Ainda sou eu

Jojo Moyes · Capítulo 1 de 1 · parte 4/16

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Ainda sou eu

Epígrafe

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 16 partes.

atravancando a rua. Ela reclamava ruidosamente com Ashok ou com a empresa

que administrava o prédio sobre o fato de Agnes ficar tocando piano, e se passávamos por ela no corredor, apressava o passo, de vez em quando deixando

escapar um chiado de reprovação vagamente audível.

2. Em contrapartida, nas lojas, todos falavam com você. As vendedoras a seguiam o tempo todo, a cabeça inclinada para a frente para escutar melhor, sempre querendo saber como podiam ajudá-la ou se podiam levar ao provador

para você experimentar. Eu não recebia tanta atenção desde que fora

surpreendida com Treena roubando um chocolate da agência do correio aos

oito anos, e a Sra. Barker nos acompanhara de perto, feito uma agente do serviço secreto, todas as vezes que entramos lá para tomar sorvete nos três anos seguintes.

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E todos os vendedores de lojas em Nova York queriam que você tivesse um

bom dia. Mesmo que você só estivesse comprando um suco de laranja ou o jornal. No início, encorajada pela simpatia, eu respondia “Ah! Bem, tenha um bom dia você também!” e eles sempre ficavam um pouco surpresos, como se eu

simplesmente não entendesse as regras de conversação em Nova York.

Quanto a Ashok, ninguém passava pela entrada do prédio sem trocar

algumas palavras com ele. Mas eram negócios. Ele sabia fazer seu trabalho.

Estava sempre se assegurando de que você estava bem, que tinha tudo de que

precisava.

— Não pode sair com sapatos arranhados, Srta. Louisa!

Era capaz de sacar um guarda-chuva de dentro da manga feito um mágico

para a curta caminhada até o meio-fio, aceitando gorjetas com o gesto discreto

de um gatuno. Conseguia tirar notas de dinheiro dos punhos, agradecendo

discretamente ao guarda de trânsito que facilitava a passagem do entregador do

mercado, ou da entrega de roupas da lavanderia, e assobiava, pedindo um táxi

amarelo-vivo, fazendo-o surgir do nada com um som que só os cachorros eram

capazes de ouvir. Ele não era apenas o porteiro do nosso prédio, era seu batimento cardíaco, garantindo a circulação das coisas, assegurando-se de que

tudo corresse como planejado, fornecendo sangue.

3. Os nova-iorquinos — aqueles que não pegavam limusines diante do nosso

edifício — caminhavam muito, muito rápido, dando passadas na calçada,

entrando e saindo de multidões como se possuíssem aqueles sensores que

impedem que você esbarre em outra pessoa. Seguravam celulares, copos de

isopor, e, antes das sete da manhã, pelo menos a metade deles vestia roupas de

ginástica. Toda vez que eu desacelerava, ouvia um xingamento resmungado ao

meu ouvido, ou sentia a bolsa de alguém se chocar contra as minhas costas.

Parei de usar meus sapatos mais chamativos — os que me faziam cambalear, meus chinelos de gueixa japonesa ou minhas botas de plataforma listradas dos

anos setenta — e passei a usar tênis, para poder me mover com a corrente, em

vez de ser um obstáculo que separava as águas. Gosto de pensar que se alguém

me visse do alto nunca imaginaria que eu não era dali.

Durante aquelas primeiras semanas, eu também caminhei, horas a fio. No

início, achei que passaria um tempo com Nathan, conhecendo lugares novos.

Mas ele parecia ter construído um círculo social de homens viris, do tipo que não tem qualquer interesse em companhias femininas a menos que tenha

bebido várias cervejas primeiro. Passava horas na academia e fechava os finais de semana saindo com uma ou duas garotas. Quando eu sugeria que fôssemos

ao museu, ou talvez passear pelo High Line, ele sorria, constrangido, e me dizia

que já tinha planos. Portanto, eu caminhava sozinha, atravessando Midtown até

o Meatpacking District, até o Greenwich Village, o SoHo, desviando de grandes

avenidas, seguindo qualquer coisa que parecesse interessante, com meu mapa

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na mão, tentando lembrar qual era o sentido do tráfego. Vi que Manhattan tinha

regiões diferentes, dos edifícios imponentes de Midtown às ruas de

paralelepípedos dolorosamente descoladas em torno da rua Crosby, onde uma a

cada duas pessoas parecia ser modelo, ou dona de uma conta no Instagram dedicada à alimentação saudável. Eu caminhava sem ter um destino exato, sem

precisar estar em qualquer lugar. Comi uma salada em um bar de montar

saladas, pedindo algo com coentro e feijão preto porque nunca tinha comido nenhum dos dois. Peguei o metrô, tentando não parecer uma turista enquanto

me perguntava como comprar um bilhete e identificar os malucos, e esperei por

dez minutos que meu batimento cardíaco voltasse ao normal depois de emergir

de volta à luz do dia. Então atravessei a Brooklyn Bridge, como Will tinha feito, e percebi meu coração se encher de alegria quando avistei a água cintilante abaixo, sentindo a vibração do tráfego sob meus pés, ouvindo mais uma vez sua

voz em minha mente. Viva corajosamente, Clark.

Parei no meio da ponte e fiquei imóvel, olhando o East River, me sentindo suspensa, quase zonza com a sensação de já não estar presa a qualquer lugar específico. E aos poucos parei de riscar itens na lista, porque era tudo praticamente novo e estranho.

Durante aquelas primeiras caminhadas, eu vi:

Um homem vestido de mulher andando de bicicleta cantando canções de

musicais em um microfone, com alto-falantes. Várias pessoas aplaudiram

enquanto ele passava.

Quatro garotas pulando corda entre dois hidrantes. Eram duas cordas

girando ao mesmo tempo, e eu parei para aplaudir quando elas enfim

terminaram de pular, e elas sorriram para mim timidamente.

Um cachorro de skate. Quando mandei uma mensagem de texto para minha

irmã contando isso, ela me disse que eu estava bêbada.

Robert de Niro.

Pelo menos eu acho que era Robert de Niro. Foi no começo da noite e eu estava

me sentindo nostálgica, com saudades de casa, quando ele passou por mim na

esquina das ruas Spring e Broadway, então falei em voz alta, “Ai, meu Deus.

Robert de Niro”, antes que pudesse me conter, mas ele não se virou ao passar

por mim, então eu não tive certeza, depois, se isso se devia ao fato de que ele

era apenas um sujeito qualquer que achou que eu estava falando sozinha, ou se

era exatamente o que você faria se fosse Robert de Niro e uma mulher na calçada começasse a gritar seu nome.

Decidi que era a última opção. Mais uma vez, minha irmã me acusou de estar

bêbada. Enviei uma foto do meu iPhone para ela, mas ela respondeu: Isso pode

ser a cabeça de qualquer um, sua besta, e acrescentou que eu não somente fevereiro/2018

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estava bêbada, mas era mesmo bastante burra. Foi então que minhas saudades

de casa diminuíram um pouquinho.

