Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
— Fui para a cama com ele uma vez — disse Margot enquanto ele se
afastava. — Um homem encantador. Não era bom para mim, é claro.
Quando engasguei com minha última batata frita, ela me lançou um olhar
entediado.
— Eram os anos setenta, Louisa. Eu já estava sozinha havia tempo. Foi muito
bom vê-lo de novo. Viúvo agora, é claro. — Ela suspirou. — Como todos da minha idade.
Ficamos sentadas em silêncio por algum tempo, observando o oceano negro
e interminável. Bem ao longe, dava para ver as minúsculas luzes dos barcos pesqueiros, piscando. Perguntei-me como seria a sensação de estar lá, sozinha,
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no meio do nada.
Então Margot falou em voz baixa:
— Eu não esperava voltar aqui. Por isso, preciso agradecer a você. Foi… foi
revigorante.
— Para mim também, Margot. Eu me sinto… em ordem.
Ela sorriu para mim antes de se inclinar para acariciar Dean Martin. O
cachorro estava deitado embaixo da cadeira dela, roncando baixinho.
— Você fez a coisa certa, sabe, com Josh. Ele não era para você.
Não respondi. Não havia nada a dizer. Eu passara três dias pensando em quem eu poderia ter me tornado se tivesse continuado com Josh — rica,
semiamericana, até mesmo razoavelmente feliz — e descobrira que, depois de
poucas semanas, Margot me compreendia melhor que eu mesma. Eu teria me moldado para me encaixar na vida dele. Teria me livrado das roupas que amava,
das coisas de que mais gostava. Teria transformado meu comportamento, meus
hábitos, e me perdido no fluxo carismático dele. Teria me tornado uma esposa
executiva, culpando-me pelos pedaços de mim que não se encaixassem,
eternamente grata por aquele Will americano.
Não pensei em Sam. Eu me tornara muito boa nisso.
— Sabe — disse Margot —, quando se tem a minha idade, a pilha de
arrependimentos se torna tão grande que pode obscurecer terrivelmente a
visão.
Ela continuou com os olhos fixos no horizonte enquanto eu esperava,
perguntando-me a quem Margot estaria se dirigindo.
* * *
Três semanas se passaram sem grandes acontecimentos depois que voltamos
de Montauk. Não parecia mais ter qualquer certeza na minha vida, por isso decidi viver como Will me aconselhara, simplesmente estando presente em
cada momento, até ficar de mãos atadas de novo. Em algum ponto, eu
acreditava que a saúde de Margot ou suas dívidas estourariam a bolha em que
vivíamos e eu teria que marcar meu voo de volta para casa.
Até lá, aquele não era um modo desagradável de viver. As rotinas que
pontuavam meu dia me davam prazer — minhas corridas ao redor do Central
Park, meus passeios com Dean Martin, a preparação do jantar de Margot
(mesmo que ela não comesse muito) e nossa dedicação agora conjunta a assistir
a Roda da Fortuna, gritando letras para os prêmios surpresa. Dei uma melhorada em meu guarda-roupa, jogando-me em meu eu nova-iorquino com
uma série de looks que deixaram Lydia e a irmã de queixo caído. Às vezes, usava
peças que Margot me emprestava, e outras vezes usava coisas que tinha
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comprado no Emporium. Todo dia, parava diante do espelho no quarto vago de
Margot e examinava as roupas que eu tinha permissão para usar. E uma parte
de mim vibrava de alegria.
Trabalhei para as meninas do Vintage Clothes Emporium cobrindo alguns
turnos enquanto Angelica estava em Palm Springs vasculhando uma fábrica de
roupas femininas que, ao que parecia, guardava amostras de todos os itens que
haviam sido confeccionados desde 1952. Mantive o negócio no rumo ao lado de
Lydia, ajudando meninas de pele pálida a escolher vestidos para o baile de formatura e rezando para que os zíperes se mantivessem fechados enquanto ela
reorganizava as araras e reclamava sobre a quantidade de espaço desperdiçado
na loja.
— Sabe quanto custa o metro quadrado nesta área? — perguntou ela,
balançando a cabeça diante do cabideiro giratório solitário em um canto
distante. — É sério. Eu faria um estacionamento naquele canto se arrumasse um
jeito de enfiar carros aqui dentro.
Agradeci a uma cliente que acabara de comprar um bolero de tule enfeitado
com lantejoulas e fechei a gaveta da caixa registradora.
— Então por que não aluga o espaço? Para uma loja ou coisa assim? Isso lhe
garantiria mais uma fonte de renda.
— Sim, nós já conversamos sobre isso. Mas é complicado. No momento em
que envolvermos outros comerciantes no negócio, precisaremos instalar uma
divisória, arrumar um acesso separado e fazer seguro, e não saberemos quem
vai entrar e sair a qualquer hora. Estranhos junto das nossas coisas… É
arriscado demais.
Ela mascou o chiclete, fez uma bola e a estourou distraidamente com a unha
pintada de roxo.
— Além do mais, você sabe, não gostamos de ninguém.
* * *
— Louisa!
Ashok estava parado no tapete da entrada e bateu as palmas das mãos
enluvadas quando cheguei ao prédio.
— Vai a nossa casa no próximo sábado? Meena quer saber.
— O protesto continua acontecendo?
Nos dois sábados anteriores, eu não deixara de notar que houvera uma clara
diminuição no número de presentes. Os moradores do local já quase não tinham
mais esperanças. As palavras de ordem não eram mais gritadas com tanta
determinação agora que o orçamento da cidade apertara, e os manifestantes habituais começaram a não aparecer. Meses depois de a ação ter começado, fevereiro/2018
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apenas nosso pequeno grupinho permanecia firme, com Meena animando a
todos com garrafas de água e insistindo que a luta continuava.
— Ainda está acontecendo. Você conhece minha esposa.
— Então eu adoraria ir. Obrigada. Diga a ela que vou levar a sobremesa.
— Pode deixar.
Ele murmurou feliz para si mesmo diante da perspectiva de comida boa e me
chamou quando eu já chegava ao elevador.
— Ei!
— O que foi?
— Bela roupa, madame.
Naquele dia eu estava vestida em homenagem ao filme Procura-se Susan Desesperadamente. Usava uma jaqueta bomber de seda roxa com um arco-íris bordado nas costas, calça legging, camadas de camisetas e o braço cheio de braceletes que tilintavam deliciosamente cada vez que eu empurrava com força
a gaveta da caixa registradora (não fechava direito a não ser que se fizesse isso).
— Sabe — comentou Ashok, balançando a cabeça. — Não acredito que você
usava aquela camisa polo quando trabalhava para os Gopnik. Não tinha nada a
ver com você.
Hesitei quando a porta do elevador se abriu. Eu me recusava a usar o
elevador de serviço agora.
— Sabe de uma coisa, Ashok? Você está coberto de razão.
