Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 9/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

estando exausta, eu ia todos os fins de semana à biblioteca com Ashok e Meena

— até cheguei a ir sozinha uma vez, quando os filhos deles estavam doentes.

Aprendi a me vestir melhor para o frio e fiz meu próprio cartaz “Conhecimento é poder!” — uma referência específica a Will. Voltava de trem e depois ia ao East Village tomar café no Vintage Clothes Emporium e dar uma olhada nos novos itens do estoque de Lydia e da irmã.

O Sr. Gopnik nunca mais voltou a falar da biblioteca. Um pouco decepcionada,

eu me dei conta de que caridade podia significar algo muito diferente em Nova York: não bastava doar, era preciso ser visto doando. Os hospitais exibiam os nomes de seus beneméritos em letras de três metros de altura acima das portas.

Bailes eram batizados com o nome dos financiadores. Até os ônibus divulgavam

listas de nomes nas janelas traseiras. O Sr. e a Sra. Leonard Gopnik eram conhecidos como doadores generosos porque a sociedade os via fazendo isso.

Uma biblioteca antiga em um bairro decadente não oferecia esse tipo de

reconhecimento.

* * *

Ashok e Meena haviam me convidado para passar o Dia de Ação de Graças no

apartamento deles, em Washington Heights, depois de ficarem horrorizados

quando revelei que não tinha planos para o feriado.

— Você não pode passar o Dia de Ação de Graças sozinha! — argumentou

Ashok, e preferi não comentar que pouca gente na Inglaterra entendia o

significado da data.

— Minha mãe faz o peru. Mas não espere que seja ao estilo americano —

explicou Meena. — Não suportamos toda essa comida sem gosto. Vai ser um peru bem tandoori.

Não foi difícil dizer sim para algo novo: eu estava muito empolgada. Comprei

uma garrafa de champanhe, alguns chocolates finos e flores para a mãe de Meena, então coloquei o vestido azul com mangas de pele, achando que um Dia

de Ação de Graças indiano seria uma estreia adequada para ele — ou, pelo menos, uma estreia sem dress code definido. Como Ilaria estava concentrada na preparação do jantar em família dos Gopnik, preferi não incomodá-la. Saí do apartamento e conferi se não tinha esquecido as anotações do caminho dadas fevereiro/2018

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por Ashok.

No corredor, percebi que a porta do apartamento da Sra. De Witt estava aberta. Ouvi a televisão ligada lá dentro. A poucos metros da porta, Dean Martin

estava de pé no corredor, me encarando com o olhar furioso. Fiquei na dúvida

se ele não estava prestes a fugir mais uma vez para a liberdade e toquei a campainha.

A Sra. De Witt surgiu no corredor.

— Sra. De Witt? Acho que Dean Martin está prestes a sair para uma

caminhada.

O cachorro foi para trás dela, que se apoiou na parede. Ela parecia frágil e cansada.

— Você poderia fechar a porta, querida? Acho que não a fechei direito.

— Claro, pode deixar. Feliz Dia de Ação de Graças, Sra. De Witt.

— É hoje? Eu nem reparei.

Ela desapareceu de novo na sala, com o cachorro atrás, e eu fechei a porta da

frente. Nunca a havia considerado mais do que uma mera conhecida, porém senti uma pontada de tristeza ao imaginá-la passando o Dia de Ação de Graças

sozinha.

Estava me virando para sair quando Agnes passou pelo corredor vestindo

roupa de ginástica. Pareceu espantada em me ver.

— Aonde você vai?

— Jantar…

Preferi não contar com quem ia jantar, pois não sabia como os patrões do prédio se sentiriam se achassem que os empregados se reuniam na ausência deles. Agnes me encarou horrorizada.

— Mas você não pode ir, Louisa. A família do Leonard está vindo para cá. Eu

não consigo fazer isso sozinha. Eu disse a eles que você estaria aqui.

— Você disse? Mas...

— Você precisa ficar.

Olhei para a porta. Senti um aperto no peito.

E então ela disse baixinho:

— Por favor, Louisa. Você é minha amiga. Eu preciso de você.

* * *

Liguei para Ashok e contei que não iria mais. Meu único consolo foi o fato de que, por causa do seu emprego, ele compreendeu na hora a situação.

— Eu sinto muito — sussurrei ao telefone. — Eu queria muito jantar com vocês.

— Nah. Você precisa ficar. Ei, a Meena está aqui gritando, falando para avisar

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que ela vai guardar um pouco de peru para você. Te entrego amanhã... Amor, eu

avisei a ela! Eu avisei! Louisa, ela mandou você tomar todo o vinho caro deles,

está bem?

Por um instante, eu me senti à beira das lágrimas. Tinha esperado

ansiosamente por uma noite cheia de crianças alegres, comida deliciosa e risos.

Em vez disso, eu seria uma sombra mais uma vez, um objeto cenográfico

silencioso em um ambiente gelado.

Meus receios se provaram justificados.

Três outros membros da família Gopnik compareceram ao Dia de Ação de

Graças celebrado no apartamento: o irmão dele, uma versão mais velha, mais grisalha e mais anêmica do Sr. Gopnik, que pelo visto trabalhava com algo relacionado a direito. Provavelmente comandava o Departamento de Justiça dos

Estados Unidos. Ele trouxe a mãe dos dois, que ficou em uma cadeira de rodas,

se recusou a noite toda a tirar o casaco de pele e reclamou em voz alta que não

conseguia escutar o que os outros estavam dizendo. O terceiro convidado era a

mulher do irmão do Sr. Gopnik, uma ex-violinista aparentemente de certo

renome. Ela foi a única que se preocupou em me perguntar com o que eu trabalhava. Cumprimentou Agnes com dois beijinhos e o sorriso profissional que poderia ser direcionado para qualquer um.

Tabitha completou o grupo, chegando tarde e dando a impressão de ter

passado a corrida de táxi conversando intensamente ao celular sobre o quanto

não queria estar ali. Logo depois de ela chegar, todos nos acomodamos para comer na sala de jantar — que ficava fora da sala de estar principal e era dominada por uma longa mesa oval de mogno.

Pode-se dizer que a conversa foi artificial. O Sr. Gopnik e o irmão logo iniciaram uma discussão sobre as restrições jurídicas no país onde ele estava fazendo negócios no momento, e as duas esposas trocaram algumas perguntas

básicas, como quem pratica conversação em um idioma estrangeiro.

— Como tem passado, Agnes?

— Bem, obrigada. E você, Veronica?

— Muito bem. Você está ótima. Seu vestido é muito bonito.

— Obrigada. Você também está muito bonita.

— Fiquei sabendo que você viajou para a Polônia. Leonard disse que você foi

visitar a sua mãe.

— Fui para lá duas semanas atrás. Foi ótimo ver minha mãe. Obrigada.

