Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
As pessoas têm outras coisas em que pensar. Não sei por que esse comentário inocente causou um nó na minha garganta, mas foi o que aconteceu. Enquanto
eu tentava engolir uma onda súbita de dor, mamãe enfiou a forma cheia de batatas de volta no forno. Fechou a porta com um movimento satisfeito e então
se virou para mim, tirando as luvas térmicas.
— Quase esqueci. Uma coisa esquisita. Seu namorado ligou de manhã para
perguntar o que íamos fazer sobre o seu voo no dia 26 e se nos importávamos
de ele ir buscar você no aeroporto.
Congelei.
— O quê?
Ela levantou a tampa de uma panela, deixou sair bastante vapor e a fechou de
novo.
— Bem, eu disse que ele devia estar enganado, que você já estava aqui. Então
ele falou que apareceria mais tarde. Sinceramente, os plantões devem estar deixando o homem maluco. Ouvi no rádio uma matéria dizendo que trabalhar à
noite pode fazer muito mal para o cérebro. Talvez você deva dizer isso a ele.
— O quê... quando ele vem?
Mamãe olhou para o relógio.
fevereiro/2018
Clube SPA
— Hum... acho que ele disse que ia estar liberado no meio da tarde e que viria
para cá depois. Toda aquela estrada no dia do Natal! Aliás, você conheceu o namorado da Treena? Já notou como ela está se vestindo ultimamente?
Mamãe olhou para trás, para a porta, e falou, com a voz encantada:
— É quase como se ela estivesse virando uma pessoa normal.
* * *
Passei todo o almoço de Natal em alerta máximo, tranquila por fora, mas ficando tensa toda vez que alguém passava por nossa porta. Cada garfada da comida da minha mãe virava pó em minha boca. Cada piada ruim do meu pai passava reto pela minha cabeça. Eu não conseguia comer, não conseguia
escutar, não conseguia sentir. Estava presa em uma redoma de expectativa infeliz. Olhei para Treena, mas ela também parecia preocupada, e me dei conta
de que estava esperando a chegada de Eddie. Quão difícil poderia ser? , pensei, irritada. Pelo menos o namorado dela não a estava traindo. Pelo menos ele queria estar com ela.
Começou a chover, e as gotas batiam com força nas janelas, o céu
escurecendo para combinar com meu humor. Nossa casinha, enfeitada com fios
brilhosos e cartões cheios de glitter, encolheu ao nosso redor, e eu alternava entre a dificuldade de respirar e o pânico do que poderia haver do lado de fora.
De vez em quando, notava o olhar de mamãe se voltar para mim, como se estivesse se perguntando o que estava acontecendo, mas ela não disse nada, e
eu também não.
Ajudei a lavar a louça e conversei — de maneira convincente, em minha
opinião — sobre as alegrias da entrega de compras em Nova York. Finalmente, a
campainha tocou, e minhas pernas viraram geleia.
Mamãe se virou para mim.
— Você está bem, Louisa? Ficou muito pálida.
— Depois eu conto para você, mãe.
Ela me encarou com firmeza, e então sua expressão suavizou.
— Vou estar aqui. — Ela estendeu a mão e colocou uma mecha de cabelo atrás de minha orelha. — O que quer que seja, vou estar aqui.
* * *
Sam estava de pé no degrau da entrada, usando um casaco azul macio que eu não conhecia. Perguntei-me quem teria dado aquele presente a ele. Sam exibiu um meio sorriso, mas não se aproximou para me beijar nem jogou os braços ao
meu redor como em nossos encontros anteriores. Ficamos olhando
fevereiro/2018
Clube SPA
cautelosamente um para o outro.
— Quer entrar?
Minha voz pareceu estranhamente formal.
— Obrigado.
Segui na frente dele pelo corredor estreito, esperei enquanto ele
cumprimentava meus pais pela porta da sala de estar e então o levei até a cozinha, fechando a porta atrás de nós. Eu estava absolutamente ciente de sua
presença, como se nós dois estivéssemos um pouco eletrificados.
— Aceita um chá?
— Claro... bonito suéter.
— Ah... obrigada.
— Você... deixou seu focinho aceso.
— Ah, é.
Desliguei o focinho, sem querer ceder a qualquer coisa que pudesse aliviar o
ânimo entre nós.
Ele se sentou à mesa, o corpo meio que grande demais para as cadeiras da cozinha, os olhos ainda fixos em mim, e estendeu as mãos sobre o tampo, como
alguém à espera de uma entrevista de emprego. Na sala de estar, ouvi papai rindo de algum filme e a voz aguda de Thom querendo saber qual era a graça.
Tratei de me ocupar preparando o chá, mas senti os olhos dele em minhas costas o tempo todo.
— Então — disse Sam quando entreguei a caneca a ele e me sentei —, você
está aqui.
Quase baixei a guarda nesse momento. Olhei para o rosto lindo dele do outro lado da mesa, para os ombros largos, as mãos envolvendo a caneca, e pensei: não vou suportar se ele me deixar.
Mas então me vi de novo parada no frio, na frente da casa dele, os dedos magros dela no pescoço dele, meus pés gélidos nos sapatos molhados, e esfriei
de novo.
— Voltei dois dias atrás — falei.
Uma pausa muito breve.
— Está bem.
— Pensei em fazer uma surpresa para você. Na quinta à noite. — Raspei uma
mancha na toalha de mesa. — Acontece que quem foi surpreendida fui eu.
Vi a compreensão tomando conta do rosto dele: a testa ligeiramente franzida,
os olhos se distanciando, e então a conclusão, quando ele se deu conta do que eu
podia ter visto.
— Lou, eu não sei o que você viu, mas...
— Mas o quê? “Não é o que você está pensando”?
— Bem, é e não é.
Aquilo foi como um soco.
fevereiro/2018
Clube SPA
— Não vamos fazer isso, Sam.
Ele ergueu o olhar.
— Sei muito bem o que eu vi. Se você tentar me convencer de que não era o
que eu acho que era, vou querer tanto acreditar em você que talvez realmente
acredite. E o que eu percebi nesses últimos dois dias é que isto... isto não é bom para mim. Não é bom para nenhum de nós dois.
Sam apoiou a caneca na mesa. Passou a mão pelo rosto e olhou para o lado.
— Eu não a amo, Lou.
— Eu não me importo com o que você sente em relação a ela.
— Bom, eu quero que você saiba. Sim, você tinha razão a respeito de Katie.
Talvez eu tenha interpretado errado os sinais. Ela realmente gosta de mim.
Dei uma risada amarga.
— E você gosta dela.
— Não sei o que acho dela. É você quem está na minha cabeça. É em você que
eu acordo pensando. Mas acontece que você não...
— Eu não estou aqui. Não coloque a culpa disso em mim. Não ouse colocar a culpa disso em mim. Você me disse para ir. Você me disse para ir.
Ficamos sentados em silêncio por alguns instantes. Observei as mãos dele —
os nós dos dedos fortes e calejados, a forma como pareciam tão duras,
poderosas, mas eram capazes de tanta ternura. Fiquei olhando com
determinação para a mancha na toalha.
