Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 13/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

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as coisas que eu tinha conquistado. Fiquei deitada na escuridão, contando minhas conquistas nos dedos. Eu tinha um lar — ao menos por enquanto. Tinha

um emprego remunerado. Ainda estava em Nova York, e entre amigos. Vivia um

novo relacionamento, mesmo que às vezes me perguntasse como havia chegado

a ele. Poderia realmente dizer que teria feito alguma coisa diferente?

Mas era na senhora no quarto ao lado que eu estava pensando quando

finalmente dormi.

* * *

Havia quatorze troféus na prateleira de Josh, quatro deles do tamanho da minha

cabeça, para futebol americano, beisebol, atletismo e um troféu júnior por um concurso de soletração. Eu já tinha estado ali, mas só agora, sóbria e sem pressa, tive uma noção do que estava ao meu redor e do tamanho das conquistas dele.

Vi fotos de Josh usando uniformes esportivos, tiradas no momento de seus triunfos, os braços passados ao redor dos colegas de equipe, aqueles dentes perfeitos em um sorriso perfeito. Pensei em Patrick e na enorme quantidade de

diplomas na parede do apartamento dele, e divaguei sobre a necessidade

masculina de exibir suas conquistas, como um pavão abrindo permanentemente

a cauda.

Quando Josh desligou o telefone, me sobressaltei.

— Eu estava só pedindo comida. Sinto muito, mas com tudo o que está

acontecendo no trabalho não tenho tido tempo para mais nada. Mas é a melhor

comida coreana ao sul de Koreatown.

— Não tem problema — falei.

Eu não tinha experiência com comida coreana para servir de referência.

Estava apenas aproveitando a chance de vê-lo. Quando vim caminhando para pegar o metrô na direção sul, eu me deleitara com a novidade de estar a caminho de downtown sem ter que lutar contra ventos siberianos, ou contra a

neve fofa, ou ainda contra a chuva gelada e torrencial.

E o apartamento de Josh não era exatamente a toca do coelho que ele

descrevera, a menos que o coelho houvesse resolvido se mudar para um loft reformado, em uma área que aparentemente abrigara estúdios de artistas, mas

que agora oferecia espaço para quatro versões diferentes de lojas de Marc Jacobs, distribuídas entre joalherias artesanais, cafeterias finas e lojas caras com seguranças na porta. O loft tinha as paredes caiadas e piso de carvalho, com

uma mesa de mármore moderna e um sofá de couro surrado. A distribuição dos

poucos enfeites cuidadosamente escolhidos e dos móveis sugeria que tudo fora

pensado com atenção, garimpado e adquirido talvez com a ajuda dos serviços de um decorador.

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Ele tinha comprado flores para mim, uma deliciosa combinação de jacintos e

frésias.

— Por que as flores? — perguntei.

Ele deu de ombros enquanto me fazia entrar.

— Dei de cara com elas no caminho do trabalho para casa e achei que você ia

gostar.

— Uau. Obrigada.

Inspirei profundamente o aroma do buquê.

— Isso é a coisa mais legal que me aconteceu em muito tempo.

— As flores? Ou eu?

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Ora, acho que você é razoavelmente legal. — A expressão dele era de pura decepção. — Você é incrível. E amei as flores.

Ele deu um sorriso enorme e me beijou.

— Ora, você é a coisa mais legal que me aconteceu em muito tempo — disse

ele, baixinho, quando se afastou. — Tenho a sensação de ter esperado muito tempo por você, Louisa.

— Só nos conhecemos desde outubro.

— Ah. Mas vivemos em uma época de gratificação instantânea. E estamos na

cidade em que tudo o que se quer se consegue ontem.

Havia um estranho poder em ser desejada da maneira com que Josh parecia

me desejar. Eu não sabia bem o que fizera para merecer aquilo. Tive vontade de

perguntar o que ele via em mim, mas desconfiei que pareceria estranhamente

carente dizer isso em voz alta, então tentei descobrir de outras formas.

— Conte sobre as outras mulheres que você já namorou — pedi, do sofá, enquanto ele estava na pequena cozinha anexa, pegando pratos, talheres e copos. — Como elas eram?

— Deixando de lado os matches do Tinder? Inteligentes, bonitas,

normalmente bem-sucedidas…

Josh subiu numa banqueta para resgatar um vidro de molho de peixe na

parte de trás de um armário da cozinha.

— Mas, honestamente? Meio narcisistas — continuou ele. — Como se não

pudessem ser vistas sem a maquiagem perfeita, ou como se fossem ter um colapso se o cabelo não estivesse do jeito certo, e tudo tinha que estar registrado no Instagram, ou fotografado, ou descrito nas redes sociais sob a luz

mais favorável. Incluindo os encontros comigo. Como se nunca pudessem baixar

a guarda.

Ele se levantou. Segurando alguns vidros.

— Quer molho picante? Ou shoyu? Eu namorei uma garota que costumava

checar a que horas eu me levantava todo dia e colocava o alarme dela para meia

hora antes, assim teria tempo de arrumar o cabelo e se maquiar. Ou seja, eu fevereiro/2018

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sempre a veria com a aparência perfeita. Mesmo se para isso ela tivesse que se

levantar, tipo, às quatro e meia da manhã.

— Muito bem. Já vou avisando que eu não sou essa garota.

— Sei disso, Louisa. Já coloquei você para dormir.

Tirei os sapatos e dobrei as pernas embaixo do corpo.

— Imagino que seja meio lisonjeiro elas se esforçarem tanto.

— Sim. Mas também pode ser um pouco exaustivo. E parece que a gente

nunca consegue… nunca consegue saber o que está realmente por baixo de todo

esse esforço. Com você, tenho que admitir, está tudo à mostra. Você é quem você é.

— Devo assumir isso como um elogio?

— Claro. Você se parece com as garotas com quem eu cresci. É sincera.

— Os Gopnik não pensam assim.

— Que se danem.

Ele usou um tom hostil ao qual eu não estava habituada.

— Sabe, tenho pensado nisso. Você pode provar que não fez o que eles

disseram que fez… certo? Portanto, deveria processá-los por demissão sem

justa causa, comprometimento a sua reputação, por terem ferido seus

sentimentos e…

Balancei a cabeça.

— Estou falando sério — continuou ele. — Gopnik tem a reputação de ser um

cara bom e decente à moda antiga nos negócios, e está sempre fazendo coisas

para caridade, mas demitiu você por nada, Louisa. Você perdeu seu emprego e o lugar onde morava sem qualquer aviso ou compensação.

— Ele achou que eu estava roubando.

— Sim, mas Gopnik deve ter se dado conta de que não estava cem por cento

certo o que ele estava fazendo, ou teria chamado a polícia. Sendo ele quem é, posso apostar que algum advogado aceitaria defendê-la cobrando os honorários

apenas se a causa for ganha.

— Sinceramente, estou bem. Processar não é o meu estilo.

— É, eu sei. Você é legal demais. Está sendo muito inglesa a esse respeito.

