Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
Sequência dos romances Como eu era antes de você e Depois de você.
Lou Clark chega em Nova York pronta para recomeçar a vida, confiante de
que pode abraçar novas aventuras e manter seu relacionamento a
distância. Ela é jogada no mundo dos super-ricos Gopnik — Leonard e a
esposa bem mais nova, e um sem-fim de empregados e puxa-sacos. Lou
está determinada a extrair o máximo dessa experiência, por isso se lança
no trabalho e, antes que perceba, está inserida na alta sociedade nova-
iorquina, onde conhece Joshua Ryan, um homem que traz consigo um
sopro do passado de Lou.
Enquanto tenta manter os dois lados de seu mundo unidos, ela tem que
guardar segredos que não são seus e que podem mudar totalmente sua
vida. E, quando a situação atinge um ponto crítico, ela precisa se
perguntar: Quem é Louisa Clark? E como é possível reconciliar um coração
dividido?
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Sabe, primeiro, quem és; e então te adorna de acordo.
EPITETO
fevereiro/2018
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1
Foi o bigode que me lembrou de que eu não estava mais na Inglaterra: uma centopeia sólida e cinzenta escondendo bem o lábio superior do homem; um bigode à la Village People, de caubói, uma miniatura de vassoura que passava muita seriedade. Na Inglaterra não se vê esse tipo de bigode. Eu simplesmente
não conseguia tirar os olhos dele.
— Senhora?
A única pessoa que eu já tinha visto com um bigode daqueles na Inglaterra foi o Sr. Naylor, nosso professor de matemática, que colecionava migalhas de biscoito nele — a gente costumava contá-las durante a aula de álgebra.
— Senhora?
— Ah. Desculpe.
O homem de uniforme fez um gesto com o dedo atarracado para que eu me
aproximasse. Não tirou os olhos da tela. Aguardei no guichê, o suor da espera secando lentamente no meu vestido. Ele estendeu a mão, flexionando quatro dedos gordos. Depois de vários segundos, percebi que estava pedindo meu
passaporte.
— Nome.
— Está aí — retruquei.
— Seu nome, senhora.
— Louisa Elizabeth Clark.
Espiei por cima do balcão.
— Mas eu nunca uso o Elizabeth. Porque minha mãe percebeu depois de me
registrarem que meu apelido ficaria Lou Lizzy. E, se você disser isso rápido, soa
como tolice. Embora meu pai diga que é meio apropriado. Não que eu seja tola.
Quer dizer, você não iria querer pessoas tolas no seu país. Ha!
Minha voz reverberou nervosamente no painel de acrílico.
O homem olhou para mim pela primeira vez. Tinha ombros firmes e um olhar
capaz de imobilizar você feito uma arma de eletrochoque. Não sorriu. Ele esperou até que o meu sorriso se esvaísse.
— Desculpe — falei. — Pessoas de uniforme me deixam nervosa.
Olhei para o saguão da imigração, atrás de mim, para a fila que serpenteava
com tantas voltas que se tornara um mar agitado e impenetrável de pessoas.
— Acho que estou me sentindo meio estranha por ter passado tanto tempo
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na fila. Sinceramente, foi a fila mais demorada que já encarei. Já estava me perguntando se deveria começar a fazer minha lista de compras de Natal.
— Coloque a mão no escâner.
— É sempre desse tamanho?
— O escâner?
Ele franziu o cenho.
— A fila.
Mas, ele não estava mais prestando atenção. Observava algo na tela. Coloquei
os dedos no aparelho e então meu celular apitou.
Mãe: Já pousou?
Comecei a digitar uma resposta com a mão livre, mas ele se virou
abruptamente para mim.
— Senhora, o uso de aparelhos celulares não é permitido nesta área.
— É só a minha mãe. Ela quer saber se cheguei.
Discretamente mandei o emoji do polegar erguido enquanto escondia o
telefone dele.
— Motivo da viagem?
O que é isso? A resposta de minha mãe chegou na mesma hora. Ela tinha se
adaptado incrivelmente bem ao universo das mensagens de texto e agora
digitava mais depressa do que falava — ou seja, fazia isso na velocidade da luz.
Você sabe que meu celular não mostra as imagenzinhas. É um SOS? Louisa, me diga que você está bem.
— Motivo da viagem, senhora? — O bigode se remexeu com irritação e ele acrescentou lentamente: — O que você veio fazer nos Estados Unidos?
— Tenho um emprego novo.
— Que é…?
— Vou trabalhar para uma família em Nova York. No Central Park.
As sobrancelhas do homem talvez tenham brevemente se erguido um
milímetro. Ele olhou o endereço no meu formulário, confirmando a informação.
— Que tipo de emprego?
— É um pouco complicado. Eu sou uma espécie de acompanhante
remunerada.
— Uma acompanhante remunerada.
— É assim: eu costumava trabalhar para um homem. Era a acompanhante
dele, mas também dava remédios e comida para ele, além de levá-lo para passear. Aliás, não é tão estranho quanto parece: ele não mexia as mãos. Não era algo pervertido. Na verdade, acabou virando mais do que isso, porque é difícil não se aproximar das pessoas de quem você cuida, e o Will, o homem, era
maravilhoso e a gente… Bem, a gente se apaixonou.
Tarde demais, tive a sensação familiar dos olhos se enchendo de lágrimas.
Limpei-os rapidamente.
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— Então acho que vai ser mais ou menos igual. Menos a parte de se
apaixonar. E de dar comida.
O funcionário da imigração estava me encarando. Tentei sorrir.
— Na verdade, eu não costumo chorar quando falo de trabalho. Não sou uma
tola de verdade, apesar do meu nome. Ha! Mas eu o amava. E ele me amava. Aí
ele… Bem, ele escolheu dar fim à própria vida. Então isto é meio que minha tentativa de recomeço.
As lágrimas agora escorriam implacável e vergonhosamente dos cantos dos
meus olhos. Não conseguia contê-las. Não conseguia conter nada.
— Desculpe. Deve ser o jet lag. São tipo duas da manhã no horário normal,
certo? Além disso, eu não falo mais sobre ele. Quer dizer, estou namorando. E meu namorado é ótimo! É paramédico! E um gato! É como ganhar na loteria dos
namorados, não é? Um paramédico gato!
Vasculhei minha bolsa em busca de um lenço. Quando levantei a cabeça, o homem estava estendendo uma caixa para mim.
— Obrigada. Enfim, de qualquer forma, meu amigo Nathan, que é da Nova
Zelândia, trabalha aqui e me ajudou a arranjar esse emprego, e não sei bem do
que se trata ainda, além de cuidar da esposa de um homem rico que fica deprimida. Mas decidi que desta vez vou fazer o que Will queria que eu fizesse,
porque antes eu não fiz direito. Acabei indo trabalhar em um aeroporto.
Congelei na hora.
— Não… hum… que haja algo de errado em trabalhar em um aeroporto! Com
certeza atuar na imigração é um trabalho muito importante. Muito importante.
Mas eu tenho um plano: vou fazer algo novo a cada semana que passar aqui e
vou dizer sim.
— Dizer sim?