— Sabe, Lou, eu achei que ficaria bem sozinho. Afinal, estou sozinho há muito
tempo. Mas você despertou alguma coisa em mim.
— Ah, então é culpa minha.
— Eu não estou dizendo isso! — explodiu ele. — Estou tentando explicar.
Estou dizendo que não sou mais tão bom em ficar sozinho quanto pensei que fosse. Depois que minha irmã morreu, eu não queria sentir mais nada por ninguém de novo, está bem? Eu tinha espaço para me importar com o Jake, mais
ninguém. Tinha meu emprego e minha casa inacabada, minhas galinhas, e tudo
bem. Eu estava apenas... seguindo em frente. E aí você apareceu, caiu daquele maldito prédio e, literalmente, na primeira vez que segurou na minha mão, eu
senti alguma coisa ceder dentro de mim. E de repente havia alguém com quem
eu tinha vontade de conversar. Alguém que entendia como eu me sentia.
Entendia de verdade. Eu podia passar de carro pelo seu apartamento e saber que, no fim de um dia horrível, ia poder ligar para você ou fazer uma visita e me
sentir melhor. E, sim, sei que tivemos alguns problemas, mas eu simplesmente senti que, no fundo, havia algo certo lá, sabe? — Ele estava com a cabeça abaixada sobre o chá, o maxilar tenso. — E aí, justamente quando estávamos próximos... mais próximos do que eu jamais havia me sentido em relação a outra pessoa... você... você simplesmente foi embora. E eu me senti como... como se alguém tivesse me dado um presente, uma chave para todas as coisas, e fevereiro/2018
Clube SPA
depois tirado de mim.
— Então por que você me deixou ir?
A voz dele explodiu na cozinha:
— Porque... porque eu não sou esse tipo de cara, Lou! Eu não sou o cara que
vai insistir para você ficar. Não sou o cara que vai impedir você de ter suas aventuras, de crescer e de fazer todas as coisas que está fazendo lá. Eu não sou
esse cara!
— Não... você é o cara que se envolve com outra assim que eu vou embora!
Alguém do mesmo CEP!
— É código postal! Você está na Inglaterra, pelo amor de Deus.
— É, e você não faz ideia de como eu gostaria de não estar.
Sam se virou de costas para mim, claramente se esforçando para se conter.
Para além das portas da cozinha, embora a televisão ainda estivesse ligada, notei o silêncio absoluto na sala.
Depois de alguns minutos, falei baixinho:
— Eu não posso fazer isso, Sam.
— Não pode fazer o quê?
— Não posso ficar me preocupando com Katie Ingram e as tentativas dela de
seduzir você... porque, seja o que for que tenha acontecido naquela noite, eu vi o que ela queria, mesmo que eu não saiba o que você queria. E isso está me enlouquecendo, me deixando triste e, pior... — Engoli em seco. — Está me fazendo odiar você. E eu não consigo imaginar como cheguei a esse ponto em apenas três meses.
— Louisa...
Houve uma batida discreta na porta. O rosto de minha mãe apareceu.
— Desculpem incomodar, mas vocês se importariam muito se eu preparasse
um pouco de chá? O vovô está sem ar.
— Claro.
Mantive o rosto virado.
Ela entrou e encheu a chaleira, de costas para nós.
— Eles estão vendo um filme sobre alienígenas. Nada muito natalino. Eu me
lembro quando, no Natal, só passava O Mágico de Oz ou Noviça Rebelde ou alguma coisa que todos pudessem ver juntos. Agora, eles estão assistindo a essa
coisa cheia de tiros e explosões, e o vovô e eu não conseguimos entender nada
do que estão dizendo.
Minha mãe continuou tagarelando, simplesmente aflita por precisar estar ali,
batucando a superfície de trabalho com os dedos enquanto esperava que a água
da chaleira fervesse.
— Sabe que ainda nem assistimos ao discurso da rainha? Seu pai colocou para gravar. Mas não é a mesma coisa quando vemos depois, não é? Eu gosto de
ver junto com todo mundo. A pobre senhora, trancada naquelas caixas de vídeo
fevereiro/2018
Clube SPA
até todo mundo ter acabado de ver os alienígenas e os desenhos animados. Era
de imaginar que, depois de mais de sessenta anos de serviço... Há quanto tempo
ela está naquele trono? O mínimo que podíamos fazer era assistir ao discurso na
hora em que ela o faz. Mas seu pai me disse que estou sendo ridícula, porque ela
provavelmente gravou a mensagem semanas atrás. Sam, quer um pedaço de
bolo?
— Não, obrigado, Josie.
— Lou?
— Não. Obrigada, mamãe.
— Vou deixar vocês em paz.
Ela sorriu, constrangida, colocou na bandeja um bolo de frutas do tamanho
de uma roda de trator e saiu apressadamente. Sam se levantou e fechou a porta
atrás dela.
Ficamos sentados em silêncio, escutando o tique-taque do relógio da cozinha,
o clima pesado. Eu estava me sentindo esmagada sob o peso das coisas que não
haviam sido ditas entre nós.
Sam tomou um longo gole do chá. Eu queria que ele fosse embora. Mas
achava que talvez morresse se ele fosse.
— Desculpe — disse Sam, afinal. — Sobre aquela noite. Eu nunca quis... bem,
eu interpretei errado.
Balancei a cabeça. Não conseguia mais falar.
— Eu não dormi com ela. Se você não quer ouvir mais nada, preciso que ouça
pelo menos isso.
— Você disse...
Ele ergueu o olhar.
— Você disse... que ninguém mais me magoaria. Você disse isso. Quando foi a
Nova York. — Minha voz surgiu inesperadamente de algum lugar dentro do
meu peito. — Eu nunca pensei nem por um instante que seria você quem faria
isso.
— Louisa...
— Acho que eu quero que você vá embora agora.
Ele se levantou pesadamente e hesitou, as mãos na mesa à sua frente. Eu não
conseguia olhar para ele. Não conseguia ver o rosto que eu amava prestes a desaparecer da minha vida para sempre. Ele se endireitou, suspirou alto e se virou de costas para mim.
Tirou um pacote do bolso e o colocou na mesa.
— Feliz Natal — disse ele.
E então caminhou até a porta.
Eu o acompanhei de volta pelo corredor, onze longos passos, até chegarmos à
varanda. Não podia olhar para ele, ou estaria perdida. Pediria para ele ficar, prometeria abrir mão do meu trabalho, imploraria para ele mudar de emprego,
fevereiro/2018
Clube SPA
para não ver Katie Ingram novamente. Eu me tornaria patética, o tipo de mulher
de quem sentia pena. O tipo de mulher que ele nunca quisera.
Fiquei de pé, os ombros tensos, e me recusei a olhar para além dos pés estúpidos e imensos dele. Um carro parou. Uma porta bateu em algum ponto da
rua. Passarinhos cantaram. E eu fiquei ali parada, prisioneira de minha própria
infelicidade particular em um instante que teimosamente se recusava a
terminar.
