Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
da cabeça. Tive que acordá-lo à força.
Empurrei-o, resmungando, para o banheiro, abri o chuveiro e fui me
arrastando até a cozinha para fazer um café. Quando voltei, ouvi o som do chuveiro sendo desligado. Sentei-me na beirada da cama, bebericando meu café
e pensando de quem fora a maravilhosa ideia de beber drinques fortes em uma
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noite de domingo. A porta do banheiro se abriu assim que caí para trás.
— Posso pôr a culpa da bebida em você? Preciso culpar alguém.
Minha cabeça estava latejando. Eu a levantei e abaixei devagar.
— O que é que tinha naqueles drinques?
Apertei as têmporas com a ponta dos dedos.
— Eles devem ter servido doses duplas. Normalmente não fico tão mal. Ah,
cara. Nós devíamos apenas ter ido ao Rockefeller.
Sam não disse nada. Virei o rosto para poder vê-lo. Ele estava imóvel na porta do banheiro.
— Quer falar comigo sobre isso?
— Sobre o quê?
Eu me empertiguei. Sam estava com uma toalha em torno da cintura e
segurava uma caixinha retangular branca. Por um breve momento pensei que estava tentando me dar uma joia e quase caí na risada. Mas, quando ele me entregou a caixa, não estava sorrindo.
Eu a peguei da mão dele. E fiquei encarando, incrédula, um teste de gravidez.
A caixa estava aberta e o bastão de plástico branco, jogado lá dentro. Verifiquei
o conteúdo, uma parte distante de mim percebendo que não havia nenhuma
linha azul. Depois olhei para Sam, sem saber o que dizer.
Ele se sentou pesadamente na lateral da cama.
— Nós usamos camisinha, não é? Da última vez que eu visitei você. Usamos
camisinha.
— On... onde você achou isto?
— Na sua lata de lixo, quando fui jogar a lâmina fora.
— Não é meu, Sam.
— Você divide este quarto com mais alguém?
— Não.
— Então como é que você não sabe de quem é?
— Eu não sei! Mas... mas não é meu! Não transei com mais ninguém!
Percebi, ao protestar, que o mero ato de insistir que eu não tinha feito sexo
com mais ninguém fazia parecer que eu estava tentando esconder o fato de que
tinha feito sexo com outra pessoa.
— Sei o que parece, mas não faço ideia de como isso veio parar no meu banheiro!
— É por isso que você está sempre me aborrecendo por causa da Katie?
Porque na verdade está se sentindo culpada por sair com outra pessoa? Como é
que chamam? Transferência? Era... era por isso que você estava tão... tão diferente na outra noite?
O ar desapareceu do quarto. Senti como se tivesse levado um tapa. Encarei-o.
— Você acha isso de verdade? Depois de tudo o que passamos?
Sam não disse uma palavra.
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— Acha mesmo... que eu trairia você?
Ele estava pálido, tão chocado quanto eu.
— Eu só acho que, se a coisa parece um pato e grasna feito um pato, então,
sabe... provavelmente é um pato.
— Não sou um maldito pato... Sam. Sam.
Relutante, ele virou a cabeça.
— Eu não trairia você. Não sou assim. Precisa acreditar em mim.
Os olhos dele examinavam meu rosto.
— Não sei quantas vezes vou ter que repetir. Não é meu.
— Nós estamos juntos há tão pouco tempo. E grande parte dele passamos
separados. Eu não...
— Você não o quê?
— É uma daquelas situações, sabe? Se você contasse para seus amigos no bar, eles lançariam aquele olhar tipo... cara...
— Então não conte para seus malditos amigos no bar! Me escute!
— Quero escutar, Lou!
— Então qual é o seu problema?
— Ele era a cara do Will Traynor!
A frase irrompeu dele como se não tivesse nenhum outro lugar para ir. Sam
se sentou e apoiou a cabeça nas mãos. Então repetiu, baixinho:
— Ele era a cara do Will Traynor.
Meus olhos tinham se enchido de lágrimas. Limpei-as com o punho, sabendo
que provavelmente estava manchando as bochechas com o rímel da noite
anterior, mas sem me importar. Quando falei, a voz saiu baixa e grave. Nem parecia minha.
— Vou dizer isso mais uma vez. Não estou dormindo com mais ninguém. Se
você não acredita em mim... Bem, não sei o que está fazendo aqui.
Sam não falou nada, mas senti como se sua resposta flutuasse
silenciosamente entre nós: Nem eu. Ele se levantou e se aproximou da sua mala.
Retirou uma calça lá de dentro e vestiu-a, puxando-a com movimentos curtos e
raivosos.
— Tenho que ir.
Eu não conseguia dizer mais nada. Fiquei sentada na cama, observando-o,
sentindo-me ao mesmo tempo desolada e furiosa. Não abri a boca enquanto ele
se vestia e jogava o resto de suas coisas na mala. Depois ele a pendurou no ombro, foi até a porta e se virou.
— Boa viagem — falei.
Não consegui sorrir.
— Eu ligo quando chegar.
— Tudo bem.
Sam se curvou e me beijou no rosto. Não levantei o olhar quando abriu a fevereiro/2018
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porta. Ele ficou ali parado por mais um momento e então saiu, fechando silenciosamente a porta.
* * *
Agnes voltou para casa ao meio-dia. Garry a buscou no aeroporto, e ela chegou estranhamente quieta, como se estivesse relutante de estar ali. Cumprimentou-
me de forma apressada por trás dos óculos escuros e se retirou para seu quarto
de vestir, onde permaneceu, com a porta trancada, pelas quatro horas
seguintes. Na hora do chá, apareceu, tomou um banho e se vestiu, forçando um
sorriso quando entrei em seu escritório levando os painéis semânticos
concluídos. Conversei com ela sobre as cores e os tecidos, e ela concordou, distraída, mas eu percebi que, na verdade, não tinha registrado nada do que eu
fizera. Deixei-a tomar o chá, depois esperei até constatar que Ilaria tinha descido. Fechei a porta do escritório, de modo que ela ergueu o olhar para mim.
— Agnes — falei, baixinho. — É uma pergunta estranha, mas você deixou um
teste de gravidez no meu banheiro?
Ela me fitou por cima da xícara de chá. Então colocou-a no pires e mudou a
expressão.
— Ah. Isso. Sim, eu ia contar para você.
Senti a raiva crescer dentro de mim.
— Você ia me contar? Sabia que meu namorado encontrou?
— Seu namorado veio para o fim de semana? Que ótimo! Aproveitaram bem?
— Até o momento em que ele achou um teste de gravidez usado no meu
banheiro.
— Mas você disse que não era seu, não é?
— Disse, Agnes. Mas, que engraçado, os homens costumam ficar um pouco
desconfiados quando encontram testes de gravidez no banheiro das namoradas.
Principalmente namoradas que moram a quase cinco mil quilômetros de
distância.
Ela fez um gesto com a mão, como se desconsiderasse minhas preocupações.
— Ah, pelo amor de Deus. Se ele confia em você, vai ficar bem. Você não está traindo. Ele não devia ser tão idiota.
