Ainda sou eu
Epígrafe
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.
vermelho. Quando estacionamos, espiei o interior luminoso, as luzes que
piscavam e o mar de vestidos amarelos e quase tive vontade de rir, mas Agnes
estava tão tensa que não ousei fazer isso. Além do mais, meu corpete estava tão
justo que a costura provavelmente teria estourado.
Garry nos deixou diante da entrada principal, manobrando o carro até uma
área abarrotada de limusines pretas. Depois de passar por uma multidão de espectadores na calçada, entramos. Um homem pegou nossos casacos e pela
primeira vez o vestido de Agnes ficou totalmente visível.
Estava deslumbrante. Seu vestido não era convencional como o meu, ou
como o de qualquer uma das outras mulheres ali, mas de um tom néon de amarelo. Um modelo estruturado, um tubo até o chão com um adereço em um
dos ombros que ia até a cabeça. O cabelo estava puxado para trás sem piedade, apertado e lustroso, e dois enormes brincos de ouro com diamante amarelo pendiam de suas orelhas. O traje todo deveria parecer extraordinário. Mas ali,
percebi com uma leve dor no estômago, era de alguma fora exagerado —
deslocado em meio à grandiosidade antiquada do hotel. Enquanto ela estava parada, as cabeças ao redor se viraram, sobrancelhas se erguendo à medida que
as matronas com seus vestidos de seda amarelos e corpetes rígidos a
observavam com o canto dos olhos cuidadosamente maquiados.
Agnes pareceu não notar. Olhou ao redor distraidamente, tentando localizar
o marido. Só iria relaxar quando segurasse o braço dele. Às vezes, eu os observava juntos e tinha uma sensação quase palpável do alívio que a tomava
quando sentia a presença dele ao seu lado.
— Seu vestido é incrível — falei.
Ela baixou os olhos na minha direção, como se só nesse momento tivesse se
lembrado da minha presença. Um flash foi disparado e vi que fotógrafos
circulavam entre nós. Afastei-me um pouco para dar espaço a Agnes, mas o homem fez um gesto na minha direção.
— Você também, senhora. Isso. E sorria.
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Ela sorriu, olhando brevemente para mim como que para se assegurar de
que eu ainda estava por perto.
E então o Sr. Gopnik apareceu. Caminhou até nós com alguma dificuldade —
Nathan dissera que ele estava tendo uma semana difícil — e beijou a bochecha
da esposa. Ouvi-o murmurar algo ao seu ouvido e ela sorriu, um sorriso sincero
e sem defesas. Suas mãos se encontraram brevemente, e, nesse instante, percebi
que duas pessoas podiam se encaixar em todos os estereótipos possíveis e, ainda assim, terem algo completamente genuíno e sentirem um prazer absoluto
com a presença do outro. Então fiquei com saudade de Sam. Mas, ao mesmo tempo, eu não conseguia imaginá-lo em um lugar como aquele, preso em um paletó com gravata-borboleta. Ele teria odiado aquilo, pensei, distraída.
— Nome, por favor?
O fotógrafo surgira ao meu lado.
Talvez o fato de estar pensando em Sam tenha feito com que eu respondesse
assim:
— Hum. Louisa Clark-Fielding — disse, com minha melhor imitação de um
sotaque de alta classe. — Da Inglaterra.
— Sr. Gopnik! Aqui, Sr. Gopnik!
Eu entrei na multidão enquanto os fotógrafos faziam cliques dos dois juntos,
a mão dele pousada delicadamente nas costas de Agnes, os ombros dela retos e
o queixo erguido, como se pudesse comandar o evento todo. Então, vi o Sr.
Gopnik examinar o cômodo inteiro me procurando, seus olhos se encontrando
com os meus do outro lado do saguão.
Ele acompanhou Agnes até onde eu estava.
— Querida, preciso falar com algumas pessoas. Vocês duas vão ficar bem
sozinhas?
— É claro, Sr. Gopnik — respondi, como se fizesse aquele tipo de coisa todos
os dias.
— Vai voltar logo? — perguntou Agnes, ainda segurando a mão dele.
— Tenho que falar com Wainwright e Miller. Prometi que daria dez minutos
a eles para ver essa questão dos títulos.
Agnes fez que sim, mas a expressão dela revelava sua relutância em deixá-lo
ir. Enquanto ela caminhava pelo saguão, o Sr. Gopnik se inclinou na minha direção.
— Não deixe que ela beba demais. Está nervosa.
— Sim, Sr. Gopnik.
Ele assentiu e olhou ao redor como que absorto em pensamentos. Então
voltou-se para mim outra vez e sorriu.
— Você está muito bonita.
E foi embora.
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* * *
O salão estava lotado, um mar amarelo e preto. Eu estava usando a pulseira amarela e preta que a filha de Will, Lily, tinha me dado antes que eu deixasse a
Inglaterra — e pensei comigo mesma como teria adorado vestir minha meiacalça de abelha também. Aquelas mulheres pareciam jamais ter se divertido com suas roupas.
A primeira coisa que chamou minha atenção foi a magreza da maioria das mulheres ali presentes, comprimidas em vestidos minúsculos, as clavículas
protuberantes feito grades de segurança. Após certa idade, as mulheres de Stortfold tendiam a aumentar para os lados, escondendo os centímetros extras
com cardigãs ou casacos compridos (“Está cobrindo meu bumbum?”) e fingindo
se importar com a própria aparência ao comprar um rímel novo ou cortar o cabelo a cada seis semanas. Na minha cidade natal, prestar muita atenção a si
mesma era algo quase suspeito ou indicava um autointeresse nada saudável.
Mas as mulheres naquele salão pareciam ter transformado a própria
aparência em um trabalho em tempo integral. Não havia um fio de cabelo que
não estivesse perfeitamente moldado, um braço que não tivesse sido
obedientemente tonificado por rigorosos exercícios diários. Até mesmo as
mulheres de idade incerta (era difícil saber, devido à quantidade de Botox e preenchimentos) pareciam nunca ter ouvido falar em braços flácidos que
balançam quando se dá tchau. Lembrei de Agnes com seu personal trainer e com seu dermatologista, seus horários no cabeleireiro e na manicure e pensei:
este é o trabalho dela agora. Ela precisa se dedicar a toda essa manutenção para
poder aparecer aqui e não fazer feio diante dessa multidão.
Agnes se movia lentamente entre os convidados, a cabeça erguida, sorrindo
para os amigos do marido, que iam cumprimentá-la e trocar algumas palavras
com ela enquanto eu pairava, pouco à vontade, no segundo plano. Os amigos eram sempre homens. Apenas os homens sorriam para ela. As mulheres,
embora não fossem grosseiras a ponto de se afastarem, tendiam a virar o rosto
com discrição, como que subitamente distraídas por algo ao longe, de forma a
não precisarem falar com ela. Diversas vezes, à medida que caminhávamos em
meio à multidão, eu atrás dela, vi a expressão de alguma esposa se enrijecer, como se a presença de Agnes fosse alguma forma de transgressão.
— Boa noite — disse uma voz ao meu ouvido.
Ergui os olhos e cambaleei para trás. Will Traynor estava de pé ao meu lado.
