Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 16/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

Lou, eu entendi mesmo tudo tão errado? Só preciso saber se o tempo todo em

que estivemos juntos você esperou que eu fizesse um grande gesto, se eu não a compreendi. Se foi esse o caso, mais uma vez me desculpe.

É meio estranho ter que refletir tanto sobre si mesmo, ainda mais quando se é

um cara não muito chegado à introspecção como eu. Gosto de fazer coisas, não de refletir sobre elas. Mas acho que preciso aprender uma lição aqui e estou lhe pedindo para ser generosa o bastante para me responder.

Peguei um dos blocos desbotados de Margot, com o endereço do apartamento

no topo. Risquei o nome dela e escrevi:

Sam, eu nunca quis nada grandioso de você. Nada.

Louisa

Desci a escada correndo, entreguei a carta a Ashok, para que a colocasse no correio, e subi correndo de novo o mais depressa possível, fingindo não tê-lo ouvido perguntar se estava tudo bem.

* * *

A carta seguinte chegou em poucos dias. Foi enviada pelo serviço de entrega expressa, que deve ter custado uma fortuna a Sam.

Mas você queria, sim. Queria que eu escrevesse. E eu não fiz isso. Estava sempre cansado demais ou, para ser honesto, ficava constrangido. Não era como se eu estivesse realmente falando com você, parecia só tagarelice com o papel. Para mim, soava falso.

Então, quanto mais eu não escrevia para você e mais você se adaptava a sua

vida aí e mudava, eu tinha a sensação de… ora, que diabo eu tenho para contar a ela, afinal? Ela vai a esses bailes elegantes, frequenta clubes, anda de limusine para todo lado e está vivendo o melhor momento da vida, enquanto eu ando para

cima e para baixo em uma ambulância, no leste de Londres, resgatando bêbados e fevereiro/2018

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aposentados solitários que caíram da cama.

Muito bem, vou lhe dizer outra coisa agora, Lou. E, se você nunca mais quiser

saber de mim, vou entender. Mas, agora que estamos nos falando de novo, preciso dizer: eu não estou feliz por você. Acho que você não deve se casar com esse cara.

Sei que ele é inteligente e bonito, que contrata quartetos de cordas para tocar enquanto vocês jantam no terraço dele, mas tem algo aí em que não acredito. Não acho que ele seja o homem certo para você.

Ah, droga. Isso na verdade nem é sobre você. Eu é que estou enlouquecendo.

Odeio imaginar você com ele. O simples pensamento desse cara a envolvendo com

os braços me dá vontade de sair socando tudo. Não durmo mais direito porque me transformei nesse ciumento idiota que precisa se obrigar a pensar em outra coisa.

E você sabe como sou — eu durmo em qualquer lugar.

Você provavelmente está lendo isto agora e pensando: “Ótimo, bem feito, seu panaca.” E você tem todo o direito.

Só não seja precipitada, ok? Tenha certeza de que esse cara é mesmo tudo o que você merece. Ou, sei lá, simplesmente não se case com ele.

Bjs, Sam

Levei alguns dias para responder daquela vez. Carreguei a carta para todo canto

comigo e dava uma olhada nela nos momentos de calma no Vintage Clothes Emporium e quando parava para tomar um café em uma lanchonete que

permitia a entrada de cães perto de Columbus Circle. Relia a carta quando ia de

noite para a minha cama já afundada e pensava nela enquanto estava na

banheira cor de salmão de Margot.

Então finalmente respondi:

Querido Sam,

Eu e Josh não estamos mais juntos. Usando uma frase sua, nós percebemos que

somos pessoas muito diferentes uma da outra.

Lou

P.S.: Para sua informação, um violinista pairando sobre mim enquanto tento comer me dá arrepios.

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Querida Louisa,

Pois bem, tive a minha primeira boa noite de sono em semanas. Encontrei

a sua carta às seis da manhã, ao voltar de um turno noturno, e tenho que lhe

confessar que fiquei tão, mas tão feliz que tive vontade de gritar feito um louco e de dançar, mas sou péssimo dançarino e não tinha ninguém com quem falar, por isso soltei as galinhas, me sentei no degrau e contei a elas

(que não ficaram muito impressionadas, mas do que elas entendem?).

Então, posso escrever para você?

Tenho coisas a dizer agora. Também passo pelo menos oitenta por cento

do meu dia de trabalho com um sorriso bobo estampado. Meu novo parceiro (Dave, que tem quarenta e cinco anos e com certeza não vai me dar romances franceses de presente) diz que estou assustando os pacientes desse

jeito.

Conte-me o que está acontecendo na sua vida. Você está bem? Está triste?

Não me pareceu triste. Talvez eu simplesmente não queira que você esteja

triste.

Converse comigo.

Com amor.

Beijos, Sam

* * *

As cartas chegavam quase todos os dias. Algumas eram longas e mais vagarosas,

outras tinham só algumas linhas, poucos rabiscos, ou uma foto dele mostrando

partes da casa, que estava completa. Ou das galinhas. Às vezes, as cartas eram

longas, exploratórias, ardentes.

Fomos rápido demais, Louisa Clark. Talvez minha mágoa tenha acelerado tudo. Afinal, não dá para se esforçar muito para conquistar alguém depois

de terem literalmente revirado as suas entranhas. Então, talvez isso seja bom. Talvez a gente consiga conversar de verdade um com o outro.

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Fiquei arrasado depois do Natal. Agora posso lhe contar isso. Gosto de pensar que fiz a coisa certa, mas não fiz. Magoei você e isso me atormenta.

Em muitas noites, eu simplesmente desisti de dormir e fui trabalhar na casa.

Recomendo fortemente se comportar como um asno se deseja finalizar uma

construção.

Tenho pensado muito na minha irmã. Principalmente no que ela me diria.

Você não precisa tê-la conhecido para imaginar do que ela estaria me chamando neste momento.

Dia após dia, as cartas chegavam, às vezes duas em um período de vinte e quatro horas, outras vezes complementadas por e-mails, porém eram em sua maioria apenas longos textos escritos à mão, janelas que me transportavam para dentro da cabeça e do coração de Sam. Alguns dias, eu quase achava melhor não lê-las — tinha medo de retomar a intimidade com o homem que de

forma tão abrangente partira meu coração. Em outros momentos, eu acabava descendo a escada correndo, descalça, de manhã, com Dean Martin nos

calcanhares, e ficava parada diante de Ashok, balançando o corpo de ansiedade,

enquanto ele examinava a correspondência. Ashok fingia que não tinha chegado

nada para mim, então tirava uma carta de dentro do paletó e me entregava com

um sorriso, enquanto eu disparava escada acima, para saboreá-la com

privacidade.

