Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
sinto como... como se estivesse em casa.
— Você é um amor.
Ela disse isso sem alterar a expressão facial. Então levantou o dedo, pedindo
que eu esperasse, e se agachou para baixo do balcão. Voltou com óculos escuros vintage, com armação de plástico azul-claro.
— Alguém deixou isto aqui meses atrás. Eu ia colocar em promoção, mas me
dei conta de que ficaria fabuloso em você, ainda mais com aquele vestido.
— Eu não devo — comecei. — Já gastei tanto...
— Shh! É um presente. Então agora você está em dívida conosco e tem que
voltar. Pronto. Você ficou linda com eles! — exclamou, segurando um espelho.
Tive que admitir, eu de fato estava bonita. Ajeitei os óculos no nariz.
— Bem, este é oficialmente meu melhor dia em Nova York. Lydia, vejo você
na semana que vem. E vou gastar todo o meu dinheiro aqui de agora em diante.
— Legal! É assim que fazemos chantagem emocional com nossos clientes
para continuarmos na ativa!
Ela acendeu um cigarro Sobranie e se despediu, acenando.
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* * *
Passei a tarde montando o painel semântico e experimentando as roupas novas
e, quando me dei conta, já eram seis da tarde e eu estava sentada na cama tamborilando os dedos nos joelhos. Eu havia ficado empolgada com a ideia de
ter um tempo para mim mesma, porém agora a noite se arrastava diante de mim como uma paisagem sombria, indefinida. Mandei uma mensagem de texto
para Nathan, que ainda estava com o Sr. Gopnik, para ver se queria sair para comer alguma coisa depois do trabalho, mas ele tinha um encontro, e disse isso
com gentileza, mas do jeito que as pessoas fazem quando não querem ninguém
segurando vela.
Pensei em ligar para Sam novamente, porém não tinha mais esperanças de
que nossos telefonemas fossem se desenrolar na vida real da maneira que faziam na minha cabeça, e, embora eu ficasse olhando para o celular, meus dedos não chegaram a tocar nos dígitos. Pensei em Josh e me perguntei se o fato de eu ligar para ele e chamá-lo para beber o faria pensar que o convite significava algo mais. E então me perguntei se o fato de eu querer me encontrar
com ele para tomar algo realmente significava algo mais. Fuxiquei o Facebook
de Katie Ingram, mas ela ainda não tinha postado nada. E então fui à cozinha antes que fizesse algo estúpido e perguntei a Ilaria se ela queria ajuda com o jantar, o que fez com que ela girasse na sua rasteirinha preta e me encarasse com desconfiança por dez segundos inteiros.
— Você quer me ajudar com o jantar?
— Quero — respondi, e sorri.
— Não — retrucou ela, dando-me as costas.
* * *
Até aquela noite eu não tinha percebido como conhecia poucas pessoas em Nova York. Eu andara tão ocupada desde que cheguei e minha vida girara tão completamente em torno de Agnes, sua agenda e suas necessidades que não me
ocorrera que eu não tinha feito nenhum amigo. E havia algo no fato de não ter
nenhum programa em uma sexta à noite na cidade que me fazia sentir... bem...
um pouco fracassada.
Fui a pé a um bom restaurante japonês e comprei sopa de missô e alguns sashimis que ainda não tinha experimentado, tentando não pensar Enguia!
Estou realmente comendo enguia! Tomei uma cerveja, depois me deitei na cama, zapeei pelos canais da televisão e afastei pensamentos sobre outras coisas, tais
como o que Sam estaria fazendo. Disse a mim mesma que eu estava em Nova York, o centro do universo. Qual o problema de ficar em casa em uma sexta à fevereiro/2018
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noite? Eu estava simplesmente descansando depois de uma semana do meu
exigente trabalho em Nova York. Eu podia sair qualquer noite da semana se realmente quisesse. Disse isso a mim mesma várias vezes. E então meu celular
apitou.
Você está na rua explorando os melhores bares de Nova York de novo?
Eu sabia quem era sem nem precisar olhar. Fiquei um pouco balançada.
Hesitei por um instante antes de responder:
Estou em casa, na verdade.
Gostaria de tomar uma cerveja amiga com um escravo assalariado exausto? No
mínimo, você poderia garantir que eu não vá para casa com alguma mulher inadequada.
Sorri e então digitei: O que faz você pensar que sou uma protetora?
Está dizendo que damos a impressão de que jamais seríamos um casal? Nossa,
isso foi cruel.
Eu quis dizer: o que faz você pensar que eu o impediria de ir para casa com outra pessoa?
O fato de você estar respondendo às minhas mensagens? (Ele adicionou uma carinha sorrindo.)
Parei de digitar, de repente me sentindo desleal. Fiquei olhando a tela, o cursor piscando impacientemente. Por fim, ele escreveu: Estraguei tudo? Acabei de estragar tudo, não foi? Droga, Louisa Clark. Eu só queria tomar uma cerveja com uma garota bonita em uma sexta à noite e estava preparado para ignorar a
sensação de vaga tristeza que vem com o fato de saber que ela está apaixonada
por outro. Gosto tanto assim da sua companhia. Vamos tomar uma cerveja?
Umazinha só?
Eu me recostei no travesseiro, refletindo. Fechei os olhos e suspirei. Depois
me endireitei e digitei: Sinto muito, Josh. Não posso. Bj
Ele não respondeu. Eu o ofendi. Nunca mais teria notícias dele.
E então meu celular apitou. Ok. Bem, se eu me meter em encrenca, mando uma
mensagem para você logo de manhã cedo para vir me resgatar e fingir que é minha namorada ciumenta maluca. Esteja preparada para bater forte.
Combinado?
Acabei rindo.
É o mínimo que eu posso fazer. Tenha uma boa noite. Bj
Você também. Mas não tão boa. A única coisa que me impede de ir aí agora mesmo é imaginar você secretamente arrependida de não ter saído comigo. Bj
Na verdade, me arrependi um pouco mesmo. Claro que sim. Há uma quantidade limitada de episódios de The Big Bang Theory a que uma garota consegue assistir. Desliguei a televisão, fiquei olhando para o teto, pensei no meu namorado do outro lado do mundo e pensei em um americano que parecia
Will Traynor e de fato queria passar um tempo comigo, não com uma garota de
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cabelo louro volumoso que parecia usar fio-dental de paetê por baixo do uniforme. Pensei em ligar para a minha irmã, mas eu não queria incomodar Thom.
Pela primeira vez desde que eu chegara, tive a sensação quase física de estar
no lugar errado, como se eu estivesse sendo puxada por cordas invisíveis para
outro local a quilômetros de distância. Em determinado momento, fiquei tão mal que, quando entrei no banheiro e vi uma barata enorme na pia, não gritei,
como costumava fazer, mas por um breve instante considerei torná-la meu
animal de estimação, como o personagem de um livro infantil. E então percebi
que estava oficialmente pensando como uma louca e joguei inseticida nela.