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Mais tarde, fiquei feliz que o salão estivesse tão lotado, porque, quando cambaleei e esbarrei no homem, ele estendeu a mão instintivamente. Em um segundo, diversos braços vestindo ternos elegantes me endireitaram, um mar de rostos sorridentes e preocupados. Enquanto eu agradecia, pedindo
desculpas, percebi meu erro. Não, não era Will — o cabelo tinha a mesma cor e
o mesmo corte, a pele era do mesmo tom de caramelo. Mas eu devo ter
engasgado de modo audível, porque o homem que não era Will falou:
— Desculpe, assustei você?
— Eu… não. Não.
Levei a mão à bochecha, meus olhos nos dele.
— Você… você só se parece com alguém que eu conheço. Conhecia.
Senti meu rosto corar, o tipo de mancha que começa no peito e sobe até o couro cabeludo.
— Você está bem?
— Ah, nossa. Ótima. Estou ótima.
Eu me sentia uma idiota. Meu rosto brilhava de idiotice.
— É da Inglaterra.
— Você não é.
— Não sou nem de Nova York. Sou de Boston. Joshua William Ryan Terceiro.
Ele estendeu a mão.
— Você tem o nome dele…
— Como?
Apertei sua mão. De perto, ele era bem diferente de Will. Os olhos eram castanho-escuros, as sobrancelhas eram mais baixas. Mas as semelhanças
tinham me deixado completamente perturbada. Afastei o olhar, consciente de que ainda segurava seus dedos.
— Desculpe. Estou um pouco…
— Deixe-me eu pegar uma bebida para você.
— Não posso. Estou aqui com a minha… Minha amiga está logo ali.
Ele olhou para Agnes.
— Então pego uma bebida para as duas. Vai ser… hum… fácil achar vocês.
Ele sorriu e tocou meu cotovelo. Tentei não olhar fixamente para ele
enquanto se afastava.
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Quando me aproximei de Agnes, o homem que estava falando com ela foi
puxado para longe pela esposa. Agnes ergueu a mão como se estivesse prestes a
responder a algo que ele dissera, mas se viu falando com um monte de costas de
paletós. Ela se virou, o rosto tenso.
— Desculpe. Fiquei presa na multidão.
— Meu vestido está errado, não está? — sussurrou ela para mim. — Cometi
um erro terrível.
Agnes tinha percebido. No mar de corpos, seu vestido parecia vivo demais, mais vulgar que avant-garde.
— O que faço agora? É um desastre. Preciso trocar de roupa.
Tentei calcular se era possível ela ir para casa e retornar. Mesmo sem trânsito, demoraria uma hora. E havia sempre o risco de ela não voltar…
— Não! Não é um desastre. Nem um pouco. É só que…
Fiz uma pausa.
— Sabe, com um vestido desses, você precisa ter confiança.
— O quê?
— Tem que assumi-lo. Manter a cabeça erguida. Fingir que não liga a mínima.
Ela me encarou.
— Um amigo me disse isso uma vez. O homem para quem eu costumava
trabalhar. Ele me disse para vestir minhas pernas listradas com orgulho.
— Suas o quê?
— Ele… Bem, ele estava me dizendo que ser diferente de todo mundo não é
um problema. Agnes, você é cerca de cem vezes mais bonita que qualquer outra
mulher aqui. É linda. E o vestido é incrível. Então seja um grande dane-se para
os outros. Entende? Eu visto o que quiser.
Ela me olhava com atenção.
— Você acha isso mesmo?
— Acho, sim.
Agnes respirou fundo.
— Tem razão. Vou ser um grande dane-se.
Ela endireitou os ombros.
— De qualquer forma, nenhum homem liga para qual vestido a gente usa,
não é mesmo?
— Nenhum.
Ela sorriu, lançando-me um olhar cúmplice.
— Só ligam para o que está por baixo.
— É um vestido e tanto, senhora — disse Joshua, surgindo ao meu lado.
Ele trazia uma taça para cada uma.
— Champanhe. A única bebida amarela era Chartreuse, e fiquei meio enjoado
só de olhar.
— Obrigada.
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Peguei uma das taças.
Ele estendeu a mão para Agnes.
— Joshua William Ryan Terceiro.
— Você só pode ter inventado esse nome.
Os dois se viraram para mim.
— Ninguém que não seja um personagem de novela pode ter um nome
desses — falei, percebendo que minha intenção fora pensar aquilo, não dizê-lo
em voz alta.
— Certo. Bem, pode me chamar de Josh — disse ele, sereno.
— Louisa Clark — falei, acrescentando logo em seguida: — Primeira.
Seus olhos se estreitaram um pouco.
— Sra. Leonard Gopnik. Segunda — disse Agnes. — Mas você já deve saber
disso.
— Sei, sim. Só se fala em você por aqui.
Essas palavras poderiam ter tido um impacto negativo, mas ele as disse com
delicadeza. Vi os ombros de Agnes relaxarem um pouco. Josh nos contou que estava lá com a tia porque o marido dela viajara e ela não quis ir ao evento sozinha. Ele trabalhava para uma empresa de valores mobiliários, falando com
gerentes financeiros e fundos de cobertura sobre a melhor maneira de
administrar riscos. Contou que era especializado em investimentos e
empréstimos corporativos.
— Não faço ideia do que nada disso significa — comentei.
— Na maior parte dos dias, eu também não.
Ele estava só sendo charmoso, é claro. Mas de repente o salão me pareceu um
pouco menos frio. Josh era de Back Bay, em Boston, tinha acabado de se mudar
para o que descreveu como uma toca de coelho no SoHo e engordara dois quilos
desde que chegara porque os restaurantes de Manhattan eram bons demais.
Falou muitas outras coisas, mas eu não saberia dizer o quê, porque não conseguia parar de olhar para ele.
— E quanto a você, Srta. Louisa Clark Primeira? O que faz?
— Eu…
— Louisa é uma amiga minha. Está aqui de visita, da Inglaterra.
— E o que está achando de Nova York?
— Estou adorando — falei. — Acho que minha cabeça não para de girar
desde que cheguei.
— E o Baile Amarelo é um de seus primeiros compromissos sociais. Bem, Sra.
Leonard Gopnik Segunda, você não pensa pequeno mesmo.
A noite começou a passar voando, facilitada por uma segunda taça de
champanhe. Durante o jantar, sentei-me entre Agnes e um homem que não se
apresentou e só falou comigo uma vez, perguntando a meus seios quem eles conheciam, depois virando as costas quando ficou claro que a resposta era fevereiro/2018
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quase ninguém. Fiquei de olho no que Agnes bebia, seguindo as ordens do Sr.
Gopnik, e, quando o vi olhando para mim, troquei a taça cheia dela pela minha,
quase vazia, sentindo alívio quando o sorriso discreto dele mostrou aprovação.
Agnes estava falando alto demais com o homem à sua direita, a risada um pouco
aguda demais, os gestos irregulares e nervosos. Observei as outras mulheres à
mesa, todas com mais de quarenta anos, e vi a forma como olhavam para ela, seus olhares deslizando pesadamente entre si, como que para confirmar alguma
opinião sombria expressada em particular. Era horrível.
