Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 6/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

emocionante do planeta; mas, alguns dias, sentia que minha vida tinha

encolhido: da limusine para o apartamento; do apartamento de volta para a limusine.

— Você trabalha para os Gopnik há muito tempo?

Garry lentamente misturou dois pacotinhos de açúcar no café, apertando as

embalagens com o punho gordo.

— Um ano e meio.

— Para quem você trabalhava antes?

— Outra pessoa.

Tomei um gole do café, que estava surpreendentemente bom.

— Você não se importa?

Ele me olhou por debaixo das sobrancelhas grossas.

— De passar o tempo assim? — esclareci. — Quer dizer... ela faz muito isso?

Ele continuou mexendo o café e voltou o olhar para a xícara.

— Garota — disse, depois de um minuto. — Não quero ser grosseiro. Mas dá

para perceber que você não está há muito tempo nesse tipo de trabalho, e você

vai durar muito mais se não fizer perguntas. — Ele se recostou na cadeira, sua

barriga volumosa se espalhando devagar. — Sou o motorista. Estou aqui

quando precisam de mim. Falo quando falam comigo. Não vejo nada, não ouço

nada, esqueço tudo. É por isso que estou neste ramo há trinta e dois anos e foi

por isso que mandei dois filhos ingratos para a universidade. Em dois anos e meio, me aposento e me mudo para minha casa de praia na Costa Rica. É assim

que se faz.

Ele limpou o nariz com um guardanapo de papel, fazendo a papada vibrar.

— Entendeu?

— Não ver nada, não ouvir nada...

— ... esquecer tudo. Já entendeu. Quer um donut? Fazem uns donuts gostosos

aqui. Saem fresquinhos o dia todo.

Ele se levantou e andou pesadamente até o balcão. Quando voltou, não me disse mais nada, apenas assentiu, satisfeito, quando eu falei que, sim, os donuts

eram mesmo muito bons.

* * *

Agnes não disse nada quando se juntou a nós de novo. Após alguns minutos, perguntou:

— Leonard ligou? Sem querer desliguei meu telefone.

— Não.

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— Ele deve estar no escritório. Vou ligar para ele. — Ela arrumou o cabelo e

depois se recostou no assento. — Foi uma aula ótima. Sinto que estou

aprendendo muitas coisas. Steven é um artista muito bom — comentou.

Só quando estávamos a meio caminho de casa percebi que ela não tinha

trazido nenhum desenho.

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11

Querido Thom,

Estou mandando um boné porque Nathan e eu fomos a um jogo de

beisebol de verdade ontem, e todos os jogadores usavam boné (na realidade

usavam capacetes, mas essa é a versão tradicional). Comprei um para você e

outro para alguém que eu conheço. Peça para a sua mãe tirar uma foto de

você com o boné para eu pendurar na minha parede!

Não, acho que não tem nenhum caubói nesta parte dos Estados Unidos,

infelizmente. Mas hoje vou a um clube de campo e vou ficar de olho para o

caso de aparecer algum caubói cavalgando. Obrigada pelo desenho muito bonito do meu popô e meu cachorro imaginário. Eu não tinha percebido que

meu bumbum ficava com aquele tom de roxo embaixo da calça, mas vou levar isso em conta se algum dia for passear pelada pela Estátua da Liberdade, como está no desenho.

Talvez a sua versão de Nova York seja ainda mais emocionante do que a

cidade de verdade.

Com amor.

Bjs, Tia Lou

* * *

O clube Grand Pines se estendia por quilômetros de uma área exuberante, com

árvores e campos em ondulações tão perfeitas e em tonalidades tão vivas de verde que pareciam saídos da imaginação de um menino de sete anos pintando

com giz de cera.

Em um dia fresco e de céu aberto, Garry nos levou devagar pelo longo

caminho, e, quando o carro parou diante do extenso prédio branco, um jovem

de uniforme azul-claro se adiantou e abriu a porta de Agnes.

— Bom dia, Sra. Gopnik. Como vai a senhora?

— Muito bem, obrigada, Randy. E você, como está?

— Não podia estar melhor, madame. Lá dentro já está enchendo. Grande dia!

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Como o Sr. Gopnik tinha ficado preso no trabalho, coube a Agnes entregar a

Mary, uma das funcionárias antigas do clube, um presente pela aposentadoria.

Durante a maior parte da semana, Agnes deixara claro como se sentia por ter que fazer isso. Ela detestava o clube. Os amigos da ex-Sra. Gopnik estariam lá. E

Agnes detestava falar em público. Ela não conseguiria fazer aquilo sem Leonard.

No entanto, dessa vez ele foi irredutível. Isso vai ajudá-la a tomar posse do seu espaço, querida. E Louisa estará lá com você.

Ensaiamos o discurso dela e traçamos um plano. Chegaríamos ao Grande

Salão o mais tarde possível, no último minuto antes de as entradas serem servidas para que pudéssemos nos sentar nos desculpando, culpando o trânsito

de Manhattan. Às duas da tarde, depois do café, Mary Lander, a aposentada em

questão, ficaria de pé, e algumas pessoas fariam comentários gentis sobre ela.

Então Agnes se levantaria, pediria desculpas pela ausência inevitável do Sr.

Gopnik e diria mais algumas palavras agradáveis sobre Mary antes de lhe entregar o presente de aposentadoria. Permaneceríamos por mais uma meia

hora diplomática e depois iríamos embora, alegando assuntos importantes a resolver na cidade.

— Esse vestido está bom?

Ela estava com um conjunto inusitadamente conservador: um vestido reto

fúcsia com um bolero mais claro de manga curta e colar de pérolas. Não era seu

estilo habitual, porém compreendi que ela precisava se sentir dentro de uma armadura.

— Está perfeito.

Ela respirou fundo e eu sorri para lhe incentivar um pouco. Então Agnes agarrou a minha mão e a apertou.

— Vamos entrar lá e logo depois sair — falei. — Não tem nada de mais.

— Dois grandes dane-se — murmurou ela, dando um leve sorriso.

A construção em si era clara e espaçosa, pintada de creme, com imensos vasos de plantas e reproduções de móveis antigos por toda parte. Os corredores

revestidos de carvalho, os retratos dos fundadores nas paredes e os

funcionários silenciosos transitando de um cômodo para outro eram

acompanhados pelo burburinho abafado de conversas em voz baixa e pelo

tilintar ocasional de um copo ou uma xícara de café. Tudo era lindo de se ver e

toda necessidade parecia ser prontamente atendida.

O Grande Salão estava cheio, com cerca de sessenta mesas redondas

decoradas com elegância, repletas de mulheres bem-vestidas, conversando por

cima de copos de água mineral sem gás ou ponche. Os cabelos seguiam o mesmo

padrão — todas as mulheres tinham feito escova — e o traje adotado era dispendiosamente elegante — vestidos bem-cortados com jaquetas bouclé ou peças separadas combinadas com esmero. O ar estava pesado com a mistura inebriante de perfumes. Em algumas mesas, havia um homem solitário rodeado

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de mulheres, porém eles pareciam estranhamente assexuados em uma sala com

uma presença feminina tão predominante.