A campainha tocou. Josh ergueu um dedo, como se para me dizer que

continuaríamos aquela conversa mais tarde. Ele desapareceu no corredor

estreito e o ouvi pagando ao entregador enquanto eu terminava de arrumar a

mesinha para comermos.

— E sabe de uma coisa? — disse Josh, levando a comida para a cozinha. —

Mesmo se você não tivesse provas, aposto que Gopnik pagaria uma bela quantia

só para evitar que a coisa toda chegasse aos jornais. Pense no que isso representaria para você. Pelo amor de Deus, há duas semanas você estava dormindo no chão de alguém.

(Eu não contara a ele que havia dividido a cama com Nathan.)

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— Isso poderia garantir dinheiro suficiente para um depósito decente para alugar um apartamento. Se conseguir um advogado realmente bom, poderia até

comprar um apartamento! Sabe quanto dinheiro o Gopnik tem? O cara é

reconhecidamente rico. Em uma cidade de pessoas muito ricas.

— Josh, sei que sua intenção é boa, mas eu só quero esquecer isso.

— Louisa, você…

— Não.

Apoiei as mãos na mesa.

— Eu não vou processar ninguém.

Ele esperou um minuto, talvez frustrado com a própria inabilidade para me

pressionar mais, então deu de ombros e sorriu.

— Está certo… Bem, hora do jantar! Você não tem alergia a nenhum alimento

específico, tem? Experimenta um pouco do frango. Aqui… você gosta de

berinjela? Eles fazem esse prato de berinjela apimentada que é simplesmente o

melhor.

* * *

Dormi com Josh naquela noite. Não estava bêbada, nem vulnerável, nem

ofegante de desejo por ele. Acho que só queria que a minha vida parecesse normal de novo. E havíamos comido, bebido, conversado e rido até tarde da noite. Então, ele fechara as cortinas, diminuíra as luzes, e o que se seguiu pareceu uma progressão natural da noite, ou pelo menos eu não consegui

pensar em qualquer razão para que não fosse daquele jeito. Josh era muito lindo. Tinha uma pele imaculada e malares que realmente chamavam atenção.

Seu cabelo era sedoso, castanho com alguns mínimos toques de dourado,

mesmo depois do longo inverno. Nos beijamos no sofá, primeiro delicadamente

e então o ardor foi se intensificando. Ele tirou a blusa, eu tirei a minha e me forcei a me concentrar naquele homem lindo e atencioso, naquele príncipe de Nova York, e não em todas as coisas aleatórias em que minha mente tendia a se

perder. Fui sentindo meu desejo crescer como um amigo distante que viera me

tranquilizar, até eu ser capaz de bloquear qualquer coisa que não fossem as sensações do corpo dele contra o meu e, então, algum tempo depois, dele dentro

de mim.

Quando tudo acabou, ele me beijou com ternura e me perguntou se eu estava

feliz, então, murmurou que precisava dormir um pouco. Fiquei deitada ao seu lado, e tentei ignorar as lágrimas que inexplicavelmente escorriam do canto dos

meus olhos para os meus ouvidos.

O que Will me dissera? Você precisa aproveitar o dia. Precisa abraçar as oportunidades quando elas aparecem. Tem que ser o tipo de pessoa que diz sim.

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Se eu tivesse dispensado Josh, não teria me arrependido para sempre?

Eu me virei silenciosamente naquela cama desconhecida e examinei o perfil

dele enquanto dormia, o nariz reto perfeito e a boca que parecia a de Will.

Pensei em todos os motivos pelos quais Will o teria aprovado. Conseguia até mesmo imaginá-los juntos, rindo, competindo para ver quem contava a melhor

piada. Os dois poderiam até ter sido amigos. Ou inimigos. Eram quase parecidos

demais.

Talvez eu estivesse destinada a ficar com esse homem, pensei, ainda que por

um caminho tortuoso e perturbador. Talvez esse homem ao meu lado fosse Will,

de volta para mim. E com esse pensamento, fechei os olhos e caí em um sono breve e inquieto.

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24

Para: KatClark1@yahoo.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Cara Treen,

Sei que você acha que é cedo demais. Mas o que Will me ensinou? Só vivemos uma vez, certo? Você está feliz com Eddie? Então por que não posso ser feliz? Vai entender quando conhecê-lo, eu prometo.

Para você ver que tipo de homem o Josh é: ontem, ele me levou à melhor livraria do Brooklyn e comprou um monte de livros que achou que eu podia gostar. Depois, me levou para almoçar em um restaurante mexicano elegante na 46 East e me fez experimentar tacos de peixe — não faça careta, estavam absolutamente deliciosos. Depois, ele me disse que queria me mostrar uma coisa (não, não era isso). Caminhamos até o Grand Central Terminal, cheio como sempre, e eu estava pensando “Tudo bem, é meio esquisito… vamos viajar?”, então, ele me disse para ficar parada com a cabeça encostada a uma diagonal do arco que fica bem ao lado do Oyster Bar. Eu ri. Achei que estava brincando. Mas Josh insistiu, me disse para confiar nele.

Assim, lá estava eu, parada, com a cabeça na diagonal do enorme arco de mármore, com todas aquelas pessoas indo e vindo ao meu redor, tentando não me sentir uma completa idiota, e quando olho na direção de Josh, vejo que ele está se afastando de onde estou. Mas logo para diagonalmente a mim, talvez a uns quinze metros de distância, cola o próprio rosto em outra diagonal do arco e, de repente, acima de todo o barulho, do caos e do chacoalhar dos trens, escuto — murmurado em meu ouvido, como se Josh estivesse bem ao meu lado — “Louisa Clark, você é a garota mais fofa de toda Nova York”.

Treen, parecia bruxaria. Ergui os olhos, ele se virou e sorriu. Eu não faço ideia de como fez aquilo, mas Josh atravessou novamente até onde eu estava, me tomou nos braços e me beijou na frente de todo mundo. Alguém assoviou para nós e sinceramente foi a coisa mais romântica que já aconteceu comigo.

Então, sim, estou seguindo em frente. E Josh é incrível. Seria muito legal se você pudesse ficar feliz por mim.

Dê um beijo grande em Thom.

Bjs,

L

* * *

As semanas passaram e Nova York, como a maioria das coisas, mergulhou de cabeça na primavera, a milhões de quilômetros por hora, com pouca sutileza e

muito barulho. O trânsito ficou mais pesado, as ruas, mais cheias de gente, e a

cada dia a área ao redor do nosso quarteirão se tornava uma cacofonia de barulho e agitação que pouco diminuía até altas horas. Parei de usar chapéu e

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luvas nos protestos da biblioteca. O casaquinho acolchoado de Dean Martin foi

lavado e guardado no armário. O parque ficou verde. Ninguém sugeriu que eu

me mudasse.

Margot, em vez de me pagar qualquer tipo de salário de ajudante, me enchia

com tantas roupas que tive que parar de admirar as peças na sua frente, porque

fiquei com medo de que ela se sentisse obrigada a me dar mais. Ao longo das semanas, percebi que Margot podia até compartilhar o mesmo endereço que os Gopnik, mas os pontos comuns entre eles terminavam aí. Ela sobrevivia, como

diria a minha mãe, com um orçamento apertado.