— Para coisas novas. Will sempre dizia que eu me fecho para novas
experiências. Então esse é meu plano.
O funcionário examinou a minha papelada.
— A senhora não preencheu direito a parte do endereço. Preciso do código
postal.
Ele empurrou o formulário na minha direção. Olhei o número no papel que
havia imprimido e o escrevi com dedos trêmulos. Olhei para minha esquerda, onde as pessoas da fila para o meu guichê estavam ficando impacientes. À frente
da fila ao lado, uma família chinesa era questionada por dois funcionários.
Quando a mulher protestou, foram todos levados para uma sala. De repente, eu
me senti muito sozinha.
O funcionário da imigração deu uma olhada nas pessoas que aguardavam na fila. Então do nada carimbou meu passaporte.
— Boa sorte, Louisa Clark — disse.
Eu o encarei.
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— É só isso?
— É só isso.
Sorri.
— Ah, obrigada! É muita gentileza sua. Quer dizer, é bem estranho estar do
outro lado do mundo sozinha pela primeira vez, e agora sinto que conheci a primeira pessoa legal e…
— A senhora precisa prosseguir.
— Ah, sim. Desculpe.
Reuni meus pertences e afastei do rosto uma mecha suada de cabelo.
— E, senhora…
— Sim?
Fiquei me perguntando o que havia feito de errado desta vez. Ele não tirou os
olhos da tela.
— Tenha cuidado para o que diz sim.
* * *
Nathan estava esperando no setor de desembarque do aeroporto, como havia prometido. Varri a multidão com os olhos, me sentindo estranhamente
constrangida, certa de que ninguém viria, mas lá estava ele, com a mão imensa
acenando acima dos corpos que se moviam ao seu redor. Ele ergueu o outro braço, com um sorriso largo no rosto, e abriu caminho até mim, me levantando
do chão com um abraço apertadíssimo.
— Lou!
Ao vê-lo, algo dentro de mim se contraiu de forma inesperada — algo ligado
a Will, à perda e à emoção crua que vêm de ficar sentada em um voo um pouco
turbulento demais por sete horas — e fiquei feliz por ele estar me abraçando com força, dando-me um instante para me recompor.
— Bem-vinda a Nova York, baixinha! Pelo visto você não perdeu sua noção
de estilo.
Nathan me afastou de si, sorrindo. Ajeitei o vestido dos anos setenta com estampa de tigre. Achei que ele me deixaria parecida com Jackie Kennedy, nos
Anos Onassis. Isto é, se Jackie Kennedy tivesse derramado no colo metade do café servido no avião.
— É tão bom ver você.
Ele pegou as minhas malas de chumbo como se estivessem repletas de
plumas.
— Vamos embora. Vamos para a casa. O Prius está no conserto, então o Sr. G
me emprestou o carro dele. O trânsito está horrível, mas você vai chegar lá com
classe.
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* * *
O carro do Sr. Gopnik era preto e lustroso, do tamanho de um ônibus, e as portas se fecharam com aquele tum enfático e discreto que indicava um preço de seis dígitos. Nathan colocou a bagagem no porta-malas e eu me instalei no banco do passageiro com um suspiro. Olhei o celular, respondi as quatorze mensagens da minha mãe com uma, dizendo simplesmente que estava no carro
e ligaria para ela no dia seguinte, depois respondi à de Sam, na qual ele dizia que estava com saudades, com Pousei. Bjs.
— Como vai o cara? — perguntou Nathan, olhando para mim.
— Ele está bem, obrigada.
Acrescentei mais alguns bjs, só para garantir.
— Ele não ficou muito chateado por você ter vindo para cá?
Dei de ombros.
— Ele achou que eu precisava vir.
— Todos nós achamos. Você só demorou um pouco para encontrar seu
caminho, só isso.
Guardei o celular, recostei-me no assento e olhei os nomes desconhecidos que surgiam ao longo da estrada: Loja de Pneus Milo, Academia Richie, as ambulâncias e os caminhões de mudança, as casas maltratadas com a tinta descascando e os degraus instáveis, as quadras de basquete, os motoristas com
copos de plástico gigantescos. Nathan ligou o rádio e ouvi alguém chamado Lorenzo falar sobre um jogo de beisebol, então tive a breve impressão de estar
em uma espécie de realidade suspensa.
— Então, você tem o dia de amanhã para se organizar. Quer fazer alguma coisa? Acho que seria bom deixar você dormir, depois arrastá-la para um brunch. Você tem que ter a experiência completa de uma lanchonete em Nova
York no primeiro fim de semana aqui.
— Acho ótimo.
— Eles só vão voltar do clube amanhã à noite. Houve um pouco de conflito
esta semana. Contarei os detalhes depois que você tiver dormido.
Eu o encarei.
— Sem segredos, ok? Isso não vai ser…
— Eles não são como os Traynor. São só uma família multimilionária e
disfuncional comum.
— Ela é legal?
— É ótima. Ela… dá trabalho. Mas é ótima. Ele também.
Era o máximo de informação sobre o caráter de alguém que eu poderia
arrancar de Nathan. Ele ficou em silêncio — não era muito de fofoca — e eu fiquei sentada no ar condicionado do Mercedes GLS macio, lutando contra as fevereiro/2018
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ondas de sono que ameaçavam tomar conta de mim. Pensei em Sam, que àquela altura devia estar no décimo sono, a vários quilômetros, no vagão de trem.
Pensei em Treena e Thom, acomodados no meu pequeno apartamento de
Londres. Então a voz de Nathan interrompeu meus devaneios:
— Aí está.
Ergui os olhos com determinação e lá estava, do outro lado da Brooklyn Bridge: Manhattan, brilhando feito um milhão de cacos de luz, estonteante, atraente, impossivelmente compacta e linda, uma visão tão familiar por causa da televisão e dos filmes que meio que não consegui assimilar que via a versão
real. Eu me endireitei no assento, abismada, enquanto nos aproximávamos dela,
a metrópole mais famosa do planeta.
— Essa vista nunca cansa, não é? É um pouco mais grandiosa do que
Stortfold.
Acho que eu não tinha me dado conta de fato até aquele instante. Meu novo
lar.
* * *
— Oi, Ashok. Como vai?
Nathan arrastou minhas malas pelo saguão de mármore enquanto eu
analisava os azulejos pretos e brancos, os corrimões de bronze, tentando não tropeçar, com os passos ecoando no espaço cavernoso. Parecia a entrada de um
grandioso hotel um tantinho antiquado: o elevador de cobre envelhecido, o chão coberto de carpete estampado nos tons vermelho e dourado, a recepção um pouco mais escura do que seria confortável. Tinha cheiro de cera de abelha,
de sapatos engraxados e de dinheiro.
— Eu estou bem, cara. Quem é essa?
— Esta é Louisa. Ela vai trabalhar para a Sra. G.
O porteiro uniformizado saiu de trás da mesa e estendeu a mão para que eu a
apertasse. Tinha um sorriso amplo e olhos que pareciam já ter visto de tudo.
— É um prazer, Ashok.