O Sr. Gopnik não conseguia alcançar Agnes da posição em que estava, do outro lado da mesa, mas vi que a observava, mesmo enquanto ele sorria e cumprimentava pessoas e parecia, na superfície, o homem mais relaxado do mundo.
— Onde ela está?
Eu me inclinei para ouvir melhor o que Agnes dizia.
— A ex-mulher de Leonard. Onde está? Você precisa descobrir, Louisa. Só vou relaxar quando souber. Posso sentir a presença dela.
Alerta Roxo.
— Vou olhar o mapa de assentos — falei e pedi licença para me levantar.
Fiquei de pé diante do imenso painel na entrada da sala de jantar. Havia cerca de oitocentos nomes impressos lado a lado, e eu não sabia se a primeira
Sra. Gopnik, Kathryn, ainda usava o sobrenome do marido. Soltei um palavrão
baixinho bem no instante em que Josh surgiu atrás de mim.
— Perdeu alguém?
Baixei a voz.
— Preciso descobrir onde a primeira Sra. Gopnik está sentada. Você por
acaso sabe se ela ainda usa o sobrenome do ex-marido? Agnes gostaria de… ter
uma ideia de onde ela está.
Ele franziu o cenho.
— Ela está um pouco estressada — acrescentei.
— Sinto muito, não faço ideia. Mas minha tia talvez saiba. Ela conhece todo
mundo. Fique aqui.
Ele encostou de leve em meu ombro descoberto e entrou na sala de jantar enquanto eu tentava reorganizar minha expressão, fingindo ser apenas uma
garota olhando o mapa para confirmar a presença de meia dúzia de amigos, e
não alguém cuja pele acabava de adquirir um tom inesperado de cor-de-rosa.
Ele voltou em um minuto.
— Ela ainda usa o sobrenome Gopnik — disse. — Tia Nancy comentou que
acha que a viu perto da mesa de leilão.
Ele correu um dedo bem-cuidado pela lista de nomes.
— Aqui. Mesa 144. Passei por lá para olhar e tem uma mulher que se encaixa
na descrição. Cinquenta e poucos anos, cabelo escuro, lançando dardos
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envenenados de dentro de uma bolsinha Chanel? Parece que escolheram para ela o lugar mais distante possível de Agnes.
— Ai, graças a Deus — falei. — Agnes vai ficar muito aliviada.
— Essas matronas nova-iorquinas podem ser bem assustadoras — disse ele.
— Não culpo Agnes por querer se proteger. A alta sociedade inglesa é tão cruel
assim?
— Alta sociedade inglesa? Ah, eu não… não sou muito de eventos sociais —
respondi.
— Também não. Para falar a verdade, na maioria dos dias fico tão cansado depois do trabalho que só consigo pedir comida de algum restaurante. No que
você trabalha mesmo, Louisa?
— Hum…
Olhei abruptamente para meu celular.
— Minha nossa! Preciso voltar para perto de Agnes.
— Vejo você antes de ir? Em que mesa está sentada?
— Trinta e dois — respondi antes de pensar em todos os motivos pelos quais
não deveria ter feito isso.
— Então vejo você mais tarde.
Fiquei momentaneamente hipnotizada pelo sorriso de Josh.
— Aliás, eu queria dizer que você está linda.
Ele se inclinou para a frente e baixou a voz, fazendo-a ecoar de leve perto do
meu ouvido.
— Na verdade, prefiro seu vestido ao da sua amiga. Já tirou uma foto?
— Uma foto?
— Aqui.
Ele ergueu a mão e, antes que eu tivesse a chance de entender o que estava
fazendo, tirou uma foto de nós dois, nossas cabeças a centímetros de distância.
— Pronto. É só me dar seu telefone que eu envio para você.
— Você quer me mandar uma foto de nós dois juntos.
— Está percebendo minhas segundas intenções? — indagou ele, sorrindo. —
Está bem, então. Guardo a foto para mim. Uma lembrança da garota mais bonita
do baile. A menos que você queira deletar. Aí está. Pode deletar.
Ele estendeu o celular em minha direção.
Olhei para o aparelho, meu dedo pairando acima do botão, mas desisti.
— Parece uma grosseria deletar alguém que você acaba de conhecer. Mas,
hum… obrigada… e por toda a operação secreta de busca das mesas. Foi muito
gentil da sua parte.
— Foi um prazer.
Sorrimos um para o outro. Antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa,
voltei correndo para a mesa.
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Dei a boa notícia a Agnes (que soltou um suspiro audível), então me sentei e comi um pouco do meu peixe já frio enquanto esperava que minha cabeça
parasse de girar. Ele não é o Will, disse a mim mesma. A voz era diferente. As sobrancelhas eram diferentes. Ele era americano. Ainda assim, havia algo em seu jeito — a segurança combinada à inteligência sagaz, o ar de quem poderia
lidar com qualquer coisa que o destino reservasse, uma forma de olhar para mim que me deixava oca. Olhei para trás, lembrando que não tinha perguntado
a Josh em que mesa ele estava.
— Louisa?
Virei-me para meu lado direito. Agnes me lançava um olhar penetrante.
— Preciso ir ao banheiro.
Demorei um minuto para entender que aquilo queria dizer que eu também
devia ir.
Caminhamos lentamente em meio às mesas, eu tentando não varrer o salão
com o olhar em busca de Josh. Todos se voltavam para Agnes enquanto ela passava, não apenas devido à cor viva de seu vestido, mas porque ela possuía um magnetismo, uma maneira inconsciente de chamar atenção. Caminhava com
o queixo erguido, os ombros para trás, uma rainha.
E no instante em que entramos no banheiro, ela se deitou na espreguiçadeira
que havia no canto e fez um gesto para que eu lhe desse um cigarro.
— Meu Deus. Esta noite. Acho que vou morrer se não formos embora logo.
A funcionária que cuidava do banheiro, uma mulher de sessenta e poucos
anos, ergueu uma sobrancelha ao avistar o cigarro, então desviou o olhar.
— Hum… Agnes, acho que não é permitido fumar aqui dentro.
Ela ia fumar mesmo assim. Talvez as pessoas ricas não ligassem para as regras dos outros. O que iriam fazer com ela, afinal? Expulsá-la?
Ela acendeu o cigarro, deu um trago e suspirou, aliviada.
— Ai. Este vestido é tão desconfortável… E a calcinha fio dental está me rasgando feito uma lâmina, sabe?
Ela se contorceu diante do espelho, levantando o vestido e mexendo lá
dentro com sua mão de unhas feitas.
— Eu não deveria ter colocado calcinha.
— Mas você está bem? — perguntei.
Ela sorriu para mim.
— Estou. Algumas pessoas foram muito gentis esta noite. Aquele Josh é
muito gentil, e o Sr. Peterson, que está sentado ao meu lado, é muito simpático.
Não está sendo tão ruim. Talvez algumas pessoas tenham finalmente aceitado que Leonard tem uma nova esposa.
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— Só precisam de tempo.
— Segure isso. Preciso fazer pipi.
Ela me entregou o cigarro pela metade e entrou correndo em uma cabine.