Queria contar aquilo a Sam. Queria contar tudo para ele, em lindas cartas escritas à mão ou pelo menos em longos e-mails digressivos que depois nós salvaríamos e imprimiríamos, e que seriam encontrados no sótão da nossa casa

quando já estivéssemos casados há cinquenta anos, para que nossos netos

achassem fofo. Mas estava tão cansada naquelas primeiras semanas que só

consegui enviar e-mails sobre como estava cansada.

Estou tão cansada. Estou com saudades.

Eu também.

Não, estou, tipo, muito cansada. Cansada do tipo chorando com comerciais na

TV, dormindo enquanto escovo os dentes e acabando com pasta de dente no peito

inteiro.

Está bem, você venceu.

Tentei não me importar com o fato de ele me escrever pouco. Tentei lembrar

a mim mesma que ele estava fazendo um trabalho de verdade, difícil, salvando

vidas e fazendo a diferença, enquanto eu ficava sentada em salões de manicures

e corria pelo Central Park.

O supervisor dele mudara as tarefas. Ele estava trabalhando quatro noites seguidas e ainda aguardava que lhe dessem um novo parceiro permanente. Isso

deveria tornar mais fácil nos falarmos, mas de alguma forma não era o caso. Eu

checava o celular durante os minutos livres que tinha toda noite, mas

costumava ser a hora em que ele estava saindo para começar o turno.

Às vezes eu me sentia curiosamente deslocada, como se tivesse inventado

Sam em um sonho. Uma semana, ele me assegurou. Só mais uma semana.

Quão difícil podia ser?

* * *

Agnes estava tocando piano outra vez. Tocava quando estava feliz ou infeliz, com raiva ou frustrada, escolhia música agitadas, emotivas, fechava os olhos enquanto as mãos se moviam de um lado ao outro sobre as teclas, se

balançando no banquinho. Na noite anterior ela tocara um noturno, e quando passei pela porta aberta da sala de estar, observei por um instante o Sr. Gopnik

sentado ao lado dela no banco. Ainda que ela estivesse totalmente absorta na música, ficou claro que tocava para ele. Ao terminar, sorrira para o marido e ele

baixara a cabeça para beijar sua mão. Passei da porta na ponta dos pés como se

não tivesse visto.

Estava no escritório, revendo os eventos da semana, tendo chegado até a quinta-feira (Almoço Beneficente Da Associação Crianças com Câncer, As Bodas

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de Fígaro), quando ouvi alguém batendo na porta. Ilaria estava com a especialista em comportamento animal — Felix tinha outra vez feito algo

indizível na sala do Sr. Gopnik —, então saí no corredor e abri.

A Sra. De Witt estava diante de mim, a bengala erguida como que pronta para

dar um golpe. Eu me abaixei instintivamente, e, quando ela baixou a bengala, me

endireitei, com as palmas das mãos erguidas. Demorei um instante para

entender que ela simplesmente usara a bengala para bater na porta.

— Posso ajudar?

— Diga a ela para parar com esse barulho infernal!

Seu minúsculo rosto enrugado estava vermelho-escuro de fúria.

— Como?

— A massagista. A noiva encomendada pelo correio. Tanto faz. Posso ouvir do outro lado do corredor.

Ela usava um casaco estilo Pucci dos anos setenta com estampa verde e cor-

de-rosa e um turbante verde-esmeralda. Mesmo enquanto eu me retesava ao

ouvir seus insultos, estava fascinada.

— Hum, na verdade Agnes é fisioterapeuta treinada. E está tocando Mozart.

— Não ligo se for Champion, o Cavalo Fantástico tocando kazoo com o você-

sabe-o-quê dele. Diga a ela para fazer silêncio. Ela mora em um prédio. Deveria

ter alguma consideração pelos outros moradores!

Dean Martin rosnou para mim, como que concordando. Eu ia dizer mais

alguma coisa, mas me distraí tentando entender qual dos olhos dele estava de

fato olhando em minha direção.

— Vou dar o recado, Sra. De Witt — falei, com meu sorriso profissional.

— Como assim, “dar o recado”? Não “dê o recado” simplesmente. Faça ela parar. Está me deixando louca com esse teclado infeliz. Dia, noite, o tempo todo.

Isto costumava ser um prédio tranquilo.

— Mas, para ser justa, seu cachorro está sempre lat…

— A outra era péssima também. Mulher miserável. Sempre com aquelas

amigas tagarelas, blá blá blá no corredor, atravancando a rua com seus carros enormes. Ai. Não me surpreende que ele a tenha trocado.

— Não sei se o Sr. Gopnik…

— “Fisioterapeuta treinada”. Meu Deus, é assim que chamamos agora? Então

eu devo ser a negociadora-chefe da ONU.

Ela secou o rosto com um lenço.

— Até onde eu sei, a grande vantagem dos Estados Unidos é que aqui você

pode ser quem bem entender.

Sorri.

Ela estreitou os olhos. Mantive meu sorriso.

— Você é inglesa?

— Sou. — Senti um possível abrandamento. — Por quê? Tem parentes lá,

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Sra. De Witt?

— Não seja ridícula. — Ela me olhou de cima a baixo. — Só pensei que moças

inglesas tivessem estilo.

E, com isso, ela me dispensou com um aceno e voltou mancando pelo

corredor enquanto Dean Martin lançava olhares amargurados atrás dela.

* * *

— Era a bruxa velha louca do outro lado do corredor? — perguntou Agnes, enquanto eu fechava a porta com cuidado. — Credo. Não me surpreende que ninguém venha vê-la nunca. É como um horrível pedaço ressecado de suszony

dorsz.

Houve um breve silêncio. Ouvi páginas sendo viradas.

Então Agnes começou a tocar uma música estrondosa, gradativa, os dedos se

derramando sobre as teclas, pisando o pedal com tanta força que senti o chão

vibrar.

Fixei novamente meu sorriso no rosto enquanto atravessava o corredor e

olhei meu relógio com um suspiro interno. Só mais duas horas.

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Sam estava chegando naquele dia, e ficaria até segunda-feira. Ele havia

reservado um quarto de hotel para nós a alguns quarteirões da Times Square.

Levando em conta o que Agnes dissera sobre como não deveríamos ficar

separados, perguntei se ela poderia me dar parte da tarde de folga. Ela respondera talvez com um tom de voz que me parecera positivo, embora eu tivesse a nítida sensação de que a vinda de Sam era um incômodo para ela.

Ainda assim, caminhei até a Penn Station, os passos saltitantes, com uma mala

de fim de semana às costas, e peguei o Air Train até o aeroporto. Quando cheguei lá, um pouco adiantada, estava vibrando de empolgação.

O painel de chegadas dizia que o avião de Sam tinha pousado e que ele aguardava as bagagens, então corri até o banheiro para conferir o cabelo e a maquiagem. Suando um pouco por causa da caminhada e do trem lotado,

retoquei rímel e batom, e passei uma escova nos cabelos. Eu vestia pantalonas

de seda azul-turquesa com uma blusa preta de gola alta e botas de cano curto

pretas. Queria parecer eu mesma, mas também queria dar a impressão de que

tinha mudado de uma maneira indefinível, talvez me tornado um pouco mais misteriosa. Desviei de uma mulher de aparência exausta que levava uma mala de rodinhas imensa, passei um pouco de perfume e então finalmente me

considerei o tipo de mulher que recebe o namorado em aeroportos

internacionais.