Para um observador distraído — ou talvez um homem comum —, quase

nada pareceria fora de lugar: movimentos suaves de cabeça, uma redução no barulho conforme passamos, um ligeiro franzir de lábios. Eu estava andando atrás de Agnes, que estancou de repente, fazendo com que eu quase batesse em

suas costas. Então vi a disposição da mesa: Tabitha, um jovem, um homem mais

velho, duas mulheres que não reconheci e, ao meu lado, uma mulher mais velha,

que ergueu a cabeça e fuzilou Agnes com o olhar. Quando o garçom se adiantou

e puxou a cadeira, Agnes se sentou de frente para o Alerta Roxo em pessoa, Kathryn Gopnik.

— Boa tarde — cumprimentou Agnes de forma abrangente, a todos na mesa,

conseguindo não olhar para a primeira Sra. Gopnik.

— Boa tarde, Sra. Gopnik — respondeu o homem sentado ao meu lado.

— Sr. Henry — retribuiu Agnes, com um sorriso hesitante. — Tab. Você não

contou que viria hoje.

— Não sabia que tínhamos que informar a você todos os nossos passos. Nós

temos, Agnes? — provocou Tabitha.

— E você, quem é?

O cavalheiro mais velho à minha direita se virou para mim. Quase respondi

que era uma amiga de Agnes de Londres, mas percebi que isso seria impossível.

— Sou Louisa — respondi. — Louisa Clark.

— Emmett Henry — disse ele, estendendo a mão enrugada. — Encantado em

conhecê-la. Esse sotaque é inglês?

— É, sim.

Olhei para cima para agradecer ao garçom que me servia água.

— Que encantador. E você está aqui a passeio?

— Louisa trabalha como assistente de Agnes, Emmett.

A voz de Tabitha se elevou na mesa.

— Agnes criou o extraordinário hábito de trazer os funcionários para

eventos sociais.

Minhas bochechas coraram. Senti o peso da análise minuciosa de Kathryn

Gopnik, junto com os olhares do restante da mesa.

Emmett refletiu por um instante.

— Bem, sabe, minha Dora levava Libby, a enfermeira, a absolutamente todos

os lugares nos seus dez últimos anos. A restaurantes, ao teatro, aonde quer que

nós fôssemos. Ela dizia que a velha Libby era uma interlocutora melhor do que

eu.

Ele deu um tapinha na minha mão e soltou um risinho, e várias pessoas na

mesa amavelmente fizeram o mesmo.

— Ouso dizer que ela estava certa.

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E assim fui salva da condenação social por um homem de oitenta e seis anos.

Emmett Henry conversou comigo enquanto comíamos a entrada de camarão,

contando-me sobre sua longa sociedade no clube, os anos em que atuou como

advogado em Manhattan, a aposentadoria passada em uma instituição para

idosos perto dali.

— Eu venho aqui todos os dias, sabe. Me mantém ativo, e sempre tem gente

com quem conversar. É minha casa fora de casa.

— É lindo — elogiei, olhando para trás. Na mesma hora várias cabeças

viraram para o outro lado. — Entendo por que o senhor gosta de vir aqui.

Por fora, Agnes parecia serena, porém percebi que suas mãos tremiam de

leve.

— Ah, este é um prédio histórico, querida. — Emmett indicou o lado da sala

onde havia uma placa. — Foi construído em... — disse, fazendo uma pausa para causar impacto; então pronunciou devagar: — 1937.

Não quis contar a ele que na nossa rua na Inglaterra havia uma habitação social ainda mais antiga. Acho que minha mãe até tinha um par de meias mais

velhas do que isso. Assenti, sorri, comi meu frango com cogumelos selvagens e

tentei pensar em alguma maneira de me aproximar de Agnes, que estava

claramente infeliz.

A refeição se arrastou. Emmett me contou histórias intermináveis sobre o clube e coisas divertidas ditas e feitas por pessoas de quem eu nunca ouvira falar, e de vez em quando Agnes erguia o olhar e eu sorria para ela, mas era perceptível que ela estava mal. As pessoas espiavam a nossa mesa e

cochichavam. As duas Sras. Gopnik sentadas a centímetros de distância uma da outra! Dá para imaginar?! Depois do prato principal, pedi licença e me levantei.

— Agnes, você se importaria de me mostrar onde fica o toalete? — perguntei.

Achei que mesmo dez minutos longe daquela sala já ajudariam.

Antes que ela pudesse responder, Kathryn Gopnik colocou o guardanapo na

mesa e se virou para mim.

— Eu mostro, querida. Estou indo na mesma direção.

Ela pegou a bolsa e parou do meu lado, aguardando. Olhei para Agnes, mas

ela não se mexeu. Depois fez que sim com a cabeça.

— Vá. Eu vou... terminar meu frango — disse ela.

Segui Kathryn entre as mesas do Grande Salão até o corredor, com os

pensamentos frenéticos. Atravessamos o corredor acarpetado, eu alguns passos

atrás dela, e paramos diante do toalete. Ela abriu a porta de mogno e recuou um

passo, me dando passagem.

— Obrigada — murmurei, e entrei em uma cabine.

Eu nem estava com vontade de fazer xixi. Sentei no vaso: se eu ficasse lá um

bom tempo, talvez ela fosse embora antes de eu sair da cabine, mas, quando saí,

vi que estava em frente às pias, retocando o batom. Ela olhou para mim fevereiro/2018

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enquanto eu lavava as mãos.

— Então você mora na minha antiga casa — comentou.

— Moro.

Não havia muito sentido em mentir. Ela franziu os lábios e então, satisfeita,

guardou o batom.

— Tudo isso deve ser muito constrangedor para você.

— Só estou fazendo o meu trabalho.

— Hum.

Ela pegou uma escova pequena na bolsa e a passou de leve no cabelo. Fiquei

na dúvida se seria grosseiro sair do banheiro sozinha e se a etiqueta pregava que eu também deveria voltar para a mesa com ela. Enxuguei as mãos e me inclinei em direção ao espelho, vendo se o rímel tinha borrado para poder enrolar o máximo possível.

— Como está o meu marido?

Pisquei.

— Leonard. Como ele está? — insistiu ela. — Com certeza não será nenhuma

grande traição você me contar como ele está.

O reflexo dela me encarava.

— Eu... eu não o vejo muito. Mas ele parece estar bem.

— Fiquei me perguntando por que ele não veio. Se a artrite piorou de novo.

— Ah. Não. Acho que ele tinha um compromisso de trabalho hoje.

— Um “compromisso de trabalho”. Bem, acho que isso é uma boa notícia,

afinal de contas.

Kathryn guardou a escova com cuidado na bolsa e tirou um pó compacto.

Deu duas batidinhas em cada lado do nariz e o fechou. Eu estava ficando sem ter

o que fazer. Vasculhei minha bolsa, tentando lembrar se tinha trazido pó compacto. E então Kathryn se virou para me encarar.

— Ele está feliz?

— Perdão?

— Eu fiz uma pergunta direta.

Meu coração disparou, golpeando freneticamente as minhas costelas.

Sua voz era suave, tranquila.