Eu me sentei entre Tabitha e Agnes, observando Agnes beber vinho branco

demais e Tabitha ficar insolentemente no celular, revirando os olhos de vez em

quando. Tomei a sopa de abóbora com sálvia, assenti, sorri e tentei não pensar

com muita melancolia no apartamento de Ashok e no caos alegre que estaria rolando lá. Eu teria perguntado a Tabitha sobre como havia sido sua semana —

qualquer coisa para fazer a conversa claudicante se desenrolar —, mas ela tinha

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feito tantos comentários ácidos sobre o horror de ter “empregados” em eventos

de família, que não tive a audácia.

Ilaria trouxe um prato após o outro.

— A puta polonesa não cozinha. Então, alguém tem que abrir mão do próprio Dia de Ação de Graças — resmungou ela mais tarde.

Havia preparado um banquete de peru, batata assada e uma porção de coisas

que eu nunca tinha visto serem servidas como acompanhamento, mas suspeitei

que me deixariam com diabetes tipo 2 na mesma hora: caçarola de batata-doce

caramelizada com cobertura de marshmallow, vagem com mel e bacon, abóbora-bolota assada com bacon e calda de bordo, pão de milho amanteigado

e cenoura assada com mel e condimentos. Havia também bolinhos — parecidos

com o Yorkshire pudding —, e eu disfarçadamente os analisei para ver se também estavam cobertos de calda.

É claro que apenas os homens comeram boa parte da comida. Tabitha ficou

empurrando a dela de um lado para outro no prato. Agnes comeu um pouco de

peru e quase mais nada. Eu comi um pouco de tudo, grata por ter o que fazer e

também por Ilaria ter parado de jogar vários pratos diante de mim. Na verdade,

ela me fitou de rabo de olho algumas vezes, como que para expressar

solidariedade pelo meu martírio. Os homens continuaram falando de negócios,

sem perceber ou sem querer reconhecer o clima constrangedor na outra ponta

da mesa.

Às vezes, o silêncio era interrompido pela idosa Sra. Gopnik exigindo que alguém lhe servisse batata ou perguntando em voz alta, pela quarta vez, o que

afinal tinham feito com a cenoura. Mais de uma pessoa lhe respondia ao mesmo

tempo, como que aliviada por ter um foco, sem se importar com a situação irracional.

— Que vestido peculiar, Louisa — comentou Veronica, após um silêncio

especialmente longo. — Bem inusitado. Você o comprou em Manhattan? Não se

veem muitas mangas de pele hoje em dia.

— Obrigada. Comprei no East Village.

— É um Marc Jacobs?

— Ahn, não. É vintage.

— Vintage — repetiu Tabitha em tom de deboche.

— O que foi que ela disse? — perguntou a Sra. Gopnik, em voz alta.

— Ela está falando do vestido da moça, mamãe — explicou o irmão do Sr.

Gopnik. — Disse que é vintage.

— Vintage o quê?

— Qual é o problema com “vintage”, Tab? — questionou Agnes friamente.

Eu me endireitei na cadeira.

— É um termo tão sem sentido, não? É apenas outra forma de dizer “de segunda mão”. Um jeito de glamourizar algo, fazendo com que pareça ser o que

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não é.

Tive vontade de dizer que vintage significava muito mais do que isso, porém

não soube como colocar em palavras — e suspeitei que não deveria falar nada.

Só queria que a conversa fosse redirecionada para outro assunto, para longe de

mim.

— Acho que as roupas vintage estão muito na moda agora — interveio

Veronica, se dirigindo diretamente a mim com uma habilidade diplomática. —

Mas é óbvio que estou velha demais para compreender as tendências dos jovens

de hoje.

— E educada demais para dizer esse tipo de coisa — alfinetou Agnes.

— Desculpe? — disse Tabitha.

— Ah, agora você se desculpa?

— Não, eu quis dizer “o que você acabou de falar?” — explicou Tabitha.

O Sr. Gopnik desviou a atenção do prato. Seu olhar cansado foi da mulher para a filha.

— Por que você é tão grossa com Louisa? Ela é minha convidada aqui,

mesmo sendo minha funcionária. E você foi grossa ao falar da roupa dela.

— Eu não fui grossa. Só fiz um comentário.

— É assim que as pessoas são grossas hoje em dia. Eu digo o que penso. Só estou sendo sincera. A desculpa de quem faz bullying. Todos sabemos como é.

— Do que você acabou de me chamar?

— Agnes. Querida.

O Sr. Gopnik estendeu o braço pela mesa e colocou a mão sobre a da mulher.

— O que elas estão dizendo? — perguntou a Sra. Gopnik. — Peça para

falarem mais alto.

— Eu disse que Tab está sendo muito grossa com a minha amiga.

— Ela não é sua amiga, pelo amor de Deus. Ela é sua assistente assalariada.

Embora eu ache que seja o mais próximo que você chegará em termos de

amizade agora.

— Tab! — exclamou o pai dela. — Que coisa horrível de se dizer.

— Mas é verdade. Ninguém quer se aproximar dela. Você não pode fingir que

não vê isso aonde quer que vá. Você sabia que a nossa família é motivo de chacota, papai? Você se tornou um clichê. Ela é um clichê ambulante. E para quê? Todo mundo sabe qual é o plano dela.

Agnes tirou o guardanapo do colo e o amassou em uma bola.

— Meu plano? Você poderia me dizer qual é o meu plano?

— É o mesmo de todas as outras imigrantes espertas e ambiciosas. De

alguma forma, você convenceu o papai a se casar com você. Agora com certeza

está fazendo o possível para engravidar e ter um ou dois filhos e, em cinco anos,

vai se divorciar dele. E aí vai estar com a vida feita. Bum! Nada de massagens. Só Bergdorf Goodman, um motorista e almoços com o seu povo polonês.

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O Sr. Gopnik se inclinou para a frente.

— Tabitha, nunca mais quero ouvir você dizer a palavra “imigrante” em tom

pejorativo nesta casa. Seus bisavós eram imigrantes. Você é descendente de imigrantes...

— Não desse tipo de imigrante.

— O que isso quer dizer? — questionou Agnes, com o rosto vermelho.

— Você quer que eu desenhe? Tem os que conquistam seus objetivos com

trabalho duro e os que fazem isso deitando...

— Como você? — atacou Agnes, gritando. — Como você, que vive de mesada

mesmo tendo uns vinte e cinco anos? Você, que mal teve um emprego na vida?

Eu devo considerar você como exemplo? Eu pelo menos sei o que é trabalhar duro...

— Ah, é. Montando em cima de desconhecidos nus. Grande emprego.

— Já chega! — berrou o Sr. Gopnik, que agora estava de pé. — Você está muito, muito errada, Tabitha, e tem que se desculpar.

— Por quê? Porque consigo enxergá-la de forma objetiva? Papai, lamento

dizer, mas você está completamente cego para o que essa mulher é de verdade.

— Não. É você quem está errada!

— Então ela não quer ter filhos? Ela tem vinte e oito anos, papai. Acorda!