Mesmo assim, quando saí do banheiro, o coração a mil, e espiei o painel, me

senti estranhamente nervosa. Estávamos separados havia apenas quatro

semanas. Aquele homem havia me visto no fundo do poço, arruinada, em

pânico, triste, contrariada, e ainda assim parecia gostar de mim. Ele ainda era Sam, disse a mim mesma. Meu Sam. Nada havia mudado desde a primeira vez

que ele tocara minha campainha e me chamara desajeitadamente, pelo

interfone, para sair.

O painel ainda dizia: AGUARDANDO BAGAGENS.

Situei-me diante da barreira, ajeitei meu cabelo mais uma vez e fixei os olhos

nas portas duplas, sorrindo involuntariamente com os gritos de alegria sempre

que casais havia muito separados se encontravam. Pensei: seremos nós daqui a

pouco. Respirei fundo, percebendo que as palmas das minhas mãos tinham

começado a suar. Uma fila de pessoas começou a sair, e meu rosto não parava

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de voltar ao que eu suspeitava ser um sorriso ligeiramente louco de

empolgação, as sobrancelhas erguidas, maravilhada, como um político que finge

avistar alguém na multidão.

Então, enquanto eu vasculhava minha bolsa em busca de um lenço, avistei algo e ergui a cabeça rapidamente. Ali, a alguns metros, no meio do grupo de pessoas reunidas, estava Sam, uma cabeça acima de todos ao redor, varrendo a

multidão com os olhos, exatamente como eu. Murmurei “Com licença” para a pessoa à minha direita, passei por baixo da fita e corri na direção dele. Sam se

virou bem no instante em que o alcancei e sua mala bateu com força na minha

canela.

— Ai, droga. Você está bem? Lou?… Lou?

Segurei minha perna, tentando não soltar um palavrão. Tinha lágrimas nos olhos e quando falei foi com um gemido de dor.

— O painel informou que as bagagens ainda não tinham chegado! — disse, os

dentes cerrados. — Não acredito que perdi nosso grande reencontro! Eu estava

no banheiro!

— Só trouxe bagagem de mão.

Ele levou a mão ao meu ombro.

— Sua perna está bem?

— Mas eu tinha planejado tudo! Fiz até um cartaz!

Peguei o papel na minha jaqueta e me endireitei, tentando ignorar a dor na

minha canela. “PARAMÉDICO MAIS GATO DO MUNDO”.

— Este era para ser um dos momentos decisivos da nossa relação! Um

daqueles momentos sobre os quais a gente pensa e diz: “Aah, lembra quando a

gente se encontrou no aeroporto de Nova York?”

— Ainda é um ótimo momento — disse ele esperançosamente. — É bom ver

você.

— Bom me ver?

— Ótimo. É ótimo ver você. Desculpe. Estou exausto. Não dormi.

Esfreguei minha canela. Nós nos encaramos por um instante.

— Não deu certo — falei. — Você tem que ir de novo.

— Ir de novo?

— Até a saída. Aí fazemos como eu planejei, ou seja, eu seguro meu cartaz, então corro na sua direção, a gente se beija e começa tudo do jeito certo.

Ele me olhou fixamente.

— É sério?

— Vai valer a pena. Vamos lá. Por favor.

Ele levou um instante até ter certeza de que eu não estava brincando, então

pôs-se a andar contra a maré de pessoas que chegavam. Várias delas se viraram

para olhá-lo, e alguém estalou a língua, repreendendo.

— Pode parar! — gritei no saguão barulhento. — Aí está bom!

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Mas ele não me ouviu. Continuou andando até as portas duplas — tive um temor de que ele simplesmente voltasse para dentro do avião.

— Sam! — gritei. — PARE!

Todas as pessoas se viraram. Então ele deu meia-volta e me viu. Quando começou a vir na minha direção outra vez, passei por baixo da fita.

— Aqui! Sam! Sou eu!

Balancei meu cartaz e, enquanto caminhava para me encontrar, ele sorriu

com o ridículo da coisa toda.

Larguei o cartaz e corri até ele, e, desta vez, Sam não bateu na minha canela,

mas largou a mala no chão e me pegou no colo, então nos beijamos como atores

de cinema, plenamente e com uma alegria absoluta, sem qualquer

constrangimento ou medo a respeito do bafo de café. Ou talvez sim. Eu não saberia dizer, porque, no instante em que Sam me tirou do chão, deixei de notar

todo o resto, as malas e as pessoas e os olhos da multidão. Ah, meu Deus, a sensação dos braços dele ao meu redor, a maciez daqueles lábios. Eu não queria

largá-lo. Continuei abraçando Sam e sentindo sua força me envolver, sorvi o cheiro de sua pele, enfiei meu rosto no seu pescoço, nossa pele se tocando, a percepção de que cada célula do meu corpo tinha sentido falta dele.

— Melhor assim, sua insana? — disse ele quando finalmente se afastou para

poder me ver direito.

Acho que meu batom cobria metade do meu rosto. Tinha quase certeza de

que a barba dele me arranhara. Minhas costelas doíam onde ele me abraçava com força.

— Ah, sim — falei, sem conseguir parar de sorrir. — Muito melhor.

* * *

Decidimos deixar as malas no hotel primeiro, eu tentando não tagarelar por causa da empolgação. Falava coisas sem sentido — um fluxo de pensamentos e

observações desconexas que saía da minha boca sem seleção prévia. Ele me olhava como alguém olharia para um cachorro que começasse a dançar do

nada: achando levemente engraçado e reprimindo uma leve preocupação. Mas

quando as portas do elevador se fecharam atrás de nós, Sam me puxou para si,

segurou meu rosto entre as mãos e me beijou de novo.

— Isso foi para me fazer parar de falar? — perguntei quando ele me soltou.

— Não. Foi porque estou com vontade de fazer isso há quatro longas

semanas, e planejo fazer o máximo de vezes possível até voltar para casa.

— Boa cantada.

— Pensei nela quase o voo inteiro.

Eu o observei enquanto ele colocava o cartão-chave na porta e, pela milésima

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vez, fiquei maravilhada com a minha sorte, por tê-lo encontrado quando achava

que nunca mais poderia amar outra vez. Eu me sentia impulsiva, romântica, uma personagem em um filme de sessão da tarde.

— E… aqui estamos.

Paramos na soleira da porta. O quarto do hotel era menor do que o meu quarto na casa dos Gopnik, o carpete era marrom xadrez e a cama, em vez da

vasta extensão de linho branco de qualidade que eu imaginara, era uma cama de

casal afundada com um edredom xadrez cor de laranja e vinho. Tentei não pensar na última vez que fora lavado. Quando Sam fechou a porta atrás de nós, larguei minha mala e dei a volta na cama até conseguir espiar pela porta do banheiro. Havia um chuveiro sem banheira, e quando você acendia a luz, o exaustor gemia feito uma criança na fila do supermercado. O quarto tinha cheiro de nicotina velha misturada com aromatizador de ambiente.

