Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 14/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

— Ah, sei. Ele é muito persuasivo, nosso Josh.

Algo na risada dela me deixou desconfortável.

— Persuasivo? — repeti, depois de um instante.

— Ele fez a cena da galeria dos sussurros com você?

— Fez o quê?

Ela deve ter percebido minha expressão de choque e se inclinou na minha direção.

— Felicity Lieberman, você é a garota mais fofa de Nova York.

Ela olhou de relance para Josh e se afastou.

— Ah, não fique assim. O que aconteceu entre nós não foi sério. E Josh realmente gosta de você. Ele fala muito de você no trabalho. Com certeza está levando o relacionamento a sério. Mas, nossa, esses homens e suas cantadas, hein?

Tentei rir.

— Nossa.

Quando o Sr. Dumont já havia terminado seu discurso autoelogioso e os

casais começaram a ir embora, eu já sofria de uma ressaca precoce. Josh abriu a

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porta de um táxi para mim, mas eu disse que iria caminhando.

— Não quer ir lá para casa? Poderíamos comprar alguma coisa para comer.

— Estou cansada. E Margot tem uma consulta de manhã — falei.

Meu rosto doía por causa dos sorrisos falsos.

Os olhos dele me avaliaram.

— Você está chateada comigo.

— Não estou chateada com você.

— Está chateada comigo por causa do que eu disse sobre o seu emprego. —

Josh pegou a minha mão. — Louisa, eu não quis deixar você chateada, meu amor.

— Mas quis que eu fosse outra pessoa. Achou que eu não estava à altura deles.

— Não. Eu acho você incrível. É só que você poderia ser mais, porque tem tanto potencial, e eu…

— Não diga isso, ok? Essa história de potencial. É condescendente, ofensivo

e… Bem, eu não quero que me diga isso. Nunca. Está certo?

— Nossa.

Josh olhou para trás, talvez para checar se algum colega de trabalho estava

nos observando. E me segurou pelo cotovelo.

— Muito bem, o que realmente está acontecendo aqui?

Olhei para baixo. Não queria dizer nada, mas não consegui me conter.

— Com quantas?

— Com quantas o quê?

— Com quantas mulheres você já fez aquilo? A galeria dos sussurros?

Ele estava encurralado. Josh revirou os olhos e deu as costas por um instante.

— Felicity.

— Sim, Felicity.

— Está certo, você não é a primeira. Mas foi legal, não foi? Achei que você ia

gostar. Uau, eu só queria fazer você sorrir.

Ficamos parados, um de cada lado da porta do táxi, o taxímetro já contando a

corrida, e o motorista ergueu os olhos para o retrovisor, esperando.

— E você sorriu, certo? Tivemos um bom momento. Não tivemos?

— Mas você já havia tido aquele momento. Com outra pessoa.

— Por favor, Louisa. Sou o único homem a quem você já disse coisas bonitas?

Para quem se vestiu? Com quem fez amor? Não somos adolescentes. Cada um de nós tem um passado. — E cantadas testadas e aprovadas.

— Isso não é justo.

Respirei fundo.

— Desculpa. Não foi só a história do sussurro na estação de trem. Acho eventos como esse meio complicados de lidar. Não estou acostumada a fingir fevereiro/2018

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ser quem não sou.

Ele sorriu mais uma vez, a expressão mais suave.

— Ei. Esse dia vai chegar. São pessoas legais depois que você as conhece melhor. Até mesmo as que eu namorei.

Ele tentou sorrir.

— Se você diz.

— Vamos a uma partida de softbol da empresa. É um pouco mais tranquilo.

Você vai adorar.

Consegui sorrir.

Ele se inclinou para a frente e me beijou.

— Estamos bem? — perguntou Josh.

— Estamos bem.

— Tem certeza de que não quer ir lá para casa?

— Preciso ver como está Margot. Além do mais, estou com dor de cabeça.

— Isso é que dá beber demais! Beba bastante água. Você provavelmente está

desidratada. A gente se fala amanhã.

Ele me beijou, entrou no táxi e fechou a porta. Fiquei parada onde estava, observando, e ele acenou, então bateu duas vezes na janela que o separava do

motorista, para que o táxi partisse.

* * *

Conferi a hora no relógio do saguão ao chegar ao prédio e fiquei surpresa ao descobrir que eram apenas seis e meia. A tarde pareceu ter durado décadas.

Tirei os sapatos, sentindo o imenso alívio que apenas uma mulher conhece quando os dedos que estavam apertados em um sapato finalmente afundam em

um carpete macio, e subi descalça até o apartamento de Margot, com os sapatos

nas mãos. Eu estava cansada e irritada de um modo que não conseguia explicar

direito, como se tivesse sido convidada a participar de um jogo cujas regras eu

não entendia. Na verdade, tinha a sensação de que preferia ter estado em qualquer outro lugar que não onde eu estivera. E não parava de pensar em Felicity Lieberman perguntando Ele fez a cena da galeria dos sussurros com você?.

Quando entrei no apartamento, parei para cumprimentar Dean Martin, que

viera se balançando pelo corredor para me receber. A carinha amassada dele mostrava tanto prazer com o meu retorno que foi difícil continuar emburrada.

Eu me sentei no chão do corredor e deixei que o cãozinho saltasse ao meu redor, lambendo meu rosto com sua língua cor-de-rosa até eu sorrir de novo.

— Sou só eu, Margot — gritei.

— Ora, eu dificilmente pensaria que era o George Clooney — retrucou ela. —

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O que é lamentável para mim. Como foi com as Mulheres Perfeitas? Ele já a converteu?

— Foi uma tarde deliciosa, Margot — menti. — Todos foram muito gentis.

— Foi assim tão ruim, é? Você se incomodaria de me servir um pouco

daquele bom vermute se por acaso passar pela cozinha, meu bem?

— Que diabo é vermute? — murmurei para o cachorro, mas ele se sentou

para coçar uma das orelhas com a pata traseira.

— Tome um também, se quiser — acrescentou ela. — Desconfio que esteja

precisando.

Eu estava me levantando quando meu celular tocou. Senti um desânimo

momentâneo — provavelmente era Josh, e eu não estava preparada para falar com ele, mas quando chequei a tela, vi que era o número da minha casa. Levei o

celular ao ouvido.

— Pai?

— Louisa? Ah, graças a Deus.

Chequei o relógio.

— Está tudo bem, pai? Deve ser de madrugada aí.

— Meu amor, tenho más notícias. Seu avô.

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26

Em memória de Albert John Compton, o “Vovô”

Velório: Paróquia de Nossa Senhora e Todos os Santos,

Stortfold Green

23 de abril, 12h30

Todos serão bem-vindos em uma pequena reunião no pub Laughing Dog, na

Pinemouth Street

Em vez de flores, qualquer doação para o Fundo de Assistência aos Jóqueis

Feridos será bem-vinda.

“Nossos corações estão vazios, mas somos abençoados por ter amado você.”