— Sobre o que eles estão falando? — perguntou a Sra. Gopnik, em tom

rabugento, para a nora, e Veronica sussurrou algo em seu ouvido. — Mas ela falou sobre homens nus. Isso eu escutei.

— Não que seja da sua conta, Tabitha, mas não haverá mais crianças nesta casa. Agnes e eu concordamos quanto a isso antes de nos casarmos.

Tabitha fez uma careta.

— Aaaah. Ela concordou. Como se isso significasse algo. Uma mulher como ela diria qualquer coisa para se casar com você! Papai, eu odeio ter que dizer isso, mas você está sendo absurdamente ingênuo. Em um ano mais ou menos haverá um pequeno “acidente”, e ela vai convencê-lo...

— Não haverá acidente! — berrou o Sr. Gopnik, batendo na mesa com tanta

força que os copos tilintaram.

— Como você pode garantir?

— Porque eu fiz uma maldita vasectomia! — disparou o Sr. Gopnik, voltando

a se sentar na cadeira. Suas mãos estavam trêmulas. — Dois meses antes de nos

casarmos. No Mount Sinai. Com total concordância de Agnes. Está satisfeita agora?

A sala mergulhou em silêncio. Boquiaberta, Tabitha ficou encarando o pai.

A idosa olhou para os lados e então perguntou, observando o Sr. Gopnik:

— Leonard fez uma apendicectomia?

Um zumbido baixo começou a soar no fundo da minha cabeça. Bem longe,

ouvi o Sr. Gopnik insistir que a filha pedisse desculpas, então vi Tabitha fevereiro/2018

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empurrar a cadeira para trás e sair da mesa sem fazer isso. Percebi Veronica trocando olhares com o marido e tomando um longo gole da bebida. E então me

virei para Agnes, que estava olhando fixamente para o próprio prato, onde a comida esfriava em porções cobertas por mel e bacon. Quando o Sr. Gopnik estendeu a mão e apertou a dela, senti o coração acelerado reverberar nos ouvidos.

Ela não olhou para mim.

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17

Voei para casa no dia 22 de dezembro, carregada de presentes e usando meu novo casaco vintage com estampa de zebra — que, como mais tarde eu viria a

descobrir, foi estranhamente afetado pelo ar reciclado no 767 e, quando cheguei

ao Heathrow, passou a feder feito uma carcaça.

Na verdade, era para eu ter pegado o avião só na véspera do Natal, mas Agnes insistira para que eu viajasse antes, já que ela decidira ir à Polônia para

ver a mãe, que não estava bem — por isso não havia por que eu ficar em Nova

York sem ter o que fazer quando poderia estar com a minha família. O Sr.

Gopnik pagou a taxa de remarcação de voo. Agnes havia ficado ao mesmo tempo

extremamente gentil e distante desde o jantar do Dia de Ação de Graças. De minha parte, fui profissional e receptiva. Às vezes, minha cabeça ficava rodando

com tantas informações. Mas então pensava no que Garry me dissera no outono,

quando cheguei: Não veja nada, não ouça nada, esqueça tudo.

Algo mudou com a proximidade do Natal. O meu humor ficou mais leve.

Talvez eu estivesse apenas aliviada por sair daquele lar disfuncional. Ou quem

sabe o ato de comprar presentes de Natal tivesse ressuscitado o senso de diversão no meu relacionamento com Sam. Afinal, fazia muito tempo que eu não

tinha um namorado para quem comprar presentes de Natal. Nos dois últimos anos do nosso relacionamento, Patrick simplesmente me mandava e-mails com

links para equipamentos de ginástica específicos que ele queria. Não precisa embrulhar, gata, para o caso de você comprar errado e eu ter que trocar. Tudo o que eu fazia era clicar em um botão. Eu nunca havia passado o Natal com Will.

Dessa vez, fui às compras lado a lado com outros clientes na Saks, tentando imaginar meu namorado nos blusões de caxemira, encostando o rosto neles, as

camisas xadrez macias que ele gostava de usar no jardim, meias grossas da REI.

Comprei brinquedos para Thom, ficando ligadona de açúcar com o cheiro da loja da M&M na Times Square. Comprei artigos de papelaria para Treena na McNally Jackson e um lindo roupão de banho para o vovô na Macy’s.

Empolgada, tendo gastado tão pouco nos meses anteriores, comprei uma

pulseirinha da Tiffany para a mamãe e um rádio para o papai usar na cabana.

E então, de última hora, comprei uma meia natalina para Sam e a enchi de presentinhos: loção pós-barba, chicletes diferentes, meias e um porta-cerveja no formato de uma mulher de calça jeans bem justa. Finalmente, fui à loja de fevereiro/2018

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brinquedos onde comprara os presentes de Thom e saí com alguns móveis de

casa de boneca — uma cama, uma mesa com cadeiras, um sofá e um banheiro.

Embrulhei tudo e escrevi na etiqueta: Até a verdadeira estar pronta. Também achei um kit médico minúsculo e o incluí, encantada com a riqueza de detalhes.

De repente, o Natal pareceu real e empolgante, e a perspectiva de quase dez dias longe dos Gopnik e da cidade também pareceu um presente.

* * *

Cheguei ao aeroporto, rezando para que os presentes não ultrapassassem o limite de peso da bagagem. A mulher no balcão de check-in pegou meu

passaporte, pediu que eu colocasse a mala na balança e franziu a testa ao olhar

para a tela.

— Algum problema? — perguntei, quando ela olhou meu passaporte e

depois para trás.

Calculei de cabeça quanto teria que pagar pelo peso extra.

— Ah, nenhum, senhora. É que a senhora não deveria estar nesta fila.

— Você está brincando — falei, sentindo o coração ficar apertado ao olhar para as filas que só aumentavam atrás de mim.

— E em qual fila eu deveria estar?

— A senhora está na classe executiva.

— Executiva?

— Sim. A senhora ganhou um upgrade. Deveria ter feito o check-in lá. Mas não tem problema, posso fazer por aqui também.

Fiz que não com a cabeça.

— Ah, acho que não. Eu...

E então meu celular apitou. Olhei para a tela. Você deve estar no aeroporto agora! Espero que isso torne a sua viagem para casa um pouco mais agradável.

Um presentinho de Agnes. Nos vemos no Ano-Novo, colega! Bj, Michael

Pisquei.

— Está bem. Obrigada.

Observei minha mala imensa desaparecer na esteira e guardei o celular na bolsa.