Eu relia as cartas diversas vezes, descobrindo com cada uma o quanto eu e

Sam nos conhecíamos tão pouco antes de eu partir. Através delas, aos poucos construí uma nova imagem daquele homem quieto e complicado. Às vezes, as cartas dele me deixavam para baixo:

Sinto muito. Hoje não dá. Perdi dois garotos em um acidente de trânsito. Só

preciso ir para a cama.

Bjs

P.S.: Espero que seu dia tenha sido repleto de coisas boas.

Mas isso acontecia poucas vezes. Sam falava sobre Jake, sobre como o garoto

lhe dissera que Lily era a única pessoa que de fato entendia como ele se sentia, e como toda semana Sam levava o pai de Jake para fazer a trilha do canal ou o convencia a ajudar com a pintura das paredes da casa nova, só para tentar fazer

com que se abrisse um pouco (e parasse de comer bolo). Ele falou das duas galinhas que perdera para uma raposa, das cenouras e beterrabas que estavam

crescendo na horta. Revelou como havia chutado a moto feito um louco,

desesperado e furioso, no dia de Natal, depois que me deixou na casa dos meus

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pais, e que não mandara consertar o amassado porque era um bom lembrete de como ele ficou arrasado quando não estávamos nos falando. A cada dia, Sam se

abria um pouco mais, e a cada dia eu sentia que o conhecia um pouco melhor.

Eu lhe contei que Lily veio aqui hoje? Finalmente disse a ela que você e eu

temos conversado. Lily ficou roxa e engasgou com um chiclete. É sério. Achei

que ia ter que fazer a manobra de Heimlich nela.

Eu respondia as cartas nas horas em que não estava trabalhando nem

levando Dean Martin para passear. Descrevia para Sam pequenas vinhetas da minha vida, contava sobre como estava catalogando e consertando com cuidado

os itens do guarda-roupa de Margot, mandava fotos das peças que me serviam

como uma luva (ele me disse que prendia essas na cozinha). Contei a ele como a

ideia de Margot de uma loja de roupas usadas fincara raízes na minha

imaginação e como eu não tirava o projeto da cabeça. Falei de minhas outras correspondentes — os cartõezinhos delicados que recebia de Margot, ainda

radiante de alegria por ter sido perdoada pelo filho; e os cartões estampados com flores que Laynie, nora de Margot, me mandava, me atualizando sobre as

pioras na condição de saúde da sogra e agradecendo por eu ter aproximado mais o marido dela da mãe, mencionando também sua tristeza pelo fato de a reconciliação ter demorado tanto a acontecer.

Contei a Sam que tinha começado a procurar apartamento, que saía com

Dean Martin para ver áreas da cidade que ainda não conhecia — Jackson

Heights, Queens, Park Slope —, tentando perceber se eu correria o risco de ser

assassinada enquanto dormia e tentando não arregalar os olhos diante do preço

absurdo do metro quadrado.

Contei também sobre os meus jantares com a família de Ashok, que agora eram semanais, como as trocas de ofensas casuais entre eles e o amor evidente

que sentiam um pelo outro, o que me dava saudade da minha própria família.

Disse que toda hora pensava no meu avô — com muito mais frequência do que

quando ele estava vivo —, e como a minha mãe, agora livre de toda

responsabilidade, não conseguia parar de chorar por ele. Revelei como, apesar de eu estar passando mais tempo sozinha do que havia passado em anos, apesar

de estar morando naquele apartamento grande e vazio, curiosamente não me sentia nem um pouco solitária.

E, aos poucos, permiti que ele soubesse o que significava para mim tê-lo de

novo em minha vida, ter a voz dele em meu ouvido de madrugada, saber que eu

significava algo para ele. O fato de senti-lo como uma presença física, apesar dos quilômetros que nos separavam.

Finalmente, disse a ele que sentia sua falta, mas percebi, ao clicar em Enviar,

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que aquilo na verdade não resolvia nada.

* * *

Nathan e Ilaria chegaram para jantar. Nathan trouxe algumas cervejas e Ilaria,

um prato apimentado de carne de porco e feijão que ninguém quisera na casa

dos Gopnik. Não deixei de pensar na frequência com que Ilaria cozinhava pratos

que ninguém queria. Na semana anterior, ela aparecera com um prato de

camarão ao curry, que eu me lembrava muito bem de Agnes mandando que

nunca mais fosse servido.

Nós nos sentamos lado a lado no sofá de Margot, com as tigelas de comida no

colo, molhando pedaços de pão de milho no encorpado molho de tomate e

tentando não arrotar um na cara do outro enquanto conversávamos acima do barulho da televisão. Ilaria pediu notícias de Margot, então se benzeu e balançou a cabeça com tristeza quando repassei as informações que tinha

recebido de Laynie. Ela, por sua vez, me contou que Agnes banira Tabitha do apartamento, o que causou certo estresse para o Sr. Gopnik, que preferira lidar

com esse rompimento específico passando ainda mais tempo no trabalho.

— Para ser justo, tem muita coisa acontecendo no escritório — argumentou

Nathan.

— Tem muita coisa acontecendo do outro lado do corredor — revelou Ilaria,

com a sobrancelha erguida. — A puta tem uma filha — completou baixinho, secando as mãos em um guardanapo, quando Nathan se levantou para ir ao banheiro.

— Eu sei — falei.

— Ela está vindo visitar, com a irmã da puta. — Ilaria fungou e tirou um fio solto da calça. — Pobre criança. Não tem culpa de vir visitar uma família de loucos.

— Você vai tomar conta dela — comentei. — É boa nisso.

— Que cor de banheiro é essa?! — exclamou Nathan, voltando para a sala. —

Achei que ninguém fazia azulejos de banheiro em verde-menta. Sabiam que lá

tem um hidratante de 1974?

Ilaria ergueu as sobrancelhas e franziu os lábios.

Nathan foi embora às 21h15, e, depois que ele saiu, Ilaria abaixou a voz, como se ele ainda pudesse ouvir, e me contou que Nathan estava saindo com uma personal trainer de Bushwick, que queria que ele fosse vê-la toda hora.

Entre a garota e o Sr. Gopnik, ele mal tinha tempo para conversar com mais ninguém. O que se podia fazer?

Respondi que nada. As pessoas simplesmente vão fazer o que quiserem.

Ela assentiu, como se eu tivesse mostrado grande sabedoria, e também foi fevereiro/2018

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embora.

* * *

— Posso lhe perguntar uma coisa?

— Claro! Nadia, meu bem, leve isto para a sua avó para mim?