Às dez horas, irritada e inquieta, fui à cozinha e roubei duas das cervejas de
Nathan, enfiando um bilhete de desculpas por baixo da porta dele, e as bebi, uma depois da outra, dando goles tão rápidos que tive que refrear um baita arroto. Eu me sentia mal pela maldita barata. O que ela estava fazendo, afinal?
Só sendo barata. Talvez estivesse se sentindo sozinha. Talvez quisesse fazer amizade comigo. Olhei embaixo da pia, para onde eu a havia chutado, mas ela estava morta. Isso me deixou irracionalmente zangada. Achei que não tivesse nascido para matar baratas. Eu tinha sido enganada sobre baratas. Acrescentei
isso à minha lista de coisas com as quais ficar furiosa.
Coloquei os fones de ouvido e cantei bêbada algumas músicas da Beyoncé
que eu sabia que me deixariam pior, mas de alguma forma eu não me
importava. Dei uma olhada na galeria do celular, conferindo as poucas fotos que
havia de mim e Sam juntos, tentando detectar a força dos sentimentos dele pela
maneira como me envolvia com o braço ou o jeito como inclinava a cabeça em direção à minha. Olhei fixamente para as imagens e tentei me lembrar do que
me fazia sentir tão confiante, tão segura nos braços dele. Então peguei o notebook, entrei no e-mail e escrevi para ele.
Você ainda sente saudade de mim?
Cliquei em ENVIAR, percebendo, enquanto a mensagem desaparecia no vazio
com um chiado, que tinha me condenado a várias horas de ansiedade relativa ao
e-mail, enquanto esperava Sam responder.
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13
Acordei me sentindo enjoada, e não foi a cerveja. Levei menos de dez segundos
para sentir a vaga sensação de náusea se infiltrar em uma sinapse e se conectar
à memória do que eu tinha feito na noite anterior. Abri devagar o notebook e levei os punhos fechados até os olhos quando descobri que, sim, eu realmente
tinha enviado aquilo e, não, ele não havia respondido. Mesmo quando
pressionei “atualizar” quatorze vezes.
Fiquei deitada em posição fetal por um tempo, tentando desfazer o nó em meu estômago. E então pensei em ligar para ele e explicar em tom de
brincadeira que Hah! Fiquei um pouquinho alegre e com saudade de casa e só queria ouvir sua voz e sabe, desculpe... mas ele tinha me dito que trabalharia o sábado todo, o que significava que naquele exato momento estaria em ação com
Katie Ingram. E alguma coisa dentro de mim rejeitava ter aquela conversa com
Katie por perto, podendo ouvir tudo.
Pela primeira vez desde que fora trabalhar para os Gopnik, o fim de semana
se alongava à minha frente como uma viagem interminável em um terreno
árido. Então, fiz o que qualquer garota faz quando está longe de casa e um pouco triste. Comi meio pacote de biscoitos de chocolate e liguei para minha mãe.
— Lou! É você? Espere aí, estou lavando umas roupas do vovô. Deixe eu desligar a água quente.
Ouvi minha mãe andar até o outro lado da cozinha e o rádio, que tocava indistinto ao fundo, foi silenciado de repente, e imediatamente me senti transportada para nossa casinha na Renfrew Road.
— Alô! Já voltei! Está tudo bem?
Ela parecia ofegante. Imaginei-a desamarrando o avental. Ela sempre tirava o
avental durante telefonemas importantes.
— Estou ótima! Ainda não tivemos um minuto para conversar direito e aí pensei em dar uma ligada.
— Não é caro demais? Achei que você só queria mandar e-mails. Você não vai
acabar recebendo uma dessas contas de mil libras, não é? Vi uma história na televisão sobre como as pessoas podem acabar se ferrando por usar o telefone
nas férias. Elas tinham até que vender a casa na volta da viagem, só para se livrar da dívida.
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— Eu verifiquei as tarifas. É bom ouvir sua voz, mãe.
O prazer de mamãe em falar comigo me fez sentir um pouco envergonhada
por não ter telefonado antes. Ela continuou tagarelando, contando-me sobre como planejava fazer aulas noturnas de poesia quando o vovô estivesse se sentindo melhor, e sobre os refugiados sírios que tinham se mudado para o final
da rua — ela estava ensinando inglês para eles.
— Obviamente na metade do tempo não consigo entender uma palavra do
que eles dizem, mas fazemos uns desenhos, sabe? E Zeinah, a mãe da família, sempre prepara alguma comida para mim para agradecer. Você não ia acreditar
no que ela consegue fazer com massa folhada. De verdade, eles são muito simpáticos, todos eles.
Ela contou que o médico novo disse que meu pai precisava perder peso; que
a audição do vovô estava indo embora e a televisão ficava em um volume tão alto que toda vez que ela ligava quase fazia um tiquinho de xixi; e Dymphna, que
morava em nossa rua, ia ter um bebê, e dava para ouvir os enjoos dela de manhã, de tarde e de noite. Fiquei sentada na cama escutando e me sentindo estranhamente reconfortada que a vida seguisse seu rumo normal em algum
outro lugar do mundo.
— Tem falado com a sua irmã?
— Não nos últimos dias, por quê?
Ela baixou a voz, como se Treena estivesse no cômodo, e não a sessenta quilômetros de distância.
— Ela arrumou um homem.
— Ah, é, eu sei.
— Você sabe? Como ele é? Ela não conta absolutamente nada. Sai com ele duas ou três vezes por semana agora. E fica cantarolando e sorrindo quando eu
falo sobre ele. É muito esquisito.
— Esquisito?
— Ver a sua irmã sorrir tanto. Eu fico bastante desconcertada. Quer dizer, é
ótimo e tudo o mais, mas não parece ela. Lou, fui até Londres passar a noite com
ela e o Thom para que ela pudesse sair, e, quando voltou, ela estava cantando.
— Uau.
— Pois é. Quase afinada até. Contei para o seu pai e ele me acusou de ser pouco romântica. Pouco romântica! Respondi que só alguém que realmente
acredita em romance consegue ficar casada depois de lavar as cuecas dele por
trinta anos.
— Mãe!
— Ah, meu Deus. Esqueci. Você ainda não deve ter tomado café da manhã.
Bem. Seja como for. Se você falar com ela, tente arrancar alguma informação.
Aliás, como vai seu namorado?
— Sam? Ah, ele está... bem.
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— Que ótimo. Ele foi até o seu apartamento algumas vezes depois que você
viajou. Acho que só queria se sentir perto de você, coitadinho. Treena disse que ele estava muito triste. Ficou procurando qualquer trabalho para fazer por perto. Também veio jantar conosco. Mas não tem aparecido faz um tempo.
— Ele está muito ocupado, mãe.
— Imagino. Ele tem um emprego e meio, não é? Bom, tenho que desligar
antes que esta ligação leve nós duas à falência. Contei que vou me encontrar com a Maria esta semana? A atendente do banheiro daquele hotel lindo em que
ficamos em agosto? Vou a Londres ver Treena e Thom na sexta, mas antes vou
dar um pulo lá e almoçar com a Maria.
— No banheiro?