— Tab não conversa comigo sobre ele. Ela ainda está bem zangada com o pai,

apesar de ser louca por ele. Sempre foi a princesinha do pai. Então acho que ela

não conseguiria me falar o que realmente está acontecendo.

— Sra. Gopnik, com todo o respeito, não acho que seja meu papel...

Ela virou o rosto.

— Não. Acho que não é.

Kathryn guardou o pó compacto na bolsa.

— Sei bem o que devem ter falado de mim para você, Srta...

— Clark.

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— Srta. Clark. Também sei que você tem consciência de que a vida raramente

é preto no branco.

— Eu tenho. — Engoli em seco. — E também sei que Agnes é uma boa

pessoa. Inteligente. Gentil. Culta. Ela não está dando o golpe do baú. Como a senhora disse, essas coisas raramente são preto no branco.

Seus olhos encontraram os meus pelo espelho. Ficamos imóveis por mais

alguns segundos, depois ela fechou a bolsa e, após uma longa conferida no próprio reflexo, deu um sorriso forçado.

— Fico feliz que Leonard esteja bem.

Voltamos para a mesa quando os pratos tinham acabado de ser retirados. Ela não dirigiu mais a palavra a mim pelo restante da tarde.

* * *

As sobremesas foram servidas junto com o café, a conversa diminuiu e o almoço

foi chegando ao fim. Várias idosas receberam ajuda para ir ao toalete, com os andadores abrindo caminho em meio aos delicados movimentos de pernas de

cadeiras. O homem de terno subiu no pequeno palco, suando um pouco no

colarinho, agradeceu a todos pela presença, depois disse algumas palavras sobre os próximos eventos no clube, incluindo uma noite de caridade dali a duas semanas, cujos lugares já estavam todos vendidos (uma salva de palmas celebrou essa notícia). Por fim, disse que eles tinham um anúncio a fazer e indicou a nossa mesa com a cabeça.

Agnes respirou fundo e se levantou, atraindo o olhar de todos. Foi até o palco

e assumiu o lugar do gerente ao microfone. Agnes esperou ele trazer para a frente do salão uma afro-americana idosa vestindo um terno preto. A mulher balançava as mãos, como se todos estivessem fazendo um alarde desnecessário.

Agnes sorriu para ela, respirou fundo, como eu havia pedido, depois colocou os

dois cartões cuidadosamente no suporte e começou a falar, com a voz clara e determinada.

— Boa tarde a todos. Obrigada por virem hoje e obrigada a toda a equipe de

funcionários por um almoço tão delicioso.

A voz dela estava perfeitamente modulada, as palavras polidas como joias após horas de ensaio na semana anterior. Houve um murmúrio de aprovação.

Dei uma espiada em Kathryn, cuja expressão estava indistinguível.

— Como muitos de vocês sabem, hoje é o último dia de Mary Lander no

clube. Gostaríamos de desejar a ela uma aposentadoria muito feliz. Leonard me

pediu para lhe dizer, Mary, que ele sente demais não ter podido vir hoje. Ele é

grato por tudo o que você fez pelo clube e sabe que todos aqui se sentem da mesma forma. — Ela fez uma pausa, como eu havia pedido. O salão estava em

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silêncio e o rosto das mulheres, atento. — Mary começou a trabalhar aqui no Grand Pines em 1967 como ajudante de cozinha e cresceu até se tornar

assistente da gerência. Todos aqui apreciaram muito a sua companhia e seu trabalho árduo ao longo dos anos, Mary, e vamos sentir muito a sua falta. Nós, e

os outros membros deste clube, gostaríamos de lhe oferecer um pequeno

símbolo da nossa gratidão e sinceramente esperamos que a sua aposentadoria

seja o mais prazerosa possível.

Houve uma educada salva de palmas e deram a Agnes uma escultura de vidro

em formato de pergaminho com o nome de Mary gravado. Ela a entregou à mulher mais velha, sorrindo, e ficou imóvel enquanto tiravam fotos. Depois foi

para a ponta da plataforma e voltou para a nossa mesa, com o rosto reluzindo

de alívio por deixar os holofotes. Observei Mary sorrir para mais fotos, dessa vez com o gerente. Eu estava prestes a me inclinar na direção de Agnes para parabenizá-la quando Kathryn se levantou.

— Na verdade — começou ela, a voz interrompendo o burburinho —, eu

gostaria de dizer algumas palavras.

Sob o olhar de todos, Kathryn foi ao palco, onde passou pelo suporte. Pegou o

presente das mãos de Mary e o entregou ao gerente. Depois envolveu as mãos

de Mary com as suas.

— Ah, Mary — disse, se virando para que as duas ficassem voltadas para a

plateia. — Mary, Mary, Mary. Que querida você tem sido.

Houve uma espontânea explosão de aplausos no salão. Kathryn aquiesceu,

aguardando o fim do barulho.

— Ao longo dos anos, minha filha cresceu com você tomando conta dela, e de

nós, durante as centenas, não... as milhares de horas que passamos aqui.

Tempos tão, tão felizes. Se tínhamos o menor dos problemas, você sempre estava lá, resolvendo as coisas, fazendo curativos em joelhos ralados ou colocando gelo em galos na cabeça. Acho que todos nos lembramos do incidente

no ancoradouro! — Houve uma torrente de risadas. — Você amou

principalmente nossos filhos, e este lugar sempre pareceu um santuário para Leonard e para mim porque era o único onde sabíamos que nossa família

estaria segura e feliz. Estes gramados belíssimos presenciaram muitos

momentos maravilhosos e testemunharam muita risada. Enquanto estávamos

fora jogando golfe ou participando de um delicioso coquetel com amigos, você

cuidava de nossos filhos e oferecia aquele inigualável chá gelado. Todos nós amamos o chá gelado especial da Mary, não é, amigos?

Todos gritaram em concordância. Observei Agnes ficando rígida, batendo

palmas roboticamente como se não tivesse muita certeza do que mais poderia

fazer.

Emmett se inclinou para mim.

— O chá gelado de Mary é realmente sensacional. Não sei o que ela coloca fevereiro/2018

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nele, mas, meu Deus, é mortal.

Ele ergueu os olhos para o céu.

— Tabitha veio especialmente da cidade, assim como muitos de nós hoje,

porque sei que ela considera você não apenas uma funcionária deste clube, mas

parte da família. E todos nós sabemos que não há substitutos para a família!

Ousei não olhar para Agnes nessa hora, quando os aplausos explodiram

novamente.

— Mary — continuou Kathryn, quando o salão voltou a ficar em silêncio —,

você ajudou a perpetuar os verdadeiros valores deste lugar, valores que alguns

podem achar antiquados, mas que sentimos que fazem deste clube o que ele é:

solidez, excelência e lealdade. Você tem sido seu rosto sorridente, seu coração pulsante. Sei que falo por todos quando digo que simplesmente este lugar não

será o mesmo sem você.

A idosa estava radiante, com os olhos brilhando por causa das lágrimas.

— Pessoal, encham suas taças e brindemos à nossa maravilhosa Mary.