Meena se inclinou para entregar um copinho plástico com água gelada para a

filha. A noite estava muito quente e todas as janelas do apartamento de Ashok e

Meena tinham sido abertas. Apesar dos dois ventiladores que giravam

preguiçosamente, o ar teimava em não se mover. Estávamos preparando o

jantar na cozinha minúscula e cada movimento parecia fazer uma parte de mim

grudar em algo.

— Ashok já feriu você?

Meena se virou depressa do fogão para me encarar.

— Não estou falando fisicamente. Só…

— Se já feriu os meus sentimentos? Se ele aprontou comigo? Não muito, para

ser sincera. Esse na verdade não é muito o jeito dele. Uma vez, ele me zoou, dizendo que parecia uma baleia quando estava grávida de quarenta e duas semanas de Rachana, mas depois que superei o efeito dos hormônios, meio que

fui obrigada a concordar com ele. E vou te dizer… ele pagou caro por ter dito isso! — contou ela, dando uma gargalhada aguda, então esticou a mão para pegar o pote de arroz no armário. — É o cara de Londres de novo?

— Ele escreve para mim. Todo dia. Mas eu…

— Você o quê?

Dei de ombros.

— Estou com medo. Eu o amei demais. E foi tão ruim quando terminamos.

Acho que só estou com medo de que, ao me permitir me apaixonar por ele de

novo, esteja me arriscando a sofrer ainda mais. É complicado.

— É sempre complicado. — Ela secou as mãos no avental. — A vida é assim.

Então me mostre.

— Mostrar o quê?

— As cartas. Assuma. Não finja que não carrega todas com você por aí o dia

inteiro. Ashok disse que você fica meio derretida quando lhe entrega uma delas.

— Achei que os porteiros deveriam ser discretos.

— Ele não guarda segredos de mim. Você sabe disso. Estamos muito

envolvidos nas reviravoltas de sua vida por lá.

Meena riu e estendeu a mão, gesticulando com impaciência. Hesitei só por um segundo, então peguei as cartas com cuidado na bolsa. E, alheia às idas e vindas dos filhos pequenos, à risada abafada da mãe assistindo a uma comédia na televisão no cômodo ao lado, ao barulho, ao suor e ao clique-clique do fevereiro/2018

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ventilador de teto, Meena se debruçou sobre as cartas e começou a ler.

É a coisa mais estranha, Lou. Passei três anos construindo essa maldita casa.

Obcecado com as molduras certas para as janelas, com o melhor modelo de

chuveiro para o boxe e se deveria comprar soquetes brancos de plástico ou

de níquel polido. E agora ela está pronta. Ou o mais pronta que vai ficar. E

estou sentado aqui sozinho, na minha sala imaculada, pintada no tom

perfeito de cinza-claro, com o aquecedor que queima madeira

recondicionada e as cortinas triplas com entretelas que minha mãe me ajudou a escolher, e fico me perguntando… ora, para quê? Para que eu construí isso?

Acho que eu precisava de uma distração depois da perda da minha irmã.

Construí uma casa para não ter que pensar. Construí uma casa porque precisava acreditar no futuro. Mas, agora que a terminei, olho esses cômodos vazios e não sinto nada. Talvez um pouco de orgulho por

finalmente tê-la terminado. Mas e fora isso? Sinto absolutamente nada.

Meena ficou olhando para as últimas linhas por bastante tempo. Então, dobrou

a carta, colocou-a com cuidado na pilha e me devolveu todas.

— Ah, Louisa — disse ela, com a cabeça inclinada para o lado. — Pelo amor

de Deus, garota.

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1442, Lantern Drive

Tuckahoe

Westchester, NY

Querida Louisa,

Espero que você esteja bem e que o apartamento não esteja lhe dando muito trabalho. Frank disse que os empreiteiros vão dar uma olhada aí daqui a duas semanas — você poderia ficar em casa para recebê-los? Mais

tarde lhe passaremos os detalhes sobre a empresa.

Margot não anda com disposição para escrever muito esses dias — agora

muitas coisas são cansativas para ela e os remédios a deixam um pouco debilitada —, mas achei que você gostaria de saber que ela está sendo bem

cuidada. Decidimos que, apesar de tudo, não conseguimos suportar a ideia

de mandá-la para a casa de repouso, então ela vai continuar conosco, com a

ajuda da equipe médica, que é muito gentil. Margot ainda tem muito a dizer

ao Frank e a mim, ah, tem, sim! Ela nos faz correr de um lado para outro feito doidos na maioria dos dias! Não me importo. Na verdade, gosto de ter

alguém de quem cuidar, e nos dias bons de Margot é uma delícia ouvir todas

as histórias dela de quando Frank era pequeno. Acho que ele também gosta

de ouvi-las, embora nunca admita. São farinha do mesmo saco, aqueles dois!

Margot me pediu para lhe perguntar se você se importaria de enviar

outra foto do cachorro. Ela gostou tanto da que você mandou! Frank a colocou em um lindo porta-retratos de prata ao lado da cama dela e sei que

a foto é um grande conforto para Margot, agora que ela passa tanto tempo

em repouso. Não acho esse cachorro tão agradável de se olhar quanto ela obviamente acha, mas gosto não se discute.

Ela manda muito amor para você e disse que espera que ainda esteja usando a linda meia-calça listrada. Não sei se isso é efeito dos remédios, mas achei que a intenção dela era boa!

Com todo o meu carinho,

Laynie G. Weber

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— Você soube?

Eu estava saindo com Dean Martin para ir ao trabalho. O verão já tinha começado a mostrar bem a que viera, cada dia mais quente e mais úmido do que o anterior, por isso a curta caminhada até o metrô fazia a roupa colar nas minhas costas, enquanto os entregadores expunham a pele clara queimada de

sol, xingando os turistas que atravessavam a rua sem olhar para os lados. Mas

eu estava usando meu vestido psicodélico dos anos sessenta, que Sam tinha me

dado, e sapatos de salto de cortiça, com flores cor-de-rosa na tira. E, depois do

inverno que eu tivera, os raios de sol em meus braços eram como um bálsamo.

— Soube do quê?

— Da biblioteca! Ela foi salva! O futuro dela está garantido pelos próximos dez anos! — revelou Ashok, me passando o celular. Então parei no tapete e levantei os óculos escuros para ler a mensagem de Meena. — Eu não acredito.

Uma doação anônima em homenagem a um cara que já morreu. O… espere, está

aqui. — Ele rolou a mensagem com o dedo. — Em memória de William Traynor.