— Uma inglesa! Um primo meu está em Londres. Em Croydon. Você conhece Croydon? Mora perto de lá? Ele é um sujeito grande, se é que me entende.
— Não conheço Croydon muito bem — respondi.
Quando a expressão dele murchou, acrescentei:
— Mas vou ficar de olho na próxima vez que estiver lá.
— Bem-vinda ao Lavery, Louisa. Se precisar de algo, ou quiser saber alguma
coisa, é só me falar. Estou aqui vinte e quatro horas por dia, todos os dias.
— Ele não está brincando — observou Nathan. — Às vezes acho que ele
dorme embaixo dessa mesa.
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Ashok indicou o elevador de serviço, as portas de um cinza fosco, localizado
perto dos fundos do saguão.
— Três filhos com menos de cinco anos, cara — disse ele. — Acredite em mim, ficar aqui é o que me mantém são. Já não posso dizer o mesmo sobre a minha mulher.
Ele sorriu.
— Sério, Srta. Louisa. Qualquer coisa de que precisar, estou ao seu dispor.
— Ele está falando de drogas, prostitutas, bordéis? — sussurrei para Nathan
quando as portas do elevador de serviço se fecharam à nossa frente.
— Não. Está falando de ingressos para o teatro, mesas em restaurantes, os melhores lugares para mandar lavar suas roupas a seco. Estamos na Quinta Avenida. Meu Deus. O que você andou fazendo em Londres?
* * *
A residência dos Gopnik ocupava seiscentos e cinquenta metros quadrados no
segundo e terceiro andares de um prédio gótico de tijolos vermelhos, um raro
duplex naquela área de Nova York, resultado do empenho das gerações ricas da
família Gopnik. Segundo Nathan, aquilo, o Lavery, era uma imitação em escala
reduzida do famoso edifício Dakota, e era um dos edifícios administrados por cooperativas mais antigos do Upper East Side. Ninguém podia comprar ou vender um apartamento ali sem a aprovação de um conselho de moradores
muito avesso a mudanças. Enquanto os condomínios chiques do parque
abrigavam os novos-ricos — oligarcas russos, estrelas do pop, magnatas do aço
chineses e bilionários do mundo tecnológico —, com restaurantes comunitários,
academias, creches e piscinas de borda infinita, os moradores do Lavery
gostavam das coisas à moda antiga.
Os apartamentos eram passados de geração em geração; seus ocupantes
aprendiam a tolerar o sistema de encanamento dos anos trinta, travavam
batalhas demoradas e labirínticas em busca de permissão para alterar qualquer
coisa maior do que um interruptor e olhavam para o outro lado educadamente
enquanto a cidade mudava em torno deles, da mesma forma como se ignora um
pedinte com um cartaz de papelão.
Eu mal prestei atenção na grandiosidade do duplex em si, com seu piso
parquê, seu pé-direito alto e suas cortinas de damasco até o chão, enquanto nos
encaminhamos para os aposentos dos funcionários, escondidos na extremidade
do segundo andar, ao final de um longo corredor estreito que partia da cozinha
— uma anomalia de uma época longínqua. Os edifícios mais novos ou
reformados não dispunham de aposentos para funcionários: empregadas
domésticas e babás saíam do Queens ou de Nova Jersey no trem da madrugada
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e voltavam para casa após o anoitecer. Mas a família Gopnik tinha aqueles quartos minúsculos desde que o prédio fora construído. Não podiam ser
modificados nem vendidos, porém estavam ligados à residência principal e
eram cobiçados como despensas. Não era difícil entender por que podiam ser considerados despensas com tanta naturalidade.
— Pronto.
Nathan abriu uma porta e largou as minhas malas.
Meu quarto tinha uns treze metros quadrados. Possuía uma cama de casal, uma televisão, uma cômoda e um armário. No canto, havia uma pequena
poltrona com forro bege, o assento murcho como prova de exaustos ocupantes
anteriores. Uma janelinha dava para o sul, acho. Ou o norte. Ou o leste. Era difícil saber, já que o cômodo ficava a dois metros de distância da parte traseira de um edifício de tijolos tão alto que só era possível ver o céu pressionando o
rosto contra o vidro e virando o pescoço.
Havia uma cozinha comunitária ali perto, no corredor, a ser compartilhada entre Nathan, eu e a empregada doméstica, cujo quarto ficava bem em frente ao
meu.
Na cama havia uma pilha perfeita de camisas polo verde-escuras e o que pareciam ser calças pretas com o brilho barato de Teflon.
— Não avisaram sobre o uniforme?
Peguei uma das camisas polo.
— São só uma camisa e uma calça. Os Gopnik acham que uniformes facilitam
as coisas. Assim cada um sabe qual é o seu lugar.
— Se você quer ficar igual a um jogador de golfe profissional.
Espiei o pequeno banheiro anexo ao quarto, o piso de azulejos de mármore
marrom cravejado de calcário. Dispunha de privada, uma pia pequena que
parecia remontar aos anos quarenta e chuveiro. No canto, um sabão embalado e
uma lata de inseticida.
— Na verdade, é bem generoso pelos padrões de Manhattan — explicou
Nathan. — Sei que parece um pouco caído, mas a Sra. G disse que podemos dar
uma demão de tinta. Mais alguns abajures e uma passada na loja Crate and Barrel e vai…
— Eu adorei.
Virei-me para ele e disse com um tremor súbito na voz:
— Estou em Nova York, Nathan. Estou aqui de verdade.
Ele segurou meu ombro.
— É. Está mesmo.
* * *
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Consegui ficar acordada por tempo suficiente para desfazer as malas, comprar
comida com Nathan, zapear por alguns dos 859 canais da minha televisãozinha
— a grande maioria parecia passar uma sequência ininterrupta de jogos de futebol americano, comerciais sobre problemas digestivos ou séries mal-iluminadas sobre crimes das quais eu nunca tinha ouvido falar. Então apaguei.
Acordei com um susto às 4h45. Por alguns minutos atordoantes, fiquei confusa
com o ruído distante de uma sirene desconhecida, o gemido grave de um
caminhão dando ré, então acendi a luz, me lembrei de onde estava e senti uma
onda de empolgação.
Peguei o laptop na bolsa e digitei uma mensagem para Sam. Está aí? Bjs.
Esperei, mas não obtive resposta. Ele tinha dito que estaria trabalhando, e estava atordoada demais para calcular a diferença de fuso horário. Deixei o laptop de lado e tentei voltar a dormir (Treena dizia que quando eu não dormia
o bastante ficava parecendo um cavalo triste). No entanto, os ruídos estranhos
da cidade eram como um canto de sereia, e às seis da manhã levantei da cama e
tomei banho, tentando ignorar a ferrugem na água barulhenta que explodia da
ducha. Eu coloquei uma roupa (um vestido jeans salopete e uma blusa azul-turquesa vintage de manga curta com uma foto da Estátua da Liberdade) e saí
em busca de café.
Avancei pelo corredor tentando lembrar onde ficava a cozinha dos
funcionários que Nathan mostrara na noite anterior. Abri uma porta e uma mulher se virou, me encarando. Era atarracada, de meia-idade, com o cabelo arrumado em perfeitas ondas escuras, feito uma estrela de cinema dos anos trinta. Os olhos eram lindos e escuros, porém a boca era caída nos cantos, como se estivesse em permanente desaprovação.