— Mas por quê? Por que você colocaria um teste de gravidez no meu
banheiro?
Ela parou. Olhou ao meu redor, como se para checar que a porta do escritório
estava realmente fechada. E de repente ficou séria.
— Porque, se eu deixasse no meu banheiro, Ilaria ia descobrir — disse, de modo direto. — E não posso deixar que ela veja.
Agnes ergueu as mãos, como se eu estivesse sendo incrivelmente tola.
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— Leonard foi muito claro quando nos casamos. Nada de filhos. Foi nosso acordo.
— Sério? Mas isso não é... E se você decidir ter?
Ela enrugou os lábios.
— Não vou ter.
— Mas... mas você tem a minha idade. Como pode ter certeza? Na maioria dos
dias nem ao menos sei se vou continuar usando a mesma marca de
condicionador. Uma porção de pessoas muda de ideia quando...
— Não vou ter filhos com Leonard — disparou ela. — Entendido? Chega
dessa conversa sobre filhos.
Fiquei parada, meio relutante, e a cabeça dela se virou de repente, com uma
expressão decidida.
— Sinto muito. Sinto muito se criei problemas para você. — Ela esfregou a testa com a palma da mão. — Está bem? Sinto muito. Agora vou correr. Sozinha.
* * *
Ilaria estava na cozinha quando entrei alguns minutos depois. Batendo uma grande quantidade de massa em uma tigela, com movimentos regulares e fortes,
ela não ergueu o olhar.
— Você acha que ela é sua amiga.
Parei, minha caneca a meio caminho da cafeteira.
Ela sovou a massa com uma força determinada.
— A puta trairia você sem dó se isso salvasse o pescoço dela.
— Isso não ajuda em nada, Ilaria — falei. Talvez tenha sido a primeira vez que lhe dei uma resposta. Enchi a caneca e andei até a porta. — E, acredite ou
não, você não sabe tudo.
Eu a ouvi resmungar até o meio do corredor.
* * *
Fui até a mesa de Ashok para pegar a roupa lavada de Agnes, parando para conversar por alguns minutos a fim de tentar melhorar meu mau humor. Ashok
estava sempre tranquilo, sempre otimista. Conversar com ele era como abrir a
janela para um mundo mais leve. Quando voltei ao apartamento, havia um saco
plástico, pequeno e ligeiramente amassado, do lado de fora da porta da frente.
Abaixei-me para pegá-lo e descobri, para minha surpresa, que era endereçado a
mim. Ou pelo menos para “Louisa acho que é o nome dela”.
Abri a sacola no meu quarto. Dentro dela, embrulhado em papel de seda
reciclado, havia um xale vintage da Biba, decorado com uma estampa de penas
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de pavão. Desenrolei-o e coloquei-o em volta do pescoço, admirando o brilho sutil do tecido, a maneira como reluzia mesmo na penumbra. Tinha cheiro de cravo e perfume antigo. Depois enfiei a mão na sacola e puxei um pequeno cartão. No alto, havia um nome, impresso em letra circular azul-escura: Margot
De Witt. Embaixo, em um rabisco tremido, estava escrito: Obrigada por salvar meu cachorro.
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Para: SreSraBernardClark@yahoo.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Oi, mãe,
Sim, o Halloween é um grande evento aqui. Andei pela cidade e foi muito legal. Uma porção de fantasminhas e bruxinhas passava carregando cestas de doces, com os pais acompanhando-os de longe com lanternas. Alguns dos pais também estavam fantasiados. E as pessoas aqui realmente parecem entrar no espírito da coisa, não é como na nossa rua, onde metade dos vizinhos apaga as luzes ou se esconde no quarto dos fundos para evitar que as crianças batam na porta. Todas as janelas ficam cheias de abóboras de plástico ou fantasmas de mentirinha, e todo mundo parece adorar se fantasiar. Ninguém nem de longe reclamou, pelo que vi.
Mas não apareceu ninguém pedindo “doces ou travessuras” no nosso prédio. Não estamos exatamente no tipo de vizinhança em que as pessoas batem na porta dos outros. Talvez elas tivessem que chamar os motoristas umas das outras. E também teriam que passar pelo porteiro da noite, que pode ser meio assustador.
A próxima festa é o Dia de Ação de Graças. Mal sumiram com todos os fantasmas e os anúncios de peru já começaram. Não tenho certeza do que se trata o Dia de Ação de Graças —
acho que é principalmente para comer. A maioria dos feriados aqui parece servir para isso.
Estou bem. Desculpe não estar telefonando com frequência. Mande um beijo para o papai e para o vovô.
Saudades.
Lou
* * *
O Sr. Gopnik, que nos últimos tempos ficara sentimental em relação a reuniões
familiares, da maneira como acontecia com homens recém-divorciados,
determinara que queria uma ceia de Ação de Graças no apartamento com a presença de seus parentes mais próximos, tirando proveito do fato de Kathryn
ter ido para Vermont com a irmã. A perspectiva desse evento festivo — junto com o cronograma de dezoito horas de trabalho por dia dele — foi o suficiente
para deixar Agnes em um estado constante de pavor.
Sam me mandou uma mensagem de texto ao voltar — vinte e quatro horas
depois de chegar em casa, na verdade — para dizer que estava cansado e que
aquilo era mais difícil do que ele pensara. Respondi com um mero sim porque, na realidade, eu também estava cansada.
Eu corria com Agnes e George de manhã cedo. Quando não ia, acordava no fevereiro/2018
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quartinho com os sons da cidade e uma imagem de Sam, de pé na porta do banheiro. Eu ficava deitada ali, me mexendo e me virando, até me enroscar nos
lençóis, com o humor arruinado. O dia inteiro perdia o viço antes mesmo de começar. Quando tinha que me levantar e sair com os tênis de corrida, já acordava embalada, forçada a contemplar a vida de outras pessoas, o impulso em minhas coxas, o ar frio no peito, o som da respiração nos ouvidos. Sentia-me
rija, forte, pronta para rebater qualquer coisa ruim que o dia provavelmente usaria como forma de me receber.
E, naquela semana, houve um bocado de coisas ruins. A filha de Garry largou
a faculdade, deixando-o com um humor horrível, de modo que toda vez que Agnes saía do carro ele se lamentava sobre filhos ingratos que não entendiam o
sacrifício ou o valor do dinheiro de um trabalhador. Ilaria estava reduzida a uma constante e muda fúria pelos hábitos mais bizarros de Agnes, como pedir
comida e depois resolver que não queria comer ou trancar o quarto de vestir quando não estava lá, para que Ilaria não pudesse guardar suas roupas.
— Ela quer que eu coloque as calcinhas dela no corredor? Quer que seus trajes sensuais fiquem em exibição para o quitandeiro? Afinal, o que ela está escondendo lá dentro?
Michael entrava no apartamento como um fantasma, com a expressão
exausta e aniquilada de um homem com dois empregos — e até mesmo Nathan
perdeu parte de sua tranquilidade e falou de uma maneira ríspida com a japonesa especialista em gatos quando ela sugeriu que a surpresa inesperada que Nathan havia encontrado no sapato era consequência de sua “energia
ruim”.