* * *
Em respeito ao status de proprietária de Margot, eu sempre batia na porta antes
de entrar no apartamento, embora tivesse a chave havia meses. Não houve resposta da primeira vez e tive que controlar o pânico automático que ameaçou
me dominar, dizendo a mim mesma que ela costumava colocar o rádio em
volume alto e que Ashok teria me avisado se houvesse algum problema.
Finalmente entrei com minha chave. Dean Martin veio se sacudindo pelo
corredor para me cumprimentar, os olhos vesgos de alegria com minha
chegada. Eu o peguei no colo e deixei que fuçasse meu rosto todo com o focinho
enrugado.
— Olá, garoto. Olá para você. Onde está sua mãe, hein?
Coloquei Dean Martin no chão e ele latiu e correu em círculos, empolgado.
— Margot? Margot, cadê você?
Ela saiu da sala usando o robe de seda chinesa.
— Margot! Está se sentindo mal?
Deixei a bolsa cair no chão e corri em sua direção, mas ela ergueu a mão.
— Louisa, aconteceu um milagre.
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Minha resposta saiu antes que eu tivesse a chance de me conter.
— Você está melhorando?
— Não, não, não. Entre. Entre! Venha conhecer meu filho.
Ela se virou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa e desapareceu na sala.
Fui atrás dela e um homem alto, usando um suéter em tom pastel, com uma barriguinha incipiente se destacando acima da fivela do cinto, levantou-se de uma poltrona para me cumprimentar.
— Esse é Frank Junior, meu filho. Frank, essa é minha querida amiga Louisa
Clark. Sem ela, eu não teria enfrentado os últimos meses.
Tentei disfarçar como fiquei aturdida.
— Ah. Nossa. É… digo o mesmo.
Eu me inclinei para cumprimentar a mulher ao lado de Frank, que usava um
suéter de gola alta e tinha cabelo claro e fino como algodão-doce, do tipo que ela provavelmente passara a vida tentando controlar.
— Sou Laynie — disse ela com uma voz aguda, como a de algumas mulheres
que parecem não abandonar a adolescência. — Esposa de Frank. Acho que é a
você que devemos agradecer por nossa pequena reunião familiar.
Ela secou os olhos com um lencinho bordado. Seu nariz estava muito
vermelho, como se houvesse chorado recentemente.
Margot estendeu a mão para mim.
— Acabou que Vincent, aquele danadinho ardiloso, contou ao pai sobre
nossos encontros e sobre minha… situação.
— Sim, o danadinho ardiloso com certeza sou eu — disse Vincent,
aparecendo na porta com uma bandeja. — Ele parecia relaxado e feliz. — É bom
vê-la de novo, Louisa.
Assenti, com um sorriso amarelo fixo no rosto.
Era estranho ver pessoas naquele apartamento. Eu estava acostumada ao
silêncio, a sermos só eu, Margot e Dean Martin. Sem Vincent com sua camisa xadrez e gravata Paul Smith entrando com nossa bandeja de jantar, sem o homem alto com as pernas imprensadas na mesa de centro e a mulher que não
parava de olhar ao redor da sala de estar, com os olhos ligeiramente
arregalados, como se nunca tivesse estado em um lugar como aquele.
— Eles me pegaram de surpresa, sabe — contou-me Margot, a voz falhando
um pouco, como se ela já tivesse falado demais. — Vincent me ligou para dizer
que passaria aqui, mas achei que era só ele. Então, a porta se abriu um pouco
mais e, ora, não consigo… Vocês devem estar chocados por eu estar de roupão.
Eu não tinha nem me arrumado para o dia, não é mesmo? Havia esquecido completamente até agora. Mas tivemos uma tarde deliciosa. Nem sei como
começar a lhe contar.
Margot estendeu a outra mão para o filho, que a pegou e apertou com
carinho. O queixo dele tremeu um pouco com a emoção reprimida.
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— Ah, foi mesmo mágico — disse Laynie. — Temos tanto para colocar em
dia. Acho sinceramente que foi trabalho de Deus nos reunir.
— Bem, Dele e do Facebook — brincou Vincent. — Aceita um café, Louisa?
Ainda tem um pouco no bule. Acabei de pegar alguns biscoitos, só para o caso
de Margot querer comer alguma coisa.
— Ela não vai comer esses biscoitos — falei, antes que conseguisse me deter.
— Ah, ela está certíssima. Não como biscoitos, Vincent, querido. Esses na verdade são para Dean Martin. As gotas de chocolate não são de chocolate de verdade, está vendo?
Margot mal parava para respirar. Parecia completamente mudada. Era como se tivesse rejuvenescido uma década do dia para a noite. O brilho sem graça em
seu olhar se fora, substituído por algo suave. E ela não parava de tagarelar, animada.
Recuei em direção à porta.
— Bem, não… não quero atrapalhar. Com certeza vocês têm muito para
conversar. Margot, grite quando precisar de mim.
Eu me levantei e acenei com a mão sem saber bem por quê.
— Foi maravilhoso conhecer vocês. Estou muito feliz por todos.
— Achamos que o certo seria mamãe voltar conosco — falou Frank Junior.
Houve um breve momento de silêncio.
— Voltar para onde? — perguntei.
— Para Tuckahoe — disse Laynie. — Para nossa casa.
— Por quanto tempo? — indaguei. Eles se entreolharam. — Quero dizer, por
quanto tempo ela ficaria com vocês? Para que eu possa arrumar a mala dela.
Frank Junior ainda estava segurando a mão da mãe.
— Srta. Clark, perdemos muito tempo, mamãe e eu. E nós dois acreditamos
que seria ótimo se pudéssemos aproveitar ao máximo o tempo que ainda nos resta. Assim, precisamos fazer alguns… arranjos.
As palavras evidenciaram uma ponta de possessividade, como se ele já
estivesse deixando claro que tinha uma influência maior que a minha sobre Margot.
Olhei para ela, que retribuiu meu olhar, os olhos tranquilos e serenos.
— É isso mesmo — concordou.
— Espere. Você quer ir embora… — falei, e quando ninguém disse nada — …
daqui? Do apartamento?
A expressão de Vincent era solidária. Ele se virou para o pai.
— Por que não vamos embora agora, pai? — sugeriu ele. — Todos têm muito
para processar. Com certeza precisaremos resolver muita coisa. E acho que Louisa e vovó também têm que conversar.
Ele tocou meu ombro de leve quando saiu. Pareceu um pedido de desculpas.
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— Sabe, achei a esposa de Frank bastante agradável, embora não tenha a menor
ideia de como se vestir, a pobrezinha. Ele teve umas namoradas terríveis quando era mais novo, segundo a minha mãe. Por algum tempo, ela me mandou
cartas descrevendo as moças. Mas uma blusa branca de gola alta. Pode imaginar
esse horror? Uma gola alta branca.
A lembrança da roupa — ou talvez a rapidez com que Margot estava falando
— provocou uma crise de tosse. Entreguei um copo de água a ela e esperei que
se recuperasse. Todos haviam partido minutos depois da sugestão de Vincent.