* * *

Três dias depois, voei para casa a tempo de acompanhar o funeral. Preparei refeições para Margot suficientes para dez dias, congelei-as e deixei instruções

com Ashok para que ele subisse ao menos uma vez por dia ao apartamento com

um pretexto qualquer e se certificasse de que ela estava bem. Caso ela não estivesse, eu ao menos não depararia com um problema sério de saúde quando

voltasse, dali a uma semana. Adiei uma das consultas dela no hospital, certifiquei-me de que tivesse lençóis limpos, que Dean Martin tivesse comida o

bastante e paguei a Magda, uma passeadora de cachorros, para pegá-lo duas vezes por dia. Disse às meninas do Vintage Clothes Emporium que viajaria. Vi Josh duas vezes. Deixei que ele acariciasse meu cabelo, dissesse que sentia muito e que se lembrava de como tinha sido perder o próprio avô. Foi só quando eu finalmente estava no avião que me dei conta de que a miríade de maneiras pelas quais eu me mantivera ocupada havia sido um modo de não reconhecer a verdade do que acabara de acontecer.

O vovô se fora.

Outro derrame, disse meu pai. Ele e mamãe estavam sentados na cozinha,

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conversando, enquanto meu avô assistia à corrida de cavalos. Minha mãe foi até

ele para ver se queria mais chá e vovô já se fora, tão silenciosamente e em paz

que se passaram quinze minutos antes que meu pai e minha mãe se dessem conta de que ele não estava só dormindo.

— Ele parecia tão relaxado, Lou — contou papai, quando voltávamos do

aeroporto na van dele. — A cabeça inclinada para o lado, os olhos fechados, como se estivesse cochilando. Sabe, Deus me perdoe, nenhum de nós queria perdê-lo, mas esse deve ser um bom modo de partir, não deve? Em sua poltrona

favorita, na própria casa, com a velha TV ligada. Ele nem havia apostado nada

naquela corrida, então não é como se tivesse partido para a outra vida chateado

por não ter aproveitado o que ganhou.

Ele tentou sorrir.

Eu me sentia anestesiada. Foi só quando entrei em nossa casa com papai e vi

a poltrona vazia que consegui me convencer de que era verdade. Eu nunca mais

o veria, nunca mais sentiria as velhas costas encurvadas sob meus dedos quando o abraçasse, nunca mais prepararia uma xícara de chá para ele, ou interpretaria seu silêncio, ou brincaria com ele por trapacear no Sudoku.

— Ah, Lou.

Minha mãe atravessou o corredor e me puxou para um abraço.

Eu a abracei e senti suas lágrimas pingarem em meu ombro, enquanto papai

permanecia de pé atrás dela, dando tapinhas carinhosos em suas costas e murmurando:

— Pronto, pronto, meu amor. Está tudo bem, está tudo bem.

Como se dizer isso repetidamente fosse tornar a frase verdade.

* * *

Por mais que eu amasse meu avô, às vezes me perguntava distraidamente se, quando ele se fosse, minha mãe se sentiria de algum modo livre da

responsabilidade de cuidar dele. A vida dela estivera tão presa à de vovô, por tanto tempo, que ela poucas vezes conseguia um pouco de tempo só para si —

os últimos meses de saúde frágil dele a haviam obrigado a abandonar suas amadas aulas noturnas.

Mas eu estava errada. Ela ficou devastada, permanentemente à beira das

lágrimas. Recriminava-se por não estar na sala com vovô quando ele se fora, caía no choro ao ver os pertences dele e se questionava o tempo todo se poderia

ter feito mais. Estava inquieta, perdida, sem alguém de quem cuidar. Ela se levantava e se sentava, afofava almofadas, checava o relógio para algum

compromisso imaginário. Nos momentos em que ficava realmente infeliz,

dedicava-se a limpar a casa como uma louca, espanando poeiras inexistentes e

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esfregando os pisos até os nós dos dedos estarem vermelhos e esfolados. À

noite, nos sentamos ao redor da mesa da cozinha enquanto papai ia para o pub

— supostamente para ver como iam os últimos arranjos para a recepção após o

funeral — e minha mãe guardou a quarta xícara de chá que preparara por acidente para um homem que já não estava mais ali, então deixou escapar as perguntas que a vinham assombrando desde que ele morrera.

— E se eu pudesse ter feito algo? E se nós o tivéssemos levado para o hospital para mais exames? Talvez tivessem detectado o risco de mais

derrames.

Ela torcia um lenço nas mãos enquanto falava.

— Mas você fez todas essas coisas. Levou o vovô para milhões de consultas.

— Você se lembra daquela vez que ele comeu dois pacotes de biscoito com

cobertura de chocolate? Pode ter sido essa a causa do derrame. Ao que tudo indica, o açúcar agora é obra do demônio. Eu deveria ter colocado os biscoitos

em uma prateleira mais alta. Não deveria ter deixado que ele comesse aqueles

doces desgraçados…

— Ele não era criança, mãe.

— Eu deveria tê-lo feito comer mais legumes e verduras. Mas era difícil, sabe? Não se pode dar comida na boca de um adulto… Ah, meu Deus, eu não quis ofender. Quero dizer, com Will, obviamente era diferente…

Coloquei a mão na dela e vi seu rosto se franzir.

— Ninguém poderia ter amado o vovô mais do que você, mamãe. Ninguém

poderia ter cuidado dele melhor do que você.

Na verdade, o sofrimento dela me deixava desconfortável. Era muito próximo

de algo que eu já tinha sentido, e não fazia muito tempo. Eu estava cautelosa em

relação à tristeza de mamãe, como se fosse contagiosa, e acabei procurando desculpas para ficar longe dela, tentando me manter ocupada para que não precisasse absorver aquela emoção também.

* * *

Naquela noite, quando minha mãe e meu pai estavam debruçados sobre alguns

documentos do advogado, fui até o quarto do meu avô. Ainda estava como ele o

deixara, a cama feita, a cópia do Racing Post na poltrona, duas corridas de cavalo que aconteceriam na tarde seguinte circuladas com caneta azul.

Sentei-me de lado na cama, traçando com o indicador o padrão do bordado

da colcha. Na mesinha de cabeceira havia uma foto de minha avó nos anos cinquenta, com o cabelo arrumado em ondas perfeitas, o sorriso largo e

confiante. Eu tinha apenas lembranças passageiras dela. Mas meu avô havia sido uma presença constante em minha infância, primeiro na casinha mais

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adiante na rua (Treena e eu descíamos correndo até lá para pegar doces nas tardes de sábado, enquanto minha mãe ficava no portão), e depois, nos quinze

anos anteriores, em um quarto na nossa casa, o sorriso doce e vacilante dele pontuando meu dia, uma presença permanente na sala, com seu jornal e uma xícara de chá.