* * *

Mesmo com o aeroporto lotado, tudo estava tranquilo e silencioso na classe executiva do avião, um pequeno oásis de presunção coletiva à parte do caos relacionado às festas de fim de ano do lado de fora. A bordo, fuxiquei meu nécessaire de cortesia para passar a noite, calcei as meias do kit e tentei não fevereiro/2018

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tagarelar com o homem na poltrona ao lado, que acabou colocando a máscara

nos olhos e se deitando. Tive apenas um imprevisto com o assento reclinável, pois meu sapato ficou preso no apoio para pés, mas a comissária foi um amor e me mostrou como tirá-lo. Jantei pato com molho de xerez e torta de limão e agradeci a cada um dos tripulantes que me levaram alguma coisa. Assisti a dois

filmes e me dei conta de que seria melhor tentar dormir um pouco. No entanto,

era difícil dormir com toda a experiência sendo tão prazerosa. Era exatamente o

tipo de coisa sobre a qual eu contaria para o pessoal de casa, só que, pensei, sentindo um friozinho na barriga, agora eu poderia contar a todos

pessoalmente.

A mulher que estava voltando para casa era uma Louisa Clark diferente. Foi

isso que Sam me disse, e decidi acreditar. Eu me tornara mais confiante, mais profissional, muito distante da pessoa triste, confusa e fisicamente abalada de seis meses antes. Imaginei a expressão de Sam quando eu o surpreendesse, assim como ele havia me surpreendido. Ele tinha me mandado uma cópia da rota dele pelos próximos quinze dias, para eu poder planejar as visitas aos meus

pais, e de acordo com meus cálculos eu poderia deixar as minhas coisas em casa, passar algumas horas com a minha irmã, depois ir ao apartamento dele e

ficar por lá para recebê-lo quando terminasse seu turno.

Eu achava que dessa vez faríamos a coisa do jeito certo. Tínhamos um tempo

decente para ficarmos juntos. E entraríamos em uma rotina — uma maneira de

existir sem traumas ou mal-entendidos. Os primeiros três meses sempre seriam

os mais difíceis. Eu me cobri com o cobertor e, já tendo percorrido boa parte do

Atlântico, tentei em vão dormir, com um nó no estômago e a cabeça zumbindo

enquanto observava o aviãozinho piscando deslizar lentamente pela tela

pixelada.

* * *

Cheguei ao meu prédio logo depois do almoço e entrei em casa após me

atrapalhar um pouco com as chaves. Treena estava no trabalho, Thom, ainda na

escola, e o tom cinza de Londres era permeado por luzes piscantes de Natal e pelo som das lojas tocando canções natalinas que eu já havia escutado um milhão de vezes. Subi a escada do prédio, sentindo o cheiro familiar de aromatizador de ambiente barato e da umidade londrina. Então abri a porta da

frente, larguei logo a mala no chão e suspirei.

Meu lar. Ou coisa parecida.

Tirei o casaco no hall e entrei na sala de estar. Eu estava com um pouco de

medo de voltar ali — lembrando-me dos meses que passei afundada na

depressão, bebendo demais, os cômodos vazios e largados funcionando como

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uma censura autoinfligida pelo meu fracasso em salvar o homem que havia me

proporcionado o apartamento. Mas na hora me dei conta de que aquele não era

o mesmo apartamento: em três meses, ele fora totalmente transformado. O

interior antes vazio agora estava repleto de cores, com pinturas de Thom coladas em todas as paredes. Havia almofadas bordadas no sofá, uma nova poltrona estofada, cortinas e uma estante cheia de DVDs. A cozinha estava repleta de pacotes de comida e louça de cerâmica nova. Uma tigela de cereal e

uma caixa de Coco Pops em cima de um jogo americano de arco-íris

denunciavam o abandono de um café da manhã apressado.

Abri a porta do quarto de hóspedes — agora de Thom — e sorri ao ver os pôsteres de futebol e o edredom com estampa de desenho animado. Um guarda-roupa novo estava abarrotado de roupas dele. Então, fui ao meu quarto — agora

de Treena — e encontrei uma colcha amarrotada, uma nova estante de livros e

persianas. Ainda não tinha muitas roupas, porém ela havia acrescentado uma cadeira e um espelho, e a pequena penteadeira estava coberta com hidratantes,

cosméticos e escovas de cabelo, o que revelou que minha irmã realmente devia

ter mudado muito nos poucos meses em que eu estive fora. As leituras de cabeceira eram a única coisa que deixava claro que aquele era o quarto de Treena: Subsídios de capital de Tolley e Introdução à folha de pagamento.

Eu sabia que estava cansadíssima, mas me sentia péssima mesmo assim. Era

desse jeito que Sam estava se sentindo quando chegou a Nova York e me viu pela segunda vez? Eu havia parecido ao mesmo tempo uma conhecida e uma desconhecida?

Meus olhos estavam ardendo de cansaço, e meu relógio interno, bagunçado.

Ainda faltavam três horas para eles voltarem para casa. Lavei o rosto, tirei os sapatos e me deitei no sofá, suspirando com o barulho do trânsito de Londres se

distanciando aos poucos.

* * *

Acordei com uma mão grudenta dando tapinhas no meu rosto. Pisquei,

tentando afastá-la, mas havia um peso sobre o meu peito. Ele se mexeu. Uma mão me deu tapinhas de novo. Então abri os olhos e encarei Thom.

— Titia Lou! Titia Lou!

— Oi, Thom — resmunguei.

— O que você trouxe para mim?

— Deixe sua tia pelo menos abrir os olhos primeiro.

— Você está em cima do meu peito, Thom. Ai.

Liberta, eu me endireitei e pisquei para meu sobrinho, que estava saltitando

no lugar.

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— O que você trouxe para mim?

Minha irmã se abaixou e me deu um beijo no rosto, depois apertou meu

ombro. Cheirava a perfume caro, e eu recuei um pouco para observá-la melhor.

Estava maquiada — uma maquiagem adequada, sutil, em vez do único

delineador azul que ela havia ganhado de brinde em uma revista em 1994 e guardado na gaveta para ser usado em todas as ocasiões que pediam uma

“produção” pelos dez anos seguintes.

— Então você conseguiu. Não pegou o avião errado e foi parar em Caracas. O

papai e eu fizemos uma aposta.

— Olhe só. — Levantei o braço e segurei a mão dela por uns segundos a mais

do que nós duas esperaríamos. — Nossa. Você está bonita.

E estava mesmo. Treena havia cortado o cabelo na altura do ombro e o tinha

escovado e deixado solto, em vez de usá-lo preso no habitual rabo de cavalo.

Isso, somado à camisa bem-cortada e o rímel, realmente a deixava muito bonita.

— Olha, é por causa do trabalho, na verdade. A gente tem que se forçar a andar arrumada aqui na City.

Como Treena se virou ao dizer isso, eu não acreditei nela.

— Acho que preciso conhecer esse tal de Eddie — brinquei. — Eu nunca

consegui influenciar dessa forma a maneira como você se arruma.

Ela encheu a chaleira e acendeu o fogo.

— Isso porque você só se veste como se tivesse ganhado um voucher de duas

libras para um bazar e tivesse comprado logo tudo.

Estava escurecendo lá fora. De repente, meu cérebro atordoado com o jet lag

registrou o que isso queria dizer.