Fiquei com a sensação de que foram embora por causa da insistência dele, pois
seus pais não queriam deixar Margot.
Eu me sentei na poltrona.
— Não consigo entender.
— Isso tudo deve parecer muito repentino para você. Foi simplesmente a
coisa mais extraordinária, Louisa, querida. Nós conversamos sem parar, e talvez
até tenhamos derramado algumas lágrimas. Ele continua igual! Foi como se nunca tivéssemos nos separado. Frank está do mesmo jeito… tão sério e
silencioso, mas ao mesmo tempo muito gentil, exatamente como na infância. E
aquela esposa dele é assim também… Então, do nada, os dois me convidaram para morar com eles. Tive a sensação de que já haviam conversado a respeito
disso antes de chegarem. E eu disse que iria. — Ela olhou para mim. — Ah, vamos, você e eu sabemos que não vai ser para sempre. Há um ótimo lugar a pouco mais de três quilômetros da casa deles para onde eu posso ir quando as
coisas se tornarem difíceis demais.
— Difíceis? — sussurrei.
— Louisa, não fique toda melosa por minha causa de novo, pelo amor de Deus. Quando eu não puder fazer as coisas sozinha. Quando estiver mal mesmo.
Sinceramente, não imagino que vá ficar com meu filho por mais que uns poucos
meses. Desconfio que foi por isso que eles ficaram tão confortáveis em fazer o
convite.
Ela deu uma risada irônica.
— Mas… mas não entendo. Você disse que nunca deixaria este lugar. Quero
dizer, e todas as suas coisas? Você não pode simplesmente ir embora.
Ela me encarou.
— É exatamente o que vou fazer.
Margot respirou fundo, o peito ossudo se erguendo dolorosamente por baixo
do tecido macio do roupão.
— Estou morrendo, Louisa. Sou uma mulher velha e não vou aguentar muito
mais tempo. E meu filho, que eu pensava que estava perdido para mim, teve a
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generosidade de engolir a mágoa e o orgulho e me estender a mão. Consegue imaginar? Consegue imaginar o que é alguém fazer uma coisa dessas por você?
Pensei em Frank Junior, nos olhos dele fixos na mãe, as cadeiras juntas, a mão dele segurando a dela com força.
— Por que eu escolheria permanecer neste lugar por mais um minuto sequer
se tenho a possibilidade de passar meu tempo com Frank? De acordar e vê-lo durante o café da manhã, de conversar sobre todas as coisas que não vi acontecer, de conhecer os filhos dele… e Vincent… o querido Vincent. Sabia que ele tem um irmão? Tenho dois netos. Dois! Enfim. Consegui pedir desculpas ao meu filho. Você tem ideia de como isso foi importante? Consegui pedir
desculpas. Ah, Louisa, podemos nos agarrar à mágoa por conta de um orgulho
equivocado ou podemos simplesmente nos entregar e aproveitar o tempo precioso que ainda nos resta. — Ela apoiou as mãos nos joelhos com firmeza. —
Então, é isso que planejo fazer.
— Mas você não pode. Não pode simplesmente ir embora.
Eu tinha começado a chorar. Não sabia de onde vinham aquelas lágrimas.
— Ah, menina querida, espero de coração que você não fique aborrecida com
isso. Vamos, vamos. Sem lágrimas, por favor. Preciso lhe pedir um favor.
Sequei o nariz.
— Essa é a parte difícil. — Margot engoliu com certo esforço. — Eles não vão
receber Dean Martin. Sentem muito mesmo, mas há problemas de alergia ou algo assim. E eu estava pronta a dizer a eles para deixarem de ser ridículos, que
ele tinha que ir comigo, mas, para ser honesta, tenho andado ansiosa com o que
vai acontecer com Dean Martin quando… você sabe, quando eu me for. Afinal, ele ainda tem anos de vida pela frente. Com certeza muito mais que eu. Então…
eu queria saber se você ficaria com ele para mim. Ele parece gostar de você. E só
Deus sabe por quê depois do modo terrível como você costumava arrastar a pobre criatura por aí. O animal deve ser a própria alma do perdão.
Eu a encarei através das lágrimas.
— Quer que eu fique com Dean Martin?
— Quero.
Olhei para o cachorrinho, que esperava ansioso aos pés dela.
— Estou lhe pedindo, como minha amiga, se… se consideraria a
possibilidade. Por mim.
Ela me encarava atentamente, os olhos claros examinando os meus, os lábios
franzidos. Meu rosto se contorceu. Estava feliz por Margot, mas me sentia arrasada por perdê-la. Não queria ficar sozinha de novo.
— Sim.
— Vai ficar com ele?
— É claro.
E comecei a chorar de novo.
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Margot suspirou, aliviada.
— Ah, eu sabia que você aceitaria. Sabia. E sei que vai cuidar dele.
Ela sorriu e, pela primeira vez, não me repreendeu por minhas lágrimas.
Inclinou-se para a frente, os dedos se fechando ao redor da minha mão.
— Você é esse tipo de pessoa.
* * *
Eles passaram no apartamento duas semanas mais tarde para levá-la embora.
Eu achara aquela pressa vagamente indecente, mas a verdade era que nenhum
de nós sabia quanto tempo restava a Margot. Frank Junior havia quitado a montanha de contas de condomínio atrasadas — um ato que poderia ser visto
apenas como ligeiramente menos altruísta quando a gente lembrava que isso significava que ele poderia herdar o apartamento, que já não seria mais reivindicado pelo Sr. Ovitz —, mas Margot escolheu ver a atitude do filho como
um ato de amor, e eu não tinha razão para não fazer o mesmo. Ele com certeza
parecia feliz por estar com a mãe de novo. O casal paparicou Margot, checou se
ela estava bem, se estava levando toda a medicação, se não se sentia cansada demais, ou zonza, ou mal, ou precisando de água, até ela unir as mãos e revirar
os olhos, fingindo irritação. Mas Margot estava empolgada. Praticamente não parara de falar sobre Frank desde que me contara.
Eu ficaria e tomaria conta do lugar “pelo futuro próximo”, de acordo com Frank Junior. Para mim, isso significava até que Margot morresse, embora ninguém dissesse isso em voz alta. Ao que parecia, o corretor de imóveis dissera
que ninguém iria querer alugar o apartamento como estava, e era um pouco indecoroso começar a reformá-lo antes do “futuro próximo”. Assim, eu fora agraciada com o papel de cuidadora temporária do lugar. Margot também repetiu várias vezes que isso ajudaria Dean Martin a ter alguma estabilidade enquanto se ajustava à nova situação. Não tenho certeza de que a saúde mental
do cão estava no topo da lista de prioridades de Frank Junior.