E então, de repente, Sam deu um passo à frente e seus braços se fecharam ao
meu redor. Ele me puxou para perto e, naquele abraço, senti tudo o que havíamos significado um para o outro, o amor, a dor e a maldita impossibilidade
de tudo. E meu rosto, que ele não estava vendo, franziu.
Não sei por quanto tempo ficamos ali. Provavelmente apenas segundos. Mas
o tempo parou, estendeu-se e desapareceu. Éramos apenas ele, eu e aquele terrível sentimento morto indo da cabeça aos pés, como se estivéssemos nos transformando em pedra.
— Não. Não me toque — falei, quando não consegui mais suportar.
Minha voz estava engasgada e diferente, e eu o empurrei para trás, para longe de mim.
— Lou...
Só que não era a voz dele. Era a da minha irmã.
— Lou, você pode só... desculpe... sair do caminho, por favor? Eu preciso passar.
Pisquei e virei a cabeça. Minha irmã, com as mãos erguidas, estava tentando
passar por nós na porta estreita para ir até a entrada da casa.
— Desculpem — disse ela. — Eu só preciso...
Sam me soltou de um jeito abrupto e foi embora com passos largos, os
ombros caídos e tensos, fazendo uma pequena pausa apenas enquanto o portão
se abria. Não olhou para trás.
— É o novo rapaz da nossa Treena chegando? — perguntou mamãe atrás de
mim.
Ela estava alisando o avental e endireitando o cabelo em um único
movimento fluido.
— Achei que ele fosse chegar às quatro. Nem passei batom... Você está bem?
Treena se virou e, através do borrão de minhas lágrimas, vi um sorrisinho cheio de esperança em seu rosto.
— Mamãe, papai, esta é Eddie — disse ela.
E uma mulher negra e magra usando um vestido florido curto acenou para nós, hesitante.
fevereiro/2018
Clube SPA
19
No fim das contas, para se distrair da perda do segundo grande amor de sua vida, recomendo fortemente que sua irmã saia do armário no Natal,
especialmente com uma jovem negra chamada Edwina.
Mamãe disfarçou seu choque inicial com uma profusão de boas-vindas
excessivamente efusivas e a promessa de preparar um chá, levando Eddie e Treena até a sala de estar, fazendo uma pausa momentânea para me lançar um
olhar que, se minha mãe fosse do tipo que diz palavrões, teria significado que porra é essa, antes de desaparecer de novo no corredor que levava até a cozinha. Thom surgiu da sala, gritou “Eddie!”, deu um abraço apertado em nossa
convidada, ficou balançando os pés enquanto esperava para receber seu presente, rasgou a embalagem e saiu correndo com um Lego novo.
E papai, absolutamente mudo, ficou apenas olhando fixo para o que se
desenrolava bem à sua frente, como se estivesse tendo um sonho alucinógeno.
Vi a expressão ansiosa pouco característica de Treena, percebi o pânico
aumentando no ar e soube que precisava agir. Murmurei para papai fechar a boca, então dei um passo para a frente e estendi a mão.
— Eddie! — falei. — Oi! Sou Louisa. Minha irmã sem dúvida já deve ter contado todas as coisas ruins de mim.
— Na verdade — disse Eddie —, ela só me contou coisas maravilhosas. Você
mora em Nova York, não é?
— A maior parte do tempo.
Esperava que meu sorriso não parecesse tão forçado quanto eu tinha a
impressão de estar.
— Eu morei no Brooklyn durante dois anos depois da faculdade. Ainda sinto
saudade de lá.
Ela tirou o casaco cor de bronze, esperando enquanto Treena o pendurava em nosso cabideiro sobrecarregado. Eddie parecia uma minúscula bonequinha
de porcelana, com os traços mais simétricos que eu já tinha visto e olhos amendoados com extravagantes cílios pretos. Ela continuou falando enquanto nos encaminhamos para a sala de estar — talvez educada demais para notar o
choque maldisfarçado de meus pais — e se abaixou para apertar a mão do vovô,
que sorriu torto para ela e voltou a olhar fixamente para a televisão.
Eu nunca tinha visto minha irmã daquele jeito. Era como se tivéssemos
fevereiro/2018
Clube SPA
acabado de ser apresentados a duas estranhas, e não apenas uma. Ali estava Eddie — impecavelmente educada, interessante, envolvida, navegando com
graça pelas águas agitadas daquela conversa —, e lá estava a nova Treena, a expressão ligeiramente insegura, o sorriso meio frágil, a mão deslizando pelo sofá de vez em quando para apertar a da namorada, como se quisesse ser tranquilizada. O queixo de papai caiu uns bons dez centímetros na primeira vez
que ela fez isso, e mamãe o cutucou repetidamente na costela com o cotovelo até ele fechar a boca de novo.
— Então! Edwina! — disse mamãe, servindo o chá. — Treena nos contou...
ahn... muito pouco sobre você. Como... como vocês duas se conheceram?
Eddie sorriu.
— Eu sou gerente de uma loja de decoração perto do apartamento de
Katrina, e ela foi lá algumas vezes para comprar almofadas e tecido, então nós
começamos a conversar. Saímos para um drinque e depois fomos ao cinema e...
sabe, descobrimos que tínhamos muitas coisas em comum.
Acabei assentindo, tentando entender o que minha irmã poderia ter em
comum com a criatura educada e elegante à minha frente.
— Coisas em comum! Que ótimo. Coisas em comum é algo muito bom. Sim.
E... de onde você... ah, puxa. Eu não quis...
— De onde eu sou? Blackheath. Eu sei... as pessoas raramente vão do sul para
o norte de Londres. Meus pais se mudaram para Borehamwood quando se
aposentaram, há três anos. Então, eu sou uma daquelas raridades: uma londrina
do norte e do sul.
Ela sorriu para Treena, como se isso fosse uma piada interna delas, antes de
se voltar para mamãe.
— Vocês sempre moraram por aqui?
— Mamãe e papai só vão sair de Stortfold no caixão — disse Treena.
— O que não vai acontecer tão cedo, esperamos! — comentei.
— Parece uma cidadezinha linda. Entendo por que vocês quiseram ficar —
disse Eddie, estendendo o prato. — Este bolo está incrível, Sra. Clark. A senhora
mesma faz? Minha mãe faz um com rum, e ela jura que é preciso deixar as frutas de molho durante três meses para absorver todo o sabor.
— Katrina é gay? — indagou papai.
— Está muito bom, mamãe — disse Treena. — As passas estão... bem...
úmidas.
Papai olhava para nós, de uma para outra.
— Nossa Treena gosta de garotas? E ninguém está dizendo nada? Ficam só
falando sobre almofadas e bolo?
— Bernard — repreendeu minha mãe.
— Talvez eu devesse dar um momento para vocês — disse Eddie.
— Não. Fique, Eddie.
fevereiro/2018
Clube SPA
Treena olhou para Thom, que estava concentrado na televisão, e falou:
— Sim, papai. Eu gosto de mulheres. Ou, pelo menos, gosto de Eddie.