O salão veio abaixo. Os que podiam se levantaram. Quando Emmett se pôs de

pé com dificuldade, olhei em volta e então, me sentindo de certo modo desleal,

me levantei também. Agnes foi a última a se levantar da cadeira, ainda batendo

palmas e forçando um sorriso educado.

* * *

Há algo de reconfortante em um bar realmente apinhado, onde é preciso enfiar

o braço por uma aglomeração de gente para conseguir a atenção do barman e

onde é uma sorte dois terços de sua bebida permanecerem no copo ao voltar para a mesa. Segundo Nathan, o Balthazar era uma espécie de instituição do SoHo: sempre lotado, sempre divertido, um marco na cena dos bares de Nova York. E, naquela noite, mesmo em um domingo, estava abarrotado, cheio o suficiente para que o barulho, os barmen sempre em movimento, as luzes e o burburinho tirassem os eventos do dia da minha cabeça.

Cada um tomou duas cervejas, em pé no bar, e Nathan me apresentou aos caras que conhecia da academia, cujos nomes eu esqueci quase

instantaneamente, mas que eram engraçados e legais e que precisavam apenas

de uma mulher como pretexto para trocarem insultos divertidos. Lutamos para

conseguir uma mesa, onde bebi mais e comi um cheeseburguer, e com isso me

senti um pouco melhor. Por volta das dez, quando os caras estavam ocupados

grunhindo e trocando impressões com outros frequentadores da academia, com

caretas e veias saltando, eu me levantei para ir ao banheiro. Fiquei dez minutos

lá, desfrutando do relativo silêncio enquanto retocava a maquiagem e ajeitava o

cabelo. Tentei não pensar no que Sam estaria fazendo — isso havia deixado de

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ser um conforto para mim e passado a revirar meu estômago. Então saí para voltar para a mesa.

— Você está me stalkeando?

Girei no corredor. Lá estava Joshua Ryan vestindo camisa e calça jeans, com

as sobrancelhas erguidas.

— O quê? Ah. Oi! — Instintivamente passei a mão no cabelo. — Não... não, eu

só estou aqui com uns amigos.

— É brincadeira. Como você está, Louisa Clark? Aqui é bem longe do Central

Park.

Ele se inclinou para beijar meu rosto. Seu cheiro era delicioso, de cítrico e algo suave e almiscarado.

— Uau. Isso foi quase poético — disse ele.

— Só estou conhecendo todos os bares de Manhattan. Sabe como é.

— Ah, sim. O “tente algo novo”. Você está bonita. Gosto de todo esse... —

disse, apontando para o meu vestido reto e o cardigã de manga curta — estilo

engomadinho.

— Eu tive que ir a um clube hoje.

— Fica bem em você. Quer pegar uma cerveja?

— Eu... eu realmente não posso deixar os meus amigos.

Por um instante, ele pareceu decepcionado.

— Mas, ei, junte-se a nós! — acrescentei.

— Ótimo! Deixe só eu avisar ao pessoal que está comigo. Estou

acompanhando um casal, eles vão gostar de não me ter por perto. Onde fica a

sua mesa?

Abri caminho novamente através da multidão até Nathan, com o rosto

corado e um zumbido baixo nos ouvidos. Não importava que o sotaque dele não

fosse o mesmo, que as sobrancelhas fossem diferentes, que o cantinho dos olhos

não tivesse o desenho correto — era impossível olhar para Josh e não se lembrar de Will. Me perguntei se isso nunca ia deixar de me abalar. Pensei no

meu uso inconsciente da palavra “nunca”.

— Encontrei um amigo! — falei bem na hora que Josh apareceu.

— Um amigo — repetiu Nathan.

— Nathan, Dean, Arun, este é Josh Ryan.

— Você esqueceu o “Terceiro”. — Ele riu para mim, como se tivéssemos

compartilhado uma piada interna. — Oi — cumprimentou Josh, estendendo a

mão e se inclinando para apertar a de Nathan.

Vi os olhos de Nathan o examinarem de cima a baixo e piscarem para mim.

Dei um sorriso neutro, alegre, como se eu fosse amiga de hordas de homens bonitos espalhados por toda Manhattan que queriam se juntar a nós nos bares.

— Alguém quer uma cerveja? — perguntou Josh. — A comida também é

muito boa se alguém se interessar.

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— Um “amigo”? — murmurou Nathan, quando Josh foi ao bar.

— Sim. Um amigo. Nós nos conhecemos no Baile Amarelo. Com Agnes.

— Ele parece o...

— Eu sei.

Nathan refletiu por um instante. Olhou para mim, depois para Josh.

— Todo esse lance de “dizer sim”. Você não...

— Eu amo o Sam, Nathan.

— Claro que você o ama. Só estou falando.

Senti Nathan me observando pelo restante da noite. De alguma maneira, Josh

e eu acabamos na ponta da mesa, distantes de todos os outros, onde

conversamos sobre o trabalho dele e a mistura insana de opiáceos e

antidepressivos com a qual seus colegas de trabalho se entupiam todos os dias

para suportar as demandas do escritório, e como ele estava se esforçando para

não ofender o chefe, que se ofendia fácil, e sempre falhava, e o apartamento que ele nunca teve tempo de decorar e o que tinha acontecido quando sua mãe com

mania de limpeza, que morava em Boston, viera visitá-lo. Fiz que sim com a cabeça, sorri, escutei e tentei garantir que, ao observar seu rosto, fazia isso de uma maneira apropriada e interessada, e não um tanto obsessiva e melancólica

do tipo ah-mas-você-se-parece-tanto-com-ele.

— E você, Louisa Clark? Você não disse quase nada sobre si mesma a noite

toda. Como estão as férias? Quando vai voltar para o trabalho?

O trabalho. Percebi, com dificuldade, que na última vez que nos encontramos,

eu mentira sobre quem era. E também que eu estava bêbada demais para

sustentar qualquer mentira ou para me sentir envergonhada como

provavelmente deveria ficar ao confessar tudo.

— Josh. Preciso contar uma coisa.

Ele se inclinou na minha direção.

— Ah. Você é casada.

— Não.

— Bem, isso já é alguma coisa. Tem uma doença incurável? Só lhe restam semanas de vida?

Fiz que não com a cabeça.

— Está entediada? Você está entediada. Prefere conversar com outra pessoa

agora? Entendi. Eu falei sem parar.

Comecei a rir.

— Não. Não é isso. Você é uma ótima companhia.

Olhei para os meus pés.

— Eu... eu não sou quem disse que era. Não sou uma amiga de Agnes da Inglaterra. Só disse aquilo porque ela precisava de uma aliada no Baile Amarelo.

Sou, bem, sou a assistente dela. Sou só uma assistente.

Quando ergui a cabeça, percebi que ele estava me observando.

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— E?

Eu o encarei. Seus olhos tinham minúsculas manchas douradas.

— Louisa. Estamos em Nova York. Todo mundo aqui se coloca lá em cima.

Todo caixa de banco é vice-presidente júnior. Todo barman tem uma empresa

de produção. Achei que você trabalhasse para Agnes pela forma como corria atrás dela. Nenhuma amiga faz isso. A não ser que seja, tipo, realmente estúpida.

O que você claramente não é.