— Ah, nossa. Que horas são?

— Hora de você me dar os presentes?

O sorriso banguela de Thom surgiu diante de mim, com as mãos postas em

oração.

— Está tudo bem — respondeu Treena. — Você ainda tem uma hora até Sam

sair do trabalho. Thom, a Lou vai dar o que trouxe para você assim que tomar

uma xícara de chá e encontrar o desodorante. Ah, e que diabo é aquele casaco

listrado que você deixou no hall? Está fedendo a peixe podre.

Agora sim eu estava em casa.

— Está bem, Thom — falei. — Deve ter alguns presentinhos pré-Natal para

você naquela bolsa azul. Traga até aqui.

* * *

Precisei tomar banho e me maquiar para me sentir humana de novo. Vesti uma minissaia prateada, uma camisa polo preta e sapato de camurça anabela que fevereiro/2018

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comprara no brechó, a echarpe Biba da Sra. De Witt e uma borrifada do La Chasse aux Papillons — o perfume que Will me convencera a comprar e que sempre me dava confiança. Thom e Treena estavam jantando quando fiquei

pronta. Ela me ofereceu um pouco de macarrão com queijo e tomate, porém meu estômago começou a embrulhar, e meu relógio interno estava bagunçado.

— Gostei do que você fez nos olhos. Ficou muito sedutor — falei para Treena,

que reagiu com uma careta.

— Você está bem para dirigir? É que você não está enxergando direito.

— Não é longe. E eu tirei um cochilo e tanto.

— E quando você deve estar de volta? Este novo sofá-cama é incrível, caso você esteja se perguntando. Colchão de mola. Nada da sua porcaria de cinco centímetros de espuma.

— Espero não precisar usar o sofá-cama por um ou dois dias — respondi, dando um sorriso malicioso.

— O que é isso? — perguntou Thom, depois de engolir o que estava

mastigando e apontando para o pacote embaixo do meu braço.

— Ah. É uma meia de Natal. O Sam vai trabalhar no dia do Natal, então só vou

vê-lo à noite. Por isso pensei em dar logo um presente para ele poder abrir na

hora em que acordar.

— Humm. Não peça para ver o que tem ali dentro, Thom.

— Não tem nada que eu não poderia dar ao vovô. São só umas coisinhas divertidas.

Treena piscou para mim. E silenciosamente agradeci a Eddie e seus milagres.

— Depois me manda uma mensagem, ok? Só para eu saber se coloco a trava

na porta.

Dei um beijo nos dois e segui para a porta da frente.

— Não vá assustá-lo com o seu terrível sotaque americano capenga!

Mostrei o dedo do meio ao sair do apartamento.

— E não se esqueça de dirigir pela esquerda! E não use o casaco que fede a

bacalhau!

Ouvi a risada dela ao fechar a porta.

* * *

Nos últimos três meses, eu havia andado a pé, pegado táxi ou sido levada por Garry na imensa limusine preta. Me acostumar a ficar atrás do volante do meu

pequeno carro hatch com o câmbio duvidoso e migalhas de biscoito no banco do

carona exigiu uma concentração surpreendente. Peguei o final do trânsito da hora do rush, liguei o rádio e tentei ignorar o coração batendo forte, sem saber

se era pelo medo de dirigir ou pela perspectiva de ver Sam novamente.

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O céu estava escuro, as ruas, cheias de pessoas fazendo compras e

iluminadas por luzinhas de Natal, e meus ombros aos poucos começaram a

murchar enquanto eu freava e acelerava a caminho do subúrbio. A largura das

calçadas diminuiu e a multidão desapareceu, com poucas pessoas olhando por

janelas iluminadas enquanto eu passava. E então, pouco depois das oito,

diminuí bem a velocidade, espiando por cima do volante para ver se estava na

altura certa da rua escura.

O vagão brilhava no meio do campo escuro, lançando uma luz dourada

através das janelas sobre a lama e o gramado. Vislumbrei a moto dele na outra

ponta do portão, sob o abrigo atrás da cerca. Havia até algumas luzinhas de Natal no espinheiro da frente. Sam já tinha chegado em casa.

Parei o carro, desliguei os faróis e fiquei olhando. Então, num ímpeto, peguei

o celular. Muito ansiosa para ver você, digitei. Falta pouco agora! Bj Depois de alguns segundos veio a resposta: Eu também. Bom voo. Bj

Sorri. Então saí do carro, percebendo tarde demais que havia estacionado em uma poça, por isso a água fria e lamacenta entrou no meu sapato.

— Ah, valeu, universo — sussurrei. — Belo toque.

Coloquei meu chapéu de Papai Noel escolhido com esmero e peguei a meia

de Sam no banco do carona, então fechei a porta devagarzinho, trancando-a manualmente para não fazer o barulho do alarme e denunciar que eu já havia

chegado.

Meus passos fizeram barulho enquanto caminhei na ponta dos pés pela lama,

e me lembrei da primeira vez que estivera ali — eu fiquei ensopada por causa

de uma tromba d’água e acabei usando as roupas dele, deixando as minhas para

secar no banheirinho abafado. Aquela foi uma noite extraordinária, como se ele

tivesse retirado toda as camadas que a morte de Will havia criado ao meu redor.

Tive um flashback do nosso primeiro beijo, da sensação das imensas meias dele

nos meus pés gelados, e um arrepio quente percorreu meu corpo.

Abri o portão, percebendo, aliviada, que ele havia feito um caminho

rudimentar de lajes de pavimento até o vagão desde a última vez que eu estivera ali. Um carro passou por mim e, com a breve iluminação dos faróis, vi a

casa parcialmente construída de Sam à minha frente, agora com o telhado e algumas janelas já instalados. Onde ainda faltava uma janela, uma lona azul se

mexia de leve na abertura, de modo que a casa, de forma repentina e espantosa,

parecia algo real. Um lugar onde poderíamos morar um dia.

Dei mais alguns passos na ponta dos pés e então parei perto da porta. Por uma janela aberta senti um cheiro intenso de comida — seria um cozido? —, de

tomate com um toque de alho. Fiquei inesperadamente com fome. Sam nunca comia macarrão de pacote ou feijão enlatado: tudo era preparado do zero, como

se ele tivesse prazer em fazer as coisas metodicamente. Aí eu o vi — ainda de

uniforme —, com um pano de prato pendurado no ombro, parando para

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conferir uma panela e, por apenas um instante, eu fiquei ali parada no escuro,

sem ser vista, e me senti absolutamente tranquila. Ouvi a brisa distante nas árvores, o cocoricar baixinho das galinhas trancadas no galinheiro, o zumbido longínquo do tráfego em direção à cidade. Senti o ar fresco na pele e o sabor da

expectativa natalina no ar que eu respirava.