— Hum… bom dia!
Ela continuou me encarando.
— Eu… sou a Louisa. A nova funcionária. A… assistente da Sra. Gopnik.
— Ela não é a Sra. Gopnik.
A mulher deixou que a declaração pairasse no ar.
— Você deve ser…
Vasculhei meu cérebro cansado, mas nenhum nome veio à tona. Ah, vamos lá,
implorei a mim mesma.
— Sinto muito. Meu cérebro está que nem mingau esta manhã. Jet lag.
— Meu nome é Ilaria.
— Ilaria. É claro, é isso. Desculpe.
Estendi a mão. Ela não a apertou.
— Sei quem você é.
— Hum… você poderia me mostrar onde Nathan guarda o leite dele? Só
queria um café.
— Nathan não bebe leite.
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— É mesmo? Ele costumava beber.
— Você acha que estou mentindo?
— Não. Não foi isso que eu di…
Ela deu um passo para a esquerda e indicou um armário na parede que tinha
a metade do tamanho dos outros e ficava um pouco fora de alcance.
— Esse é seu.
Então abriu a geladeira para guardar o suco e eu vi a garrafa de leite de dois
litros, cheia, na prateleira dela. Ilaria fechou a porta e me olhou, implacável.
— O Sr. Gopnik estará em casa às seis e meia hoje à noite. Vista o uniforme
para recebê-lo.
E saiu pelo corredor, com os chinelos batendo na sola dos pés.
— Foi um prazer conhecê-la! Tenho certeza de que vamos nos ver muitas
vezes! — gritei atrás dela.
Olhei para a geladeira por um instante, então concluí que provavelmente não
estava cedo demais para comprar leite. Afinal, estava na cidade que nunca dorme.
* * *
Nova York talvez estivesse acordada, mas o Lavery estava mergulhado em um
silêncio tão denso que sugeria doses cavalares de sedativo. Atravessei o corredor, fechando a porta com cuidado atrás de mim, e verifiquei oito vezes se
tinha pegado a bolsa e as chaves. Como era muito cedo e os moradores estavam
dormindo, achei que podia dar uma olhada melhor no lugar onde eu tinha ido
parar.
Enquanto eu seguia na ponta dos pés, com o carpete aveludado abafando
meus passos, um cachorro começou a latir do outro lado de uma das portas —
um protesto estridente e indignado — e uma voz idosa gritou algo que não compreendi. Saí correndo, para não acordar os outros moradores, e, em vez de
pegar a escadaria principal, desci pelo elevador de serviço.
Não havia ninguém no saguão, então abri a porta e fui para a rua, deparando
com uma explosão de barulhos e luzes tão intensa que tive de ficar parada um
instante, só para não cair. Diante de mim, o oásis verde do Central Park se estendia pelo que me pareciam quilômetros. À minha esquerda, as ruas
secundárias já estavam movimentadas — homens enormes de macacão tiravam
caixas de uma van aberta na lateral, sendo observados por um policial com braços que pareciam pernis de porco cruzados diante do peito. Um gari
atarefado cantarolava. Um taxista conversava com um homem pela janela
aberta do carro. Enumerei de cabeça as atrações da Big Apple. Carruagens a cavalo! Táxis amarelos! Prédios incrivelmente altos! Enquanto eu observava, fevereiro/2018
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dois turistas cansados com crianças em carrinhos passaram por mim segurando
copos de isopor com café, talvez ainda operando em um fuso horário distante.
Manhattan se estendia em todas as direções, fervilhante, enorme, ensolarada e
brilhante.
Os efeitos do jet lag sumiram quando o sol despontou por completo. Respirei fundo e saí andando, consciente do meu sorriso, porém incapaz de contê-lo.
Percorri oito quarteirões sem encontrar uma única loja de conveniência. Virei na Avenida Madison, passando por lojas de luxo com vitrines de vidro enormes
e portas trancadas e, de vez em quando entre elas, um restaurante, com as janelas escurecidas como olhos fechados, ou um hotel luxuoso cujo porteiro uniformizado não olhava para mim quando eu passava.
Percorri mais cinco quarteirões, aos poucos me dando conta de que aquele não era o tipo de região em que se podia dar um pulo no mercadinho. Eu havia
imaginado Nova York com lanchonetes em cada esquina, servidas por
garçonetes ousadas e homens com chapéus-panamá brancos, porém tudo era
imenso e luxuoso e não dava a mais remota impressão de que poderia haver uma omelete de queijo ou uma xícara de chá atrás das portas. A maioria das pessoas por quem passei eram turistas ou então atletas determinados correndo
vestidos de lycra, alheios ao entorno com seus fones de ouvido, desviando com
destreza dos moradores de rua que espiavam com o rosto enrugado cor de chumbo. Finalmente dei de cara com um grande café, que pertencia a uma rede,
dentro do qual metade dos madrugadores de Nova York parecia se reunir,
debruçados sobre os celulares em mesas isoladas ou alimentando crianças
pequenas extraordinariamente animadas enquanto uma música ambiente
genérica saía dos alto-falantes na parede.
Pedi um cappuccino e um muffin, que, antes que eu pudesse dizer qualquer
coisa, o barista partiu ao meio, esquentou e cobriu com manteiga, tudo isso sem
interromper a conversa sobre beisebol com o colega.
Paguei, sentei-me com o muffin embrulhado em papel-alumínio e dei uma
mordida. Mesmo descontando a fome voraz causada pelo jet lag, foi a coisa mais deliciosa que eu já tinha comido na vida.
Eu me acomodei perto da janela e fiquei observando a rua de Manhattan de
manhã cedo por cerca de meia hora, com a boca ora cheia de muffin
amanteigado macio, ora escaldada pelo café quente e forte, deixando correr solto o meu constante monólogo interior ( Estou bebendo café nova-iorquino em
um café de Nova York! Estou andando por uma rua de Nova York! Como Meg Ryan! Ou Diane Keaton! Estou em Nova York de verdade! ), e, por um instante, entendi exatamente o que Will tinha tentado me explicar dois anos antes: durante aqueles poucos minutos, com a boca cheia de comida estrangeira, os olhos repletos de visões desconhecidas, eu existi apenas naquele momento.
Fiquei totalmente presente, com os sentidos em alerta, todo o meu ser receptivo
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às novas experiências ao meu redor. Eu estava no único lugar do mundo onde
poderia estar.
Então, do nada, duas mulheres na mesa ao lado começaram a trocar socos, lançando café e pedaços de doces por cima das mesas, e os baristas correram para apartar a briga. Tirei as migalhas do meu vestido, fechei a bolsa e concluí
que talvez já fosse hora de voltar à paz do Lavery.
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Ashok estava organizando grandes fardos de jornal em pilhas numeradas
quando eu entrei. Ele se empertigou com um sorriso.
— Bem, bom dia, Srta. Louisa. Como foi a sua primeira manhã em Nova York?