— Vou passar para ela uma bendita energia ruim — rosnou ele, jogando os
tênis de corrida no lixo.
A Sra. De Witt bateu à nossa porta duas vezes em uma semana para reclamar
do piano e, em retaliação, Agnes colocava a gravação de uma peça musical intitulada A Escada do Diabo, aumentando o volume logo antes de sairmos.
— Ligeti — resmungou ela, verificando a maquiagem no estojo de pó
compacto enquanto descíamos no elevador, as notas atonais martelando,
crescendo e retrocedendo acima de nós.
Em silêncio, mandei uma mensagem para Ilaria pedindo que desligasse o
som depois que saíssemos do prédio.
A temperatura caiu, as calçadas ficaram ainda mais congestionadas e as
vitrines de Natal começaram a aparecer nas lojas, como uma erupção vistosa e
cintilante. Reservei o voo para casa com pouca ansiedade, sem saber que tipo de
recepção eu teria. Telefonei para minha irmã, na esperança de que ela não fizesse muitas perguntas. Eu não precisava ter me preocupado. Ela estava mais
tagarela do que nunca, conversando sobre os projetos escolares de Thom, os novos amigos que ele fizera no condomínio, sua destreza no futebol. Perguntei
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sobre o namorado e ela ficou atipicamente quieta.
— Vai nos contar alguma coisa sobre ele? Você sabe que isso está enlouquecendo a mamãe.
— Você ainda vem para casa no Natal?
— Vou.
— Então talvez eu apresente a você. Se você conseguir não ser uma idiota completa por algumas horas.
— Ele já conheceu o Thom?
— Neste fim de semana — respondeu ela, a voz subitamente um pouco
menos segura. — Eu mantive os dois separados até agora. E se não der certo?
Quer dizer, Eddie ama crianças, mas e se eles não...
— Eddie!
Ela suspirou.
— Sim. Eddie.
— Eddie. Eddie e Treena. Eddie e Treena sentados numa árvore. B-E-I-J-A-N-
D-O.
— Você é tão infantil.
Foi a primeira vez que eu ri a semana toda.
— Eles vão se dar bem — falei. — E, depois que você tiver feito isso, pode apresentá-lo para o papai e a mamãe. Então é para você que ela vai ficar dando
indiretas sobre casamento e eu vou poder tirar umas Férias de Culpa Materna.
— “Férias de Culpa Materna”... Você está falando feito uma americana. E até
parece que isso vai acontecer. Sabia que ela está preocupada que você esteja esnobe demais para falar com eles no Natal? Ela acha que você não vai querer
entrar na van do papai saindo do aeroporto porque se acostumou a andar de limusine.
— É verdade, me acostumei.
— Sério, como você está? Não contou nada do que está acontecendo com
você.
— Amando Nova York — respondi, suave como um mantra. — Trabalhando
bastante.
— Ah, droga. Tenho que ir. Thom acordou.
— Depois me conte como foi.
— Vou contar. A não ser que tudo corra mal. Nesse caso, vou sair do país sem
falar mais com ninguém pelo resto da vida.
— Essa é a nossa família. Sempre uma reação razoável.
* * *
O sábado foi servido frio, com acompanhamento de vendavais. Eu não sabia que
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os ventos podiam ser tão brutais em Nova York. Era como se os edifícios altos afunilassem qualquer brisa, polindo-a com força e rapidez e transformando-a em algo gelado, feroz e sólido. Com frequência, eu me sentia como se estivesse
andando em algum túnel sádico de vento. Mantendo a cabeça baixa, o corpo a
um ângulo de quarenta e cinco graus e, de vez em quando, o braço estendido para agarrar hidrantes ou postes de luz, peguei o metrô para o Vintage Clothes
Emporium, onde tomei um café para me aquecer e comprei um casaco com
estampa de zebra na promoção por meros doze dólares. Na verdade, demorei lá.
Não queria voltar para meu quartinho silencioso, com o noticiário da TV de Ilaria balbuciando no corredor, os ecos fantasmagóricos de Sam e a tentação de
checar meu e-mail a cada quinze minutos. Cheguei em casa depois que já anoitecera e eu estava com frio e cansada o suficiente para não ficar inquieta ou
submergida naquela persistente sensação de Nova York: que, ao ficar em casa,
eu estava perdendo algo.
Acomodei-me e assisti à TV no meu quarto. Pensei em escrever um e-mail para Sam, mas continuava zangada o suficiente para não agir de forma
conciliadora e não estava segura de que o que tinha para falar melhoraria alguma coisa. Peguei um romance de John Updike emprestado das prateleiras do Sr. Gopnik, mas era sobre as complexidades dos relacionamentos modernos,
e todos pareciam infelizes ou desejavam alguém ardentemente, então, por fim,
apaguei a luz e dormi.
* * *
Na manhã seguinte, quando desci, Meena estava no saguão do prédio. Dessa vez
sem os filhos, mas acompanhada de Ashok, que não usava o uniforme. Fiquei um pouco surpresa ao vê-lo em trajes normais, vasculhando embaixo da mesa.
De repente, ocorreu-me como era bem mais fácil para os ricos se recusarem a
saber qualquer coisa sobre nós quando não estávamos vestidos como
indivíduos.
— Oi, Srta. Louisa — disse ele. — Esqueci meu chapéu. Precisei passar aqui
antes de ir para a biblioteca.
— Aquela que eles querem fechar?
— É — confirmou Ashok. — Quer vir junto?
— Venha nos ajudar a salvar nossa biblioteca, Louisa!
Meena deu um tapinha em minhas costas com a mão coberta por uma luva
que deixava os dedos de fora.
— Precisamos de toda ajuda que pudermos conseguir!
Eu havia planejado ir a um café, mas não tinha mais nada para fazer, e o domingo se estendia à minha frente como uma terra estéril, então concordei.
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Eles me entregaram um cartaz que dizia “UMA BIBLIOTECA É MAIS DO QUE
LIVROS” e verificaram se eu tinha gorro e luvas.
— Você está bem para uma ou duas horas, mas vai congelar na terceira —
disse Meena quando saímos.
Ela era o que meu pai teria chamado de intrépida — uma nova-iorquina
voluptuosa, sexy, com cabelão, que tinha uma resposta inteligente para tudo o
que o marido falava e adorava zombar dele por causa do cabelo, de sua maneira
de cuidar das crianças, de sua destreza sexual. Tinha uma gargalhada alta e rouca e não levava desaforo para casa. Ashok a adorava. Eles se chamavam de
“meu bem” com tanta frequência que de vez em quando eu me perguntava se haviam esquecido o nome um do outro.
Pegamos o metrô em direção a Washington Heights e conversamos sobre
como ele havia arranjado aquele emprego como uma medida temporária
quando Meena engravidou pela primeira vez, e como, quando as crianças
tivessem idade para ir à escola, ele começaria a procurar outra coisa, um trabalho em horário comercial, para que pudesse ajudar mais. (“Mas os
benefícios de plano de saúde são bons. Torna mais difícil sair.”) Os dois tinham se conhecido na faculdade — fiquei envergonhada de admitir que eu tinha suposto que fora um casamento arranjado.