— Entre as despesas médicas e o pagamento do condomínio, não sei onde

acham que vou conseguir dinheiro para me alimentar — comentou ela, quando

entreguei outra carta escrita à mão, mandada pela administradora do prédio.

No envelope, lia-se “ABRA — MEDIDAS JUDICIAIS IMINENTES”. Margot

torceu o nariz e colocou a carta com todo o cuidado sobre uma pilha na mesa

lateral, onde permaneceria pelas próximas semanas, a menos que eu a abrisse.

Margot resmungava com frequência a respeito do valor das taxas de

condomínio, que totalizavam milhares de dólares por mês, e parecia ter

chegado a um ponto em que decidira ignorar o pagamento, porque não havia mais nada que pudesse fazer.

Um dia ela me disse que havia herdado o apartamento do avô, que fora uma

espécie de aventureiro do seu tempo, a única pessoa em toda a família dela que

não acreditava que uma mulher deveria restringir seus objetivos a marido e filhos.

— Meu pai ficou furioso por ter sido posto de lado e não falou comigo por anos. Minha mãe tentou intermediar um acordo, mas na época havia as… outras

questões.

Ela suspirou.

Margot fazia compras em uma loja de conveniência próxima, um

supermercado minúsculo que praticava preços para turistas, porque era um dos

poucos lugares até onde ela conseguia caminhar. Pus um fim nisso e, duas vezes

por semana, eu ia até um supermercado Fairway na 86 East onde comprava o

básico por cerca de um terço do que ela vinha gastando até então.

Se eu não cozinhasse, ela não comia quase nada saudável, mas comprava

bons cortes de carne para Dean Martin, ou o mimava com peixe branco no leite

“porque é bom para a digestão dele”.

Acho que Margot havia se acostumado a minha companhia. Além disso, ela

estava tão frágil que nós duas sabíamos que não conseguiria mais se virar sozinha. Eu me perguntava quanto tempo alguém da idade dela levava para se

recuperar do choque de uma cirurgia. Também me perguntava o que ela teria

feito se eu não estivesse lá.

— O que você vai fazer? — perguntei, indicando a pilha de contas.

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— Ah, vou ignorá-las.

Ela acenou com a mão, descartando o assunto.

— Vou sair desse apartamento dentro de uma caixa. Não tenho para onde ir,

nem ninguém para quem deixar esse lugar, e aquele bandido do Ovitz sabe disso. Acho que ele está apenas esperando pacientemente até eu morrer. Aí ele

vai reivindicar a posse do apartamento sob a cláusula do não pagamento do condomínio e fazer uma fortuna vendendo o imóvel para algum executivo da internet, ou para algum CEO horrível, como aquele tonto do outro lado do corredor.

— Será que posso ajudar? Tenho algumas economias do tempo que passei

com os Gopnik. Não sei, talvez só para você conseguir pagar as contas de alguns

meses. Você tem sido tão boa para mim.

Ela assoviou.

— Menina querida. Você não conseguiria pagar o condomínio do meu

banheiro de hóspedes.

Por alguma razão, isso a fez rir com tanto gosto que ela tossiu até ter que se

sentar. Mas dei uma olhada na carta depois que Margot foi se deitar. As “multas

por atraso de pagamento,” as “violações diretas aos termos do contrato” e a

“ameaça de despejo” me fizeram pensar que o Sr. Ovitz talvez não seria tão caridoso — ou tão paciente — quanto ela pensava.

* * *

Eu ainda caminhava com Dean Martin quatro vezes por dia e, durante esses passeios até o parque, tentava pensar no que poderia ser feito por Margot. A possibilidade de ela ser despejada era terrível. Com certeza a administradora do

prédio não faria uma coisa dessas com uma idosa convalescente. Com certeza os

outros moradores se oporiam. Então me lembrei da rapidez com que o Sr.

Gopnik me despejara, e de como os moradores de cada apartamento do prédio

eram isolados uns dos outros. Eu não tinha certeza de que eles ao menos perceberiam se Margot fosse despejada.

Estava parada na Sexta Avenida dando uma olhada na liquidação de uma loja

de lingeries quando tive a ideia. As garotas da loja talvez não tivessem nada Chanel ou Yves St Laurent à venda, mas venderiam se conseguissem pôr as mãos em alguma peça desses estilistas — ou saberiam de algum outro lugar que

pudesse vender. Margot tinha incontáveis etiquetas de estilistas famosos em sua coleção, coisas pelas quais eu tinha certeza de que colecionadores pagariam

um bom dinheiro. Ela tinha algumas bolsas que, sozinhas, deveriam valer

milhares de dólares.

Levei Margot para encontrar as meninas com a desculpa de sairmos um

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pouco. Disse a ela que o dia estava lindo e que deveríamos ir um pouco mais longe do que costumávamos, para que o ar puro a deixasse mais forte. Margot

me falou para deixar de ser ridícula, que ninguém respirava ar puro em Manhattan desde 1937, mas entrou no táxi sem reclamar muito e, com Dean Martin acomodado no colo dela, seguimos até o East Village, onde ela franziu o

cenho ao ver a fachada de concreto da loja, como se alguém houvesse lhe pedido

para entrar em um matadouro por diversão.

— O que você fez com seus braços?

Margot parou no caixa e examinou a pele de Lydia, que estava usando uma

blusa verde-esmeralda de mangas bufantes, deixando à mostra as tatuagens de carpas japonesas que tinha no braço, uma laranja, uma cor de jade e outra azul.

— Ah, minhas tatuagens. Gostou delas?

Lydia passou o cigarro para a outra mão e levantou o braço na direção da luz.

— Só se eu quisesse parecer um marinheiro.

Guiei Margot para uma parte diferente da loja.

— Aqui, Margot. Veja, elas separam as peças por setores. Se você tem roupas

dos anos sessenta, elas ficam aqui, e lá estão as dos anos cinquenta. É um pouco

como o seu apartamento.

— Não se parece nada com o meu apartamento.

— Só quis dizer que elas trabalham com roupas como as suas. É um negócio

muito bem-sucedido atualmente.

Margot puxou a manga de uma blusa de náilon, então espiou a etiqueta por

cima da armação dos óculos.

— Amy Armistead é péssima. Nunca suportei aquela mulher. Nem a Les

Grandes Folies. Os botões sempre caem. Linha de má qualidade.

— Há alguns vestidos realmente especiais ali atrás, protegidos por plástico.

Fui até a seção de vestidos de gala, onde estavam expostas as melhores peças

femininas. Peguei um vestido turquesa, da Saks Fifth Avenue, enfeitado com lantejoulas e contas na bainha e nos punhos, e encostei-o no corpo, sorrindo.

Margot examinou o vestido, então virou a etiqueta de preço. E fez uma careta

ao ver o valor.

— Quem pagaria isso?

— As pessoas amam boas roupas — disse Lydia, que havia aparecido atrás

de nós.

Ela mastigava ruidosamente um chiclete e vi os olhos de Margot

estremecerem um pouco cada vez que os maxilares de Lydia se encontravam.