Tudo era possível. Era o que eu tinha aprendido naqueles últimos meses. A

vida podia ter sido complicada, porém, no fim, éramos apenas eu e o homem que eu amava, o vagão dele e a perspectiva de uma noite divertida. Respirei fundo, me permitindo saborear o pensamento, dei um passo à frente e coloquei

a mão na maçaneta da porta.

E então eu a vi.

Ela atravessou o vagão dizendo algo que não entendi, a voz abafada pelos vidros, o cabelo preso para cima, os cachos macios caindo ao redor do rosto. Ela

estava usando uma camiseta masculina — dele? — e com uma garrafa de vinho

na mão, eu vi Sam balançando a cabeça. E então, quando ele se inclinou sobre o

fogão, ela se aproximou por trás e colocou as mãos em seu pescoço, se inclinando na direção dele e esfregando os músculos com os polegares, um movimento que parecia uma consequência da intimidade. As unhas dos

polegares dela tinham sido pintadas de rosa-escuro. Enquanto eu estava parada

ali, sem ar, ele jogou a cabeça para trás, com os olhos fechados, como que se rendendo às mãozinhas intensas dela.

E então ele se virou para encará-la, sorrindo, com a cabeça inclinada, e ela recuou, dando risada, erguendo a taça para ele.

Não vi mais nada. Meu coração estava batendo tão forte nos meus ouvidos que achei que fosse desmaiar. Cambaleei para trás, então me virei e voltei correndo pelo caminho, ofegante e com os pés gelados nos sapatos molhados.

Embora meu carro estivesse a uns cinquenta metros de distância, escutei a risada repentina dela ecoar através da janela aberta, como vidro estilhaçando.

* * *

Fiquei dentro do carro no estacionamento atrás do meu prédio até ter certeza

de que Thom já tinha ido dormir. Eu não conseguiria esconder o que estava sentindo e não suportaria explicar a situação a Treena na frente dele. Olhei para

cima algumas vezes, vendo a luz do quarto dele se acender e, então, meia hora

mais tarde, ser apagada. Desliguei o motor e deixei que parasse de fazer barulho. Enquanto ele morria, o mesmo acontecia com todos os sonhos a que eu

vinha me apegando.

Eu não deveria estar surpresa. Por que estaria? Katie Ingram havia colocado

as cartas na mesa desde o início. O que me chocou foi a cumplicidade de Sam.

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Ele não a havia dispensado. Ele tinha respondido a minha mensagem e depois

cozinhado para ela e a deixado massagear seu pescoço, e isso era uma

preparação para... para o quê?

Toda vez que imaginava os dois juntos, meu estômago se revirava, meu

corpo se curvava, como se tivesse levado um soco. Eu não conseguia esquecer

aquela imagem. A maneira como ele inclinou a cabeça com a pressão dos dedos

dela. A risada dela confiante, provocadora, como se aquela fosse uma piada interna dos dois.

O mais estranho era eu não conseguir chorar. O que estava sentindo era maior do que dor. Eu estava entorpecida, com a cabeça zumbindo de perguntas

— Há quanto tempo? Até que ponto? Por quê? —, e então me curvava de novo, querendo vomitar, pensando naquela nova informação, naquele golpe pesado,

naquela dor, naquela dor, naquela dor.

Não sei bem por quanto tempo fiquei ali sentada, mas, por volta das dez da

noite, subi devagar a escada e entrei no apartamento. Tinha esperança de Treena já estar dormindo, porém ela estava assistindo ao noticiário de pijama,

com o laptop no colo. Estava sorrindo para a tela e levou um baita susto quando

abri a porta.

— Meu Deus, você quase me matou de susto... Lou? — perguntou ela, empurrando o laptop para o lado. — Lou? Ah, não...

É sempre a gentileza que acaba com a gente. Minha irmã, uma mulher que considerava o contato físico entre adultos algo mais desconfortável do que um

tratamento dentário, me envolveu com os braços e, de algum lugar inesperado

que parecia estar no fundo de mim, brotaram soluços e lágrimas imensos, sem

fôlego e pesados. Chorei de um jeito que não chorava desde a morte de Will, soluços que continham a morte dos sonhos e o pavor da mágoa que eu

encararia pelos próximos meses. Afundamos lentamente no sofá, e eu enterrei o

rosto no ombro dela e a abracei. Dessa vez, minha irmã encostou a cabeça na minha e não me soltou.

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Nem Sam nem meus pais esperavam me ver pelos dois dias seguintes, então foi

fácil ficar escondida no apartamento e fingir que eu não estava lá. Não me sentia

pronta para ver ninguém. Não estava pronta para falar com ninguém. Quando Sam me mandou mensagens de texto, eu ignorei, imaginando que ele acreditaria

que eu estava trabalhando feito louca em Nova York. Fiquei olhando várias vezes para as duas mensagens dele — “O que você quer fazer no Natal? Ir à igreja? Ou está cansada demais?” e “Vamos nos ver no dia 26?” — e fiquei espantada com o fato de aquele homem, aquele homem completamente direto e

respeitável, ter adquirido uma capacidade tão descarada de mentir para mim.

Durante aqueles dois dias, eu abria um sorriso forçado nos momentos em

que Thom estava no apartamento, fechando o sofá-cama enquanto ele

conversava durante o café da manhã e desaparecendo para tomar banho. No instante em que ele saía, eu voltava para o sofá e ficava deitada ali, olhando fixamente para o teto, lágrimas escorrendo dos cantos dos olhos, ou remoendo

friamente as várias maneiras como eu parecia ter entendido tudo errado.

Será que eu tinha mergulhado de cabeça em um relacionamento com Sam

porque ainda estava de luto por Will? Será que eu chegara a conhecê-lo de verdade? Nós vemos o que queremos ver, afinal, ainda mais quando somos cegados pela atração física. Ele fez o que fez por causa de Josh? Por causa do teste de gravidez de Agnes? Na realidade, precisava haver um motivo? Eu não

confiava mais em minha própria capacidade de julgamento para saber.

Pela primeira vez na vida, Treena não ficou insistindo para que eu levantasse

da cama ou fizesse algo construtivo. Ela balançava a cabeça, incrédula, e xingava

Sam quando Thom não estava por perto. Mesmo nas profundezas de minha

infelicidade, eu me via pensando na aparente capacidade de Eddie de incutir algo semelhante a empatia em minha irmã.

Nem uma vez ela disse que aquilo não era uma grande surpresa,

considerando que eu estava morando a tantos quilômetros de distância, nem que eu com certeza tinha feito algo para empurrá-lo para os braços de Katie Ingram ou que tudo aquilo era inevitável. Treena me ouviu quando contei sobre

os acontecimentos que haviam levado até aquela noite e se certificou de que eu

comesse, tomasse banho e me vestisse. E, embora não fosse muito de beber, ela

levou duas garrafas de vinho para casa, dizendo que achava que eu tinha direito

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a uns dias de drama (mas acrescentou que, se eu vomitasse, eu mesma teria que

limpar).