Quando contei isso, Meena começou a gargalhar. Garota? Você não acha que
eu teria feito meus pais escolherem coisa melhor para mim?
Ashok: Você não disse isso na noite passada, meu bem.
Meena: Foi porque eu estava concentrada na TV.
Quando finalmente subimos, rindo, os degraus da estação de metrô na 163rd
Street, de repente me vi em uma Nova York bem diferente.
* * *
Os prédios nessa parte de Washington Heights pareciam esgotados: vitrines tapadas por tábuas de madeira com escadas de incêndio envergadas, lojas de bebidas, lanchonetes de frango frito e salões de beleza com fotos gastas e enrugadas de penteados fora de moda. Um homem xingando baixinho passou
por nós, empurrando um carrinho de compras cheio de sacos plásticos. Grupos
de adolescentes relaxavam nas esquinas, passando cantadas, e o meio-fio era pontuado por sacos de lixo dispostos em pilhas desarrumadas ou com seu
conteúdo jogado na rua. Não havia nada do brilho da parte sul de Manhattan, nada da pretensão proposital que era transmitida no ar da área central da cidade. A atmosfera ali tinha cheiro de comida frita e desilusão.
Meena e Ashok pareciam não notar. Eles caminhavam lado a lado, as cabeças
juntas, checando os telefones para se certificar de que a mãe de Meena não fevereiro/2018
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estava tendo problemas com as crianças. Meena se virou para ver se eu ainda
estava com eles e sorriu. Dei uma olhada para trás, enfiei a carteira mais fundo
dentro do casaco e me apressei para alcançá-los.
Ouvimos o protesto antes de vê-lo, uma vibração no ar que gradativamente
foi se tornando distinta, um canto ao longe. Viramos uma esquina e lá, na frente
de um prédio de tijolos vermelhos sujo de fuligem, havia cerca de cento e cinquenta pessoas, empunhando cartazes e cantando, a maioria direcionando a
voz para uma pequena equipe de filmagem. Quando nos aproximamos, Meena
empunhou seu cartaz no ar.
— Educação para todos! — gritou. — Não tirem os espaços seguros dos nossos filhos!
Entramos na multidão e fomos rapidamente engolidos por ela. Eu achava que
Nova York era multiforme, mas agora percebia que tudo o que tinha visto era a
cor da pele das pessoas, os estilos de suas roupas. Ali havia outra variedade de
pessoas. Havia mulheres velhas com gorros de tricô, hipsters com bebês presos
nas costas, rapazes negros com o cabelo cuidadosamente trançado e indianas idosas de sári. Todos estavam animados, reunidos com um propósito comum e a
intenção total e compartilhada de se fazerem ouvir. Eu me juntei ao canto, vendo o sorriso radiante de Meena, a maneira como ela abraçava os outros manifestantes conforme se movimentava pela multidão.
— Eles disseram que vai passar no noticiário da noite.
Uma mulher idosa se virou para mim, aquiescendo de satisfação.
— É a única coisa que a câmara municipal leva em conta. Todos eles querem
estar nos noticiários.
Sorri.
— Todo ano é a mesma coisa, certo? Todo ano temos que lutar um pouco mais arduamente para manter nossa comunidade unida. Todo ano temos que
nos apegar mais ao que é nosso.
— D... Desculpe. Eu não sei. Só estou aqui com amigos.
— Mas você veio nos ajudar. É isso que importa.
Ela colocou uma das mãos em meu braço.
— Sabia que o meu neto tem um programa de orientação aqui? Pagam para
ele ensinar computação para outros jovens. Realmente pagam para ele. Ele ensina adultos também. Ajuda a se candidatarem a empregos.
Ela bateu as mãos enluvadas uma na outra, tentando se manter aquecida.
— Se a câmara fechar a biblioteca, todas essas pessoas não vão ter para onde
ir. E pode apostar que os vereadores vão ser os primeiros a reclamar dos jovens zanzando por aí pelas esquinas. Você sabe.
Ela sorriu para mim como se eu soubesse.
Adiante, Meena ergueu seu cartaz novamente. Ashok, do lado dela, curvou-se
para cumprimentar o filhinho de um amigo, pegando-o no colo e levantando-o
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até acima da multidão para que ele visse melhor. Ashok parecia completamente
diferente na multidão, sem a roupa de porteiro. Por mais que tivéssemos conversado, eu só o tinha visto através do prisma de seu uniforme. Não imaginara sua vida além da mesa da portaria, como ele sustentava a família, quanto tempo levava para chegar ao trabalho ou quanto ganhava. Examinei a multidão, que havia silenciado um pouco mais desde que a equipe de filmagem
fora embora, e me senti estranhamente envergonhada pelo pouco que havia
explorado Nova York. Esse lugar representava a cidade tanto quanto as torres
brilhantes do centro.
Continuamos a cantoria por mais uma hora. Os carros e caminhões
buzinavam em apoio quando passavam, e gritávamos de volta. Duas
bibliotecárias saíram e ofereceram bandejas com bebidas quentes ao máximo de gente que conseguiram. Eu não peguei. A essa altura, já tinha notado as costuras rasgadas do casaco da senhora, as roupas gastas e surradas à minha volta. Uma indiana e seu filho passaram pela rua com grandes bandejas
prateadas de pakoras quentes e nós corremos para pegá-las, agradecendo em profusão.
— Vocês estão fazendo um trabalho importante — disse ela. — Nós
agradecemos.
Minha pakora estava cheia de ervilhas e batata, apimentada o suficiente para me fazer engasgar, mas absolutamente deliciosa.
— Eles trazem para nós toda semana, Deus os abençoe — disse a idosa,
limpando pedaços de massa que caíram em seu cachecol.
Uma viatura de polícia passou duas, três vezes, o rosto do policial
inexpressivo enquanto esquadrinhava a multidão.
— Nos ajude a salvar nossa biblioteca, senhor! — gritou Meena para ele.
O homem virou o rosto para o outro lado, mas seu colega sorriu.
Em algum momento, Meena e eu entramos na biblioteca para usar o
banheiro, e tive a oportunidade de ver o lugar pelo qual eu aparentemente estava lutando. O prédio era velho, com teto alto, tubulações visíveis e ar abafado; as paredes eram cobertas por cartazes oferecendo educação para
adultos, sessões de meditação, ajuda com currículos e pagamentos de seis dólares por hora para turmas de orientação. Mas estava cheio de gente, a área
das crianças lotada de jovens famílias, a seção dos computadores zumbindo com adultos digitando cuidadosamente nos teclados, ainda não confiantes no que estavam fazendo. Vários adolescentes estavam sentados conversando baixo
em um canto, alguns lendo livros, vários usando fones de ouvido. Fiquei surpresa de ver dois seguranças parados perto da mesa da bibliotecária.