— Há mesmo mercado para elas?

— Um bom mercado — afirmei. — Especialmente para peças em condições

imaculadas como as suas. Todas as roupas de Margot são protegidas por

plásticos, no ar-condicionado. Ela tem peças até dos anos quarenta.

— Essas não são minhas. São da minha mãe — disse Margot, em um tom

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sério.

— É mesmo? O que a senhora tem? — perguntou Lydia, examinando de alto

a baixo o casaco que Margot usava, sem a menor discrição.

Era um Jaeger de lã, em comprimento três-quartos, junto com um chapéu de

pele negro, no formato de um grande bolo Rainha Vitória. Embora o clima estivesse quase ameno, ela ainda parecia sentir frio.

— O que eu tenho? Nada que eu queira mandar para cá, obrigada.

— Mas, Margot, você tem algumas roupas ótimas… Chanel e Givenchy que já

não lhe servem. E você tem echarpes, bolsas… poderia vendê-las para

revendedores especializados. Até para casas de leilão.

— Chanel vale muito dinheiro — comentou Lydia, pensativa. —

Principalmente as bolsas. Se não estiver muito surrada, uma Chanel com aba dupla em bom estado, em couro caviar, pode chegar de dois mil e quinhentos dólares a quatro mil. Uma nova não vai lhe custar muito mais, entende o que estou dizendo? Se for de couro de cobra, então, nossa, o céu é limite.

— Você tem mais de uma bolsa Chanel, Margot — lembrei.

Ela prendeu a bolsa Hermès de couro de crocodilo com mais força embaixo

do braço.

— Tem outras como essa? Podemos vendê-la para a senhora. Temos uma

lista de espera para coisas boas. Há uma senhora em Asbury Park que pagará cinco mil dólares por uma Hermès decente.

Lydia estendeu a mão para correr o dedo pela lateral da bolsa de Margot, que

se afastou como se estivesse sendo assaltada.

— Não são coisas — disse ela. — Não tenho “coisas”.

— Só acho que vale a pena considerar a ideia. Parece haver uma boa

quantidade de peças que você já não usa. Poderia vendê-las, pagar o

condomínio, e então poderia, sabe como é, relaxar.

— Estou relaxada — retrucou ela, irritada. — E agradeço se você não discutir

minhas questões financeiras em público, como se eu nem estivesse presente.

Ah, não gosto desse lugar. Cheira a gente velha. Vamos, Dean Martin. Preciso de

um pouco de ar puro.

Eu a segui para fora da loja, murmurando um pedido de desculpas silencioso

para Lydia, que deu de ombros, despreocupada. Eu desconfiava que mesmo a mais remota possibilidade de ter acesso ao guarda-roupa de Margot havia

suavizado a sua tendência natural a ser combativa.

Pegamos um táxi de volta para casa em silêncio. Estava aborrecida comigo mesma pela minha falta de diplomacia e, ao mesmo tempo, irritada com Margot

por sua rejeição imediata ao que eu considerava um plano muito sensato. Ela se

recusou a olhar para mim durante todo o caminho até em casa. Fiquei sentada

ao seu lado, Dean Martin arfando entre nós, e ensaiei argumentos na minha cabeça até o silêncio se tornar enervante. Olhando de esguelha, deparei com fevereiro/2018

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uma idosa que acabara de sair do hospital. Eu não tinha o direito de pressioná-

la a fazer nada.

— Não tive a intenção de aborrecê-la, Margot — falei, enquanto a ajudava a

descer do carro, diante do prédio. — Só achei que talvez pudesse ser um caminho. Você sabe, com as dívidas e tudo o mais. Só não quero que você perca

a sua casa.

Margot endireitou o corpo e ajustou o chapéu de pele com a mão frágil. A voz

com que falou era queixosa, quase chorosa, e percebi que ela também estivera

ensaiando uma conversa na cabeça por todos os cerca de cinquenta quarteirões

pelos quais passamos.

— Você não compreende, Louisa. Aquelas são as minhas coisas, meus bebês.

Para você, podem ser roupas velhas, ativos financeiros em potencial, mas para

mim são preciosas. São a minha história, os restos lindos e amados da minha vida.

— Desculpe.

— Eu não as mandaria para aquela loja suja de segunda mão mesmo se

estivesse de joelhos. E a possibilidade de ver uma completa estranha andando na minha direção na rua com uma roupa que eu amei?! Eu me sentiria

miserável. Não. Sei que você estava tentando ajudar, mas não.

Ela se virou, afastou a minha mão esticada e preferiu esperar que Ashok a ajudasse a chegar ao elevador.

* * *

Apesar de nossos ocasionais desentendimentos, Margot e eu passamos a

primavera bem contentes. Em abril, como prometido, Lily veio para Nova York,

acompanhada pela Sra. Traynor. Elas ficaram no Ritz Carlton, a poucas quadras

de distância, e convidaram Margot e eu para almoçar. Vê-las ali, juntas, me deu a

sensação de ver partes diferentes da minha vida sendo silenciosamente

costuradas uma à outra.

A Sra. Traynor, com suas boas maneiras de diplomata, ficou encantada com

Margot, e elas encontraram um gosto em comum ao conversarem sobre a

história do prédio e sobre Nova York de um modo geral. Durante o almoço, conheci outra Margot: de raciocínio rápido, articulada, renovada pela nova companhia. A Sra. Traynor, como descobrimos durante o almoço, passara a lua

de mel em Nova York, em 1978, e elas conversaram sobre restaurantes, galerias

e exibições de arte que ocorreram na época. A Sra. Traynor contou sobre seu tempo como magistrada, e Margot discutiu as políticas de Estado dos anos setenta. As duas riram com gosto, de um modo que sugeria que nós, mais jovens, jamais conseguiríamos compreender. Comemos saladas e uma pequena

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porção de peixe envolvido em prosciutto. Percebi que Margot provou apenas uma minúscula porção de cada prato, deixando o resto de lado, e

silenciosamente perdi a esperança de vê-la voltar a preencher as roupas que usava.

Nesse meio-tempo, Lily se inclinou na minha direção e me perguntou aonde

poderia ir que não envolvesse gente velha ou qualquer tipo de aprimoramento

cultural.

— Vovó encheu esses quatro dias inteiros com bobagens educativas. Tive

que ir ao Museu de Arte Moderna e a jardins botânicos de todos os tipos, o que é

ótimo, e blá-blá-blá se você gosta dessas coisas todas, mas quero muito ir a alguma boate, me acabar, fazer compras. Pelo amor de Deus, estou em Nova York!

— Já falei com a Sra. Traynor. E vou sair com você amanhã, enquanto ela visita uma prima.

— Jura? Graças a Deus. Eu te contei que vou mochilar no Vietnã nas férias mais longas? Quero comprar alguns shorts decentes. Alguma coisa que eu possa

usar por semanas sem me preocupar em lavar. E talvez uma jaqueta usada de

motociclista. Boa e surrada.

— Quem vai com você? Alguma amiga?

Ergui uma sobrancelha.

— Você está parecendo a vovó.

— E?

