Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 5/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

* * *

Sofrendo com uma dor aguda nas pernas, o Sr. Gopnik tinha passado metade da

noite acordado, o que deixara Agnes ansiosa e mal-humorada. Ela havia

enfrentado maus momentos no clube no fim de semana, levando um gelo das outras sócias, tinha ficado de fora das conversas e ouvido comentários a seu respeito no spa. A forma com que Nathan cochichou essas novidades quando fevereiro/2018

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passei por ele no saguão me fez sentir como se tivéssemos treze anos, fofocando

em uma festa do pijama.

— Você está atrasada — resmungou Agnes, quando voltou da corrida com

George, secando o rosto com uma toalha.

Da sala contígua, dava para ouvir a voz do Sr. Gopnik conversando alto ao telefone, o que não era comum. Ela não olhou para mim ao falar.

— Me desculpe. É porque meu... — comecei, mas ela já tinha se afastado.

— Ela está surtando por causa do evento de caridade hoje à noite —

murmurou Michael, passando por mim com uma pilha de roupas vindas da

lavanderia e uma prancheta.

Acessei meu arquivo mental.

— Hospital do Câncer Infantil?

— Exatamente — respondeu ele. — Ela tem que levar um rabisco.

— Um rabisco?

— Um desenhozinho. Em um papel especial. Para ser leiloado no jantar.

— E qual é o problema? Ela pode desenhar uma carinha sorridente, uma flor

ou qualquer coisa. Posso fazer se ela quiser. Sei desenhar um ótimo cavalo sorridente. Posso colocar um chapéu nele também, com as orelhas para fora.

Eu ainda estava repleta de Sam e não conseguia ver problema em nada.

Ele me fitou.

— Meu bem. Você acha que “rabisco” significa mesmo um rabisco? Ah, não.

Tem que ser arte de verdade.

— Eu tirei B em artes no ensino médio.

— Você é um amor. Não, Louisa, não são elas mesmas que fazem. Pelo visto,

todos os artistas daqui até a Brooklyn Bridge passaram o fim de semana criando

um lindo e breve estudo com caneta em troca de dinheiro vivo. Ela só descobriu

isso ontem à noite. Porque ouviu por acaso duas das Bruxas comentando sobre

o assunto antes de sair do clube e, quando Agnes perguntou, elas contaram a verdade. Então adivinha o que você vai fazer hoje? Tenha uma ótima manhã!

Ele me jogou um beijo e seguiu depressa pelo corredor.

* * *

Enquanto Agnes tomava uma chuveirada e depois o café da manhã, eu fazia uma

busca on-line por “artistas de Nova York”. Tinha quase o mesmo efeito de “cães

com rabo”. Os poucos que tinham site e se davam ao trabalho de atender ao telefone respondiam ao meu pedido como se eu tivesse sugerido que eles

andassem pelados em volta do shopping mais próximo.

— Você quer que o Sr. Fischl faça um... rabisco? Para um almoço de caridade?

Dois bateram o telefone na minha cara. Os artistas, aparentemente, se

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levavam muito a sério.

Liguei para todo mundo que consegui encontrar. Liguei para galeristas de Chelsea. Liguei para a Academia de Arte de Nova York. O tempo todo eu tentava

não pensar no que Sam estaria fazendo. Estaria tomando um delicioso café da

manhã reforçado naquela lanchonete sobre a qual havíamos comentado. Estaria

caminhando pela High Line, como tínhamos planejado. Eu precisava voltar a tempo de fazermos o passeio de barco antes que ele retornasse para a

Inglaterra. Seria romântico ao entardecer. Imaginei o braço dele ao meu redor, nós dois apreciando a Estátua da Liberdade, ele dando um beijo no meu cabelo.

Afastei esses pensamentos e pus meu cérebro para trabalhar. E depois pensei na única outra pessoa que eu conhecia em Nova York que talvez pudesse ajudar.

* * *

— Josh?

— Quem fala?

O som de um milhão de vozes masculinas atrás dele.

— Aqui quem fala é... Louisa Clark. A gente se conheceu no Baile Amarelo.

— Louisa! Que bom falar com você! Tudo bem? — Ele soava totalmente

tranquilo, como se desconhecidas ligassem para ele todos os dias.

Provavelmente ligavam. — Só um momento. Vou lá para fora... Então, como vão

as coisas?

Josh tem o poder de deixar as pessoas imediatamente à vontade. Fiquei

pensando se os americanos já nasciam com esse dom.

— Para falar a verdade, estou numa saia justa e não conheço muitas pessoas

em Nova York. Então, pensei que talvez você pudesse me ajudar.

— Diga o que é.

Expliquei a situação, deixando de fora o mau humor de Agnes, sua paranoia e

meu pavor absoluto diante do cenário artístico de Nova York.

— Não deve ser muito difícil. Para quando vocês precisam disso?

— Aí é que está o problema. Hoje à noite.

Josh respirou fundo.

— Tuuudo bem. É. Ficou um pouco mais difícil.

Passei a mão no cabelo.

— Eu sei. É loucura. Se eu tivesse ficado sabendo disso antes teria

providenciado alguma coisa. Peço mil desculpas por incomodar você.

— Não, não. Vamos dar um jeito. Eu te ligo de volta.

Agnes estava do lado de fora, na sacada, fumando. Parece que, afinal de contas, eu não era a única usando o espaço. Fazia frio, e ela estava enrolada em

um enorme xale de caxemira, os dedos que se viam por baixo do tecido suave

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estavam levemente rosados.

— Fiz várias ligações. Estou esperando que alguém me retorne.

— Sabe o que vão dizer, Louisa? Se eu levar um rabisco idiota?

Esperei.

— Vão dizer que não sou culta. O que se pode esperar de uma massagista polonesa idiota? Ou vão dizer que ninguém quis fazer para mim.

— Ainda é meio-dia e vinte. Temos tempo.

— Não sei por que me dou ao trabalho — disse ela com delicadeza.

Fiquei com vontade de dizer que, tecnicamente falando, não era ela que

estava se dando ao trabalho. A única preocupação de Agnes no momento

parecia ser Fumar E Ser Ranzinza. Mas eu sabia me colocar no meu lugar. Justo

naquela hora meu celular tocou.

— Louisa?

— Josh?

— Acho que conheço alguém que pode ajudar. Pode ir até East Williamsburg?

* * *

Vinte minutos mais tarde, estávamos em um carro a caminho do Midtown

Tunnel.

Enquanto ficávamos parados no trânsito, Garry impassível e silencioso no

banco do motorista, Agnes telefonou para o Sr. Gopnik, preocupada com a saúde

dele e suas dores.

— Nathan vai até o escritório? Você tomou um analgésico?... Tem certeza de

que está bem, querido? Não quer que eu leve alguma coisa? ... Não... Estou no carro. Tenho que providenciar alguma coisa para hoje à noite. Sim, eu vou. Está

tudo bem.

Dava para perceber o tom de voz dele no outro lado da linha. Baixo,

tranquilizador.

Ela desligou, olhou pela janela e soltou um longo suspiro. Esperei um pouco e

depois comecei a ler minhas anotações.