— E você não se importa?

— Ei. Eu só estou feliz por você não ser casada. A não ser que você seja casada. Essa parte não era mentira também, era?

Ele estava segurando a minha mão. Senti uma leve falta de ar e tive que engolir em seco antes de responder:

— Não. Mas eu tenho namorado.

Ele manteve os olhos fixos nos meus, talvez analisando se eu diria uma frase

impactante, depois soltou minha mão com relutância.

— Ah. Bem, isso é uma pena. — Ele se endireitou na cadeira e tomou um gole

da bebida. — Então por que ele não está aqui?

— Porque ele está na Inglaterra.

— E ele vai se mudar para cá?

— Não.

Joshua fez uma careta, uma do tipo que as pessoas fazem quando acham que

você está fazendo algo idiota, mas não querem dizer isso em voz alta. Ele deu de

ombros.

— Então podemos ser amigos. Você sabe que todo mundo sai com alguém

aqui, certo? Não precisa ser um problema. Eu serei seu acompanhante

masculino incrivelmente bonito.

— Por sair você quer dizer “fazer sexo”?

— Uau. Vocês, garotas inglesas, são muito diretas.

— Só não quero lhe passar a impressão errada.

— Você está me dizendo que não vamos ter uma amizade colorida. Tudo

bem, Louisa Clark. Entendi.

Tentei não sorrir, mas não aguentei.

— Você é muito bonita — disse ele. — E engraçada. E direta. E não é como

nenhuma das garotas que já conheci.

— E você é muito encantador.

— É porque estou um pouco embevecido.

— E eu estou um pouco bêbada.

— Ah, agora fiquei ofendido. Ofendido de verdade — brincou Joshua,

colocando a mão na altura do coração.

Foi nessa hora que virei a cabeça e vi Nathan nos observando. Ele ergueu de

leve a sobrancelha e deu uma batidinha no pulso. Foi o suficiente para me trazer

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de volta à realidade.

— Sabe... tenho mesmo que ir embora. Eu acordo cedo.

— Fui longe demais. Assustei você.

— Ah, eu não me assusto assim tão fácil. Mas amanhã vai ser um dia

complicado no trabalho. E minha corrida matutina não dá muito certo com vários copos de cerveja e uma dose de tequila na cabeça.

— Você vai me ligar? Para uma cerveja platônica? Para eu poder curtir você

um pouco?

— Preciso avisá-lo: na Inglaterra “curtir” tem um significado bem diferente.

Contei o que era e ele deu uma grande gargalhada.

— Bem, prometo não fazer isso. A não ser, claro, que você queira.

— Essa é uma baita oferta.

— Estou falando sério. Me liga.

Fui embora do bar, sentindo o olhar dele em minhas costas ao longo de todo

o trajeto até a porta. Enquanto Nathan chamava um táxi, me virei para a porta,

que estava se fechando. Só deu para vê-lo através de uma frestinha antes que a

porta batesse, mas foi suficiente para perceber que ele ainda me olhava. E

sorria.

* * *

Liguei para o Sam.

— Oi — disse, quando ele atendeu o telefone.

— Lou? Por que eu ainda pergunto? Quem mais me ligaria às 4h45?

— E aí? O que você está fazendo?

Deitei de costas na cama e deixei os sapatos caírem no chão acarpetado.

— Acabei de chegar de um plantão. Estou lendo. Como você está? Parece

alegre.

— Fui a um bar. Dia difícil. Mas estou bem melhor agora. E só queria ouvir a

sua voz. Porque estou com saudade. E você é meu namorado.

— E você está bêbada.

Ele riu.

— Pode ser. Um pouco. Você disse que estava lendo?

— Isso. Um romance.

— Sério? Pensei que você não lesse ficção.

— Ah, Katie me deu. Insistiu que eu ia gostar. Não quero encarar um interrogatório por não estar lendo o livro.

— Ela está comprando livros para você?

Eu me endireitei, o bom humor de repente se dissipando.

— Por quê? O que significa ela ter comprado um livro para mim?

fevereiro/2018

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Sam parecia estar se divertindo.

— Significa que ela gosta de você.

— Não significa, não.

— Significa, sim, com certeza.

O álcool tinha eliminado minhas inibições. Senti as palavras saindo da boca

antes que pudesse contê-las.

— Se uma mulher faz você ler é porque gosta de você. Ela quer entrar na sua

cabeça. Quer fazer você pensar em coisas.

Eu o ouvi rir.

— E se for um manual de conserto de motocicletas?

— Não importa. Porque aí ela está tentando mostrar que é do tipo descolada,

sexy e amante de motocicletas.

— Bem, este aqui não é sobre motocicletas. É uma coisa francesa.

— Francesa? Isso é ruim. Qual é o título?

— Madame de.

— Madame de quê?

— É só Madame de. É sobre um general e uns brincos e...

— E o quê?

— Ele tem um caso.

— Ela está fazendo você ler livros sobre franceses que têm casos? Ah, meu Deus. Então ela realmente gosta de você.

— Você está errada, Lou.

— Eu sei quando alguém gosta de alguém, Sam.

— Sério.

Ele começava a demonstrar cansaço.

— Então... um homem me paquerou hoje. Eu percebi que ele gostou de mim.

Então eu disse logo que tinha alguém. Cortei na hora.

— Ah, foi? E quem é esse homem?

— O nome dele é Josh.

— Josh. É o mesmo Josh que ligou para você quando eu estava indo embora?

Mesmo através do meu leve bafo de bêbada comecei a perceber que aquela

conversa não ia acabar bem.

— Sim, é.

— E você por acaso esbarrou com ele em um bar.

— Foi! Eu estava lá com o Nathan. E literalmente esbarrei nele perto do banheiro.

— E o que foi que ele disse?

A voz de Sam agora tinha um leve sinal de irritação.

— Ele... ele disse que era uma pena.

— E é?

— O quê?

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— Uma pena?

Houve um breve silêncio. De repente eu me senti terrivelmente sóbria.

— Só estou contando o que ele disse. Estou com você, Sam. Estou

literalmente usando isso como um exemplo de como percebi que alguém gosta

de mim e dei um fora antes que ele pudesse ter a impressão errada. Esse é um

conceito que você parece não querer entender.

— Não. Me parece que você está me ligando no meio da noite para pegar no

meu pé por causa da minha colega de trabalho que me emprestou um livro, mas

para você tudo bem sair e conversar bêbada sobre relacionamentos com esse Josh. Meu Deus. Você nem queria admitir que nós tínhamos um relacionamento até que eu pressionei. E agora você conversa alegremente sobre coisas íntimas

com um cara que encontrou em um bar. Isso se você realmente só encontrou com ele em um bar.

— Eu precisei de um tempo, Sam! Pensei que você estava brincando comigo!

— Você precisou de um tempo porque ainda estava apaixonada pela

lembrança de outro cara. Um cara morto. E agora você está em Nova York porque... bem, porque ele queria que você fosse para aí. Então não entendo por

que você está toda estranha e ciumenta por causa da Katie. Você nunca se incomodou com quanto tempo que eu passava com Donna.

— É porque a Donna não gostava de você.