— Treena talvez tenha gênero fluido — comentou mamãe, nervosa. — É
assim que se diz? Os jovens do curso noturno me contaram que muitos deles não são nem uma coisa nem outra, hoje em dia. Existe um espectro. Ou um espéculo. Eu nunca lembro o que é.
Papai piscou.
Mamãe tomou um gole de chá tão audível que quase doeu.
— Bem, pessoalmente — falei, quando Treena parou de bater nas costas dela
—, eu acho que é ótimo alguém querer sair com Treena. Qualquer um. Sabe, alguém com olhos, ouvidos, coração, essas coisas.
Treena me lançou um olhar de gratidão genuína.
— Pensando bem, você sempre usou muita calça jeans. Quando criança —
refletiu mamãe, secando a boca. — Talvez eu devesse ter feito você usar mais vestidos.
— Não tem nada a ver com calça jeans, mãe. Com genes, talvez.
— Bom, isso certamente não faz parte da genética da nossa família — disse
papai. — Sem ofensas, Edwina.
— Sem problemas, Sr. Clark.
— Eu sou gay, papai. Sou gay e estou mais feliz do que nunca, e na realidade
ninguém tem nada a ver com a maneira como eu escolhi ser feliz, mas eu realmente gostaria que você e a mamãe conseguissem ficar felizes por mim, porque eu estou feliz, e, o mais importante, espero que Eddie faça parte da minha vida e da do Thom por muito tempo.
Ela olhou para Eddie, que deu um sorriso tranquilizador.
Houve um longo silêncio.
— Você nunca comentou nada — disse papai, em tom de acusação. — Você
nunca agiu como gay.
— Como uma pessoa gay deve agir? — perguntou Treena.
— Bem. De um jeito gay. Tipo... você nunca trouxe uma garota para nossa casa.
— Eu nunca trouxe ninguém para nossa casa. Além de Sundeep. O contador.
E você não gostou dele porque ele não gostava de futebol.
— Eu gosto de futebol — disse Eddie, prestativa.
Papai ficou sentado, olhando fixamente para o próprio prato. Por fim,
suspirou e esfregou os olhos com a palma das mãos. Quando parou, estava com
uma expressão confusa, como se tivesse acordado de repente. Mamãe o
observava atentamente, com a ansiedade estampada no rosto.
— Eddie. Edwina. Sinto muito se pareci um velho idiota. Não sou
homofóbico, de verdade, mas...
— Ah, meu Deus — disse Treena. — Tem um mas.
fevereiro/2018
Clube SPA
Papai balançou a cabeça.
— Mas eu provavelmente vou dizer a coisa errada de qualquer maneira e
fazer todo tipo de ofensas porque sou apenas um velho que não entende direito
os novos termos e a forma como as coisas são feitas... Minha esposa pode contar
isso a você. Dito tudo isso, até eu sei que o que importa a longo prazo é que essas minhas duas garotas sejam felizes. E se você a fizer feliz, Eddie, como Sam
faz a nossa Lou feliz, então, que bom. Fico muito feliz por conhecê-la.
Ele se levantou e estendeu a mão por cima da mesa de centro. Depois de um
instante, Eddie se inclinou para a frente e o cumprimentou.
— Certo. Agora, vamos comer um pedaço daquele bolo.
Mamãe suspirou de alívio e pegou a faca. E eu fiz o melhor possível para sorrir, então saí depressa da sala.
* * *
Sem dúvida existe uma hierarquia nas formas de se ter o coração partido. Eu a
descobri. No topo da lista está a morte da pessoa que amamos. Não há situação
capaz de despertar mais choque e solidariedade: as expressões se transformam,
sempre há uma mão estendida para apertar seu ombro. Ah, meu Deus, eu sinto
muito. Depois disso vem provavelmente ser deixado por outra pessoa — a infidelidade, a perversidade dos dois indivíduos envolvidos na traição
provocando afirmações de ultraje e camaradagem. Ah, deve ter sido um choque e
tanto para você. Podemos acrescentar separação forçada, obstáculos religiosos e doença grave. Mas Nós nos afastamos porque estávamos morando em
continentes separados, embora seja verdade, dificilmente arrancará mais do que um sinal de reconhecimento com a cabeça ou um pragmático dar de ombros compreensivo. É, essas coisas acontecem.
Vi essa reação, ainda que coberta de preocupação maternal, na minha mãe. E
depois no meu pai. Puxa, que pena. Mas imagino não seja uma grande surpresa.
Eu me senti ligeiramente magoada, de uma maneira que não consegui
expressar. Como assim não foi uma grande surpresa? EU O AMAVA.
O dia 26 passou lentamente, as horas vagarosas e tristes. Tive um sono agitado, contente pela distração criada por Eddie, de modo que eu não
precisava ser o foco das atenções. Fiquei deitada na banheira e na cama do meu
quartinho, sequei as lágrimas que escaparam e torci para que ninguém
percebesse. Minha mãe me levou chá e tentou não comentar muito sobre a felicidade radiante de minha irmã.
Era ótimo vê-la daquele jeito. Ou teria sido, se eu não estivesse tão arrasada.
Vi as duas dando as mãos disfarçadamente embaixo da mesa enquanto mamãe
servia o jantar, as cabeças se encostando enquanto falavam sobre algo que fevereiro/2018
Clube SPA
tinham lido em uma revista, os pés se tocando enquanto viam televisão, Thom
abrindo caminho entre elas com a confiança dos que são extremamente
amados, indiferente a quem o estava amando. Depois que passamos da fase da
grande surpresa, tudo fez total sentido para mim: Treena ficava muito feliz e relaxada na companhia daquela mulher, de um jeito que eu nunca tinha visto.
De vez em quando, ela me lançava breves olhares tímidos e silenciosamente triunfantes, e eu sorria em resposta, esperando não parecer tão falsa quanto estava me sentindo.
Porque tudo o que eu sentia era um segundo buraco gigantesco onde antes
ficava meu coração. Sem a raiva que havia me alimentado pelas quarenta e oito
horas anteriores, eu era um vazio. Sam tinha ido embora, eu praticamente o mandara embora. Para outras pessoas, o fim do meu relacionamento talvez
fosse compreensível, mas, para mim, aquilo tudo não fazia sentido algum.
* * *
Na tarde do dia 26, enquanto minha família cochilava no sofá (eu havia esquecido quanto tempo era passado discutindo, comendo ou digerindo comida
em nossa casa), saí e caminhei até o castelo Stortfold. Estava vazio, exceto por
uma mulher cheia de energia usando uma jaqueta impermeável, passeando com
o cachorro. Ela me cumprimentou com um aceno de cabeça que sugeria que não queria conversa, então segui até as muralhas e encontrei um banco de onde podia olhar para o labirinto e a metade sul de Stortfold. Deixei a brisa gelada pinicar a ponta de minhas orelhas, senti os pés esfriando e disse a mim mesma
que não me sentiria tão triste para sempre. Deixei que meus pensamentos fossem em direção a Will, lembrando-me de quantas tardes havíamos passado
ao redor daquele castelo e de como eu sobrevivera à morte dele, e disse a mim
mesma com firmeza que essa nova dor era menor: eu não enfrentaria meses de
uma tristeza tão profunda que me faria passar mal. Eu não pensaria em Sam.