Pensei nas histórias que ele nos contava quando éramos pequenas, sobre o

tempo que passou na Marinha (histórias de ilhas desertas, macacos e coqueiros,

que não deveriam ser inteiramente verdadeiras). Pensei também nas rabanadas

que ele preparava na frigideira já escura — a única coisa que ele sabia cozinhar

— e em como, quando eu era bem pequena, ele contava piadas à minha avó que

a faziam chorar de rir. Então pensei nos últimos anos dele, quando eu o tratara

quase como parte da mobília. Não tinha escrito para ele. Nem telefonado. Havia

presumido que ele estaria por ali pelo tempo que eu quisesse. Será que ele se

importara? Será que sentira vontade de falar comigo?

Eu nem me despedira.

Lembrei-me das palavras de Agnes: de que nós, que viajávamos para longe de casa, sempre teríamos nosso coração em dois lugares. Apoiei a mão na colcha

bordada. E, finalmente, chorei.

* * *

No dia do funeral, desci a escada e encontrei mamãe limpando furiosamente a

casa, preparando tudo para os convidados, embora até onde eu sabia ninguém

fosse para nossa casa. Papai estava sentado à mesa, parecendo meio perdido —

o que não era uma expressão incomum quando ele falava com minha mãe

durante aqueles dias.

— Você não precisa arrumar um emprego, Josie. Não precisa fazer nada.

— Ora, preciso fazer alguma coisa com o meu tempo.

Mamãe tirou o casaco e dobrou-o com cuidado nas costas de uma cadeira

antes de se ajoelhar para tirar alguma partícula invisível de poeira de trás do armário. Sem me dizer nada, meu pai empurrou um garfo e uma faca em minha

direção.

— Eu só estava dizendo, Lou, meu amor, que sua mãe não precisa se apressar

a fazer nada. Ela está falando que vai direto para a agência de empregos depois

do funeral.

— Você tomou conta do vovô por anos, mãe. Deveria simplesmente

aproveitar que agora vai ter um pouco de tempo para si.

— Não. Eu me sinto melhor fazendo alguma coisa.

— Não teremos mais armários se ela continuar esfregando desse jeito —

resmungou meu pai.

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— Sente-se. Por favor. Você precisa comer.

— Não estou com fome.

— Pelo amor de Deus, mulher. Vai me fazer ter um derrame se continuar desse jeito.

Ele se encolheu assim que as palavras saíram de sua boca.

— Desculpe. Desculpe. Não tive a intenção…

— Mãe.

Fui até onde ela estava quando pareceu que não tinha me escutado e

coloquei a mão em seu ombro. Ela ficou imóvel por um instante.

— Mãe.

Ela se levantou e olhou pela janela.

— Que utilidade eu tenho agora? — perguntou.

— Como assim?

Mamãe ajeitou a cortina branca engomada.

— Ninguém mais precisa de mim.

— Ah, mãe, eu preciso de você. Todos nós precisamos de você.

— Mas você não está morando aqui, está? Nenhum de vocês, aliás. Nem

Thom. Estão todos a quilômetros de distância.

Eu e papai nos entreolhamos.

— Isso não significa que não precisamos de você.

— O vovô era o único que dependia de mim. Até mesmo você, Bernard,

ficaria muito bem com uma torta e um caneco de cerveja no pub toda noite. O

que vou fazer agora? Tenho cinquenta e oito anos e não sirvo para nada. Passei

a vida tomando conta de outras pessoas e agora não sobrou ninguém que

realmente precise de mim.

Os olhos dela estavam marejados. Por um minuto aterrorizante, pensei que

ela estava prestes a começar a berrar.

— Sempre precisaremos de você, mãe. Não sei o que eu faria se você não estivesse aqui. Você é como o alicerce de um prédio. Posso não vê-la o tempo todo, mas sei que você está ali. Me apoiando. A todos nós. Aposto que Treena diria o mesmo.

Ela me encarou, os olhos perturbados, como se não soubesse se deveria

acreditar naquilo.

— Você é importante mesmo. E esse… esse é um momento esquisito. Vai

levar um tempo para se acostumar. Mas você se lembra do que aconteceu

quando começou a fazer aulas noturnas? Como ficou animada? Como se você estivesse descobrindo pedaços de si mesma? Então, isso vai acontecer de novo.

A questão não é quem precisa de você… É você finalmente dedicar algum tempo

a si mesma.

— Josie — disse papai, baixinho —, vamos viajar. Vamos fazer todas aquelas

coisas que achávamos que não poderíamos fazer porque teríamos que deixá-lo.

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Talvez possamos visitar você, Lou. Uma viagem para Nova York! Entenda, meu

amor, sua vida não terminou, só vai ser diferente.

— Nova York? — indagou mamãe.

— Ah, meu Deus, eu adoraria isso — falei, enquanto pegava uma torrada. —

Eu poderia encontrar um bom hotel para vocês e aí visitaríamos todos os pontos turísticos.

— Você faria isso?

— Talvez possamos conhecer aquele milionário para quem você trabalha —

disse papai. — Ele pode nos dar umas dicas, certo?

Eu nunca chegara a contar a eles sobre a mudança em minhas circunstâncias.

Continuei comendo a torrada, inexpressiva.

— Nós? Irmos para Nova York? — disse mamãe.

Meu pai pegou uma caixa de lenços de papel e a estendeu para ela.

— Ora, por que não? Temos economias. E não podemos levá-las conosco para

o túmulo. O velho camarada sabia disso, pelo menos. Não espere nenhuma

grande herança, viu, Louisa? Estou com medo de passar pelo agente de apostas

e ele saltar em cima de mim dizendo que seu avô estava devendo dinheiro.

Minha mãe endireitou o corpo, o pano de limpeza ainda na mão. Olhou para o

lado.

— Você, eu e seu pai em Nova York. Bem, isso seria interessante, não é mesmo?

— Podemos procurar voos hoje à noite, se você quiser.

Eu me perguntei, por um instante, se convenceria Margot a dizer que seu sobrenome era Gopnik.

Mamãe levou a mão ao rosto.

— Ah, meu Deus, escutem só, eu fazendo planos e vovô ainda nem esfriou no

caixão. O que ele pensaria?

— Pensaria que isso é maravilhoso. Vovô adoraria a ideia de você e papai indo para os Estados Unidos.

— Acha mesmo?

— Sei que sim. — Fui até ela e a abracei. — Ele viajou o mundo com a Marinha, não foi? E também sei que ele gostaria da ideia de você voltar ao centro de educação para adultos. Não há motivo para desperdiçar todo o

conhecimento que adquiriu ao longo do ano passado.

— Embora eu também tenha certeza de que ele gostaria de pensar que você

ainda está deixando no forno algo para o meu jantar — acrescentou meu pai.

— Vamos, mamãe. Só precisa passar pelo dia de hoje e então começaremos a

fazer planos. Você fez tudo o que podia por ele, e sei que o vovô acharia que você merece que o próximo estágio da sua vida seja uma aventura.

— Uma aventura — murmurou ela.

Pegou um lenço de papel com papai para secar o canto do olho.

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— Como eu criei filhas tão sábias, hein?

Meu pai ergueu as sobrancelhas e, em um movimento hábil, tirou a torrada

do meu prato.

— Ah. Bem, isso deve ter sido influência paterna, sabe.