— Foi incrível. Obrigada.
— Você cantarolou “Let The River Run” enquanto caminhava pela rua?
Eu parei de repente.
— Como você sabe?
— Todo mundo faz isso logo que chega a Manhattan. Poxa, até eu faço de vez
em quando e não pareço nada com Melanie Griffith.
— Não há mercadinhos por aqui? Tive que andar um milhão de quilômetros
para conseguir um café. E não faço ideia de onde comprar leite.
— Srta. Louisa, você deveria ter me falado. Venha cá.
Ele fez um gesto atrás de sua mesa e abriu uma porta, me convidando para
entrar em uma sala escura cujas bagunça e decoração confusa destoavam do bronze e do mármore do lado de fora. Havia várias telas com imagens de câmeras de segurança em uma mesa e, entre elas, uma velha televisão e um grande livro-razão, junto com uma caneca, alguns livros de bolso e uma coleção
de fotos de crianças exibindo sorrisos desdentados. Atrás da porta havia uma geladeira caquética.
— Aqui. Tome isto. Mais tarde você me dá outra.
— Todos os porteiros fazem isso?
— Nenhum porteiro faz isso. Mas o Lavery é diferente.
— Então onde as pessoas compram mantimentos?
Ele fez uma careta.
— As pessoas neste prédio não compram mantimentos, Srta. Louisa. Elas
nem sequer pensam em mantimentos. Posso jurar que metade acha que a comida surge em um passe de mágica, já preparada, em suas mesas.
Ele olhou para trás, baixando a voz.
— Aposto que oitenta por cento das mulheres neste prédio não preparam
uma refeição há uns cinco anos. Se bem que metade das mulheres deste prédio
não come, e ponto final.
Eu o encarei, então Ashok deu de ombros.
— Os ricos não vivem como você e eu, Srta. Louisa. E os ricos de Nova York…
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bem, eles não vivem como ninguém.
Peguei a caixa de leite.
— Tudo o que você quiser é entregue aqui. Você vai se acostumar.
Eu queria lhe fazer perguntas sobre Ilaria e a Sra. Gopnik, que
aparentemente não era a Sra. Gopnik, e sobre a família que eu estava prestes a
conhecer. Mas ele não estava mais olhando para mim, mas para o corredor.
— Bom dia, Sra. De Witt!
— O que esses jornais estão fazendo no chão? Aqui está parecendo uma banca fuleira.
Uma velhinha minúscula estalou a língua com irritação, observando as pilhas
de exemplares do The New York Times e do The Wall Street Journal que Ashok ainda estava desembrulhando. Apesar da hora, ela estava vestida como que para um casamento, com um casaco longo cor de framboesa, um chapéu
vermelho oval à la Jackie Kennedy e imensos óculos de sol com armação de tartaruga que escondiam o pequeno rosto enrugado. Na ponta de uma coleira,
um pug arfante, com olhos esbugalhados, me encarava de forma belicosa (pelo
menos achei que me encarava: era difícil ter certeza já que seus olhos apontavam em direções diferentes). Abaixei-me para ajudar Ashok a tirar os jornais do caminho, mas então o cachorro avançou em mim, rosnando, e me levantei depressa, quase caindo em cima do The New York Times.
— Ah, pelo amor de Deus! — disse a voz tremida e imperiosa. — E agora você está aborrecendo o cachorro!
Minha perna sentiu o calor dos dentes do pug, e minha pele se arrepiou com
o contato.
— Por favor, se certifique de que esse… esse lixo não esteja mais aí quando voltarmos. Eu já disse ao Sr. Ovitz várias vezes que o prédio está indo ladeira abaixo. E, Ashok, deixei uma sacola de coisas para jogar fora na minha porta.
Por favor, tire-a de lá imediatamente, senão o corredor inteiro vai feder a lírio podre. Só Deus sabe quem manda lírios de presente. Flores fúnebres. Dean Martin!
Ashok tocou o chapéu.
— Pode deixar, Sra. De Witt.
Ele esperou que ela fosse embora, então se virou e olhou minha perna.
— Aquele cachorro tentou me morder!
— É. Esse é Dean Martin. Melhor ficar longe dele. É o morador mais mal-humorado do prédio, o que quer dizer muito.
Ashok se abaixou outra vez, colocou o fardo de jornais pesado na mesa e então parou para me despachar.
— Não se preocupe com isto, Srta. Louisa. Esses fardos são pesados e você já
tem problemas o bastante com eles lá em cima. Tenha um bom dia.
Ele se afastou antes que eu pudesse perguntar o que tinha querido dizer com
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aquilo.
* * *
O dia passou voando. Gastei o restante da manhã arrumando o meu quartinho,
lavando o banheiro, colocando fotos de Sam, meus pais, Treena e Thom na parede para deixá-lo mais aconchegante. Nathan me levou a uma lanchonete perto de Columbus Circle onde comi em um prato do tamanho de um pneu e bebi tanto café forte que minhas mãos ficaram tremendo no caminho de volta.
Nathan indicou os lugares que poderiam ser úteis para mim — tal bar ficava aberto até mais tarde, o falafel de tal food truck era muito bom, era seguro sacar dinheiro em tal caixa eletrônico… Meu cérebro rodopiava em um turbilhão de
novas imagens e informações. Em determinado momento no meio da tarde, me
senti zonza, com as pernas pesadas, então Nathan e eu caminhamos de braço dado até o apartamento. Fiquei grata pelo silêncio, pelo interior escuro do edifício, pelo elevador de serviço que me salvou de ter que subir a escada.
— Tire um cochilo — aconselhou ele, enquanto eu tirava os sapatos. — Mas,
se eu fosse você, não dormiria mais do que uma hora, senão seu relógio biológico vai ficar ainda mais confuso.
— A que horas você disse que os Gopnik estarão de volta? — perguntei com a
voz arrastada.
— Eles costumam voltar lá pelas seis. São três agora, então você tem tempo.
Vamos lá, descanse um pouco. Você vai se sentir humana outra vez.
Ele fechou a porta e eu afundei feliz na cama. Estava quase caindo no sono quando me dei conta de que, se deixasse para depois, não conseguiria falar com
Sam, então peguei o laptop, por um momento livre do torpor. Está aí? , digitei.
Alguns minutos depois, com um ruído borbulhante, a foto se ampliou e lá estava ele, de volta ao vagão de trem, o corpo enorme debruçado em direção à
tela. Sam. Paramédico. Homem-montanha. Namorado-novinho-em-folha.
Sorrimos um para o outro como dois malucos.
— Oi, linda! Como estão as coisas aí?
— Bem! — respondi. — Eu mostraria meu quarto para você, se não fosse
bater nas paredes ao virar a tela.
Girei o laptop para que ele visse a glória total do meu quartinho.
— Para mim parece bom. Você está dentro dele.
Olhei a janela cinzenta atrás de Sam. Podia imaginar à perfeição a chuva tamborilando no telhado do vagão, o vidro confortavelmente embaçado, a
madeira, a umidade e as galinhas lá fora se abrigando debaixo de um carrinho
de mão encharcado. Sam estava olhando para mim e eu esfreguei os olhos, de
repente desejando ter passado um pouco de maquiagem.