— Então, parece que esse Steven Lipkott está em ascensão no mundo das

artes. Fez exposições em alguns lugares muito importantes. E ele é... —

vasculhei as anotações — ...figurativo. Nada abstrato. Então, você só precisa dizer o que quer que ele desenhe, e ele vai fazer. Mas não sei quanto vai custar.

— Não importa — disse Agnes. — Vai ser um desastre.

Peguei o iPad e pesquisei sobre o artista. Aliviada, vi que os desenhos eram

realmente lindos: imagens sinuosas do corpo. Passei o iPad para Agnes de modo

que ela pudesse ver, e, em um minuto, o humor dela melhorou.

— Isso é bom.

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Ela soou quase surpresa.

— Aham. Se você pensar no que quer, podemos pedir para ele desenhar e estaremos em casa por volta das... quatro, talvez?

E aí vou poder sair, acrescentei em silêncio. Enquanto ela passava as imagens na tela, mandei uma mensagem para Sam.

Como você está?

Nada mal. Fiz uma caminhada agradável. Comprei um boné em formato de caneca de cerveja para o Jake. Não ria.

Queria estar com você.

Pausa.

Então, a que horas você acha que vai ser liberada? Imagino que eu tenha que

sair para o aeroporto lá pelas sete.

Espero estar livre às quatro. Vamos nos falando. Bjssss

Com o trânsito de Nova York, levamos uma hora para chegar ao endereço

que Josh fornecera: um antigo prédio comercial sem graça nos fundos de um quarteirão industrial. Garry parou o carro e deu uma fungada cética.

— Tem certeza de que é o lugar certo? — perguntou, esforçando-se para

olhar para trás.

Conferi a localização.

— É o endereço que me deram.

— Vou ficar no carro, Louisa. Vou ligar para o Leonard de novo.

O corredor superior tinha uma fileira de portas, algumas delas abertas,

música nas alturas. Caminhei lentamente, verificando os números. Alguns

tinham latas de tinta de emulsão branca no lado de fora, e passei por uma porta

aberta que revelava uma mulher de calça jeans larga estendendo uma tela sobre

uma enorme moldura de madeira.

— Oi! Sabe onde posso encontrar o Steven?

Com um imenso grampeador de metal, a mulher disparou vários grampos na

tela.

— Quatorze. Mas acho que ele acabou de sair para comprar comida.

O quatorze ficava nos fundos. Bati, depois empurrei a porta com hesitação e

entrei. O estúdio estava cheio de telas, duas mesas enormes cobertas com bandejas de tinta a óleo e lápis pastel usado. As paredes estavam repletas de pinturas belíssimas, de grande formato, retratando mulheres em vários estágios

de desnudamento, algumas inacabadas. O ar tinha cheiro de tinta, terebintina e

cigarro velho.

— Olá.

Ao me virar, vi um homem segurando uma sacola de plástico branca. Tinha

por volta dos trinta anos, traços comuns, mas olhar intenso, barba por fazer no

queixo, usando roupas práticas e amarrotadas como se mal tivesse notado o que

tinha vestido. Parecia modelo de uma revista de moda particularmente

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esotérica.

— Oi. Louisa Clark. Falamos ao telefone mais cedo? Bem, nós não falamos...

Seu amigo Josh me disse para vir.

— Ah, sim. Você quer comprar um desenho.

— Não exatamente. Precisamos que você faça um desenho. Um pequeno.

Ele se sentou em um tamborete baixo, abriu a embalagem de macarrão

chinês e começou a comer, levando-o rapidamente à boca com os hashis.

— É para um evento de caridade. As pessoas fazem esses rab... desenhos pequenos — eu me corrigi. — Aparentemente vários artistas importantes de Nova York estão fazendo para outras pessoas, então...

— Artistas importantes — repetiu ele.

— Bom. É. Aparentemente não é uma coisa para a própria pessoa fazer, e Agnes, para quem eu trabalho, realmente precisa que alguém genial faça um desenho para ela. — Minha voz soava alta e ansiosa. — Quer dizer, não deve tomar muito do seu tempo. Nós... não queremos nada muito elaborado...

Ele estava me encarando e ouvi minha voz diminuir, fina e incerta.

— E nós... podemos pagar. Bastante bem — acrescentei. — E é para caridade.

Ele continuou comendo, os olhos fixos na embalagem de macarrão.

Permaneci perto da janela, esperando.

— Entendo — disse ele, quando acabou de mastigar. — Não sou a pessoa

certa.

— Mas Josh disse...

— Você quer que eu crie algo para satisfazer o ego de uma mulher que não

sabe desenhar e que não quer aparecer na frente das senhoras do clube... — Ele

balançou a cabeça. — Você quer que eu desenhe um cartão comemorativo.

— Sr. Lipkott. Por favor. Provavelmente não expliquei muito bem. Eu...

— Você explicou direitinho.

— Mas Josh disse...

— Josh não disse nada sobre cartões comemorativos. Odeio essa merda toda

de eventos de caridade.

— Eu também.

Agnes estava na porta. Ela deu um passo à frente e entrou na sala, olhando

para baixo para se certificar de que não estava pisando em um dos tubos de tinta ou nos papéis que estavam jogados pelo chão. Estendeu a mão comprida e

pálida.

— Agnes Gopnik. Também odeio essas merdas de eventos de caridade.

Steven Lipkott se levantou devagar e então, como se por um impulso

remanescente de uma época mais refinada e sobre o qual tivesse pouco

controle, estendeu a mão para cumprimentá-la. Ele não conseguia desviar os olhos do rosto dela. Eu havia esquecido que Agnes provocava esse efeito em quem a via pela primeira vez.

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— Sr. Lipkott... está correto? Lipkott? Sei que não se trata de uma coisa normal para o senhor. Mas tenho que enfrentar esse evento em uma sala cheia

de bruxas. Sabe? Bruxas de verdade. E eu desenho como uma criança de três anos usando luvas. Se eu tiver que ir e mostrar um desenho meu, elas vão zombar de mim mais do que já fazem.

Agnes se sentou e tirou um cigarro da bolsa. Estendeu a mão, pegou um isqueiro que estava em uma das bancadas de pintura e acendeu o cigarro.

Steven Lipkott ainda a examinava, os hashis quase caindo das mãos.

— Não sou daqui. Sou uma massagista polonesa. Nenhuma vergonha nisso.

Mas não quero dar àquelas bruxas a chance de me esnobarem de novo. Sabe qual é a sensação de ser esnobada pelas pessoas?

Agnes soltou o ar, olhando para Steven, a cabeça inclinada, de modo que a fumaça foi flutuando na direção dele. Acho que ele deve ter inalado.

— Eu... ahn... sim.

— Então é só essa coisinha que estou pedindo. Para me ajudar. Sei que não é

a sua, e que você é um artista sério, mas eu realmente preciso de ajuda. E vou

pagar muito bem.

A sala ficou em silêncio. O celular vibrou no meu bolso de trás. Tentei ignorar. Eu sabia que não devia me mexer naquele momento. Nós três ficamos

paralisados ali por uma eternidade.

— Tudo bem — disse ele finalmente. — Mas com uma condição.

— Pode dizer.

— Vou desenhar você.