— Não seja ridícula. Tem uma promoção de massa do tipo coma-duas-pague-
uma naquela rede de restaurantes italianos perto de Leicester Square. Não lembro o nome agora. Ela é muito exigente com os lugares aonde vai, diz que devemos avaliar a cozinha de um restaurante pela limpeza do banheiro
feminino. E pelo visto o banheiro desse lugar tem uma manutenção muito boa.
De hora em hora. Está tudo bem com você? Como vai a vida glamorosa da Quinta Rua?
— Avenida. Quinta Avenida, mãe. Está ótima. Está tudo... incrível.
— Não se esqueça de me mandar mais fotos. Mostrei para a Sra. Edwars
aquela foto sua no Baile Amarelo, e ela disse que você parecia uma estrela de cinema. Não disse qual, mas eu sei que era um elogio. Eu estava comentando com seu pai que devíamos ir até aí fazer uma visita antes que você se torne importante demais para nos receber!
— Como se isso fosse acontecer.
— Estamos muito orgulhosos de você, querida. Nem acredito que tenho uma
filha na alta sociedade de Nova York, andando em limusines e fazendo amizade
com gente importante.
Olhei ao redor, para o meu quartinho, com o papel de parede da década de
oitenta e a barata morta embaixo da pia.
— É — falei. — Tenho muita sorte mesmo.
* * *
Tentando não pensar no significado de Sam não passar mais no meu
apartamento apenas para se sentir próximo de mim, eu me vesti, tomei um café
e desci. Resolvi voltar para o Vintage Clothes Emporium. Tinha a sensação de que Lydia não se importaria se eu simplesmente ficasse por lá.
Havia escolhido minhas roupas com cuidado: dessa vez vesti uma blusa
turquesa estilo chinês com uma pantalona de lã preta e sapatilhas vermelhas. Só
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o ato de criar um look que não envolvesse camisa polo e calça de náilon fez com
que me sentisse mais eu mesma. Prendi o cabelo em duas tranças, atadas nas costas com um lacinho vermelho, e depois acrescentei os óculos escuros que Lydia me dera e brincos em formato de Estátua da Liberdade que eram
irresistíveis, apesar de terem vindo de um quiosque de bugigangas para
turistas.
Ouvi a confusão assim que desci a escada. Fiquei pensando por um tempinho
o que a Sra. De Witt estaria aprontando, mas, quando fiz a curva, vi que a voz
alterada era de uma jovem asiática, que parecia estar empurrando uma
criancinha para Ashok.
— Você disse que hoje era o meu dia. Você prometeu. Tenho que ir para a passeata!
— Não vou poder, querida. Vincent está de folga. Não conseguiram ninguém
para ficar no saguão.
— Então os seus filhos podem ficar sentados aqui com você. Vou nessa
passeata, Ashok. Precisam de mim.
— Não posso cuidar das crianças aqui!
— A biblioteca vai fechar, meu bem. Entende isso? Você sabe que é o único
lugar com ar-condicionado aonde eu posso ir no verão! E é o único lugar em que
não enlouqueço. Diga aonde mais nos Heights posso levar essas crianças quando passo dezoito horas por dia sozinha com elas.
Ashok ergueu o olhar enquanto eu permanecia parada ali.
— Ah, oi, Srta. Louisa.
Ela se virou. Não sei o que eu esperava da esposa de Ashok, mas não era essa
mulher de aparência intensa, vestindo calça jeans e uma bandana, o cabelo encaracolado caindo pelas costas.
— Dia.
— Bom dia.
Ela se virou para o outro lado.
— Não vou mais discutir isso, meu bem. Você me disse que o sábado era meu.
Vou à passeata para proteger um recurso público valioso. Ponto final.
— Vai ter outra manifestação na semana que vem.
— Temos que manter a pressão! Este é o momento em que os vereadores
decidem o orçamento! Se não estivermos na luta agora, os jornais locais não vão
noticiar, e então eles vão pensar que ninguém se importa. Você sabe como funcionam as relações públicas, meu bem? Sabe como o mundo funciona?
— Vou perder meu emprego se o patrão vier aqui e encontrar três crianças.
Sim, amo você, Nadia. Amo mesmo. Não chore, querida.
Ele se virou para a menininha em seu colo e beijou sua bochecha molhada.
— O papai tem que trabalhar hoje.
— Já estou de saída, meu bem. Volto no início da tarde.
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— Não vá. Você não tem a coragem de... ei!
Ela se afastou, a palma da mão para cima, como se para barrar mais
protestos, e saiu do prédio, abaixando-se para pegar um cartaz que tinha deixado perto da porta. Como se estivessem perfeitamente coreografadas, todas as três crianças começaram a chorar. Ashok xingou baixinho.
— Como é que eu me viro com isso agora?
— Eu fico com elas — falei, antes de saber o que estava fazendo.
— O quê?
— Não tem ninguém em casa. Posso levar as crianças para cima.
— Está falando sério?
— Ilaria vai visitar a irmã nos sábados. O Sr. Gopnik está no clube. Vou deixar
as crianças na frente da televisão. Não deve ser muito difícil, certo?
Ele me fitou.
— A senhorita não tem filhos, não é, Srta. Louisa? — Então, Ashok se
recompôs. — Mas, nossa, isso salvaria a minha pele. Se o Sr. Ovitz passar por aqui e encontrar esses três, vou ser demitido antes que dê tempo de você dizer,
ahn...
Ele pensou por um instante.
— Você está demitido?
— Exatamente. Tudo bem. Deixe que eu suba com a senhorita e explique
quem é quem e quem gosta do quê. Ei, crianças, vocês vão para uma aventura lá
em cima com a Srta. Louisa! Não é legal?
Três crianças me encararam com o rosto molhado e catarrento. Abri um
enorme sorriso para elas. E, em uníssono, as três recomeçaram a chorar.
* * *
Se algum dia você estiver melancólica, separada da família e um pouco insegura
a respeito da pessoa que ama, recomendo fortemente ficar encarregada de três
pequenos estranhos, com pelo menos dois que ainda não sejam capazes de ir ao
banheiro sem ajuda. A frase “viva o momento” só fez sentido de fato para mim
quando saí perseguindo um bebê, a fralda obscenamente suja quase caindo, que atravessava engatinhando um caríssimo tapete Aubusson, ao mesmo tempo que
tentava conter um fedelho de quatro anos perseguindo um gato traumatizado. O
filho do meio, Abhik, podia ser acalmado com biscoitos, e eu o coloquei em frente a desenhos animados na sala de TV, jogando nacos de biscoito com as mãos gordas na boca cheia de baba, enquanto eu tentava manter os outros dois
restritos a uma área de cerca de seis metros quadrados. Eles eram engraçados,
fofos, volúveis e exaustivos, gritando, correndo e batendo sem parar nos móveis. Vasos oscilaram, livros foram jogados das estantes e rapidamente
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recolocados. O barulho — e alguns odores desagradáveis — enchia o ar. Em determinado momento, eu estava sentada no chão segurando dois deles pela cintura enquanto a mais velha, Rachana, cutucava meu olho com dedos
grudentos e ria. Eu ria também. Era meio engraçado, de um jeito graças a Deus
isso vai terminar logo.