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— Você foi lá no trabalho?
— Fui. Eles acham que poderei recomeçar daqui a uma semana. Tenho que
estar bem o bastante para carregar um corpo sem romper os pontos.
Ele levou a mão instintivamente à barriga, onde o tiro o atingira semanas antes — em uma chamada de rotina que quase o matara e consolidara nossa relação — e eu senti algo perturbador e visceral.
— Queria que você estivesse aqui — disse, sem conseguir me conter.
— Eu também. Mas este é o primeiro dia da sua aventura e será ótimo. E
daqui a um ano, você estará sentada aqui…
— Aí, não — interrompi. — Estarei na sua casa nova.
— Na minha casa nova — corrigiu ele. — E vamos olhar as fotos no seu celular e eu vou pensar comigo mesmo: Caramba, lá vai ela tagarelar sobre o tempo que passou em Nova York outra vez.
— Então você vai escrever para mim? Uma carta cheia de amor e desejo, salpicada de lágrimas de solidão?
— Ah, Lou. Você sabe que não sou muito de escrever. Mas vou telefonar. E
vou estar aí com você daqui a quatro semanas.
— Certo — retruquei, com um nó na garganta. — Ok. É melhor eu tirar um
cochilo.
— Eu também — disse ele. — Vou pensar em você.
— De um jeito pornográfico nojento? Ou de um jeito romântico, estilo filme
açucarado?
— Qual dos dois não vai me causar problemas?
Ele sorriu.
— Você está com uma carinha boa, Lou — falou, depois de um minuto. —
Você parece… animada.
— Eu estou animada. Me sinto como alguém muito, muito cansado que
também lá no fundo quer explodir. É um pouco confuso.
Levei a mão à tela, e logo depois ele a cobriu com a sua. Imaginei a sensação
do toque.
— Amo você.
Eu ainda me sentia um pouco sem jeito ao dizer aquilo.
— Também amo você. Eu beijaria a tela, mas acho que você só veria os pelos
do meu nariz.
Fechei o laptop, sorrindo, e adormeci logo depois.
* * *
Alguém estava gritando no corredor. Acordei atordoada, suada, achando que talvez estivesse sonhando, e me sentei na cama. De fato havia uma mulher fevereiro/2018
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gritando do lado de fora do meu quarto. Um milhão de pensamentos passaram
zunindo pelo meu cérebro sonado, manchetes sobre assassinatos, Nova York e
como denunciar um crime. Para que número eu deveria ligar? Não era o 999, como na Inglaterra. Vasculhei meu cérebro, mas não veio nada.
— Por que eu deveria fazer isso? Por que deveria ficar sentada lá sorrindo enquanto aquelas megeras me insultam? Você não escuta nem a metade do que
elas dizem! Você é homem! É como se usasse antolhos!
— Querida, por favor se acalme. Por favor. Agora não é hora nem lugar para
isso.
— Nunca há uma hora ou um lugar! Porque sempre tem alguém aqui! Preciso
comprar um apartamento só para ter onde discutir com você!
— Não entendo por que você fica tão chateada com a coisa toda. Você precisa
dar…
— Não!
Algo se chocou contra o piso de madeira. Eu já estava totalmente desperta, com o coração a mil.
Pairou um silêncio pesado.
— Agora vai me dizer que era uma herança de família.
Pausa.
— Bem, era, era sim.
Um soluço abafado.
— Não estou nem aí! Não estou nem aí! Estou morrendo sufocada na história
da sua família. Está me ouvindo? Sufocada!
— Agnes, querida. No corredor, não. Por favor. Podemos conversar sobre
isso mais tarde.
Fiquei sentada, imóvel, na beirada da cama.
Houve mais alguns soluços abafados, então silêncio. Esperei, me levantei e fui
até a porta na ponta dos pés, colando a orelha nela. Nada. Olhei para o relógio:
eram 16h46.
Então lavei o rosto e vesti depressa o uniforme. Penteei o cabelo e saí silenciosamente do quarto, caminhando até a quina do corredor.
Então, parei.
Mais além, no corredor, ao lado da cozinha, uma moça estava encolhida em
posição fetal. Um homem mais velho a envolvia nos braços, encostado nos painéis de madeira. Estava quase sentado, com um joelho dobrado e o outro estendido, como se a tivesse segurado e sido derrubado pelo peso. Não dava para ver o rosto da mulher, mas uma perna magra e comprida se estendia de forma nada elegante de um vestido azul-marinho e uma mecha de cabelo louro
escondia seu rosto. Os nós de seus dedos estavam brancos onde ela se agarrava
a ele.
Observei a cena fixamente e engoli em seco, então o homem levantou a
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cabeça e me viu. Reconheci o Sr. Gopnik.
— Agora não. Obrigado — disse ele, baixinho.
Com a voz presa na garganta, voltei depressa para o meu quarto e fechei a porta; o sangue pulsava com tanta força nos ouvidos que tive certeza de que dava para ouvir.
* * *
Fiquei olhando para a televisão sem prestar atenção durante a hora seguinte, com a imagem do homem e da mulher entrelaçados gravada na mente. Pensei em mandar uma mensagem para Nathan, mas não soube bem o que escrever.
Em vez disso, às 17h55 saí do quarto, rumando hesitante para o apartamento principal pela porta de conexão. Passei por uma ampla sala de jantar vazia, o que me pareceu um quarto de hóspedes e por duas portas fechadas, seguindo o
burburinho distante de uma conversa, com os pés leves no piso parquê. Enfim
cheguei à sala de estar e parei na soleira da porta aberta.
O Sr. Gopnik estava sentado perto da janela, ao telefone, com as mangas da
camisa azul-clara arregaçadas e a mão na parte de trás da cabeça. Ele gesticulou
para que eu entrasse, ainda falando ao telefone. À minha esquerda, uma loura
— a Sra. Gopnik? — estava sentada em um sofá antigo, cor-de-rosa, digitando freneticamente em um iPhone. Parecia ter trocado de roupa, e por um instante
fiquei confusa. Aguardei, constrangida, até que ele terminou a ligação e se levantou com uma leve careta — que percebi — devido ao esforço. Dei outro passo em sua direção para que ele não precisasse avançar mais e apertei sua mão. Estava morna e seu cumprimento era delicado e firme. A jovem continuava
digitando no celular.
— Louisa. Que bom que chegou bem. Imagino que tenha tudo de que precisa.
Ele afirmou aquilo com o tom que as pessoas usam quando não esperam que
lhes peçam nada.
— Está tudo ótimo. Obrigada.
— Esta é a minha filha, Tabitha. Tab?
A garota ergueu a mão com um esboço de sorriso, antes de voltar para o celular.
— Por favor, desculpe a ausência de Agnes. Ela foi se deitar por uma hora.
Está com uma enxaqueca muito forte. Foi um fim de semana difícil.
Um cansaço vago nublou seu rosto, porém logo desapareceu. Nada em seu
comportamento revelava o que eu tinha visto menos de duas horas antes. Ele sorriu.