Por um minuto ninguém abriu a boca. Agnes ergueu uma sobrancelha e

depois deu um tragada lenta no cigarro, os olhos fixos nos dele.

— Eu.

— Não pode ser a primeira vez que pedem isso.

— Por que eu?

— Não banque a ingênua.

Ele então sorriu, e ela manteve a fisionomia séria, como se estivesse

decidindo se fora insultada. Seus olhos baixaram para os pés e, quando levantou

o rosto, lá estava, seu sorriso discreto, especulativo, um prêmio que ele achava

ter conquistado.

Ela amassou o cigarro no chão.

— Quanto tempo vai demorar?

Ele colocou de lado a embalagem de comida e pegou um bloco de papel

grosso branco. Talvez apenas eu tenha notado a maneira como a voz de Steven

baixou de volume.

— Depende da habilidade da senhora em se manter imóvel.

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* * *

Alguns minutos depois eu estava de volta no carro. Fechei a porta. Garry estava

ouvindo suas fitas.

“Por favor, habla más despacio.”

— Pohr fah-VOR, AH-bla má des-PAH-ci-u. — Ele bateu no painel com a

palma da mão gorda. — Ah, droga. Vou tentar de novo. AHblamahsdehsPaHciu.

— Praticou mais três frases e, então, se voltou para mim. — Ela vai demorar?

Olhei para fora, em direção às janelas opacas do segundo andar.

— Sinceramente, espero que não — respondi.

* * *

Agnes finalmente surgiu às 15h45, uma hora e quarenta e cinco minutos depois

de Garry e eu termos esgotado nossa conversa, já tão limitada. Depois de assistir a um programa de comédia da TV a cabo baixado no iPad (que ele não

ofereceu para compartilhar), Garry tinha cochilado, o queixo repousando no torso saliente enquanto ressonava de leve. Fiquei sentada no banco de trás do

carro, me sentindo cada vez mais tensa à medida que os minutos passavam, de

tempos em tempos mandando para Sam mensagens que eram variações do

mesmo tema: Ela ainda não voltou. Ainda não está de volta. Pelamordedeus, o que será que ela está fazendo lá? Ele havia almoçado em uma delicatessenzinha do outro lado da cidade e disse que estava com tanta fome que era capaz de comer quinze cavalos. Parecia bem-humorado, relaxado, e cada palavra que

trocávamos me dizia que eu estava no lugar errado, que eu devia estar ao lado dele, me recostando nele, sentindo sua voz ressoar no meu ouvido. Eu tinha começado a odiar Agnes.

E, de repente, lá estava ela, saindo a passos largos do prédio, com um grande

sorriso e um pacote plano embaixo do braço.

— Ah, graças a Deus — falei.

Garry acordou com um sobressalto e correu para dar a volta no carro e abrir

a porta para ela. Agnes entrou tranquilamente, como se tivesse ficado longe por

dois minutos em vez de duas horas. Trouxe consigo os aromas tênues de cigarro

e terebintina.

— Precisamos parar no McNally Jackson no caminho de volta. Comprar um

papel de embrulho bonito.

— Temos papel de embrulho em...

— Steven me falou de um papel especial feito a mão. Quero embrulhar nesse

papel especial. Garry, sabe que lugar é esse? Podemos dar uma passada no SoHo

no caminho de volta, está bem?

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Ela fez um gesto com a mão.

Afundei no banco, ligeiramente desesperada. Garry deu partida, fazendo a

limusine chacoalhar com delicadeza no chão esburacado do estacionamento

enquanto voltava para o que ele considerava civilização.

* * *

Eram 16h45 quando chegamos à Quinta Avenida. Assim que Agnes desceu do

carro, corri para o lado dela, segurando o pacote com o papel especial.

— Agnes, eu... eu estava pensando... aquilo que você tinha dito sobre eu sair

cedo hoje...

— Não sei se devo usar o Temperley ou o Badgley Mischka hoje à noite. O

que você acha?

Tentei me lembrar dos dois vestidos. Não consegui. Eu estava tentando

calcular quanto tempo levaria para chegar até a Times Square, onde Sam estava

me esperando.

— O Temperley, acho. Sem dúvida. É perfeito. Agnes. Você se lembra de ter

dito que eu poderia sair mais cedo hoje?

— Mas é um azul tão escuro. Não tenho certeza se esse tom de azul fica bem

em mim. E os sapatos que combinam me machucam no calcanhar.

— Conversamos na semana passada. Tudo bem por você? Eu realmente

gostaria de levar o Sam ao aeroporto para me despedir.

Eu me esforcei para não deixar transparecer a irritação em minha voz.

— Sam?

Ela cumprimentou Ashok com um gesto da cabeça.

— Meu namorado.

Ela refletiu um pouco.

— Humm. Tudo bem. Ah, elas vão ficar tão impressionadas com o desenho. O

Steven é genial, sabe? Genial de verdade.

— Então, eu posso ir?

— Claro.

Relaxei os ombros, aliviada. Se eu saísse em dez minutos, podia pegar o metrô para o sul e me encontrar com ele lá pelas cinco e meia. Isso ainda nos

daria uma hora e pouco juntos. Melhor do que nada.

As portas do elevador se fecharam atrás de nós. Agnes abriu o estojo de pó

compacto e verificou o batom, fazendo beicinho para o espelho.

— Mas talvez você deva ficar só até eu me vestir. Preciso de uma segunda opinião a respeito do Temperley.

* * *

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Agnes mudou de roupa quatro vezes. Já estava tarde demais para encontrar Sam em Midtown, Times Square ou qualquer outro lugar. Em vez disso, cheguei

ao JFK quinze minutos antes que ele tivesse que passar pela segurança. Abri caminho aos empurrões no meio dos outros passageiros até que finalmente o avistei, parado na frente do balcão de embarque, e me atirei pelas portas do aeroporto, batendo nas costas dele.

— Me desculpe. Me desculpe muitíssimo.

Nós nos abraçamos por um minuto.

— O que aconteceu?

— Agnes aconteceu.

— Ela não ia deixar você sair mais cedo? Pensei que ela fosse sua amiga.

— Ela estava totalmente obcecada por esse negócio de obra de arte e foi ficando tudo... Meu Deus, foi enlouquecedor. — Joguei as mãos para o alto. —

Afinal de contas, o que é que eu estou fazendo nesse emprego idiota, Sam? Ela

me fez esperar porque não conseguia decidir que vestido usar. Pelo menos Will

efetivamente precisava de mim.

Ele inclinou a cabeça e encostou a testa na minha.

— Tivemos a manhã de hoje.

Eu o beijei, segurando-o pelo pescoço para conseguir encostar meu corpo no

dele. Ficamos ali, de olhos fechados, o aeroporto se mexendo e balançando ao nosso redor.

E então meu celular tocou.

— Estou ignorando — falei, a cabeça no peito dele.

Continuou tocando, insistentemente.

— Pode ser ela.

Ele me afastou com delicadeza.

Deixei escapar um grunhido baixo, depois peguei o celular do bolso de trás e

levei ao ouvido.

— Agnes?

— Sou eu, Josh. Só estou ligando para saber como foi hoje.