Mas quem se importa com o nome do cara! Patrocínio por dez anos, Louisa! E a

câmara municipal concordou! Dez anos! Nossa. Meena está nas nuvens. Ela tinha certeza de que perderíamos essa.

Dei uma olhada no celular e depois devolvi para ele.

— É uma boa notícia, não é?

— É incrível! Quem poderia imaginar, Louisa? Hein? Quem poderia imaginar?

Os mais fracos ganharam uma. Viva!

O sorriso de Ashok era enorme.

Naquele instante senti uma emoção crescer dentro de mim, uma sensação de

alegria e uma expectativa tão grande que foi como se por um segundo o mundo

tivesse parado de girar, como se só existíssemos eu e o universo e um milhão de

coisas boas que poderiam acontecer se mantivesse a determinação.

Olhei para Dean Martin no chão e depois para o saguão de entrada. Acenei para Ashok, ajeitei os óculos escuros e desci a Quinta Avenida com meu sorriso

se alargando a cada passo.

* * *

Eu tinha pedido só cinco anos.

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Então, imagino que em algum momento teremos que conversar sobre o fato

de seu ano fora estar quase chegando ao fim. Você tem alguma data em mente para voltar? Imagino que não possa ficar para sempre na casa

daquela senhora.

Andei pensando na sua loja de aluguel de roupas… Lou, você poderia usar

a minha casa como base, tem muito espaço de sobra aqui, totalmente livre.

Se lhe interessar, você também poderia morar aqui.

Se achar que é cedo demais para isso e não quiser atrapalhar a vida da

sua irmã voltando para o apartamento, que tal ficar com o vagão de trem?

Devo dizer que essa não é a minha opção preferida, mas você sempre adorou

o vagão e não deixa de ser atraente a ideia de tê-la tão perto, do outro lado

do jardim…

Há, é claro, outra opção: isso tudo ser demais e você não querer nada comigo. Mas não gosto muito dessa possibilidade — é uma opção

aterradora. Espero que você pense o mesmo.

Alguma ideia?

Beijos,

Sam

P.S.: Levei na ambulância um casal que fez cinquenta e seis anos de casados

hoje. Ele estava com dificuldade para respirar — nada muito grave — e ela

não soltou a mão dele nem por um segundo. Ficou paparicando-o até

chegarem ao hospital. Não costumo reparar nessas coisas, mas hoje à

noite… Sei lá.

Sinto sua falta, Louisa Clark.

* * *

Percorri toda a extensão da Quinta Avenida, a via engarrafada e os turistas vestidos em cores vivas atulhando as calçadas, e pensei em como uma mulher é

sortuda quando encontra não apenas um, mas dois homens extraordinários

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para amar — e como é uma dádiva quando eles também a amam. Pensei em como somos moldados pelas pessoas que nos cercam e como precisamos ser

cuidadosos ao escolhê-las exatamente por esse motivo. Então pensei também que, apesar de tudo, no fim talvez seja necessário perder todas elas para de fato

descobrirmos quem somos.

Pensei em Sam e nas pessoas que estavam casadas havia cinquenta e seis anos, que eu não conhecia, e o nome dele se repetindo na minha cabeça marcou

o ritmo dos meus passos, enquanto passava pelo Rockefeller Plaza, pelo

esplendor exagerado da Trump Tower, pela St Patrick’s Cathedral, pela enorme

e iluminada loja da Uniqlo, com suas telas pixeladas. Passei pelo Bryant Park, pela ampla Biblioteca Pública de Nova York, com todos os detalhes ornamentais

e os vigilantes leões esculpidos em pedra, pelas lojas abarrotadas de turistas, vendedores e moradores de rua. Todas as características diárias de uma vida que eu amava, em uma cidade onde ele não morava. Ainda assim — acima do

barulho, das sirenes, das buzinas —, percebi que ele estava presente a cada passo.

Sam.

Sam.

Sam.

Então, pensei em como seria voltar para casa.

28 de outubro de 2006

Mãe,

Está a maior correria aqui, mas estou voltando para a Inglaterra!

Consegui o emprego na empresa de Rupe, então vou entregar a carta de demissão amanhã e com certeza logo depois estarei na rua com as minhas

coisas em uma caixa — essas empresas de Wall Street não gostam de

manter por muito tempo quem pede demissão, pois acham que podem

roubar sua lista de clientes.

Então, no ano que vem, serei o diretor executivo de fusões e aquisições aí

em Londres. Estava mesmo querendo um novo desafio. Pensei em tirar férias

antes — talvez fazer aquela viagem de um mês à Patagônia — e depois arranjar um lugar para morar. Se não for incômodo, você poderia ver isso

para mim com alguns corretores? Os bairros de sempre, bem centrais, dois

ou três quartos. Estacionamento no subsolo para a bicicleta, se possível (sim, sei que você odeia que eu ande nela).

Ah, e você vai gostar dessa novidade: conheci uma pessoa. Alicia Deware.

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Ela é inglesa, mas estava aqui visitando amigos e a conheci em um jantar horroroso. Saímos algumas vezes antes de ela ter que voltar para Notting Hill. Um namoro certinho, não no estilo nova-iorquino. Ainda está bem no começo, mas Alicia é divertida. Vou me encontrar com ela quando voltar.

Mas não vá comprar um chapéu para usar no casamento. Você me conhece.

Então é isso! Diga ao papai que o amo — diga que logo, logo, pagarei para ele algumas cervejas no Royal Oak.

Aos novos começos, certo?

Com amor, seu filho.

Beijos,

Will

Li e reli a carta de Will, com suas menções a um universo paralelo e “o que poderia ter sido” pairando delicadamente ao meu redor como a neve. Li nas entrelinhas o que poderia ter sido o futuro dele e de Alicia — ou até o dele e o meu. Mais de uma vez, William John Traynor afastara o curso da minha vida de

seus trilhos predeterminados — não com um cutucãozinho, porém com um

empurrão enfático. Ao me mandar a correspondência dele, Camilla Traynor sem

querer tinha feito com que ele repetisse isso.

Aos novos começos, não é?

Li as palavras de Will mais uma vez, dobrei a carta com cuidado, coloquei-a

de volta com as outras e fiquei sentada, refletindo. Então, me servi do que sobrara do vermute de Margot, fiquei olhando para o vazio por um tempo, suspirei, fui até a porta da frente com o notebook, me sentei no chão e escrevi:

Querido Sam,

Não estou pronta.

Sei que já se passou quase um ano e que originalmente tinha dito que esse seria o tempo que eu ficaria aqui — mas a questão é: eu não estou pronta para voltar para casa.