— Você odiou.

Seus olhos examinaram meu rosto.

— Não! É perfeito!

— Não é perfeito. Desculpe. Fiz a reserva pelo site logo depois de terminar

um plantão. Quer que eu vá lá embaixo e pergunte se eles têm outros quartos?

— Ouvi a moça dizer que estão lotados. De qualquer forma, isso está ótimo!

Tem uma cama, um chuveiro e fica no centro de Nova York, e tem você dentro.

Isso quer dizer que tudo está maravilhoso!

— Ah, droga. Eu deveria ter perguntado a você antes.

Eu nunca soube mentir muito bem. Ele pegou minha mão e eu apertei a dele.

— Está ótimo. De verdade.

Ficamos parados, olhando para a cama. Cobri a boca com a mão, até perceber

que não iria conseguir não dizer o que estava tentando não dizer.

— Mas acho bom a gente verificar se não tem percevejos na cama.

— Sério?

— Eles estão por toda parte, segundo Ilaria.

Os ombros de Sam murcharam.

— Até os hotéis mais chiques têm.

Dei um passo à frente e puxei a coberta de uma vez, examinando o lençol branco antes de me abaixar para ver as bordas do colchão. Cheguei mais perto.

— Nada! — disse. — Isso é bom! Estamos em um hotel sem percevejos!

Ergui meu polegar.

— Oba!

Houve um longo silêncio.

— Vamos dar uma volta — sugeriu ele.

Saímos para dar uma volta. Pelo menos a localização era ótima. Passeamos por meia dúzia de quarteirões, descendo a Sexta Avenida, subindo a Quinta, ziguezagueando e seguindo nossos impulsos, eu tentando não falar sem parar fevereiro/2018

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sobre mim mesma ou Nova York, o que foi mais difícil do que eu havia imaginado, já que Sam quase não falava. Segurou minha mão e eu me apoiei no

ombro dele, tentando não olhá-lo demais. Havia algo de inesperadamente

estranho em tê-lo ali. Percebi que eu me concentrava nos pequenos detalhes, um arranhão em sua mão, uma pequena mudança no comprimento do cabelo,

tentando recuperá-lo na minha memória.

— Você não está mais mancando — comentei quando paramos para olhar a

vitrine do Museu de Arte Moderna.

Estava nervosa por ele estar tão calado, como se o hotel horrível tivesse estragado tudo.

— Você também não.

— Tenho corrido! — falei. — Já contei isso. Dou uma voltinha no Central Park todo dia de manhã com Agnes e George, o treinador dela. Olhe aqui… sinta

minhas pernas!

Sam apertou a parte de cima da minha coxa quando a aproximei dele e fez uma expressão adequadamente impressionada.

— Pode soltar agora — pedi quando as pessoas começaram a olhar.

— Desculpe — disse ele. — Faz tempo.

Eu havia me esquecido de como ele preferia ouvir a falar. Demorou um

tempo até ele dizer algo sobre si. Finalmente tinha uma parceira no trabalho.

Depois de dois alarmes falsos — um rapaz que decidira que não queria ser paramédico e Tim, um representante sindical que aparentemente odiava a

humanidade como um todo (uma atitude não exatamente ideal para o trabalho)

—, haviam encontrado uma mulher lotada em North Kensington que se mudara

recentemente e queria trabalhar mais perto de casa.

— Como ela é?

— Não é Donna, mas é ok. Pelo menos parece saber o que está fazendo.

Ele se encontrara com Donna para tomar um café na semana anterior. O pai

dela não estava reagindo à quimioterapia, mas ela havia disfarçado a tristeza com sarcasmo e piadas, como sempre fazia.

— Eu quis dizer a ela que não precisava fazer aquilo — falou Sam. — Ela sabe

tudo que passei com a minha irmã. Mas — ele me olhou de esguelha — cada um

lida com essas coisas à própria maneira.

Sam também contou que Jake ia bem na faculdade. Tinha mandado um

abraço. O pai dele, cunhado de Sam, havia largado a terapia para viúvos, dizendo que não estava funcionando para ele, embora tivesse dado fim ao sexo

compulsivo com mulheres desconhecidas.

— Ele agora está comendo para lidar com os sentimentos. Engordou seis

quilos desde que você foi embora.

— E você?

— Ah. Vou indo.

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Falou aquilo com simplicidade, mas algo naquelas palavras fez com que meu

coração se partisse de leve.

— Não é para sempre — falei quando paramos de andar.

— Eu sei.

— E vamos fazer muitas coisas divertidas enquanto você está aqui.

— O que você programou?

— Hum… basicamente Você Pelado. Seguido de um jantar. Seguido de mais

Você Pelado. Talvez uma caminhada pelo Central Park, algumas coisas cafonas de turista, como a balsa até Staten Island e a Times Square, algumas compras no

East Village e uma comida deliciosa, com mais Você Pelado.

Ele sorriu.

— E eu ganho Você Pelada também?

— Ah, sim, é tipo compre um, leve dois.

Apoiei minha cabeça nele.

— Mas, falando sério, adoraria que você conhecesse o lugar onde eu

trabalho. Talvez conheça Nathan e Ashok, e todas as pessoas de quem eu vivo

falando. O Sr. e a Sra. Gopnik estão viajando, então provavelmente não vai conhecê-los, mas pelo menos vai ter uma ideia da coisa toda na sua mente.

Ele parou e se virou de frente para mim.

— Lou. Realmente não ligo para o que vamos fazer, contanto que a gente fique junto.

Ele corou um pouco ao dizer aquilo, como se as palavras também o tivessem

surpreendido.

— Bastante romântico, Sr. Fielding.

— Mas é o seguinte, se vou cumprir essa parte de ficar pelado, preciso comer

alguma coisa muito em breve. Aonde podemos ir?

Estávamos passando pelo Radio City, cercado de imensos edifícios

comerciais.

— Tem um café — sugeri.

— Ah, não — disse ele, batendo palmas. — Ali está. Um verdadeiro food truck nova-iorquino!

Apontou para um dos eternos food trucks, um que servia “burritos

empilhados”: “Fazemos do jeito que você gosta.” Eu o segui e esperei enquanto ele pedia algo que parecia ter o tamanho do seu antebraço, com cheiro de queijo

derretido e de uma carne gordurosa não identificada.

— A gente não tinha planos de jantar fora hoje, tinha?

Ele enfiou a extremidade do burrito na boca.

Não consegui conter uma risada.

— Qualquer coisa para manter você acordado. Mas suspeito que isso vá

causar um coma.

— Nossa senhora, é muito gostoso. Quer um pouco?

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Eu queria, na verdade. Mas estava usando uma calcinha linda e não queria que partes do meu corpo pulassem para fora dela. Então esperei que ele terminasse, lambendo os dedos ruidosamente, depois jogando o guardanapo no

lixo. Ele suspirou com profunda satisfação.

— Certo — disse ele, pegando meu braço, e tudo pareceu perfeitamente

normal de repente. — Sobre essa questão da nudez…

* * *

Voltamos a pé até o hotel, em silêncio. Eu já não me sentia constrangida, como

se o tempo que havíamos passado separados tivesse criado uma distância

inesperada entre nós. Não queria mais falar. Só queria sentir a pele dele na minha. Queria ser totalmente dele outra vez, me sentir envolta, possuída.