— Josh! Humm. Ah. Sim, correu tudo bem. Obrigada!

Eu me virei ligeiramente, tapando o outro ouvido. Senti Sam se retesar ao meu lado.

— Então ele fez o desenho para vocês.

— Fez. Ela ficou superfeliz. Muito obrigada por providenciar tudo. Josh, eu estou no meio de uma coisa agora, mas obrigada. Foi mesmo incrivelmente gentil da sua parte.

— Fico contente de ter dado certo. Bem, me ligue, ok? Vamos tomar um café

uma hora dessas.

— Claro!

Ao desligar, percebi Sam me observando.

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— Josh — disse ele.

Coloquei o celular de volta no bolso.

— O cara que você conheceu no baile.

— É uma longa história.

— Certo.

— Ele me ajudou a arrumar esse desenho para a Agnes hoje. Eu estava

desesperada.

— Então você tem o telefone dele.

— É Nova York. Todo mundo tem o telefone de todo mundo.

Ele passou a mão pelo topo da cabeça e se virou.

— Não é nada. De verdade.

Dei um passo na direção dele, puxei-o pela fivela do cinto. Eu sentia o fim de

semana me escapando de novo.

— Sam... Sam...

Ele cedeu e colocou os braços em volta de mim. Apoiou o queixo no topo da

minha cabeça e moveu a dele de um lado para outro.

— Isso é...

— Eu sei — concordei. — Eu sei que é. Mas amo você e você me ama, e pelo

menos conseguimos fazer um pouco do lance de ficar pelados. E foi ótimo, não

foi? Esse lance de ficar pelados?

— Por, digamos, cinco minutos.

— Os melhores cinco minutos das quatro últimas semanas. Cinco minutos

que vão me manter pelas próximas quatro semanas.

— Só que vão ser sete.

Enfiei as mãos nos bolsos de trás dele.

— Não vamos deixar isso acabar mal. Por favor. Não quero que você vá

embora com raiva por causa de um telefonema estúpido de alguém que não significa absolutamente nada para mim.

Como sempre, sua expressão ficou mais branda quando Sam manteve o olhar

fixo no meu. Era uma das coisas de que eu gostava nele, o modo como seus traços, tão brutos ao relaxarem, se derretiam quando ele olhava para mim.

— Não estou com raiva de você. Estou com raiva de mim mesmo. E da

comida do avião ou do burrito ou seja lá o que for. E dessa sua chefe que parece

não conseguir sequer colocar um vestido sozinha.

— Vou voltar no Natal. Por uma semana inteirinha.

Sam franziu a testa. Pegou meu rosto entre as mãos, que eram quentes e ligeiramente ásperas. Ficamos assim por um minuto e depois nos beijamos, e algumas décadas depois ele se endireitou e olhou o painel de voos.

— E agora você tem que ir.

— E agora eu tenho que ir.

Engoli o nó que tinha se formado em minha garganta. Ele me beijou mais fevereiro/2018

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uma vez, depois jogou a mala sobre o ombro. Fiquei no saguão, observando por

um minuto inteiro o espaço que ele tinha ocupado até ser engolido pela segurança.

* * *

Em geral, não sou uma pessoa temperamental. Não sou muito boa em bater portas, ficar de cara amarrada, revirar os olhos. Naquela noite, porém, me comportei como uma nativa mal-encarada e voltei para a cidade abrindo espaço

no meio da multidão na plataforma do metrô, cotovelos para fora. Passei o trajeto inteiro conferindo a hora. Ele está na sala de embarque. Está embarcando. E... foi embora. No momento previsto para a decolagem do avião, senti alguma coisa afundar dentro de mim e fiquei ainda mais carrancuda.

Comprei sushi no caminho para casa e fui andando da estação do metrô até o prédio dos Gopnik. Quando cheguei ao meu quartinho, fiquei sentada encarando

o embrulho, depois a parede, e quando percebi que não conseguiria ficar ali sozinha com meus pensamentos, bati na porta de Nathan.

— Entre!

Nathan, de short de surfista e camiseta, assistia a uma partida de futebol americano, segurando uma cerveja. Ele me olhou e ficou aguardando, com um

ligeiro atraso, o sinal que as pessoas dão quando estão realmente focadas em outra coisa.

— Posso jantar aqui com você?

Ele desviou o olhar da tela novamente.

— Dia difícil?

Assenti.

— Precisa de um abraço?

Neguei com a cabeça.

— Só um abraço virtual. Se você for bonzinho comigo, provavelmente vou

cair no choro.

— Ah. Seu homem voltou para casa, não é?

— Foi um desastre, Nathan. Ele passou mal praticamente o tempo todo e

Agnes não me deu a folga que tinha prometido para hoje. Eu mal consegui estar

com ele, e, quando realmente consegui, as coisas foram ficando meio...

esquisitas entre nós.

Suspirando, Nathan baixou o volume da televisão, então deu um tapinha no

lado da cama. Subi nela e coloquei a comida no colo. Eu descobriria mais tarde

que manchei a calça de trabalho com molho shoyu. Apoiei a cabeça no ombro dele.

— Relacionamentos a distância são difíceis — afirmou Nathan, como se ele

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fosse a primeira pessoa a proferir tal coisa. Depois, ainda acrescentou: — Tipo,

realmente difíceis.

— Certo.

— Não é apenas o sexo, e o ciúme inevitável...

— Não somos ciumentos.

— Mas ele não é a primeira pessoa para quem você vai contar as coisas. As

pequenas coisas do dia a dia. E isso é importante.

Nathan me ofereceu a cerveja. Tomei um grande gole e a devolvi.

— A gente sabia que ia ser difícil. Quer dizer, conversamos sobre tudo isso antes de eu vir. Mas sabe o que está me incomodando mais?

Ele desviou o olhar da tela.

— O quê?

— Agnes sabia o quanto eu queria passar um tempo com Sam. Nós tínhamos

conversado sobre o assunto. Era ela que insistia que tínhamos que nos ver, que não podíamos ficar afastados, blá-blá-blá. E aí vai e me obriga a ficar com ela até o último minuto.

— Esse é o seu trabalho, Lou. Eles vêm em primeiro lugar.

— Mas ela sabia como era importante para mim.

— Talvez.

— Era para ela ser minha amiga.

Nathan ergueu uma sobrancelha.

— Lou. Os Traynor não eram patrões normais. Will não era um patrão

normal. Nem os Gopnik. Essas pessoas podem agir com gentileza, mas no final

das contas você precisa se lembrar de que é uma relação de poder. Uma transação de negócios. — Ele tomou um grande gole de cerveja. — Sabe o que

aconteceu com a última assistente pessoal dos Gopnik? Agnes contou para o Velho Gopnik que a mulher estava falando dela pelas costas, contando segredos.

Então eles mandaram a assistente embora. Depois de vinte e dois anos.

Demitiram.

— E ela estava?

— Ela estava o quê?

— Contando segredos?

— Não sei. Não é esse o ponto, não é?

Eu não queria contradizê-lo, mas explicar por que Agnes e eu éramos

diferentes significaria traí-la. Então eu não disse nada.

Nathan pareceu prestes a dizer algo, mas depois mudou de ideia.