Não imaginaria ele com aquela mulher. Não olharia o Facebook. Voltaria para minha nova vida emocionante, rica e cheia de acontecimentos em Nova York e,
quando ficasse totalmente longe dele, as partes de mim que estavam ocas e destruídas acabariam se curando. Talvez nós não tivéssemos sido o que eu achara que fôssemos. Talvez a intensidade do nosso primeiro encontro — quem
poderia resistir a um paramédico, afinal? — tivesse feito com que
acreditássemos que a intensidade era nossa. Talvez eu apenas precisasse de alguém para me tirar daquele luto. Talvez nosso relacionamento tivesse sido um rebote, e eu me sentiria melhor antes do que imaginava.
Repeti isso sem parar em minha mente, mas uma parte teimosa de mim se recusava a escutar. Por fim, quando cansei de fingir que ia ficar tudo bem, fechei fevereiro/2018
Clube SPA
os olhos, apoiei a cabeça nas mãos e chorei. Em um castelo vazio, em um dia em
que todo mundo estava em casa, deixei a dor passar por mim e chorei sem inibição ou medo de ser flagrada. Chorei de um jeito que não poderia chorar na
casinha da Renfrew Road nem depois que voltasse para o apartamento dos
Gopnik: com raiva e tristeza, uma espécie de sangria emocional.
— Seu idiota... — falei, soluçando em meus joelhos. — Eu só fiquei três meses longe...
Minha voz soou estranha, estrangulada. E, como Thom, que costumava olhar
para o próprio reflexo no espelho quando chorava e, depois, passava a chorar ainda mais forte, o som daquelas palavras foi tão triste e terrivelmente definitivo que comecei a chorar com mais intensidade.
— Caramba, Sam. Você foi um filho da mãe por me fazer pensar que valia o risco.
— Posso me sentar também ou é uma festa de sofrimento particular?
Ergui a cabeça de repente. Lily estava diante de mim, enrolada em uma
grande jaqueta preta e um cachecol vermelho, os braços cruzados, com cara de
que talvez já estivesse ali me examinando por algum tempo. Ela sorriu, como se
me ver em meu momento mais sombrio fosse divertido, então ficou esperando
enquanto eu me recompunha.
— Bem, acho que eu não preciso perguntar o que está acontecendo na sua vida — disse ela, me dando um soco forte no braço.
— Como você soube que eu estava aqui?
— Fui até sua casa, afinal voltei da estação de esqui há dois dias e você nem
se deu ao trabalho de me ligar.
— Desculpe — falei. — As coisas têm sido...
— Têm sido difíceis porque você levou um pé na bunda do Sexy Sam. Foi aquela bruxa loura?
Assoei o nariz e a encarei.
— Como fiquei uns dias em Londres antes do Natal, fui até a central de ambulâncias para dar um alô, e ela estava lá, grudada nele feito uma espécie de
mofo humano.
Funguei.
— Você percebeu.
— Nossa, sim. Eu ia alertar você, mas daí pensei: para quê? Não é como se você pudesse fazer algo a respeito disso lá em Nova York. Argh. Mas os homens
são uns idiotas. Como ele pode não ter enxergado isso?
— Ah, Lily, eu senti muita saudade de você.
Eu percebera como sentira falta dela até aquele momento. A filha de Will, em
toda a sua glória alegre e adolescente. Ela se sentou ao meu lado e eu me apoiei
nela, como se Lily fosse a adulta. Ficamos olhando ao longe. Dava para ver a casa de Will, a Granta House.
fevereiro/2018
Clube SPA
— Quer dizer, só porque ela é bonita e tem peitos enormes e uma daquelas
bocas de filme pornô que parecem estar sempre prontas para um boquete...
— Certo, pode parar agora.
— Enfim, eu não choraria mais se fosse você — disse ela sabiamente. — Em
primeiro lugar, porque nenhum homem merece. Até a Katy Perry pode dizer isso a você. Mas também porque seus olhos ficam muito, muito pequenos
quando você chora. Tipo, microscópicos mesmo.
Não consegui deixar de rir.
Ela se levantou e estendeu a mão.
— Vamos. Vamos até sua casa. Não tem nada aberto hoje, e o vovô, Della e a
Bebê que Não Faz Nada Errado estão me enlouquecendo. Tenho vinte e quatro
horas para matar antes que a vovó venha me buscar. Eca. Você deixou catarro
no meu casaco? Deixou! Você vai limpar isso.
* * *
Tomando chá em minha casa, Lily me contou as notícias que não incluíra em seus e-mails — estava adorando a nova escola, mas não tinha conseguido se envolver com o trabalho como deveria. (“No fim das contas, perder muitas aulas
tem consequências. O que é muito irritante no front ‘eu avisei’ dos adultos.”) Lily gostava tanto de morar com a avó que reclamava dela do jeito como reclamava das pessoas que amava de verdade — com humor e um sarcasmo
alegre. A avó tinha sido completamente irracional em relação a ela pintar de preto as paredes do quarto. E não a deixava dirigir o carro, embora Lily soubesse perfeitamente como dirigir e só quisesse se adiantar antes de entrar
na autoescola.
Foi só quando começou a falar sobre sua mãe que a animação desapareceu. A
mãe tinha, enfim, deixado o padrasto de Lily — “é claro” —, mas o arquiteto que
mora no final da rua e que ela havia planejado tornar seu próximo marido não entrara no jogo, recusando-se a deixar a esposa. Agora, a mãe dela estava levando uma vida de infelicidade histérica, morando com os gêmeos em uma casa alugada em Holland Park e passando por uma sucessão de babás filipinas
que, apesar de terem uma tolerância impressionante, raramente eram
tolerantes o bastante para sobreviver a Tanya Houghton-Miller por mais do que
algumas semanas.
— Eu nunca pensei que fosse sentir pena dos meninos, mas sinto — disse Lily. — Argh, eu queria muito um cigarro. Só tenho vontade de fumar quando falo da minha mãe. Não é preciso ser Freud para entender isso, né?
— Sinto muito, Lily.
— Não sinta. Eu estou ótima. Estou morando com a vovó e indo à escola. O
fevereiro/2018
Clube SPA
drama da minha mãe não me afeta mais. Bem, ela me deixa longas mensagens
de voz, chorando ou me dizendo que sou egoísta por não voltar a morar com ela,
mas não me importo.
Lily estremeceu brevemente.
— Às vezes eu penso que, se tivesse ficado lá, eu teria enlouquecido de vez.
Pensei na menina que tinha aparecido na porta da minha casa tantos meses
antes, bêbada, infeliz e isolada, e senti uma pequena explosão silenciosa de prazer pelo fato de que, ao acolhê-la, eu havia ajudado a filha de Will a construir um relacionamento feliz com a avó.