Seguimos pela Sexta Avenida, passando pelo Rockefeller Center, e parei de notar os turistas no caminho. Tinha a sensação de estar presa em uma bolha invisível, todos os meus sentidos focados na mão morna que se fechara em torno da minha, no braço que tocava meus ombros. Cada movimento dele

parecia carregado com o peso de um propósito. Eu estava quase sem fôlego.

Podia viver com as ausências, pensei, se todas as vezes que nos encontrássemos

fossem tão deliciosas assim.

Mal tínhamos entrado no elevador quando ele se virou e me puxou para si.

Nós nos beijamos e eu derreti, me perdi na sensação do corpo dele contra o meu, o sangue pulsando tão alto nas minhas têmporas que mal ouvi as portas se

abrindo. Saímos, cambaleantes.

— A coisa da porta — disse ele, tocando os bolsos com alguma urgência. — A

coisa da porta! Onde coloquei?

— Está comigo — avisei logo de uma vez, tirando rapidamente o cartão do

bolso da calça.

— Graças a Deus — disse ele, fechando a porta atrás de nós com um chute, a

voz baixa em meu ouvido. — Você não imagina há quanto tempo eu venho

pensando nisso.

* * *

Dois minutos depois, eu estava deitada no Edredom Vinho Infeliz, o suor esfriando na minha pele, me perguntando se seria muito errado pegar minha calcinha no chão. Apesar de já ter verificado a ausência de percevejos, ainda havia algo a respeito daquele edredom que me fazia querer criar uma barreira

entre ele e qualquer parte do meu corpo nu.

A voz de Sam flutuou no ar ao meu lado.

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— Desculpe — murmurou ele. — Eu sabia que estava feliz em ver você, só não sabia que estava tão feliz.

— Tudo bem — falei, me virando de frente para ele.

Sam tinha um jeito de me puxar para si como que me recolhendo, me

deixando totalmente envolta. Eu nunca tinha entendido mulheres que dizem

que certos homens as fazem se sentir seguras — mas era assim que me sentia

com Sam. Seus olhos estavam caídos, lutando contra o sono. Calculei que eram

cerca de três da manhã para ele agora. Ele deu um beijo no meu nariz.

— Me dê vinte minutos e vou estar pronto.

Corri um dedo delicadamente pelo seu rosto, acompanhando seus lábios, e

mudei de posição para que ele pudesse nos cobrir com o edredom. Passei a perna por cima da dele, de forma que não havia quase nenhuma parte de mim que não estivesse encostada em seu corpo. Até mesmo esse movimento fez com

que algo pegasse fogo dentro de mim. Não sabia o que havia a respeito de Sam

que me fazia sentir diferente — sem inibição, voraz. Duvidava ser capaz de tocar a pele dele sem sentir aquele calor dentro de mim. Podia olhar seus ombros, o volume de seus antebraços, os pelos macios e escuros onde sua nuca

encontrava o cabelo, e me sentia quase incandescente de desejo.

— Amo você, Louisa Clark — disse ele baixinho.

— Vinte minutos, é? — falei, sorrindo, e o abracei com mais força.

Mas ele caiu no sono como alguém que desaba de um precipício. Observei-o

por um instante, me perguntando se seria possível acordá-lo, e de que maneira,

mas então lembrei-me do quão desorientada e exausta eu me sentira ao chegar.

Então pensei em como ele tinha acabado de sair de uma semana com turnos de

doze horas. E que faltavam apenas algumas horas para os nossos três dias inteiros juntos. Com um suspiro, eu o soltei e virei de costas. Estava escuro lá fora, agora, e os ruídos distantes do tráfego chegavam até nós. Senti um milhão

de coisas, e fiquei perturbada ao descobrir que uma delas era decepção.

Pare, disse a mim mesma firmemente. Minhas expectativas para o fim de semana tinham simplesmente subido como um suflê, alto demais para um

contato duradouro com a atmosfera. Ele estava ali, nós estávamos juntos, e dali

a poucas horas ele estaria acordado outra vez. Vá dormir, Clark, disse a mim mesma. Puxei o braço dele para cima de mim, sentindo o cheiro de sua pele morna, e fechei os olhos.

* * *

Uma hora e meia depois, eu estava deitada na extremidade da cama, olhando o

Facebook pelo celular, impressionada com o apetite aparentemente infinito da

minha mãe por citações inspiradoras e fotografias de Thom com o uniforme da

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escola. Eram dez e meia e o sono não queria chegar. Saí da cama e fui ao banheiro, deixando a luz apagada para que Sam não acordasse com o exaustor barulhento. Hesitei antes de voltar. O colchão fundo fazia com que Sam

escorregasse para o meio da cama, deixando alguns centímetros da beirada para mim, a menos que eu me deitasse em cima dele, praticamente. Perguntei a

mim mesma se uma hora e meia de sono seria o bastante. Então subi na cama,

deslizei meu corpo contra o corpo quente dele, e, após um instante de hesitação,

o beijei.

O corpo de Sam despertou antes dele. Seu braço me puxou para perto, sua mão grande deslizou pela minha pele, e ele me beijou, beijos lentos e

sonolentos, delicados e leves que fizeram meu corpo se arquear contra o dele.

Mudei de posição para que o peso dele ficasse em mim, minha mão buscando a

dele, meus dedos se entrelaçando aos seus, deixando escapar um suspiro de prazer. Ele me queria. Abriu os olhos no escuro e eu olhei dentro deles, louca de

desejo, percebendo para minha surpresa que ele já estava suando.

Ele me olhou por um instante.

— Oi, bonitão — sussurrei.

Sam fez menção de falar, mas nenhuma palavra saiu.

Olhou para o lado. Então, de repente, saiu de cima de mim.

— O que houve? — perguntei. — O que eu falei?

— Desculpe — disse ele. — Espere aí.

Ele correu para o banheiro, fechando a porta com força atrás de si. Ouvi um

“Ai, meu Deus” e então ruídos que, desta vez, me deixaram grata pelo exaustor

barulhento.

Fiquei sentada na cama, imóvel, então me levantei, vestindo uma camiseta.

— Sam?

Apoiei o corpo na porta, colando minha orelha a ela, depois me afastei. A intimidade, percebi, tinha limites no quesito efeitos sonoros.

— Sam? Você está bem?

— Sim — disse com a voz abafada.

Ele não estava bem.

— O que está havendo?

Um silêncio demorado. O som da descarga.

— Eu… hum… acho que estou com intoxicação alimentar.

— Sério? Posso fazer alguma coisa?

— Não. Só… só não entre aqui. Ok?

Aquilo foi seguido por mais um barulho de vômito e alguns palavrões

baixinhos.

— Não entre.

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* * *

Passamos quase duas horas assim: ele travando alguma batalha terrível contra

seus órgãos de um lado da porta, eu sentada ansiosamente de camiseta do outro. Ele se recusou a me deixar entrar para ver se estava bem — seu orgulho,

eu acho, o impedia.