— O que foi?

— Olha... ninguém consegue ter tudo.

— Como assim?

— Este emprego é ótimo, não é? Quer dizer, você pode não achar isso hoje,

mas está em uma situação privilegiada no coração de Nova York, com um bom

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salário e um patrão decente. Você tem oportunidade de ir para todo tipo de lugar fantástico e tem alguns bônus ocasionais. Eles compraram um vestido de

baile de quase três mil dólares para você, não foi? Eu viajei até as Bahamas com

o Sr. G uns meses atrás. Hotel cinco estrelas, quarto com vista para a praia, o pacote completo. E isso por apenas umas poucas horas de trabalho por dia.

Então, temos sorte. Mas, a longo prazo, o preço a pagar por tudo isso pode acabar sendo um relacionamento com uma pessoa cuja vida é completamente

diferente e que está a um milhão de quilômetros de distância. Essa é a opção que você faz quando segue em frente.

Eu o encarei.

— Eu só acho que você tem que ser realista sobre essas coisas.

— Não está ajudando, Nathan.

— Estou sendo sincero com você. E, ora, veja pelo lado bom. Soube que você

fez uma coisa incrível hoje com a história do desenho. O Sr. G me disse que ficou

realmente impressionado.

— Eles gostaram mesmo?

Tentei disfarçar minha satisfação.

— Nossa, cara. De verdade. Eles adoraram. Ela vai deixar aquelas mulheres

da caridade de queixo caído.

Eu me inclinei na direção dele, que aumentou o volume da TV novamente.

— Obrigada, Nathan — falei e abri a embalagem de sushi. — Você é um ótimo

amigo.

Ele fez uma leve careta.

— É. Esse troço aí de peixe. Alguma chance de você esperar até voltar para o

seu quarto?

Fechei a embalagem. Ele estava certo. Ninguém consegue ter tudo.

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10

Para: SreSraBernardClark@yahoo.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Oi, mãe

Desculpe por não ter respondido antes. Estou muito ocupada aqui! Nunca tenho um momento livre!

Fico feliz que tenha gostado das fotos. Sim, os carpetes são 100% lã, alguns tapetes são de seda, a madeira definitivamente não é compensado, e perguntei a Ilaria: eles mandam lavar as cortinas a seco uma vez por ano enquanto passam um mês nos Hamptons. Os faxineiros são muito competentes, mas Ilaria limpa o chão da cozinha todo dia, porque não confia neles.

Sim, a Sra. Gopnik realmente tem um chuveiro separado da banheira e um closet no quarto de vestir. Ela gosta muito do quarto de vestir e passa muito tempo lá dentro com o celular, falando com a mãe na Polônia. Não tive tempo de contar os sapatos, como você pediu, mas eu diria que são bem mais do que cem pares. Ela guarda todos empilhados em caixas com fotos coladas na frente para saber qual é qual. Quando ganha um sapato novo, faz parte do meu trabalho tirar a foto. Ela tem uma câmera só para isso!

Que bom que o curso de artes correu bem e as aulas de Melhor Comunicação para Casais parecem magníficas, mas diga ao papai que não tem nada a ver com o Negócio do Quarto. Ele me enviou três e-mails esta semana, perguntando se eu acho que ele devia fingir um sopro no coração. Que pena saber que o vovô tem andado doente. Ele continua escondendo os legumes embaixo da mesa? Tem certeza de que você precisa abrir mão do curso noturno? É uma pena.

Bom, tenho que ir. Agnes está me chamando. Vou mandar mais informações sobre o Natal, mas não se preocupe, estarei aí.

Amo você.

Bjs, Louisa

P.S.: Não, não vi o Robert de Niro de novo, mas, sim, se eu vir, sem dúvida vou falar que você gostou muito dele em A Missão.

P.P.S.: Não, juro que não passei tempo nenhum em Angola e não estou precisando urgentemente de uma transferência de dinheiro. Não responda a essas mensagens.

* * *

Não sou especialista em depressão. Eu não tinha nem mesmo entendido a minha própria depressão depois da morte de Will. Mas achei o humor de Agnes

especialmente difícil de entender. As amigas da minha mãe que sofriam de depressão — e aparentemente havia uma assombrosa quantidade de casos —

pareciam derrubadas pela vida, lutando no meio de uma névoa que descia até

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que não conseguissem ver nenhuma alegria, nenhuma perspectiva de prazer. A

depressão obscurece o caminho adiante. Dava para ver na maneira como

andavam, os ombros curvados, a boca estanque em estreitas rugas de

comiseração. Era como se a tristeza emanasse delas.

Agnes era diferente. Podia ser barulhenta e tagarela um minuto e chorona e

furiosa no seguinte. Haviam me contado que ela se sentia isolada, avaliada, carente de aliados. Mas essa situação nem sempre se encaixava. Porque, quanto

mais tempo eu passava com ela, mais eu reparava que, na realidade, essas mulheres não a intimidavam: elas a deixavam furiosa. Ela morria de ódio com a

injustiça dessa situação e gritava com o Sr. Gopnik; imitava-as com crueldade quando ele dava as costas, ou resmungava com raiva de Kathryn ou Ilaria e seus

estratagemas. Era volúvel, uma chama humana de afronta, rosnando sobre cipa

ou debil ou dziwka (eu dava um Google nessas palavras nas horas vagas até ficar constrangida).

E então, de repente, tornava-se alguém completamente diferente — uma

mulher que desaparecia pelos quartos e chorava baixinho, um rosto tenso e paralisado após um longo telefonema em polonês. A tristeza de Agnes se

manifestava em dores de cabeça, que eu nunca tinha certeza se eram reais.

Falei sobre isso com Treena no café com wi-fi liberado ao qual eu tinha ido

na minha primeira manhã em Nova York. Estávamos usando o áudio do

FaceTime, o que, em minha opinião, era melhor do que ficarmos olhando o rosto

uma da outra enquanto conversávamos — eu me distraía com a maneira como

o meu nariz parecia enorme, ou com o que alguém estava fazendo atrás de mim.

Também não queria que ela visse o tamanho dos muffins amanteigados que eu

estava comendo.

— Talvez ela seja bipolar — disse Treena.

— É. Eu pesquisei, mas não parece ser o caso. Ela não tem um

comportamento maníaco, por assim dizer, só meio... acelerado.

— Não tenho certeza se a depressão é uma doença tamanho único, Lou —

comentou minha irmã. — Além do mais, todo mundo nos Estados Unidos não tem alguma coisa de errado? As pessoas não tomam um monte de

comprimidos?

— Ao contrário da Inglaterra, onde a mamãe levaria você para um agradável

e revigorante passeio.

— Para levantar o ânimo.

Minha irmã deu um risinho.

— Ver as coisas por outro ângulo.

— Passe um pouquinho de batom. Para dar uma iluminada no rosto. Pronto.

Quem precisa de todos esses remédios ridículos?

