Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 2/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

que não consegui ouvir. No último minuto, seu olhar encontrou o meu — seus

olhos se arregalaram de leve — e eu acordei, suando, o edredom embolado em

volta das minhas pernas.

fevereiro/2018

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3

Para: Samfielding1@gmail.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Estou escrevendo com pressa — a Sra. G está na aula de piano —, mas vou tentar mandar um e-mail todos os dias, para pelo menos ter a sensação de que estamos conversando. Estou com saudade. Por favor, responda. Sei que você detesta e-mails, mas faça isso por mim. Por favooooor. (Imagine a minha cara implorando.) Ou então, sabe como é, CARTAS! Amo você, L.

Bjs, bjs, bjs.

* * *

— Olá, bom dia!

Um homem negro enorme usando uma calça de lycra vermelha muito justa

estava de pé à minha frente com as mãos na cintura. Vestida com short e camiseta, congelei na porta da cozinha, piscando os olhos, perguntando-me se

estava sonhando e se, caso fechasse a porta e a abrisse outra vez, ele ainda estaria ali.

— Você deve ser a Srta. Louisa, certo?

A mão gigantesca avançou e apertou a minha, balançando-a com tanto

entusiasmo que eu quiquei para cima e para baixo involuntariamente. Olhei o relógio. Realmente eram seis e quinze.

— Eu sou o George. O treinador da Sra. Gopnik. Ouvi dizer que você vai correr com a gente. Estou ansioso!

Eu tinha acordado após poucas horas de sono agitado, lutando para não

pensar nos sonhos confusos que tivera e que haviam se emaranhado uns nos outros enquanto eu dormia. Então saíra cambaleando pelo corredor no piloto automático, um zumbi em busca de cafeína.

— Ok, Louisa! Precisamos ficar hidratados!

Ele pegou duas garrafas de água ao seu lado e saiu correndo de leve pelo corredor.

Servi café para mim mesma e, enquanto o bebia ali de pé, Nathan entrou, arrumado e cheirando a loção pós-barba. Olhou para minhas pernas nuas.

— Acabei de conhecer o George — disse eu.

— Não existe nada que ele não possa lhe ensinar sobre glúteos. Você está com seus tênis de corrida, não está?

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— Hah!

Bebi um gole do meu café, mas Nathan me olhava ansioso.

— Nathan, ninguém falou nada sobre correr. Não sei correr. Quer dizer, sou a

antítese do esporte, a moradora do sofá. Você sabe disso.

Nathan serviu-se de café preto e pôs o bule de volta na máquina.

— Além disso, caí de um prédio este ano. Lembra? Vários pedaços de mim se

quebraram — argumentei.

Eu já era capaz de fazer piadas sobre aquela noite em que, ainda sofrendo pela perda de Will, escorreguei, grogue, do parapeito da minha casa em

Londres. Mas as pontadas no meu quadril eram um lembrete constante.

— Você está bem. E é a assistente da Sra. G. Seu trabalho é estar ao lado dela

em todos os momentos, colega. Se ela quer que você corra, então vai correr.

Ele tomou um gole de café.

— Ah, não faça essa cara de pânico. Você vai adorar. Em poucas semanas vai

estar tão em forma quanto uma atleta. Todo mundo aqui faz isso.

— São seis e quinze da manhã.

— O Sr. Gopnik começa às cinco. Acabamos de terminar a fisioterapia dele. A

Sra. G gosta de dormir um pouco mais.

— Então a que horas saímos para correr?

— Vinte para as sete. Encontre com eles no corredor principal. Vejo você mais tarde!

Ele ergueu uma das mãos e saiu.

* * *

Agnes, é claro, era uma daquelas mulheres que ficavam ainda mais bonitas de

manhã: a cara limpa, um pouco embaçada, mas como que alterada por um filtro

sensual. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e sua blusa justa

com a calça de corrida lhe dava um ar descontraído digno de uma supermodelo

em dia de folga. Ela trotou pelo corredor feito um cavalo Palomino de óculos escuros e me cumprimentou erguendo a mão elegante, como se fosse

simplesmente cedo demais para falar. Eu só tinha um short e uma camiseta regata comigo, figurino que, eu suspeitava, me dava o ar de uma operária cheinha. Estava ligeiramente nervosa por não ter raspado as axilas, então grudei os cotovelos às laterais do corpo.

— Bom dia, Sra. G! — disse George, surgindo ao nosso lado e entregando uma

garrafa de água a Agnes. — Está pronta?

Ela fez que sim.

— Preparada, Srta. Louisa? Vamos fazer só seis quilômetros e meio hoje. A Sra. G quer focar nos abdominais. Você se alongou, certo?

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— Hum, eu…

Não tinha água nem garrafa. Mas lá fomos nós.

* * *

Eu já tinha ouvido a expressão “correr atrás do prejuízo”, mas nunca entendera

seu real significado antes de conhecer George. Ele saiu pelo corredor

aparentemente a sessenta quilômetros por hora e, bem quando achei que íamos

desacelerar ao menos para pegar o elevador, segurou as portas duplas de acesso à escada para que pudéssemos descer os degraus que nos levaram ao térreo. Saímos no saguão e passamos voando por Ashok, cuja saudação abafada

eu mal consegui ouvir.

Minha nossa, estava muito cedo para aquilo. Segui os dois, que corriam sem

esforço como um par de cavalos puxando uma carruagem, enquanto eu me

apressava lá atrás, meu passo mais curto incapaz de se igualar ao deles. Meus

ossos reclamando com o impacto cada vez que meus pés tocavam o chão, e eu

murmurava desculpas ao desviar dos pedestres kamikazes que cruzavam meu

caminho. Correr era coisa do meu ex-namorado Patrick. Era que nem couve: uma dessas coisas que você sabe que existem e que podem até fazer bem para a

saúde, mas, francamente, a vida é curta demais para se dedicar a elas.

Ah, vamos lá, você consegue, eu disse a mim mesma. Este é o seu primeiro momento diga sim! . Você está correndo em Nova York! É uma versão sua completamente nova! Por alguns passos gloriosos, quase acreditei. O trânsito parou, o sinal de pedestres ficou vermelho e nós paramos na calçada, George e

Agnes quicando levemente, eu invisível atrás deles. Então atravessamos a rua e

entramos no Central Park, o asfalto desaparecendo sob nossos pés, os sons dos carros sumindo à medida que adentrávamos aquele oásis verde no coração da

cidade.

Havíamos corrido menos de um quilômetro e meio quando percebi que

aquilo não tinha sido uma boa ideia. Mesmo que eu tivesse praticamente parado

de correr e estivesse, na verdade, andando, minha respiração já estava arfante e

meu quadril protestava por causa da lesão recente. A distância máxima que havia corrido em anos era de uns quinze metros, atrás de um ônibus quase parando — e que eu acabara perdendo. Ergui os olhos e vi que George e Agnes

estavam conversando enquanto corriam. Eu com falta de ar e os dois batendo um papo.