Margot levou apenas duas malas e usou um de seus conjuntos favoritos para
viajar, o casaquinho e a saia buclê cor de jade com um chapeuzinho
combinando. Completei a roupa com uma echarpe azul-escura de Saint-Laurent
amarrada ao redor do pescoço fino dela, para disfarçar o modo como ele se destacava, dolorosamente ossudo, e desenterrei um par de brincos cabochão turquesa como toque final. Fiquei preocupada com a possibilidade de ela sentir
calor, mas Margot parecia estar ficando cada vez mais magra e frágil,
reclamando de frio mesmo nos dias mais quentes. Fiquei parada na calçada do
lado de fora do prédio, com Dean Martin nos braços, observando Frank Junior e
Vincent supervisionarem o embarque da bagagem dela. Margot se certificou de
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que eles estavam com suas caixas de joias — ela planejava dar alguns dos itens
mais valiosos para a nora e outros para Vincent, “para quando ele se casasse”.
Então, aparentemente satisfeita por eles terem guardado tudo em segurança, ela caminhou devagar até mim, apoiando-se na bengala.
— Agora, querida. Eu lhe deixei uma carta com todas as minhas instruções.
Não contei a Ashok que estou partindo. Não quero agitação com relação a isso.
Mas deixei uma coisinha para ele na cozinha. Eu agradeceria se você pudesse entregar depois que eu for embora.
Assenti.
— Anotei tudo de que você precisa para Dean Martin em uma carta separada.
É muito importante que se atenha à rotina dele. É como ele gosta das coisas.
— Não precisa se preocupar. Vou garantir que ele seja feliz.
— E nada daqueles petiscos de fígado. Dean Martin implora por eles, mas fica
enjoado quando come.
— Nada de petiscos de fígado.
Margot tossiu, talvez por causa do esforço de falar, e esperou um instante até
se certificar de que tinha fôlego o suficiente. Apoiou-se na bengala e olhou para
o prédio que a abrigara por mais de meio século, a mão frágil por cima dos olhos para protegê-los do sol. Então, virou-se, o corpo rígido, e observou o Central Park, que fora a vista de sua janela por tanto tempo.
Frank Junior estava chamando do carro, o corpo inclinado para nos ver
melhor. A esposa dele estava de pé ao lado da porta do carona, usando um casaco impermeável de um tom azul-claro, apertando as mãos em um gesto
ansioso. Ao que parecia, ela não era uma mulher que gostava da cidade grande.
— Mãe?
— Um momento, obrigada, querido.
Margot se adiantou e parou bem na minha frente. Então, estendeu a mão
para o cachorro que eu segurava no colo e acariciou a cabeça dele três, quatro
vezes, com os dedos finos, parecendo marmorizados.
— Você é um bom companheiro, não é, Dean Martin? — disse ela baixinho.
— Muito bom companheiro.
O cachorrinho a encarou de volta, extasiado.
— E é mesmo o rapaz mais bonito.
A voz dela falhou na última palavra.
Dean Martin lambeu a mão de Margot, que deu um passo à frente e beijou a
cabeça enrugada dele com os olhos fechados e os lábios cerrados por um momento um pouco longo demais, o que fez o cachorro arregalar os olhinhos estrábicos e agitar as patas na direção dela. Margot ficou abatida.
— Eu… eu poderia levá-lo para ver você.
Ela manteve o rosto encostado no dele, os olhos fechados, ignorando o
barulho, o trânsito e as pessoas ao redor.
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— Ouviu o que eu disse, Margot? Quer dizer, depois que você estiver
acomodada, poderíamos pegar o trem e…
Ela endireitou o corpo, abriu os olhos e abaixou-os por um instante.
— Não. Obrigada. — Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Margot
deu as costas. — Agora o leve para passear, por favor, querida. Não quero que
ele me veja partir.
O filho dela saiu do carro e ficou na calçada, esperando. Ele lhe ofereceu a mão, mas ela não aceitou. Tive a impressão de vê-la piscando para afastar as lágrimas, mas era difícil dizer, já que meus próprios olhos não conseguiam conter o choro.
— Obrigada, Margot — falei. — Por tudo.
Ela balançou a cabeça, os lábios contraídos.
— Agora, vá. Por favor, meu bem.
Então, virou-se na direção do carro enquanto o filho se aproximava, a mão estendida na direção dela. E não sei o que aconteceu depois porque coloquei Dean Martin na calçada, como ela me pedira, e saí andando depressa para o Central Park, a cabeça baixa, ignorando os olhares das pessoas curiosas que deviam estar se perguntando por que uma garota usando um short curto
cintilante e uma jaqueta bomber de seda roxa estava chorando às onze da manhã.
* * *
Caminhei pelo máximo de tempo que as pernas curtas de Dean Martin
aguentaram. E quando ele parou, em um ato de rebeldia, perto do Azalea Pond,
a linguinha minúscula para fora e um dos olhos ligeiramente caído, eu o peguei
no colo e o carreguei, meus próprios olhos inchados de tanto chorar, meu peito
a uma inspiração de distância de mais um soluço desolado.
Eu nunca fui uma pessoa louca por animais. Mas de repente compreendi o conforto de enterrar o rosto no pelo macio de outra criatura, o consolo garantido pelas várias pequenas tarefas que se é obrigado a fazer para
assegurar o bem-estar do bichinho.
— A Sra. De Witt saiu de férias?
Ashok estava atrás da mesa dele quando entrei, com a cabeça baixa e usando
meus óculos escuros de plástico azul.
Não tive energia para contar a ele naquele momento.
— Sim.
— Ela não me pediu para cancelar a entrega dos jornais. É melhor eu fazer
isso. — Ele balançou a cabeça e estendeu a mão para um livro com capa de couro. — Sabe quando ela volta para casa?
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— Eu lhe falo depois.
Subi lentamente a escada, o cachorrinho imóvel em meus braços, como se
estivesse com medo de que qualquer movimento seu me fizesse colocá-lo para
usar as pernas de novo. Então, entrei no apartamento.
Estava um silêncio mortal, já marcado pela ausência de Margot de um modo
como nunca acontecera quando ela estava no hospital, com partículas de poeira
se elevando no ar quente e parado. Em questão de meses, pensei, outra pessoa
moraria ali, arrancaria o papel de parede dos anos sessenta, se livraria da mobília em vidro fumê. O apartamento seria transformado, reformado, serviria
de refúgio para executivos ocupados ou de lar para uma família terrivelmente
rica com filhos pequenos. Eu senti um vazio ao pensar nisso.
Dei água a Dean Martin e um punhado de ração pastosa como agrado, então
andei devagar pelo apartamento, que ainda guardava as roupas, os chapéus, as
paredes de lembranças, e disse a mim mesma para não pensar nas coisas tristes,
mas no prazer no rosto daquela senhora diante da perspectiva de terminar seus
dias junto do único filho. A alegria fora tamanha que a transformara, animando as feições cansadas e fazendo seus olhos brilharem. Isso me fez pensar até que
ponto todos aqueles pertences, todas aquelas relíquias, não haviam sido um modo de Margot se proteger da dor imensa que sentia pela ausência dele.
Margot De Witt, rainha do estilo, extraordinária editora de moda, mulher à frente de seu tempo, havia construído um muro — encantador, chamativo e multicolorido, mas ainda assim um muro — para dizer a si mesma que tudo fora
por um objetivo. E, no momento em que o filho voltara, ela derrubara aquele muro sem nem olhar para trás.