Ele gritou quando mamãe bateu com a toalha de chá em sua cabeça. Então,

quando ela deu as costas, papai sorriu para mim com uma expressão sincera de

alívio.

* * *

O funeral aconteceu, como sempre ocorre nos funerais, com graus variados de

tristeza, algumas lágrimas e uma porcentagem considerável da congregação

desejando saber a melodia dos hinos. Não foi uma reunião de tamanho

exagerado, como o padre disse de forma educada. Vovô saía tão raramente já no fim da vida que poucos de seus amigos souberam que ele havia falecido, embora

mamãe tivesse colocado um anúncio no Stortfold Observer. Ou isso, ou a maior parte deles também estavam mortos (no caso de alguns dos presentes ao

funeral, era bem difícil saber a diferença).

No cemitério, fiquei ao lado de Treena, com o maxilar tenso, e senti uma gratidão muito específica entre irmãs quando ela segurou minha mão e a

apertou. Eu me virei para trás e vi que Eddie dava a mão a Thom, que chutava

em silêncio as margaridas na grama, talvez tentando não chorar, ou talvez pensando nos Transformers ou no biscoito meio comido que ele enfiara no estofado do carro fúnebre.

Ouvi o sacerdote murmurar a oração já conhecida sobre pó e cinzas, e meus

olhos se encheram de lágrimas. Sequei-as com um lenço. Então, ergui os olhos e,

do outro lado do túmulo, atrás de um pequeno grupo de pessoas que

acompanhavam o enterro, estava Sam. Meu coração disparou. Senti uma onda de calor, algo entre medo e náusea. Nossos olhos se encontraram por um instante em meio às pessoas, então pisquei com força e desviei o olhar. Quando

me voltei na mesma direção, ele se fora.

* * *

Eu estava no bufê da recepção no pub quando me virei e o encontrei ao meu lado. Nunca o vira de terno, e encontrá-lo naquele momento, ao mesmo tempo

tão bonito e tão pouco familiar, me fez perder o ar. Resolvi lidar com a situação

da forma mais madura possível e simplesmente me recusei a reconhecer sua presença — para isso, concentrei o olhar com determinação nos sanduíches, como se eu tivesse acabado de ser apresentada ao conceito de comida.

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Sam ficou parado ali, talvez esperando que eu erguesse os olhos, então disse

baixinho:

— Sinto muito pelo seu avô. Sei como vocês são próximos na sua família.

— Não tão próximos, obviamente, ou eu teria estado aqui.

Ocupei-me arrumando os guardanapos na mesa, embora minha mãe

houvesse pagado para que tivéssemos garçons.

— Sim, bem, a vida nem sempre funciona desse jeito.

— Foi o que descobri.

Fechei os olhos por um instante, tentando tirar a amargura da voz. Respirei

fundo e finalmente olhei para ele, me esforçando para exibir uma expressão neutra.

— E como vai você?

— Nada mal, obrigado. E você?

— Ah. Bem.

Ficamos parados por um momento.

— Como está a casa?

— Adiantada. Eu me mudo no mês que vem.

— Uau.

Por um instante, fiquei espantada com o desconforto que senti. Parecia

improvável que alguém que eu conhecia pudesse construir uma casa do nada.

Eu a vira quando não passava de um retângulo de concreto no chão. E ele a terminara…

— Nossa, que… que impressionante.

— Eu sei. Mas sinto falta do velho vagão. Eu meio que gostava de morar lá. A

vida era… simples.

Nós nos encaramos e, então, desviamos o olhar.

— Como está Katie?

Uma brevíssima pausa.

— Ela está bem.

Minha mãe apareceu ao meu lado com uma bandeja de enroladinhos de

salsicha.

— Lou, meu bem, pode ir atrás da Treen? Ela ia servir esta bandeja de salgados para mim… ah, não. Ali está ela. Será que pode levar a bandeja para sua

irmã? Algumas pessoas perto dela ainda não comeram nad…

De repente, ela se deu conta da pessoa com quem eu estava falando. E

arrancou a bandeja das minhas mãos.

— Desculpe. Sinto muito. Não quis interromper.

— Você não interrompeu — falei, com um pouco mais de ênfase do que

pretendera.

Puxei a bandeja por uma das alças.

— Pode deixar, meu bem — disse mamãe, levando a bandeja em direção à

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própria cintura.

— Não, deixe comigo.

Segurei a bandeja com força, os nós dos meus dedos ficando brancos com o

esforço.

— Lou. Solte. Agora — disse ela com firmeza.

Seus olhos ardiam ao me encarar. Por fim, soltei a bandeja e minha mãe se

afastou, apressada.

Sam e eu ficamos parados perto da mesa. Sorrimos constrangidos um para o

outro, mas nossos sorrisos sumiram rápido demais. Peguei um prato e coloquei

um palito de cenoura nele. Não sabia se conseguiria comer alguma coisa, mas parecia estranho ficar parada ali com um prato vazio na mão.

— Então… Você vai ficar aqui por um tempo?

— Só uma semana.

— Como anda a vida por lá?

— Interessante. Fui demitida.

— Lily me contou. Eu a vejo bastante agora, com todo esse negócio com Jake.

— Sim, isso foi… uma surpresa.

Eu me perguntei por um instante se Lily contara a ele sobre a visita dela.

— Não para mim. Percebi desde que os dois se conheceram. Você sabe, ela é

ótima. Eles estão felizes.

Assenti, como se concordasse.

— Ela fala muito. Sobre o namorado incrível e sobre como você se recuperou

depois da história da demissão e encontrou um novo lugar para morar, e sobre

seu emprego naquele Vintage Clothes Emporium. — Ele parecia tão fascinado quanto eu pelos palitos de queijo. — Você deu um jeito em tudo, então. Ela está

impressionada com você.

— Duvido.

— Disse que Nova York combina com você. — Sam deu de ombros. — Mas

acho que nós dois já sabíamos disso.

Enquanto os olhos de Sam se fixavam em outra coisa, aproveitei para

observá-lo disfarçadamente. E a pequena parte de mim que não estava

morrendo ficou impressionada com o fato de duas pessoas que já haviam se sentido tão à vontade uma com a outra agora mal saberem como formular uma

frase em uma conversa.

— Tenho uma coisa para você. No meu quarto, em casa — falei

abruptamente. — Não sabia bem de onde tinha saído aquilo. — Eu trouxe

comigo na última vez, mas… você sabe.

— Uma coisa para mim?

— Não exatamente para você. É, bem, é um boné dos Knicks. Eu o comprei…

há algum tempo. Aquela coisa que você me contou sobre a sua irmã. Ela nunca chegou a ir ao 30 Rock, mas pensei que, bem, talvez Jake fosse gostar do boné.

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Sam me encarou.

Foi a minha vez de baixar os olhos.

— Mas provavelmente é uma ideia idiota — comentei. — Posso dar o boné

para outra pessoa. Não é exatamente difícil encontrar um lar para um boné dos

Knicks em Nova York. E talvez seja um pouco estranho dar presente para você.