Alguma coisa tinha acontecido com Treena e nossa relação desde que eu me

fora. Falávamos ao telefone um dia por semana e, pela primeira vez em nossa fevereiro/2018

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vida adulta, ela havia parado de reclamar comigo o tempo todo. Parecia

genuinamente interessada em como estava a minha vida, perguntando sobre o

trabalho, os lugares que eu tinha visitado e o que faziam as pessoas à minha volta durante o dia todo. Quando eu pedia algum conselho, geralmente ela me

dava uma resposta ponderada, ao invés de me chamar de tapada ou de

perguntar se eu entendia para que servia o Google.

Ela estava gostando de uma pessoa, segundo me confidenciara duas semanas antes. Haviam tomado uns drinques em um bar hipster em Shoreditch, depois

ido a um cinema pop-up em Clapton, e Treena tinha ficado nas nuvens durante vários dias depois disso. Minha irmã nas nuvens era uma novidade.

— Como ele é? Já deve dar para você me contar alguma coisa agora.

— Ainda não vou contar nada. Toda vez que falo dessas coisas elas dão errado.

— Nem para mim?

— Por enquanto. É... bem. Seja como for. Estou feliz.

— Ah. Então é por isso que você está tão boazinha.

— Como assim?

— Você está satisfeita. Achei que era porque finalmente estava aprovando o meu rumo na vida.

Ela riu. Normalmente minha irmã não ria, a não ser que fosse de mim.

— Só acho legal que tudo esteja dando certo. Você está com um ótimo

emprego aí nos Estados Unidos. Eu adoro o meu trabalho. Thom e eu estamos

curtindo muito a cidade. Sinto como se os horizontes estivessem realmente se

abrindo para todos nós.

Era uma afirmação tão improvável de ser feita por Treena que não tive

coragem de contar sobre Sam. Conversamos um pouco mais, sobre a mamãe

querer trabalhar meio período na escola local, mas não ter aceitado por causa

do estado de saúde do vovô, que vinha piorando. Terminei de comer o bolinho e

tomar o café e percebi que, embora estivesse interessada, não sentia nem um pouco de saudade de casa.

— Mas você não vai começar a falar com esse maldito e horroroso sotaque

desse lado do Atlântico, certo?

— Sou eu, Treen. Isso dificilmente vai mudar — falei, em um maldito e horroroso sotaque deste lado do Atlântico.

— Você é tapada mesmo — disse ela.

* * *

— Ah, meu Deus. Você ainda está aqui.

Na hora em que cheguei em casa, a Sra. De Witt estava de saída do prédio, fevereiro/2018

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vestindo as luvas embaixo do toldo. Dei um passo para trás, cuidadosamente evitando que os dentes de Dean Martin beliscassem minha perna, e sorri para

ela com educação.

— Bom dia, Sra. De Witt. E onde mais eu estaria?

— Achei que a dançarina erótica estoniana já tivesse dispensado você. Fico

surpresa que ela não tenha sentido medo de que você fugisse com o velho, como

ela fez.

— Não é exatamente o meu jeito de ser, Sra. De Witt — retruquei, em tom alegre.

— Ouvi quando ela ficou gritando no corredor uma noite dessas. Uma

algazarra horrível. Pelo menos a outra passou as duas décadas de cara

amarrada. Muito mais fácil para os vizinhos.

— Não vou comentar.

Ela balançou a cabeça e se preparou para sair, mas se deteve e olhou para a

minha roupa. Eu usava uma saia dourada plissada, meu colete de pele falsa e uma boina vermelha, parecendo um morango gigantesco, que Thom tinha

ganhado de presente de Natal dois anos antes e havia se recusado a usar porque

era muito de “menininha”. Nos meus pés, oxfords de um tom vermelho

brilhante, de uma marca boa. Eu os havia comprado na liquidação de uma loja

de calçados infantis e, na ocasião, ao perceber que cabiam, comemorei com socos no ar no meio de mães atordoadas e criancinhas aterrorizadas.

— A sua saia.

Olhei para baixo e me preparei para o comentário cruel que estivesse a caminho.

— Eu tinha uma igual, da Biba.

— Esta aqui é Biba! — falei, encantada. — Consegui em um leilão na internet há dois anos. Quatro libras e cinquenta! Só um buraquinho no cós.

— Tenho uma saia idêntica. Eu costumava viajar bastante na década de

sessenta. Sempre que ia a Londres passava horas naquela loja. Costumava

despachar malas inteiras só de vestidos da Biba para Manhattan. Não tínhamos

nada parecido por aqui.

— Que sonho. Já vi em fotos — falei. — Que coisa incrível poder fazer isso. O

que a senhora fazia? Quer dizer, por que viajava tanto?

— Eu trabalhava com moda. Para uma revista feminina. Era...

Balançou o corpo para a frente, acometida de um ataque de tosse, e eu esperei enquanto ela recuperava o fôlego.

— Bom. Deixa para lá. Você está com uma aparência bastante correta —

disse ela, colocando a mão na parede.

Em seguida, virou-se e saiu mancando rua acima, Dean Martin lançando

olhares malignos simultaneamente para mim e para o meio-fio atrás dele.

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* * *

O restante da semana foi, como Michael descreveria, interessante. O

apartamento de Tabitha no SoHo estava em obras e por isso, durante uma semana mais ou menos, o nosso se tornou um campo de batalha para uma série

de episódios de disputa por território aparentemente invisíveis para o olhar masculino, mas óbvios demais para Agnes. Eu a via falando aos sussurros exaltados com o Sr. Gopnik quando pensava que Tabitha estava fora de alcance.

Ilaria aproveitava seu papel de soldado raso. Ela fez questão de servir os pratos prediletos de Tab — pratos apimentados e carne vermelha —, nada que

Agnes comia, e, quando Agnes reclamava, ela alegava não saber de nada.

Assegurou-se de lavar a roupa de Tab primeiro que tudo, deixando-a

cuidadosamente dobrada em cima da cama, enquanto Agnes, de robe, corria pelo apartamento na tentativa de descobrir o que acontecera com a blusa que

tinha planejado usar naquele dia.

À noite, Tab ficava na sala de estar enquanto Agnes estava ao telefone com a

mãe, na Polônia. Ela cantarolava alto, rolando páginas no iPad, até que Agnes, em uma raiva silenciosa, se levantasse e batesse em retirada para seu quarto de

vestir. De vez em quando, Tab convidava amigas e elas ocupavam a cozinha ou a

sala de televisão, um bando de vozes barulhentas, fofocando, rindo, uma roda de

cabeças louras que ficava em silêncio se por acaso Agnes passasse por perto.

— É a casa dela também, meu bem — dizia o Sr. Gopnik suavemente, quando

Agnes protestava. — Ela cresceu aqui.

— Ela me trata como se eu fosse um acessório temporário.

— Com o tempo ela vai se acostumar com você. Ela ainda é uma criança em

vários sentidos.

— Ela tem vinte e quatro anos.

Agnes emitia uma espécie de rosnado, um som que eu tinha certeza de que

nenhuma mulher inglesa jamais saberia fazer (tentei algumas vezes), e jogava as mãos para o alto, exasperada. Michael passava por mim, o rosto impassível,

os olhos encarando os meus para indicar uma solidariedade muda.

* * *

Agnes me pediu para enviar por FedEx um pacote para a Polônia. Ela queria pagar em dinheiro e ficar com o recibo. A caixa era grande, quadrada e não muito pesada, e falamos sobre isso no seu escritório, que ela passara a trancar,

para desgosto de Ilaria.