Depois de duas horas, Ashok subiu, disse que a esposa estava presa no
protesto e perguntou se eu podia ficar com as crianças por mais uma hora.
Concordei. Ele estava com aquele olhar arregalado dos verdadeiramente
desesperados e, no fim das contas, eu não tinha mais nada para fazer. No entanto, tomei a precaução de levar as crianças para o meu quarto, onde coloquei um desenho animado na televisão, tentei evitar que elas abrissem a porta e, no fundo, aceitei que o ar nessa área do edifício talvez nunca mais tivesse o mesmo cheiro. Eu tentava evitar que Abhik pusesse inseticida na boca
quando alguém bateu na porta.
— Espere um pouco, Ashok — gritei, tentando arrancar a lata da mão da criança antes que o pai visse.
Porém, foi o rosto de Ilaria que apareceu diante de mim. Ela me encarou, depois olhou para as crianças e de novo para mim. Abhik parou de chorar por
um instante, fitando Ilaria com seus enormes olhos castanhos.
— Hum. Oi, Ilaria!
Ela não falou nada.
— Eu... eu estou ajudando o Ashok por algumas horas. Sei que não é o ideal,
mas, humm, por favor, não fale nada. As crianças vão ficar aqui só mais um pouquinho.
Ela espiou a cena, depois cheirou o ar.
— Vou borrifar o quarto depois. Por favor, não conte para o Sr. Gopnik.
Prometo que não vai acontecer de novo. Sei que eu devia ter perguntado antes,
mas não tinha ninguém em casa e o Ashok estava desesperado.
Enquanto eu falava, Rachana correu choramingando na direção da mulher
mais velha e se jogou como uma bola de rúgbi em sua barriga. Pisquei quando
Ilaria cambaleou para trás.
— Eles vão embora logo, logo. Posso pedir para o Ashok vir imediatamente.
De verdade. Ninguém precisa saber...
Mas Ilaria apenas ajeitou a blusa e pegou a menininha no colo.
— Está com sede, compañera?
Sem olhar para trás, saiu arrastando os pés, segurando com força Rachana no
colo, o pequeno polegar enfiado na boca.
Enquanto eu permanecia imóvel, a voz de Ilaria ecoou pelo corredor.
— Traga as crianças para a cozinha.
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Ilaria fritou uma porção de bolinhos de banana, oferecendo pedacinhos de banana às crianças, para que se ocupassem enquanto ela cozinhava, e eu tornei
a encher canecas de água e tentei evitar que as crianças menores caíssem das
cadeiras da cozinha. Ela não falou comigo, mas ficou cantarolando baixinho, o rosto estampando uma meiguice inesperada, a voz baixa e musical enquanto conversava com as crianças. Estas, como cães reagindo a um treinador eficiente,
ficaram quietas e passíveis de negociação no mesmo instante, estendendo as mãos para mais um pedaço de banana, lembrando-se de falar por favor e
obrigado, de acordo com as instruções de Ilaria. Elas comeram bastante, ficando
cada vez mais sorridentes e plácidas, a neném esfregando os olhos com os punhos fechados, como se estivesse pronta para dormir.
— Com fome — disse Ilaria, apontando os pratos vazios com a cabeça.
Tentei lembrar se Ashok dissera alguma coisa sobre comida na mochila da bebê, mas eu estivera distraída demais para olhar. Eu estava simplesmente agradecida por ter uma adulta no recinto.
— Você tem um jeito incrível com crianças — comentei, mastigando um
pedaço de bolinho.
Ela deu de ombros, mas pareceu silenciosamente orgulhosa.
— Você devia trocar a pequena. Podemos improvisar uma cama para ela na
última gaveta do seu armário.
Eu a encarei.
— Porque ela pode cair da sua cama.
Ela revirou os olhos, como se isso fosse óbvio.
— Ah. Claro.
Levei Nadia de volta para o meu quarto e a troquei, fazendo uma careta.
Fechei as cortinas. Depois puxei a gaveta de baixo, ajeitei meus pulôveres para
nivelá-los, e deitei Nadia ali, esperando que ela adormecesse. No início ela lutou contra o sono, os grandes olhos me fitando, as mãos gordas e cheias de covinhas
esticadas procurando as minhas, mas dava para ver que aquela era uma batalha
perdida. Tentei copiar Ilaria e cantei baixinho uma canção de ninar. Bem, estritamente falando, não era uma canção de ninar: a única música cuja letra eu
conseguia lembrar era a Canção Molahonkey, que só a fez rir, além de outra sobre Hitler ter apenas um testículo, que meu pai cantava para mim quando eu
era pequena. Mas a neném gostou. Seus olhos começaram a se fechar.
Ouvi os passos de Ashok no corredor e a porta se abrir atrás de mim.
— Não entre — sussurrei. — Ela está quase... Himmler tinha algo parecido...
Ashok permaneceu onde estava.
— Mas o pobre e velho Goebbels não tinha bola nenhuma.
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E assim ela adormeceu. Esperei um instante, coloquei meu suéter turquesa em cima dela para evitar que ficasse com frio, então me levantei.
— Pode deixá-la aqui, se quiser — sussurrei. — Ilaria está na cozinha com os
outros dois. Acho que ela está...
Eu me virei e gritei. Sam estava de pé na porta, com os braços cruzados e um
meio sorriso, uma sacola no chão entre seus pés. Abri e fechei os olhos, em dúvida se estava tendo uma alucinação. E então levei as mãos devagar até o rosto.
— Surpresa!
Ele moveu os lábios para pronunciar a palavra, mas não emitiu nenhum som,
e eu atravessei o quarto tropeçando e o empurrei para o corredor, onde podia
beijá-lo.
* * *
Sam revelou que tinha planejado tudo na noite em que eu contara sobre minha
inesperada folga no fim de semana. Jake não fora problema — não faltaram amigos felizes em aceitar um ingresso grátis para o show —, e ele tinha reorganizado o trabalho, implorando favores e permutando turnos. Depois
havia reservado um voo barato de última hora e embarcado para me
surpreender.
— Você teve sorte que eu não resolvi fazer a mesma surpresa para você.
— Cheguei a pensar nisso, a nove mil metros de altura. Tive essa visão repentina de você voando na direção oposta.
— Quanto tempo temos?
— Só quarenta e oito horas, infelizmente. Tenho que ir embora segunda-feira
de manhã cedo. Mas, Lou, eu... não queria esperar mais algumas semanas.
Ele não falou mais nada, mas eu sabia o que queria dizer.
— Estou tão feliz por você ter vindo. Obrigada. Obrigada. Então, quem deixou
você entrar?
— O homem lá da recepção. Ele me avisou sobre as crianças. Depois me
perguntou se eu já tinha me recuperado da minha intoxicação alimentar.
Sam ergueu uma sobrancelha.
— É. Não existem segredos neste prédio.