* * *
Algum tempo mais tarde, quando minhas lágrimas haviam se transformado em
soluços espaçados, peguei o primeiro envelope em cima da mesa e abri. A carta
estava escrita na letra linda e sinuosa de Margot, um remanescente de uma época em que as crianças eram julgadas por sua caligrafia. Como prometido, continha detalhes da dieta preferida do cachorrinho, os horários em que ele deveria comer, as necessidades veterinárias e a agenda de vacinação, de
aplicação de antipulgas e vermífugos. A carta me orientava onde encontrar os diversos casacos de inverno dele — havia diferentes opções para chuva, vento e
neve — e informava qual era a marca de xampu favorita de Dean Martin.
Também era necessário limpar os dentes dele, as orelhas e (eu me encolhi ao ler) esvaziar suas glândulas anais.
— Ela não me disse isso quando me pediu para ficar com você — falei para
ele, que ergueu a cabeça, grunhiu e voltou a abaixá-la.
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Na sequência, Margot dava detalhes de para onde qualquer correspondência
deveria ser encaminhada, as informações de contato da empresa de mudanças
— os itens que eles não levariam deveriam permanecer no quarto dela, e eu deveria escrever um bilhete avisando a eles para não entrarem ali e prendê-lo
na porta do quarto. Toda a mobília, as luminárias e as cortinas poderiam ir. Os
cartões do filho e da nora dela estavam no envelope, e eu deveria entrar em contato com eles se precisasse de qualquer outro esclarecimento.
* * *
E agora vamos ao que importa. Louisa, não a agradeci pessoalmente por encontrar Vincent — o ato de desobediência civil que me trouxe uma felicidade inesperada —, mas gostaria de agradecê-la agora. E também por tomar conta de
Dean Martin. Há poucas pessoas em quem eu confiaria para cuidar dele de acordo com minhas instruções e para amá-lo como eu amo, mas você é uma delas.
Louisa, você é um tesouro. Sempre foi discreta demais para me contar os detalhes, mas não permita que o que quer que tenha acontecido com aquela família tola do apartamento vizinho ofusque sua luz. Você é uma criaturinha corajosa, linda e muito bondosa, e serei eternamente grata pelo fato de a perda deles ter sido o meu ganho. Obrigada.
Nesse espírito de agradecimento, gostaria de lhe oferecer meu guarda-roupa.
Para qualquer outra pessoa — exceto talvez para suas amigas mercenárias daquela loja lamentável — essas peças seriam lixo. Sei disso. Mas você vê minhas roupas como o que elas são. Faça o que quiser com elas — guarde algumas, venda outras, o que for. Mas sei que você terá prazer com elas.
Aqui vai o que eu penso que deveria fazer — embora saiba muito bem que ninguém quer saber a opinião de uma velha. Monte seu próprio negócio. Alugue as roupas, ou venda-as. Aquelas garotas da loja ficaram achando que as peças valem alguma coisa — ora, acho que essa seria uma carreira perfeita para você. Deve haver roupas o bastante para começar algum tipo de empreendimento. Mas, é claro, talvez você tenha outras ideias para seu próprio futuro, muito melhores.
Pode me contar o que decidir?
De qualquer modo, minha cara colega de apartamento, vou esperar ansiosa por notícias suas. Por favor, dê um beijo nesse cachorrinho por mim. Já sinto uma saudade terrível dele.
Com todo o meu carinho,
Margot
* * *
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Larguei a carta e fiquei sentada na cozinha por algum tempo, então fui até o
quarto de Margot, entrei no quarto de vestir e examinei os armários cheios, peça após peça.
Uma loja de aluguel de roupas? Eu não sabia nada sobre negócios, nada sobre
instalações, contabilidade ou sobre como lidar com o público. Estava morando em uma cidade cujas regras eu não compreendia inteiramente, sem um
endereço permanente, e havia fracassado em todos os empregos que tivera. Por
que diabo Margot acreditava que eu poderia começar um empreendimento
totalmente novo?
Passei os dedos por uma manga de veludo azul-escuro e tirei a roupa do cabide: um macacão Halston, com um decote quase até a cintura, protegido por
um tecido transparente. Voltei a pendurar o macacão com cuidado e peguei um
vestido — bordado inglês branco, a saia cheia de babados. Percorri aquela primeira arara repleta de cabides, estupefata, intimidada. Eu mal havia
começado a absorver a responsabilidade de ter um cão. O que deveria fazer com
três quartos cheios de roupas?
Naquela noite, fiquei sentada no apartamento de Margot e liguei a televisão
para ver Roda da Fortuna. Comi o que sobrara do frango que eu assara para o último jantar dela no apartamento (eu desconfiava que ela havia passado a maior parte do que estava em seu prato para Dean Martin, por baixo da mesa).
Não ouvi o que Vanna White falava, nem gritei letras para o prêmio surpresa.
Pensei no que Margot me dissera, e na pessoa que ela vira em mim.
Quem era Louisa Clark, afinal?
Eu era filha, irmã e uma espécie de mãe substituta por um tempo. Era uma
mulher que cuidava dos outros, mas que parecia não ter muita ideia, mesmo agora, de como tomar conta de si mesma. Enquanto a roda cintilante girava na
minha frente, tentei pensar no que queria de verdade, em vez de levar em consideração o que todos os outros pareciam querer para mim. Pensei no que
Will realmente quisera me dizer — para não viver uma ideia de segunda mão de
uma vida plena, mas para viver meu próprio sonho. O problema, acho, era que
eu nunca soubera que sonho era esse.
Pensei em Agnes, do outro lado do corredor, uma mulher tentando
convencer a todos de que era capaz de se encaixar em uma nova vida enquanto uma parte fundamental dela se recusava a parar de lamentar o papel que deixara para trás. Pensei em minha irmã, na satisfação recém-encontrada
depois que ela dera o passo necessário para compreender quem realmente era.
O modo como Treena havia se entregado com tanta facilidade ao amor depois
que se permitira fazer isso. Pensei em minha mãe, uma mulher tão acostumada
a tomar conta de outras pessoas que já não sabia mais o que fazer com seu tempo livre.
Pensei nos três homens que eu amara, em como cada um deles havia me
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transformado, ou tentado me transformar. Era inegável que Will tinha ficado gravado em mim. Eu vira tudo através do prisma do que ele me desejara. Eu também teria me transformado por você, Will. E agora compreendo… você provavelmente sabia disso o tempo todo.
Viva corajosamente, Clark.
“Boa sorte!”, gritou a apresentadora da Roda da Fortuna, e voltou a girá-la.
E me dei conta do que eu realmente queria fazer.