Durante toda a minha vida, acabei tomando conta de outras pessoas, me moldando às necessidades e aos desejos delas. Sou boa nisso. Faço sem sequer perceber. E provavelmente eu faria isso com você também. Não tem ideia de como quero entrar em um voo neste exato momento e simplesmente estar com você.

Mas nos últimos meses algo aconteceu comigo — algo que me impede de fazer isso.

Vou abrir a minha loja de aluguel de roupas aqui. Vai se chamar Bee’s knees e ficará em um canto do Vintage Clothes Emporium — os clientes podem comprar das meninas ou alugar comigo. Estamos juntando nossos contatos, dividindo os custos de divulgação, e espero que ajudemos umas as outras a impulsionar os negócios. Vou abrir minha loja na sexta-feira e estou avisando a todos que lembro. Já soubemos do interesse do pessoal da produção de filmes, de revistas de moda e até de mulheres que só querem alugar algo para se vestir com elegância.

(Você ficaria espantado com a quantidade de festas temáticas sobre Mad Men que rolam em Manhattan.)

Vai ser difícil e vou ficar sem dinheiro, e à noite, quando estou em casa, quase durmo em pé.

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Mas, pela primeira vez na vida, Sam, estou acordando empolgada. Adoro receber os clientes e avaliar o que vai ficar bem neles. Adoro costurar essas roupas lindas para deixá-las como novas. Adoro o fato de todo dia poder reimaginar quem quero ser.

Uma vez você me disse que desde pequeno queria ser paramédico. Bem, eu esperei quase trinta anos para descobrir quem eu queria ser. Esse meu sonho pode durar uma semana ou um ano, mas todo dia vou para o East Village com as malas cheias de roupa e os braços doendo, e tenho a impressão de que nunca estarei pronta, mas, bem, fico cantando de felicidade.

Penso muito na sua irmã. Também penso em Will. É difícil ver pessoas que amamos morrerem jovens, isso nos lembra de que não devemos tomar nada como certo na vida, que é nosso dever tirar o máximo de proveito do que temos. Sinto que finalmente consegui fazer isso.

Então, é o seguinte: eu nunca pedi nada a ninguém. Mas, se você me ama, Sam, quero que se junte a mim — pelo menos até eu descobrir se conseguirei fazer esse projeto dar certo. Andei pesquisando: você teria que passar em uma prova e, ao que parece, o estado de Nova York contrata só em determinadas épocas do ano, mas a cidade está precisando de paramédicos.

Você poderia alugar a sua casa para ter uma renda, e poderíamos morar em um apartamento pequeno no Queens ou talvez pegar um mais barato no Brooklyn, e todo dia acordaríamos juntos e… nossa, nada me faria mais feliz. E eu me esforçaria o máximo possível — nas horas em que não estivesse coberta de poeira, traças e lantejoulas soltas — para fazê-lo se sentir feliz por estar aqui comigo.

Acho que quero tudo.

Só se vive uma vez, certo?

Você já me perguntou se eu queria um grande gesto. Aqui vai: estarei onde sua irmã sempre quis estar, na noite de 25 de julho às sete. Você sabe onde me encontrar se a resposta for sim.

Se for não, ficarei lá parada por um tempo, apreciarei a vista e simplesmente me sentirei feliz por termos nos reencontrado, mesmo se tiver sido só desse jeito.

Com todo o meu amor, sempre.

Beijos,

Louisa

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Vi Agnes mais uma vez antes de enfim deixar o Lavery. Eu cambaleava com os

braços cheios de roupas que tinha levado para consertar em casa, com os plásticos de proteção grudando incomodamente na minha pele por causa do

calor. Quando passei pela mesa da recepção do prédio, dois vestidos caíram no

chão. Ashok se levantou com um pulo para pegá-los para mim e tentei não deixar o restante cair.

— Trabalho não vai lhe faltar hoje à noite.

— Ah, com certeza. Trazer tudo isso no metrô foi um verdadeiro pesadelo.

— Imagino. Ah, perdão, Sra. Gopnik. Vou só tirar isso do caminho.

Observei Ashok tirar meus vestidos do tapete em um movimento fluido para

liberar o caminho para Agnes. Quando ela passou, aprumei o corpo o máximo que pude, apesar dos braços cheios de roupas. Agnes estava usando um vestido

reto simples, com um decote largo, e sapato baixo, e parecia, como sempre, que

de algum modo as condições do clima no momento — fosse calor ou frio

extremo — não valiam para ela. Estava segurando a mão de uma garotinha, de

quatro ou cinco anos, em um vestido salopete, que diminuiu o passo para ficar

olhando aquele monte de roupas coloridas que eu segurava à frente do corpo.

Seu cabelo era cor de mel, tinha cachos delicados nas pontas e estava bem penteado para trás e preso por dois laços de veludo. Ela também tinha os olhos

oblíquos da mãe. Enquanto me observava, ela deu um sorrisinho travesso

diante da minha enrascada.

Não pude deixar de sorrir de volta e, quando fiz isso, Agnes se virou para ver

para onde a filha estava olhando. Então fizemos contato visual. Fiquei

paralisada por um instante e quase consegui ficar séria de novo, mas, antes que

pudesse fazer isso, os cantos da boca de Agnes formaram um sorriso igual ao da

filha, quase como se ela não pudesse contê-lo. Ela assentiu para mim — foi um

movimento tão discreto que provavelmente só eu percebi. Então, passou pela porta, que Ashok segurava, com a criança já pulando, e as duas se foram, engolidas pela luz do sol e pelo tráfego humano sempre em movimento da Quinta Avenida.

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Para: AbelhaAtarefada@gmail.com

De: SreSraBernardClark@yahoo.com

Querida Lou,

Olha, eu tive que ler a carta duas vezes para ter certeza de que tinha entendido direito. Olhei para a garota nas fotos no jornal e pensei: sério que é a minha menininha em um jornal de Nova York?

Ficaram maravilhosas suas fotos com todos os vestidos, e você está tão linda, toda arrumada, com as suas amigas! Eu já lhe disse como seu pai e eu estamos orgulhosos de você?

Recortamos as fotos do jornal impresso e seu pai tirou printscreen de todas que achamos na internet (já contei que ele começou um curso de informática no centro de educação para adultos? Seu pai será o próximo Bill Gates de Stortfold). Estamos lhe mandando todo o nosso amor, e tenho certeza de que seu negócio será um sucesso, Lou. Você pareceu tão contente e destemida ao telefone — quando desligamos, fiquei sentada olhando para o aparelho e não pude acreditar que aquela era a minha garotinha, cheia de planos, me ligando do próprio negócio do outro lado do Atlântico. (É o Atlântico, não é? Sempre confundo com o Pacífico.)