— Você nem conheceu Katie ainda! Como pode saber se ela gosta de mim ou

não?

— Eu vi as fotos!

— Que fotos? — explodiu ele.

Eu era uma idiota.

— No Facebook dela. Lá tem fotos. De você e ela.

Engoli em seco.

— Uma foto.

Pairou um longo silêncio. Do tipo que diz: Você está falando sério? Do tipo ameaçador que surge quando alguém silenciosamente muda a opinião que tem

de você. Quando Sam tornou a falar, sua voz estava baixa e controlada:

— Essa é uma discussão ridícula e eu preciso dormir.

— Sam, eu...

— Vá dormir, Lou. Nos falamos mais tarde.

Então desligou.

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12

Quase não dormi, com todas as coisas que eu desejava ter e não ter dito rodando na minha cabeça feito um carrossel interminável, e acordei grogue com

o barulho de batidas na porta. Saí cambaleando da cama e, ao abrir a porta, dei

de cara com a Sra. De Witt de robe. Ela parecia pequena e frágil sem a maquiagem e o cabelo penteado, e seu rosto estava tenso de ansiedade.

— Ah, você está aí — disse ela, como se eu pudesse estar em outro lugar. —

Venha. Venha. Preciso da sua ajuda.

— Q-Quê? Quem abriu a porta para você?

— O grandão. O australiano. Vamos. Não temos tempo a perder.

Esfreguei os olhos, me esforçando para ficar desperta.

— Ele já me ajudou antes, mas disse que não pode deixar o Sr. Gopnik agora.

Ah, que importa? Abri a porta hoje de manhã para levar o lixo para fora, e o Dean Martin fugiu correndo e está em algum lugar do prédio. Não faço ideia de

onde ele possa estar. E não consigo achá-lo sozinha.

Sua voz estava trêmula, porém autoritária, e suas mãos se agitavam em volta

da cabeça.

— Depressa. Vamos agora. Tenho medo de alguém abrir a porta lá embaixo e

ele ir para a calçada.

A Sra. De Witt torceu as mãos.

— Ele não sabe se virar bem sozinho lá fora. E alguém pode roubá-lo. Ele tem

pedigree, sabe.

Peguei minha chave e a segui para o saguão, ainda de camiseta.

— Onde a senhora já procurou?

— Bem, em lugar nenhum, querida. Tenho problemas de locomoção. É por

isso que preciso que você procure. Vou pegar a bengala.

Ela me olhou como se eu tivesse dito algo bem estúpido. Suspirei, tentando

pensar no que faria se fosse um pequeno pug de olhos esbugalhados

saboreando o gostinho inesperado da liberdade.

— Você precisa achar o Dean Martin. Ele é tudo que eu tenho.

Ela começou a tossir, como se os pulmões não suportassem a tensão.

— Vou olhar na entrada principal primeiro — avisei.

Corri escada abaixo, tendo em mente que Dean Martin não conseguiria

chamar o elevador, e esquadrinhei o corredor procurando um cão pequeno e fevereiro/2018

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zangado. Vazio. Olhei para o relógio e descobri com um leve desalento que ainda não eram nem seis horas. Olhei embaixo e atrás da mesa de Ashok, depois

corri para o escritório dele, que estava trancado. O tempo todo chamei baixinho

por Dean Martin, sentindo-me um tanto estúpida ao fazer isso. Nenhum sinal.

Subi a escada correndo e fiz a mesma coisa nos nossos andares, checando na cozinha e nos corredores nos fundos. Nada. Também vasculhei o quarto andar,

antes de ponderar que, se eu tinha ficado sem fôlego, as chances de um pequeno

pug gordo subir correndo tantos lances de escada com velocidade eram bem improváveis. E então ouvi lá fora o zumbido familiar do caminhão de lixo.

Pensei no nosso velho cachorro, que tinha uma habilidade extraordinária de tolerar — e até de apreciar — os cheiros mais nojentos conhecidos pela humanidade.

Corri para a entrada de serviço. Lá, em transe, estava Dean Martin, babando,

enquanto os homens rolavam as latas de lixo enormes e fedorentas para trás e para a frente, do nosso prédio até o caminhão. Eu me aproximei devagar dele,

mas o barulho era tão alto e sua atenção estava tão fixa nos lixeiros que ele não

me ouviu até o momento exato em que me abaixei e o peguei.

Você já segurou um pug raivoso? Eu nunca tinha sentido algo se contorcer com tanta força desde que tive que prender Thom, então com dois anos, no sofá

enquanto minha irmã tirava uma maldita bola de gude da narina esquerda dele.

À medida que eu me esforçava para mantê-lo preso embaixo do braço, o cão se

jogava para a esquerda e para a direita, com os olhos se arregalando de fúria e

seus ganidos revoltados inundando o prédio silencioso. Fui obrigada a envolvê-

lo com os braços e posicionar a cabeça de modo a afastar a mandíbula dele, que

não parava de tentar me morder. Lá de cima, ouvi a Sra. De Witt chamando:

— Dean Martin? É ele?

Usei toda a minha força para segurá-lo. Subi correndo o último lance da escada, desesperada para entregá-lo.

— Peguei! — falei, ofegante.

A Sra. De Witt deu um passo para a frente, com os braços estendidos. Ela estava com uma guia pronta e a prendeu na coleira dele, logo que o coloquei no

chão. Nesse instante, com uma velocidade totalmente incompatível com seu

tamanho e forma, ele girou e cravou os dentes na minha mão esquerda. Se houvesse alguém no prédio que não tivesse sido acordado pelos latidos,

provavelmente acordou com meu grito. O berro no mínimo foi alto o suficiente

para assustar Dean Martin e fazê-lo me soltar. Eu me curvei na direção da mão e

xinguei, o sangue já escorrendo da ferida.

— Seu cachorro me mordeu! Droga, ele me mordeu!

A Sra. De Witt respirou fundo e endireitou o corpo.

— Bem, claro que mordeu, com você o segurando assim tão forte.

Provavelmente ele estava sentindo um tremendo desconforto!

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Ela enxotou o cão para dentro, de onde ele continuou rosnando para mim, mostrando os dentes.

— Olha lá — reclamou, gesticulando na direção dele. — Seus berros o

assustaram. Ele está agitadíssimo agora. Você precisa aprender mais sobre cachorros se quiser lidar com eles do jeito certo.

Eu não consegui falar. Eu estava boquiaberta como nos desenhos animados.

Foi nessa hora que o Sr. Gopnik, de camiseta e calça esportiva, abriu a porta da

frente.

— Que gritaria toda é essa? — questionou, saindo no corredor.

Fiquei chocada pela ferocidade em sua voz. Ele analisou a cena à sua frente:

eu de camiseta e calcinha, segurando a mão sangrando, e a idosa de robe, com o

cão rosnando aos pés dela. Atrás do Sr. Gopnik, só deu para ver Nathan de uniforme, com uma toalha no rosto.

— Que diabo está acontecendo?

— Ah, pergunte à maldita garota. Ela que começou.

A Sra. De Witt pegou Dean Martin nos braços e depois sacudiu o dedo para o

Sr. Gopnik.