— Ele também me disse que você era um doce e a melhor pessoa daqui. O
que eu já sabia, é claro. E então uma senhorinha idosa com um cachorro histérico veio pelo corredor e começou a gritar com ele sobre a coleta do lixo,
mas deixei que ele resolvesse o assunto com ela.
Tomamos café até a esposa de Ashok chegar e assumir as crianças de novo. O
nome dela era Meena e, cintilando com a energia residual de sua passeata fevereiro/2018
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comunitária, ela me agradeceu com sinceridade e nos contou sobre a biblioteca
em Washington Heights que estavam tentando salvar. Ilaria parecia não querer
entregar Abhik de volta para a mãe: estava ocupada gargalhando com ele, beliscando delicadamente as bochechas do garoto e fazendo-o rir. O tempo todo
que ficamos lá com as duas mulheres, batendo papo, eu sentia a mão de Sam abaixo da minha cintura, sua enorme figura preenchendo a cozinha, sua mão livre ao redor de uma das xícaras de café, e de repente senti que aquele lugar
estava alguns graus mais próximo de ser o meu lar, porque agora eu poderia visualizar Sam nele.
— Muito prazer em conhecê-la — dissera ele a Ilaria, estendendo a mão.
Em vez de lançar seu costumeiro olhar de absoluta desconfiança, ela dera um
pequeno sorriso e apertara a mão dele. Percebi que poucas pessoas se davam ao
trabalho de se apresentar a ela. Nós duas éramos invisíveis na maior parte do
tempo, e Ilaria, talvez em virtude de sua idade ou nacionalidade, ainda mais que
eu.
— Tome cuidado para o Sr. Gopnik não ver o rapaz aqui — murmurou ela quando Sam foi ao banheiro. — Namorados são proibidos no prédio. Usem a entrada de serviço.
Ela balançou a cabeça como se não acreditasse que estava concordando com
algo tão imoral.
— Ilaria, não vou esquecer isso. Obrigada — falei.
Estendi os braços como se fosse abraçá-la, mas ela me lançou um olhar
penetrante. Interrompi meu gesto no meio do caminho e o transformei em dois
polegares para cima.
* * *
Comemos pizza — uma vegetariana inofensiva —, depois paramos em um bar
escuro e imundo onde um jogo de beisebol bradava em uma pequena tela de TV.
Sentamos a uma minúscula mesa com nossos joelhos se encostando. Metade do
tempo eu não fazia ideia sobre o que estávamos conversando, porque não
conseguia acreditar que Sam estava ali, na minha frente, inclinando-se em sua
cadeira, rindo de coisas que eu dizia e passando a mão na cabeça. Como que por
um acordo tácito, não mencionamos Katie Ingram e Josh. Em vez disso,
conversamos sobre nossas famílias. Jake tinha uma namorada nova e raramente
ficava na casa de Sam, como antes. Sam confessou que sentia falta dele, embora
compreendesse que nenhum menino de dezessete anos realmente desejava
passar o tempo com o tio.
— Ele está muito mais feliz, e o pai dele ainda não se resolveu, então eu devia
ficar alegre por ele. Mas é estranho. Eu me acostumei a ter o Jake por perto.
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— Você sempre pode ir ver minha família — falei.
— Eu sei.
— Posso só dizer pela quadragésima oitava vez como estou feliz de você estar aqui?
— Você pode me dizer o que quiser, Louisa Clark — disse ele suavemente, levando as juntas de meus dedos aos lábios.
* * *
Permanecemos no bar até as onze. Por mais estranho que pareça, apesar do tempo limitado de que dispúnhamos para ficar juntos, nenhum de nós sentia a
urgência cheia de pânico que tivéramos da última vez, de aproveitar cada minuto. O fato de ele estar lá era um bônus tão inesperado que acho que nós dois concordamos silenciosamente em apenas aproveitar a companhia um do
outro. Não havia necessidade de visitar pontos turísticos, marcar uma lista de tarefas a serem cumpridas ou correr para a cama. Estava, como os jovens dizem,
tudo tranquilo, na boa.
Saímos do bar enroscados um no outro, como bêbados alegres fazem, e eu fui
até o meio-fio, pus dois dedos na boca e assobiei, sem demonstrar perplexidade
quando um táxi amarelo parou na minha frente cantando pneus. Eu me virei para fazer um sinal para Sam entrar, mas ele estava me encarando.
— Ah, é. Ashok me ensinou. Você precisa meio que colocar os dedos embaixo
da língua. Olhe... desse jeito.
Sorri para ele, mas algo em sua expressão me incomodou. Achei que ele ia gostar de meu pequeno artifício para chamar um táxi, mas, em vez disso, foi como se de repente ele não me reconhecesse.
Voltamos para um prédio silencioso. O Lavery estava quieto e majestoso
observando o parque, elevando-se acima do barulho e do caos da cidade, como
se, de algum modo, fosse superior àquele tipo de coisa. Sam parou quando chegamos à calçada coberta em frente ao prédio e fitou a estrutura alta, sua monumental fachada de tijolos, as janelas estilo palladiano. Balançou a cabeça,
quase para si mesmo, quando entramos. O saguão de mármore estava em
silêncio, o porteiro da noite cochilava no escritório de Ashok. Ignoramos o elevador de serviço e subimos pela escada, nossos passos abafados pela longa
extensão de carpete azul-royal, nossas mãos deslizando pelo corrimão de metal polido. Subimos mais um lance até chegarmos ao corredor dos Gopnik. Ao
longe, Dean Martin começou a latir. Entramos no apartamento e fechei com cuidado a imensa porta atrás de nós.
A luz de Nathan estava apagada e, ao longo do corredor, a TV de Ilaria balbuciava indistintamente. Sam e eu atravessamos o enorme hall na ponta dos
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pés, passamos pela cozinha e chegamos a meu quarto. Troquei de roupa,
colocando uma camiseta, mas pensando, subitamente, que gostaria de dormir com algo um pouco mais sofisticado; em seguida, entrei no banheiro e comecei
a escovar os dentes. Perambulei para fora do banheiro, ainda escovando, e encontrei Sam sentado na cama, o olhar fixo na parede. Fitei-o com o ar mais inquisidor possível quando se está com a boca cheia de espuma sabor menta.
— O que foi?
— É... esquisito — respondeu ele.
— Minha camiseta?
— Não. Estar aqui. Neste lugar.
Voltei para o banheiro, cuspi e lavei a boca.
— Está tudo bem — comecei a falar, fechando a torneira. — Ilaria é tranquila,
e o Sr. Gopnik só vai voltar domingo à noite. Se você se sentir mesmo pouco à
vontade, eu reservo um quarto para nós em um hotelzinho que Nathan conhece
a dois quarteirões e aí podemos...
Ele balançou a cabeça.
— Não isso. Você. Aqui. Quando ficamos no hotel, éramos apenas você e eu,
como sempre. Só estávamos em um lugar diferente. Aqui, finalmente consigo ver como tudo mudou para você. Pelo amor de Deus, você está morando na Quinta Avenida. Um dos endereços mais caros do mundo. Está trabalhando
neste edifício de doido. Tudo cheira a dinheiro. E tudo é absolutamente normal
para você.