* * *
Passei os três dias seguintes inventariando o guarda-roupa de Margot,
separando as peças em grupos: seis décadas diferentes e, dentro de cada década, roupas para o dia a dia, para a noite e para ocasiões especiais. Separei
tudo que precisava de pequenos reparos — botões faltando, renda esgarçada, furinhos — e fiquei maravilhada com o modo como ela conseguira evitar as traças e o desgaste das costuras, muitas das quais permaneciam perfeitamente
alinhadas. Segurei algumas peças diante do corpo, experimentei outras,
erguendo as capas plásticas de proteção e deixando escapar baixinho
exclamações de prazer e espanto que faziam Dean Martin levantar as orelhas e,
em seguida, se afastar com desprezo. Fui até a biblioteca pública e passei metade do dia pesquisando sobre tudo o que era necessário para começar um
pequeno negócio: impostos, autorizações, documentos. Imprimi tudo e fui
guardando em uma pasta que ficava mais cheia a cada dia. Então, fiz uma visita ao Vintage Clothes Emporium com Dean Martin e me sentei com as meninas para pedir indicações dos melhores lugares para mandar lavar a seco peças delicadas e dos melhores armarinhos para encontrar forro de seda para
reparos.
Elas ficaram empolgadas ao saber do presente de Margot.
— Poderíamos comprar todo o lote de você — disse Lydia, soprando anéis de
fumaça para o alto. — Quer dizer, por algo assim, poderíamos pedir um
empréstimo no banco. Não é? Nós lhe pagaríamos um bom preço. O bastante para o depósito de aluguel em um apartamento realmente bom! Tivemos muito
interesse daquela empresa de TV alemã. Eles têm uma série de vinte e quatro
episódios com pessoas de várias gerações, que querem…
— Obrigada, mas ainda não decidi o que quero fazer com tudo — falei,
tentando não reparar no desânimo no rosto delas. Já me sentia um tanto possessiva em relação àquelas roupas. Inclinei-me para a frente, por cima do balcão. — Mas tenho outra ideia…
* * *
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Na manhã seguinte, eu estava experimentando um terninho verde de paletó e calça Ossie Clark, dos anos setenta, checando se havia costuras ruins ou furinhos, quando a campainha tocou.
— Só um segundo, Ashok. Deixe só eu pegar o cachorro — gritei, enquanto
pegava no colo um Dean Martin que latia furiosamente para a porta.
Michael estava parado à minha frente.
— Oi — falei friamente, depois de me recuperar do choque. — Algum
problema?
Ele se esforçou para não erguer uma sobrancelha por causa da minha roupa.
— O Sr. Gopnik gostaria de vê-la.
— Estou aqui legitimamente. A Sra. De Witt me convidou para ficar.
— Não tem a ver com isso. Para dizer a verdade, não sei do que se trata. Mas ele quer falar com você sobre alguma coisa.
— Sinceramente, não quero falar com ele, Michael. Obrigada, de qualquer
forma.
Fiz menção de fechar a porta, mas ele colocou o pé no caminho para impedir.
Olhei para o pé dele. Dean Martin deixou escapar um rosnado baixo.
— Louisa. Você sabe como ele é. O Sr. Gopnik me disse para não sair daqui
até você concordar.
— Diga para ele mesmo atravessar o corredor. Não é longe.
Michael abaixou a voz:
— Ele não quer ver você aqui. Quer vê-la no escritório. A sós.
Michael parecia desconfortável de um modo que não lhe era característico, como aconteceria com alguém que havia declarado ser seu melhor amigo para
então largá-lo como se você fosse uma batata quente.
— Diga a ele que posso ir até lá mais tarde esta manhã, então. Depois que eu
e Dean Martin fizermos nossa caminhada.
Ele continuou imóvel.
— O que foi?
A expressão dele era quase suplicante.
— O carro está esperando do lado de fora do prédio.
* * *
Levei Dean Martin comigo. Ele foi uma boa distração para a vaga sensação de ansiedade que me incomodava. Michael estava sentado ao meu lado na
limusine, e os olhinhos estrábicos de Dean Martin se fixavam nele e nas costas
do banco do motorista ao mesmo tempo. Fiquei em silêncio, me perguntando que diabo o Sr. Gopnik iria fazer agora. Se ele tivesse decidido me denunciar, sem dúvida teria mandado a polícia me pegar, não seu carro. Será que esperara
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de propósito Margot ter ido embora? Havia descoberto outras coisas para me culpar? Pensei em Steven Lipkott e no teste de gravidez e imaginei o que responderia se ele me perguntasse o que eu sabia. Will sempre dissera que eu
não conseguia manter uma expressão neutra. Ensaiei mentalmente Não sei de nada, até Michael me lançar um olhar penetrante e eu perceber que havia começado a falar em voz alta.
Fomos deixados diante de um enorme prédio de vidro, e Michael atravessou
depressa o saguão cavernoso revestido de mármore, mas me recusei a me
apressar e deixei Dean Martin seguir em seu próprio ritmo, embora percebesse
que isso estava enfurecendo Michael. Ele pegou um crachá com a segurança, entregou-o para mim e me guiou na direção de um elevador separado, nos fundos do saguão — o Sr. Gopnik claramente era importante demais para subir
e descer no mesmo elevador que os funcionários.
Subimos até o quadragésimo sexto andar a uma velocidade que fez meus
olhos saltarem tanto quanto os de Dean Martin, e tentei disfarçar o ligeiro tremor em minhas pernas quando saímos do elevador para o silêncio
sussurrado dos escritórios. Uma secretária, imaculadamente vestida em um
terninho e com um sapato de salto agulha, observou-me de cima a baixo —
imaginei que não deviam estar acostumados a receber pessoas vestindo um
terninho verde da Ossie Clark dos anos setenta, com viés de cetim vermelho, e
ainda por cima segurando um cachorrinho furioso. Segui Michael por um
corredor até outro escritório, onde havia mais uma mulher sentada, também vestida imaculadamente em seu uniforme formal.
— Trouxe a Srta. Clark para ver o Sr. Gopnik, Diane — disse ele.
Ela assentiu, ergueu um fone e murmurou alguma coisa para quem estava do
outro lado.
— Ele vai recebê-la agora — disse a mulher com um sorrisinho.
Michael apontou as portas para mim.
— Quer que eu fique com o cachorro? — perguntou.
Ele estava obviamente desesperado para que eu não entrasse com Dean
Martin.
— Não. Obrigada — respondi, segurando o cãozinho com um pouco mais de
força junto ao corpo.
A porta se abriu e lá estava Leonard Gopnik com camisa social.
* * *
— Obrigado por concordar em me ver — disse ele, fechando a porta depois de
entrarmos na sala.
O Sr. Gopnik indicou uma cadeira do outro lado da escrivaninha e contornou-
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a lentamente. Percebi que ele estava mancando bastante e me perguntei o que
Nathan estaria fazendo em relação a isso. Ele sempre fora discreto demais para
conversar a respeito.
Não falei nada.
O Sr. Gopnik se sentou pesadamente em sua cadeira. Reparei que parecia
cansado, que o bronzeado caro não conseguia esconder as olheiras e as rugas de
tensão no canto dos olhos.