— Meu namorado.

Ao me ver boquiaberta, ela acrescentou:

— Mas não quero contar nada sobre ele.

— Por quê? Estou tão feliz por você estar namorando. É uma ótima notícia.

— Abaixei a voz. — Você sabe que a última pessoa misteriosa assim foi a minha

irmã. E ela basicamente estava escondendo o fato de que estava saindo do armário.

— Eca! Não estou saindo do armário. Não quero tentar abrir caminho na

vagina de ninguém.

Tentei não rir.

— Lily, não precisa ser tão reservada. Todos nós só queremos que você seja

feliz. Não tem nada de mais as pessoas saberem sobre os seus assuntos.

— A vovó sabe sobre os meus assuntos, como você diz.

— Então por que não me conta? Achei que nós duas poderíamos contar

qualquer coisa uma à outra!

A expressão de Lily agora era de quem tinha sido encurralada. Ela suspirou

de um jeito teatral e apoiou a faca e o garfo. Então, me olhou como se estivesse

preparada para brigar.

— Porque é o Jake.

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— Jake?

— O Jake do Sam.

O movimento do restaurante pareceu ficar suspenso ao meu redor. Forcei

um sorriso.

— Muito bem!… Uau!

Ela fechou a cara.

— Eu sabia que você reagiria assim. Escute, simplesmente aconteceu. E não

ficamos falando sobre você o tempo todo, nem nada parecido. Só esbarrei nele

umas duas vezes… você sabe, nós nos conhecemos naquele negócio de Seguindo em Frente para aquele grupo horroroso de terapia de luto e nos demos bem, gostamos um do outro, entendeu? A gente meio que compreendeu a situação um do outro e vamos mochilar juntos no verão, só isso. Nada de mais.

Eu estava zonza.

— A Sra. Traynor o conheceu?

— Sim. Ele foi lá em casa e eu fui à dele.

Ela pareceu quase na defensiva.

— Então você vê muito…

— O pai dele. Quer dizer, vejo o Sam da ambulância, sim, mas na maior parte

das vezes vejo o pai do Jake. Que é legal, mas ainda está bem deprimido e come

cerca de uma tonelada de bolo por semana, o que está estressando muito Jake.

Em parte, é por isso que ele quer dar um tempo de tudo. Só por umas seis semanas mais ou menos.

Ela continuou falando, mas um zumbido que começara no fundo da minha

mente não me deixava registrar o que estava dizendo. Eu não queria saber de

Sam, nem indiretamente. Não queria saber de pessoas que eu amava brincando

de Família Feliz sem mim, enquanto eu estava a milhares de quilômetros. Não

queria saber da felicidade de Sam ou de Katie com sua boca sexy, ou de como

eles com certeza estavam morando juntos na casa dele, em um recém-

construído ninho de paixão e de uniformes iguais entrelaçados.

— Então, como vai seu namorado novo? — perguntou Lily.

— Josh? Josh! Ele é incrível. Simplesmente incrível.

Deixei a faca e o garfo com cuidado ao lado do prato.

— Um sonho.

— Então, o que está acontecendo? Preciso ver fotos de você com ele. É muito

irritante que você não poste nenhuma foto no Facebook. Não tem retratos dele

no seu celular?

— Não — respondi.

E torci o nariz, como se aquela fosse uma resposta totalmente inadequada.

Eu não estava dizendo a verdade. Tinha uma foto de nós dois em um

restaurante pop-up no terraço, tirada na semana anterior. Mas eu não queria que Lily soubesse que Josh era a cara do pai dela. Isso a desestabilizaria, ou pior, fevereiro/2018

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vê-la comentar a semelhança me desestabilizaria.

— Então, quando vamos embora dessa sala de espera de funeral? Com

certeza podemos deixar as velhas terminando o almoço sozinhas. — Lily me cutucou. As duas mulheres ainda estavam conversando. — Eu contei que venho

perturbando imensamente o vovô falando do namorado imaginário

maravilhoso da vovó? Disse a ele que os dois iam passar férias nas Maldivas e

que a vovó tinha ido na Rigby and Peller para comprar um estoque de lingerie

nova. Juro que ele está prestes a entregar os pontos e declarar que ainda ama a

vovó. Estou quase morrendo de rir.

* * *

Por mais que eu adorasse Lily, fiquei grata pelo fato de a agenda de

aprimoramento cultural da Sra. Traynor ser bem cheia. Por causa dela, ao longo

dos dias que se seguiram, a não ser pela nossa saída para compras, tivemos pouco tempo juntas. A presença de Lily na cidade — com seu conhecimento íntimo sobre a vida de Sam — havia criado uma vibração no ar que eu não sabia

como dissipar. Também me sentia grata por Josh estar cheio de trabalho e nem

sequer perceber se eu estava abatida ou distraída. Mas Margot percebeu, e certa

noite, quando seu amado Roda da Fortuna havia terminado e eu estava me levantando para levar Dean Martin para seu último passeio do dia, ela me perguntou diretamente qual era o problema.

Contei a ela. Não consegui pensar em qualquer razão para não contar.

— Você ainda ama o outro — declarou Margot.

— Você parece a minha irmã falando — retruquei. — Não amo. É só… é só que o amei muito quando o amava. E o fim foi tão horrível que achei que estar

aqui, levando uma vida diferente, me resguardaria disso. Não uso mais mídias

sociais. Não quero saber o que ninguém está fazendo. E ainda assim, de algum

modo, informações sobre o seu ex sempre acabam dando um jeito de encontrar

você. E é como se eu não conseguisse me concentrar enquanto Lily está aqui, porque agora ela faz parte da vida dele.

— Talvez você devesse simplesmente entrar em contato com ele, meu bem.

Parece que ainda tem coisas a dizer.

— Não tenho nada a dizer a Sam — falei. Meu tom ficou mais inflamado. —

Eu tentei tanto, Margot. Escrevi para ele, mandei e-mails, liguei. Acredita que ele não me escreveu nem uma carta? Em três meses? Pedi para ele escrever, porque

achei que seria um modo bonitinho de mantermos contato, e poderíamos

aprender coisas um sobre o outro e esperar ansiosos para nos falarmos.

Também teríamos algo para nos lembrar do tempo que passamos separados.

Mas ele simplesmente… não escreveu.

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Margot ficou sentada, me observando, as mãos envolvendo o controle

remoto.

Endireitei os ombros.

— Mas está tudo bem. Porque virei a página. E Josh é simplesmente

maravilhoso. Quer dizer, ele é lindo, é gentil, tem aquele emprego incrível, é ambicioso… nossa, ele é tão ambicioso. É um cara que vai longe, sabe? E deseja coisas… casas, carreira e fazer a parte dele para retribuir o que consegue. Ele quer retribuir! E ainda nem conseguiu tanta coisa assim para retribuir! — Eu me sentei. Dean Martin ficou parado na minha frente, confuso. — E Josh deixa

bem claro que quer ficar comigo. Não tem “se” ou “mas”. Ele literalmente me chamou de namorada no primeiro encontro. E já ouvi falar que os caras nessa

cidade só querem encontros de uma noite. Tem ideia de como isso me faz sentir

sortuda?