— O que é?

— Só um presente para a minha mãe.

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Fez um gesto com a mão.

— Mas Leonard acha que gasto demais com a minha família e por isso não quero que ele saiba tudo o que eu mando.

Carreguei o pacote até a agência da FedEx na West 57th e esperei na fila.

Quando preenchi o formulário, o funcionário perguntou:

— Qual é o conteúdo? Para a Alfândega.

Percebi então que não sabia. Mandei uma mensagem para Agnes, que

respondeu rápido: Diga apenas que são presentes para a família.

— Mas que tipo de presente, senhorita? — perguntou o homem, com ar

cansado.

Mandei outra mensagem. Ouvi claramente alguém suspirar na fila, atrás de mim.

Tchotchkes.

Encarei a mensagem. Depois ergui o telefone.

— Desculpe. Não consigo pronunciar isso.

Ele olhou.

— É, senhorita. Isso não ajudou nada.

Falei de novo com Agnes, que respondeu:

Diga para ele se meter com a própria vida! Que intromissão dele querer saber o que estou mandando para a minha mãe!

Enfiei o celular no bolso.

— Ela disse que são cosméticos, um pulôver e alguns DVDs.

— Valor?

— Cento e oitenta e cinco dólares e cinquenta e dois centavos.

— Até que enfim — murmurou o funcionário do FedEx.

Entreguei o dinheiro e esperei que ninguém visse meus dedos cruzados na outra mão.

* * *

Na tarde de sexta-feira, quando começou a aula de piano de Agnes, fui para o meu quarto e liguei para Sam. Enquanto digitava os números, senti o familiar estremecimento de animação apenas com a perspectiva de ouvir a voz dele.

Alguns dias eu sentia tanta saudade dele que chegava a doer. Sentei e fiquei esperando enquanto chamava.

E uma mulher atendeu.

— Alô?

Era articulada, a voz ligeiramente rouca no fim das sílabas, como se tivesse

fumado vários cigarros.

— Ah, me desculpe. Devo ter ligado para o número errado.

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Rapidamente tirei o fone do ouvido e encarei a tela.

— Com quem você quer falar?

— Sam? Sam Fielding?

— Ele está no banho. Só um segundo, vou chamar.

A mulher tapou o bocal com a mão e gritou o nome dele, a voz um pouco abafada. Fiquei completamente imóvel. Não havia mulheres jovens na família de

Sam.

— Ele já vem — disse ela depois de um minuto. — Quem está falando?

— Louisa.

— Ah. Ok.

Telefonemas de longa distância podem deixar você estranhamente

sintonizada com ligeiras variações no tom e na ênfase, e alguma coisa naquele

“Ah” me deixou pouco à vontade. Eu estava prestes a perguntar com quem eu

estava falando quando Sam atendeu.

— Oi!

— Oi!

O ‘oi’ saiu de uma forma esquisita, meio quebrada, já que minha boca tinha

ficado seca de repente, e tive que repetir.

— O que aconteceu?

— Nada! Quer dizer, nada urgente. Eu... eu só, sabe, queria ouvir sua voz.

— Só um segundo, vou fechar a porta.

Eu podia visualizá-lo no pequeno vagão, fechando a porta do quarto. Quando

voltou, sua voz soava alegre, bem diferente da última vez que nos falamos.

— Então, como vão as coisas? Tudo bem com você? Que horas são aí?

— Passa das duas. Huuum, quem era aquela?

— Ah. É a Katie.

— Katie.

— Katie Ingram. Minha nova parceira.

— Ah, sim, Katie! Sei! Então... Hum... o que ela está fazendo na sua casa?

— Ah, ela só está me dando uma carona para o bota-fora da Donna. A moto

está na oficina. Problema com o escapamento.

— Então, ela está realmente cuidando de você!

Fiquei imaginando, distraída, se ele estaria enrolado em uma toalha.

— É. Ela mora logo aqui no final da rua, então faz todo o sentido.

Sam disse isso com a neutralidade casual de alguém que sabia que havia duas

mulheres o escutando.

— Então, para onde vocês todos vão?

— Aquele lugar de tapas em Hackney. O que era uma igreja antigamente. Não

tenho certeza se nós já fomos lá.

— Uma igreja! Ha-ha-ha! Então, vocês todos vão ter que se comportar muito bem!

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Eu ri, alto demais.

— Um bando de paramédicos em noite de folga? Duvido muito.

Houve um breve silêncio. Tentei ignorar meu estômago revirando. A voz de

Sam ficou mais suave:

— Tem certeza de que está bem? Você parece um pouco...

— Estou bem! Super! Já disse. Só queria ouvir a sua voz.

— Meu amor, é ótimo falar com você, mas preciso ir. Katie fez o maior favor

me dando carona, e nós já estamos atrasados.

— Tudo bem! Bom, tenha uma ótima noite! Não faça nada que eu não faria!

— Eu estava falando com pontos de exclamação. — E mande um beijo para Donna!

— Vou mandar. A gente se fala em breve.

— Amo você.

Soou mais lamentoso do que eu pretendia.

— Me escreva!

— Ah, Lou... — disse ele

E aí desligou. Fiquei encarando a tela do celular em um quarto para lá de silencioso.

* * *

Organizei uma sessão privada de um filme novo, em uma pequena sala de

cinema, para as esposas dos sócios do Sr. Gopnik e providenciei os petiscos que

seriam servidos. Questionei uma cobrança da floricultura por flores que não tinham sido entregues, depois corri até a Sephora e comprei dois frascos de esmalte que Agnes tinha visto na Vogue e queria levar para o campo.

Dois minutos depois de terminar meu horário e os Gopnik terem partido para a viagem de fim de semana, eu disse “não, obrigada” quando Ilaria me ofereceu as sobras de almôndega e corri para o quarto.

Então fiz uma coisa idiota. Procurei o nome dela no Facebook.

Não levou mais de quarenta minutos para filtrar a Katie Ingram certa das outras centenas de possibilidades. O perfil dela não estava bloqueado e tinha o

logotipo do NHS, o serviço de saúde. A descrição profissional dizia:

“Paramédica: Amo Meu Trabalho!!!” O cabelo podia ser ruivo ou louro-

avermelhado, era difícil dizer pelas fotos, e tinha possivelmente vinte e tantos

anos, era bonita com um nariz arrebitado. Nas primeiras trinta fotos que tinha

postado, aparecia rindo com os amigos, congelada no meio da Good Times.

Ficava irritantemente bem de biquíni (da Skiathos, de 2014!! Muito

divertido!!!!), tinha um cachorrinho peludo, uma queda por sapatos de salto vertiginosamente alto e uma melhor amiga com cabelo comprido escuro que

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gostava de beijar a bochecha dela nas fotos (por um tempo alimentei a

esperança de que ela fosse gay, mas ela fazia parte de um grupo do Facebook chamado Levanta a mão quem secretamente está adorando ver o Brad Pitt solteiro de novo!! ).

Seu “estado civil” estava marcado como solteira.