— Está levando seus deveres muito a sério — comentou ele, gesticulando
para o cachorro.
— Sempre levo — falei.
E ele assentiu, como se fosse uma resposta justa.
Então se inclinou para a frente e encostou as pontas dos dedos umas nas outras.
— Não sou uma pessoa acostumada a ficar sem palavras, Louisa, mas…
confesso que é o que está acontecendo neste momento. Descobri algo há dois dias. Algo que me deixou muito abalado.
Ele olhou para mim. Eu o encarei de volta, minha expressão perfeitamente neutra.
— Minha filha, Tabitha, ficou… desconfiada de algumas coisas que ouviu e contratou um detetive. Não fiquei muito satisfeito com isso… Não somos uma família inclinada a investigar uns aos outros. Mas quando ela me contou sobre o
que o cavalheiro havia descoberto… Bem, não era algo que eu pudesse ignorar.
Falei com Agnes e ela me contou tudo.
Esperei.
— A criança.
— Ah — falei.
Ele suspirou.
— Durante as… várias discussões que tivemos, ela também explicou sobre o
piano e o dinheiro para comprá-lo, que, pelo que compreendo, você recebeu ordens de sacar, um pouco a cada dia, de um caixa automático próximo.
— Sim, Sr. Gopnik.
Ele baixou a cabeça, como se ainda guardasse uma mínima esperança de que
eu contrariasse os fatos, que dissesse que tudo aquilo não passava de bobagem,
que o detetive particular estava falando besteira.
Por fim, recostou-se pesadamente na cadeira.
— Parece que erramos feio com você, Louisa.
— Não sou uma ladra, Sr. Gopnik.
— Exatamente. E, ainda assim, por lealdade a minha esposa, você estava
disposta a me deixar acreditar que era.
Eu não entendi direito se aquilo era uma crítica.
— Não achei que tinha muita escolha.
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— Ah, você tinha. Com certeza tinha.
Ficamos sentados em silêncio no escritório frio por alguns instantes. Ele tamborilou os dedos na mesa.
— Louisa, passei grande parte da noite tentando descobrir um modo de
consertar essa situação. E gostaria de lhe fazer uma oferta.
Esperei.
— Gostaria de lhe devolver seu emprego. Você teria, é claro, melhores
condições… Folgas mais longas, um aumento de salário, benefícios melhores. Se
preferir não morar em nosso apartamento, podemos arrumar uma acomodação
por perto.
— Um emprego?
— Agnes não encontrou ninguém de quem gostasse como gostava de você,
nem de longe. Louisa, você mais do que provou seu valor, e estou imensamente
grato por sua… lealdade e por sua discrição permanente. A moça que
contratamos depois de você foi… Bem, ela não serve. Agnes não gosta dela.
Minha esposa considerava você mais como… uma amiga.
Olhei para Dean Martin. Que retribuiu o olhar. Ele não parecia nada
impressionado.
— Sr. Gopnik, fico lisonjeada com sua proposta, mas acho que não me
sentiria mais confortável trabalhando como assistente de Agnes.
— Há outros cargos dentro da minha empresa. Pelo que sei, você ainda não
tem outro emprego.
— Quem lhe disse isso?
— Pouca coisa acontece naquele prédio que eu não saiba, Louisa.
Normalmente, pelo menos. — Ele se permitiu um sorriso irônico. — Escute, temos vagas nos departamentos de Marketing e Administrativo. Eu poderia
pedir que o departamento de Recursos Humanos fizesse vista grossa para
algumas exigências dos cargos, e lhe ofereceríamos treinamento. Ou então estou disposto a criar um cargo em meu ramo filantrópico se você achar que seria mais interessante. O que diz?
Ele se recostou na cadeira, um braço apoiado na escrivaninha, a caneta de ébano pendendo da mão.
Uma imagem dessa vida alternativa se estendeu diante de meus olhos: eu, vestindo um terninho, indo trabalhar todo dia naqueles imensos escritórios envidraçados. Louisa Clark, ganhando um belo salário, morando em um lugar pelo qual poderia pagar. Uma nova-iorquina. Por uma vez na vida não tendo que
tomar conta de ninguém, apenas subindo, com o céu sem limites acima de mim.
Seria uma vida completamente nova. Uma dose na veia do Sonho Americano.
Pensei no orgulho que minha família sentiria se eu aceitasse.
Pensei em uma loja bagunçada no centro da cidade, cheia até o teto com roupas velhas de outras pessoas.
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— Sr. Gopnik, mais uma vez, estou muito lisonjeada. Mas acho que não.
A expressão dele ficou mais séria.
— Então você quer dinheiro.
Eu o encarei sem entender.
— Vivemos em uma sociedade litigiosa, Louisa. Tenho consciência de que
você guarda informações muito delicadas sobre minha família. Se é de uma alta
quantia que você está atrás, podemos conversar. Posso incluir meu advogado.
— Ele se inclinou para a frente e apertou o interfone. — Diane, você pode…
Foi nesse momento que eu me levantei e coloquei Dean Martin
delicadamente no chão.
— Sr. Gopnik, não quero seu dinheiro. Se eu quisesse processá-lo… ou ganhar
dinheiro com seus segredos, teria feito isso semanas atrás, quando fiquei sem emprego e sem ter onde morar. O senhor está me julgando errado agora, da mesma forma como fez naquele momento. E eu gostaria de ir embora agora.
Ele tirou o dedo do interfone.
— Por favor… sente-se. Não tive a intenção de ofendê-la. — E indicou a cadeira. — Por favor, Louisa. Preciso resolver esse assunto.
Ele não confiava em mim. Percebi naquele instante que o Sr. Gopnik vivia em
um mundo onde dinheiro e status eram muito mais valorizados do que
qualquer coisa, e que era inconcebível que alguém não tentasse tirar algo dele
se tivesse oportunidade.
— O senhor quer que eu assine alguma coisa — falei com frieza.
— Quero saber seu preço.
Então tive uma ideia. Talvez eu tivesse um preço, afinal.
Voltei a me sentar e, depois de um instante, contei a ele. Pela primeira vez,
nos nove meses em que nos conhecíamos, o Sr. Gopnik pareceu devidamente surpreso.
— É isso o que você quer?
— É isso o que eu quero. Não me importo como o senhor vai fazer.
Ele se recostou na cadeira e colocou as mãos atrás da cabeça. Então, desviou
os olhos, pensando um pouco, até se voltar de novo para mim.
— Eu realmente preferiria que você voltasse a trabalhar para mim, Louisa Clark — disse ele.
Então sorriu pela primeira vez e estendeu a mão na mesa para apertar a minha.
* * *
— Carta para você — disse Ashok quando entrei no prédio.
O Sr. Gopnik dera ordens para que o carro me levasse de volta para casa, e eu
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pedira ao motorista que me deixasse a duas quadras do prédio, para que Dean
Martin pudesse esticar as pernas. Eu ainda estava abalada com o encontro.
Sentia a cabeça leve, estava exultante, como se fosse capaz de qualquer coisa.