Margot assentiu ligeiramente com a cabeça.

Voltei a me levantar.

— Então, para ser sincera, eu não dou a mínima para Sam. Quer dizer, nós mal nos conhecíamos quando vim para cá. Desconfio que se não fosse pelo fato

de nós dois termos precisado de atendimento médico de urgência, talvez nem

tivéssemos ficado juntos. Na verdade, tenho certeza disso. E também tenho certeza de que eu não era a pessoa certa para Sam, ou ele teria esperado, não é

mesmo? Porque é isso que as pessoas fazem. Portanto, no fim das contas, está

tudo ótimo. E estou mesmo muito feliz com o rumo que as coisas tomaram. Está

tudo ótimo. Tudo ótimo.

Houve um breve momento de silêncio.

— Estou vendo — disse Margot, baixinho.

— Estou realmente feliz.

— Dá para perceber, meu bem. — Ela me observou por um momento, então

apoiou as mãos nos braços da poltrona. — Agora, talvez você pudesse levar esse

pobre cachorro para passear. Os olhos dele estão começando a saltar das órbitas.

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25

Levei duas noites para localizar o neto de Margot. Josh estava ocupado com o trabalho e Margot ia para a cama às nove, na maior parte dos dias, assim, certa

noite, me sentei no chão perto da porta da frente — o único lugar em que eu conseguia surrupiar o sinal de WiFi dos Gopnik — e comecei a procurar o filho

dela no Google. Primeiro, digitei o nome Frank De Witt e, quando nada

relacionado apareceu, passei para Frank Aldridge Junior. Nenhum resultado

poderia ser ele, a menos que houvesse se mudado para outra parte do país, mas, mesmo assim, as datas e nacionalidades de todos os homens que apareceram com aquele nome estavam erradas. Na segunda noite, por impulso, procurei o

nome de casada de Margot em alguns documentos antigos que estavam na

cômoda no meu quarto. Encontrei um cartão avisando do funeral de Terrence

Weber, então tentei Frank Weber e descobri, com certa tristeza, que ela dera ao

filho o sobrenome do marido querido, que morrera anos antes de o menino nascer. E que algum tempo depois, Margot voltara a usar o sobrenome de solteira — De Witt — e se reinventara completamente.

Frank Weber Junior era dentista e morava em um lugar chamado Tuckahoe,

em Westchester. Encontrei duas referências a ele no LinkedIn e também no Facebook, através da esposa dele, Laynie. A grande novidade era que eles tinham um filho, Vincent, que era um pouco mais novo do que eu. Vincent trabalhava em Yonkers, em um centro educacional sem fins lucrativos para crianças carentes, e foi ele que me fez tomar a decisão. Frank Weber Junior talvez estivesse zangado demais com a mãe para reconstruir o relacionamento,

mas que mal poderia haver em tentar com Vincent? Encontrei o perfil dele, respirei fundo, mandei uma mensagem e aguardei.

* * *

Josh teve uma folga de sua interminável roda-viva de trabalho e almoçou comigo no bar de noodles, para anunciar que haveria um “dia da família” na empresa dele no sábado seguinte, e que ele gostaria que eu o acompanhasse.

— Eu estava planejando ir ao protesto na biblioteca.

— Você não quer continuar fazendo isso, Louisa. Não vai adiantar nada ficar

lá parada com um monte de pessoas gritando para os carros que passam.

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— E não sou exatamente da sua família — falei, um pouco irritada.

— Mas é perto disso. Vamos lá! Vai ser um dia ótimo. Você já esteve em uma

casa-barco? É linda. Minha empresa realmente sabe como organizar uma festa.

Você ainda está dedicada àquele seu projeto de “dizer sim”, certo? Então precisa

dizer sim. — Ele me lançou um olhar de cachorrinho sem dono. — Diz que sim, Louisa, por favor. Vamos.

Ele me pegara, e sabia disso.

Dei um sorriso resignado.

— Ok. Eu vou.

— Ótimo! No ano passado, ao que parece, havia macacões infláveis imitando

lutadores de sumô e as pessoas lutaram na grama. Teve também corridas de família e jogos organizados. Você vai amar.

— Parece incrível — falei.

As palavras “jogos organizados” me atraíam tanto quanto “exame

ginecológico”. Mas era Josh, e ele ficou tão feliz com a perspectiva de eu acompanhá-lo que não tive coragem de dizer não.

— Prometo que não vai ter que lutar na grama com meus colegas de

trabalho. Mas talvez tenha que lutar comigo, depois que tudo acabar — brincou.

Então me beijou e foi embora.

* * *

Chequei meu e-mail a semana toda, mas não havia nada a não ser uma

mensagem de Lily, perguntando se eu conhecia algum lugar onde tatuassem

menores de idade; além de um alô simpático de alguém que, pelo visto, havia estudado comigo, mas de quem eu não me lembrava de jeito nenhum; e um e-mail da minha mãe, que me mandou um GIF de um gato obeso, aparentemente

conversando com uma criança de dois anos, e um link para um jogo chamado Farm Fun Fandango.

— Tem certeza de que vai ficar bem sozinha, Margot? — perguntei, enquanto

pegava minhas chaves e as guardava na bolsa.

Eu estava usando um macacão branco com galões de lamê dourado e justo

que ela me dera, do início dos anos oitenta. Margot bateu palmas.

— Ah, o macacão ficou magnífico. Você deve ter quase exatamente as

mesmas medidas que eu na sua idade. Eu tinha bastante busto, sabe?!

Totalmente fora de moda nos anos sessenta e setenta, mas agora é ótimo para

você.

Não quis comentar que estava sendo necessário um grande esforço para que

eu não arrebentasse todas as costuras, mas Margot estava certa, eu perdera alguns quilos depois que me mudara para aquela casa, principalmente por

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causa dos esforços para preparar comidas mais saudáveis para ela. E como me

sentia muito bem com o macacão, girei para que ela apreciasse melhor.

— Já tomou seus comprimidos?

— É claro que sim. Não se preocupe, meu bem. Está querendo dizer que não

vai dormir em casa?

— Não tenho certeza. Mas vou levar Dean Martin para um passeio rápido

antes de sair. Só para garantir.

Parei, com a mão já estendida para a guia do cachorro.

— Margot? Por que você o batizou de Dean Martin? Nunca perguntei.

O tom da resposta dela deixou claro que fora uma pergunta idiota.

— Porque Dean Martin foi o homem mais lindo de todos, e ele é o cachorro

mais lindo de todos, é claro.

O cachorrinho estava sentado obedientemente, os olhos saltados e estrábicos

se revirando com a língua para fora.

— Tolice a minha perguntar — falei, e saí pela porta da frente.

* * *

— Nossa, olhe só para você!

Ashok assoviou enquanto Dean Martin e eu descíamos correndo o último

lance de escadas até o térreo.

— Uma diva Disco!

— Gostou? — perguntei, fazendo um giro de dança para ele. — Era da

Margot.

— É mesmo? Aquela mulher é cheia de surpresas.