Pensei em um amigo do meu pai que infartou enquanto corria. Papai sempre

usara esse episódio como um exemplo óbvio do motivo pelo qual esportes não

faziam bem. Por que eu não explicara minhas lesões? Ia tossir até cuspir um pulmão ali, bem no meio do parque?

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— Tudo certo aí atrás, Srta. Louisa? — perguntou George virando-se para mim, de forma que agora corria de costas.

— Tudo!

Ergui um polegar animadamente.

Eu sempre quis conhecer o Central Park, mas não daquele jeito. Perguntei a

mim mesma o que aconteceria se eu caísse e morresse no meu primeiro dia de

trabalho. Como fariam para levar meu corpo de volta à Inglaterra? Desviei para

não bater em uma mulher com três criancinhas idênticas que andavam a esmo.

Por favor, meu Deus, pedi mentalmente às duas pessoas que corriam sem esforço à minha frente. Será que um de vocês dois poderia cair no chão? Não a ponto de quebrar uma perna, só torcer de leve. Um daqueles machucados que duram vinte e quatro horas e exigem que a pessoa fique no sofá com a perna para cima vendo TV o dia todo.

Eles estavam se afastando de mim e não havia nada que eu pudesse fazer.

Que tipo de parque tinha colinas? O Sr. Gopnik ficaria furioso comigo por eu não ter acompanhado sua esposa. Agnes perceberia que eu era uma inglesa boba e

atarracada, e não uma aliada. Eles contratariam uma mulher magra e linda com

roupas de corrida melhores.

Foi nesse momento que o velho passou correndo por mim. Virou a cabeça

para me olhar, então consultou seu monitor de corrida e seguiu em frente, os pés hábeis, os fones enfiados nas orelhas. Devia ter uns setenta e cinco anos.

— Ah, espera lá.

Eu o observei afastar-se de mim. Então avistei o cavalo e a carruagem.

Continuei correndo até ficar ao lado do cocheiro.

— Ei! Ei! Será que pode me levar até onde aquelas duas pessoas estão

correndo?

— Que pessoas?

Apontei para os minúsculos pontos ao longe. Ele espiou na direção deles, então deu de ombros. Subi na carruagem e me escondi atrás do cocheiro

enquanto ele sacudia as rédeas para fazer o cavalo avançar. Mais uma

experiência em Nova York que não acontecia exatamente como eu havia

planejado, pensei, agachada atrás dele. Nós nos aproximamos e eu toquei seu ombro para que ele me deixasse sair. Tínhamos percorrido menos de

quinhentos metros, mas pelo menos eu me aproximara dos dois. Fiz menção de

saltar da carruagem.

— Quarenta dólares — disse o cocheiro.

— O quê?

— Quarenta dólares.

— Foram só quinhentos metros!

— O preço é esse, moça.

Os dois ainda estavam absortos na conversa. Peguei duas notas de vinte

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dólares no bolso e as joguei na direção do sujeito, então me abaixei atrás da carruagem e comecei a correr, bem no instante em que George olhou para trás e

me viu. Ergui o polegar alegremente outra vez, como se não tivesse saído dali.

* * *

George finalmente teve pena de mim. Viu que eu estava mancando e trotou na

minha direção enquanto Agnes se alongava, suas pernas compridas se

estendendo como as de um flamingo flexível.

— Srta. Louisa! Tudo certo aí?

Pelo menos achei que era George. Não conseguia mais enxergar por causa do

suor que escorria para dentro dos meus olhos. Parei e pus as mãos nos joelhos,

o peito arfante.

— Está com algum problema? Parece um pouco corada.

— Estou um pouco… enferrujada — falei, arquejando. — Problema… no

quadril.

— Você tem uma lesão? Deveria ter avisado!

— Não quis… perder isso! — disse, limpando os olhos com as mãos, o que só

fez com que ardessem mais.

— Onde é?

— Quadril esquerdo. Fratura. Há oito meses.

Ele levou as mãos ao meu quadril, então moveu minha perna esquerda para

trás e para a frente para sentir a rotação. Tentei não fazer careta.

— Sabe, acho melhor você não correr mais hoje.

— Mas eu…

— Não, pode voltar para casa, Srta. Louisa.

— Ah, se você insiste. Que decepção.

— Encontramos com você no apartamento.

Ele me deu um tapa nas costas tão vigoroso que quase caí de cara no chão.

Então, com um tchauzinho animado, os dois se foram.

* * *

— Foi divertido, Srta. Louisa? — perguntou Ashok quando cheguei ao prédio, cambaleante, quarenta e cinco minutos depois.

No fim das contas, descobri que é possível se perder no Central Park.

Parei para descolar das costas minha blusa encharcada de suor.

— Maravilhoso. Adorei.

Quando entrei no apartamento, descobri que George e Agnes haviam

chegado lá vinte minutos antes de mim.

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* * *

O Sr. Gopnik me avisara que Agnes tinha muitos compromissos. Levando em conta que a esposa dele não tinha nem emprego nem filhos, era de fato a pessoa

mais ocupada que eu já conhecera. Tivemos meia hora para tomar café da manhã depois que George foi embora (a mesa estava posta para Agnes com uma

omelete de clara de ovo, algumas frutas vermelhas e um bule prateado de café;

eu engoli um muffin que Nathan havia deixado para mim na cozinha dos

funcionários), e em seguida meia hora no escritório do Sr. Gopnik com o assistente dele, Michael, anotando os eventos a que Agnes compareceria

durante a semana.

O escritório do Sr. Gopnik era uma demonstração de masculinidade

calculada: todo recoberto de painéis de madeira escura e estantes abarrotadas

de livros. Nós nos sentamos em poltronas com estofado espesso ao redor de uma mesa de centro. Atrás de nós, na imensa escrivaninha do Sr. Gopnik, uma

série de telefones e cadernos de capa dura. Volta e meia Michael implorava a Ilaria que trouxesse mais um pouco de seu delicioso café, e ela obedecia, reservando seus sorrisos só para ele.

Revisamos os prováveis conteúdos de uma reunião sobre a fundação

filantrópica dos Gopnik, um jantar beneficente na quarta-feira, um almoço comemorativo e um coquetel na quinta-feira, além de uma exposição de arte e

um concerto na Metropolitan Opera do Lincoln Center na sexta-feira.

— Uma semana tranquila, então — disse Michael, olhando seu iPad.

A agenda de Agnes para aquele dia mostrava um horário no cabeleireiro às

dez (o que ocorria três vezes por semana), uma consulta com o dentista (limpeza de rotina) e uma reunião com um decorador. Ela teria também uma aula de piano às quatro (duas vezes por semana), uma aula de spinning às cinco

e meia e, então, sairia para jantar apenas com o Sr. Gopnik em um restaurante

em Midtown. Eu encerraria o expediente às seis e meia.

A perspectiva do dia pareceu deixar Agnes satisfeita. Ou talvez fosse a corrida. Ela tinha se trocado — agora vestia uma calça jeans azul-violeta e uma

blusa branca cuja gola revelava um grande pingente de diamante — e se movia

em uma discreta nuvem de perfume.

— Tudo parece em ordem — disse ela. — Bem. Tenho que dar alguns

telefonemas.

Ela pareceu considerar que eu saberia onde encontrá-la depois.