O homem que finalmente saiu do banheiro pouco depois de uma da manhã

tinha cor de massa de vidraceiro com um brilho de vaselina. Fiquei de pé quando a porta se abriu e ele cambaleou de leve, como que surpreso em ver que

eu ainda estava ali. Estendi uma mão, como se eu tivesse alguma esperança de

conseguir segurar alguém do tamanho dele.

— O que posso fazer? Você precisa de um médico?

— Não… Vou só… esperar deitado.

Ele caiu na cama, arfando e segurando a barriga. Tinha olheiras pretas e os

olhos estavam fixos em um ponto aleatório à frente.

— Literalmente.

— Vou pegar um pouco de água para você.

Olhei para Sam.

— Na verdade, vou correr até uma farmácia e comprar Dioralyte, ou o que tiverem aqui.

Ele nem sequer falou, só virou de lado, olhando à frente, o corpo ainda úmido

de suor.

* * *

Comprei o remédio apropriado, agradecendo silenciosamente à Cidade Que Não

Apenas Não Dorme Mas Também Possui Reidratantes em Pó. Sam bebeu um,

então, com um pedido de desculpas, voltou ao banheiro. Volta e meia eu passava

uma garrafa de água por uma fresta na porta, e no fim, acabei ligando a televisão.

— Desculpe — murmurou ele quando saiu outra vez, pouco depois das

quatro.

Então, desabou no Edredom Infeliz e caiu em um sono breve e agitado.

Dormi por cerca de duas horas, coberta com o roupão do hotel, e ao acordar

vi que ele ainda dormia. Tomei banho e me vesti, saindo do quarto em silêncio

para pegar um café na máquina do saguão. Pelo menos, eu disse a mim mesma,

ainda tínhamos dois dias pela frente.

Mas, quando voltei para o quarto, Sam estava no banheiro de novo.

— Mil desculpas — disse ele mais uma vez ao sair.

Eu tinha aberto as cortinas e, na luz do dia, ele parecia ainda mais pálido fevereiro/2018

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contra os lençóis do hotel.

— Não sei se vou conseguir fazer grande coisa hoje.

— Tudo bem!

— Talvez eu esteja melhor de tarde — disse ele.

— Tudo bem!

— Mas acho que é melhor não fazer o passeio de balsa. Acho que não quero

chegar nem perto de…

— …banheiros públicos. Entendi.

Ele suspirou.

— Isso não é exatamente o dia que eu tinha imaginado.

— Tudo bem — retruquei, subindo na cama ao seu lado.

— Pode parar de falar tudo bem? — pediu ele com irritação.

Eu hesitei por um instante, ferida, depois falei friamente:

— Está bem.

Ele me olhou de esguelha.

— Desculpe.

— Pare de pedir desculpas.

Ficamos sentados no edredom, ambos olhando reto à frente. Então a mão

dele alcançou a minha.

— Olha — disse ele por fim —, provavelmente eu vou ficar por aqui durante

algumas horas. Vou tentar recuperar as forças. Não precisa ficar comigo. Vá fazer compras ou algo assim.

— Mas você só está aqui até segunda. Não quero fazer nada sem você.

— Não presto para nada no momento, Lou.

Ele parecia prestes a socar uma parede, se ao menos tivesse forças o bastante

para erguer um punho.

* * *

Caminhei por dois quarteirões até uma banca e comprei uma montanha de

jornais e revistas. Então comprei um café decente para mim, um muffin integral e um bagel branco simples para quando ele sentisse vontade de comer algo.

— Suprimentos — falei, derrubando tudo no meu lado da cama. — Vamos

tirar proveito da situação.

E foi assim que passamos o dia. Li todas as seções do The New York Times, incluindo o caderno de esportes. Coloquei o sinal de “Não Perturbe” na porta, observei-o adormecer e esperei que as cores retornassem ao seu rosto.

Talvez ele se sinta melhor a tempo de passearmos à luz do dia.

Talvez possamos beber algo no bar do hotel.

Seria bom sentar um pouco.

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Certo, talvez ele esteja melhor amanhã.

Às nove e quarenta e cinco, desliguei o programa de entrevistas na TV, empurrei os jornais para fora da cama e me enfiei debaixo do edredom, e a única parte do meu corpo que ainda tocava o dele eram meus dedos, as pontas

entrelaçadas aos seus.

* * *

Ele acordou no domingo se sentindo um pouco melhor. Acho que àquela altura

seu estômago estava tão vazio que não restava nada para colocar para fora.

Comprei uma sopa rala que ele comeu com hesitação, depois declarou que

estava bem o bastante para dar um passeio. Vinte minutos depois, voltamos correndo e ele se trancou no banheiro. Sam estava com muita raiva. Tentei dizer

a ele que não tinha problema, mas isso só parecia deixá-lo ainda com mais raiva.

Foi um tanto patético ver um homem de um metro e noventa tentando ficar furioso quando mal conseguia segurar na barriga um copo de água.

Deixei-o sozinho por um tempo, porque minha decepção começava a se

tornar visível. Precisava caminhar pela rua e lembrar a mim mesma que aquilo

não era um sinal, não queria dizer nada, e que era fácil perder a noção das coisas estando privado de sono e tendo passado quarenta e oito horas na companhia de um homem com problemas gastrointestinais, com um banheiro

que não era nada à prova de som.

Mas o fato de já ser domingo me deixou arrasada. Eu voltaria a trabalhar no

dia seguinte. E não tínhamos feito nada do que eu havia planejado. Não tínhamos ido a um jogo de beisebol nem pegado a balsa para Staten Island. Não

tínhamos subido ao topo do Empire State nem caminhado de braços dados pelo

High Line. Naquela noite, ficamos sentados na cama e ele comeu o arroz que eu

comprara em um restaurante de sushi, enquanto eu comia um sanduíche de

frango grelhado com gosto de nada.

— Estou no caminho certo agora — murmurou ele, e eu puxei a coberta por

cima dele.

— Ótimo — falei.

Então Sam adormeceu.

* * *

Não podia passar mais uma noite olhando para o celular, então levantei

silenciosamente, deixei um bilhete para ele e saí. Eu me sentia péssima e estranhamente brava. Por que ele comera algo que lhe dera intoxicação

alimentar? Por que não podia fazer alguma coisa para melhorar mais rápido?

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Ele era paramédico, oras. Por que não podia ter escolhido um hotel melhor?

Caminhei pela Sexta Avenida com as mãos bem no fundo dos bolsos, o tráfego

barulhento ao meu redor, em pouco tempo percebi que estava no caminho da

minha casa.

Casa.

Com um susto, entendi que era assim que via o apartamento agora.

Ashok estava debaixo do toldo, conversando com outro porteiro, que se

afastou logo que me aproximei.

— Oi, Srta. Louisa. Não deveria estar com aquele seu namorado?

— Ele está doente — falei. — Intoxicação alimentar.

— Está brincando! Onde ele está agora?

— Dormindo. Eu só… não ia conseguir ficar naquele quarto por mais doze horas.