Rolei pelas publicações, secretamente me odiando por fazer isso, mas

incapaz de me controlar. Examinei as fotos, tentando encontrar alguma onde ela

parecesse gorda ou carrancuda ou talvez vítima de alguma terrível doença de pele escamosa. Cliquei várias vezes. E, quando eu estava prestes a fechar o notebook, parei. Lá estava, postada três semanas antes. Katie Ingram em um dia

claro de inverno, em seu uniforme verde-escuro, a mochila orgulhosamente aos

pés, diante de um estacionamento de ambulância na parte leste de Londres.

Dessa vez, seu braço estava em volta de Sam, também de uniforme, de pé, braços cruzados, sorrindo para a câmera.

“Melhor parceiro do MUNDO”, era a legenda. “Amando meu novo emprego!”

Logo embaixo, sua amiga de cabelo escuro havia comentado: “Imagino por

quê...?!” e acrescentou uma carinha dando uma piscadela.

* * *

Eis o que acontece com o ciúme. Não é bonito de ver. E a sua parte racional sabe

o motivo. Você não é ciumenta! Esse tipo de mulher é horrível! E não faz sentido! Se alguém gostar de você, vai ficar com você; e se não gostar o suficiente para ficar com você, então não vale a pena ficar com ele. Você sabe disso, pois é uma mulher madura e sensata de vinte e oito anos. Já leu os artigos

de autoajuda. Já assistiu ao Dr. Phil.

No entanto, quando você mora a mais de cinco mil quilômetros do seu

namorado paramédico lindo, fofo e sexy, e ele tem uma parceira nova que soa e

parece a Pussy Galore — uma mulher que passa pelo menos doze horas por dia

intimamente próxima do homem que você ama, um homem que já confessou

como tem achado difícil estar fisicamente longe —, então a sua parte racional é

esmagada pelo monstro gigantesco e acachapante que é o seu lado irracional.

Independentemente do que eu fizesse, eu não conseguia esquecer a imagem

dos dois. Como um negativo em preto e branco, ela ficou alojada em algum lugar

atrás dos meus olhos, me assombrando: o braço dela, ligeiramente bronzeado,

ao redor da cintura dele, seus dedos apoiados de leve no cós do uniforme dele.

Será que os dois estavam lado a lado em um happy hour, ela o cutucando por

causa de alguma piadinha interna? Seria Katie o tipo de mulher extremamente

afetuosa que estende a mão e toca no braço do cara para enfatizar algo? Será que ela tem um perfume bom, de modo que todo dia, quando ele vai embora, fevereiro/2018

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fica com a sensação indefinível de que alguma coisa está faltando?

Eu sabia que esse era o caminho para a loucura, mas não consegui me conter.

Pensei em ligar para ele, mas não tem nada mais típico de uma namorada insegura e perseguidora do que ligar às quatro da manhã. Meus pensamentos zumbiam e giravam, formando uma grande nuvem tóxica. E eu me odiava por causa deles. E eles zumbiam e pioravam ainda mais.

— Ah, seu parceiro não poderia ser um cara de meia-idade e simpático? —

murmurei para o teto.

E, em algum momento da madrugada, finalmente adormeci.

* * *

Na segunda-feira, nós corremos (só parei uma vez), depois fomos até a Macy’s e

compramos um monte de roupas para a sobrinha pequena de Agnes. Desta vez,

quando fui ao escritório da FedEx enviar o pacote para a Cracóvia, eu estava segura quanto ao conteúdo.

No almoço, Agnes me contou sobre a irmã: ela se casara jovem demais com o

gerente de uma cervejaria local, que a tratava de modo pouco respeitoso, e ela

agora se sentia tão oprimida e imprestável que Agnes não conseguia convencê-

la a deixá-lo.

— Todo dia ela chora com a minha mãe por causa das coisas que ele diz. Que

ela está gorda ou feia ou que ele podia ter conseguido coisa melhor. Aquele mau-caráter fedorento de merda. Um cachorro nem sequer ia mijar na perna dele, mesmo que tivesse bebido cem baldes de água.

Seu objetivo máximo, confidenciou, comendo a salada de acelga e beterraba,

era trazer a irmã para Nova York, para longe daquele homem.

— Acho que consigo convencer o Leonard a dar um emprego a ela. Talvez como secretária no escritório dele. Ou, melhor, como empregada lá em casa!

Então, podíamos nos livrar da Ilaria! Minha irmã é muito boa, sabe. Muito meticulosa. Mas ela não quer sair da Cracóvia.

— Talvez ela não queira interromper os estudos da filha. Minha irmã ficou muito nervosa quando levou Thom para Londres — falei.

— Humm — foi a resposta de Agnes.

Mas eu percebi que ela não considerava isso um obstáculo. Fiquei pensando

se as pessoas ricas não veem obstáculos em nada.

* * *

Não fazia nem meia hora que tínhamos retornado quando ela olhou o telefone e anunciou que iríamos para East Williamsburg.

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— O artista? Mas achei...

— Steven está me ensinando a desenhar. Aulas de desenho.

Pisquei.

— Tudo bem.

— É uma surpresa para o Leonard, então não fale nada.

Ela não olhou para mim durante todo o trajeto.

* * *

— Você está atrasada — disse Nathan quando cheguei em casa.

Ele estava saindo para jogar basquete com alguns amigos da academia, uma

bolsa de apetrechos no ombro e o capuz do moletom na cabeça.

— Estou.

Deixei minha bolsa tombar e enchi uma chaleira. Tirei uma embalagem de

macarrão japonês do saco plástico e o coloquei na bancada.

— Foi a algum lugar interessante?

Hesitei.

— Só... aqui e ali. Sabe como ela é.

Liguei a chaleira.

— Você está bem?

— Estou ótima.

Senti o olhar dele fixo em mim até eu me virar e forçar um sorriso. Então ele

deu uns tapinhas nas minhas costas e se virou para sair.

— Um dia daqueles, não é?

Um dia daqueles mesmo. Fiquei encarando a bancada da cozinha. Não sabia o

que dizer a ele. Não sabia como explicar as duas horas e meia que eu e Garry havíamos esperado por ela no carro, olhando várias vezes para a luz na janela

escura e depois de volta para o celular. Após uma hora, Garry, cansado de suas

fitas de aula de idiomas, mandou uma mensagem para Agnes dizendo que um

funcionário do estacionamento avisou que ele precisava sair e que ela deveria

mandar uma mensagem quando quisesse ir embora, mas ela não respondeu.

Demos uma volta no quarteirão e ele abasteceu o carro; depois sugeriu que tomássemos um café.

— Ela não disse quanto tempo ia demorar. Isso em geral significa que vai demorar pelo menos duas horas.

— Isso já aconteceu antes?

— A Sra. G faz o que quer.

Ele comprou um café em uma lanchonete quase vazia, onde o cardápio

laminado trazia fotos mal-iluminadas de cada prato, e ficamos sentados quase

em silêncio, cada um monitorando o próprio celular à espera de um chamado fevereiro/2018

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dela, enquanto assistia ao entardecer de Williamsburg se tornar aos poucos uma noite iluminada por neon. Eu havia me mudado para a cidade mais

Continuar: parte 6 de 16