— Não. Não. Ele adoraria. É muito gentil da sua parte.

Alguém buzinou do lado de fora e Sam olhou para a janela. Eu me perguntei

distraidamente se Katie estaria esperando no carro por ele.

Eu não sabia o que dizer. Não parecia haver uma resposta certa para nada daquilo. Tentei lutar contra o nó que surgira em minha garganta. Lembrei-me do baile dos Strager — eu presumira que Sam iria odiar, que ele não teria um

terno. Por que tinha pensado isso? O terno que ele estava usando naquele momento parecia ter sido feito sob medida.

— Eu vou… vou mandar para você, então. Sabe de uma coisa? — falei,

quando já não consegui mais suportar. — Acho melhor ajudar a minha mãe com

aquilo… com os… As salsichas que…

Sam deu um passo para trás.

— Claro. Eu só queria dar os pêsames. Vou indo.

Ele se virou e senti meu rosto se franzir. Era bom estar em um funeral, onde

ninguém prestaria muita atenção àquele tipo de expressão. Então, antes que eu

conseguisse me recompor, Sam se voltou para mim.

— Lou — disse ele, baixinho.

Não consegui falar. Só balancei a cabeça. Então o vi passar entre os

convidados e sair pela porta do pub.

* * *

Naquela noite, minha mãe me entregou um pequeno pacote.

— É do vovô? — perguntei.

— Não seja tonta — disse ela. — Seu avô nunca deu um presente a ninguém

nos últimos dez anos de vida. Isso é do seu namorado, Sam. Quando o vi hoje,

lembrei. Você deixou isto aqui na última vez que veio. Eu não sabia o que queria

que eu fizesse com o pacote.

Segurei a caixinha e tive uma súbita lembrança de nossa discussão à mesa da

cozinha. Feliz Natal, dissera Sam, deixando o pacote ali enquanto ia embora.

Mamãe se virou e começou a lavar a louça. Abri o pacote com delicadeza, afastando com um cuidado exagerado as camadas de papel de presente, como

se estivesse abrindo um artefato de outra época.

Dentro da caixinha havia um broche de esmalte com formato de ambulância,

talvez dos anos cinquenta. A cruz vermelha era feita de pedrinhas minúsculas,

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que poderiam ser rubis, ou pedras falsas. Fosse o que fosse, o broche cintilou em minha mão. Havia um bilhetinho dobrado na parte de cima da caixa. Para você se lembrar de mim enquanto estivermos separados. Com todo o meu amor,

Seu Sam da ambulância. Bjs.

Segurei o broche na palma da mão e minha mãe espiou por cima do meu

ombro. É raro ela escolher não falar. Mas, dessa vez, apenas apertou meu ombro, deu um beijo em minha cabeça e voltou a lavar a louça.

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27

Cara Louisa Clark, Meu nome é Vincent Weber — neto de Margot Weber, como eu a conheço. Mas você parece conhecê-la pelo nome de solteira, De Witt.

Sua mensagem me pegou de surpresa, porque meu pai nunca fala sobre a mãe dele — para ser honesto, por anos fui levado a acreditar que ela nem estava mais viva, embora agora me dê conta de que ninguém jamais colocou a situação nesses termos exatos.

Depois que recebi sua mensagem, perguntei a minha mãe e ela disse que houve uma grande briga bem antes de eu nascer. Mas andei pensando e decidi que, na verdade, isso não tem nada a ver comigo, e eu adoraria saber mais sobre ela (você pareceu dar a entender que ela não anda bem?). Não acredito que tenho outra avó!

Por favor, responda a esse e-mail. E obrigado por seus esforços.

Vincent Weber (Vinny)

* * *

Ele chegou no horário combinado, na tarde de quarta-feira, o primeiro dia realmente quente de maio, quando as ruas estavam cheias de corpos

abruptamente expostos e de óculos escuros recém-comprados. Não contei a

Margot sobre a visita porque (a) sabia que ela ficaria furiosa e (b) tinha uma forte sensação de que ela simplesmente sairia para caminhar até ele ir embora.

Abri a porta da frente e lá estava ele — um homem louro, alto, com a orelha furada em sete lugares, usando uma calça larga estilo anos quarenta, com uma

camisa vermelha, sapatos sociais marrons muito bem engraxados e um suéter

Fair Isle apoiado nos ombros.

— Você é Louisa? — perguntou, quando me inclinei para pegar o cachorro agitado.

— Ah, meu Deus — falei, observando-o de cima a baixo. — Vocês dois vão se

entender às mil maravilhas.

Atravessamos o corredor conversando aos sussurros. Demorou dois minutos

inteiros de latidos e rosnados de Dean Martin até que ela perguntasse:

— Quem era na porta, meu bem? Se for aquela mulher Gopnik horrorosa,

pode dizer que o jeito dela de tocar piano é uma tolice exibicionista e sentimental. E quem está falando isso é alguém que já viu Liberace tocar.

Ela começou a tossir.

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Dei alguns passos para trás e fiz sinal para que ele fosse para a sala de estar.

Abri a porta.

— Margot, você tem visita.

* * *

Ela se virou, o cenho ligeiramente franzido, as mãos apoiadas no braço da poltrona, e o examinou por uns longos dez segundos.

— Não conheço você — afirmou, decidida.

— Este é Vincent, Margot. — Respirei fundo. — Seu neto.

Ela o encarou.

— Oi, Sra. De Witt… vovó.

Vincent se adiantou e sorriu, então se agachou diante dela, que examinou o

rosto dele.

A expressão de Margot era tão intensa que achei que iria gritar com o neto.

Mas então ela deixou escapar algo que pareceu um pequeno soluço. Sua boca se

abriu cerca de meio centímetro e suas mãos ossudas se fecharam ao redor das

mangas da camisa dele.

— Você veio — disse ela, a voz um grasnado baixo, abalada, como se

emergisse de algum lugar no fundo de seu peito. — Você veio.

Margot o encarou, os olhos cintilando enquanto examinava as feições dele, como se já estivesse vendo semelhanças, histórias, lembranças esquecidas

muito tempo antes.

— Ah, mas você é tão, tão parecido com seu pai.

Ela estendeu a mão para tocar o rosto de Vincent.

— Gosto de pensar que tenho um gosto ligeiramente melhor — disse ele, sorrindo, e Margot deu uma risadinha engasgada.

— Deixe-me olhar para você. Ah, meu Deus. Você é tão bonito. Mas como me

encontrou? Seu pai sabe sobre…?

Margot balançou a cabeça, como se estivesse fazendo um monte de

perguntas atrapalhadas, enquanto os nós de seus dedos ficavam brancos nas mangas da camisa dele. Então, ela se virou para mim, como se houvesse se esquecido de que eu estava ali.

— Ora, não sei o que você está olhando, Louisa. A esta altura, uma pessoa normal já teria oferecido uma bebida a este pobre homem. Santo Deus. Há dias

em que não tenho ideia do que você está fazendo aqui.

Vincent pareceu espantado, mas eu me virei e segui em direção à cozinha com um sorriso feliz.