Ergui-o entre dois dedos como se fosse uma vela. Eu e a camareira nos entreolhamos e ela deu de ombros, como quem diz Fazer o quê?.
— Ai, meu Deus — exclamou Agnes de dentro da cabine. — Vou precisar
tirar o vestido todo. É impossível levantá-lo. Você vai ter que me ajudar com o
zíper depois.
— Está bem — respondi.
A camareira ergueu as sobrancelhas. Tentamos não rir.
Duas mulheres de meia-idade entraram no banheiro. Olharam para meu
cigarro com reprovação.
— A questão, Jane, é que é como se uma loucura se apossasse deles — disse
uma delas, parando diante do espelho para observar o próprio cabelo.
Eu não entendi por que ela precisava fazer isso: estava tão cheio de laquê que
acho que nem um furacão seria capaz de movê-lo.
— Eu sei. Já vimos isso um milhão de vezes.
— Mas pelo menos eles costumam ter a decência de lidar com a coisa com alguma discrição. Essa é a grande decepção de Kathryn. A falta de discrição.
— É. Seria muito mais fácil para ela se pelo menos fosse alguém com alguma
classe.
— Exato. Foi um comportamento clichê.
Nesse instante, as duas mulheres se viraram para mim.
— Louisa? — chamou uma voz abafada dentro da cabine. — Pode entrar
aqui?
Eu sabia de quem as duas estavam falando. Soube só de olhar para a cara delas.
Houve um breve momento de silêncio.
— Você sabe que é proibido fumar aqui, não sabe? — falou uma das
mulheres severamente.
— Sério? Sinto muito.
Apaguei o cigarro na pia e joguei água na ponta.
— Pode me ajudar, Louisa? Meu zíper está emperrado.
Elas sabiam. Ligaram os pontos e chegaram à conclusão. Vi suas expressões
se enrijecerem. Passei por elas e bati duas vezes na porta da cabine, então Agnes me deixou entrar.
Ela estava de pé, de sutiã, o vestido tubular amarelo parado ao redor da cintura.
— O que… — começou ela.
Levei um dedo aos lábios e apontei para fora. Ela olhou na direção de meu dedo como se pudesse ver através da porta e fez uma careta. Virei-a de costas
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para mim. O zíper, tendo percorrido dois terços do caminho, estava preso na altura da cintura. Tentei duas, três vezes, então peguei meu celular na bolsa e
acendi a lanterna, tentando ver o que estava detendo o fecho.
— Pode consertar isso? — sussurrou ela.
— Estou tentando.
— Tem que conseguir. Não posso aparecer assim na frente daquelas
mulheres.
Agnes estava a centímetros de mim com seu sutiã minúsculo, sua pele branca
exalando ondas de algum perfume caro. Tentei me mover ao redor dela,
estreitando os olhos para o zíper, mas não consegui fazer nada. Ela precisava de
espaço para tirar o vestido todo para que eu pudesse mexer no fecho, senão seria impossível. Olhei para Agnes e dei de ombros. Ela pareceu angustiada por
um momento.
— Acho que não consigo fazer isso aqui dentro. Não tem espaço. E não estou
enxergando.
— Não posso sair assim. Vão dizer que sou uma piranha.
Ela levou as mãos ao rosto, desesperada.
O silêncio opressivo lá fora me informou que as mulheres aguardavam nosso
próximo passo. Ninguém estava nem sequer fingindo usar o banheiro.
Estávamos presas. Dei um passo para trás e balancei a cabeça, pensando. Então
tive uma ideia.
— Um grande dane-se — sussurrei.
Os olhos de Agnes se arregalaram.
Olhei-a com firmeza e acenei com a cabeça discretamente. Ela franziu o
cenho, então sua expressão se neutralizou.
Abri a porta da cabine e cheguei para trás. Agnes respirou fundo, endireitou a
coluna e então saiu, passando pelas duas mulheres como uma supermodelo no
camarim, a parte de cima do vestido em torno da cintura, o sutiã como dois triângulos delicados que mal tapavam os seios pálidos. Ela parou no meio do banheiro e se inclinou para a frente, de forma que eu pudesse tirar seu vestido
com cuidado pela cabeça. Então se endireitou, agora nua a não ser pela calcinha
e pelo sutiã minúsculos, um verdadeiro exemplo de aparente despreocupação.
Não ousei olhar para o rosto das mulheres, mas enquanto apoiava o vestido amarelo em meu braço ouvi uma inspiração dramática e senti as reverberações
no ar.
— Bem, eu… — começou uma delas.
— Gostaria de um kit de costura, madame?
A camareira surgiu ao meu lado. Abriu o pequeno pacote enquanto Agnes
esperava sentada, lânguida, na espreguiçadeira, as longas pernas pálidas
estendidas para o lado de modo recatado.
Outras duas mulheres entraram e pararam de falar de imediato ao avistarem
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Agnes seminua. Uma delas tossiu e ambas desviaram os olhos em um
movimento estudado, encontrando uma nova banalidade sobre a qual
conversar. Agnes ficou parada na cadeira, a aparência alegremente inalterada.
A camareira me deu um alfinete e, com a ponta, consegui soltar o pequeno fiapo embolado, puxando-o delicadamente até que o zíper deslizasse de novo.
— Consegui!
Agnes se levantou, segurou a mão estendida da camareira e entrou com delicadeza no vestido amarelo, que nós duas erguemos em torno dela. Quando
ele se encaixou perfeitamente, puxei o zíper de modo suave até que ela estivesse coberta, cada centímetro do vestido aderindo a sua pele. Ela o alisou
ao redor das pernas infinitas.
A camareira pegou uma lata de laquê.
— Aqui — sussurrou. — Permita-me.
Inclinou-se para a frente e borrifou o spray no fecho do vestido.
— Isso vai ajudar a não abrir.
Sorri, radiante, para ela.
— Obrigada. É gentileza sua — disse Agnes.
Ela pegou uma nota de cinquenta dólares na bolsa e a entregou para a
mulher. Então voltou-se para mim com um sorriso.
— Louisa, querida, vamos voltar para nossa mesa?
E, com um aceno de cabeça imperioso para as duas mulheres, ergueu o
queixo e caminhou lentamente rumo à porta.
Fez-se silêncio. Então a camareira se voltou para mim e guardou o dinheiro
no bolso com um grande sorriso.
— Isso, sim — disse ela, a voz subitamente audível —, é classe.
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6
Na manhã seguinte, George não apareceu. Ninguém me avisou. Fiquei sentada no corredor, de short, os olhos ardendo de sono, e às sete e meia entendi que
deviam ter cancelado a corrida do dia.
Agnes só acordou depois das nove, fazendo com que Ilaria olhando para o relógio, estalasse a língua em sinal de reprovação. Ela havia me enviado uma mensagem de texto pedindo que eu cancelasse os outros compromissos do dia.