— É. Temos algumas brigas. É grátis para todo mundo, sabe? — sussurrou Meena. — Drogas, geralmente. Sempre tem alguma encrenca.
Na volta, quando descemos a escada, passamos por uma idosa. O chapéu dela
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estava imundo, seu casaco de náilon azul amarrotado e surrado, com rasgos nos
ombros, feito ombreiras. Eu a observei enquanto ela subia, degrau após degrau,
seus chinelos gastos mal ficando nos pés, carregando uma bolsa na qual um único livro sobressaía.
Ficamos lá fora por mais uma hora — tempo suficiente para um repórter e
outra equipe de notícias parar e fazer perguntas, prometendo se esforçar para
divulgar a história. E então, de uma só vez, a multidão começou a se dispersar.
Meena, Ashok e eu voltamos para o metrô, os dois conversando animadamente
sobre as pessoas com quem tinham falado e sobre os protestos planejados para
a semana seguinte.
— O que vocês vão fazer se realmente fechar? — perguntei a eles, quando estávamos no trem.
— Sinceramente? — disse Meena, empurrando a bandana para trás no cabelo. — Não tenho ideia. Mas é provável que feche no fim das contas. Tem outro prédio, mais bem-equipado, a três quilômetros de distância, e eles vão dizer que podemos levar nossos filhos lá. Porque obviamente todos por aqui têm carro. E é bom para os idosos andarem três quilômetros com um calor de
mais de trinta graus. — Ela revirou os olhos. — Mas até lá continuamos lutando,
certo?
— Precisamos ter lugares para a comunidade. — Ashok levantou a mão em
um movimento enfático, cortando o ar. — Precisamos ter lugares onde as
pessoas possam se encontrar, conversar e trocar ideias, e isso não pode ser só
sobre dinheiro, sabe? Os livros nos ensinam sobre a vida. Os livros ensinam sobre empatia. Mas não dá para comprar livros se você mal tem o suficiente para pagar o aluguel. Então aquela biblioteca é um recurso vital! Ao fechar uma
biblioteca, Louisa, você não acaba só com uma instalação, você acaba com a esperança.
Houve um breve silêncio.
— Eu amo você, meu bem — disse Meena, e o beijou na boca.
— Eu amo você também, meu bem.
Eles se entreolharam e eu tirei com as mãos migalhas imaginárias do meu casaco, tentando não pensar em Sam.
* * *
Ashok e Meena foram para o apartamento da mãe dela pegar as crianças, me abraçando e me fazendo prometer voltar na semana seguinte. Eu me arrastei até a lanchonete, onde tomei um café e comi um pedaço de torta. Eu não conseguia parar de pensar na manifestação, nas pessoas na biblioteca, nas ruas
encardidas e esburacadas que a circundavam. Continuava visualizando os
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rasgos no casaco daquela mulher, na idosa do meu lado e seu orgulho pelo pagamento que o neto recebia pelas aulas. Pensei no apelo apaixonado de Ashok pela comunidade. Lembrei-me de como minha vida tinha mudado por
causa de nossa biblioteca perto de casa, da maneira como Will havia insistido que “conhecimento é poder”. Pensei em como cada livro que eu lia agora — e quase toda decisão que tomava — remetia àquela época.
Pensei em como cada um dos manifestantes na multidão conhecia outra
pessoa, ou estava ligado a outra pessoa, ou trazia comida ou bebida para os outros, ou conversava com eles; como eu sentira a energia fluir e o prazer advindo de um objetivo compartilhado.
Pensei em meu novo lar, em um prédio silencioso de talvez trinta pessoas, onde ninguém falava com ninguém, a não ser para reclamar sobre alguma
pequena violação de sua própria paz, onde ninguém parecia gostar de ninguém
nem se preocupar em conhecer os outros o suficiente para descobrir.
Fiquei sentada até que a torta esfriou na minha frente.
* * *
Quando voltei, fiz duas coisas: escrevi um bilhete curto para a Sra. De Witt agradecendo pelo lindo lenço, dizendo que o presente salvara a minha semana e
que, se algum dia ela precisasse de ajuda com o cachorro, eu adoraria aprender
mais sobre cuidados caninos. Coloquei em um envelope e o enfiei por baixo da
porta dela.
Bati na porta de Ilaria, tentando não ficar intimidada quando ela a abriu e me
fitou com uma desconfiança evidente.
— Passei no café onde vendem os biscoitos de canela de que você gosta, então trouxe alguns para você. Aqui.
Entreguei a bolsa para ela.
Ela olhou, desconfiada.
— O que você quer?
— Nada! — respondi. — Só... obrigada pela coisa toda com as crianças no outro dia. E, sabe, nós trabalhamos juntas e tal, então... — Dei de ombros. — São
só uns biscoitos.
Eu os segurei a alguns centímetros dela, para que fosse obrigada a pegá-los.
Ilaria olhou para a sacola, depois para mim, e tive a sensação de que ela estava a ponto de devolvê-los, então, antes que pudesse fazer isso, dei tchau e corri de
volta para o meu quarto.
Nessa noite, entrei na internet e li tudo o que encontrei sobre a biblioteca: as
notícias sobre os cortes de orçamento, ameaças de fechamento, pequenas
histórias de sucesso — Adolescentes locais creditam bolsa na faculdade a fevereiro/2018
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biblioteca —, imprimindo as partes mais importantes e salvando todas as informações úteis em um arquivo.
E, às 08h45, um e-mail pipocou na minha caixa de entrada. O título era DESCULPE.
Lou,
Eu estive ocupado a semana toda e queria escrever quando tivesse mais de cinco minutos e soubesse que não ia piorar as coisas ainda mais. Não sou bom com palavras. E acho que só uma palavra é importante de verdade agora. Desculpe. Sei que você não me trairia. Fui um idiota por pensar isso.
O fato é que é difícil estar tão longe e não saber o que está acontecendo na sua vida. Quando nos encontramos, é como se o peso de tudo aumentasse. Não conseguimos simplesmente relaxar um com o outro.
Sei que seu tempo em Nova York é importante para você e não quero que fique estagnada.
Desculpe de novo.
Seu Sam
Foi a coisa mais próxima de uma carta que ele já me mandara. Fitei aquelas palavras por alguns instantes, tentando distinguir meus sentimentos.
Finalmente, abri uma nova mensagem e digitei:
Eu sei. Amo você. Quando nos virmos no Natal, espero que possamos ter tempo só para relaxar um com o outro. Beijos, Lou
Enviei, depois respondi a um e-mail de mamãe e escrevi outro para Treena.
Digitei tudo no piloto automático, pensando em Sam o tempo inteiro. Sim, mãe,
vou olhar as fotos novas do jardim no Facebook. Sim, sei que a filha de Bernice faz aquele bico em todas as fotos. É para sair bonita.
Entrei na minha conta do banco, depois no Facebook e acabei sorrindo,
mesmo sem querer, com as intermináveis fotos da filha de Bernice e seu bico emborrachado. Vi as fotos de minha mãe em nosso pequeno jardim, as cadeiras novas que ela tinha comprado do centro de jardinagem. Depois, como em um capricho, entrei no perfil de Katie Ingram. Quase imediatamente desejei não ter
feito isso. Lá, em cores gloriosas, havia sete fotos recentes de uma saída noturna dos paramédicos, possivelmente aquela para a qual eles estavam a caminho quando liguei.