Eu senti que estava à beira das lágrimas. Acho que Ashok percebeu, porque

fez um gesto para que eu entrasse. Dentro de seu quartinho de porteiro, esquentou água em uma chaleira e preparou um chá de menta para mim. Fiquei

sentada à sua mesa bebericando meu chá enquanto ele espiava lá fora volta e meia para se assegurar de que a Sra. De Witt não estava ali para acusá-lo de não

estar cumprindo sua função.

— Enfim — falei —, por que está trabalhando? Achei que era hora do

porteiro da noite.

— Ele também está doente. Minha esposa ficou muito brava comigo. Tinha

uma de suas reuniões na biblioteca hoje, mas não temos ninguém para cuidar das crianças. Ela disse que se eu passar mais um dos meus dias de folga aqui, ela

mesma vai trocar uma palavrinha com o Sr. Ovitz. E ninguém quer isso.

Ele fez que não com a cabeça.

— Minha esposa é uma mulher temível, Srta. Louisa. Ninguém quer que ela

fique brava.

— Eu adoraria ajudar, mas acho melhor voltar e ver como Sam está.

— Seja gentil — disse ele quando devolvi a xícara. — Ele veio de longe para

vê-la. E posso garantir que está se sentindo muito pior do que você no momento.

* * *

Quando voltei para o quarto, Sam estava acordado, encostado nos travesseiros

assistindo à televisão pixelada. Ergueu os olhos quando eu abri a porta.

— Fui só dar uma volta. Eu… eu…

— Não aguentou ficar mais um minuto presa aqui dentro comigo.

Fiquei parada na porta. A cabeça dele estava funda entre os ombros. Estava

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pálido e parecia totalmente deprimido.

— Lou… se você soubesse como estou com raiva de mim neste momento…

— Tudo be… — me interrompi a tempo. — Sério. Estamos bem.

Liguei o chuveiro para ele, ajudei-o a entrar e lavei seu cabelo, tirando o restinho de xampu do minúsculo frasco, então vi a espuma deslizar pelas imensas montanhas de seus ombros. Ele estendeu o braço, pegou minha mão em silêncio e beijou a parte interna do meu pulso, um pedido de desculpas.

Coloquei a toalha sobre seus ombros e voltamos para o quarto. Ele se deitou na

cama com um suspiro. Troquei de roupa e me deitei ao seu lado, desejando não

me sentir tão apática.

— Me conte algo que não sei sobre você — disse ele.

Virei-me de frente para Sam.

— Ah, você sabe de tudo. Sou um livro aberto.

— Vamos lá, me ajude.

Sua voz estava baixa perto do meu ouvido. Não consegui pensar em nada.

Ainda estou estranhamente irritada com este fim de semana, mesmo sabendo que

é injusto da minha parte.

— Certo — disse ele quando ficou claro que eu não iria falar. — Eu começo, então. Só vou comer biscoito de água e sal a partir de agora.

— Engraçadinho.

Ele examinou meu rosto por um instante. Quando voltou a falar, sua voz soou

atipicamente baixa.

— E as coisas lá em casa não têm sido fáceis.

— Como assim?

Ele demorou um minuto para voltar a falar, como se ainda não estivesse certo de que devia continuar.

— É o trabalho. Sabe, antes de levar o tiro, eu não tinha medo de nada. Podia

dar conta de qualquer coisa. Acho que me via como um cara durão. Mas, agora, o

que aconteceu está sempre na minha mente.

Tentei não parecer surpresa.

Ele passou a mão no rosto.

— Desde que voltei a trabalhar, percebo que analiso as situações antes de chegarmos… de um jeito diferente, tentando pensar em rotas de fuga, fontes potenciais de perigo. Mesmo quando não há motivo para isso.

— Está com medo?

— É. Eu.

Sam deu um riso seco e fez que não com a cabeça.

— Eles me ofereceram sessões de terapia. Eu sei como essas coisas

funcionam, dos meus tempos no exército. Você conversa sobre o assunto,

entende que é o jeito da sua mente assimilar o que aconteceu. Sei disso tudo.

Mas é desconcertante.

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Eu esperei.

— Por isso foi tão difícil quando Donna saiu… Porque eu sabia que ela sempre cuidaria de mim.

— Mas essa nova parceira vai cuidar de você, certamente. Qual é o nome dela?

— Katie.

— Katie vai cuidar de você. Quer dizer, ela é experiente e vocês são treinados

para cuidar um do outro, certo?

Ele deslizou o olhar em minha direção.

— Você não vai levar outro tiro, Sam. Sei que não vai.

Depois, percebi que era uma coisa estúpida de se dizer. Falei aquilo porque

não conseguia suportar a ideia de vê-lo infeliz. Falei porque queria que fosse verdade.

— Vou ficar bem — disse ele baixinho.

Tive a impressão de que eu o tinha decepcionado. Perguntei a mim mesma havia quanto tempo Sam queria me contar aquilo. Ficamos deitados por um tempo. Corri um dedo pelo seu braço, de leve, tentando pensar no que dizer.

— Você? — murmurou ele.

— Eu o quê?

— Me conte algo que não sei. Sobre você.

Eu ia dizer que ele já sabia todas as coisas importantes. Ia ser o meu “eu”

nova-iorquino, cheio de vida, decidido, impenetrável. Ia dizer algo para fazê-lo

rir. Mas ele me contara sua verdade.

Virei o corpo de frente para ele.

— Tem uma coisa. Mas não quero que isso mude o jeito como você me vê. Se

eu contar.

Ele franziu a testa.

— Foi algo que aconteceu há muito tempo. Mas você me contou uma coisa.

Então vou fazer o mesmo.

Respirei fundo e contei. Contei a história que só tinha contado para Will até

então, um homem que ouvira e então me libertara do poder que aquilo tinha sobre mim. Contei para Sam a história de uma menina que, dez anos antes, tinha bebido e fumado demais, e descoberto na própria pele que só porque um grupo

de garotos vinha de boas famílias não significava que eles eram bons. Contei aquilo com um tom de voz calmo, um pouco distante. Ultimamente, parecia que

não tinha acontecido comigo de verdade. Sam ouviu na quase penumbra, os olhos fixos nos meus, em silêncio.

— É um dos motivos pelos quais vir para Nova York e fazer isso era tão importante para mim. Eu me fechei durante anos, Sam. Disse a mim mesma que

era disso que precisava para me sentir segura. E agora… bem, agora acho que

preciso me desafiar. Preciso saber do que sou capaz se parar de baixar a cabeça.

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Quando terminei, ele ficou em silêncio por um longo tempo, longo o bastante

para que eu me perguntasse se devia mesmo ter contado aquilo. Mas então Sam

estendeu a mão e acariciou meu cabelo.

— Sinto muito — disse ele. — Gostaria de ter estado lá para proteger você.

Gostaria…

— Tudo bem — eu disse. — Foi muito tempo atrás.

— Não está tudo bem.

Ele me puxou para junto de si. Apoiei a cabeça em seu peito, sentindo o batimento regular de seu coração.

— Só não quero que me veja com outros olhos — sussurrei.

— Não tenho como não ver.

Inclinei a cabeça para poder enxergá-lo.