Minha mãe entrou e saiu, reabastecendo a bandeja com fatias de presunto, queijo e torta de carne moída, e pareceu encantada por Lily estar ali, em especial quando Lily, com a boca cheia, passou o boletim completo do que estava acontecendo na mansão. Ela achava que o Sr. Traynor não andava muito
feliz. Della, sua nova esposa, estava achando a maternidade um desafio e vivia
preocupada com a bebê, hesitando e choramingando sempre que a neném
berrava. O que acontecia basicamente o tempo todo.
— O vovô passa a maior parte do tempo no escritório dele, o que a deixa ainda mais furiosa. Mas, quando ele tenta ajudar, ela apenas grita e diz que ele está fazendo tudo errado. Steven! Não a segure desse jeito! Steven! Você colocou a roupa totalmente ao contrário! Eu a mandaria cair fora, mas ele é legal demais para isso.
— Ele é da geração que se envolvia muito pouco com os bebês — comentou
mamãe gentilmente. — Acho que seu pai não trocou uma fralda sequer.
— Como ele sempre pergunta da vovó, eu disse que ela está com um homem
novo.
— A Sra. Traynor arranjou um namorado? — perguntou minha mãe,
arregalando os olhos.
— Não. É claro que não. A vovó diz que está aproveitando a liberdade. Mas
ele não precisa saber disso, certo? Eu falei para o vovô que um bonitão grisalho
com um Aston Martin e uma cabeleira farta a busca duas vezes por semana e que eu não sei o nome dele, mas que é bom ver a vovó tão feliz de novo. Percebo
que ele quer fazer mais perguntas, mas não se atreve a isso na presença de Della, então apenas assente, dá um sorriso muito falso, diz “Que bom” e volta para o escritório.
— Lily! — repreendeu minha mãe. — Você não pode contar mentiras assim!
— Por que não?
— Porque, bom, porque não é verdade!
— Muitas coisas na vida não são verdade. O Papai Noel não é verdade. Mas
aposto que você falou com o Thom a respeito dele mesmo assim. O vovô
arrumou outra esposa. É bom para ele, e para a vovó, ele achar que ela está tendo férias curtas e deliciosas em Paris com um aposentado rico e bonitão. E os
fevereiro/2018
Clube SPA
dois nunca se falam. Então, qual é o problema?
Em termos de lógica, era muito impressionante. Percebi isso porque a boca
de mamãe se mexia como a de alguém que sente um dente mole, mas ela não conseguiu pensar em nenhum outro motivo pelo qual Lily poderia estar errada.
— Enfim — disse Lily —, é melhor eu voltar. Jantar em família. Ho-ho-ho.
Foi nesse instante que Treena e Eddie entraram, voltando da pracinha com
Thom. Vi a expressão repentina de ansiedade maldisfarçada de mamãe e pensei
Ah, Lily, não diga nada terrível. Fiz um gesto na direção delas.
— Esta é Lily, Eddie. Eddie, Lily. Lily é a filha do meu antigo patrão, Will.
Eddie é...
— Minha namorada — disse Treena.
— Ah. Legal.
Lily apertou a mão de Eddie e então se virou para mim.
— Então. Ainda estou planejando convencer a vovó a me levar para Nova
York. Ela diz que não vai fazer isso enquanto estiver frio, mas que irá na primavera. Então, esteja preparada para tirar uns dias de folga. Abril se qualifica como primavera, certo? Está a fim?
— Mal posso esperar — respondi.
Ao meu lado, minha mãe murchou silenciosamente de alívio.
Lily me deu um abraço apertado e saiu correndo pela porta da frente. Eu a observei indo embora e invejei a força da juventude.
fevereiro/2018
Clube SPA
20
Para: KatrinaClark@scottsherwinbarker.com
De: AbelhaAtarefada@gmail.com
Linda foto, Treen! Realmente linda. Gostei quase tanto quanto daquelas quatro que você mandou ontem. Não, minha preferida ainda é a que você mandou na terça. Vocês três no parque. Sim, Eddie tem olhos lindos. Você definitivamente parece feliz. Fico muito contente.
Sobre a outra pergunta: acho, sim, que talvez seja um pouco cedo demais para mandar uma emoldurada para a mamãe e o papai, mas, ah, você que sabe.
Beijo no Thom,
Lou
P.S.: Estou ótima. Obrigada por perguntar.
* * *
Voltei com o tipo de nevasca de Nova York que só vemos no noticiário, em que
apenas os tetos dos carros ficam visíveis, as crianças andam de trenó em ruas
normalmente cheias de carros e nem mesmo os meteorologistas conseguem
disfarçar a alegria infantil. As avenidas largas estavam vazias por ordem do prefeito, e os imensos limpadores de neve da cidade subiam e desciam as principais vias feito gigantescas feras de carga.
Em circunstâncias normais, talvez eu ficasse emocionada de ver neve
daquele jeito, mas meu humor estava cinzento e úmido, pairando acima de mim
como um peso gelado, sugando a alegria de qualquer situação.
Ninguém tinha partido meu coração antes, pelo menos não alguém vivo. Eu
me afastara de Patrick sabendo no fundo que, para nós dois, nosso
relacionamento tinha se tornado um hábito, como um par de sapatos de que talvez a gente nem goste tanto, mas que continua usando porque não quer ter o
trabalho de comprar outro. Quando Will morreu, eu pensei que nunca mais voltaria a sentir nada.
Acontece que não é nem um pouco reconfortante saber que a pessoa que
amamos e perdemos ainda está respirando. Meu cérebro, órgão sádico que era,
insistia em pensar em Sam várias vezes por dia. O que ele estaria fazendo naquele momento? No que estaria pensando? Será que estava com ela? Será que
se arrependia do que havia acontecido entre nós? Ou nem sequer pensava em
fevereiro/2018
Clube SPA
mim? Eu tinha uma dúzia de discussões mentais com ele por dia, algumas das
quais eu inclusive ganhava. Meu lado racional interferia, argumentando que não
havia motivo para pensar nele. O que estava feito estava feito. Eu tinha voltado
para um continente diferente. Nossos futuros estavam separados por milhares
de quilômetros. E então, às vezes, uma parte ligeiramente maníaca de mim intervinha com um otimismo forçado: Eu podia ser quem eu quisesse! Não estava amarrada a ninguém! Podia ir a qualquer lugar do mundo sem entrar em conflito!
Essas três partes de mim eram capazes de disputar espaço em minha mente por
alguns minutos, e costumavam fazer isso com frequência. Era uma existência esquizofrênica, completamente exaustiva.
Eu as afogava. Corria com George e Agnes ao amanhecer, sem diminuir o
passo quando meu peito doía e minhas canelas pareciam espetos quentes. Zunia
pelo apartamento, antecipando as necessidades de Agnes, oferecendo-me para
ajudar Michael quando ele parecia especialmente assoberbado, descascando
batatas com Ilaria e a ignorando quando ela bufava. Cheguei até a me oferecer
para ajudar Ashok a tirar a neve da entrada do prédio — qualquer coisa para não ter que sentar e pensar em minha própria vida. Ele fez uma careta e me disse para não ser louca: por acaso eu queria que ele perdesse o emprego?