Ou, pior, talvez não.
Lá estava Katie, usando uma camisa cor-de-rosa que parecia de seda, o
sorriso escancarado, um olhar astuto, inclinando-se sobre a mesa para defender
seu ponto de vista, seu pescoço exposto ao jogar a cabeça para trás enquanto ria. Lá estava Sam, com seu casaco surrado e uma camiseta cinza, sua grande mão segurando um copo do que parecia ser refresco de limão, alguns
centímetros mais alto que todo mundo. Em todas as fotos, o grupo estava feliz,
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rindo com as piadas compartilhadas. Sam parecia totalmente relaxado e à
vontade. E, em todas as fotos, Katie Ingram aparecia grudada nele, aninhada embaixo do braço dele enquanto os dois estavam sentados em volta da mesa do
pub, ou olhando para ele, uma das mãos encostando de leve em seu ombro.
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— Tenho uma missão para você.
Eu estava sentada no canto do salão de cabeleireiro supermoderno onde
Agnes ia pintar o cabelo e depois fazer escova. Estava vendo o noticiário local
que cobria o protesto contra o fechamento da biblioteca e larguei depressa o celular quando ela se aproximou, com o cabelo cuidadosamente separado em camadas de papel-alumínio. Ela se sentou ao meu lado, ignorando a colorista, que claramente queria que ela voltasse para sua cadeira.
— Quero que você encontre um piano muito pequeno. Para eu mandar para a
Polônia.
Ela disse isso como se estivesse me pedindo para comprar um pacote de
chiclete no supermercado.
— Um piano muito pequeno — repeti.
— Um piano pequeno muito especial para uma criança aprender a tocar. É
para a filhinha da minha irmã — explicou ela. — Mas precisa ser de ótima qualidade.
— Não tem como comprar pianos pequenos na Polônia?
— Não um tão bom. Quero um Hossweiner and Jackson. Eles fazem os
melhores pianos do mundo. E você tem que arranjar um envio especial, com controle ambiental, para ele não ser afetado pelo frio ou pela umidade, já que isso altera a afinação. Mas a loja deve ajudar com isso.
— Qual é mesmo a idade da filha da sua irmã?
— Quatro anos.
— Ahn... está bem.
— E precisa ser o melhor, para que ela possa identificar a diferença. Sabe, existe uma imensa diferença entre as afinações. É como tocar um Stradivarius
em comparação com um violino qualquer.
— Claro.
— Só que tem uma coisa.
Agnes se virou de costas, ignorando a colorista, que, agora frenética,
gesticulava para ela do outro lado do salão, dando tapinhas em um relógio de pulso imaginário.
— Eu não quero que isto apareça na fatura do cartão de crédito. Então, você
terá que sacar dinheiro toda semana para pagar o piano. Aos poucos. Está bem?
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Já tenho algum dinheiro.
— Mas... o Sr. Gopnik certamente não se importaria...
— Ele acha que eu gasto demais com a minha sobrinha. Ele não entende. E, se
Tabitha descobrir, vai distorcer tudo para me fazer parecer uma pessoa má.
Você sabe como ela é, Louisa. E então... pode fazer isso?
Ela me encarou avidamente sob as camadas de papel-alumínio.
— Ahn, posso sim.
— Você é maravilhosa. Fico muito feliz por ter uma amiga como você.
Agnes me abraçou do nada, amassando as folhas de papel-alumínio ao
encostá-las na minha orelha. Na mesma hora a colorista veio correndo para ver
o estrago provocado pelo meu rosto.
* * *
Liguei para a loja e pedi que me mandassem o orçamento de dois modelos de
pianos em miniatura, mais o custo do envio. Quando me recuperei do susto, imprimi a relação dos valores e mostrei a Agnes em seu quarto de vestir.
— É um presente e tanto — comentei.
Ela fez um gesto de menosprezo.
Engoli em seco.
— Com a taxa de entrega, são mais dois mil e quinhentos dólares.
Eu hesitei. Agnes não. Ela foi até a cômoda e a abriu com uma chave
guardada na calça jeans. Diante dos meus olhos, pegou um maço desorganizado
de notas de cinquenta dólares da grossura do seu braço.
— Pronto. Aqui tem oito mil e quinhentos. Preciso que você saia todas as manhãs para sacar o restante no caixa eletrônico. Quinhentos de cada vez. Está
bem?
Eu não me senti totalmente confortável com a ideia de tirar tanto dinheiro da
conta sem o conhecimento do Sr. Gopnik. No entanto, sabia como Agnes era apegada à família, e eu conhecia melhor que ninguém a vontade de se sentir perto de quem está longe. Quem era eu para questionar como ela gastava o seu
dinheiro? Afinal, com certeza ela tinha vestidos mais caros do que o pianinho.
Nos dez dias seguintes, em algum momento do dia, eu ia obedientemente a
pé ao caixa eletrônico na Lexington Avenue e sacava o dinheiro, enfiando as notas no sutiã antes de voltar, preparada para enfrentar assaltantes que nunca
se materializaram. Entregava o dinheiro a Agnes quando ficávamos a sós, então
ela o juntava ao maço na cômoda e trancava a gaveta novamente. Enfim, levei todo o bolo de notas à loja de pianos, assinei o formulário de compra e contei o
dinheiro diante de um vendedor perplexo. O piano seria entregue na Polônia a
tempo para o Natal.
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Essa era a única coisa que parecia dar alguma alegria a Agnes. Toda semana,
a deixávamos no ateliê de Steven Lipkott para a aula de arte, e Garry e eu tomávamos uma overdose silenciosa de cafeína e açúcar no Best Doughnut
Place ou eu concordava com murmúrios com suas opiniões sobre filhos adultos
ingratos e donuts com confeitos de caramelo. Buscávamos Agnes umas duas
horas mais tarde e tentávamos ignorar o fato de que ela não trazia nenhum desenho da aula.
Seu ressentimento em relação ao implacável circuito beneficente havia
aumentado ainda mais. Ela havia parado de tentar ser gentil com as outras mulheres, segundo Michael me contou aos cochichos enquanto tomávamos café
na cozinha. Ela simplesmente ficava sentada, linda e emburrada, esperando o evento terminar.
— Acho que não se pode culpá-la, considerando como foram umas vacas com
ela. Mas isso está tirando o Sr. Gopnik um pouco do sério. Para ele é importante
ter, se não uma esposa troféu, alguém que esteja pelo menos preparada para sorrir de vez em quando.
O Sr. Gopnik parecia exausto por causa do trabalho e da vida como um todo.