— Pode ficar de olho nela? Estava bem frágil hoje.

— Deixe alguma correspondência aqui, para que eu tenha uma desculpa para

bater na porta dela às seis da manhã.

— Você é maravilhoso.

Corremos até o parque e Dean Martin fez o que os cães fazem — e eu fiz o

que se faz com um saquinho e certa quantidade de estremecimentos de nojo, e

vários passantes olharam do modo como se olha quando uma garota em um

macacão enfeitado com lamê dourado passa correndo com um cachorro

animado e um saquinho com cocô. Enquanto corríamos de volta para casa, Dean

Martin latindo feliz nos meus calcanhares, esbarramos com Josh no saguão do

prédio.

— Ah, oi! — falei, e dei um beijo nele. — Volto em dois minutos, está bem? Só

tenho que lavar as mãos e pegar a minha bolsa.

— Pegar a sua bolsa?

— Sim! — Eu o encarei. — Ah. Uma clutch. É assim que chamamos.

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— Quero dizer… você não vai se trocar?

Olhei para o macacão.

— Já estou pronta.

— Meu amor, se você usar isso com o pessoal do escritório, eles vão achar que você é a animadora da festa.

Levei um instante para perceber que ele não estava brincando.

— Você não gostou?

— Ah. Não é isso. Você está ótima. É só que a roupa é um pouco… é meio drag

queen demais. É um escritório cheio de caras de ternos. Tipo assim, as outras esposas e namoradas vão estar com vestidos retos ou calças brancas. Um

estilo… casual chique.

— Ah. — Tentei não me sentir desapontada. — Desculpe. Realmente não

entendo os códigos de vestimenta dos Estados Unidos. Está bem. Está bem.

Volto logo.

Subi dois degraus de cada vez e entrei correndo no apartamento. Joguei a guia de Dean Martin para Margot, que se levantara da cadeira para fazer alguma

coisa. Ela me seguiu pelo corredor, o braço fino apoiado na parede.

— Por que essa pressa toda? Você parece uma manada de elefantes

adentrando o apartamento.

— Tenho que me trocar.

— Se trocar? Por quê?

— Não estou com a roupa adequada, ao que parece.

Examinei meu guarda-roupa. Vestidos retos? O único que eu tinha era um

com estampa psicodélica que Sam me dera e parecia meio desleal usá-lo.

— Achei que você estava muito bem — declarou Margot, com determinação.

Josh apareceu na porta da frente; ele subira atrás de mim.

— Ah, ela está. Está fantástica. Eu só… só quero que falem dela pelos motivos

certos.

Ele riu. Margot não o acompanhou.

Revirei meu guarda-roupa, jogando coisas na cama, até encontrar um blazer

azul-marinho estilo Gucci, e um vestido-camiseta de seda, listrado. Passei o vestido pela cabeça e enfiei os pés em meus sapatos-boneca verdes.

— E agora? — perguntei, enquanto corria para o corredor, tentando alisar o

cabelo.

— Ótimo! — disse Josh, sem esconder o alívio. — Muito bem. Vamos.

— Vou deixar a porta destrancada, meu bem.

Ouvi Margot resmungar, enquanto eu ia correndo atrás de Josh, que já saía do apartamento.

— Só para o caso de você querer voltar.

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* * *

O Loeb Boathouse era um lugar lindo, protegido por sua posição do barulho e

do caos fora do Central Park, as janelas amplas garantindo uma visão

panorâmica do lago que cintilava sob o sol do fim de tarde. O restaurante estava

cheio de homens elegantemente vestidos em calças cáqui idênticas, mulheres com o cabelo arrumado por profissionais e, como Josh previra, vestidas em um

mar de tons pastel e calças brancas.

Peguei uma taça de champanhe de uma bandeja oferecida por um garçom e

observei calmamente enquanto Josh percorria o lugar, trocando apertos de mão

com vários homens, todos com a mesma aparência: cabelo curto e bem-cortado,

maxilar quadrado, dentes brancos e certinhos. Tive uma breve lembrança de eventos a que eu acompanhara Agnes: voltara para o meu antigo mundo em Nova York, um mundo distante de lojas de roupas vintage, de macacões

cheirando a naftalina e de café barato em que eu estivera imersa mais

recentemente. Dei um longo gole no champanhe, decidida a aproveitar o

momento.

Josh apareceu ao meu lado.

— Não é pouca coisa, hein?

— A festa está muito linda.

— Melhor do que ficar sentada no apartamento de uma velha a tarde toda, hein?

— Bem, eu não acho que…

— Meu chefe está vindo. Muito bem. Vou apresentar você. Fique comigo.

Mitchell!

Josh levantou o braço e o homem mais velho se aproximou de nós devagar,

ao seu lado uma morena escultural de sorriso estranhamente inexpressivo.

Talvez, quando se tem que ser gentil com todo mundo o tempo inteiro, seja isso

o que acaba acontecendo com o seu rosto.

— Aproveitando a tarde?

— Muito, senhor — disse Josh. — A festa está realmente linda. Posso lhe apresentar minha namorada? Louisa Clark, da Inglaterra. Louisa, esse é Mitchell

Dumont. Ele é chefe de Fusões e Aquisições.

— Inglesa, é?

Senti a mão enorme do homem se fechar sobre a minha e sacudi-la com

determinação.

— Sim. Eu…

— Bom. Bom.

Ele se virou novamente para Josh.

— Então, meu jovem, ouvi dizer que você está se destacando em seu

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departamento.

Josh não conseguiu esconder o prazer em ouvir aquilo e não conteve o

sorriso. Os olhos dele encontraram os meus e se desviaram ligeiramente para a

mulher ao meu lado, e percebi que ele estava esperando que eu conversasse com ela. Ninguém se dera ao trabalho de nos apresentar. Mitchell Dumont passou um braço paternal ao redor dos ombros de Josh e se afastou alguns metros com ele.

— Bem… — falei. Ergui as sobrancelhas e voltei a abaixá-las. A mulher me dirigiu seu sorriso inexpressivo. — Adorei seu vestido — comentei, usando o código de conversa universal para duas mulheres que não têm absolutamente

nada a dizer uma à outra.

— Obrigada. Seus sapatos são lindinhos — disse ela em um tom que deixava

claro que não eram nada lindinhos.

A mulher olhou ao redor, como se tentasse encontrar outra pessoa com

quem conversar. Bastara uma olhada para a minha roupa para que ela se

considerasse muito acima do meu nível salarial.

Como não havia ninguém por perto, tentei de novo.

— Então, você vem muito aqui? No Loeb Boathouse, quero dizer.

— É Loube — corrigiu ela.

— Loube?

— Você pronunciou Lerb. É Loeb, o nome do lugar.

Olhar os lábios dela, perfeitamente maquiados e cheios de um modo que não

parecia muito natural, repetindo a palavra várias vezes me deu vontade de rir.

Dei um gole no meu champanhe para disfarçar.

— Você vir a Lerb Berthouse sempre? — perguntei, sem conseguir me controlar.

— Não — respondeu ela. — Embora uma das minhas amigas tenha se casado

aqui no ano passado. Foi um casamento lindo.