— Então… Hoje à noite você pode fazer o que quiser, e a partir de amanhã de
manhã vai acompanhar Agnes aonde ela quiser ir. Seu título oficial é
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“assistente” e você sempre estará presente para ajudá-la com o que ela precisar
ao longo do dia. Ela tem muitos compromissos… Pedi ao meu assistente que lhe
passasse a agenda da família, você receberá e-mails com as atualizações. É
melhor checar por volta das dez da noite… Em geral é nesse horário que fazemos mudanças de última hora. Você vai conhecer o restante do time
amanhã.
— Ótimo. Obrigada.
Reparei no uso das palavras “do time” e tive um vislumbre de jogadores de
futebol americano percorrendo o apartamento.
— O que tem para jantar, pai?
Tabitha falou como se eu não estivesse ali.
— Não sei, querida. Achei que você fosse sair.
— Não sei se vou ter coragem de atravessar a cidade de novo hoje à noite.
Talvez fique em casa.
— Faça como quiser, só avise a Ilaria. Louisa, você tem alguma pergunta?
Tentei pensar em algo útil para dizer.
— Ah, e mamãe me pediu para perguntar se você encontrou a gravura. O
Miró.
— Querida, não vou discutir isso de novo. A gravura pertence a esta casa.
— Mas mamãe disse que foi ela quem escolheu. Ela está sentindo falta. Você
nunca gostou do desenho.
— A questão não é essa.
Transferi o peso do corpo para a outra perna, sem saber se tinha sido dispensada.
— Mas a questão é exatamente essa, pai. Mamãe está sentindo muito a falta da gravura e você nem liga para ela.
— Ela vale oitenta mil dólares.
— Mamãe não liga para o dinheiro.
— Podemos conversar sobre isso mais tarde?
— Mais tarde você vai estar ocupado. Prometi para mamãe que ia resolver isso.
Discretamente, dei um passo para trás.
— Não há nada que resolver. O acordo foi finalizado há dezoito meses. Tudo
foi resolvido na época. Ah, querida, aí está você. Está melhor?
Olhei ao redor. A mulher que havia acabado de entrar na sala tinha uma beleza impressionante, com o rosto sem maquiagem e o cabelo louro-claro
preso em um coque frouxo. As maçãs do rosto, altas, tinham sardas discretas, e
o formato dos olhos indicava a ascendência eslava. Supus que devia ter mais ou
menos a minha idade. A mulher avançou, descalça, até o Sr. Gopnik e o beijou,
acariciando sua nuca.
— Muito melhor, obrigada.
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— Esta é Louisa — apresentou ele.
Ela se virou para mim.
— Minha nova aliada — disse.
— Sua nova assistente — corrigiu o Sr. Gopnik.
— Olá, Louisa.
Ela estendeu a mão fina e apertou a minha. Senti seus olhos me avaliando, como se tentasse entender algo, então ela sorriu e eu não consegui refrear um
sorriso.
— Ilaria deixou o seu quarto em bom estado?
Sua voz era suave e tinha uma leve cadência do Leste Europeu.
— Está perfeito. Obrigada.
— Perfeito? Nossa, você é fácil de agradar. Aquele quarto parece um armário
de vassouras. Se não gostar de algo é só nos dizer que damos um jeito. Não é,
querido?
— Você não morava em um quarto ainda menor, Agnes? — provocou
Tabitha, sem tirar os olhos do iPhone. — Lembro que papai me contou que você
dividia o quarto com uns quinze outros imigrantes.
— Tab — repreendeu o Sr. Gopnik com um tom de alerta delicado na voz.
Agnes respirou fundo e ergueu o queixo.
— Na verdade, meu quarto era menor. Mas as meninas com quem eu dividia
eram muito gentis. Então não havia qualquer problema. Quando as pessoas são
gentis e educadas, dá para suportar qualquer coisa, não acha, Louisa?
Engoli em seco.
— Sim.
Ilaria entrou na sala, pigarreando. Estava vestida com a mesma camisa polo e
calça escura, com um avental branco por cima. Não olhou para mim.
— O jantar está pronto, Sr. Gopnik — anunciou.
— Tem comida para mim, Ilaria querida? — perguntou Tabitha, com a mão
apoiada no encosto do sofá. — Acho que vou ficar por aqui.
A expressão de Ilaria instantaneamente se tornou calorosa. Foi como se
outra pessoa tivesse surgido diante de mim.
— É claro, Srta. Tabitha. Sempre faço comida a mais aos domingos para o caso de você decidir ficar.
Agnes ficou parada no meio do cômodo. Vi um lampejo de pânico cruzar seu
rosto. Ela tensionou a mandíbula e depois disse:
— Então gostaria que Louisa jantasse conosco também.
Pairou um breve silêncio.
— Louisa? — questionou Tabitha.
— Sim. Seria bom conhecê-la melhor. Você tem algum compromisso para
hoje à noite, Louisa?
— Hum… não — gaguejei.
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— Então você vai jantar conosco. Ilaria, você disse que fez comida a mais, não
é?
Ilaria olhou diretamente para o Sr. Gopnik, que parecia absorto com algo no
celular.
— Agnes — disse Tabitha, após um instante. — Você entende que nós não comemos com os funcionários?
— Quem é esse “nós”? Eu não sabia que havia um livro de regras.
Agnes estendeu a mão e observou a aliança com uma calma calculada.
— Querido? Você se esqueceu de me dar o livro de regras?
— Com todo o respeito, e por mais que eu tenha certeza de que Louisa é muito gentil, existem limites — argumentou Tabitha. — E eles existem para o bem de todos.
— Fico feliz em fazer o que for… — comecei. — Não quero causar nenhum…
— Bem, com todo o respeito, Tabitha, eu gostaria que Louisa jantasse comigo.
Ela é a minha nova assistente e vamos passar todos os dias juntas. Portanto, não
vejo problema em querer conhecê-la melhor.
— Não há problema — disse o Sr. Gopnik.
— Pai…
— Não há problema, Tab. Ilaria, por favor, pode pôr a mesa para quatro?
Obrigado.
Os olhos de Ilaria se arregalaram. Ela me encarou, a boca transformada em
uma linha fina de fúria reprimida, como se eu tivesse planejado aquela
subversão da hierarquia doméstica, então desapareceu na sala de jantar, de onde dava para ouvir o tinido enfático de talheres e copos. Agnes suspirou e soltou um pouco o cabelo. Então me lançou um leve sorriso conspiratório.
— Vamos lá — disse o Sr. Gopnik, após um minuto. — Louisa, você gostaria
de uma bebida?
* * *
O jantar foi um evento doloroso e taciturno. Eu fiquei totalmente inibida pela grandiosa mesa de mogno, os pesados talheres de prata e as taças de cristal, além de deslocada por causa do uniforme. O Sr. Gopnik ficou calado a maior parte do tempo e deixou a mesa duas vezes para atender a telefonemas no escritório. Tabitha continuou no celular, deliberadamente recusando-se a
interagir com os outros, enquanto Ilaria servia frango com molho de vinho tinto
e todas as guarnições, recolhendo os pratos em seguida com uma cara de bunda,
como diria a minha mãe. Talvez só eu tenha notado o ruído brusco com que meu
prato foi colocado diante de mim e a bufada audível que ela soltava sempre que
passava pela minha cadeira.