Michael me contou que as coisas no escritório estavam difíceis. Uma imensa negociação para resgatar um banco em alguma economia emergente dera
errado e todos estavam trabalhando dia e noite para tentar salvá-la. Ao mesmo
tempo — ou talvez por causa disso — Nathan disse que a artrite do Sr. Gopnik
tinha piorado, e os dois estavam fazendo sessões extras para que ele
conseguisse se movimentar normalmente. Ele estava tomando muitos remédios
e um médico particular vinha vê-lo duas vezes por semana.
— Eu odeio esta vida — reclamou Agnes enquanto atravessávamos o parque a pé. — Todo esse dinheiro que ele dá, e para quê? Para ficarmos sentados quatro vezes por semana, comendo canapés secos com pessoas secas. E para essas mulheres secas poderem falar mal de mim.
Ela parou por um instante, olhou para o prédio atrás de nós, e notei que seus
olhos estavam cheios d’água.
— Às vezes, Louisa, acho que não vou mais aguentar — disse baixinho.
— Ele ama você — falei.
Eu não soube o que mais poderia dizer.
Ela secou os olhos com a palma da mão e balançou a cabeça, como se
tentasse se livrar da emoção.
— Eu sei.
Ela então me deu o sorriso menos convincente que já vi.
— Mas faz muito tempo que deixei de acreditar que o amor resolve tudo.
Por impulso, me adiantei e a abracei. Mais tarde, me dei conta de que não sabia se tinha feito isso por ela ou por mim mesma.
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* * *
Tive a ideia pouco antes do jantar de Ação de Graças. Agnes havia se recusado a
sair da cama o dia inteiro, por causa de um evento beneficente em prol da saúde
mental agendado para aquela noite. Ela alegou que estava deprimida demais para ir, aparentemente ignorando a ironia da desculpa.
Pensei nisso enquanto tomava uma caneca de chá e então decidi que tinha pouco a perder.
— Sr. Gopnik? — chamei, batendo na porta do escritório dele e esperando que me convidasse a entrar.
Ele levantou a cabeça — a camisa azul-clara estava imaculada e os olhos, caídos de cansaço. Na maioria dos dias, eu sentia um pouco de pena dele, da forma como sentimos pena de um urso enjaulado ao mesmo tempo que
mantemos um respeito saudável e ligeiramente temeroso por ele.
— O que foi?
— Eu... eu sinto muito por incomodá-lo. Mas tive uma ideia. Algo que acho que pode ajudar Agnes.
Ele se recostou na cadeira de couro e fez sinal para que eu fechasse a porta.
Reparei no copo de conhaque na mesa — ele tinha começado a beber mais cedo
do que o normal.
— Posso falar com franqueza? — perguntei.
Me senti um pouco enjoada de tão nervosa que estava.
— Por favor.
— Está bem. Bom, não pude deixar de notar que Agnes não está tão... ahn...
feliz como poderia.
— Isso é um eufemismo — retrucou ele baixinho.
— Me parece que muitas das questões dela têm a ver com o fato de ter sido
arrancada de sua vida antiga e não ter realmente se integrado à nova. Ela me contou que não sai com as amigas antigas porque elas não entendem sua vida
nova e, pelo que reparei, bem, muitas das pessoas da vida nova não parecem dispostas a serem suas amigas. Acho que elas consideram que isso seria...
desleal.
— Com a minha ex-mulher.
— Isso. Então, ela não tem um trabalho nem uma comunidade. E este prédio
não é uma comunidade de verdade. O senhor tem seu trabalho e pessoas que conhece há anos e que gostam do senhor e o respeitam. Mas Agnes não tem. Eu
sei que ela considera os eventos beneficentes especialmente difíceis, porém a filantropia é algo realmente importante para o senhor. Então, eu tive uma ideia...
— Diga.
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— Bem, há uma biblioteca em Washington Heights que está ameaçada de
fechar. Tenho todas as informações aqui. — Empurrei a minha pasta pela mesa.
— É uma biblioteca comunitária de verdade, utilizada por pessoas de diferentes
nacionalidades, idades e tipos. E é absolutamente vital para os moradores da área que permaneça aberta, eles estão lutando muito para salvá-la.
— Isso é um problema da câmara municipal.
— Bem, talvez. Mas conversei com uma das bibliotecárias, e ela contou que,
no passado, eles receberam doações particulares que ajudaram a biblioteca a continuar funcionando. — Me inclinei na direção dele. — Se fosse até lá, Sr.
Gopnik, veria que há programas de orientação para jovens e mães mantendo os
filhos abrigados e seguros, além de pessoas de fato tentando melhorar as coisas.
Melhorar de verdade. Sei que não é tão glamouroso quanto os eventos que o senhor frequenta... quer dizer, não vai haver um baile lá, mas ainda assim é beneficente, certo? E pensei que talvez... bom, talvez o senhor pudesse se envolver. E, melhor ainda, se Agnes se envolvesse, ela faria parte de uma comunidade. Poderia tornar isso um projeto dela. O senhor e ela fariam algo incrível.
— Em Washington Heights?
— O senhor deveria ir até lá. É uma região com bastante diversidade. Bem diferente... daqui. Quer dizer, algumas partes estão gentrificadas, mas essa em especial...
— Eu conheço Washington Heights, Louisa. — Ele tamborilou os dedos na
mesa. — Você conversou com Agnes sobre isso?
— Eu achei que deveria conversar com o senhor primeiro.
Ele pegou a pasta e a abriu. Franziu o cenho diante da primeira folha — um
recorte de jornal sobre os primeiros protestos. A segunda era um
demonstrativo orçamentário que eu pegara do site da câmara municipal, que mostrava o balanço financeiro do último ano.
— Sr. Gopnik, eu realmente acho que o senhor poderia fazer a diferença. E
não apenas para Agnes, mas para uma comunidade inteira.
Foi a essa altura que percebi que ele parecia impassível, indiferente até. Não
foi uma mudança notável em sua expressão, mas um leve enrijecimento, o olhar
para baixo. E me ocorreu que, por ser tão rico, ele provavelmente recebia uma
centena de pedidos de dinheiro todo dia, além de sugestões sobre o que fazer com ele. E que talvez, ao também pedir isso, eu houvesse ultrapassado uma fronteira invisível da relação empregado/empregador.
— Enfim, é apenas uma ideia. Provavelmente uma não muito boa. Desculpe
se falei demais. Vou voltar ao trabalho. Não se sinta obrigado a olhar isso tudo
se estiver ocupado. Posso levar comigo se o senhor...
— Está tudo bem, Louisa.
Ele pressionou as têmporas com a ponta dos dedos, os olhos fechados. Eu me
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levantei, sem saber ao certo se estava sendo dispensada.
Então ele finalmente olhou para mim.
— Pode falar com Agnes, por favor? Descubra se eu terei que ir a esse jantar
sozinho?
— Posso sim, claro.
Saí do escritório.
* * *
Agnes foi ao jantar beneficente. Não ouvimos nenhuma briga quando os dois chegaram em casa, mas, no dia seguinte, descobri que ela havia dormido no quarto de vestir.