— Aposto que sim. E o que você faz?

— Sou dona de casa.

— Uma dorna de casa. Minha mãer também é dorna de casa. — Dei outro longo gole na minha bebida. — Ser dorna de casa é uma ocupação encantardora.

Olhei para Josh, para sua expressão intensamente concentrada no chefe, e me

lembrei por um instante do rosto de Thom quando implorava ao meu pai para

lhe passar algumas batatas fritas do seu prato.

A expressão da mulher ao meu lado se tornara ligeiramente preocupada. Ao

menos até onde uma mulher incapaz de mexer a testa conseguia expressar

preocupação. Uma risada começara a subir pelo meu peito e implorei a alguma

divindade invisível para que a mantivesse sob controle.

— Maya!

Com uma voz que não escondia o alívio, a Sra. Dumont (ao menos presumi fevereiro/2018

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que fosse com ela que eu vinha conversando) acenou para uma mulher que se

aproximava de nós, o corpo perfeito exibindo elegantemente um vestido reto cor de menta. Esperei enquanto as duas trocavam beijinhos no ar.

— Você está simplesmente maravilhosa.

— Você também. Adoro esse vestido.

— Ah, é tão velho. Você é um amor. E como está aquele seu marido querido?

Sempre falando de negócios.

— Ah, você conhece Mitchell.

A Sra. Dumont claramente não conseguiu ignorar minha presença por mais

tempo.

— Essa é a namorada de Joshua Ryan. Perdão, não ouvi seu nome. Está muito

barulho aqui.

— Louisa — falei.

— Que encanto. Sou Chrissy. Sou a outra metade de Jeffrey. Você conhece Jeffrey, de Marketing e Vendas?

— Ah, todo mundo conhece Jeffrey — disse a Sra. Dumont.

— Ah, Jeffrey… — falei, balançando a cabeça. Então assentindo. Então

balançando de novo.

— E o que você faz?

— O que eu faço?

— Louisa trabalha com moda.

Josh apareceu ao meu lado.

— Você sem dúvida tem uma aparência única. Amo os ingleses, você não,

Mallory? São tão interessantes em suas escolhas.

Houve um breve momento de silêncio, enquanto todos digeriam as minhas

escolhas.

— Louisa vai começar a trabalhar na Women’s Wear Daily.

— É mesmo? — disse Mallory Dumont.

— Vou? — falei. — Sim. Vou.

— Nossa, que incrível. Essa revista é maravilhosa. Preciso encontrar meu marido. Por favor, me deem licença.

Com mais um sorriso inexpressivo, ela se afastou, caminhando sobre seus

saltos vertiginosos, Maya ao seu lado.

— Por que você disse isso? — perguntei, pegando outra taça de champanhe.

— Soa melhor do que toma conta de uma senhora?

— Não. Você… é que você simplesmente parece que poderia trabalhar com

moda.

— Ainda está se sentindo desconfortável com o que estou vestindo?

Olhei de relance para as duas mulheres em seus vestidos complementares. E

tive uma súbita lembrança do modo como Agnes deve ter se sentido em

reuniões como aquela, a miríade sutil de modos que as mulheres encontram fevereiro/2018

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para deixar claro a outras mulheres que elas não se encaixam.

— Você está ótima. Só disse aquilo porque ficaria mais fácil de explicar sua…

sua sensibilidade particular… e única, se achassem que você trabalha com moda. O que você meio que faz.

— Sou perfeitamente feliz fazendo o que eu faço, Josh.

— Mas você quer trabalhar com moda, não quer? Não pode passar o resto da

vida tomando conta de uma velha. Olha, eu ia tocar nesse assunto depois… mas

a minha cunhada, Debbie, conhece uma mulher do Departamento de Marketing

da Women’s Wear Daily, e disse que ia pedir a essa conhecida para descobrir alguma vaga para iniciantes. Minha cunhada parece muito confiante de que vai

conseguir alguma coisa para você. O que acha?

Ele estava sorrindo, animado como se houvesse me presenteado com o Santo

Graal.

Dei um gole na minha bebida.

— Claro.

— Isso aí! Maravilha!

Josh continuou me encarando, as sobrancelhas erguidas.

— Eba! — falei, por fim.

Ele apertou o meu ombro.

— Eu sabia que você ficaria feliz. Muito bem. Vamos voltar para lá. Já vão começar as corridas de família. Quer uma soda limonada? Acho que não

podemos ser vistos tomando mais de uma taça de champanhe. Vamos, me dá isso aqui.

Josh colocou minha taça na bandeja de um garçom que passava e seguimos

em direção ao sol.

* * *

Dada a elegância da ocasião e a natureza espetacular do cenário, eu realmente

deveria ter me divertido nas duas horas seguintes. Afinal, havia dito sim a uma

nova experiência. Mas, na verdade, me sentia cada vez mais deslocada entre os

casais do mundo corporativo. Os ritmos das conversas me confundiam de tal modo que quando eu me aproximava de algum grupo, acabava parecendo muda ou estúpida. Josh ia de uma pessoa a outra como um míssil de negócios guiado,

e a cada parada sua expressão era concentrada e ávida, os modos educados e assertivos. Eu não tinha nada em comum com aquelas mulheres, com seus

braços e pernas cor de pêssego, cintilantes, e os vestidos que não amassavam,

conversando sobre babás difíceis e feriados nas Bahamas. Fui seguindo Josh, repetindo a mentira dele sobre a minha carreira incipiente na moda e sorrindo

silenciosamente, concordando que sim, sim, é muito lindo e obrigada, aah, sim, fevereiro/2018

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adoraria outra taça de champanhe e tentando não perceber a sobrancelha erguida de Josh.

— Está aproveitando o dia?

Uma mulher ruiva de corte chanel, fios tão brilhantes que eram quase

espelhados, ficou parada ao meu lado enquanto Josh ria com gosto de uma piada contada por um homem mais velho usando calça cáqui e camisa azul-clara.

— Ah. Está ótimo. Obrigada.

Àquela altura, eu me tornara muito boa em sorrir e não dizer nada.

— Felicity Lieberman. Trabalho a duas mesas de distância de Josh. Ele está se

saindo muito bem.

Apertei a mão dela.

— Louisa Clark. Ele está mesmo.

Recuei e tomei outro gole da minha bebida.

— Em dois anos Josh se tornará sócio da empresa. Tenho certeza disso.

Vocês dois estão namorando há muito tempo?

— Ah, não muito. Mas nos conhecemos há muito mais tempo.

Ela pareceu esperar que eu falasse mais.

— Bem, antes éramos amigos, de certo modo. — Eu tinha bebido demais, e

acabei falando mais do que pretendera. — Na verdade, eu estava com outra pessoa, mas Josh e eu vivíamos nos esbarrando. Bem, ele diz que estava esperando por mim. Ou esperando até que eu e meu ex terminássemos. Na

verdade, foi bem romântico. Um monte de coisas aconteceu e… Bum! De

repente, estávamos em um relacionamento. Você sabe como são essas coisas.

Continuar: parte 14 de 16