Quando a véspera de Natal chegou, eu havia desenvolvido uma casca dura, uma carapaça. Estava me sentindo uma estátua de gelo. Sabia que precisaria conversar com ele em algum momento, mas ainda não estava pronta. Não tinha

certeza se algum dia estaria.

— O que você vai fazer? — perguntou Treena, sentada no vaso sanitário

enquanto eu tomava banho de banheira.

Ela só veria Eddie no dia do Natal e estava pintando as unhas dos pés de um

tom claro de cor-de-rosa para se preparar, embora não admitisse. Na sala de estar, Thom estava com a televisão ligada em um volume ensurdecedor,

pulando no sofá com um entusiasmo pré-natalino.

— Eu estava pensando que podia simplesmente dizer a ele que perdi o voo. E

que a gente se falaria depois do Natal.

Ela fez uma careta.

— Não é melhor você simplesmente falar com ele? Ele não vai acreditar

nisso.

— Neste exato momento, não estou muito preocupada com o que ele

acredita. Só quero passar o Natal com minha família e sem drama.

Afundei na água para não escutar Treena gritando para Thom baixar o

volume da TV.

Ele não acreditou em mim. A mensagem de texto dizia: O quê? Como você perdeu o voo?

Simplesmente perdi, digitei. Vejo você no dia 26.

Notei tarde demais que eu não tinha incluído nenhum beijo na mensagem.

Houve um longo silêncio, e então uma resposta monossilábica: Ok.

* * *

Treena nos levou de carro até Stortfold, com Thom pulando no banco traseiro

durante toda a hora e meia que demoramos para chegar lá. Ouvimos canções natalinas no rádio e falamos pouco. Estávamos a menos de dois quilômetros da

cidade quando eu agradeci pela consideração e ela sussurrou que não era por

mim: Eddie também ainda não havia conhecido a mamãe e o papai, então o estômago dela estava se revirando só de pensar no dia de Natal.

— Vai dar tudo certo — falei.

O sorriso dela não foi muito convincente.

— Ah, deixa disso. Eles gostaram daquele contador com quem você saiu no

começo do ano. E, para ser sincera, Treen, você está solteira há tanto tempo que

acho que pode trazer qualquer um que não seja Átila, o Huno, que eles vão fevereiro/2018

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adorar.

— Bem, essa teoria está prestes a ser testada.

Paramos antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. Conferi meus olhos,

que ainda estavam do tamanho de ervilhas de tanto que eu havia chorado, e saí

do carro. Minha mãe apareceu na porta da frente, veio correndo em nossa direção como uma velocista no início da corrida. Jogou os braços ao meu redor,

abraçando-me com tanta força que senti seu coração batendo forte.

— Olhe para você! — exclamou ela, segurando-me à sua frente antes de me

puxar para perto de novo.

Ela afastou uma mecha de cabelo do meu rosto e se virou para meu pai, que

estava parado na entrada, os braços cruzados, sorrindo.

— Que linda que você está! Bernard! Veja como ela está incrível! Ah, nós sentimos tanto a sua falta! Você perdeu peso? Parece ter emagrecido. Está com

cara de cansada. Precisa comer alguma coisa. Entre. Aposto que não lhe deram

café da manhã no avião. Ouvi dizer que é tudo ovo em pó, de qualquer maneira.

Mamãe abraçou Thom e, antes que meu pai se aproximasse, ela pegou

minhas bolsas e voltou marchando pelo caminho, pedindo que a seguíssemos.

— Oi, querida — disse papai, baixinho, e eu me deixei envolver pelos braços

dele.

Enquanto ele me abraçava, finalmente me permiti soltar o ar.

* * *

Vovô não conseguira chegar até a porta da casa. Tivera outro pequeno derrame,

mamãe sussurrou, e agora estava com dificuldade para se levantar ou caminhar,

então passava a maior parte do dia na poltrona de espaldar reto da sala de estar. (“Não queríamos preocupar você.”) Ele estava elegante, com uma camisa

e um pulôver em homenagem à ocasião, e deu um sorriso torto quando entrei.

Ergueu uma das mãos, trêmula, e eu o abracei, percebendo que ele parecia menor. Mas, para ser sincera, tudo parecia menor. A casa dos meus pais, com o

papel de parede de vinte anos antes, os quadros escolhidos menos por motivos

estéticos e mais porque eram presentes de alguém querido ou porque serviam

para cobrir defeitos nas paredes, as poltronas e o sofá combinando, a pequena

área de jantar, onde as cadeiras batiam nas paredes se empurradas muito para

trás, e um lustre no teto que ficava a poucos centímetros da cabeça de meu pai.

Distraída eu me peguei comparando a casa ao grandioso apartamento, com seus

muitos metros de pisos polidos, os tetos imensos e ornamentados, o movimento

intenso de Manhattan do lado de fora. Pensara que talvez me sentisse

reconfortada por estar em casa. Em vez disso, senti-me sem chão, como se de repente me ocorresse que, naquele momento, eu não pertencia a lugar algum.

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* * *

Comemos um jantar leve: rosbife, batatas, pudding de Yorkshire e torta inglesa, apenas uma coisinha que mamãe tinha “dado um jeitinho” de preparar antes do

evento principal do dia seguinte. Papai estava mantendo o peru na cabana, já que não cabia na geladeira, e saía a cada meia hora para verificar se não havia

acabado nas garras de Houdini, o gato do vizinho. Mamãe nos fez um resumo de

todas as diversas tragédias que haviam se abatido sobre nossos vizinhos:

— Bem, é claro, isso foi antes da herpes-zóster do Andrew. Ele me mostrou a

barriga. Fiquei enjoada de olhar. E eu falei para a Dymphna que ela precisa colocar os pés para o alto antes de o bebê nascer. Sinceramente, as varizes dela

parecem um mapa das estradas secundárias dos Chilterns. Eu contei que o pai

da Sra. Kemp morreu? Foi ele que ficou preso por quatro anos por assalto à mão

armada antes de descobrirem que, na verdade, o culpado era o homem dos correios que usava a mesma peruca.

Mamãe continuou tagarelando sem parar.

Foi só quando começou a tirar a mesa que papai se inclinou na minha direção

e disse:

— Acredita que ela está nervosa?

— Nervosa por quê?

— Por você. Tudo o que você conquistou. Ela estava com um pouco de medo

de que você não quisesse voltar para cá. Que passasse o Natal com seu namorado e voltasse direto para Nova York.

— Por que eu faria isso?

Ele deu de ombros.

— Não sei. Ela achou que você poderia ter se afastado de nós, ficado

importante demais. Eu disse que ela estava sendo boba. Não entenda isso errado, querida. Ela tem muito orgulho de você. Imprime todas as suas fotos, coloca em um álbum e enche a paciência dos vizinhos para mostrá-las. Para ser

sincero, até eu fico meio entediado de tanto ver as fotos, e olha que sou seu pai.

Ele sorriu e apertou meu ombro.