— E não se atreva a me dar lição de moral sobre barulho neste prédio, meu

jovem! Seu apartamento é um verdadeiro cassino de Las Vegas com tanto entra

e sai. Acho incrível que ninguém tenha reclamado ainda com o Sr. Ovitz.

Com a cabeça erguida, ela deu meia-volta e fechou a porta.

O Sr. Gopnik piscou duas vezes, olhou para mim e depois de volta para a porta fechada. Houve um breve silêncio. E então, do nada, ele começou a rir.

— “Jovem!” — disse, balançando a cabeça. — Nossa, faz muito tempo que

ninguém me chama disso.

Então se virou para Nathan, que estava atrás dele.

— Você deve estar acertando em alguma coisa.

De algum lugar no interior do apartamento, uma voz abafada se elevou em resposta:

— Não se gabe, Gopnik!

* * *

O Sr. Gopnik me mandou de carro com Garry até seu médico particular para tomar a antitetânica. Eu me sentei na sala de espera, que parecia até o saguão

de um hotel luxuoso, e fui atendida por um médico iraniano de meia-idade, que

talvez tenha sido a pessoa mais solícita que já conheci. Ao olhar a conta, que seria paga pela secretária do Sr. Gopnik, esqueci a mordida e achei que fosse desmaiar.

Quando voltei para casa, Agnes já tinha ficado sabendo da história.

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Aparentemente, eu era o assunto do prédio.

— Você tem que processar! — disse ela, achando graça. — Ela é uma velha

horrível e encrenqueira. E aquele cachorro obviamente é perigoso. Não sei se é

seguro para nós morarmos no mesmo prédio. Você precisa de uma folga? Se precisar, posso processar a Sra. De Witt por serviços perdidos.

Eu não disse nada, acalentando os meus sentimentos sombrios em relação à

Sra. De Witt e a Dean Martin.

— Nenhuma boa ação sai impune, não é? — comentou Nathan, quando

esbarrei com ele na cozinha.

Pegou minha mão e analisou o curativo.

— Nossa. Aquele cachorrinho é uma fera.

Mas, apesar de no fundo estar furiosa com ela, não saiu da minha cabeça o que a Sra. De Witt dissera logo que bateu na minha porta: Ele é tudo que eu tenho.

* * *

Embora Tabitha tivesse voltado para seu apartamento naquela semana, o clima no prédio permaneceu irritadiço, quieto e marcado por explosões esporádicas.

O Sr. Gopnik continuava passando muitas horas no trabalho enquanto Agnes preenchia a maior parte do nosso tempo juntas ao telefone com a mãe na Polônia. Eu tinha a impressão de que estava havendo algum tipo de crise em família. Ilaria queimou uma das camisas preferidas de Agnes (acredito que realmente foi um acidente, pois já fazia semanas que ela vinha reclamando da

regulagem de temperatura do ferro novo) e, quando Agnes gritou que ela era desleal, uma traidora, uma suka em sua casa e jogou a camisa nela, Ilaria enfim perdeu a cabeça e disse ao Sr. Gopnik que não podia mais trabalhar lá, que era

impossível, que ninguém trabalharia tanto e por tão pouco reconhecimento ao

longo de tantos anos. Ela não aguentava mais e estava pedindo demissão. O Sr.

Gopnik, com palavras delicadas e uma empática inclinação de cabeça,

convenceu-a a mudar de ideia (ele também deve ter lhe oferecido um bom dinheiro), e esse aparente ato de traição fez com que Agnes batesse a porta com

tanta força que o segundo vasinho chinês da mesa do saguão se espatifou no chão com um barulho musical, e ela passou a noite inteira chorando no quarto

de vestir.

Quando fui trabalhar na manhã seguinte, encontrei Agnes sentada ao lado do

Sr. Gopnik à mesa de café da manhã, com a cabeça apoiada no ombro do marido,

enquanto ele murmurava algo em seu ouvido, os dedos dos dois, entrelaçados.

Ela se desculpou formalmente com Ilaria enquanto ele observava, sorrindo, e, quando ele foi trabalhar, xingou furiosamente, em polonês, durante todo o fevereiro/2018

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tempo que passamos correndo no Central Park.

Naquela noite, ela anunciou que passaria um fim de semana prolongado na

Polônia, para visitar a família, e senti um leve alívio ao perceber que ela não queria que eu fosse junto. Às vezes estar naquele apartamento, por maior que

fosse, com o humor instável de Agnes e as tensões oscilantes entre ela e o Sr.

Gopnik, Ilaria e a família dele era insuportavelmente claustrofóbico. A ideia de

ficar sozinha por alguns dias parecia um pequeno oásis.

— O que quer que eu faça enquanto você estiver fora? — perguntei.

— Tire uns dias de folga! — respondeu ela, sorrindo. — Você é minha amiga,

Louisa! Acho que você tem que se divertir enquanto eu estiver fora. Ah, estou tão animada para ver a minha família. Tão animada — disse, batendo palmas. —

Só a Polônia! Sem coisas estúpidas de caridade para ir! Estou tão feliz!

Eu me lembrei de que, quando cheguei a Nova York, Agnes relutava em se afastar do marido por uma noite que fosse. Mas achei melhor descartar o pensamento.

Quando voltei para a cozinha, ainda refletindo sobre essa mudança, Ilaria estava se benzendo.

— Você está bem, Ilaria?

— Estou rezando — respondeu ela, sem tirar os olhos da panela.

— Está tudo bem?

— Tudo ótimo. Estou rezando para aquela puta não voltar para cá.

* * *

Mandei um e-mail para Sam, empolgada com uma ideia que tive. Eu teria ligado,

mas ele não tinha dado notícias desde o nosso último telefonema e fiquei com

medo de ele ainda estar bravo comigo. Contei que eu havia ganhado uma folga

de três dias no fim de semana, tinha olhado os voos e pensado em esbanjar em

uma viagem inesperada para casa. O que ele achava? Para que mais os salários

serviam? Encerrei a mensagem com uma carinha sorrindo, um emoji de avião,

alguns corações e beijos.

A resposta chegou em uma hora.

Desculpe. Vou trabalhar direto e prometi levar Jake sábado à noite ao O2 para ver uma banda qualquer. É uma boa ideia, mas este não é o fim de semana ideal. Bj S

Fiquei olhando para o e-mail e tentei não me assustar. É uma boa ideia. Foi

como se eu tivesse sugerido um passeio inocente no parque.

— Será que ele está me dando um gelo?

Nathan leu a mensagem duas vezes.

— Não. Ele está dizendo que está ocupado e que não é uma boa hora para fevereiro/2018

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você ir para casa assim do nada.

— Ele está me dando um gelo. Não tem nada nesse e-mail. Nenhum amor,

nenhum... desejo.

— Ou ele podia estar indo para o trabalho quando escreveu. Ou no banheiro.

Ou falando com o chefe. Ele só está se comportando como um homem.