Em dado momento no meio da manhã, disse que gostaria de caminhar em torno
do Reservoir. Ventava muito, e nós fomos com a echarpe enrolada até o queixo e
as mãos enfiadas nos bolsos. Eu tinha passado a noite inteira pensando no rosto
de Josh. Ainda me sentia perturbada, ficava me perguntando quantos sósias de
Will estariam andando por aí em diferentes países naquele momento. As
sobrancelhas de Josh eram mais pesadas, os olhos tinham uma cor diferente, e
obviamente o sotaque não era o mesmo que o de Will. Mas ainda assim…
— Sabe o que eu costumava fazer com minhas amigas quando a gente estava
de ressaca? — perguntou Agnes, interrompendo meus pensamentos. — A gente
ia para um restaurante japonês perto do Gramercy Park, comia macarrão e falava, falava e falava sem parar.
— Vamos, então.
— Aonde?
— Ao restaurante. Podemos pegar suas amigas no caminho.
Ela pareceu esperançosa por um segundo, então chutou uma pedra.
— Não posso mais. É diferente.
— Você não tem que aparecer lá com o motorista. Podemos ir de táxi. Quer
dizer, você pode usar uma roupa discreta e ir. Não teria problema.
— Eu já disse. É diferente.
Ela virou-se para mim.
— Tentei essas coisas, Louisa. Por um tempo. Mas minhas amigas são
curiosas. Querem saber tudo sobre minha vida agora. E quando digo a verdade
para elas, elas ficam… estranhas.
— Estranhas?
— Antes, todas nós éramos iguais, sabe? Agora elas dizem que nunca vou entender os problemas delas. Porque sou rica. De certa forma, não tenho mais o direito de ter problemas. Ou elas ficam estranhas comigo, como se eu fosse uma
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pessoa diferente. Como se as coisas boas da minha vida fossem um insulto. Acha
que posso reclamar sobre empregada para alguém que não tem nem casa?
Ela parou.
— Logo que me casei com Leonard, ele me deu dinheiro. Um presente de
casamento, para eu não ter que ficar pedindo dinheiro para ele o tempo todo.
Dei uma parte para minha melhor amiga, Paula. Dei dez mil dólares para ela quitar dívidas, ter um recomeço. Primeiro, ela ficou muito feliz. Eu também fiquei! Fazer aquilo por uma amiga! Para ela também não precisar mais se preocupar, como eu!
Seu tom de voz tornou-se nostálgico. Ela prosseguiu:
— Então… então ela não quis mais me ver. Ficou diferente, sempre ocupada
demais para me encontrar. E aos poucos eu vejo que ela se ressente por eu ter
ajudado. Não de propósito, mas agora, quando ela me vê, só consegue pensar que me deve alguma coisa. E é orgulhosa, muito orgulhosa. Não quer viver com
essa sensação. Então…
Ela deu de ombros.
— …não almoça comigo nem atende meus telefonemas. Perdi minha amiga
por causa de dinheiro.
— Problemas são problemas — retruquei, quando ficou claro que ela
esperava por uma resposta. — Não importa de quem sejam.
Ela deu um passo para o lado para desviar de uma criança em um patinete.
Ficou olhando para ele, reflexiva, então voltou-se para mim.
— Você tem cigarros?
Eu já tinha aprendido. Peguei o maço na mochila e entreguei a ela. Não sabia
se devia incentivá-la a fumar, mas ela era minha patroa. Ela tragou e exalou uma
longa pluma de fumaça.
— Problemas são problemas — repetiu lentamente. — Você tem problemas,
Louisa Clark?
— Sinto saudades do meu namorado. — Algo que eu disse também para me
tranquilizar. — Fora isso, não muitos. Está… ótimo. Estou feliz aqui.
Ela fez que sim.
— Eu também me sentia assim. Nova York! Sempre algo novo para ver.
Sempre empolgante. Agora eu só… sinto falta…
Ela se interrompeu.
Por um instante, achei que seus olhos tinham se enchido de lágrimas. Mas então sua expressão ficou impassível.
— Sabia que ela me odeia?
— Quem?
— Ilaria. A bruxa. Era a empregada da outra e Leonard não quer mandá-la embora. Então estou presa com ela.
— Talvez ela passe a gostar de você.
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— Talvez passe a colocar arsênico na minha comida. Vejo como ela olha para
mim. Quer que eu morra. Sabe como é morar com alguém que quer que você morra?
Eu mesma tinha bastante medo de Ilaria. Mas não quis contar isso.
Continuamos andando.
— Eu já trabalhei com alguém que eu tinha certeza de que me odiava, no início — falei. — Aos poucos, entendi que aquilo não tinha nada a ver comigo.
Ele só odiava a vida dele. E quando nos conhecemos melhor, começamos a nos
entender bastante bem.
— Alguma vez ele queimou sua melhor blusa “sem querer”? Ou passou um sabão na sua calcinha sabendo que ia fazer sua perereca coçar?
— Hum… não.
— Ou serviu uma comida que você disse cinquenta vezes que não gostava
para dar a impressão de que você reclama o tempo todo? Ou contou histórias sobre você para fazê-la parecer uma prostituta?
Fiquei boquiaberta como um peixe. Fechei a boca e balancei a cabeça.
Ela afastou o cabelo do rosto.
— Eu amo ele, Louisa. Mas fazer parte da vida dele é impossível. Minha vida é
impossível…
Ela se interrompeu mais uma vez.
Ficamos ali paradas, observando as pessoas passarem por nós: os
patinadores e as crianças em seus patinetes vacilantes, os casais de braços dados e os policiais de óculos escuros. A temperatura havia caído e sem querer
tremi dentro do meu casaco de corrida.
Ela suspirou.
— Está bem. Voltamos agora. Vamos ver qual das minhas roupas preferidas a
bruxa estragou hoje.
— Não — falei. — Vamos comer seu macarrão. Podemos fazer isso, pelo
menos.
* * *
Pegamos um táxi para o Gramercy Park, rumo a um restaurante em um edifício
de arenito vermelho localizado em uma ruazinha lateral suspeita, que parecia sujo o bastante para abrigar alguma bactéria intestinal. Mas Agnes pareceu mais
leve no instante em que chegamos. Enquanto eu pagava o táxi, ela subiu correndo pela escada, adentrando o interior sombrio, e, quando a jovem
japonesa saiu da cozinha, abraçou Agnes, como se fossem amigas de longa data.
Então, segurando-a pelo cotovelo, interrogou-a sobre onde havia estado nos últimos tempos. Agnes tirou o gorro e murmurou vagamente que tinha andado
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ocupada, tinha se casado, mudado de casa, sem dar qualquer indicação do nível
verdadeiro de mudança e de suas circunstâncias. Percebi que usava sua aliança
de casamento, mas não o anel de noivado com o diamante grande o bastante para assegurar um fortalecimento do tríceps.
Quando nos sentamos no banco alto de fórmica, foi como se outra mulher estivesse diante de mim. Agnes estava engraçada, vivaz e falava alto, com uma
risada abrupta e histérica, e eu pude ver por quem o Sr. Gopnik tinha se apaixonado.
— Então, como vocês se conheceram? — perguntei enquanto comíamos
tigelas de ramen escaldante.
— Leonard? Eu era massagista dele.