Então, aqui vai a NOSSA grande novidade. Vamos visitá-la no fim do verão! Iremos quando esfriar um pouco — não gostei muito do que você falou das ondas de calor, você sabe que seu pai tem assaduras em lugares lamentáveis. Deirdre, da agência de viagens, nos dará o desconto de funcionário dela e vamos marcar os voos no fim desta semana. Podemos ficar com você no apartamento da senhora? Senão, pode nos indicar um lugar? Um que não tenha percevejos.

Me avise que data é melhor para você. Estou tão animada!!!

Com muito amor sempre.

Beijos,

Mamãe

P.S.: Eu contei que Treena foi promovida? Ela sempre foi uma garota esperta. Sabe, dá para ver por que Eddie é tão apaixonada por ela.

* * *

25 de julho

“Que a sabedoria e o conhecimento sejam a estabilidade dos teus tempos.”

Fiquei parada no epicentro de Manhattan, diante do prédio altíssimo,

deixando o ar sair lentamente dos pulmões, e olhei para a placa dourada acima

da ampla entrada do número 30 no Rockefeller Plaza. Ao meu redor, Nova York

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fervilhava no calor da noite, as calçadas abarrotadas de turistas caminhando devagar, o ar pesado com o barulho das buzinas e com o eterno cheiro de escapamento e de borracha queimada. Atrás de mim, uma mulher com uma

camisa polo em que se lia 30 Rock, se esforçando para ser ouvida acima da algazarra, fazia um discurso bem-ensaiado para um grupo de turistas japoneses.

O projeto do prédio foi finalizado em 1933, pelo renomado arquiteto Raymond Hood, no estilo art decó — Senhor, por favor, fique junto do grupo, senhor.

Madame? Madame? —, e foi batizado originalmente de RCA Building, antes de se

tornar o GE Building em — Madame? Por aqui, por favor… Levantei a cabeça para olhar os sessenta e sete andares e respirei fundo.

Eram quinze para as sete.

Eu queria estar perfeita para aquele momento, havia planejado voltar ao

Lavery às cinco para ter tempo de tomar banho e escolher um look apropriado

(tinha pensado em Deborah Kerr, em Tarde Demais para Esquecer). Mas o destino interveio na forma de uma estilista de uma revista de moda italiana, que

chegou ao Vintage Clothing Emporium às quatro e meia e quis olhar todos os conjuntos de duas peças para um ensaio que estava organizando. Ela fez a colega experimentar algumas roupas, para tirar fotos e voltar depois. Quando me dei conta, já eram cinco e quarenta da tarde e mal tive tempo de levar Dean

Martin num pulo para casa e lhe dar comida, para depois ir correndo para o centro da cidade. Então, ali estava eu, suada e aparentando cansaço, ainda com

as roupas do trabalho, prestes a descobrir que rumo a minha vida tomaria.

Muito bem, senhoras e senhores, por favor, sigam por aqui para o deque de observação.

Eu tinha parado de correr vários minutos antes, porém continuava ofegante

enquanto atravessava a praça. Empurrei as portas de vidro fumê e percebi com

alívio que a fila da bilheteria estava pequena. Eu havia verificado em um aplicativo na noite anterior e fora alertada de que as filas poderiam ser longas,

mas por algum motivo fui supersticiosa demais para comprar o ingresso com antecedência. Por isso, esperei a minha vez, dei uma conferida no visual no espelho do estojo de pó compacto, olhei discretamente ao redor por causa da remota possiblidade de ele ter chegado cedo, então comprei um ingresso que me dava acesso ao deque entre 18h50 e 19h10, segui a corda de veludo e esperei enquanto era guiada junto com um grupo de turistas em direção a um

elevador.

Sessenta e sete andares, disseram. Tão alto que a subida fazia os ouvidos estalarem.

Ele vem. É claro que vem.

E se não vier?

Esse era o pensamento que permeava a minha mente desde que recebera a

única linha de resposta de Sam ao meu e-mail. “Ok. Entendi.” O que na verdade

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poderia significar qualquer coisa. Esperei para ver se ele iria fazer alguma pergunta sobre os meus planos ou dizer algo que desse uma pista da decisão que tomara. Reli meu e-mail, me questionando se talvez o tinha chocado, se tinha sido ousada demais, assertiva demais, se havia conseguido transmitir a força do meu sentimento. Eu amava Sam. Eu o queria comigo. Será que Sam havia compreendido isso? Mas, após dar aquele baita ultimato, seria estranho ficar checando se eu fora perfeitamente compreendida, por isso apenas esperei.

Eram 18h55. As portas do elevador se abriram. Mostrei meu ingresso e

entrei. Sessenta e sete andares. Senti um nó no estômago.

O elevador começou a subir devagar e senti um súbito pânico. E se ele não aparecesse? E se tivesse entendido, mas mudara de ideia? Como eu ia reagir?

Com certeza ele não faria isso comigo, não depois de tudo. Minha respiração estava audível e levei a mão ao peito, tentando me acalmar.

— É a altura, não é? — perguntou uma mulher gentil que estava ao meu lado

e tocou meu braço com a mão. — Sessenta e sete andares é uma distância e tanto.

Tentei sorrir.

— Tipo isso — respondi.

Se não puder deixar seu trabalho e sua casa e todas as coisas que o fazem feliz, eu vou entender. Ficarei triste, mas vou entender.

Você sempre vai estar comigo, de um jeito ou de outro.

Eu menti. É claro que menti. Ah, Sam, por favor, diga sim. Por favor, esteja à minha espera quando as porta voltarem a se abrir. Então, o elevador parou.

— Ora, não foram sessenta e sete andares — comentou alguém, no que

algumas pessoas deram risadinhas constrangidas.

Um bebê no carrinho me encarou com os olhos arregalados. Ficamos todos

parados por um minuto, até que alguém saiu.

— Ah. Este não é o elevador principal — explicou a mulher ao meu lado, apontando. — Aquele é o elevador principal.

E lá estava o tal elevador. No fim de uma interminável e sinuosa fila. Olhei horrorizada para ela. Devia haver umas cem pessoas, talvez duzentas, se

movendo lentamente, os olhos erguidos para uma exposição de painéis. Chequei

o relógio. Já eram 18h59. Mandei uma mensagem de texto para Sam e,

horrorizada, vi que se recusava a ser enviada. Comecei a abrir caminho entre a

multidão, murmurando “Desculpe, desculpe”, enquanto as pessoas estalavam a

língua, aborrecidas, e gritavam: “Ei, senhora, estamos todos esperando na fila aqui.” De cabeça baixa, passei pelos painéis que contavam a história do Rockefeller e de suas árvores de Natal e pelo vídeo de apresentação da NBC.