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28

— Foi assim — disse Josh, juntando as mãos.

Ele tinha certeza de que conseguiria a promoção. Connor Ailes não tinha sido

convidado para um jantar. Charmaine Trent, que fora transferida recentemente

do Jurídico, não tinha sido convidada para um jantar. Scott Mackey, gerente de

contas, tinha sido convidado para um jantar antes de se tornar gerente de contas, e dissera que estava certo de que a promoção de Josh era garantida.

— Quer dizer, não quero ficar confiante demais, mas tudo se resume ao

aspecto social, Louisa — disse ele, examinando seu reflexo no espelho. — Eles

só promovem pessoas que acham que conseguem se enturmar socialmente com

eles. Não se trata do que a pessoa sabe, entende? Eu estava me perguntando se

deveria começar a jogar golfe. Todos eles jogam golfe. Mas não jogo desde que

tinha, sei lá, treze anos. O que acha desta gravata?

— Está ótima.

Era uma gravata. Eu não sabia muito bem o que dizer. De qualquer modo, todas pareciam azuis. Ele deu o nó na gravata com gestos rápidos e seguros.

— Liguei para meu pai ontem e ele disse que o essencial é não parecer dependente deles, entende? Tipo… sou ambicioso e visto totalmente a camisa da empresa, mas, ao mesmo tempo, poderia ir para outra empresa a qualquer

momento, afinal sou muito disputado. Eles precisam se sentir ameaçados com a

possibilidade de você ir para outro lugar caso não o valorizem como devem, entende o que estou dizendo?

— Ah, sim.

Era a mesma conversa que já tivéramos quatorze vezes ao longo daquela

semana. Eu não tinha nem certeza se precisava dar respostas. Josh voltou a examinar seu reflexo no espelho, então, aparentemente satisfeito, foi até a cama

e se inclinou para passar a mão em meu cabelo.

— Passo para buscar você logo antes das sete, certo? Não se esqueça de passear com aquele cachorro antes, para não ficarmos presos. Não quero chegar

atrasado.

— Estarei pronta.

— Tenha um ótimo dia. Ah, foi incrível o que você fez com a família daquela

senhora, sabia? Realmente incrível. Você fez uma coisa boa.

Ele me beijou com determinação, já sorrindo por conta do dia que teria pela

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frente, e se foi.

Permaneci na cama, na exata posição em que Josh me deixou, usando uma

das camisetas dele e abraçando os joelhos. Então me levantei, me vesti e saí do

apartamento dele.

* * *

Ainda estava distraída quando acompanhei Margot ao hospital naquela manhã

para uma consulta. Apoiei a testa na janela do táxi e tentei fazer de conta que entendia o que ela estava falando.

— Pode me deixar aqui mesmo, meu bem — disse Margot, enquanto eu a

ajudava a descer do táxi.

Soltei o braço dela quando chegamos às portas duplas automáticas, que

abriram como se fossem engoli-la. Aquela era a nossa rotina em cada consulta.

Eu ficava do lado de fora com Dean Martin enquanto Margot seguia lentamente

pelo hospital, e eu voltava uma hora depois, ou quando ela resolvesse me chamar.

— Não sei o que deu em você esta manhã. Você está muito distraída. Inútil.

Ela ficou parada na entrada do hospital e me entregou a guia da coleira.

— Obrigada, Margot.

— Bem, é como viajar com um idiota. Seu cérebro está claramente em outro

lugar e você não está servindo como companhia. Minha nossa, precisei falar três

vezes até conseguir que fizesse uma coisa para mim.

— Desculpe.

— Bem, certifique-se de dedicar plena atenção a Dean Martin enquanto eu estiver lá dentro. Ele fica muito perturbado quando percebe que está sendo ignorado. — Ela ergueu um dedo. — Estou falando sério, minha jovem. Eu vou

saber.

Eu estava a meio caminho do café que tinha mesas do lado de fora e um garçom simpático quando me dei conta de que ainda estava segurando a bolsa

de Margot. Xinguei e corri de volta pela rua.

Entrei ainda correndo na recepção do hospital, ignorando os olhares dos

pacientes, que observavam o cachorro como se eu tivesse entrado com uma granada na mão.

— Oi! Preciso entregar uma bolsa para a Sra. Margot De Witt. Pode me dizer

onde a encontro? Por favor. Sou a cuidadora dela.

A mulher não tirou os olhos da tela quando perguntou:

— Não pode ligar para ela?

— A Sra. De Witt tem uns oitenta anos. Não usa celular. E, mesmo que usasse,

estaria na bolsa. Por favor. Ela vai precisar disto. Os remédios dela, as fevereiro/2018

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anotações, está tudo aqui.

— Ela tem consulta marcada hoje?

— Às onze e quinze. Margot De Witt.

Falei devagar, só para garantir.

A recepcionista checou a lista, passando um dedo com a unha pintada de forma extravagante pela tela.

— Certo. Sim, encontrei. A oncologia é ali, passando pelas portas duplas à esquerda.

— Desculpe, o quê?

— A oncologia. Descendo o corredor principal, passando pelas portas duplas

à esquerda. Se ela estiver com o médico, você pode deixar a bolsa com um dos

enfermeiros lá. Ou simplesmente deixe uma mensagem com eles para avisarem

a ela que você está aguardando.

Encarei a mulher, esperando que me dissesse que tinha cometido um erro.

Finalmente ela me olhou, com uma expressão indagadora, como se estivesse esperando que eu explicasse por que continuava parada diante dela, estupefata.

Peguei o cartão da consulta no balcão e me virei para sair.

— Obrigada — disse com a voz fraca, e saí para o sol com Dean Martin.

* * *

— Por que não me contou?

Margot se acomodou no táxi e desviou os olhos de mim teimosamente, com

Dean Martin arfando em seu colo.

— Porque não é da sua conta. Você teria contado a Vincent. E eu não queria

que ele se sentisse na obrigação de me visitar só por causa de um câncer idiota.

— Qual é o seu prognóstico?

— Não é da sua conta.

— Como… como se sente?

— Exatamente como me sentia antes de você começar a fazer todas essas

perguntas.

Agora tudo fazia sentido. Os comprimidos, as consultas frequentes no

hospital, a perda de apetite. As coisas que eu pensara serem apenas sinais da idade avançada e da assistência médica excessivamente atenta dos Estados

Unidos tinham, na verdade, escondido uma falha sísmica muito mais grave. Eu

me sentia enjoada.

— Não sei o que dizer, Margot. Sinto…

— Não estou interessada em seus sentimentos.

— Mas…

— Não ouse ficar toda melosa comigo agora — disse ela, irritada. — O que

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aconteceu com aquela fleuma inglesa? A sua é feita de marshmallow?

— Margot…

— Não vou falar sobre isso. Não há nada a dizer. Se vai insistir em ficar toda

fresca comigo, pode se mudar para o apartamento de outra pessoa.

Quando chegamos ao Lavery, ela saiu do táxi com um vigor fora do comum.