Ashok precisou repetir antes que eu registrasse o que ele estava dizendo.
— Para mim?
Conferi o endereço. Não conseguia pensar em ninguém que soubesse que eu
estava morando no apartamento da Sra. De Witt a não ser meus pais, e minha
mãe sempre me manda um e-mail para dizer que enviou uma carta.
Subi a escada correndo, dei água a Dean Martin e me sentei para abrir a carta. A letra não me era familiar, então folheei as páginas. Estava escrita em um papel barato, com caneta preta, e havia alguns trechos riscados, como se o remetente tivesse ficado em dúvida sobre o que queria dizer.
Sam.
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Querida Lou,
Não fui totalmente sincero na última vez que nos encontramos. Por isso,
lhe escrevo esta carta. Não porque acho que isso vai mudar alguma coisa, mas porque a enganei uma vez e é importante para mim que você saiba que
nunca mais vou enganá-la ou iludi-la.
Eu e Katie não estamos juntos. Não estávamos na última vez que vi você.
Não quero falar muito sobre isso, porém logo ficou claro que somos pessoas
muito diferentes e que eu havia cometido um tremendo erro. Para ser honesto, acho que eu sabia disso desde o início. Ela pediu transferência e, embora não tenham gostado muito da ideia no escritório central, parece que vão atender ao pedido.
Fiquei me sentindo um idiota, e com razão. Não há um dia em que eu não
deseje ter lhe escrito algumas linhas, como você pediu, ou que tivesse lhe mandado um cartão-postal engraçado. Eu deveria ter abraçado você com
mais força e lhe dito o que sentia na hora em que sentia. Deveria ter me esforçado um pouco mais em vez de me entregar a um show de autopiedade,
pensando em todas as pessoas que tinham me deixado.
Como eu disse, não escrevi esta carta para fazê-la mudar de ideia. Sei que
você seguiu em frente. Só quero lhe pedir desculpas e lhe dizer que vou carregar para sempre o arrependimento pelo que aconteceu, e que espero sinceramente que você esteja feliz (é um pouco difícil dizer isso de luto).
Cuide-se, Louisa.
Com amor, sempre,
Sam
* * *
Eu me senti exultante. E um pouco enjoada. Depois engoli um enorme soluço de
uma emoção que não identifiquei. Então, amassei a carta em uma bola e, com um urro, a joguei com força no lixo.
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Mandei uma foto de Dean Martin para Margot e escrevi uma cartinha para ela atualizando-a sobre o bem-estar dele, só para aplacar meu nervosismo.
Andei para cima e para baixo no apartamento vazio e soltei alguns palavrões.
Peguei xerez do armário de bebidas empoeirado de Margot e tomei o copo todo
em três goles, apesar de ainda ser de manhã. Então, peguei a carta no lixo, abri o notebook, me sentei no chão do hall de entrada, de costas para a porta da frente,
para usar o WiFi dos Gopnik, e mandei um e-mail para Sam.
Que palhaçada é essa? Por que me mandou essa carta agora? Depois de todo esse tempo?
A resposta chegou em poucos minutos, como se Sam estivesse sentado diante do computador, esperando pelo meu e-mail.
Entendo a sua raiva. Eu provavelmente também ficaria furioso. Mas Lily disse que você estava pensando em se casar, que estava procurando apartamento em Little Italy, e isso me fez pensar que, se eu não falasse com você agora, depois seria tarde demais.
Encarei a tela e franzi o cenho. Então, reli duas vezes o que ele havia escrito. E
digitei de volta:
Lily lhe disse isso?
Sam confirmou:
Disse. E falou também que você acha tudo isso um pouco precipitado, que não quer que ele ache que você vai se casar só para conseguir o green card. Mas que o modo como ele a pediu em casamento fez com que fosse impossível dizer não.
Esperei alguns minutos, então escrevi a resposta com todo o cuidado do mundo:
Sam, o que Lily lhe contou sobre o pedido de casamento?
Ele respondeu depressa:
Que Josh se ajoelhou na sua frente no topo do Empire State. E que ele até contratou uma cantora de ópera. Lou, não fique chateada com Lily. Sei que eu não deveria ter obrigado ela a me contar. Sei que não é da minha conta. Mas só perguntei a ela como você estava um dia desses.
Quis saber o que estava acontecendo na sua vida. Aí ela me pegou de surpresa com toda essa história. Eu disse a mim mesmo que deveria simplesmente ficar feliz por você. Mas então não parei de pensar: e se eu tivesse sido o cara? E se eu tivesse… sei lá… aproveitado a oportunidade?
Fechei os olhos.
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Então, você me escreveu porque Lily lhe disse que eu estava prestes a me casar?
Sam respondeu:
Não. Eu queria mesmo escrever para você. Desde que a vi em Stortfold. Só não sabia o que dizer.
Mas então me dei conta de que depois que você estivesse casada — ainda mais se fosse se casar tão depressa — seria impossível eu dizer alguma coisa. O que talvez seja antiquado da minha parte.
Olha, eu só queria que você soubesse que sinto muito, Lou. É isso. Lamento se é inapropriado.
Levei um tempo para responder.
Ok. Bem, obrigada por me contar.
Fechei o notebook, me recostei na porta e fiquei ali, de olhos fechados, por um
bom tempo.
* * *
Decidi não pensar sobre aquilo. Eu era muito boa em não pensar nas coisas.
Resolvi pendências domésticas, levei Dean Martin para passear e fui de metrô
ao East Village no calor sufocante para conversar sobre metragem, divisórias, escritura de aluguel e seguro com as meninas. Não pensei em Sam. Não pensei em Sam quando passei com o cachorro pelos caminhões de lixo fedidos e
onipresentes, ou quando desviei de vans da Fedex que buzinavam, ou quando torci o tornozelo nos paralelepípedos do SoHo, ou quando arrastei malas de roupas pelas catracas do metrô. Repeti mentalmente as palavras de Margot e fiz
o que amava, que agora crescia da sementinha de uma ideia para uma bolha enorme cheia de oxigênio dentro de mim, empurrando todo o resto para o lado.
Não pensei em Sam.
* * *
A carta seguinte de Sam chegou três dias depois. Dessa vez, reconheci a letra dele, rabiscada em um envelope que Ashok enfiara por debaixo da porta do apartamento de Margot.
Eu andei pensando sobre a nossa troca de e-mails e só queria lhe contar mais algumas coisas. (Você não disse que eu não podia, por isso espero que não rasgue fevereiro/2018
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esta carta.)
Lou, eu nunca soube que você queria se casar. E agora me sinto um idiota por
não ter lhe perguntado. Eu não percebi que você é o tipo de garota que no fundo quer grandes gestos românticos. Lily me falou tanto sobre o que Josh faz por você
— as rosas que manda toda semana, os jantares elegantes e coisas assim —, que
fico aqui pensando… Eu fui mesmo tão lerdo? Como fiquei parado esperando que
tudo se resolvesse se nem sequer tentei?