Por mais estranho que fosse, fiquei na defensiva.
— Ainda sou eu.
— Claro — disse ele. — Mas você está em um lugar diferente agora.
Literalmente.
Ele falou em tom neutro, mas algo naquela conversa me deixou
desconfortável. Descalça, andei até onde ele estava, coloquei as mãos em seus ombros e disse, com um pouco mais de ênfase do que pretendia:
— Ainda sou apenas a Louisa Clark, sua garota ligeiramente desajeitada de Stortfold. — Como ele não respondeu, acrescentei: — Sou apenas uma
funcionária aqui, Sam.
Ele me olhou nos olhos, depois estendeu a mão e acariciou meu rosto.
— Você não entende. Não consegue ver como mudou. Você está diferente,
Lou. Anda por essas ruas como se fossem suas. Chama um táxi assobiando e ele
aparece. Até mesmo seu jeito de andar mudou. É como se... não sei. Você cresceu
como pessoa. Ou talvez tenha crescido como outra pessoa.
— Está vendo, agora você está dizendo uma coisa boa, mas soa como uma coisa ruim.
— Não é ruim — corrigiu ele. — Apenas... diferente.
Eu me aproximei mais e montei em Sam, minhas pernas nuas pressionando
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sua calça jeans. Encostei o rosto no dele, nariz contra nariz, nossas bocas a centímetros de distância. Envolvi seu pescoço com meus braços para sentir a maciez de seu cabelo escuro na minha pele, sua respiração morna em meu peito. O quarto estava escuro, e uma luz fria de neon lançava um raio estreito na
minha cama. Eu o beijei e, com aquele beijo, tentei transmitir algo do que ele representava para mim, o fato de que podia chamar um milhão de táxis com um
assobio, mas ainda sabia que ele era a única pessoa com quem gostaria de compartilhar um táxi. Beijei-o, meus beijos se tornando cada vez mais
profundos e intensos, pressionando-me nele, até que Sam cedeu, suas mãos se fecharam ao redor de minha cintura e deslizaram para cima, e senti o exato momento em que ele parou de pensar. Sam me puxou com força em sua direção,
sua boca grudada na minha, e gemi enquanto ele se mexia, empurrando-me
para baixo, todo o seu ser reduzido a uma única intenção.
Naquela noite ofereci algo para Sam. Estava desinibida, diferente do que costumo ser. Eu me tornei diferente porque estava desesperada para lhe
mostrar como realmente precisava dele. Era uma luta, mesmo que ele não
soubesse. Escondi meu próprio poder e o deixei cego com o dele. Não houve ternura, nem palavras suaves. Quando nossos olhos se encontravam, eu estava
quase com raiva dele. Ainda sou eu, disse-lhe em silêncio. Não se atreva a duvidar de mim. Não depois de tudo isso. Ele tapou meus olhos, colocou a boca em meu cabelo e me possuiu. Eu deixei. Queria que ele ficasse meio louco com
aquilo. Queria que ele sentisse que estava tomando tudo. Não faço ideia dos sons que emiti, mas, quando acabou, meus ouvidos estavam tinindo.
— Isso foi... diferente — disse ele quando voltamos a respirar normalmente.
Sua mão deslizou por cima de mim, suave agora, o polegar acariciando minha
coxa.
— Você nunca esteve assim.
— Talvez eu nunca tivesse sentido tanto a sua falta.
Inclinei-me e beijei seu peito. Senti um sabor salgado nos lábios. Ficamos ali
deitados no escuro, observando a faixa de neon que atravessava o teto.
— É o mesmo céu — disse ele na penumbra. — É isso que temos que manter
na memória. Ainda estamos embaixo do mesmo céu.
Ao longe, soou uma sirene de polícia, seguida por outra em um contraponto
desencontrado. Eu não registrava mais esses barulhos: os sons de Nova York tinham se tornado conhecidos, caindo na categoria de ruídos despercebidos.
Sam se virou para mim, o rosto nas sombras.
— Comecei a esquecer as coisas, sabe. Todas as pequenas partes de você que
amo. Eu não conseguia me lembrar do cheiro do seu cabelo.
Ele baixou a cabeça, aproximando-a da minha, e inspirou.
— Ou o formato do seu queixo. Ou o modo como a sua pele treme quando faço isso...
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Deslizou o dedo de leve a partir da minha clavícula, e eu meio que sorri com a
reação involuntária do meu corpo.
— Esse jeito maravilhosamente tonto com que você me olha logo depois... Eu
tinha que vir aqui, para me lembrar dessas coisas.
— Ainda sou eu, Sam.
Ele me beijou, os lábios tocando suavemente quatro, cinco vezes os meus, um
sussurro.
— Bem, qualquer que seja a versão de você, Louisa Clark, eu te amo — disse
Sam, e rolou devagar, suspirando, para se deitar de costas.
Porém, nesse momento tive que reconhecer uma verdade desconfortável. Eu
fora diferente com ele. E não tinha sido apenas porque eu queria mostrar como
o desejava, como o adorava, apesar de isso fazer parte do motivo. Em algum nível mais sombrio, oculto, eu queria mostrar a ele que eu era melhor do que ela.
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Dormimos até depois das dez, então fomos caminhando para a lanchonete perto
de Columbus Circle. Comemos até nossa barriga doer, bebemos galões de café
passado e ficamos sentados um em frente ao outro, os joelhos entrelaçados.
— E aí, está feliz de ter vindo? — perguntei, como se não soubesse a resposta.
Ele estendeu a mão e a colocou delicadamente atrás do meu pescoço,
inclinando-se por cima da mesa até me beijar, sem reparar nas outras pessoas, e eu recebi a resposta de que precisava. Ao nosso redor, havia casais de meia-idade lendo o jornal do fim de semana, grupos de festeiros vestidos com roupas
bizarras que ainda não tinham ido para casa dormir e conversavam entre si, além de casais exaustos com filhos mal-humorados.
Sam se recostou na cadeira e suspirou fundo.
— Minha irmã sempre quis vir aqui, sabe. Parece idiota que ela nunca tenha
vindo.
— Sério?
Estendi a mão para pegar a dele, e Sam virou a palma para cima para segurar
a minha, fechando os dedos sobre ela.
— É. Ela tinha uma lista inteira de coisas que queria fazer, como ir a um jogo
de beisebol. Os Kicks? Os Knicks? Um time que ela queria ver. E comer em uma
lanchonete de Nova York. E mais que tudo ela queria subir no topo do
Rockefeller Center.
— Não o Empire State?
— Não. Ela dizia que o Rockefeller devia ser melhor, com uma espécie de observatório de vidro. Pelo visto, dá para ver a Estátua da Liberdade de lá. —
Apertei a mão dele. — Podíamos ir lá hoje.
— Podíamos mesmo — concordou ele. — Faz a gente pensar, não é?
Sam pegou a xícara de café.
— Temos que agarrar as oportunidades quando podemos.
Uma vaga melancolia tomou conta dele. Eu não quis interromper. Sabia
melhor que ninguém como, às vezes, é preciso se permitir ficar triste. Esperei um minuto e depois disse:
— Sinto isso todo dia.