Josh me mandou uma mensagem de texto no meu terceiro dia de volta,
enquanto Agnes examinava sapato por sapato em uma loja infantil e conversava
em polonês com a mãe ao telefone, aparentemente tentando descobrir o
tamanho que deveria comprar e se a irmã aprovaria. Senti meu telefone vibrar e
olhei para a tela.
E aí, Louisa Clark Primeira. Quanto tempo! Espero que tenha tido um bom Natal. Quer tomar um café uma hora dessas?
Fiquei olhando fixamente para a mensagem. Não tinha por que não aceitar,
mas, de alguma maneira, parecia errado. Eu estava sensível demais, ainda conectada a um homem a quase cinco mil quilômetros de distância.
Oi, Josh. Meio ocupada agora (Agnes não me deixa parar!), mas talvez em breve. Espero que você esteja bem. Bj, L
Ele não respondeu, e eu me senti estranhamente mal em relação a isso.
Garry levou as compras de Agnes para o carro, e então o telefone dela vibrou.
Ela o tirou da bolsa e ficou observando o aparelho. Olhou pela janela por um instante, então se virou para mim.
— Esqueci que tinha aula de arte. Precisamos ir a East Williamsburg.
Era claramente uma mentira. Tive uma lembrança súbita do terrível almoço
do Dia de Ação de Graças, com todas as suas revelações, e tentei disfarçar.
— Vou cancelar a aula de piano, então — falei, sem alterar a voz.
— Sim. Garry, tenho aula de arte. Esqueci.
Sem dizer uma palavra, Garry começou a dirigir a limusine.
fevereiro/2018
Clube SPA
* * *
Garry e eu ficamos sentados em silêncio no estacionamento, o motor ligado para nos proteger do frio do lado de fora. Eu estava silenciosamente furiosa com Agnes por ter escolhido aquela tarde para uma de suas “aulas de arte”, pois
isso queria dizer que fui deixada sozinha com meus pensamentos, uma porção
de convidados indesejados que se recusavam a ir embora. Enfiei os fones de ouvido e coloquei músicas alegres para tocar. Usei meu iPad para organizar o resto da semana de Agnes. Joguei três rodadas de palavras cruzadas on-line com
minha mãe. Respondi a um e-mail de Treena, perguntando se eu achava que ela
devia levar Eddie a um jantar de trabalho ou se era cedo demais. (Eu achava que
ela provavelmente devia ir em frente.) Olhei para fora, para o céu carregado, e
me perguntei se ia nevar mais. Garry estava assistindo a um programa de comédia no tablet, rindo junto com as gargalhadas gravadas, o queixo apoiado
no peito.
— Quer um café? — perguntei, quando não tinha mais unhas para roer. —
Ela vai demorar uma eternidade, não vai?
— Não, obrigado. Meu médico me mandou cortar os donuts. E você sabe o que acontece se a gente for até aquele lugar que vende donuts gostosos.
Puxei um fio solto da minha calça.
— Quer brincar de alguma coisa?
— Você está de gozação com a minha cara?
Recostei-me no banco do carro, suspirando, e fiquei escutando o resto do programa de comédia. Depois, prestei atenção na respiração pesada de Garry ficando mais lenta e se transformando em roncos ocasionais. O céu estava começando a escurecer, ficando com um cinza-escuro hostil. Levaríamos horas
para voltar por conta do trânsito. Então meu telefone tocou.
— Louisa? Você está com Agnes? O telefone dela parece estar desligado. Pode
chamá-la para mim?
Olhei pela janela do carro para onde a luz do estúdio de Steven Lipkott lançava um retângulo amarelado sobre a neve cinzenta abaixo.
— Ahn... ela está só... ela está experimentando umas roupas, Sr. Gopnik. Deixe
eu ir até os provadores pedir que ela ligue para o senhor em seguida.
A porta do térreo estava sendo mantida aberta com duas latas de tinta, como
se estivessem fazendo uma entrega. Subi correndo os degraus de concreto e passei pelo corredor até chegar ao estúdio. Lá, parei diante da porta fechada, respirando com dificuldade. Olhei para meu telefone e depois para o alto. Eu não queria entrar. Não queria uma prova irrefutável do que havia sido sugerido
no Dia de Ação de Graças. Encostei a orelha na porta, tentando descobrir se era
seguro bater e me sentindo furtiva, como se fosse eu a errada. Mas tudo o que
fevereiro/2018
Clube SPA
escutei foi música e uma conversa abafada.
Mais confiante, bati. Alguns segundos depois, tentei abrir a porta. Steven Lipkott e Agnes estavam de pé do outro lado da sala, com as costas viradas para
mim, observando uma série de telas apoiadas na parede. Ele estava com uma das mãos no ombro dela e a outra agitando um cigarro na direção de uma das
telas menores. A sala cheirava a fumaça, produtos químicos e, ligeiramente, a perfume.
— Bem, por que você não me traz outras fotos dela? — perguntou ele. — Se
acha que este não a representa de verdade, então precisamos...
— Louisa!
Agnes se virou e espalmou a mão na minha direção, como se estivesse me espantando.
— Eu sinto muito — falei, mostrando meu telefone. — É... é o Sr. Gopnik. Ele
está tentando falar com você.
— Você não devia ter entrado aqui! Por que não bateu?
A cor havia desaparecido do rosto dela.
— Eu bati. Desculpe. Eu não tinha como...
Foi quando estava saindo de costas que vi a tela. Uma criança, de cabelo louro e olhos grandes, meio virada, como se estivesse prestes a escapar. E, com
uma clareza súbita e inevitável, compreendi tudo: a depressão, as conversas intermináveis com a mãe, as compras incessantes de brinquedos e sapatos...
Steven se inclinou para pegá-la.
— Olhe. Leve esta daqui com você se quiser. Pense um pouco.
— Cale a boca, Steven!
Ele se encolheu, como se não soubesse ao certo o que havia provocado a reação dela. Mas foi o que finalmente confirmou tudo.
— Nos vemos lá embaixo — falei, fechando a porta em silêncio atrás de mim.
* * *
Voltamos para o Upper East Side em silêncio. Agnes ligou para o Sr. Gopnik e pediu desculpas, ela não tinha se dado conta de que o telefone estava desligado, um problema do design... O aparelho vivia desligando sem ela querer... Ela realmente precisava de um novo, sim, querido. Estamos voltando agora. Sim, eu sei...
Ela não olhou para mim. Na verdade, eu mal conseguia encará-la. Minha
cabeça estava a mil, juntando os acontecimentos dos meses anteriores com o que eu descobrira.
Quando finalmente chegamos em casa, andei alguns passos atrás dela no
saguão, mas, quando chegamos ao elevador, ela girou, olhou fixamente para o fevereiro/2018
Clube SPA
chão e então se virou de novo na direção da porta.
— Certo. Venha comigo.