Não engoli essa desculpa. Eu conhecia Sam. Analisei aquelas duas linhas

várias vezes, tentando extrair o tom, a intenção subliminar. Entrei no Facebook,

me odiando por fazer isso, e fui ver se Katie Ingram havia anunciado algum plano especial para o fim de semana. (Para me irritar, ela não tinha postado nada. O que era exatamente o que alguém faria se estivesse planejando seduzir o namorado paramédico gostoso de outra garota.) E então respirei fundo e escrevi uma resposta — bem, escrevi várias respostas, mas essa foi a única que

não apaguei.

Não tem problema. Foi uma boa tentativa! Espero que você se divirta muito com o Jake. Bj L

E então cliquei em ENVIAR, admirada com o quanto as palavras de um e-mail

podiam estar tão distantes daquilo que o autor de fato estava sentindo.

* * *

Agnes pegou o avião na quinta à noite, carregada de presentes. Eu me despedi

dela com um sorriso enorme e depois desabei na frente da televisão.

Na sexta de manhã, fui a uma exibição de figurinos de ópera chinesa no Instituto do Vestuário no Metropolitan Museum of Art e passei uma hora

admirando os bordados complexos, os vestidos de cores vivas, o brilho refletido

das sedas. Inspirada, de lá fui à West 37th para ver umas lojas de tecido e armarinhos que eu tinha procurado na semana anterior. Aquele dia de outubro

estava frio e seco, anunciando o início do inverno. Peguei o metrô e apreciei seu

calor abafado e sujo. Passei uma hora examinando as prateleiras, me perdendo

entre os rolos de tecido estampado. Eu havia decidido montar meu próprio painel semântico para Agnes para quando ela voltasse, forrando o pequeno sofá

e as almofadas com cores alegres e vivas — tons de verde-esmeralda e rosa, lindas estampas de papagaios e abacaxis, o oposto dos drapejados e

adamascados sem graça que os decoradores caros sempre lhe ofereciam.

Aquelas cores todas eram da Primeira Sra. Gopnik. Agnes tinha que imprimir a

própria marca ao apartamento — algo arrojado, vigoroso e lindo. Expliquei à mulher no balcão o que queria fazer, e ela me indicou outra loja, no East Village

— um brechó de roupas onde tinham peças de tecido antigo nos fundos.

Era uma vitrine de loja nada convidativa — um exterior sujo da década de setenta que prometia “Vintage Clothes Emporium, de todas as décadas, de todos

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os estilos, a preços baixos”. Mas entrei e me surpreendi: a loja era um armazém,

organizado em carrosséis de roupas em seções identificadas com placas feitas à

mão que diziam: “Anos quarenta”, “Anos sessenta”, “Roupas das quais os sonhos

são feitos” e “Cantinho da pechincha: Costura desfeita não é vergonha”. O cheiro

no ambiente era almiscarado, de perfume de décadas atrás, pele devorada por

traças e noitadas havia muito esquecidas. Sorvi o aroma como se fosse oxigênio,

sentindo que de alguma maneira eu tinha recuperado uma parte de mim que mal sabia que estava me fazendo falta. Passeei pela loja, experimentando pilhas

de roupas de estilistas de quem nunca tinha ouvido falar, seus nomes um eco sussurrado de uma época havia muito esquecida — Feito Sob Medida por

Michel, Fonseca de Nova Jersey, Srta. Aramis —, passando os dedos pelas costuras invisíveis, roçando sedas chinesas e chifon na bochecha. Eu podia ter

comprado uma dezena de peças, mas por fim escolhi um vestido de festa justo

azul-real com imensos punhos de pele e gola redonda (eu disse a mim mesma

que não tinha problema nenhum se a pele datasse de sessenta anos atrás), um

macacão jeans vintage e uma camisa xadrez que me dava vontade de derrubar uma árvore ou talvez montar um cavalo com um rabo esvoaçante. Eu poderia ter passado o dia inteiro lá.

— Eu estava de olho nesse vestido há taaaanto tempo — comentou a garota

do caixa, quando o coloquei no balcão. Ela era toda tatuada, o cabelo pintado de

preto preso em um enorme coque baixo e os olhos delineados com lápis preto.

— Mas não coube em mim. Ficou bonito em você.

A voz dela era rouca, endurecida por cigarros e incrivelmente descolada.

— Eu não tenho ideia de quando vou usá-lo, mas preciso ter esse vestido.

— É assim que eu me sinto com as roupas o tempo todo. Elas conversam com

a gente, não é? Aquele vestido estava gritando para mim: Me compre, sua idiota!

E largue as batatas fritas! — disparou ela. — Adeus, amiguinho azul. Sinto muito ter decepcionado você.

— Sua loja é incrível.

— Ah, estamos aguentando o tranco aqui. Esmagadas pelos ventos cruéis dos

aumentos de aluguel e pelos cidadãos de Manhattan, que preferem ir à TJ Maxx

a comprar algo lindo e original. Olhe a qualidade disto.

— Ela segurou o forro do vestido, apontando para os pontos minúsculos de

costura.

— Como você vai encontrar um trabalho como este vindo de algum galpão

horrendo na Indonésia? Ninguém em todo o estado de Nova York tem um

vestido assim. — Ela ergueu as sobrancelhas. — Exceto você, moça inglesa. De

onde veio essa beleza?

Eu estava usando um sobretudo militar verde, que meu pai dizia de

brincadeira que cheirava à Guerra da Crimeia, e um gorro vermelho para

completar. Por baixo, eu estava de short de tweed, meia-calça e as botas Dr.

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Martens azul-turquesa.

— Amei esse look. Se um dia você quiser se desapegar desse casaco, eu consigo vendê-lo assim — disse ela, estalando os dedos tão alto que afastei a cabeça de leve. — Casacos militares. Nunca saem de moda. Tenho um casaco vermelho de infantaria que minha avó jura que roubou de um guarda do Palácio

de Buckingham. Cortei as costas fora e transformei em uma jaqueta curta. Você

sabe como é, não é? Quer ver uma foto?

Eu quis ver. Nós nos debruçamos sobre a jaqueta curta como as pessoas

costumam se debruçar sobre fotos de bebês. A vendedora se chamava Lydia e

morava no Brooklyn. Ela e a irmã, Angelica, haviam herdado a loja dos pais sete

anos antes. Elas tinham uma clientela pequena, porém leal, e sobreviviam principalmente graças a visitas de figurinistas da televisão e de filmes, que compravam peças para desfazer e depois recosturar. Lydia me contou que

conseguia a maioria das roupas em bazares e leilões promovidos por parentes

de pessoas falecidas.

— A Flórida é o melhor lugar. Lá tem essas avós com closets gigantescos com

ar-condicionado, entupidos de vestidos de festa dos anos cinquenta dos quais nunca se livraram. Nós vamos para lá a cada dois meses e praticamente

renovamos o estoque com os parentes enlutados. Porém está ficando mais

difícil. Hoje em dia tem muita competição.

Ela me deu um cartão com o e-mail e o site da loja.

— Se um dia quiser vender algo, me ligue.

— Lydia — retruquei, depois que ela já havia embrulhado minhas compras

com papel de seda e colocado em uma sacola. — Acho que sou mais compradora

do que vendedora. Mas obrigada. Sua loja é o máximo. Você é o máximo. Eu me

Continuar: parte 7 de 16