Agnes fez uma pausa, como que esperando minha reação escandalizada, e,
como ela não veio, baixou a cabeça e prosseguiu:
— Eu trabalhava no St. Regis. E eles mandavam um massagista para a casa dele toda semana, geralmente o André. Ele era muito bom. Mas ficou doente um
dia e eles me pediram para ir no lugar. Na hora pensei: ah, não, mais um desses
caras de Wall Street. Tantos deles são uns bostas, sabe? Nem pensam em você
como um ser humano. Não se dão ao trabalho de dizer olá, nem falam. Alguns
pedem… — ela baixou a voz — …final feliz. Sabe, “final feliz”? Como se você fosse prostituta. Nojentos. Mas Leonard, ele era gentil. Apertou minha mão, perguntou se queria chá assim que cheguei. Ficou tão feliz com a massagem. E
eu percebi.
— Percebeu o quê?
— Que ela nunca o tocou. A esposa. Dá para perceber, tocando um corpo. Ela
era uma mulher fria, muito fria.
Agnes baixou os olhos.
— E ele sente muita dor certos dias. As articulações doem. Isso foi antes de Nathan. Nathan foi ideia minha. Para deixar Leonard em forma e saudável… Mas
enfim. Tentava muito fazer uma massagem que fosse boa para ele. Ficava mais
de uma hora. Escutava o que o corpo dele está me dizendo. E ele ficava tão grato
depois… E aí me pedia para voltar na outra semana. André não ficou muito feliz
com isso, mas fazer o quê? Então eu ia duas vezes por semana ao apartamento
dele. Algumas vezes ele me perguntava se queria chá depois, e nós
conversávamos. Então… Bem, foi difícil. Porque sabia que estava me
apaixonando por ele. E isso é algo que não podemos fazer.
— Como médicos e pacientes. Ou professores.
— Exatamente.
Agnes se interrompeu para colocar um pastel chinês na boca. Eu nunca a tinha visto comer tanto. Ela mastigou por um instante.
— Mas eu não conseguia parar de pensar naquele homem. Tão triste. E tão
delicado. E tão sozinho! E no fim disse para André que ele tinha que ir no meu
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lugar. Não podia ir mais.
— E o que aconteceu?
Eu tinha parado de comer.
— Leonard veio até minha casa! No Queens! Conseguiu meu endereço não sei
como e o carro grande dele apareceu na minha casa. Minhas amigas e eu estávamos sentadas na saída de incêndio fumando um cigarro quando eu o vi sair e ele dizer: “Quero falar com você.”
— Que nem em Uma Linda Mulher.
— Isso! É mesmo! Quando desci até calçada ele estava muito bravo.
Perguntou: “Ofendi você de algum jeito? Desrespeitei você?” E eu só balancei a
cabeça. Então ele andou para lá e para cá e disse: “Por que você não vem mais?
Não quero mais André. Quero você.” Então, como uma idiota, eu comecei a chorar.
Enquanto eu observava, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Chorei bem ali, em pleno dia, na rua, com as minhas amigas olhando. E
falei: “Não posso dizer.” Então ele ficou bravo. Queria saber se a esposa tinha sido grossa comigo. Ou se alguma coisa havia acontecido no trabalho. Então, finalmente, disse para ele: “Não posso ir porque gosto de você. Gosto muito de
você. E isso não é nada profissional. Posso perder meu emprego.” Aí ele olhou
para mim por um tempo e não disse nada. Absolutamente nada. Entrou no carro
e foi embora. E eu pensei: Ah, não. Agora nunca mais vou ver esse homem, e perdi meu emprego. Fui trabalhar no dia seguinte muito nervosa. Muito
nervosa, Louisa. Com a barriga doendo!
— Porque você achou que ele ia contar para o seu chefe.
— Exatamente. Mas sabe o que aconteceu quando eu cheguei em casa?
— O quê?
— Um enorme buquê de rosas vermelhas esperava por mim. O maior que já
vi, com rosas lindas, aveludadas e perfumadas. Tão macias que dava vontade de
tocar. Nenhum nome. Mas eu sabia na mesma hora. Então um novo buquê de rosas vermelhas passou a chegar todos os dias. Nosso apartamento estava cheio
de rosas. Minhas amigas diziam que estavam enjoadas com o cheiro.
Ela começou a rir.
— Então, no último dia ele veio para minha casa de novo e eu desci e ele me
pediu para entrar no carro com ele. Sentamos no banco de trás e ele pediu que o
motorista desse uma volta e me disse que estava muito infeliz, e que desde o momento em que havíamos nos conhecido ele não conseguia parar de pensar em mim e que eu só precisava dizer uma palavra e ele deixaria a esposa e a gente ficaria junto.
— E vocês não tinham nem se beijado?
— Nada. Eu fiz massagem no bumbum dele, claro, mas não é a mesma coisa.
Ela suspirou, saboreando a lembrança.
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— E eu sabia. Sabia que a gente tinha que ficar junto. E eu disse. Disse: “Sim”.
Eu estava fascinada.
— Naquela noite ele foi para casa e disse à esposa que não queria mais estar
casado. E ela ficou brava. Muito brava. Perguntou para ele o motivo e ele disse que não podia viver em um casamento sem amor. E naquela noite ele me ligou
de um hotel e me pediu para encontrá-lo nessa suíte no Ritz Carlton. Já ficou hospedada no Ritz Carlton?
— Hum… não.
— Entrei e ele estava em pé do lado da porta, como se estivesse nervoso demais para sentar, e me disse que sabia que é um estereótipo e que é velho demais para mim e que o corpo dele está castigado pela artrite, mas se tivesse
uma chance de eu realmente querer estar com ele, faria tudo o que pudesse para me deixar feliz. Porque ele tem essa intuição sobre nós dois, sabe? De que
somos almas gêmeas. Então a gente se abraçou e finalmente se beijou, e ficamos
acordados a noite toda, conversando, conversando sobre nossa infância, nossa
vida, nossas esperanças e sonhos.
— É a história mais romântica que já ouvi.
— Então a gente trepou, claro, e, meu Deus, consegui sentir que aquele homem estava congelado havia anos, sabe?
Àquela altura, tossi, cuspindo um pedaço de macarrão na mesa. Quando ergui
os olhos, as pessoas nos observavam.
A voz de Agnes se tornou mais alta. Ela gesticulou no ar.
— Você não acreditaria. É como se ele tivesse uma fome, como se fosse uma
fome de anos e anos que estava pulsando nele. Pulsando! Naquela primeira noite ele estava insaciável.
— Sei — falei com a voz aguda, limpando a boca com um guardanapo.
— O encontro dos nossos corpos foi mágico. E depois ficamos abraçados
durante horas e eu envolvi o corpo dele com o meu e ele apoiou a cabeça nos meus seios e prometeu que ele nunca mais ia ficar congelado. Você entende?
Fez-se silêncio no restaurante. Atrás de Agnes, um jovem com casaco de
capuz olhava fixamente para sua nuca, a colher erguida no ar. Quando me viu olhando, largou o talher com um tinido.
— É… é uma história realmente adorável.
— E ele manteve a promessa. Tudo que disse é verdade. Somos felizes juntos.
Muito felizes.
Sua expressão murchou um pouco.
— Mas a filha dele me odeia. A ex-mulher me odeia. Ela me culpa por tudo,
mesmo que não o amasse. Diz a todos que sou uma pessoa má por roubar seu
marido.