Eu ainda estava terminando de pagar o motorista e Margot já entrara no saguão

do prédio sem mim.

* * *

Quis conversar com Josh sobre o que acontecera, mas, quando mandei uma

mensagem de texto, ele disse que estava muito ocupado e que eu poderia contar

tudo à noite. Nathan estava ocupado com o Sr. Gopnik. Ilaria talvez se apavorasse ou, pior, acabasse insistindo em passar toda hora na casa de Margot

para brindá-la com seus cuidados peculiares e bruscos e para entregar pratos requentados de carne de porco. Na verdade, não havia mais ninguém com quem

eu pudesse conversar.

Enquanto Margot tirava sua soneca da tarde, entrei silenciosamente no

banheiro e, sob o pretexto de estar limpando, abri o armário e observei a prateleira de remédios, anotando os nomes, até encontrar a confirmação que buscava: morfina. Chequei os outros remédios que estavam no armário e

procurei por eles na internet até conseguir as respostas de que precisava.

Eu me senti profundamente abalada. E fiquei imaginando como deveria ser

encarar a morte assim, tão de frente. Perguntei-me quanto tempo restaria a Margot. Percebi que amava aquela velha senhora, com sua língua afiada e a mente ainda mais afiada, do mesmo modo como amava a minha família. E uma

parte bem pequena de mim se perguntava, de forma egoísta, o que aconteceria

comigo: eu estava feliz no apartamento de Margot. Talvez não imaginasse que

fosse um arranjo permanente, mas achava que teria ao menos um ano ou mais

ali. Agora, precisava encarar o fato de que eu estava andando sobre areia movediça mais uma vez.

* * *

Eu já havia me recomposto um pouco quando a campainha tocou, às sete em ponto. Atendi e lá estava Josh, imaculado. Nem mesmo a sombra de uma barba

por fazer.

— Como? — falei. — Como você consegue ter essa aparência depois de um

dia inteiro de trabalho?

Ele se inclinou para a frente e me deu um beijo no rosto.

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— Barbeador elétrico. Também deixei outro terno na lavanderia e me

troquei no trabalho. Não queria estar amassado.

— Mas com certeza seu chefe vai estar com o mesmo terno que usou o dia todo.

— Talvez. Mas não é ele que está de olho em uma promoção. Você acha que

estou bem?

— Olá, Josh, querido.

Margot passou por nós a caminho da cozinha.

— Boa noite, Sra. De Witt. Como está?

— Ainda estou aqui, querido. Isso é o máximo que você precisa saber.

— Bem, a senhora parece ótima.

— E você fala um monte de tolices.

Ele sorriu e se virou novamente para mim.

— Então, o que vai usar, meu amor?

Olhei para baixo.

— Ahn, isto?

Um breve momento de silêncio.

— Esta… meia-calça?

Olhei para minhas pernas.

— Ah, ela. Tive um dia difícil. Esta é a meia-calça que sempre uso quando quero me sentir melhor, é o meu equivalente a um terno recém-saído da

lavanderia. — Dei um sorriso triste. — Se ajudar, eu só uso esta meia-calça nas

ocasiões mais especiais.

Ele encarou minhas pernas por mais um momento, então passou a mão na

boca, bem devagar.

— Sinto muito, Louisa, mas ela não é apropriada para esta noite. Meu chefe e

a esposa são muito conservadores. E vamos a um restaurante elegante. Do tipo

que tem estrelas Michelin.

— Este vestido é Chanel. A Sra. De Witt me emprestou.

— Claro, mas o efeito do todo é um pouco…

Ele fez uma careta.

— Insano?

Quando não me mexi, ele estendeu as mãos e me segurou pelos braços.

— Querida, sei que você adora se vestir do seu jeito, mas poderia ser um pouco mais formal só para o meu chefe? Esta noite é muito importante para mim.

Olhei para as mãos dele e enrubesci. E me senti subitamente ridícula. Óbvio

que a minha meia-calça de abelhinha era errada para um jantar com um diretor

financeiro. O que eu estava pensando?

— Claro — falei. — Vou me trocar.

— Você não se importa?

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— De jeito nenhum.

Ele quase desabou de alívio.

— Ótimo. Pode fazer isso o mais rápido possível? Não quero me atrasar e o

trânsito está pesado por todo o caminho até a Sétima Avenida. Margot, posso usar o seu banheiro?

Ela assentiu, sem dizer uma palavra.

Corri para o meu quarto e comecei a revirar minhas coisas. O que uma

pessoa usa em um jantar elegante com gente de finanças?

— Socorro, Margot — falei, ouvindo-a entrar atrás de mim. — Devo trocar só

as meias? O que devo usar?

— Exatamente o que você está usando — respondeu ela.

Eu me virei para encará-la.

— Mas ele disse que não é adequado.

— Para quem? Por acaso existe um uniforme? Por que não pode ser você

mesma?

— Eu…

— Essas pessoas são tão tolas a ponto de não conseguirem lidar com alguém

que não se vista igualzinho a elas? Por que você precisa fingir ser alguém que

obviamente não é? Quer ser uma “dessas” mulheres?

Deixei cair o cabide que estava segurando.

— Eu… não sei.

Margot levou a mão ao cabelo recém-arrumado. E me encarou com o que

minha mãe chamaria de um olhar à moda antiga.

— Qualquer homem que tenha a sorte de ser seu namorado não deveria dar

a mínima se você saísse vestida com um saco de lixo e galochas.

— Mas ele…

Margot suspirou e tapou a boca com a mão, como as pessoas costumam fazer

quando têm mais a dizer, mas vão ficar quietas. Um momento se passou antes

que ela voltasse a falar:

— Meu bem, acho que, em algum momento, você vai ter que decidir quem

Louisa Clark é de verdade.

Ela deu um tapinha carinhoso em meu braço e saiu do quarto.

Fiquei parada, encarando o espaço onde Margot estivera. Olhei para minhas

pernas listradas e depois para as roupas em meu armário. Pensei em Will e no

dia em que ele me dera aquela meia-calça.

Um instante depois, Josh apareceu na porta, arrumando a gravata. Você não é ele, pensei de repente. Na verdade, não é nada parecido com ele.

— Então? — disse ele, sorrindo.

E logo assumiu uma expressão desanimada.

— Ah, pensei que você já estaria pronta…

Olhei para meus pés.

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— Na verdade… — comecei.

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29

Margot me disse que eu deveria viajar alguns dias para clarear os pensamentos.

Quando eu respondi que não faria isso, ela me perguntou por que não e acrescentou que eu obviamente não vinha pensando direito fazia algum tempo:

precisava organizar minhas ideias. Quando admiti que não queria deixá-la

sozinha, ela me disse que eu era uma garota ridícula, que não sabia o que era bom para mim. Margot me observou pelo canto dos olhos por um tempo, a mão

ossuda tamborilando no braço da poltrona em um movimento irritado, então se

levantou pesadamente e desapareceu, voltando alguns minutos depois com um

drinque Sidecar tão forte que fez meus olhos arderem no primeiro gole. Em seguida, ela mandou que eu sentasse o meu traseiro, falou que minhas fungadas

a estavam irritando e que eu deveria assistir a Roda da Fortuna com ela. Foi o que fiz, tentando não ouvir a voz de Josh, ultrajado e sem entender, ecoando em

minha cabeça.