* * *
Nós nos sentamos em um bar de hotel escuro e dourado, do tipo onde eu imaginava que homens de negócios ricos do Oriente Médio se encontrassem
com seus clientes, pagando as contas sem olhar. Estava quase vazio. Agnes e eu
nos acomodamos em uma cabine de canto mal-iluminada, esperando enquanto
o atendente deixava duas vodcas com água tônica e um pote de azeitonas verdes reluzentes, tentando, sem conseguir, ganhar a atenção de Agnes.
— Ela é minha — disse Agnes quando ele se afastou.
Tomei um gole do meu drinque. Estava forte demais, e eu gostei disso.
Pareceu útil ter algo em que me focar.
— Minha filha.
A voz dela estava tensa, estranhamente furiosa.
— Ela mora com minha irmã na Polônia. Está ótima. Era tão pequena quando
vim embora que mal se lembra da época em que a mãe vivia com ela. E minha
irmã está feliz, porque não pode ter filhos. Mas minha mãe sente muita raiva de
mim.
— Mas...
— Eu não contei a ele quando o conheci, está bem? Fiquei tão... tão feliz que
alguém como ele tivesse gostado de mim. Não pensei por um instante que ficaríamos juntos. Foi como um sonho, sabe? Eu pensei: vou viver essa aventura,
aí meu visto de trabalho vai vencer, vou voltar para a Polônia e me lembrar para
sempre disso. E então tudo aconteceu muito rápido. Ele deixou a esposa por mim. Não consegui pensar em uma maneira de contar a ele. Toda vez que o encontro, penso É agora, é agora... e então, quando estamos juntos, ele me fala...
ele me fala que não quer mais filhos. Ele encerrou, diz. Sente que causou uma grande confusão com a própria família e não quer piorar a situação com outras
famílias, meios-irmãos, meias-irmãs, tudo isso. Ele me ama, mas a decisão de não ter filhos é irrevogável. Então, como posso contar?
Eu me inclinei para a frente para ninguém mais escutar.
— Mas... mas isso é muito louco, Agnes. Você já tem uma filha!
— E como eu posso contar isso agora, depois de dois anos? Você acha que ele
não vai me achar uma pessoa ruim? Acha que ele não verá isso como uma traição muito, muito terrível? Eu criei um problema imenso para mim mesma,
Louisa. Sei disso.
Ela tomou um gole da bebida.
— Penso o tempo todo... o tempo todo... em como posso consertar isso? Mas fevereiro/2018
Clube SPA
não tem o que consertar. Eu menti. E, para ele, confiança é tudo. Ele não me perdoaria. Então é simples. Assim, ele está feliz, eu estou feliz, posso ajudar todo mundo financeiramente. Estou tentando convencer minha irmã a vir morar em
Nova York. Assim poderei ver Zofia todos os dias.
— Mas você deve sentir muita falta dela.
O maxilar de Agnes ficou tenso.
— Estou garantindo o futuro dela.
Agnes falou como se fosse um texto bastante ensaiado.
— Antes, nossa família não tinha muito. Agora, minha irmã mora em uma
casa boa, com quatro quartos, tudo novo. Uma região muito boa. Zofia irá para a
melhor escola da Polônia, tocará o melhor piano. Ela terá tudo.
— Menos a mãe.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— É. Preciso escolher entre deixar Leonard ou deixá-la. Então, é minha...
minha... ah, qual é a palavra... minha penitência viver sem ela.
Sua voz embargou um pouco.
Tomei um gole do drinque de vodca. Não sabia o que mais fazer. Ficamos olhando fixamente para nossos copos.
— Não sou uma pessoa má, Louisa. Amo Leonard. Muito.
— Eu sei.
— Eu achava que talvez quando nos casássemos, depois que estivéssemos
juntos por um tempo, eu pudesse contar a ele. E ele ficaria um pouco chateado,
mas talvez conseguisse superar. Ou então eu poderia ir e vir da Polônia, sabe?
Ou talvez ela pudesse ficar aqui por um tempo. Mas as coisas simplesmente se
tornaram tão... tão complicadas. A família dele me odeia demais. Sabe o que aconteceria se eles descobrissem a respeito dela agora? Sabe o que aconteceria
se Tabitha soubesse?
Eu podia imaginar.
— Eu o amo. Sei que você pensa muitas coisas de mim. Mas eu o amo. Ele é
um homem bom. Às vezes, eu acho muito difícil, porque ele trabalha demais e
ninguém se preocupa comigo no mundo dele... e eu fico muito sozinha e talvez...
eu nem sempre me comporto perfeitamente, mas não suporto imaginar a vida
sem ele. Leonard é realmente minha alma gêmea. Eu soube disso desde o
primeiro dia.
Ela ficou desenhando um padrão na mesa com o dedo fino.
— Mas daí penso em minha filha crescendo pelos próximos dez, quinze anos
sem mim, e eu... eu...
Seu suspiro saiu trêmulo e alto o bastante para chamar atenção do barman.
Enfiei a mão na bolsa e, como não consegui encontrar um lencinho, dei um guardanapo a ela. Quando ergueu os olhos, havia uma suavidade em seu rosto.
Era uma expressão que eu nunca tinha visto, radiante de amor e ternura.
fevereiro/2018
Clube SPA
— Ela é tão linda, Louisa. Está com quase quatro anos agora e é muito esperta. E inteligente. Ela sabe os dias da semana, sabe apontar países no globo
e cantar. E sabe onde fica Nova York. Consegue desenhar uma linha no mapa entre Cracóvia e Nova York sem ninguém mostrar a ela. E toda vez que a visito
ela se pendura em mim e diz: “Por que você precisa ir, mamãe? Não quero que
você vá.” E um pouco do meu coração se parte... Ah, meu Deus, se parte... Às vezes nem quero mais vê-la, porque a dor quando preciso vir embora... é...
Agnes se curvou sobre seu copo, erguendo a mão mecanicamente para secar
as lágrimas que caíam em silêncio na mesa brilhante.
Dei outro guardanapo a ela.
— Agnes — falei baixinho —, não sei por quanto tempo você vai conseguir
continuar com isso.
Ela secou os olhos, a cabeça baixa. Quando ergueu o olhar, era impossível dizer que estivera chorando.
— Somos amigas, certo? Boas amigas.
— É claro.
Ela olhou para trás e se inclinou sobre a mesa.
— Você e eu. Nós duas somos imigrantes. Sabemos que é difícil encontrar nosso lugar no mundo. A gente quer melhorar de vida, trabalhar duro em um país que não é o nosso. Construir uma nova vida, fazer novos amigos, encontrar
um novo amor. É possível se tornar uma pessoa nova! Mas nunca é simples, sempre tem um preço.
Engoli em seco e afastei uma imagem furiosa de Sam em seu vagão.
— Sei que ninguém pode ter tudo. E nós, imigrantes, sabemos disso melhor
do que ninguém. Estamos com um pé em cada lugar. Nunca conseguimos ser felizes de verdade porque, no instante em que partimos, somos duas pessoas e,
onde quer que estejamos, uma metade nossa está sempre pensando na outra.
Esse é nosso preço, Louisa. É o custo de ser quem somos.
Ela tomou um gole da bebida e mais outro. Então respirou fundo e balançou