Ele se virou para mim.
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— Vou falar uma coisa tipo Will Traynor agora — avisei.
— Tudo bem.
— Não tem quase nenhum dia aqui em que eu não sinta que ele estaria
orgulhoso de mim.
Senti um bocadinho de ansiedade, consciente de como havia testado Sam nos
primeiros dias de nosso relacionamento por falar sem parar sobre Will, sobre como ele significara tanto para mim, sobre o vazio que ele deixara. Porém, Sam
apenas aquiesceu.
— Também acho que ele estaria. — Ele acariciou meu dedo com o polegar. —
Sei que eu estou. Orgulhoso de você. Quer dizer, sinto uma baita saudade. Mas,
meu Deus, você é incrível, Lou. Chegou a uma cidade que não conhecia e fez esse
emprego, no meio de milionários e bilionários, funcionar para você, e arranjou
amigos, criou essa coisa toda para você. As pessoas passam a vida inteira sem fazer um décimo disso que você conseguiu.
Ele fez um gesto ao redor.
— Você também conseguiria — falei sem pensar. — Eu pesquisei. As
autoridades de Nova York estão sempre precisando de bons paramédicos.
Tenho certeza de que podíamos conseguir isso.
Falei em tom de brincadeira, mas, assim que as palavras saíram, percebi como desejava ardentemente que aquilo acontecesse. Inclinei-me sobre a mesa.
— Sam. Podíamos alugar um apartamento pequeno no Queens ou qualquer
outro lugar e então podíamos ficar juntos toda noite, dependendo de quem estivesse trabalhando em que turno insano, e podíamos fazer isto aqui todo domingo de manhã. Podíamos ficar juntos. Não acha que seria maravilhoso?
Você só tem uma vida. Ouvi as palavras soando nos meus ouvidos. Diga sim, falei para ele em silêncio. Simplesmente diga sim.
Ele estendeu o braço por cima da mesa para pegar minha mão. Depois
suspirou.
— Não posso, Lou. Minha casa não está pronta. Mesmo que eu decidisse
alugá-la, precisaria terminar a obra. E não posso deixar o Jake por enquanto. Ele
tem que saber que estou por perto. Só um pouco mais de tempo.
Forcei-me a dar o tipo de sorriso que indicava que eu não tinha levado aquilo
a sério.
— Claro! Foi só uma ideia idiota.
Ele encostou os lábios na palma da minha mão.
— Não é idiota. Mas é impossível neste momento.
* * *
Decidimos, por um acordo tácito, não mencionar assuntos potencialmente
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difíceis de novo, e isso aniquilou uma quantidade surpreendente de temas — o
trabalho dele, sua vida em casa, nosso futuro. Caminhamos pelo High Line, depois nos apressamos para ir até o Vintage Clothes Emporium, onde
cumprimentei Lydia como uma velha amiga e me arrumei com um macacão cor-
de-rosa com lantejoulas estilo anos setenta, um casaco de pele anos cinquenta e
um boné de marinheiro, fazendo Sam rir.
— Esta — disse ele, quando saí do provador com um vestido psicodélico solto e curto de náilon cor-de-rosa e amarelo — é a Louisa Clark que eu conheço
e amo.
— Ela já mostrou para você o vestido de festa azul? Aquele com mangas?
— Não consigo me decidir entre este e o casaco de pele.
— Meu bem — disse Lydia, acendendo um cigarro Sobranie —, você não
pode usar pele na Quinta Avenida. As pessoas não vão perceber que está sendo
irônica.
Quando finalmente saí do provador, Sam estava ao lado da caixa, segurando
um pacote.
— É o vestido dos anos sessenta — disse Lydia, prestativa.
— Você comprou para mim?
Peguei o pacote dele.
— Sério? Não achou espalhafatoso demais?
— É totalmente louco — disse Sam, impassível. — Mas você parecia tão feliz
com ele... tão...
— Ah, meu Deus, ele é um bom partido — sussurrou Lydia quando
estávamos de saída, o cigarro pendendo do canto da boca. — Aliás, da próxima
vez faça com que ele compre o macacão. Você ficou uma diva.
* * *
Voltamos para o apartamento por algumas horas e cochilamos, totalmente
vestidos e enroscados de modo casto um no outro, saturados de carboidratos.
Às quatro, despertamos zonzos e concordamos que devíamos sair e completar
nosso último passeio, já que Sam tinha que pegar o voo às oito da manhã do dia
seguinte no aeroporto JFK. Enquanto empacotávamos seus poucos pertences,
fui fazer um chá na cozinha, onde encontrei Nathan misturando algum shake de
proteína. Ele deu um sorriso malicioso.
— Soube que o seu namorado está aqui.
— Será que nada é inteiramente privado neste corredor?
Enchi a chaleira e apertei o botão.
— Não quando as paredes são tão finas assim, Louisa — disse ele. — Estou
brincando! — completou, quando corei até a raiz do cabelo. — Não ouvi nada.
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Mas é bom saber, pela cor do seu rosto, que você teve uma noite boa!
Eu estava prestes a bater nele quando Sam apareceu na porta. Nathan parou
na frente dele e estendeu a mão.
— Ah. O famoso Sam. Prazer em finalmente conhecê-lo, cara.
— O prazer é meu.
Esperei ansiosamente para ver se eles iam se comportar como macho alfa um
com o outro. Mas Nathan era bastante relaxado por natureza e Sam ainda estava
calmo depois de vinte e quatro horas de comida e sexo. Os dois simplesmente se
cumprimentaram, sorriram um para o outro e trocaram gracejos.
— Vocês vão sair hoje à noite?
Nathan tomou um grande gole da bebida enquanto eu entregava a Sam uma
xícara de chá.
— Nós pensamos em ir ao topo do Rockefeller. É uma espécie de missão.
— Ai, gente. Vocês não vão querer ficar em uma fila de turistas na última noite juntos. Venham para o Holiday Cocktail Lounge no East Village. Vou encontrar meus amigos lá. Lou, você conheceu os caras da última vez que saímos. Vai ter uma promoção lá hoje à noite. É sempre uma boa pedida.
Olhei para Sam, que deu de ombros. Podíamos dar uma passada de meia
hora, eu disse. Então talvez pudéssemos ir ao topo do Rockefeller sozinhos.
Ficava aberto até onze e quinze.
* * *
Três horas mais tarde, estávamos espremidos ao redor de uma mesa
tumultuada, meu cérebro girando de leve por causa dos drinques que tinham aterrissado nele, um após o outro. Eu estava com meu vestido solto psicodélico
porque queria mostrar a Sam como tinha gostado. Ele, enquanto isso, da
maneira como fazem os homens que adoram a companhia de outros homens,
tinha se conectado a Nathan e seus amigos. Estavam comentando sobre as escolhas musicais de cada um e comparando histórias de terror bizarras da juventude.