Segui desviando para os lados, me contorcendo, murmurando pedidos de

desculpa. Poucas pessoas são mais mal-humoradas do que turistas morrendo de

calor numa fila inesperada. Um deles me agarrou pela manga.

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— Ei! Você! Estamos todos esperando na fila!

— Vou me encontrar com uma pessoa — expliquei. — Sinto muito mesmo.

Sou inglesa. Normalmente somos muito bons em filas . Mas, se eu me atrasar um minuto que seja, vou me desencontrar dele.

— Você pode esperar na fila como o restante de nós!

— Solte-a, meu bem — disse a mulher ao lado dele, e eu lhe murmurei um

agradecimento.

Continuei abrindo caminho através do mar de ombros queimados de sol, de corpos em movimento, de crianças choramingando e de camisetas “I LOVE NY”,

com as portas do elevador aos poucos se aproximando. Mas, quando eu estava a

uns seis metros de distância, a fila estancou. Dei um pulo, tentando ver acima das cabeças, e encontrei diante de mim uma viga de ferro falsa, que estava apoiada na imensa fotografia em preto e branco da silhueta de prédios

característica do horizonte de Nova York. Os visitantes se sentavam em grupos

na estrutura, reproduzindo a icônica fotografia de trabalhadores almoçando durante a construção da torre, enquanto uma mulher jovem, atrás de uma

câmera, gritava para eles.

— Levantem as mãos… pronto. Agora façam sinal de positivo para Nova

York… isso. Agora finjam que estão se empurrando, agora beijo. Muito bem. As

fotos estarão disponíveis na saída. Próximos!

A cada grupo, ela repetia as quatro frases, enquanto nos aproximávamos aos

poucos. O único modo de passar seria estragar o que talvez fosse a única possibilidade na vida de ter uma fotografia diferente do arranha-céu. Já eram 19h04. Abri caminho para ver se conseguia me esgueirar por trás da fotógrafa,

mas fui bloqueada por um grupo de adolescentes com mochilas. Alguém me

empurrou pelas costas e seguimos para a frente.

— Em cima da viga, por favor. Senhora?

O caminho estava bloqueado por um paredão instransponível de gente. A

fotógrafa acenou, chamando. Eu faria o que fosse necessário para sair dali mais

depressa. Obedientemente, subi na viga, resmungando baixinho:

— Rápido, rápido, preciso sair daqui.

— Levantem as mãos… pronto. Agora façam sinal de positivo para Nova

York! — Levantei as mãos e me forcei a erguer os polegares. — Agora finjam que estão se empurrando, isso… Agora beijo.

Um adolescente de óculos se virou para mim, ficou surpreso e depois,

encantado. Fiz que não com a cabeça.

— Eu não, cara. Sinto muito.

Desci da viga com um pulo, empurrei o garoto para conseguir passar e corri

para a fila final, à espera diante do elevador.

Eram 19h09.

Foi nesse ponto que senti vontade de chorar. Eu estava de pé, apertada fevereiro/2018

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naquela fila quente, cheia de gente reclamando, transferindo o peso de um pé para o outro, observando pessoas saírem do outro elevador e me amaldiçoando

por não ter me informado melhor. Esse é o problema com os grandes gestos: tendem a dar errado de um modo espetacular. Os guardas observavam a minha

agitação com a indiferença de funcionários que já tinham visto todo tipo de comportamento humano. Então, finalmente, às 19h12 a porta do elevador se abriu e um guarda arrebanhou as pessoas em sua direção, contando as que entravam. Quando chegou a minha vez, ele bloqueou a entrada com a corda.

— Aguarde o próximo.

— Ah, por favor.

— São as regras, senhora.

— Por favor, preciso me encontrar com uma pessoa. Estou atrasadíssima. Eu

me aperto num canto. Por favor. Eu te imploro.

— Não posso. O limite de passageiros é muito rigoroso.

No entanto, quando deixei escapar um gemido de angústia, uma mulher

poucos metros à frente acenou para mim.

— Venha — disse ela, saindo do elevador. — Fique com o meu lugar. Eu pego

o próximo.

— Sério?

— Adoro um encontro romântico.

— Ah, obrigada, obrigada! — falei, enquanto me espremia para passar.

Achei melhor não explicar que a chance de ser romântico — e até de ser um encontro — diminuía a cada segundo. Eu me espremi dentro do elevador, ciente

dos olhares curiosos dos outros passageiros, e cerrei os punhos quando

começamos a subir.

Dessa vez, o elevador disparou a uma velocidade enorme, fazendo as

crianças rirem e apontarem para o teto de vidro, que denunciava como

estávamos subindo depressa. As luzes pipocavam sobre a minha cabeça. Meu estômago ficou se revirando. Uma senhora ao meu lado, que usava um chapéu

com estampa floral, me cutucou.

— Quer uma bala de hortelã? — perguntou e depois piscou para mim. —

Para quando finalmente encontrá-lo?

Peguei uma e dei um sorrisinho nervoso.

— Quero saber como foi — disse ela, guardando o pacote de bala na bolsa. —

Venha me contar depois.

Então, quando meus ouvidos estalaram, a velocidade do elevador começou a

diminuir e paramos.

* * *

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Era uma vez uma garota de uma cidade pequena que vivia em um mundo

pequeno. Ela era feliz, ou pelo menos isso era o que dizia a si mesma. Como várias garotas, adorava experimentar looks diferentes, ser alguém que não era.

Mas, como acontece com muitas garotas, a vida a enfraqueceu até que, em vez

de descobrir o que de fato se adequava a ela, acabou se camuflando, escondendo

o que a diferenciava. Por um tempo, ela deixou que o mundo a magoasse até que

chegou à conclusão de que era mais seguro não ser ela mesma de jeito nenhum.

Há tantas versões de nós mesmos que podemos escolher ser. Em certo momento, minha vida estava destinada a ser levada da forma mais medíocre.

Aprendi que não precisava ser assim com um homem que se recusou a aceitar a

versão de si mesmo que lhe restara e com uma senhora que percebeu o

contrário: que ela podia se transformar bem em um momento em que muitas pessoas lhe teriam dito que não havia mais nada a ser feito.

Eu tinha uma escolha: ou eu era a Louisa Clark de Nova York, ou a Louisa Clark de Stortfold. Ou talvez outra Louisa completamente diferente que eu ainda não conhecia. O segredo era garantir que qualquer um que eu permitisse

caminhar ao meu lado não tivesse o poder de decidir quem eu era nem me prendesse como uma borboleta em uma redoma. O segredo era saber que

sempre se poderia dar um jeito de se reinventar mais uma vez.