— Se estiver na dúvida, espere no corredor — sussurrou Michael quando

Agnes saiu.

Ele sorriu, despindo-se da aparência profissional por um instante.

— Quando comecei a trabalhar aqui, nunca sabia onde encontrá-los. Nosso

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trabalho é aparecer no momento em que eles acham que precisam de nós. Mas

também, você sabe, não podemos segui-los até o banheiro.

Ele não devia ser muito mais velho que eu, mas parecia uma daquelas

pessoas que já saem do ventre da mãe lindas, sabendo combinar as roupas e com sapatos perfeitamente engraxados. Eu me perguntei se todas as pessoas em Nova York eram assim, menos eu.

— Há quanto tempo trabalha aqui?

— Pouco mais de um ano. Precisaram demitir a antiga assistente porque…

Ele se interrompeu, parecendo momentaneamente constrangido.

— Bem, para recomeçar do zero e tudo o mais. Então, depois de um tempo,

viram que não dava certo ter um assistente só para os dois. É aí que você entra.

Então, oi!

Ele estendeu a mão e eu a apertei.

— Você gosta de trabalhar aqui? — perguntei.

— Adoro. Nunca sei quem eu amo mais, ela ou ele — respondeu Michael,

abrindo um sorriso. — Ele é muito inteligente. E tão bonito. E ela é uma boneca.

— Você corre com eles?

— Correr? Está de brincadeira? — Ele estremeceu. — Sou contra suor. A não

ser o suor do Nathan. Minha nossa. Com ele, eu seria a favor de suar. Ele não é

lindo? Ofereceu uma massagem no meu ombro e eu me apaixonei

imediatamente. Como é possível você ter trabalhado com ele tanto tempo sem

pular em cima daquele corpo delicioso tão másculo?

— Eu…

— Não me diga. Se já ficou com ele, não quero saber. Temos que continuar

amigos. Certo. Preciso ir a Wall Street.

Ele me deu um cartão de crédito (“Para emergências — ela volta e meia esquece o dela. Todos os extratos vão direto para ele”) e um tablet, então me mostrou a senha.

— Todos os contatos de que precisa estão aqui. E tudo o que tem a ver com a

agenda está aqui — disse, arrastando o dedo na tela. — Cada pessoa corresponde a uma cor… O Sr. Gopnik é azul, a Sra. Gopnik é vermelha e Tabitha

é amarela. Não administramos mais a agenda dela, já que não mora mais aqui,

mas é útil saber quando é provável que ela apareça e se há compromissos com a

família toda, como reuniões sobre o fundo de garantia ou a fundação. Criei um

e-mail pessoal para você, e se houver alguma mudança nós dois vamos nos comunicar para confirmar qualquer modificação feita na tela. Você precisa verificar tudo duas vezes. Conflitos na agenda sempre deixam o Sr. Gopnik muito irritado.

— Ok.

— Então você vai olhar a correspondência dela todas as manhãs, descobrir o

que ela quer fazer. E então vou confirmar a agenda com você, porque às vezes

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ela diz não para algum convite, mas ele passa por cima. Por isso, não jogue nada

fora. Só faça duas pilhas.

— Quantos convites são?

— Ah, você não tem ideia. Os Gopnik são basicamente primeiro nível. Isso quer dizer que são convidados para tudo e não comparecem a quase nada. No

segundo nível, você gostaria de ser convidado para a metade dos eventos e vai a

todos os que pode.

— Terceiro nível?

— Penetras. Iriam à inauguração de um food truck de comida mexicana. Eles

vão até mesmo a eventos de clubes. É muito constrangedor.

Ele suspirou.

Olhei a agenda, focando na semana atual, que me pareceu um arco-íris

confuso e apavorante. Tentei não transparecer quão intimidada me sentia.

— O que é o marrom?

— São os compromissos do Felix. O gato.

— O gato tem a própria agenda?

— São só tosadores, consultas com o veterinário, o dentista, esse tipo de coisa. Ah, não, ele tem a especialista comportamental esta semana. Deve ter feito cocô no tapete Ziegler outra vez.

— E roxo?

Michael baixou a voz.

— Essa é a antiga Sra. Gopnik. Se você vir um quadrado roxo ao lado de um

evento, é porque ela também estará presente.

Ele estava prestes a dizer mais alguma coisa, mas seu celular tocou.

— Sim, Sr. Gopnik… Sim. É claro… Sim, vou fazer isso. Estou a caminho.

Guardou o celular na bolsa.

— Certo. Tenho que ir. Seja bem-vinda à equipe!

— Quantos somos? — perguntei, mas ele já saía porta afora, com o casaco pendurado no braço.

— O primeiro Alerta Roxo é daqui a duas semanas. Certo? Vou enviar um e-

mail para você. E vista roupas normais quando estiver na rua! Ou vai parecer que trabalha em uma loja de produtos naturais.

* * *

O dia passou voando. Vinte minutos depois, saímos do prédio e entramos em um carro que nos aguardava e nos levou a um salão de beleza chique a alguns

quarteirões dali, enquanto eu tentava desesperadamente parecer o tipo de

pessoa que tinha passado a vida toda entrando e saindo de carrões pretos com

estofados de couro cor de creme. Sentei-me na extremidade do salão enquanto

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uma mulher cujo próprio cabelo parecia ter sido cortado com régua lavava e escovava o de Agnes. Então, uma hora depois, o carro nos levou ao consultório

do dentista, onde, mais uma vez, fiquei sentada na sala de espera. Todos os lugares aonde íamos eram silenciosos, de bom gosto, a um mundo de distância

da loucura da rua lá fora.

Eu estava usando um dos meus trajes mais sóbrios: uma blusa azul-marinho

com estampa de âncoras e uma saia lápis listrada, mas não precisava ter me preocupado: em cada lugar que entrava eu me tornava instantaneamente

invisível. Era como se eu tivesse a palavra “EQUIPE” tatuada na testa. Comecei a

reparar nos outros assistentes pessoais, andando de lá para cá falando ao celular ou correndo com roupas lavadas a seco e cafés especiais em suportes de

papelão. Perguntei a mim mesma se deveria oferecer café para Agnes ou ficar riscando oficiosamente tarefas de listas. Na maior parte do tempo, eu não sabia

ao certo por que estava ali. A coisa toda parecia funcionar de modo impecável

sem mim. Era como se eu fosse apenas uma couraça humana — uma barreira

portátil entre Agnes e o resto do mundo.

De volta ao carro, Agnes estava distraída, falando polonês ao telefone ou me

pedindo para fazer anotações no tablet.

— Precisamos ver com Michael se o terno cinza de Leonard foi lavado. E

talvez ligar para a Sra. Levitsky para falar sobre o meu vestido Givenchy… Acho

que emagreci um pouco desde que o usei da última vez. Ela talvez precise ajustar um pouco.

Espiou dentro de sua imensa bolsa Prada, pegando uma caixinha de plástico

com comprimidos e jogando dois na boca.

— Água?

Olhei à minha volta e encontrei uma garrafa na porta do carro. Tirei a tampa

e entreguei a ela. O carro parou.