Uma parte de mim sorria e me juntava à conversa, enquanto que a outra fazia
cálculos mentais sobre a frequência com que poderia contribuir
financeiramente para Sam ir a Nova York duas vezes mais do que ele havia planejado. Sem dúvida ele perceberia como isso era bom. Como nós dois éramos
bons juntos.
Sam se levantou para comprar a rodada seguinte.
— Vou pegar o cardápio
Ele pronunciou as palavras sem emitir som. Fiz que sim. Eu sabia que
provavelmente devia comer alguma coisa para não ficar mal mais tarde.
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E então senti a mão de alguém no meu ombro.
— Você está mesmo me perseguindo!
Josh me encarava com o rosto iluminado, um grande sorriso exibindo dentes
perfeitamente brancos. Eu me levantei de repente, ruborizada. Virei-me, mas Sam estava no bar, de costas para nós.
— Josh! Oi!
— Você sabia que este pode ser considerado meu outro bar predileto, certo?
Ele estava usando uma camisa azul listrada de tecido macio, as mangas
dobradas.
— Não sabia!
Minha voz estava alta demais, minha fala rápida demais.
— Acredito em você. Quer uma bebida? Aqui fazem um old-fashioned que é
de outro mundo.
Esticou o braço e tocou meu cotovelo.
Dei um pulo para trás como se ele tivesse me queimado.
— É, eu sei. E não. Obrigada. Estou com amigos e...
Virei-me justo a tempo de Sam chegar, segurando uma bandeja de drinques,
dois cardápios embaixo do braço.
— Oi — disse ele, dando uma espiada em Josh antes de colocar a bandeja na
mesa.
Depois, se endireitou devagar e o examinou de verdade.
Permaneci de pé, as mãos tensas ao lado do corpo.
— Josh, este é o Sam, meu... meu namorado. Sam, este é... este é o Josh.
Sam encarava Josh, como se tentasse absorver alguma coisa.
— É — disse Sam afinal. — Acho que eu podia ter adivinhado.
Ele me olhou, depois tornou a encarar Josh.
— Vocês... vocês querem uma bebida? Quer dizer, dá para ver que já têm, mas eu ficaria feliz em oferecer a próxima rodada.
Josh fez um gesto na direção do balcão.
— Não. Obrigado, cara — disse Sam, que ficara de pé para demonstrar que
era meia cabeça mais alto que o outro. — Acho que estamos bem aqui.
Seguiu-se um silêncio constrangedor.
— Tudo bem, então.
Josh me olhou e aquiesceu.
— Prazer em conhecer você, Sam. Vai ficar muito tempo?
— O suficiente.
O sorriso de Sam não se alargou até os olhos. Eu nunca o vira tão irritado.
— Bem, então... vou deixar vocês em paz. Louisa, vejo você por aí. Tenham uma ótima noite.
Josh ergueu as palmas das mãos, um gesto de paz. Abri a boca, mas não havia
nada a dizer que soasse certo, então acenei, um gesto esquisito e agitado com os
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dedos.
Sam se sentou pesadamente. Dei uma espiada em Nathan, que estava do
outro lado da mesa e mantinha uma expressão de perfeita neutralidade. Os outros rapazes não pareceram ter reparado nada e ainda estavam conversando
sobre os preços dos ingressos do último show a que tinham ido. Durante um instante, Sam ficou perdido em seus pensamentos. Por fim, ergueu o olhar.
Peguei a mão dele, mas ele não apertou a minha.
* * *
O humor não melhorou. O bar estava barulhento demais para conversar com Sam, e eu não tinha certeza do que queria dizer. Beberiquei meu drinque e pensei em uma centena de argumentos que se reviravam em minha mente. Sam
tomou um grande gole de sua bebida, aquiesceu e sorriu com as piadas dos rapazes, mas eu percebia o tique em seu maxilar e sabia que seu coração não estava mais lá. Às dez horas, saímos e pegamos um táxi para casa. Deixei que ele
chamasse.
* * *
Subimos pelo elevador de serviço, seguindo as instruções, e verificamos se havia algum ruído antes de entrarmos sorrateiramente em meu quarto. Parecia
que o Sr. Gopnik já estava na cama. Sam não falou nada. Foi ao banheiro se trocar e fechou a porta atrás de si, as costas rígidas. Ouvi-o escovar os dentes e gargarejar enquanto eu subia na cama, sentindo-me desconfortável e com raiva
ao mesmo tempo. Ele pareceu ficar lá dentro por uma eternidade. Enfim abriu a
porta e saiu de cueca. As cicatrizes ainda estavam vermelhas e intensas, cruzando sua barriga.
— Estou sendo um babaca.
— É, está, sim.
Ele expirou demoradamente. Olhou para minha foto de Will, aninhada entre
uma foto dele mesmo e outra de minha irmã com Thom, que estava com o dedo
no nariz.
— Desculpe. Simplesmente me pegou de surpresa. Como ele se parece com...
— Eu sei. Mas qualquer um também poderia dizer que é esquisito você
passar o tempo com minha irmã e ela se parecer tanto comigo.
— Só que ela não se parece com você. — Ele ergueu as sobrancelhas. —
Espera aí, o quê?
— Estou esperando você dizer que sou mil vezes mais bonita.
— Você é mil vezes mais bonita.
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Afastei as cobertas para deixá-lo entrar, e ele subiu na cama ao meu lado.
— Você é muito mais bonita que sua irmã. Milhões de vezes mais. Você é praticamente uma top model.
Ele colocou uma das mãos em meu quadril. Estava morna e pesada.
— Mas com pernas mais curtas. Melhor assim?
Tentei não sorrir.
— Melhor. Mas um pouco grosseiro sobre as minhas pernas.
— São pernas lindas. Minhas pernas favoritas. As pernas de top models são
simplesmente... entediantes.
Sam se aproximou e ficou em cima de mim. Toda vez que ele fazia isso era como se pedacinhos de mim ganhassem vida involuntariamente, e tive que me
esforçar muito para não me remexer. Ele estava apoiado nos cotovelos,
prendendo-me no lugar e olhando para o meu rosto, que eu tentava deixar impassível, mesmo que meu coração estivesse disparado.
— Acho que você matou o pobre rapaz de susto — falei. — Parecia de leve
querer bater nele.
— É porque eu queria, de leve.
— Você é um bobo, Sam Fielding.
Estiquei-me e o beijei. Ao retribuir o beijo, ele estava sorrindo de novo. Seu
queixo estava com a barba por fazer no lugar onde ele não tinha se dado ao trabalho de barbear.
Dessa vez Sam foi meigo. Em parte porque agora acreditávamos que as
paredes eram finas e ele realmente não deveria estar ali. Porém, acho que estávamos cuidadosos um com o outro depois dos eventos inesperados da
noite. Toda vez que ele me tocava, era com respeito. Ele disse que me amava, a
voz baixa e suave, olhando direto em meus olhos. As palavras reverberaram dentro de mim como pequenos terremotos.
Amo você.
Amo você.
Amo você também.
* * *
Programamos o alarme para as 4h45, e acordei xingando, arrancada do sono pelo barulho estridente. Ao meu lado, Sam gemeu e pôs um travesseiro por cima