura cutânea podem-se usar as peles abandonadas, que fornecem preparações bem transparentes.

 

Ácaros

Os diversos ácaros que parasitam o ser humano e o gado são bastante conhecidos. Espécies de Dermanyssus que vivem em galinhas e andorinhas, além de alguns ácaros que vivem em grãos, baunilha e outros produtos vegetais ou animais podem causar fortes irritações no ser humano sem se estabelecerem de modo permanente. Algumas larvas de três pernas, de coloração vermelha, geralmente consideradas espécies de Tetranychus e Trombidium, passam, ao ar livre, para o ser humano e para os animais, como os carrapatos; elas são conhecidas na Europa como ácaros de uva-espim ou de colheitas, rouget e similares, na América do Sul como micuim e poux d'agouti, e formam coroas e manchas vermelhas nas tetas da cutia e nas orelhas da Cavia aperea. Seria muito útil criar as formas adultas, porque as larvas não podem ser bem determinadas. Pelo que se sabe, os ácaros menores provocam

irritações em seres humanos e animais.20 Eles provavelmente pertencem aos microtrombídios, como os transmissores da febre

japonesa dos rios ( 21 M. acamushi ).

 

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Detalhe da figura 11, à p.1013, mostrando aparelhos para coleta de

mosquitos. BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, caixa iconografia.

* Trabalho de Adolpho Lutz publicado em 1924 (v.3, p.2135-82, 24 figs.) e reeditado em 1929 (v.10, fasc. 37, p.551-90, 25 figs.) como capítulo (XIII) de Handbuch der pathogenen Mikroorganismen [Manual dos microrganismos patogênicos], com o título “Sammeln, Präparieren, Untersuchen und Bestimmen der hygienisch wichtigen Insekten”. Essa obra de referência pioneira, uma das mais conceituadas no começo do século XX, foi criada por dois importantes microbiologistas alemães, Wilhelm Kolle (1868-1935) e August Paul von Wassermann (1866-1925). Publicada por duas prestigiosas editoras de livros médicos, Gustav Fischer (Jena) e Urban & Schwarzenberg (Berlim e Viena), teve seis volumes na primeira edição (1903-1909), oito na segunda (1912-1913), e dez volumes subdivididos em 18 partes na terceira edição (1929-1931). Esta teve como organizadores Wilhelm Kolle, Rudolph Kraus e Paul Uhlenhuth (1870-1957). A presente tradução baseia-se no trabalho de 1929, o qual se diferencia da versão de 1924 por pequenas alterações idiomáticas, pela atualização de alguns nomes científicos e ampliação da bibliografia. Essas mudanças estão sendo referenciadas ao longo do texto. [N.E.]

1 No trabalho de 1924, Lutz referenciou a espécie Stegomyia aegypti sempre como Stegomyia calopus.[N.E.]

2 No trabalho de 1924, em vez de “em todos os estágios evolutivos” lê-se “nos estágios larval e ninfal. [N.E.]

3 Em alemão Minutiennadel. [N.T.]

4 Em alemão. [N.T.]

5 Mückenem alemão. [N.T.]

6 A substituição deste nome por Aedes deve ser rechaçada. [N.A.]

7 Na versão de 1924 Lutz cita a espécie como Culex fatigans Wied, ainda sem considerá-la como Culex quinquestriatus. [N.E.]

8 Na edição de 1924, Lutz compara o Culex pipiens com o fatigans. Na versão de 1929, a espécie fatigans não está referenciada. Provavelmente trata-se de erro de impressão. [N.E.]

9 Em 1924, Lutz considera a espécie como Stegomyia calopus. No trabalho de 1929, as espécies calopus e fasciata passam a ser sinônimo de aegypti. [N.E.]

10 No trabalho de 1924 Lutz considerou esta espécie como Culex fatigans. [N.E]

11 No trabalho de 1924 Lutz preferiu usar 'abertura' em vez de 'extremidade'. [N.T.]

12 O trecho entre parênteses encontra-se apenas na edição de 1929. [N.T.]

13 Também este adjetivo encontra-se apenas na edição de 1929. [N.T.]

14 Lutz em 1924 usa o termo berechtigt, que em alemão significa 'correto'. Já na versão de 1929 está escrito unrichtig, que significa incorreto. Como os Culicoides pertencem de fato aos ceratopogonídeos, e Lutz em 1924 concordava com essa classificação, achamos que na versão de 1929 houve um erro de impressão e não de interpretação. Decidimos, portanto, manter a expressão usada por Lutz em 1924. [N.E.]

15 Esta última frase aparece apenas na edição de 1929. [N.T]

16 No trabalho de 1924, esta frase termina em “transmissoras de doenças”. [N.T]

17 No trabalho de 1924 não há a palavra Chrysozona entre parênteses. [N.T.]

18 Como meio transparente pode-se usar também um ágar suave sem nutrientes, no qual as larvas se infiltram. [N.A.]

19 No texto de 1924 lê-se Pseudolfersia meleagridis mihi. [N.E.]

20 Na edição de 1924 este parágrafo termina aqui. [N.T.]

21 Na edição de 1924 há aqui, antes da bibliografia propriamente dita, uma indicação bibliográfica:“Literatura: C. Tiroboschi, Les rats, les souris et leurs parasites cutanés etc. A. de Parasitol. 1904, VIII, Nr. 2; The rat and its relation the public health. Governm. Print. Off. Washington 1910”. [N.T.]