— Obrigada.

O motorista, um homem de meia-idade com cabelo escuro e espesso e uma

papada que sacudia quando ele se mexia, saiu para abrir a porta para Agnes.

Quando ela entrou no restaurante, o porteiro cumprimentando-a como se fosse

um velho amigo, eu fiz menção de segui-la, mas o motorista fechou a porta. Fui

deixada no banco de trás. Fiquei sentada ali por um instante, perguntando-me o

que deveria fazer.

Olhei meu celular. Espiei pela janela, tentando encontrar alguma lanchonete

por perto. Bati o pé ritmicamente. Enfim, debrucei-me entre os dois bancos da

frente.

— Meu pai costumava deixar minha irmã e eu no carro quando ia para o bar.

Nos trazia uma Coca-Cola e um saco de salgadinhos sabor cebola, e isso resolvia

a nossa situação por três horas.

Tamborilei os dedos no joelho.

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— Hoje em dia, ele provavelmente seria acusado de maus-tratos. Mas o

salgadinho sabor cebola era o nosso preferido. A melhor parte da semana.

O motorista ficou calado.

Inclinei-me um pouco mais a frente, de forma que meu rosto ficasse a poucos

centímetros do dele.

— Então. Quanto tempo isso costuma demorar?

— O tempo que for.

Seus olhos se desviaram dos meus no retrovisor.

— E você fica aqui esperando?

— É o meu trabalho.

Fiquei parada por um instante, depois estendi a mão para a frente.

— Meu nome é Louisa. A nova assistente da Sra. Gopnik.

— Prazer.

Ele não se virou para mim. Aquelas foram as últimas palavras que me dirigiu.

Enfiou um CD no aparelho de som.

— Estoy perdido — disse uma voz de mulher em espanhol. — ¿Dónde está el

baño?

— Es-TOY perr-DJI-do. DOUN-de es-TA el BÃ-nho — repetiu o motorista.

— ¿Cuánto cuesta?

— QuAN-to QUEX-ta — respondeu ele.

Passei a hora seguinte sentada na parte de trás do carro olhando para o iPad,

tentando não escutar os exercícios linguísticos do motorista e me perguntando

se eu também deveria estar fazendo algo de útil. Enviei um e-mail para Michael

com a pergunta, mas ele simplesmente respondeu: Esse é seu horário de almoço,

querida. Aproveite! Bjs

Não quis lhe dizer que eu não tinha comida. No calor do carro parado, o cansaço começou a tomar conta de mim outra vez, como uma maré. Apoiei a cabeça na janela, dizendo a mim mesma que era normal eu me sentir deslocada,

incompetente. Durante algum tempo, você vai se sentir pouco à vontade em seu

novo mundo. É sempre estranho ser arrancada de sua zona de conforto. A última carta de Will ecoou na minha mente como que vinda de um lugar muito

distante.

Então, nada.

* * *

Acordei com um susto quando a porta se abriu. Agnes entrou, o rosto pálido, o

maxilar travado.

— Está tudo bem? — perguntei, tentando me endireitar, mas ela não

respondeu.

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O carro saiu em silêncio, o ar parado lá dentro adquirindo o peso súbito da

tensão.

Ela se virou para mim. Procurei uma garrafa de água e a estendi na direção

dela.

— Tem cigarros?

— Hum… não.

— Garry, você tem cigarros?

— Não, senhora. Mas podemos providenciar.

Percebi que a mão dela estava tremendo. Agnes enfiou-a na bolsa, pegou um

pequeno frasco de comprimidos, e eu lhe entreguei a água. Ela tomou um gole, e

vislumbrei lágrimas em seus olhos. Estacionamos ao lado de uma farmácia, e um instante se passou antes que me desse conta de que esperavam que eu saísse.

— Que tipo? Quero dizer, que marca?

— Marlboro Light — respondeu ela, secando os olhos.

Saí correndo (mancando, na verdade, já que estava com dor nas pernas por

causa da corrida matinal) e comprei um maço, pensando como era estranho comprar cigarros em uma farmácia. Quando voltei para o carro, ela gritava em

polonês com alguém ao telefone. Encerrou a ligação, então abriu a janela e acendeu um cigarro, tragando profundamente. Ela me ofereceu um. Fiz que não

com a cabeça.

— Não conte a Leonard — disse, a expressão mais relaxada. — Ele odeia que

eu fume.

Ficamos sentados por alguns minutos com o motor ligado enquanto ela

fumava o cigarro com tragadas curtas e raivosas que me fizeram temer pelos seus pulmões. Então apagou a guimba, os lábios se retesando com alguma fúria

interna, e fez um gesto para que Garry seguisse.

* * *

Fui liberada de minhas tarefas por alguns minutos enquanto Agnes fazia a aula

de piano. Retirei-me para o meu quarto e pensei em me deitar, mas tive medo de que a dor nas pernas significasse que eu não conseguiria me levantar depois,

então acabei me sentando à pequena mesa, escrevendo um e-mail breve para Sam e verificando os compromissos dos dias seguintes na agenda.

Enquanto isso, uma música começou a ecoar pelo apartamento, primeiro

escalas, então algo melodioso e lindo. Parei para ouvir, maravilhada com o som,

perguntando-me qual seria a sensação de ser capaz de criar algo tão belo.

Fechei os olhos, deixando que o som percorresse meu corpo, recordando a noite

em que Will me levara para ver meu primeiro concerto e começara a abrir o fevereiro/2018

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mundo à força para mim. Ouvir música ao vivo era tão mais tridimensional do

que escutar uma gravação… Era como um curto-circuito no seu âmago. A

música de Agnes parecia surgir de uma parte dela que permanecia fechada durante suas interações com o mundo; algo vulnerável, doce e delicado. Ele teria gostado disso, pensei, distraída. Teria adorado estar aqui. No exato instante em que a música evoluiu para algo verdadeiramente mágico, Ilaria ligou o aspirador de pó, engolindo o som com o rugido do aparelho, o ruído implacável da máquina se chocando contra os móveis pesados. A música parou.

Meu celular vibrou.

Por favor, mande ela desligar o aspirador!

Desci da cama e caminhei pelo apartamento até encontrar Ilaria, que

empurrava furiosamente o aspirador bem diante da porta do estúdio de Agnes,

a cabeça baixa enquanto fazia investidas com o aparelho. Engoli em seco. Havia

algo em Ilaria que fazia você hesitar antes de confrontá-la, ainda que ela fosse

uma das únicas pessoas mais baixas que eu naquela vizinhança.

— Ilaria — chamei.

Ela não parou.

— Ilaria!

Fiquei parada bem diante dela, até que fosse obrigada a me ver. Ela desligou

o aspirador com o calcanhar e me fuzilou com os olhos.

— A Sra. Gopnik perguntou se você poderia passar o aspirador outra hora.

Ela não está conseguindo ouvir a aula de música.

— Quando ela acha que devo limpar o apartamento? — indagou Ilaria, alto o

bastante para que a ouvissem do outro lado da porta.

— Hum… Talvez em qualquer outro momento do dia a não ser nestes

quarenta minutos específicos…?