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Agnes mal tocou na comida. Sentou-se de frente para mim e se esforçou para
conversar comigo como se eu fosse sua nova melhor amiga, de vez em quando
desviando o olhar para o marido.
— Então esta é sua primeira vez em Nova York — comentou. — Em que
outros lugares já esteve?
— Hum… não muitos. Comecei a viajar muito tarde. Fiz um mochilão pela
Europa há um tempo e antes disso… Ilhas Maurício. E Suíça.
— Os Estados Unidos são muito diferentes. Cada estado tem um ambiente único, eu acho, para nós europeus. Só estive em alguns lugares com Leonard, mas foi como visitar países totalmente diferentes. Está empolgada por estar aqui?
— Muitíssimo — respondi. — Estou decidida a tirar vantagem de tudo o que
Nova York tem a oferecer.
— Parece você, Agnes — disse Tabitha melodiosamente.
Agnes a ignorou, mantendo contato visual comigo. Seus olhos eram
hipnoticamente lindos, mais estreitos nas pontas levantadas nos cantos. Em duas ocasiões, tive que lembrar a mim mesma de fechar a boca enquanto a observava.
— E me conte sobre a sua família. Você tem irmãos? Irmãs?
Falei sobre minha família da melhor forma que pude, tentando fazê-la
parecer-se mais com uma família normal do que com a Addams.
— Então sua irmã está morando no seu apartamento em Londres? Com o
filho? Ela virá visitar você? E os seus pais? Sentirão sua falta?
Pensei no que papai disse ao se despedir de mim: “Não se apresse em voltar,
Lou! Vamos transformar seu antigo quarto em uma Jacuzzi!”
— Ah, sim. Sentem muito.
— Minha mãe chorou por duas semanas quando deixei a Cracóvia. E você
tem namorado?
— Tenho. O nome dele é Sam. Ele é paramédico.
— Paramédico! Tipo um médico? Que legal. Por favor, mostre uma foto.
Adoro ver fotos.
Peguei o celular no bolso e passei as fotos de Sam até encontrar a minha preferida: ele sentado no terraço do meu prédio com seu uniforme verde-escuro. Tinha acabado de sair do trabalho e estava bebendo uma xícara de chá,
sorrindo para mim. O sol estava baixo atrás dele, e, ao ver essa foto, me vinha à
lembrança a sensação exata de estar lá em cima, meu chá esfriando no
parapeito atrás de mim, Sam parado pacientemente enquanto eu tirava uma
foto atrás da outra.
— Que lindo! E ele também vem para Nova York?
— Hum, não. Ele está construindo uma casa, então agora seria um pouco
complicado ele vir para cá. E ele tem um emprego.
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Os olhos de Agnes se arregalaram.
— Mas ele tem que vir! Vocês não podem morar em países diferentes! Como
você vai amar o seu homem se ele não está aqui com você? Eu não conseguiria
ficar longe de Leonard. Não gosto nem de quando ele fica dois dias fora por causa do trabalho.
— Sim, acho que você ia querer mesmo garantir que ele nunca fosse muito longe — alfinetou Tabitha.
O Sr. Gopnik tirou os olhos do prato, focando-os ora na esposa, ora na filha,
porém permaneceu calado.
— Mesmo assim — retrucou Agnes, endireitando o guardanapo no colo —,
Londres não é tão longe. E amor é amor. Não é verdade, Leonard?
— Com certeza — respondeu o Sr. Gopnik, e diante do sorriso dela, sua expressão se suavizou por um instante.
Agnes estendeu a mão e acariciou a dele, então desviei o olhar depressa para
o meu prato.
Por um momento, a sala ficou em silêncio.
— Na verdade, acho que vou para casa. Estou ficando meio enjoada.
Arrastando a cadeira ruidosamente, Tabitha se afastou da mesa e largou o guardanapo no prato, onde o linho branco logo absorveu o molho de vinho tinto. Tive que me conter para não resgatá-lo. Ela se levantou e deu um beijo na
bochecha do pai, que com a mão livre tocou seu braço carinhosamente.
— A gente se fala durante a semana, papai.
Ela se virou.
— Louisa… Agnes.
Com uma leve inclinação da cabeça, Tabitha saiu da sala.
Agnes a observou partir. É possível que tenha murmurado algo baixinho, mas
na hora Ilaria estava recolhendo meu prato e meus talheres com um tinido tão
violento que não deu para ouvir direito.
* * *
Depois que Tabitha foi embora, Agnes pareceu perder toda a motivação. Deu a
impressão de murchar no assento, os ombros de repente ficando curvados, o buraco entre as clavículas tornando-se visível quando baixou a cabeça. Eu me levantei.
— Acho que vou voltar para o meu quarto agora. Muito obrigada pelo jantar.
Estava uma delícia.
Ninguém insistiu para que eu ficasse. O braço do Sr. Gopnik agora estava apoiado na mesa de mogno, os dedos acariciando a mão da esposa.
— Nos vemos amanhã de manhã, Louisa — disse ele sem olhar para mim.
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Agnes olhava para ele com uma expressão sombria. Saí da sala de jantar e passei correndo pela porta da cozinha até o meu quarto, para fugir das adagas
virtuais que Ilaria com certeza lançava em minha direção.
* * *
Uma hora depois, Nathan me enviou uma mensagem — ele estava bebendo com
alguns amigos no Brooklyn. Soube que já passou pelo batismo de sangue. Está tudo bem?
Não tive forças para elaborar uma resposta engraçada, nem para perguntar
como diabo ele ficou sabendo.
Vai ficar mais fácil quando você conhecê-los melhor. Prometo.
Nos vemos amanhã de manhã, respondi. Tive um breve momento de
apreensão — no que eu tinha me metido? —, então me repreendi severamente e caí em um sono profundo.
* * *
Naquela noite, sonhei com Will. Raramente eu sonhava com ele — e isso tinha
sido uma fonte de tristeza no início, quando eu sentia tanto a falta dele que parecia que alguém tinha aberto um buraco dentro de mim. Os sonhos haviam
parado quando conheci Sam. Mas lá estava ele outra vez, de madrugada, tão vívido quanto se estivesse bem na minha frente. Eu estava no banco de trás de
um carro, uma limusine preta luxuosa, como a do Sr. Gopnik, e o vi do outro lado da rua. Fiquei imediatamente aliviada ao perceber que afinal não estava morto e soube, por instinto, que ele não podia ir aonde quer que fosse o seu destino. Era meu dever detê-lo, mas, toda vez que eu tentava atravessar a rua
movimentada, uma pista adicional de carros passando a toda velocidade surgia
do nada à minha frente, assim eu não conseguia alcançá-lo e o ruído dos motores abafava a minha voz, que gritava seu nome. Lá estava Will, fora do alcance, porém muito próximo, a pele com aquela cor suave de caramelo, o sorriso discreto brincando nos cantos dos lábios, dizendo para o motorista algo