Senti um pouco de vergonha com o tanto de tempo que eu pretendera passar

na casa de Sam. Eu havia planejado deixar a mamãe cuidando de todas as coisas

do Natal, da minha família e do meu avô, como sempre fiz.

Deixei Treena e Thom com papai e levei o resto dos pratos até a cozinha, onde mamãe e eu lavamos tudo em um silêncio amigável por um tempo. Então

ela se virou para mim.

— Você parece cansada, querida. É por causa do voo, da mudança de fuso horário?

— Um pouco.

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— Vá sentar com os outros. Eu cuido disto.

Forcei-me a endireitar os ombros.

— Não, mamãe. Faz meses que não nos vemos. Por que você não conta o que

está acontecendo? Como vão as suas aulas noturnas? E o que o médico disse sobre o vovô?

* * *

A noite se estendeu, a televisão ficou ligada no canto da sala, e a temperatura subiu até estarmos todos semicomatosos, acariciando a barriga feito grávidas, como era inevitável depois de um dos jantares leves da minha mãe. A ideia de

que faríamos aquilo de novo no dia seguinte fez meu estômago se revirar um pouco em protesto. Vovô caiu no sono na poltrona, e o deixamos lá enquanto fomos à missa da meia-noite. Fiquei de pé na igreja, cercada por pessoas que conhecia desde pequena acenando e sorrindo para mim, cantei as canções

natalinas de que me lembrava, apenas mexi a boca durante as que não lembrava

e tentei não pensar no que Sam estava fazendo naquele exato momento — o que

eu fazia aproximadamente cento e dezoito vezes por dia. De vez em quando, os

olhos de Treena cruzavam com os meus e ela me dava um sorrisinho

encorajador, que eu respondia com outro, como que dizendo Estou bem, está tudo bem, embora não estivesse. Foi um alívio me retirar para o quarto quando voltamos. Talvez tenha sido por eu estar na casa da minha infância, ou por estar

exausta após três dias de grandes emoções, mas dormi profundamente pela

primeira vez desde que chegara à Inglaterra.

* * *

Eu tinha a vaga consciência de que Treena havia acordado às cinco da manhã e

de que eu ouvira batidas empolgadas e, em seguida, papai gritando para Thom

que ainda estava de madrugada e que, se não voltasse para a cama, ele diria para o Papai Noel levar todos os presentes de volta . Da próxima vez que acordei, minha mãe estava colocando uma caneca de chá na minha mesa de cabeceira e me pedindo para eu me vestir, porque íamos começar a abrir os presentes. Eram onze e quinze.

Peguei o relógio ao lado da cama, apertei os olhos e o chacoalhei.

— Você estava precisando — disse ela, acariciando minha cabeça e saindo para cuidar das coisas.

Desci vinte minutos depois usando o suéter de rena com focinho iluminado

que havia comprado na Macy’s porque sabia que Thom iria gostar. Todos já tinham descido, estavam arrumados e haviam tomado café da manhã. Dei um fevereiro/2018

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beijo em cada um e desejei um feliz Natal, acendi e apaguei o focinho da rena e

distribuí meus presentes, sempre tentando não pensar no homem que deveria

ganhar o suéter de caxemira e a camisa de flanela xadrez muito macia que estavam no fundo da minha mala.

Eu não ia pensar nele hoje, disse a mim mesma com firmeza. O tempo com minha família era precioso, e eu não iria estragá-lo me sentindo triste.

Todos gostaram de meus presentes, que aparentemente se tornaram mais

atrativos por serem de Nova York, mesmo que eu tivesse certeza de que era possível comprar basicamente as mesmas coisas na Argos.

— De Nova York! — dizia mamãe, maravilhada, depois de cada item ser

desembrulhado, até Treena revirar os olhos e Thom começar a imitá-la.

É claro que o presente mais apreciado foi o mais barato: um globo de neve de

plástico que comprei em uma banca para turistas na Times Square. Eu tinha certeza de que ele estaria vazando na cômoda de Thom antes de a semana terminar.

Em troca, ganhei:

Meias do vovô (99% de certeza de que haviam sido escolhidas e compradas

por minha mãe).

Sabonetes do papai (idem).

Um pequeno porta-retratos prateado com uma foto de nossa família (“Para

você poder nos levar aonde for”, disse mamãe. Papai: “Por que ela iria querer fazer isso? Ela foi para Nova York para ficar longe da gente”.)

Um aparelho para tirar pelos do nariz, de Treena. (“Não olhe para mim

desse jeito. Você está chegando nessa idade.”)

Um desenho de uma árvore de Natal com um poema escrito embaixo de

Thom. Ao questionar, descobri que ele não havia realmente feito aquilo.

“Nossa professora disse que não colocamos os enfeites nos lugares certos,

então ela fez a árvore e nós só assinamos nossos nomes.”

Ganhei também um presente de Lily, deixado no dia anterior, antes que ela e a

Sra. Traynor fossem esquiar. (“Ela parece bem, Lou. Embora deixe a Sra.

Traynor exausta, pelo que ouvi falar.”) Um anel vintage, com uma pedra verde

imensa em uma estrutura de prata que serviu perfeitamente no meu dedo

mindinho. Eu tinha mandado para ela um par de brincos de prata que pareciam

algemas, que a vendedora da loja assustadoramente moderna do SoHo havia

garantido serem perfeitos para uma adolescente. Ainda mais para uma

adolescente que agora parecia gostar de piercings em lugares inesperados.

Agradeci a todos e fiquei observando vovô cair no sono. Sorri e acho que passei a impressão de estar gostando do dia. Mas mamãe não se deixou

enganar.

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— Está tudo bem, querida? Você parece muito desanimada.

Ela derramou gordura de ganso em cima das batatas e deu um passo para trás por causa dos respingos quentes.

— Ah, olha só isso! Vão ficar muito crocantes.

— Eu estou ótima.

— Ainda o fuso horário? O Ronnie, que mora a três casas daqui, disse que quando foi à Flórida levou três semanas para parar de dar com a cara na parede.

— É basicamente isso.

— Não acredito que tenho uma filha com problemas de fuso horário. Todo mundo no clube está morrendo de inveja, sabia?

Ergui os olhos.

— Vocês voltaram para lá?

Depois que Will pôs fim à própria vida, meus pais foram banidos do clube do

qual eram sócios fazia anos, sendo indiretamente culpados por minha decisão de concordar com o plano dele. Era uma das muitas coisas pelas quais eu me sentia culpada.

— Bem, aquela Marjorie se mudou para Cirencester. Você sabe que ela era a

maior fofoqueira. Então Stuart, da oficina mecânica, disse a seu pai que ele deveria aparecer para jogar sinuca um dia. Assim, casualmente. E deu tudo certo.

Ela deu de ombros.

— E, sabe, já faz alguns anos que tudo aquilo aconteceu. As pessoas têm outras coisas em que pensar.

Continuar: parte 10 de 16