Ela tirou o fio da tomada e arrastou o aspirador ruidosamente pelo cômodo.

Olhou para mim com tamanho desprezo que quase dei um passo para trás.

Houve um breve silêncio, então a música recomeçou.

Quando Agnes finalmente saiu, vinte minutos depois, olhou para mim de

esguelha e sorriu.

* * *

A primeira semana avançou aos trancos e barrancos, exatamente como o

primeiro dia: eu observava Agnes em busca de sinais da mesma forma como mamãe costumava ficar de olho em nossa velha cadela que teve incontinência

urinária. Será que ela precisa sair? O que ela quer? Onde devo ficar? Corri com

Agnes e George todas as manhãs. Depois de percorrer mais ou menos um

quilômetro, apontava para meu quadril e sinalizava para eles irem em frente, fevereiro/2018

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então caminhava lentamente de volta até o prédio. Passei muito tempo sentada

no corredor, estudando meu iPad com atenção sempre que alguém passava, de

forma a dar a impressão de que sabia o que estava fazendo.

Michael ia até lá todos os dias e me atualizava com sussurros breves. Parecia

passar a vida correndo entre o apartamento e o escritório do Sr. Gopnik em Wall Street, com um de seus dois celulares colado à orelha, um pacote da lavanderia apoiado no braço, um café na mão. Era muito charmoso e estava sempre sorrindo, e eu não tinha a menor ideia se gostava de mim ou não.

Mal vi Nathan. Ele parecia contratado para se adequar à agenda do Sr.

Gopnik. Às vezes, trabalhava às cinco da manhã; outras, às sete da noite, desaparecendo no escritório para ajudá-lo lá caso fosse necessário.

— Não sou contratado pelo que faço — explicou Nathan. — Sou contratado

pelo que posso fazer.

Volta e meia ele sumia, e eu descobria que ele e o Sr. Gopnik tinham pegado o

jatinho durante a noite — rumo a São Francisco ou Chicago. O Sr. Gopnik sofria

de um tipo de artrite que ele se esforçava para manter sob controle, de forma

que Nathan e ele nadavam ou se exercitavam diversas vezes por dia para complementar o regime de anti-inflamatórios e analgésicos.

Além de Nathan e de George, o treinador, que também ia até lá todos os dias

úteis de manhã, as outras pessoas que passaram pelo apartamento na primeira

semana foram:

Os faxineiros. Aparentemente, existia uma distinção entre o que Ilaria fazia (cuidar da casa) e a faxina propriamente dita. Duas vezes por

semana, uma equipe uniformizada composta de três mulheres e um

homem atacava o apartamento. Eles não falavam, a não ser brevemente,

entre si. Elas traziam uma grande caixa de produtos de limpeza

ecologicamente corretos e iam embora três horas depois, quando Ilaria

passava a fungar para verificar o cheiro do apartamento e correr os

dedos pelos rodapés com uma expressão reprovadora.

Os floristas, que chegavam em uma van na segunda-feira de manhã, levando enormes vasos de arranjos a serem posicionados em intervalos

estratégicos nas áreas comuns do apartamento. Diversos vasos eram tão

grandes que precisavam ser carregados por duas pessoas. Eles tiravam

os sapatos na porta.

O jardineiro. Sim, de verdade. Em um primeiro momento, achei isso ligeiramente hilário (“Vocês se dão conta de que estamos no segundo

andar?”), mas então descobri que as grandes varandas nos fundos do prédio eram repletas de vasos com árvores em miniatura e flores, que o

jardineiro regava, podava e adubava antes de desaparecer tão

subitamente quanto surgira. De fato, aquilo deixava a varanda linda, mas

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ninguém ia lá a não ser eu.

A especialista em comportamento animal. Uma minúscula japonesa que lembrava um passarinho apareceu às dez da manhã na sexta-feira,

observou Felix de longe por cerca de uma hora, em seguida examinou

sua comida, a caixa de areia, os lugares onde dormia, interrogou Ilaria a

respeito do comportamento do gato e recomendou os brinquedos de que

ele precisava, além de verificar se o arranhador era alto e estável o

bastante. Felix a ignorou do começo ao fim da visita, interrompendo-se

apenas para limpar o traseiro com um entusiasmo que pareceu quase

ofensivo.

A equipe de compras ia ao apartamento duas vezes por semana levando

grandes caixotes de comida fresca, e os descarregava sob a supervisão

de Ilaria. Avistei a conta certo dia: o suficiente para alimentar minha família — e talvez metade dos moradores da minha rua — por diversos

meses.

E isso sem contar a manicure, o dermatologista, o professor de piano, o homem

que cuidava dos carros e os limpava, o faz-tudo que trabalhava para o prédio e

resolvia questões de lâmpadas queimadas e ares-condicionados com defeito.

Havia a ruiva magérrima que levava grandes sacolas de roupas da Bergdorf Goodman ou da Saks Fifth Avenue e observava tudo o que Agnes experimentava

de maneira penetrante, declarando:

— Não. Não. Não. Ah, isso está perfeito, querida. Está uma graça. Combina com aquela bolsinha Prada que mostrei a você na semana passada. Agora, o que

vamos fazer a respeito da festa de gala?

Havia também o vendedor de vinhos, o homem que pendurava os quadros, a

mulher que limpava as cortinas e o homem que encerava o piso parquê do salão

principal com algo que lembrava um aparador de grama, além de alguns outros.

Simplesmente me acostumei a ver pessoas que não reconhecia circulando por lá. Não sei se houve um único dia nas primeiras duas semanas em que menos de

cinco pessoas estivessem no apartamento ao mesmo tempo.

Era uma casa de família apenas no nome. Parecia um espaço de trabalho para

mim, Nathan, Ilaria e uma equipe infinita de funcionários, prestadores de serviço ou puxa-sacos que entravam e saíam desde o amanhecer até tarde da noite. Às vezes, após o jantar, uma procissão de colegas do Sr. Gopnik, todos de

terno, passava por lá, desaparecendo no escritório e saindo uma hora depois, murmurando coisas sobre telefonemas para Washington ou Tóquio. Ele parecia

nunca parar de trabalhar, a não ser pelo tempo que passava com Nathan. Até mesmo durante o jantar, seus dois celulares ficavam em cima da mesa de mogno, vibrando discretamente, como vespas aprisionadas, enquanto as

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mensagens chegavam.

Algumas vezes, peguei-me observando Agnes fechar a porta de seu quarto de

vestir no meio do dia — provavelmente o único lugar onde ela podia

desaparecer — e me perguntando: Algum dia este lugar foi apenas um lar?

Era por isso, concluí, que eles desapareciam nos fins de semana. A menos que

a casa de campo também contasse com uma equipe.

— Não. Foi a única coisa que ela decidiu — explicou Nathan quando

perguntei. — Agnes disse para ele deixar a casa de fim de semana para a ex-mulher. Em troca, conseguiu que ele se contentasse com uma casa modesta na

praia. Três camas. Um banheiro. Nenhum funcionário.

Ele balançou a cabeça.

— Portanto, nada de Tab. Ela não é boba.