— Acho você ainda mais incrível — disse ele, fechando os braços ao meu redor. — Além de todos os motivos pelos quais eu te amo, você é corajosa e forte, e acaba de me lembrar que… todos nós temos nossos obstáculos. Vou superar o meu. Mas prometo uma coisa a você, Louisa Clark.

Sua voz, quando veio, soou grave e carinhosa.

— Ninguém vai machucar você de novo.

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9

Para: LilyBoba@gmail.com

De: AbelhaAtarefada@gmail.com

Oi, Lily!

Correndo, porque estou digitando isso no metrô (estou sempre correndo nos últimos dias), mas feliz por saber de você. Feliz que tudo esteja indo tão bem na escola, embora você pareça ter tido muita sorte com a história do cigarro. A Sra. Traynor tem razão — seria uma vergonha se você fosse expulsa antes mesmo de fazer as provas.

Mas não vou te dar um sermão. Nova York é incrível. Estou curtindo cada momento. E, sim, seria ótimo se você pudesse vir, mas acho que você teria que ficar em um hotel, então talvez seja melhor falar com seus pais primeiro. Além disso, eu ando muito ocupada porque meu horário com os Gopnik é bem estendido e eu não teria muito tempo para passear.

Sam está bem, obrigada. Não, ele ainda não me deu o fora. Na verdade, ele está aqui bem agora. Vai voltar para casa hoje, mais tarde. Pode falar com ele sobre pegar a moto emprestada quando ele voltar. Acho que é algo para resolverem entre vocês.

Ok... minha estação está chegando. Mande beijos para a Sra. T e diga que estou fazendo as mesmas coisas que seu pai fazia nas cartas (nem todas: não tive nenhum encontro com RPs louras de pernas compridas).

Bjs, Lou

* * *

Meu alarme tocou às seis e meia da manhã, uma microssirene irritante

rompendo o silêncio. Eu tinha que estar de volta na casa dos Gopnik às sete e

meia. Emiti um gemido suave ao estender o braço sobre a mesa de cabeceira e

tateei para desligar o alarme. Eu havia calculado levar quinze minutos para voltar caminhando até o Central Park. Repassei mentalmente uma rápida lista

das tarefas à minha frente, pensando se haveria ainda algum resto de xampu no

banheiro e se seria necessário passar minha blusa.

Sam estendeu o braço e me puxou na direção dele.

— Não vá embora — disse, sonolento.

— Tenho que ir.

O braço dele estava me prendendo no lugar.

— Atrase.

Ele abriu um dos olhos. Seu cheiro era doce e quente, e ele manteve o olhar

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fixo no meu enquanto deslizava lentamente uma perna musculosa e pesada

para cima de mim.

Era impossível rejeitá-lo. Sam estava se sentindo melhor. Bem melhor,

aparentemente.

— Preciso me vestir.

Ele estava beijando minha clavícula, beijos suaves que me faziam estremecer.

Sua boca, suave e concentrada, começou a traçar um caminho descendente. Por

baixo das cobertas, ele olhou para mim e levantou uma das sobrancelhas.

— Eu tinha me esquecido destas cicatrizes. Gosto muito delas.

Ele baixou a cabeça e, me fazendo contorcer, beijou as nervuras prateadas nos meus quadris, fruto da cirurgia, e depois desapareceu.

— Sam, eu preciso ir. Mesmo. — Meus dedos se fecharam em torno da colcha.

— Sam… Sam… Eu... preciso mesmo... eu... aah.

Algum tempo depois, ofegante e com a pele pinicando à medida que o suor

secava, eu estava deitada de bruços, exibindo um sorriso tolo, os músculos doloridos em locais inesperados. Meu cabelo estava espalhado sobre o rosto, mas eu não conseguia reunir energia suficiente para afastá-lo. Uma mecha subia

e descia com minha respiração. Sam estava deitado do meu lado. Sua mão atravessou o lençol, procurando a minha.

— Senti saudade de você — disse ele, mudando de posição e rolando até ficar por cima de mim, me mantendo imóvel. — Louisa Clark — murmurou, e sua voz, inacreditavelmente profunda, ressoou em algum lugar dentro de mim. —

Você mexe muito comigo.

— Acho que foi você que mexeu comigo, tecnicamente falando.

O rosto dele se encheu de ternura. Levantei o rosto para beijá-lo. Era como se

as últimas quarenta e oito horas tivessem se dissolvido. Eu estava no lugar certo, com o homem certo, os braços dele em torno de mim, seu corpo tão bonito e familiar. Deslizei um dedo pela sua bochecha e depois me inclinei para

beijá-lo novamente, devagar.

— Não faça isso de novo — disse ele, os olhos nos meus.

— Por quê?

— Porque aí eu não vou conseguir me controlar e você já está atrasada e não

quero ser responsável por você perder o emprego.

Virei a cabeça para checar o alarme. Pisquei.

— Quinze para as oito? Tá de brincadeira. Como é que já são quinze para as

oito?

Desvencilhei-me do abraço dele, sacudindo os braços, e fui pulando até o banheiro.

— Ai, meu Deus. Estou muito atrasada. Putz. Putz, putz, putz, putz...

Eu entrei e saí do chuveiro tão rápido que possivelmente as gotas nem

sequer entraram em contato com o meu corpo. De volta ao quarto, Sam estava

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de pé e segurava minha roupa para que eu me enfiasse dentro delas.

— Sapatos. Cadê os meus sapatos?

Ele estendeu o par na minha direção.

— Cabelo — disse ele, apontando. — Precisa pentear o cabelo. Está todo...

quer dizer...

— O quê?

— Emaranhado. Sensual. Cabelo de quem-acabou-de-transar. Vou juntar suas

coisas — disse ele.

Quando corri para a porta, ele me agarrou pelo braço e me puxou.

— Ou então, sei lá, você poderia chegar um tiquinho mais atrasada.

— Eu estou atrasada. Muito atrasada.

— É só uma vez. Ela agora é sua nova melhor amiga. Dificilmente vão mandar

você embora.

Ele colocou os braços em volta de mim, me beijou e passou os lábios pela lateral do meu pescoço, me fazendo estremecer.

— E esta é a minha última manhã aqui...

— Sam...

— Cinco minutos.

— Nunca são só cinco minutos. Ah, cara... não acredito que estou falando isso

como se fosse uma coisa ruim.

Ele resmungou de frustração.

— Droga. Eu estou me sentindo bem hoje. Tipo bem mesmo.

— Estou percebendo, pode acreditar.

— Desculpe — disse ele, e emendou: — Não. Não estou nada bem.

Dei um sorriso torto para ele, fechei os olhos e retribuí o beijo, sentindo naquele momento como seria fácil simplesmente cair de novo na Colcha Bordô

da Perdição e me perder novamente.

— Nem eu. Mas encontro você mais tarde.

Consegui me desvencilhar dos seus braços e saí correndo do quarto e pelo corredor, ouvindo Sam gritar “Amo você!”. Pensei que, apesar dos carrapatos em potencial, dos lençóis insalubres e do banheiro com isolamento de som inadequado, na verdade o hotel era de fato muito simpático.

Continuar: parte 5 de 16