Fiquei sem saber o que dizer.
— E toda semana tenho que ir a eventos beneficentes e coquetéis e sorrir, fevereiro/2018
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fingir que não sei o que estão falando sobre mim. O jeito como aquelas mulheres
olham para mim. Não sou o que elas dizem que sou. Falo quatro línguas. Toco
piano. Tenho diploma especial em massagem terapêutica. Sabe que língua ela fala? Hipocrisia. Mas é difícil fingir que não estou sofrendo, sabe? Que não estou nem aí.
— As pessoas mudam — falei, esperançosa. — Com o tempo.
— Não. Não acho possível.
A expressão de Agnes tornou-se nostálgica por um instante. Então ela deu de
ombros.
— Mas olhando pelo lado bom, elas são bastante velhas. Talvez algumas
morram logo.
* * *
Naquela tarde, telefonei para Sam enquanto Agnes tirava um cochilo e Ilaria estava ocupada lá embaixo. Eu ainda me sentia zonza com os eventos da noite anterior e com as confidências de Agnes. Tinha a sensação de ter passado para
um novo espaço, de alguma forma. Sinto que você é mais minha amiga que minha
assistente, ela me dissera enquanto caminhávamos de volta ao apartamento. É
tão bom ter alguém em quem posso confiar.
— Recebi suas fotos — disse ele.
Já era noite lá, e Jake, seu sobrinho, estava hospedado com ele. Eu podia ouvir a música dele tocando ao fundo. Sam aproximou a boca do telefone.
— Você estava linda.
— Nunca vou usar um vestido daqueles de novo em toda a minha vida. Mas a
coisa toda foi incrível. A comida, a música, o salão… e o mais estranho é que aquelas pessoas nem percebem. Não veem o que está ao redor delas! Havia uma
parede inteira feita de gardênias e luzinhas decorativas. Tipo, uma parede enorme! E tinha um pudim de chocolate maravilhoso: um quadrado de fondant
com penas de chocolate branco e trufinhas em volta, e nenhuma das mulheres
comeu. Nenhuma! Dei a volta em todas as mesas, contando, só para ter certeza.
Fiquei tentada a colocar algumas trufas na bolsa de mão, mas achei que poderiam derreter. Aposto que acabaram jogando tudo fora. Ah, e cada mesa tinha uma decoração diferente… mas todas eram feitas de penas amarelas, com
o formato de vários pássaros. A nossa era uma coruja.
— Parece ter sido uma noite e tanto.
— Tinha um barman que fazia drinques com base na personalidade da
pessoa. Você dizia três coisas a seu respeito e aí ele criava um.
— E ele fez um para você?
— Não. O cara com quem eu estava falando ganhou um Marinheiro
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Experiente e eu fiquei com medo de ganhar um Ressuscitadora de Cadáveres, um Mamilo Escorregadio, ou alguma coisa assim. Então me contentei com champanhe. Me contentar com champanhe! Quem diria, eu dizendo isso.
— Então, com quem estava falando?
Houve uma pausa ínfima antes da pergunta. E, para minha irritação, outra pausa ínfima antes da minha resposta.
— Ah… só um cara… Josh. Um executivo. Ficou fazendo companhia para mim
e Agnes enquanto a gente esperava o Sr. Gopnik voltar.
Outra pausa.
— Legal.
Comecei a tagarelar.
— E a melhor parte é que você não precisa se preocupar com a volta para casa, porque sempre tem um carro na porta. Mesmo quando eles só vão fazer compras. O motorista para na frente e fica esperando, ou dá a volta no quarteirão, e quando você sai, ta-nãã! Lá está seu grande carro preto reluzente.
Entra. Coloca todas as sacolas no porta-malas. Só que eles chamam de
bagageiro. Nada de ônibus noturno! Nada de metrô tarde da noite com pessoas
vomitando no nosso sapato.
— Que vida boa, hein? Assim você não vai querer voltar para casa.
— Ah. Não. Não é como se fosse a minha vida. Sou só uma aproveitadora. Mas é bem impressionante ver isso de perto.
— Tenho que ir, Lou. Prometi ao Jake que o levaria para comer uma pizza.
— Mas… mas a gente quase não conversou. Como estão as coisas aí? Conte as
suas novidades.
— Outra hora. Jake está com fome.
— Ok! — Minha voz saiu aguda demais. — Mande um oi para ele!
— Ok.
— Amo você — falei.
— Eu também.
— Só mais uma semana! Estou contando os dias.
— Tenho que ir.
Eu me senti estranhamente perturbada ao largar o telefone. Não entendi
muito bem o que tinha acabado de acontecer. Fiquei sentada na cama, imóvel.
Então olhei para o cartão de visita de Josh. Ele tinha me entregado aquilo enquanto íamos embora, colocando-o na palma da minha mão e fechando meus
dedos.
Me ligue. Posso mostrar alguns lugares legais para você.
Eu aceitara o cartão e sorrira educadamente, o que, é claro, poderia significar
qualquer coisa.
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7
Chalé dos Fox
Terça-feira, 6 de outubro
Querida Louisa,
Espero que você esteja bem e aproveitando sua estada em Nova York.
Creio que Lily esteja escrevendo para você, mas fiquei pensando na nossa última conversa e dei uma olhada no loft, onde peguei algumas cartas de Will, da temporada que ele passou aí, e achei que você poderia gostar. Você
sabe como ele adorava viajar, e pensei que talvez você pudesse gostar de fazer os mesmos passeios.
Li algumas das cartas; foi uma experiência agridoce. Pode ficar com elas
até o nosso próximo encontro.
Com todo o carinho,
Camilla Traynor
Nova York, 6 de dezembro de 2004.
Querida mãe,
Eu teria telefonado, mas a diferença de fuso horário não se encaixa na agenda daqui, então achei que devia chocá-la com uma carta. É a primeira
desde aquele curto período na Priory Manor, eu acho. Eu não fui exatamente
feito para um colégio interno, não é?
Nova York é incrível! É impossível não se sentir contagiado pela energia
do lugar. Acordo e vou para a rua às cinco e meia da manhã todos os dias.
Minha empresa fica na Stone Street, no Distrito Financeiro. Nigel arrumou
uma sala para mim (não é de esquina, mas tem uma bela vista da água —
aparentemente são por essas coisas que avaliam a gente aqui em NY) e os
caras do trabalho parecem ser legais. Diga a papai que fui à ópera no Met
sábado com meu chefe e a esposa dele — (Der Rosenkavalier, um pouco exagerado) e você vai gostar de saber que fui assistir a uma apresentação de
Les Liaisons Dangereuses. Temos muitos almoços com clientes, muitos jogos
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de softball da empresa. Poucos eventos noturnos: meus novos colegas são quase todos casados, com filhos pequenos, então sou só eu explorando os bares…
Saí com algumas garotas — nada sério (aqui, “encontros” parecem ser
uma distração passageira) —, mas passo a maior parte do meu tempo livre
na academia ou com velhos amigos. Tem muita gente da Shipmans aqui, e
conheço alguns da escola. Parece que o mundo é bem pequeno, no fim das
contas… Mas a maioria das pessoas mudou bastante desde que veio para cá.