* * *

— Oi!

Sam estava de uniforme. Fiz alguns cálculos mentais e concluí que ele

acabara de encerrar o turno. Correu a mão pelo cabelo, então debruçou-se para

a frente como que para me ver melhor na imagem pixelada. Uma vozinha disse

em minha mente, como todas as vezes que eu falara com ele desde que tinha ido

embora: Como assim você se mudou para um continente onde esse homem não está?

— Foi trabalhar, então?

— Fui — respondeu ele, dando um suspiro. — Não foi o melhor primeiro dia

de volta ao trabalho.

— Por quê?

— Donna pediu demissão.

Não consegui esconder minha surpresa. Donna — sincera, engraçada, calma

— era o yin do yang dele, sua âncora, sua voz sensata no trabalho. Era impossível tentar imaginar um sem o outro.

— O quê? Por quê?

— O pai dela está com câncer. Agressivo. Incurável. Ela quer ficar com ele.

— Ah, meu Deus. Coitada da Donna. Coitado do pai dela.

— É. É difícil. E agora tenho que esperar para ver quem vão colocar para trabalhar comigo. Acho que não vai ser um novato, por conta de todas as questões de disciplina. Então imagino que vá ser alguém de outro distrito.

Sam comparecera diante da comissão disciplinar duas vezes desde que

estávamos juntos. Eu tinha sido responsável por pelo menos uma delas, e senti

aquela costumeira pontada de culpa por reflexo.

— Você vai sentir falta dela.

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— É.

Ele parecia um pouco cansado. Tive vontade de atravessar a tela e abraçá-lo.

— Ela me salvou — disse.

Sam não era de fazer declarações dramáticas, o que, de alguma forma, tornou

essas três palavras ainda mais fortes. Eu ainda me lembrava daquela noite em

imagens bruscas de uma clareza apavorante: o sangue de Sam jorrando no lugar

onde a bala o atingira e escorrendo pelo chão da ambulância, Donna calma, competente, latindo instruções para mim, mantendo aquela linha frágil

ininterrupta até que os outros médicos finalmente chegassem. Ainda podia

sentir o gosto do medo na boca, visceral e metálico, o calor do sangue de Sam

em minhas mãos. Estremeci, afastando a imagem da mente. Não queria Sam sob

a proteção de ninguém mais. Ele e Donna eram um time. Duas pessoas que nunca se deixariam na mão. E que provavelmente zombariam uma da outra sem

dó depois.

— Quando ela vai embora?

— Semana que vem. Conseguiu uma dispensa especial, por causa das

circunstâncias familiares.

Ele suspirou.

— Enfim. O lado bom é que sua mãe me convidou para almoçar na casa dela

no domingo. Parece que vamos comer rosbife com todas as guarnições. Ah, e sua irmã me chamou para ir até o apartamento. Não me olhe assim… Ela

perguntou se posso ajudar a drenar o aquecedor.

— Então é isso. Você foi incorporado. Minha família prendeu você como uma

planta carnívora.

— Vai ser estranho sem você.

— Talvez eu devesse simplesmente voltar para casa.

Ele tentou abrir um sorriso, mas não conseguiu.

— O quê?

— Nada.

— Diga.

— Não sei… Tenho a impressão de que acabei de perder minhas duas

mulheres preferidas.

Um nó se formou em minha garganta. O fantasma da terceira mulher que ele

havia perdido — a irmã, que morrera de câncer dois anos antes — pairou entre

nós.

— Sam, você não per…

— Ignore o que eu disse. Foi injusto da minha parte.

— Eu ainda sou sua. Só que de longe por um tempo.

Ele encheu as bochechas de ar.

— Não achei que isso fosse me afetar tanto.

— Agora não sei se devo ficar lisonjeada ou triste.

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— Vou ficar bem. Só tive um dia difícil.

Fiquei parada por um instante, observando-o.

— Certo. Então este é o plano: primeiro, vá alimentar as galinhas. Porque você sempre acha tranquilizante ficar olhando para elas. E a natureza faz bem

para dar perspectiva e tudo o mais.

Ele se empertigou um pouco.

— E depois?

— Prepare um daqueles molhos à bolonhesa deliciosos. Aqueles que demoram uma eternidade para ficar pronto, com vinho, bacon e tal. Porque é quase impossível se sentir mal depois de comer um ótimo espaguete à

bolonhesa.

— Galinhas. Molho. Certo.

— Aí ligue a televisão e encontre um filme muito bom. Algo em que você possa se perder. Nada de reality shows. Nada com comerciais.

— Curas Noturnas de Louisa Clark. Estou gostando disso.

— E então…

Refleti por um instante.

— Pense no fato de que faltam pouco mais de três semanas para nos vermos.

O que quer dizer isso! Ta-nããã!

Puxei minha blusa até o pescoço.

Foi uma pena que Ilaria tenha escolhido esse exato momento para abrir a porta de meu quarto ao entrar com roupas lavadas. Ficou parada com uma pilha

de toalhas debaixo de um braço e congelou enquanto assimilava meus seios expostos, o rosto do homem na tela. Então fechou a porta rapidamente,

murmurando algo baixinho. Baixei a blusa rapidamente, atrapalhada.

— O que foi?

Sam estava sorrindo, tentando espiar à direita da tela.

— O que está havendo?

— A empregada — respondi, ajeitando a blusa. — Ai, meu Deus.

Sam jogou o corpo para trás na cadeira. Estava gargalhando de verdade

agora, com uma das mãos na barriga, ainda um pouco protetor em relação à cicatriz.

— Você não entende. Ela me odeia.

— E agora você é a Madame Webcam.

Ele ainda gargalhava.

— Vou ficar com péssima reputação na comunidade das empregadas

domésticas daqui até Palm Springs.

Eu me lamentei mais um pouco, então comecei a rir. Era difícil me conter ao

ver Sam gargalhando tanto.

Ele sorriu para mim.

— Bem, Lou, você conseguiu. Melhorou meu humor.

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— O lado negativo para você é que esta foi a primeira e última vez que mostro minhas partes íntimas pela internet.

Sam se inclinou para a frente e me jogou um beijo.

— É, bem… — disse. — Acho que deveríamos ficar gratos por não ter sido o

contrário.

* * *

Ilaria não falou comigo por dois dias após o incidente. Virava-se sempre que eu

entrava em algum cômodo, encontrando algo com que se ocupar

imediatamente, como se o simples fato de cruzar o olhar com o meu pudesse contaminá-la com minha propensão devassa a expor os seios.

Nathan perguntou o que tinha acontecido entre nós depois que ela empurrou

meu café na minha direção com uma espátula, mas eu não conseguiria explicar

sem fazer com que a situação soasse muito pior do que era, então murmurei algo a respeito de roupas limpas e como seria bom termos trancas nas portas,

torcendo para que ele deixasse o assunto de lado.

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Para: KatClark1@yahoo.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Oi, Bandida Fedida É Você!

(É assim que uma contadora respeitável deve se dirigir à irmã viajante do mundo?)