Você está terminando comigo por causa de uma meia-calça ?

Quando o programa acabou, Margot me olhou, fez um tsc tsc alto, disse que

daquele jeito realmente não ia dar certo e que, então, viajaríamos juntas.

— Mas você não tem dinheiro.

— Santo Deus, Louisa. É muita falta de educação discutir assuntos

financeiros — repreendeu. — Fico chocada com a forma como vocês, jovens mulheres, são criadas para falar sobre essas coisas.

Ela me deu o nome do hotel em Long Island para onde queria que eu ligasse e

me instruiu a frisar que estava ligando em nome de Margot De Witt para conseguir um valor preferencial “familiar”. Acrescentou que vinha pensando no

assunto e que, se aquilo realmente me aborrecia tanto, eu poderia pagar para nós duas. E então, eu me sentia melhor agora?

E foi assim que paguei uma viagem para Montauk para mim, Margot e Dean

Martin.

* * *

Pegamos um trem que nos levou a um pequeno hotel romântico no litoral, para

onde Margot viajara todo verão por décadas até que a fragilidade física — ou financeira — a impedisse de continuar. Enquanto eu observava o lugar, os fevereiro/2018

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funcionários do hotel a recepcionaram na porta como se ela fosse, de fato, alguém da família que não viam fazia tempo. Almoçamos camarões grelhados com salada e a deixei conversando com o casal que tomava conta do lugar enquanto desci pela trilha até a praia grande, varrida pelo vento. Inspirei o ar

cheio de ozônio e fiquei olhando Dean Martin rodeando feliz as dunas de areia.

Ali, sob o céu gigante, tive a sensação, pela primeira vez em meses, de que meus

pensamentos não estavam infinitamente ocupados pelas necessidades e

expectativas de outras pessoas.

Margot, exausta pela viagem de trem, passou a maior parte dos dois dias seguintes na pequena sala de estar, observando o mar ou conversando com o patriarca do hotel, um idoso imponente chamado Charlie, com as feições

castigadas pelo tempo como um moai da Ilha de Páscoa, que assentia durante o

ininterrupto fluxo de conversa dela, balançava a cabeça e concordava que, não,

as coisas não eram como antes, ou, sim, as coisas certamente estavam mudando muito rápido por ali. E os dois esgotavam o assunto tomando pequenas xícaras

de café, então permaneciam sentados, satisfeitos em concordar sobre como

tudo se tornara terrível, por ter essa visão confirmada um pelo outro. Percebi muito depressa que meu papel fora simplesmente levá-la até ali. Margot mal parecia precisar de mim, a não ser para ajudá-la com peças de roupa mais difíceis de vestir e para caminhar com o cachorro. Ela passou a sorrir mais do

que eu a vira sorrir desde que a conhecera, o que já era uma ótima distração.

Assim, durante os quatro dias que se seguiram, tomei café da manhã em meu

quarto, li os livros da pequena estante do hotel, entreguei-me aos ritmos mais

lentos da vida em Long Island e fiz o que Margot mandava. Caminhei sem parar

até recuperar o apetite e silenciar os pensamentos em minha mente com o barulho das ondas, o som das gaivotas no céu permanentemente cinzento e o latido do cachorrinho empolgado que parecia não acreditar em sua sorte.

Na terceira tarde, sentei-me em minha cama, liguei para mamãe e contei a verdade sobre o que ocorrera comigo nos meses anteriores. Ao menos dessa vez ela não falou, apenas ouviu, e, no final, disse que achava que eu tinha sido

muito sábia e corajosa, e essas duas afirmações me fizeram chorar um

pouquinho. Ela colocou meu pai na linha e ele me disse que gostaria de chutar o

traseiro daqueles malditos Gopnik, que eu não deveria conversar com estranhos

e que deveria avisar a eles assim que voltasse com Margot para Manhattan.

Papai acrescentou que estava orgulhoso de mim.

— Sua vida… nunca é tranquila, não é mesmo, meu bem? — disse ele.

E eu concordei que não, não era, e me lembrei de dois anos atrás, da minha

vida antes de Will, quando a coisa mais empolgante que já me acontecera tinha

sido alguém exigir um reembolso no The Buttered Bun. Então percebi que

gostava de viver como vivia agora, apesar de tudo.

Na última noite, Margot e eu jantamos na sala de jantar do hotel, por desejo

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dela. Usei minha blusa de veludo cor-de-rosa e minha calça pantacourt de seda.

Margot vestiu uma blusa verde de estampa floral com franjas e calça

combinando (eu havia costurado um botão extra na cintura para que não

escorregasse pelos quadris dela), e nos divertimos silenciosamente com os olhos arregalados dos outros hóspedes enquanto éramos levadas a nossos

lugares na melhor mesa, perto da grande janela.

— Muito bem, querida. Esta é nossa última noite, por isso acho que devemos

nos permitir, concorda? — disse Margot, erguendo a mão em um gesto régio para os hóspedes que ainda nos encaravam. Eu estava me perguntando

exatamente o que deveríamos nos permitir quando ela acrescentou: — Acho

que vou pedir lagosta. E talvez champanhe. Afinal, desconfio que esta seja a última vez que venho aqui. — Comecei a protestar, mas ela me interrompeu: —

Ah, pelo amor de Deus. É um fato, Louisa. Indiscutível. Imaginei que vocês, garotas britânicas, fossem mais duronas.

Assim, pedimos uma garrafa de champanhe e duas lagostas. Enquanto o sol

se punha, saboreamos a carne deliciosa, temperada com alho, e quebrei as patas

da lagosta de Margot para ela, que já não tinha forças para aquilo. Ela chupou a

carne das patas fazendo barulhinhos de prazer e passou pequenos pedaços por

baixo da mesa, onde estava Dean Martin, diplomaticamente ignorado por todo

mundo. Dividimos uma enorme porção de batatas fritas (comi quase todas,

enquanto Margot colocava só algumas no prato e dizia que estavam deliciosas).

Ficamos sentadas em um silêncio saciado e cheio de companheirismo

enquanto o restaurante esvaziava aos poucos, e Margot pagou o jantar com um

cartão de crédito que raramente usava (“Estarei morta antes que venham atrás

do pagamento, rá!”). Então, Charlie se aproximou, caminhando com o corpo rígido, e colocou a mão gigantesca no ombro minúsculo dela. Ele disse que já ia

se recolher, mas que esperava ver Margot pela manhã, antes que ela partisse.

Disse também que fora um grande prazer revê-la, depois de todos aqueles anos.

— O prazer foi todo meu, Charlie. Obrigada pela estada maravilhosa.

Os olhos dela cintilavam de afeto, e os dois ficaram de mãos dadas até Charlie

se soltar com relutância e se virar para ir embora.

Continuar: parte 15 de 16