Estão mais duronas, mais ávidas do que na minha lembrança. Acho que a cidade desperta isso em você.
Enfim! Vou sair com a filha de Henry Farnsworth esta noite. Lembra
dela? Destaque do Clube Stortfold Pony? Pois ela se reinventou como uma espécie de guru das compras. (Não crie expectativas, só estou fazendo isso
como favor para Henry.) Vou levá-la à minha churrascaria preferida, no Upper East Side: pedaços de carne do tamanho de um sapato. Espero que ela não seja vegetariana. Todo mundo aqui parece ter aderido a alguma moda
alimentícia.
Ah, e no domingo passado, peguei a linha F e saltei no fim da Brooklyn Bridge só para voltar andando por cima da água, como você sugeriu. Foi a
melhor coisa que fiz até agora. Tive a impressão de ter entrado em um dos
primeiros filmes de Woody Allen — sabe, aqueles em que a diferença de idade entre ele e as atrizes principais era só de dez anos…
Diga a papai que vou telefonar para ele semana que vem, e dê um abraço
no cachorro por mim.
Com amor, W.
* * *
Desde aquela tigela de macarrão barato, algo mudara na minha relação com os
Gopnik. Acho que entendi um pouco melhor que eu era capaz de ajudar Agnes
em seu novo papel. Ela precisava de alguém em quem confiar e se apoiar.
Aquilo, e a estranha energia osmótica de Nova York, significava que dali em diante eu pularia da cama de uma forma que não fazia desde que trabalhara para Will. Isso fazia com que Ilaria estalasse a língua e revirasse os olhos, e com que Nathan me olhasse de esguelha, como se eu tivesse começado a usar drogas.
Mas era simples. Eu queria fazer bem o meu trabalho. Queria aproveitar ao
máximo meu tempo em Nova York, trabalhando para aquelas pessoas
maravilhosas. Queria desfrutar intensamente cada dia, como Will teria feito.
Reli aquela primeira carta inúmeras vezes, e quando me acostumei à estranheza
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de ouvir sua voz, senti uma identificação inesperada com ele, um recém-
chegado à cidade.
Eu me empenhei mais. Corri com Agnes e George todas as manhãs, e certos
dias até consegui ir até o final do percurso sem querer vomitar. Passei a conhecer os lugares a que Agnes mais ia, quais as coisas mais prováveis quisesse ter consigo, que quisesse vestir e levar para casa. Estava pronta no corredor antes que ela aparecesse, com água, cigarros e suco verde prontos quase antes de ela mesma saber que os queria. Quando Agnes precisava ir a um
almoço onde talvez as Terríveis Matronas estivessem, eu fazia piadas antes para
aliviar o nervosismo e enviava pelo celular uns GIFs de pandas soltando pum ou
de pessoas caindo de trampolins, para que ela os visse durante a refeição. Eu estava esperando no carro quando acabava e a ouvia contar com lágrimas nos
olhos o que haviam dito ou o que não haviam dito para ela, balançava a cabeça
em solidariedade ou concordava que elas eram, sim, criaturas cruéis e impossíveis. Secas feito palitos. Sem coração.
Aprendi a manter a expressão neutra quando Agnes me dava informações
demais sobre o lindo, belíssimo corpo de Leonard e suas muitas, muitas
habilidades incrííííííííveis na cama, e tentava não rir quando ela falava palavras em polonês, como cholernica, com as quais insultava Ilaria sem que ela entendesse.
Logo descobri que Agnes não tinha filtro. Meu pai sempre dizia que eu
costumava falar a primeira coisa que me ocorria, mas no meu caso não era Puta
velha amargurada! em polonês, ou Dá para imaginar aquela monstra da Susan Fitzwalter se depilando? Deve ser que nem arrancar a barba de um mexilhão fechado. Cruzes.
Não que Agnes fosse malvada per se. Acho que se sentia tão pressionada para se comportar de determinada maneira, para ser vista e examinada e não
decepcionar, que eu me tornei uma espécie de válvula de escape. No instante em que ela se afastava das companhias, falava palavrões e xingava, e quando Garry finalmente nos levava para casa, ela havia recuperado a equanimidade a
tempo de ver o marido.
Desenvolvi estratégias para reintroduzir alguma diversão na vida de Agnes.
Uma vez por semana, de surpresa, nós desaparecíamos no meio do dia para ir
ao cinema na Lincoln Square e assistir a comédias bobas e nojentas, roncando
de tanto gargalhar enquanto enfiávamos pipocas na boca. Desafiávamos uma a
outra a entrar nas lojas da Avenida Madison e experimentar as piores roupas de grife que pudéssemos encontrar, nos admirando mutuamente, as expressões
sérias, e perguntando, Você tem isso em um verde mais chamativo? , enquanto as vendedoras, com um olho na bolsa Hermès Birkin de Agnes, circulavam de lá para cá, forçando elogios. Certa vez, no horário de almoço, Agnes conseguiu convencer o Sr. Gopnik a ir conosco, e eu observei enquanto ela, posando feito
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uma modelo na passarela, exibia para ele uma série de terninhos dignos de palhaços, desafiando-o a rir, enquanto as extremidades da boca dele se
contorciam de tanto reprimir as risadas. Você apronta cada uma, disse ele a Agnes depois, balançando a cabeça com carinho.
Mas não era só o meu trabalho que me deixava animada. Eu tinha começado
a entender melhor a cidade, e, em troca, ela começava a me acolher. Não era difícil, em uma cidade de imigrantes — fora da estratosfera rarefeita da vida cotidiana de Agnes, eu era apenas mais uma pessoa vinda de muito longe, percorrendo a cidade, trabalhando, pedindo minha comida para viagem nos
restaurantes ou aprendendo a especificar pelo menos três coisas que queria no
meu café ou sanduíche, só para soar como uma nativa.
Eu observava e aprendia.
Eis o que aprendi sobre Nova York no primeiro mês:
1. Ninguém no meu prédio falava com ninguém, e os Gopnik só falavam com
Ashok. A velha do segundo andar, a Sra. De Witt, não falava com o casal da Califórnia na cobertura, e o casal que estava sempre de terno do terceiro andar
caminhava pelo corredor com o nariz colado no iPhone, latindo instruções para
o microfone ou entre si. Até mesmo as crianças do primeiro andar — pequenas
manequins lindamente vestidas, acompanhadas por uma jovem filipina afobada
— não diziam olá e mantinham os olhos fixos no tapete felpudo quando eu passava. Na vez em que sorri para a menina, os olhos dela se arregalaram como
se eu tivesse feito algo profundamente suspeito.
Os moradores do Lavery saíam do edifício e imediatamente entravam em carros pretos idênticos que aguardavam com paciência junto ao meio-fio.
Sempre pareciam saber qual era o seu. A Sra. De Witt, até onde pude ver, era a
única pessoa que falava com alguém. Falava com Dean Martin o tempo todo, ia
mancando pelo quarteirão e resmungando baixinho sobre os “russos
miseráveis, os chineses horríveis” do prédio atrás do nosso, que mantinham os
próprios motoristas esperando lá fora vinte e quatro horas por dia,