Estou bem, obrigada. Minha patroa — Agnes — tem a minha idade e é muito legal. Então isso tem sido um bônus. Você não imagina os lugares aonde tenho ido… Ontem à noite fui a um baile usando um vestido que valia mais do que eu ganho em um mês. Me senti a própria Cinderela. Só que com uma irmã linda (é, isso é uma novidade para mim. Ha-ha-ha-ha!).

Que bom que o Thom está gostando da escola nova. Não se preocupe com a questão da caneta — podemos sempre pintar a parede. Mamãe disse que é um sinal da expressão criativa dele. Sabia que ela está tentando convencer o papai a fazer aulas à noite para aprender a se expressar melhor? Ele enfiou na cabeça que isso significa que ela vai obrigá-lo a fazer sexo tântrico. Só Deus sabe onde ele leu sobre isso. Fingi que ela tinha me dito que esse era exatamente o objetivo quando ele me ligou, mas agora estou um pouco culpada porque ele está morrendo de medo de ter que tirar o “amigo” de dentro da calça na frente de um monte de desconhecidos.

Dê mais notícias. Em especial sobre o encontro!!!

Saudades,

Lou

P.S.: Se o papai tirar mesmo o “amigo” de dentro da calça na frente de um monte de desconhecidos, eu não quero saber de NADA.

* * *

De acordo com a agenda de Agnes, diversos eventos eram destaques do

calendário social de Nova York, mas o jantar beneficente da Fundação de Caridade Neil e Florence Strager equilibrava-se em algum ponto perto do topo

da escala de importância. Os convidados se vestiam de amarelo — para os homens, isso significava gravatas amarelas, a menos que eles fossem

particularmente exibicionistas —, e as fotografias resultantes eram distribuídas

em publicações que iam do New York Post à Harper’s Bazaar. O traje era formal, as roupas amarelas, deslumbrantes, e os ingressos custavam a mixaria de uns trinta mil dólares por mesa. Isso para ficar na periferia do salão. Eu descobrira

essa informação porque passei a pesquisar cada evento a que Agnes

compareceria, e sabia que aquele era importante não apenas pela quantidade de

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preparativos (manicure, cabeleireiro, massagista, sessões extras com George pelas manhãs), mas também pelo nível de estresse de Agnes. Ela passou o dia

inteiro vibrando fisicamente, gritando com George porque não conseguia fazer

os exercícios que ele havia passado, não conseguia correr aquela distância.

Tudo era impossível. George, que era quase tão calmo quanto um budista, disse

que não havia problema algum, que podiam caminhar de volta e que a endorfina

da caminhada faria bem. Quando foi embora, ele me lançou uma piscadela, como se tudo aquilo fosse de se esperar.

O Sr. Gopnik, talvez em resposta a algum telefonema angustiado, voltou para

casa na hora do almoço e encontrou Agnes trancada no quarto de vestir. Peguei

com Ashok algumas roupas que tinham chegado da lavanderia e cancelei a

consulta de clareamento dental, então fiquei sentada no corredor, sem saber ao

certo o que deveria estar fazendo. Ouvi a voz dela abafada quando ele abriu a

porta:

— Não quero ir.

O que quer que Agnes tenha dito depois fez com que o Sr. Gopnik ficasse em

casa durante muito mais tempo do que eu havia previsto. Nathan tinha saído, de

forma que eu não podia falar com ele. Michael passou por lá, espiando pela porta.

— Ele ainda está aqui? — perguntou. — Meu rastreador parou de funcionar.

— Rastreador?

— No celular dele. Muitas vezes, é o único jeito de eu saber onde ele está.

— Ele está no quarto de vestir da Agnes.

Eu não sabia mais o que dizer, se podia ou não confiar em Michael. Mas era

difícil ignorar as vozes em tom elevado.

— Acho que a Sra. Gopnik não está com muita vontade de sair hoje à noite —

completei.

— Alerta Roxo. Eu avisei.

Então me lembrei.

— A antiga Sra. Gopnik. Esta era a noite dela, e Agnes sabe disso. Ainda é.

Todas as megeras dela vão estar lá. Não são muito amigáveis — explicou Michael.

— Bem, isso explica muita coisa.

— Ele é um patrocinador importante, então não pode deixar de ir. Além

disso, é amigo dos Strager há muito tempo. Mas é uma das noites mais difíceis

da agenda deles. O encontro do ano passado foi um fracasso total.

— Por quê?

— Ah. Ela entrou feito uma ovelha no abatedouro.

Michael fez uma careta.

— Achou que aquelas mulheres seriam suas novas melhores amigas. Pelo

que ouvi depois, elas arrasaram com ela.

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Eu estremeci.

— Ele não pode ir sozinho?

— Ah, querida, você não tem ideia de como as coisas funcionam por aqui.

Não, não, não. Ela tem que ir. Tem que colocar um sorriso no rosto e aparecer

nas fotos. Essa é a função de Agnes agora. E ela sabe disso. Mas não vai ser agradável de ver.

As vozes estavam mais altas. Ouvimos Agnes protestar, e, em seguida, a voz

do Sr. Gopnik, mais baixa, suplicante, sensata.

Michael olhou para o relógio.

— Vou voltar para o escritório. Pode me fazer um favor? Mande uma

mensagem de texto quando ele sair. Tenho cinquenta e oito coisas para ele assinar antes das três da tarde. Amo você!

Ele me jogou um beijo e saiu.

Fiquei sentada durante mais algum tempo, tentando não escutar a discussão

no fim do corredor. Percorri a agenda, perguntando-me se havia algo que pudesse fazer para ser útil. Felix passou por mim, o rabo erguido como um ponto de interrogação, alheio às ações dos humanos ao redor.

Então a porta se abriu. O Sr. Gopnik me avistou.

— Ah, Louisa. Pode vir aqui um instante?

Fiquei de pé e dei alguns passos apressados até onde ele estava. Foi difícil, já

que correr vinha me causando câimbras.

— Queria saber se você está livre esta noite.

— Livre?

— Para ir a um evento. De caridade.

— Hum… Claro.

Eu sabia desde o começo que meu horário de trabalho não seria regular. Pelo

menos aquilo significava que eu provavelmente não veria Ilaria. Faria o

download de um filme em um dos iPads e assistiria no carro.

— Pronto. O que acha, querida?

Agnes parecia ter chorado.

— Ela pode sentar do meu lado? — perguntou.

— Vou dar um jeito.

Ela respirou fundo, de um modo entrecortado.

— Então está bem, eu acho.

— Sentar ao lado…

— Que bom. Que bom!

O Sr. Gopnik checou o celular.

— Certo. Preciso mesmo ir. Vejo você no salão principal às sete e meia. Aviso se conseguir encerrar a teleconferência antes.

Ele deu um passo à frente e pegou o rosto de Agnes entre as mãos, beijando-

a.

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— Você está bem?

— Estou.

— Amo você. Muito.

Mais um beijo, então ele se foi.

Agnes respirou fundo mais uma vez. Levou as mãos aos joelhos, então olhou

para mim.

— Tem um vestido de festa amarelo?

Eu a encarei.

— Hum. Não. Não tenho muitos vestidos de festa, na verdade.