* * *
Nas duas semanas antes de eu ir para casa no Natal, desenvolvi um hábito quase
obsessivo com o Facebook. Passei a conferir a página de Katie Ingram de manhã
e à noite, lendo suas conversas públicas com os amigos e procurando fotos novas. Uma amiga perguntou o que ela estava achando do emprego, e Katie escreveu “Estou AMANDO!” com uma carinha piscando (era irritante como ela
gostava de carinhas piscando). Em outro dia, ela postou: “Dia difícil hoje. Grata
por ter um parceiro incrível! #abençoada”. E postou mais uma foto de Sam, ao
volante da ambulância. Ele estava rindo, com a mão levantada como que para fazê-la parar, e a visão do rosto dele, a intimidade da foto, a maneira como a imagem me colocava como uma mera espectadora dos dois me deixou sem ar.
Nós tínhamos combinado de conversar por telefone na noite anterior — a
vez era dele —, porém, quando liguei, ele não atendeu. Tentei mais duas vezes e
nada. Duas horas depois, quando eu estava começando a ficar preocupada,
recebi uma mensagem de texto: Desculpe. Ainda está aí?
— Você está bem? Estava trabalhando? — perguntei, quando ele me ligou.
Houve uma brevíssima hesitação antes que ele respondesse.
— Não exatamente.
— Como assim?
Eu estava no carro com Garry, esperando Agnes sair da pedicure, e tinha consciência de que ele devia estar prestando atenção, independentemente do quanto parecesse estar entretido no caderno de esportes do New York Post.
— Eu estava ajudando Katie com uma coisa.
Senti um nó na garganta ao ouvir o nome dela.
— Ajudando com o quê? — questionei, tentando manter a voz descontraída.
— Com um guarda-roupa. Um desses baratinhos. Ela comprou e não
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conseguiu montar sozinha, então fiquei de ajudá-la.
Eu me senti enjoada.
— Você foi à casa dela?
— Apartamento. Foi só para ajudá-la com um móvel, Lou. Ela não tem mais
ninguém. E eu moro na mesma rua.
— Você levou a sua caixa de ferramentas.
Lembrei como ele costumava fazer pequenos consertos no meu apartamento.
Isso foi uma das primeiras coisas que me atraíram nele.
— Sim. Eu levei a minha caixa de ferramentas. E tudo o que fiz foi ajudá-la com um guarda-roupa — explicou com a voz cansada.
— Sam?
— O que foi?
— Você se ofereceu para ajudá-la ou foi ela quem pediu?
— Que diferença isso faz?
Tive vontade de dizer que tinha diferença, sim, porque era evidente que Katie estava tentando roubá-lo de mim. Ela estava alternando entre bancar a mulher indefesa, a festeira divertida, a melhor amiga compreensiva e a colega
de trabalho. Ou ele estava cego, ou — pior — não estava. Das fotos postadas por
ela nas redes sociais, não havia uma sequer em que não estivesse grudada nele,
feito uma sanguessuga de batom. Às vezes eu me perguntava se ela sabia que eu
xeretaria as fotos e se gostava de imaginar o desconforto que elas me
provocavam. Será que isso era parte do plano: me deixar triste e paranoica?
Tenho minhas dúvidas se os homens um dia compreenderão a artilharia
infinitamente sutil que as mulheres usam umas contra as outras.
O silêncio entre nós ao telefone se prolongou e se tornou um sumidouro. Eu
sabia que não tinha como vencer. Se tentasse alertá-lo sobre o que estava acontecendo, eu pagaria de bruxa ciumenta. Se não falasse nada, ele continuaria
caindo cegamente na armadilha dela. Até o dia em que de repente Sam se daria
conta de que sentia tanto a falta dela quanto um dia sentiu a minha. Ou descobrisse a mão macia de Katie em cima da sua no pub, buscando conforto depois de um dia difícil. Ou os dois se conectassem por causa de um pico de adrenalina, uma experiência de quase morte, e acabassem se beijando e...
Fechei os olhos.
— E então? Quando você volta? — perguntou ele.
— Na véspera do Natal.
— Ótimo. Vou tentar trocar uns plantões. Mas terei que trabalhar durante parte do feriado do Natal, Lou. Você sabe como é. O trabalho não para nunca. —
Então suspirou. Houve uma pausa antes de ele voltar a falar: — Olha, eu estive pensando. Talvez fosse uma boa ideia você e Katie se conhecerem. Aí você vai
ver que ela é uma pessoa legal. Ela não está tentando ser nada além de minha
amiga.
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Não está é o cacete.
— Ótimo! Parece uma boa — retruquei.
— Acho que você vai gostar dela.
— Se você acha, com certeza eu vou.
Da mesma forma que eu gostaria do vírus ebola. Ou de arranhar os cotovelos.
Ou talvez comer aquele queijo com insetos vivos dentro.
Ele pareceu aliviado ao dizer:
— Mal posso esperar para ver você. Vai ficar uma semana, certo?
Baixei a cabeça, tentando abafar um pouco a voz.
— Sam, a... a Katie realmente quer me conhecer? Vocês conversaram sobre isso?
— Sim. — E, então, como eu não disse nada, ele acrescentou: — Quer dizer,
não de um jeito... nós não conversamos sobre o que aconteceu com você e comigo ou coisa parecida. Mas ela entende que deve ser difícil para nós.
— Entendi.
Senti o maxilar ficar tenso.
— Ela acha que você parece ser ótima. Claro que eu disse que ela entendeu
tudo errado.
Eu ri e fiquei na dúvida se o pior ator do mundo conseguiria ter soado menos
convincente.
— Você vai ver quando conhecê-la. Mal posso esperar...
Quando Sam desligou, levantei a cabeça e flagrei Garry me observando pelo retrovisor. Mantemos contato por um instante, até que ele desviou o olhar.
* * *
Considerando que moro em uma das metrópoles mais movimentadas do
planeta, passei a compreender que o mundo como eu o conhecia era na verdade
muito pequeno, encolhido em torno das demandas dos Gopnik das seis da
manhã até tarde da noite. Minha vida havia se tornado completamente
entrelaçada à da deles. Assim como ocorrera com Will, eu havia me tornado sensível a cada humor de Agnes, conseguindo detectar pelos sinais mais sutis se
ela estava triste, com raiva ou simplesmente precisando de comida. Agora eu sabia quando ela ia ficar menstruada e marcava seus ciclos na minha agenda para me preparar para cinco dias de emoção exacerbada ou de piano sendo tocado com empatia extra. Sabia como me tornar invisível durante conflitos familiares e ficar totalmente presente quando necessário. Eu me tornei uma sombra, de tal forma que às vezes me sentia quase evanescente — útil apenas
em relação a outra pessoa.
Minha vida antes dos Gopnik se tornou algo distante, indistinto e espectral,
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vivenciado através de poucos telefonemas (quando a agenda dos Gopnik
permitia) e e-mails esporádicos. Fiquei duas semanas sem ligar para a minha irmã e chorei quando minha mãe me mandou uma carta escrita à mão com fotos
dela e de Thom em uma matinê de teatro “apenas para o caso de você ter esquecido a nossa aparência”.
A coisa toda podia ficar pesada demais. Então, para equilibrar, mesmo