Garanti a mim mesma que eu sobreviveria se ele não estivesse lá. Afinal, já tinha sobrevivido a coisas piores. Só seria mais uma reinvenção. Disse isso a mim mesma várias vezes, enquanto esperava que as portas do elevador se

abrissem. Eram 19h17.

Saí depressa pelas portas de vidro, dizendo a mim mesma que, se tivesse vindo tão longe, ele teria esperado vinte minutos. Então atravessei o deque correndo, girando o corpo e abrindo caminho entre as pessoas que estavam ali

para apreciar a vista, entre os turistas tagarelando e entre as muitas pessoas tirando selfies, para ver se ele estava lá. Atravessei novamente as portas de vidro e cruzei o grande saguão interno até chegar a um segundo deque. Ele devia estar daquele lado. Andei rápido, entrei e saí, me virando para verificar o

rosto de estranhos, os olhos treinados para reconhecer um homem um pouco mais alto do que todos ao redor dele, o cabelo escuro, os ombros largos. Fui de

um lado ao outro do piso de cerâmica, o sol do fim de tarde aquecendo a minha

cabeça, o suor começando a brotar nas costas enquanto eu incansavelmente procurava e analisava as pessoas com uma sensação nauseante de que ele não

estava lá.

— Você o encontrou? — perguntou a senhora do elevador, agarrando o meu

braço.

Fiz que não com a cabeça.

— Então vá para o andar de cima, querida.

Ela apontou na direção da lateral do prédio.

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— Andar de cima? Tem mais um andar?

Corri, tentando não olhar para baixo, até chegar a uma pequena escada

rolante que levava a outro deque de observação, ainda mais cheio de visitantes.

Desesperada, tive uma súbita visão de Sam descendo a escada rolante do outro

lado naquele exato instante. E eu não teria como saber.

— Sam! — gritei, com o coração disparado. — Sam!

Algumas pessoas me olharam de soslaio, porém a maioria continuou

apreciando a vista, tirando selfies e posando no vidro.

Parei no meio do deque e gritei, com a voz rouca:

— Sam?!

Fiquei teclando no celular, tentando várias vezes mandar a mensagem para

Sam, sem conseguir.

— Pois é, a cobertura aqui é péssima. Perdeu alguém? — perguntou um

guarda uniformizado que surgiu ao meu lado. — Perdeu uma criança?

— Não. Um homem. Eu deveria encontrá-lo aqui. Eu não sabia que havia dois

andares. Ou tantos deques. Ai, meu Deus. Ai, meu Deus. Acho que ele não está

em nenhum deles.

— Vou passar um rádio para o meu colega e ver se ele pode chamá-lo. — O

guarda levou o rádio ao ouvido. — Mas a senhora sabe que são três andares?

O guarda apontou para cima. Nesse instante, deixei escapar um soluço

abafado. Eram 19h23. Eu nunca encontraria Sam. Àquela altura ele já teria ido

embora — se é que havia chegado até ali.

— Tente lá.

O guarda me pegou pelo cotovelo e apontou para o outro lance de escadas.

Então se virou para falar no rádio.

— É só isso, não é? — falei. — Não há mais deques.

Ele sorriu.

— Não há mais deques — repetiu.

* * *

Eram sessenta e sete passos entre as portas do segundo deque do número 30 do

Rockefeller Plaza e o último deque panorâmico, o mais alto, e pareciam mais com sapatos de salto de cetim fúcsia presos com tiras elásticas, que com certeza

não eram apropriados para correr, muito menos no calor. Fui devagar dessa vez. Subi o lance estreito de escada e, no meio do caminho, quando senti que algo em mim estava prestes a explodir de ansiedade, me virei e olhei para a vista logo atrás. Do outro lado de Manhattan, o sol cintilava cor de laranja, com

o mar infinito de silhuetas de edifícios brilhantes refletindo a luz pêssego, o centro do mundo cuidando da própria vida. Um milhão de vidas abaixo de mim,

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um milhão de corações partidos em maior e menor grau, histórias de alegria, de

perda e de sobrevivência, um milhão de pequenas vitórias todos os dias.

Há um grande consolo em simplesmente fazer algo que se ama.

Naqueles últimos passos, pensei em todos os modos pelos quais minha vida

ainda seria maravilhosa. Regulei a respiração e pensei na minha loja, nos meus

amigos, no meu inesperado cachorrinho com sua cara enrugada e alegre. Pensei

em como em menos de doze meses eu havia sobrevivido à falta de moradia e ao desemprego em uma das cidades mais brutais do planeta. Pensei na biblioteca

William Traynor.

E, quando me virei e levantei a cabeça de novo, lá estava ele, debruçado sobre o parapeito, olhando para a cidade, de costas para mim, o cabelo levemente bagunçado pela brisa. Por um instante, fiquei paralisada, enquanto os últimos turistas passavam por mim, e observei os ombros largos dele, o modo como a cabeça estava inclinada para a frente, os pelos escuros e macios

acima do colarinho, e algo mudou em mim — uma espécie de recalibragem

profunda em meu íntimo, que me fez ficar calma só de olhá-lo.

Fiquei ali parada, observando ele, e suspirei fundo.

E, talvez por estar ciente do meu olhar, nesse exato segundo ele se virou devagar e endireitou o corpo, e o sorriso que surgiu lentamente em seu rosto se

igualou ao meu.

— Oi, Louisa Clark.

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SOBRE A AUTORA

© St ine Heil ma nn

Jojo Moyes nasceu e cresceu em Londres. Trabalhou como jornalista por dez

anos, nove deles no jornal The Independent, de onde saiu em 2002 para se dedicar integralmente à carreira de escritora, quando seu primeiro livro, Em

busca de abrigo, foi publicado. Desde então já escreveu onze romances. Como eu era antes de você, seu livro de maior sucesso, ocupou o topo da lista de mais vendidos em nove países e foi adaptado para o cinema. Com mais de 20 milhões

de exemplares vendidos em todo o mundo, Jojo Moyes é uma das poucas

escritoras a ter emplacado três livros ao mesmo tempo na lista de best-sellers do The New York Times. A autora mora em Essex, na Inglaterra, com o marido e os três Qilhos.

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Créditos

Mídias sociais

Dedicatória

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Agradecimentos

Sobre a autora

Conheça os outros títulos da autora

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Você terminou Ainda sou eu

Jojo Moyes

Livros como este

Depois do livro

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