Ela me olhou de cima a baixo, como que tentando avaliar se alguma roupa dela caberia em mim. Acho que nós duas sabíamos a resposta. Então ela se empertigou.

— Ligue para o Garry. Precisamos ir até a Saks.

* * *

Meia hora depois, eu estava de pé em um provador enquanto duas funcionárias

da loja tentavam espremer meus seios dentro de um vestido tomara que caia cor de manteiga sem sal. Brinquei com elas que na última vez que haviam me

tocado com tanta intimidade, eu tinha sugerido que ficássemos noivos logo depois. Ninguém riu.

Agnes franziu o cenho.

— Muito nupcial. E dá a impressão de que ela é larga na região da cintura.

— É porque sou larga na região da cintura.

— Fazemos cintas ótimas, Sra. Gopnik.

— Ah, não sei se…

— Vocês têm algo mais estilo anos cinquenta? — perguntou Agnes, olhando

para o celular. — Porque isso vai diminuir a cintura dela e resolver a questão da

altura. Não temos tempo para ajustar nada.

— Quando é o evento, senhora?

— Temos que estar lá às sete e meia.

— Podemos ajustar o vestido para a senhora a tempo, Sra. Gopnik. Peço a Terri que entregue na sua casa às seis.

— Então vamos tentar aquele modelo cor de girassol ali… e aquele com as lantejoulas.

Se soubesse que aquela tarde seria a única vez na vida em que

experimentaria vestidos de três mil dólares, eu talvez tivesse me assegurado de

não usar uma calcinha cômica com estampa de cachorro salsichinha e um sutiã

preso com um alfinete. Perguntei-me quantas vezes em uma semana era

possível mostrar os seios a estranhos. Perguntei-me também se aquelas

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funcionárias já tinham visto um corpo como o meu, com gorduras localizadas reais. As vendedoras da loja eram educadas demais para comentar sobre isso, a

não ser pelas repetidas sugestões de cintas “corretivas”. Em vez disso,

simplesmente traziam um vestido atrás do outro, espremendo-me e me

arrancando de cada um, como quem lida com gado, até que Agnes, sentada em

uma poltrona estofada, anunciou:

— Isso! É esse. O que acha, Louisa? Até o comprimento é perfeito para você,

com essa anágua de tule.

Olhei fixamente para meu reflexo. Não reconheci a mulher no espelho. Minha

cintura estava comprimida por um corpete embutido, meus seios, erguidos

formando um volume perfeito. A cor fazia minha pele brilhar e a saia longa me

deixava trinta centímetros mais alta e totalmente diferente. O fato de eu não conseguir respirar era irrelevante.

— Vamos prender seu cabelo e arrumar uns brincos. Perfeito.

— E esse vestido está com vinte por cento de desconto — disse uma das vendedoras. — Não vendemos muitas peças amarelas depois do evento dos

Strager…

Quase murchei de alívio. Então olhei a etiqueta. O preço do vestido, com a promoção, era de 2.575 dólares. Meu salário. Acho que Agnes deve ter visto meu rosto pálido, pois acenou para uma das mulheres.

— Louisa, troque de roupa. Você tem sapatos que combinem? Podemos ir ao

departamento de sapatos.

— Tenho sapatos. Muitos sapatos.

Eu tinha um par de sapatos de dança dourados com saltos de cetim que

funcionaria bem. Não queria que aquela conta ficasse ainda mais cara.

Voltei para o cubículo do provador e tirei o vestido com cuidado, sentindo o

peso daquele valor cair ao meu redor. Enquanto me vestia, ouvi Agnes falando

com as vendedoras. Ela pediu uma bolsa e brincos, deu uma olhada superficial e

pareceu satisfeita.

— Coloquem na minha conta.

— É para já, Sra. Gopnik.

Encontrei-a diante do caixa. Enquanto nos afastávamos da loja, eu

carregando as sacolas, falei baixinho:

— Então, quer que eu tome bastante cuidado?

Ela me olhou, sem entender.

— Com o vestido.

Agnes ainda parecia confusa.

Baixei a voz.

— Lá em casa, a gente enfia a etiqueta para dentro, assim dá para devolver a

roupa no dia seguinte. Sabe, contanto que não haja nenhuma mancha de vinho

acidental nem esteja com muito cheiro de cigarro. Talvez valha a pena borrifar

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um perfume.

— Devolver?

— Para a loja.

— Por que faríamos isso? — indagou ela enquanto entrávamos no carro e

Garry guardava as sacolas na mala. — Não faça essa cara nervosa, Louisa. Acha

que eu não sei como se sente? Eu não tinha nada quando cheguei aqui. Eu e minhas amigas dividíamos até as roupas. Mas você tem que usar um vestido bonito quando sentar do meu lado esta noite. Não pode ir com o uniforme. Hoje

à noite você não é uma funcionária. E fico feliz de pagar por isso.

— Certo.

— Você entende? Esta noite, você não pode ser uma funcionária. É muito importante.

Pensei na imensa sacola no porta-malas atrás de mim enquanto o carro

navegava lentamente em meio ao trânsito de Manhattan, um pouco perplexa

com o rumo que o dia estava tomando.

— Leonard disse que você cuidou de um homem que morreu.

— Cuidei. O nome dele era Will.

— Ele disse que você tem… discrição.

— Eu tento.

— E também que não conhece ninguém aqui.

— Só o Nathan.

Ela refletiu sobre aquilo.

— Nathan. Acho que ele é uma boa pessoa.

— É mesmo.

Ela examinou as próprias unhas.

— Você fala polonês?

— Não. Mas talvez possa aprender, se você… — acrescentei rapidamente.

— Sabe o que é difícil para mim, Louisa?

Fiz que não com a cabeça.

— Não sei em quem posso…

Ela hesitou, então pareceu mudar de ideia a respeito do que ia dizer.

— Preciso que seja minha amiga esta noite. Está bem? Leonard… vai ter que

fazer o trabalho dele. Sempre falando com os homens. Mas você vai ficar comigo, certo? Bem do meu lado.

— Como quiser.

— E se alguém perguntar, você é uma velha amiga minha. De quando eu

morava na Inglaterra. Nós… nós nos conhecemos na escola. Você não é minha

assistente, ok?

— Entendi. Escola.

Isso pareceu satisfazê-la. Ela assentiu e se recostou. Não disse mais nada durante todo o percurso até o apartamento.

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* * *

O New York Palace Hotel, onde acontecia o baile de gala da Fundação Strager,

era tão grandioso que chegava a ser quase cômico: uma fortaleza de contos de

fada, com um pátio e janelas arqueadas, repleto de lacaios uniformizados com

calças de seda amarelas como narcisos. Era como se houvessem examinado

todos os grandes hotéis europeus, feito anotações sobre cornijas requintadas, saguões de mármore e detalhes dourados e tivessem decidido juntar tudo,

salpicar um pouco de pó mágico da Disney na coisa toda e alçar o conjunto a um

nível máximo. Eu tive a impressão de que a qualquer momento veria uma

carruagem de abóbora e um sapatinho de cristal na escada com tapete

Continuar: parte 3 de 16